O direito de ir e vir

José Horta Manzano

O distinto leitor certamente há de ter notado que o fio que liga passeatas e panelaços de junho de 2013 ao sobressalto deste maio 2018 é o transporte. Tanto as manifestações de cinco anos atrás quanto as greves deste momento partiram do mesmo estopim. Em 2013, o gatilho foi o aumento do preço do bilhete de ônibus. Em 2018, o responsável foi o preço do combustível.

Toda conclusão sobre a coincidência seria filosofia de botequim. Ainda assim, certas verdades são gritantes. O brasileiro, acostumado a passar aperto, sofre calado. Suporta muita míngua e, ingênuo, continua votando nos dirigentes que estão na raiz da penúria que o castiga. Aguenta violência, corrupção, salário baixo, poluição, sol saariano, fila no banco, fila na loja, fila no posto de saúde, fila no estádio, fila no ponto de ônibus, fila no restaurante. Mas que não entravem seu direito de ir e vir!

Se a livre circulação não for o direito mais importante na visão do brasileiro, parece estar entre os primeiros. Desde sempre, o transporte tem deixado a todos um gosto de quero mais. O insuportável inchaço das megalópoles brasileiras é obra da dificuldade de locomoção. Se fosse mais fácil e rápido deslocar-se, o crescimento urbano teria seguido outro modelo.

Opções históricas equivocadas fizeram que fosse dada absoluta preferência a ônibus e automóveis em detrimento de metrô. A circulação de superfície, entravada, tornou o deslocamento dentro das cidades um inferno. Alguns chegam a gastar quatro horas por dia para chegar ao trabalho e voltar ‒ um despropósito.

O transporte é ponto de tensão, esticado como corda de violino. Qualquer investida contra a precária estabilidade da estrutura de locomoção do brasileiro tende a transformar-se em estopim. No final, pode até derrubar governo, como já aconteceu.

Reflexões sobre a greve

José Horta Manzano

Toda decisão governamental, correta ou equivocada, acaba por acarretar efeito a longo prazo. Estamos sentindo hoje a repercussão de escolhas feitas semana passada. Mas estão aí também as consequências de decisões antigas. Alguns desastres atuais são resultado de bombas-relógio armadas meio século atrás.

Os anos em que a República foi presidida por Juscelino Kubitschek foram de grandes transformações. Com euforia, os brasileiros vislumbravam um Brasil novo, de progresso e bem-estar. Brasília foi construída em prazo curtíssimo ‒ um assombro. O futuro parecia estar chegando e se apresentava brilhante.

A indústria automobilística se instalou em território nacional. Nas cidades e nas toscas estradas, começaram a rodar dekavês que estalavam feito pipoca, fusquinhas esquisitos com motor atrás, simcas elegantes e cobiçados. E os caminhões fenemê, então! Um dos símbolos fortes da pujança da terra descoberta por Cabral!

Com orgulho, o Brasil se jogou de corpo e alma no transporte rodoviário, deixando pra trás os caminhos de ferro. Que coisa mais antiquada, gente! Trem de ferro, trenzinho do caipira, maria-fumaça ‒ a etiqueta de meio de transporte ultrapassado colou na ferrovia. Ninguém reclamou quando, em poucos anos, a rede ferroviária foi desmantelada. O mato cresceu entre os trilhos e as estações viraram ruína.

Essa visão maniqueísta, que opõe rodovia a ferrovia, foi muito nociva. Passados cinquenta anos, o Brasil sofre as consequências de uma decisão desastrada, tomada sob forte pressão do lobby das montadoras. É verdade que ninguém podia prever as crises petroleiras nem os reclamos da ecologia, que estavam por vir. São elementos que entraram em nossa vida sem pedir licença. Que fazer?

No fundo, o trem não era tão antiquado como pareceu aos governantes dos anos 1960. Países mais atinados continuaram a investir no aperfeiçoamento das estradas de ferro. Vieram trens de superior desempenho, com boa velocidade, climatização, vedação sonora. As linhas foram totalmente eletrificadas. Apareceu o trem-bala, que, em percursos de até 500-700km, faz concorrência ao avião.

