Mais uma boçalidade

José Horta Manzano

A mais recente boçalidade presidencial – (deixe escrever depressa, antes que ele cometa mais uma e esta aqui deixe de ser a última) – a mais recente, dizia eu, é a ameaça que fez a um repórter que lhe cobrava esclarecimentos sobre dinheiro suspeito depositado na conta da primeira-dama.

No mais puro estilo valentão de Xiririca, rosnou que queria quebrar a cara do jornalista atrevido. Cá entre nós, é moleza chamar alguém para a briga, quando se está rodeado de seguranças, cada um medindo dois por dois. Assim, até eu.

Sabe-se que cão que ladra não morde. Queria ver o presidente em campo aberto, sozinho, desarmado, só com o jornalista em frente. Vai que o atrevido é campeão de caratê, nunca se sabe. Queria ver se não afinava.

Jornais, tevês, plataformas, blogues e outros sites por onde passei comentaram a notícia. Imensa maioria disse algo como: «Ao ser perguntado sobre os depósitos na conta da primeira-dama (…)».

Ao ser perguntado? Bobeou que escreveu isso. É tentador dizer «Fulano foi perguntado sobre» ou «Na prova, os alunos foram perguntados se (…)». Mas a norma culta condena. O uso da voz passiva só é possível em presença de verbo transitivo direto. Assim:

O menino viu o livro.
O livro foi visto pelo menino.

A moça leva a sacola.
A sacola é levada pela moça.

O Congresso vai aprovar a lei.
A lei será aprovada pelo Congresso.

O problema é que, na acepção de pedir informação, o verbo perguntar não é transitivo direto. Portanto, nada de utilizá-lo na voz passiva.

Há diversas maneiras de dizer a mesma coisa sem atentar contra a norma culta. Esqueça o «ele foi perguntado». Use outro verbo. Aqui estão alguns:

indagar
interrogar
inquirir
questionar
interpelar
sondar
investigar
(há outros).

Cada um tem sua nuance. Procure o que melhor exprime o que você quer dizer. Todos os que mencionei são transitivos diretos, o que significa que podem ser usados na voz passiva.

Projeto reprovado

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 11 nov° 2018

Não foram dois projetos que o nobre deputado «aprovou» ‒ foi nenhum. Nem que tivesse passado 20, 30 ou 40 anos na Câmara, doutor Lorenzoni teria conseguido «aprovar» algum projeto. E por quê?

Porque não cabe a ele aprovar projetos. Quem aprova é a Câmara, não o solitário deputado. O conjunto de deputados que compõem a Câmara se reúnem, votam e aprovam (ou reprovam) cada projeto. A frase que aparece na chamada do jornal tem de ser revista. Há várias possibilidades.

  • Onyx Lorenzoni: em 16 anos, a Câmara só aprovou dois projetos seus
  • Em 16 anos de Câmara, só dois projetos de Onyx Lorenzoni foram aprovados.

E assim por diante.

Já que estamos no assunto, é interessante lembrar também que quem reprova é o professor, não o aluno. Assim, não se deve dizer que «Pedrinho reprovou». Melhor será dizer que «Pedrinho foi reprovado». Paciência. Para a próxima, Pedrinho vai estudar mais.

Novilíngua ‒ 4

José Horta Manzano

Outro dia, o jornal contava a tristemente corriqueira história de um assalto. Estava lá, literalmente: «uma professora de 40 anos foi agredida e ‘teve o celular roubado’». Como se não bastasse, completavam: «teve a cara socada».

Ter a casa assaltada, ter o mandato cassado, ter a entrada proibida, ter a eletricidade cortada, ter a multa anulada, ter a candidatura negada, ter a carteira suspensa, ter a autorização prorrogada, ter o visto cancelado. Está aí uma coleção de expressões que se ouvem diariamente.

Errado, propriamente, não é, que cada um fala como lhe apetece. Mas soa esquisito. O uso do verbo ter + particípio passado para informar que o sujeito sofreu ação externa é moda relativamente nova. Foge ao espírito da língua. Até há pouco tempo, não era assim que se falava.

Essa construção, tomada diretamente do inglês, é anglicismo que pode ‒ e, a meu ver, deve ‒ ser evitado. Em português, temos a voz passiva, que dá o recado com elegância e naturalidade.

* Em vez de «ele teve o celular roubado», fica melhor «seu celular foi roubado» ou «o celular dele foi roubado» ou ainda «roubaram-lhe o celular».

* Em vez de «ele teve a entrada negada», fica melhor «sua entrada foi negada» ou «a entrada lhe foi negada» ou ainda «negaram-lhe a entrada».

* Em vez de «ela teve a cara socada», fica melhor «a cara dela foi socada» ou «socaram-lhe a cara».

Concedo que é difícil escapar ao que se ouve o tempo todo. A tendência a reproduzir o que dizem os demais é natural e compreensível. Mas… vamos, gente, um esforçozinho não mata ninguém! Vamos valorizar o que temos. Vale mais que sucumbir à facilidade.

Da próxima vez que o distinto leitor tiver de relatar que alguém sofreu ação externa, lembre-se da voz passiva. Fale sem sotaque.