Golpe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sete e meia da manhã, toca o telefone. Atendo já um pouco apreensiva, pensando em quem poderia estar chamando àquela hora. Do outro lado, uma voz chorosa implora: “Mãe, me ajuda, mãe!”

Senti pela primeira vez o impulso de estender a mão àquela desconhecida, mas não disse nada. A voz desesperada da filha que eu nunca tive exigia de mim uma escuta terapêutica. Pareceu-me mais sábio apenas esperar pelo restante do discurso de praxe: “Mãe, fui sequestrada. Eles estão querendo me matar se você não der o que eles querem. Por favor, mãe, não desligue nem avise a polícia…”

Não aconteceu. Aparentemente ‒ refleti ‒ meu silêncio desarticulou a cabeça da moça. Sem saber ao certo como prosseguir, depois de uns segundos de hesitação, ela repetiu o pedido de ajuda, só colocando um pouco mais de ênfase na sua pretensa postura de fragilização: “Mãe, mãe…por favor, me ajuda, mãe!!!”

Senti uma onda de ternura tomar conta de mim. Afinal, aquela moça estava mesmo claramente necessitada de orientação materna. Era evidente que ela nunca tivera alguém que a aconselhasse, que lhe desse colo e a levasse a sério pelo menos uma vez na vida. Seria eu esse alguém?

Na dúvida, permaneci em silêncio. Mesmo assim, nas entrelinhas do mais absoluto mutismo, eu lhe disse tantas coisas… Falei da dor da impotência de toda mãe de não ser capaz de moldar o caráter dos filhos de acordo com seus valores mais caros. Repeti a cantilena religiosa de que, depois do pecado original, estamos todos condenados a ganhar a vida com o suor de nossos corpos. Perguntei por quais circunstâncias do destino ela escolhera recorrer a tramoias para sobreviver. Sem julgá-la, afirmei convicta que, em última instância, ela precisava ajudar a si mesma a encontrar o caminho do bem.

Não adiantou, ela não escutou minha maternagem silenciosa. Fez pouco do meu aconselhamento, não reconheceu o desabrochar tardio do meu instinto materno. Pena, eu já estava até gostando de estar em posição de orientar uma mulher adulta, sem ter tido o trabalho de amamentar, trocar fraldas, consolar nos tombos, encorajar as aventuras, educar, compartilhar segredos femininos.

A moça, infelizmente, não agarrou a oportunidade tão inusitada que eu lhe dava de personalizar o golpe, de demonstrar criatividade para, quem sabe, inaugurar uma nova franquia de crime. Continuou repetindo mecanicamente seu pedido de ajuda, como um disco quebrado. Comecei a me irritar. Parece que os jovens de hoje em dia, disse para meus botões, continuam a acreditar que envelhecimento é sinônimo de emburrecimento, lentidão de raciocínio, perda de iniciativa e de noção de lógica.

Aos poucos, fui esmorecendo na decisão de oferecer-lhe suporte. Começava a ficar claro que a hora da doutrinação tinha passado. O caráter da moça estava irremediavelmente formado, para o bem e para o mal. ‘Respeito não se exige, conquista-se’, repeti para mim mesma.

Desliguei.

Dentro de mim, no entanto, o diálogo mudo prosseguiu. Uma sensação amarga de tristeza subiu-me pela garganta. É que, inadvertidamente, ao tentar ajudar uma filha hipotética, eu acabei me dando conta de que meu tempo de gestação de rebentos à minha imagem e semelhança terminara.

Não dê muita importância a isso, a maternidade nunca foi mesmo para você ‒ consolei-me.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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