Chamada Estadão, 28 maio 2018

Com o perdão da expressão, o Brasil perdeu o bonde. Dormiu no ponto. Mas nunca é tarde demais pra consertar. Quem sabe um governo mais alerta dê os incentivos necessários pra retomar a implantação de ferrovias. Embora não venham imediatamente, os resultados serão pra lá de benéficos. Nossos netos não verão um país paralisado por greve de caminhoneiros.

Os primeiros candidatos

José Horta Manzano

Uma estação de rádio de São Paulo que costumo escutar dispôs-se a sabatinar os (pré-)candidatos à presidência da República. Esta semana, começou com dois deles. Concedeu uma hora a cada um, para responder à perguntas que lhe faziam três ou quatro entrevistadores no estúdio.

Pelo desempenho dos candidatos, podemos tocar a sirene, que temos aí desastre anunciado. E com data marcada para começar: primeiro de janeiro do ano que vem.

Os dois primeiros entrevistados, doutores Bolsonaro e Boulos, deixaram uma triste impressão de despreparo. Pior, não demonstraram capacidade nem abertura de espírito propensa ao aprendizado.

Jair Bolsonaro
by João Bosco Jacó de Azevedo (1961-), desenhista paraense

Doutor Bolsonaro parece boa gente, mas isso não basta pra ser bom presidente. O homem não tem a menor noção das grandes linhas mestras que alicerçam o país, a começar pela economia. Falta-lhe jogo de cintura. Qualquer entrevistador, por mais primitivo que seja, consegue encurralá-lo e deixá-lo embaraçado e sem palavras.

Embora tenha abandonado a carreira há mais de 30 anos, a cada dez palavras ele repete que é militar, o que deve lhe parecer de capital importância. Acredita que os complexos problemas do país hão de se resolver num estalar de dedos ‒ por pura magia ou pela força do pensamento ‒ assim que ele assumir a presidência. Está mais pra iluminado do que pra dirigente sensato. Com ele na presidência, daríamos um pulo no escuro.

Guilherme Boulos

Doutor Boulos é muito diferente. Tem um lustro de cultura que lhe confere certa fluência de linguagem. Articula e exprime corretamente as ideias. Infelizmente, essa faculdade não é de grande valia. O homem tem monomania. Embora jovem, tem os pés fincados nos anos 1960.

Com ele na presidência, o caminho do país seria convulso: enfrentamentos, luta de classes, restrições à propriedade privada, presença invadente do Estado na vida das gentes. Uma cartilha ultrapassada, que se mostrou inadequada e que faleceu com o desmoronamento da União Soviética, trinta anos atrás. A concretizar as ideias do moço, não se vislumbra um Brasil melhor.

Não conheço ainda o programa dos demais (pré-)candidatos. É bom que seja melhor do que o desses dois, senão, o Brasil está bem-arrumado.

Bolsonaro
O sobrenome Bolsonaro é provavelmente transcrição errônea do original Bolzonaro. Na Itália, menos de cem famílias têm esse raro nome. A hipótese mais provável é que derive de Bolzano Vicentino, um vilarejo situado a poucos quilômetros de Vicenza, região do Vêneto, Itália. O patriarca que deu nome à estirpe devia ser originário desse burgo.

Boulos
Boulos é a forma árabe do nome Paulo, usado aqui como sobrenome. A transliteração varia conforme a língua de destino: Bulus, Bulos, Boolos, Boulus, Boulos são algumas das variantes. Dado que a língua árabe não conta com o som P, ele vem sempre transcrito como B. Boulos é a transcrição francesa. Deve ser pronunciado «Bulos». Esse nome de família, usado no Oriente Médio, denota origem cristã.

Mal-informados

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 maio 2018.

A percepção que se tem de um personagem pode variar dependendo do ponto a partir do qual se observa. O fenômeno é especialmente sensível na área política. Um figurão adorado e incensado no próprio país pode ser visto com muita reserva e até com prevenção por quem está fora. Inversamente, o medalhão mal-amado na própria pátria é às vezes festejado no estrangeiro.

Um bom exemplo é Mikhail Gorbatchov, o último czar soviético. As efusivas manifestações de que foi alvo, na virada da década de 80 para a de 90, de tão intensas, receberam até nome próprio: gorbymania. Visto como artífice da paz mundial, o homem era aclamado, por onde passasse, por multidões entusiasmadas. Enquanto isso, os cidadãos soviéticos lançavam ao personagem um olhar pra lá de crítico. Sua popularidade no exterior não se repetia no interior das fronteiras. Até hoje, passados trinta anos, enquanto o Ocidente guarda inabalável ternura por Gorbatchov, muito russo ainda pragueja contra aquele que pôs abaixo o “Ancien Régime”.

Mikhail Gorbatchov

Na polaridade inversa, bom exemplo é Donald Trump, o polêmico presidente dos EUA. No exterior, é perscrutado com desconfiança unânime. Nunca se sabe qual será a bravata seguinte. Ao redor do planeta, todos temem ser incomodados pela próxima tempestade provocada pela Casa Branca. Já para os que vivem dentro das fronteiras americanas, o diabo não é tão feio assim. Boa parte do eleitorado abomina, sem dúvida, o figurão. Mas seus fiéis, os que lhe garantiram a vitória, não se decepcionaram. Na hora agá, o homem se revela excelente tenista: rebate, um a um, os escândalos de que é acusado. Todas as denúncias resvalam e nenhuma consegue derrubá-lo. O homem tem ainda três anos de mandato pela frente, mas é de crer que, no final, se reeleja. E com folga.

Essa dualidade de apreciações está se manifestando em nossas plagas. Lula da Silva, como sabemos, já foi dono de popularidade imperial. A crer nas sondagens, ao deixar a presidência recebia aprovação de oito em dez brasileiros. Por infelicidade, de lá pra cá o Brasil virou país do assombro. Nos anos recentes, não tem passado uma semana sem revelação de novos escândalos de corrupção. O partido que Lula da Silva ajudou a fundar trinta anos atrás ‒ e que prometia purificar o cenário político ‒ foi decapitado. Sua cúpula está atrás das grades, condenada por fatos de corrupção.

Donald Trump

Os brasileiros acompanharam a derrocada, em colheradas diárias servidas ao molho do desgosto. Atônitos, nos demos conta de ter sido vítimas de assalto monstruoso, covarde e prolongado. O pão dos pobres ficou mais duro e o leite das criancinhas, mais ralo. Manifestamos nossa indignação, defenestramos uma presidente problemática e conseguimos que, ao fim de muito vaivém, o rigor da lei despencasse sobre o ex-presidente. Já vão longe os tempos em que ele surfava sobre oitenta por cento de admiradores. Pelo menos cinquenta já debandaram, deixando ao figurão magros trinta porcento de irredutíveis. O antigo líder é hoje rejeitado por dois em três brasileiros.

No entanto, no exterior ‒ com ênfase na Europa ‒ a percepção de Lula da Silva não parece ter-se deteriorado. Volta e meia, um reclamo se alevanta contra sua prisão. Vozes ousadas desacatam o Estado brasileiro e desdenham nosso ordenamento jurídico. Homens políticos simpáticos ao ex-presidente exigem que justiça seja desfeita, que Lula seja absolvido e que lhe seja permitido concorrer à presidência. Como explicar tamanha discrepância entre o juízo interno e o externo?

Lula da Silva

Via de regra, os protestos são exprimidos por líderes socialistas. Acossado pelo populismo, o movimento socialista europeu luta para não se extinguir. Lula da Silva, aquele que um dia foi chamado «o cara», evoca, na memória coletiva do Velho Mundo, um modo socialista de governar. A conclusão é fácil: ele serve de tábua de salvação para políticos que perderam a aura.

Um dos mais incisivos é señor Zapatero, aquele que foi um dia primeiro-ministro da Espanha. Intercede com ímpeto pela libertação de Lula da Silva. Pois é esse mesmo senhor que, atuando como observador das recentes eleições venezuelanas, afiançou a lisura do processo. Precisa dizer mais?

A culpa não é de Trump

José Horta Manzano

Quem tiver acompanhado os recentes caprichos cometidos pela dupla Kim Jong-un e Donald Trump deve andar meio tonto. Faz apenas alguns meses, o mundo estava apavorado com a perspectiva de guerra iminente entre a Coreia do Norte e os EUA. A troca de farpas entre os dois dirigentes parecia coisa de criança travessa na hora do recreio. Só que ambos têm botão nuclear à disposição ‒ pouco importa se o de um é bem maior que o do outro.

De repente, o horizonte se desanuviou. Os dois passaram a jogar beijinhos mútuos. Prometeram reunir-se em breve e até marcaram lugar e data: 12 de junho, em Singapura. O mundo suspirou aliviado.

A despeito da cúpula anunciada, o misterioso ditador norte-coreano continuou a atirar pedrinhas no presidente americano. Este, que não tem sangue de barata nem costuma guardar a língua no bolso, resolveu acabar com a brincadeira: cancelou a cimeira. O planeta aguarda, aflito, o próximo capítulo.

Principais bases militares dos EUA instaladas em território sul-coreano

Vamos refletir um pouco pra entender, em grandes pinceladas, a situação. Quem dá uma olhada no mapa da região se dá conta de que a Coreia do Norte age como estado tampão entre a grande China e a Coreia do Sul. É importante saber que o território sul-coreano abriga nada menos que 15 bases militares americanas.

Tudo o que a China não deseja é ver a Coreia do Norte ingressar na zona de influência dos EUA. Se isso acontecesse, Pequim passaria a ter a incômoda presença da força militar americana às suas portas ‒ uma situação insuportável. Isso explica por que a China tem garantido apoio ao país do ditador Kim que, sem isso, já teria desmoronado.

O que está por detrás das palavras malcriadas que Kim Jong-un dirigiu a Trump dificilmente será divulgado. É permitido imaginar que a China tenha lançado um ultimatum ao ditador. Algo do tipo: “Ou vocês acabam imediatamente com esse namoro com os EUA ou vamos ter aqui uma conversinha séria”.

Não acredito que o namoro vingue. Ainda hão de passar muitos anos antes de uma cúpula reunir presidente americano e ditador norte-coreano.

Os trancos e os barrancos

José Horta Manzano

A etimologia é ciência fascinante e curiosa. Fascinante porque acompanha a evolução de palavras ao longo de um percurso, às vezes tortuoso, que pode remontar a passado longínquo. Curiosa porque, quando falta comprovação escrita, dá margem a suposições por vezes ousadas.

Quando um termo encontra equivalente em latim, não há muito que discutir. Já quando a palavra escapa ao léxico latino e ao germânico, a falta de documentos dificulta o estudo. Volta e meia, aparece nova explicação assaz fantasiosa que, por falta de coisa melhor, acaba aceita como verdade bíblica.

Sem querer contradizer ninguém, relato o que li estes dias e que me deixou com um pé atrás. Um homem pra lá de erudito, doutor em Filologia Semítica, tornou-se membro, estes dias, da respeitável RAE ‒ Real Academia Espanhola.

O filólogo apresentou nova explicação para a origem de algumas expressões da língua espanhola. Nenhuma delas tem correspondente em português, com exceção de uma: a trancas y barrancas, a forma castelhana de nossa conhecida aos trancos e barrancos.

Qualquer dicionário informa que tanto tranco quanto barranco são consideradas pré-romanas, ou seja, vozes que já faziam parte da língua antes da chegada das tropas romanas à Península Ibérica. O acadêmico garante que a expressão nada tem a ver com trancos e muito menos com barrancos. Segundo ele, vem do árabe atrakkán barrámka que significa “procura um lugar com a égua para defender-te de vários atacantes simultâneos”.

Não falo árabe. Mas tiro o chapéu para o excepcional espírito sintético de uma língua que, com apenas duas palavras, consegue dizer “procura um lugar com a égua para defender-te de vários atacantes simultâneos”. Parabéns!

Entre quatro paredes

José Horta Manzano

Uma diferença essencial entre parlamento e tribunal colegiado tem sido descurada em nossa República. Nosso arcabouço institucional estipula que o parlamento é lugar de decisões debatidas em público, enquanto o tribunal é lugar de decisões colegiadas.

Deputados e senadores discursam, pedem e concedem apartes, cortam excessos, acrescentam pontos, burilam até chegarem a uma decisão. Cada parlamentar cumpre o mandato que lhe foi confiado e dá voz aos cidadãos que o elegeram. Todo o processo se passa em público, ao vivo e em cores. A entrada é franqueada a quem quiser assistir.

Tribunal é outra coisa. Lá as discussões e a busca do consenso não são feitas em público. De uma decisão colegiada, não se deve exibir o placar. Não cai bem dizer que o resultado foi de «5 a 4» ou de «7 a 2». Não é jogo de futebol. No máximo, se for absolutamente necessário, poderia ser anunciado que a decisão foi tomada por unanimidade ou por maioria. E pronto.

Ainda que isso possa chocar algum leitor, sou contra a publicidade dos julgamentos no STF. Aquilo não é um lugar de debates públicos, não é o parlamento. Os debates teriam de ser sempre internos, travados entre quatro paredes. O distinto público deveria apenas tomar conhecimento do resultado, sem individualização do voto ‒ exatamente como ocorre num tribunal do júri, onde ninguém fica sabendo como cada jurado votou.

Discussões a portas fechadas evitariam o triste espetáculo que Suas Excelências dão, ao saber que estão «passando na televisão». Os pedidos de vista, rematado absurdo, desapareceriam ‒ o que seria excelente.

Uma reformulação do modo de debater e de decidir do STF seria boa coisa. Primeiramente, para os próprios ministros, que ficariam menos expostos à vindicação pública. Segundamente, faria bem ao Brasil.

Caiu do mapa

José Horta Manzano

Com apenas 37 anos de idade, Jacinda Ardern ocupa o cargo de primeira-ministra da Nova Zelândia, o posto mais importante do Executivo. Inscreve-se na atual onda de renovação política que alcança numerosos países. Ms Ardern faz companhia ao canadense Justin Trudeau (46 anos), ao francês Emmanuel Macron (40 anos), ao austríaco Sebastian Kurz (31 anos). E até ao norte-coreano Kim Jong-un, que se supõe ter 34 anos.

Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia

Políticos jovens podem não ter ainda a experiência de velhas raposas, em compensação, são mais abertos a modernidades. Estão mais sintonizados com o mundo atual. A dirigente neo-zelandesa acaba de dar mostra disso.

Apesar de ter o dobro da superfície da Grécia e de ser até maior do que o Reino Unido, a Nova Zelândia não aparece em alguns mapas. O fenômeno deve-se ao fato de, em nossa habitual representação do mundo ‒ com a África no centro ‒, o país ficar no canto inferior direito. Algum cartógrafo distraído pode até esquecer de desenhá-lo.

Valendo-se desse pretexto, a primeira-ministra aparece num vídeo de dois minutos e meio que visa a reforçar a imagem turística do país. O enredo é divertido. Descobre-se que a Nova Zelândia, vítima de uma conspiração, está desaparecendo dos mapas. Vêm aí as conjecturas. Será a Austrália que tenta ficar com todos os turistas? Ou quem sabe a Inglaterra quer se apoderar da equipe nacional de rugby ‒ a melhor do mundo? Talvez seja a França que se empenha em ficar com os vinhos da Nova Zelândia?

O intuito é realmente promover a vinda de visitantes. O responsável pelo turismo explica que o país é maior que a Alemanha, tem um lago do tamanho de Singapura, uma cadeia de montanhas maior que os Alpes, e litoral mais extenso que o da Califórnia. A campanha foi bolada a partir do dia em que se deram conta de que o mapa exposto num Starbucks dos EUA omitia a Nova Zelândia.

Cada um por si

José Horta Manzano

Saiu hoje a notícia fresquinha: acompanhando os EUA, o Paraguai decidiu transferir sua embaixada em Israel para Jerusalém. As novas instalações devem ser inauguradas hoje, com a presença de Horacio Cartes, presidente do Paraguai. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, também assistirá ao evento.

Há quem se alegre com o fato de os Estados Unidos terem transferido a embaixada para Jerusalém, reconhecendo assim, de facto, que a cidade é a capital de Israel. Há também quem rejeite a decisão americana. Todos terão bons argumentos. Até aí, tudo bem.

O que mais me perturba nessa história não é tanto os EUA terem tomado a atitude polêmica. O que me incomoda de verdade é ver o Paraguai, um dos quatro sócios do Mercosul, tomando unilateralmente uma decisão desse quilate.

Cada um é dono de seu nariz. Ninguém pode tolher do país vizinho a liberdade de plantar embaixada onde bem entender. Só que tem um detalhe: quando se faz parte de uma sociedade, convém combinar com os sócios antes de se posicionar em assuntos internacionais.

Ninguém imagina um dos membros da União Europeia tomar esse tipo de iniciativa ‒ está fora de cogitação. Por que, então, no Mercosul pode?

Se o objetivo for desbotar a imagem e enfraquecer a coesão do (já debilitado) bloco, o Paraguai ajudou a dar um grande passo.

O limite das leis

José Horta Manzano

A vida nos reserva surpresas a cada esquina. Volta e meia, esbarra-se em situação rara, inusitada e não prevista pela legislação.

Condenado por matricídio tem direito a saída da prisão no Dia das Mães?
A lei não previu o caso.

Encarcerado pode continuar exercendo cargo público?
A lei não previu o caso.

Presidente da Câmara que, na ausência do presidente da República, assumir temporariamente a presidência rompe o período de abstinência chamado “desincompatibilização”?
A lei não previu o caso.

Estes dias, apareceu mais uma pérola pra garnir a (vasta) coleção de casos não previstos pela lei. Por determinação de um juiz de primeira instância, Lula da Silva foi privado dos assessores, motoristas e seguranças a que tem direito como ex-presidente. Até o carro oficial lhe foi retirado. O condenado não gostou e mandou sua tropa de advogados espernear.

O problema é cabeludo. Todo indivíduo de bom senso há de conceder que é bizarro um presidiário ter o gozo de oito assessores mais carro oficial. Além de supérfluos, esses penduricalhos ‒ pagos por nós ‒ atentam contra a moralidade. No entanto…

No entanto, são de lei. Nem em pesadelo o legislador teria podido imaginar que um ex-presidente viesse a ser condenado. Se a lei silencia sobre cassação de regalias a ex-presidente encarcerado, não cabe a um juiz, de sua iniciativa, acrescentar-lhe um artigo.

Como ser pensante, concordo que a concessão de tais regalias a quem está atrás das grades é ilógica, bizarra e imoral. Mas discordo da iniciativa do juiz. Se for permitido a cada um dos milhares de magistrados do país acrescentar artigos a leis, estará aberta a temporada da ilegalidade legalizada.

Quem faz as leis é o Poder Legislativo. Somente a ele cabe fazê-las, modificá-las e revogá-las. Juiz limita-se a aplicar a lei.

Nosso problema é mais amplo. Vivemos tempos estanhos, como já diagnosticou, aliás, doutor Gilmar Mendes. Comportamentos estranhos estão roçando o limite das leis. A corda anda esticada. Corda esticada demais, como se sabe, acaba arrebentando.

Golpe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sete e meia da manhã, toca o telefone. Atendo já um pouco apreensiva, pensando em quem poderia estar chamando àquela hora. Do outro lado, uma voz chorosa implora: “Mãe, me ajuda, mãe!”

Senti pela primeira vez o impulso de estender a mão àquela desconhecida, mas não disse nada. A voz desesperada da filha que eu nunca tive exigia de mim uma escuta terapêutica. Pareceu-me mais sábio apenas esperar pelo restante do discurso de praxe: “Mãe, fui sequestrada. Eles estão querendo me matar se você não der o que eles querem. Por favor, mãe, não desligue nem avise a polícia…”

Não aconteceu. Aparentemente ‒ refleti ‒ meu silêncio desarticulou a cabeça da moça. Sem saber ao certo como prosseguir, depois de uns segundos de hesitação, ela repetiu o pedido de ajuda, só colocando um pouco mais de ênfase na sua pretensa postura de fragilização: “Mãe, mãe…por favor, me ajuda, mãe!!!”

Senti uma onda de ternura tomar conta de mim. Afinal, aquela moça estava mesmo claramente necessitada de orientação materna. Era evidente que ela nunca tivera alguém que a aconselhasse, que lhe desse colo e a levasse a sério pelo menos uma vez na vida. Seria eu esse alguém?

Na dúvida, permaneci em silêncio. Mesmo assim, nas entrelinhas do mais absoluto mutismo, eu lhe disse tantas coisas… Falei da dor da impotência de toda mãe de não ser capaz de moldar o caráter dos filhos de acordo com seus valores mais caros. Repeti a cantilena religiosa de que, depois do pecado original, estamos todos condenados a ganhar a vida com o suor de nossos corpos. Perguntei por quais circunstâncias do destino ela escolhera recorrer a tramoias para sobreviver. Sem julgá-la, afirmei convicta que, em última instância, ela precisava ajudar a si mesma a encontrar o caminho do bem.

Não adiantou, ela não escutou minha maternagem silenciosa. Fez pouco do meu aconselhamento, não reconheceu o desabrochar tardio do meu instinto materno. Pena, eu já estava até gostando de estar em posição de orientar uma mulher adulta, sem ter tido o trabalho de amamentar, trocar fraldas, consolar nos tombos, encorajar as aventuras, educar, compartilhar segredos femininos.

A moça, infelizmente, não agarrou a oportunidade tão inusitada que eu lhe dava de personalizar o golpe, de demonstrar criatividade para, quem sabe, inaugurar uma nova franquia de crime. Continuou repetindo mecanicamente seu pedido de ajuda, como um disco quebrado. Comecei a me irritar. Parece que os jovens de hoje em dia, disse para meus botões, continuam a acreditar que envelhecimento é sinônimo de emburrecimento, lentidão de raciocínio, perda de iniciativa e de noção de lógica.

Aos poucos, fui esmorecendo na decisão de oferecer-lhe suporte. Começava a ficar claro que a hora da doutrinação tinha passado. O caráter da moça estava irremediavelmente formado, para o bem e para o mal. ‘Respeito não se exige, conquista-se’, repeti para mim mesma.

Desliguei.

Dentro de mim, no entanto, o diálogo mudo prosseguiu. Uma sensação amarga de tristeza subiu-me pela garganta. É que, inadvertidamente, ao tentar ajudar uma filha hipotética, eu acabei me dando conta de que meu tempo de gestação de rebentos à minha imagem e semelhança terminara.

Não dê muita importância a isso, a maternidade nunca foi mesmo para você ‒ consolei-me.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Política de cotas à inglesa

José Horta Manzano

Com tantos reis e rainhas espalhados pelo mundo, é difícil entender a razão pela qual a realeza britânica fascina tanto. Qualquer fato ligado à família real é bom pra animar a mídia : um nascimento, uma separação, um discurso da rainha, um casamento. Falando em casamento, temos um este fim de semana.

Um dos netos da rainha Elizabeth vai se casar com uma jovem americana. A moça, apresentada como «negra», é na verdade mestiça, mulata clara. Tem 50% de sangue negro e 50% de sangue branco. Se não se pode dizer que é branca, tampouco se deve dizer que é negra. Não vejo por que uma das metades anularia a outra.

Abdicação de Eduardo VIII, em 1936

União fora dos padrões, na Inglaterra pudibunda do século 19, seria inimaginável. E olhe que nem precisa ir muito longe no tempo. Nos anos 1930, o rei Eduardo VIII foi forçado a abdicar o trono por insistir em se casar com uma mulher divorciada ‒ americana, por sinal. Hoje, passados oitenta anos, Charles, filho da rainha e herdeiro da coroa, divorciou-se da primeira esposa e está casado com Camila, uma divorciada. E tudo bem.

A entrada de uma mestiça na realeza inglesa vem a calhar. É de lembrar que 8% dos habitantes do reino são de origem asiática, negra ou mestiça. A futura princesa quebra a tradição de uma família real exclusivamente branca. Faz bem à imagem do país, donde a aprovação geral.

O casamento deverá ser acompanhado, pela televisão, por dois bilhões de terráqueos, uma enormidade. Cem mil turistas são esperados em Londres. Calcula-se que a venda de souvenirs e o comércio diretamente ligado ao evento movimentarão 600 milhões de euros ‒ uma bênção para uma economia castigada pelo Brexit. As bodas são excelente operação comercial, benéfica para todos.

Carl XVI Gustaf e Sylvia, reis da Suécia

Nem todos os brasileiros sabem, mas Sylvia, a rainha da Suécia, é brasileira. Filha de pai alemão e mãe brasileira, nasceu na Alemanha mas cresceu no Brasil dos 4 aos 14 anos de idade. Tem duas línguas maternas: português e alemão. Fala nossa língua como qualquer um de nós.

Apesar dessa proximidade, ninguém se interessa pelos fatos e gestos da família real sueca. Não se ouve notícia, não se publicam fotos, não se lê nada. Enquanto isso, basta um espirro da realeza londrina para a mídia se assanhar. Enfim, que é que se há de fazer? Así nos están saliendo las cosas.

Bebeu, pagou

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Suíça, o sentimento de cidadania é palpável. Desde a infância, todos aprendem que pertencem a uma comunidade e que devem seguir as regras indispensáveis para conviver em harmonia. Diferentemente do que ocorre no Brasil, as leis se aplicam a todos os cidadãos, sem exceção nenhuma. Particularidades como cela especial ou foro privilegiado são inconcebíveis para um suíço.

Como em todo o mundo, os jovens às vezes se excedem. Em bares ou festas, especialmente em fins de semana, alguns exageram na bebida e acabam dando trabalho. As delegacias de polícia do país têm uma cela reservada para esse tipo de ocorrência. É chamada «cela para recuperar a sobriedade».

Toda pessoa encaminhada a essa cela permanece lá até voltar ao estado normal. Ao sair, receberá conta cujo valor pode variar conforme o cantão. Em Genebra, são 300 francos suíços (R$ 1100). O cálculo corresponde a uma hora de trabalho de dois policiais. O raciocínio é que o contribuinte não deve arcar com o custo de comportamentos problemáticos. O pagamento da despesa cabe a quem causou o problema ‒ uma lógica aceita por todos.

Em casos extremos, se o comportamento escandaloso daquele que bebeu demais tiver causado incômodo a moradores ou transeuntes, ele receberá multa de 300 francos por perturbação da ordem e da tranquilidade.

Como no Brasil, a polícia faz batidas pra medir a taxa de alcoolemia de motoristas. Costuma parar veículos aleatoriamente e mandar o condutor soprar no bafômetro. Se o teste der negativo, é «merci et au revoir» ‒ obrigado e até logo. Já se der positivo, é apreensão da carteira, imobilização do veículo e multa pesada. Com uma peculiaridade: além da multa, o motorista imprudente terá de pagar a despesa do teste de bafômetro. O preço é 100 francos (R$ 370).

Mais vale pensar duas vezes antes do primeiro trago.