Bebeu, pagou

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Suíça, o sentimento de cidadania é palpável. Desde a infância, todos aprendem que pertencem a uma comunidade e que devem seguir as regras indispensáveis para conviver em harmonia. Diferentemente do que ocorre no Brasil, as leis se aplicam a todos os cidadãos, sem exceção nenhuma. Particularidades como cela especial ou foro privilegiado são inconcebíveis para um suíço.

Como em todo o mundo, os jovens às vezes se excedem. Em bares ou festas, especialmente em fins de semana, alguns exageram na bebida e acabam dando trabalho. As delegacias de polícia do país têm uma cela reservada para esse tipo de ocorrência. É chamada «cela para recuperar a sobriedade».

Toda pessoa encaminhada a essa cela permanece lá até voltar ao estado normal. Ao sair, receberá conta cujo valor pode variar conforme o cantão. Em Genebra, são 300 francos suíços (R$ 1100). O cálculo corresponde a uma hora de trabalho de dois policiais. O raciocínio é que o contribuinte não deve arcar com o custo de comportamentos problemáticos. O pagamento da despesa cabe a quem causou o problema ‒ uma lógica aceita por todos.

Em casos extremos, se o comportamento escandaloso daquele que bebeu demais tiver causado incômodo a moradores ou transeuntes, ele receberá multa de 300 francos por perturbação da ordem e da tranquilidade.

Como no Brasil, a polícia faz batidas pra medir a taxa de alcoolemia de motoristas. Costuma parar veículos aleatoriamente e mandar o condutor soprar no bafômetro. Se o teste der negativo, é «merci et au revoir» ‒ obrigado e até logo. Já se der positivo, é apreensão da carteira, imobilização do veículo e multa pesada. Com uma peculiaridade: além da multa, o motorista imprudente terá de pagar a despesa do teste de bafômetro. O preço é 100 francos (R$ 370).

Mais vale pensar duas vezes antes do primeiro trago.

Palavra certa no lugar certo

José Horta Manzano

Muitas vezes, uma palavra ou expressão pode causar incômodo. Não me refiro a palavrão nem a expressão vulgar. Falo daquele termo que deixa uma sensação de estar fora de lugar, de ser palavra certa no lugar errado.

Na linguagem oral, nem sempre dá tempo de mergulhar ao fundo dos miolos para encontrar a boa expressão. Já quando se escreve, a coisa muda. Dá tempo de pensar e se expressar apropriadamente. É hora de praticar a adequação vocabular.

Termo inadequado não é necessariamente sinônimo de erro. Uso inadequado pode, no limite, até passar adiante a mensagem. Mas, convenhamos, deixa o discurso desgracioso. Se é possível fazer melhor, por que hesitar? Não há nada a perder.

Chamada Estadão
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Bafômetro
O aparelhinho que leva o sugestivo nome de bafômetro mede a concentração de álcool no sangue. A lei brasileira proíbe ao motorista dirigir com mais de 0,6g de álcool por litro de sangue. Dependendo da corpulência da pessoa, a mesma quantidade de bebida alcoólica não faz efeito idêntico. A ingestão de dois copos de vinho, que não deixará um indivíduo tipo «dois por dois» alterado, pode deixar um magricela trançando as pernas.

Portanto, não é adequado falar em «ingestão de álcool acima do permitido». Previdente, a lei não mede a quantidade ingerida, mas a concentração remanescente no sangue. A expressão utilizada na chamada foi inadequada. Melhor dizer que o teste constatou presença de álcool no sangue superior ao limite legal.

Chamada Estadão
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Sujeito boa-praça
Nem sei se os jovens ainda conhecem essa expressão. Boa-praça se dizia de um indivíduo simpático, sorridente, sempre bem-disposto. De uma pessoa assim, dizem hoje que é «amigável». A mim, soa estranho. Sou do tempo em que esse adjetivo era reservado para definir desquite, divórcio, negociação, trato comercial. Nunca se descrevia pessoa como «amigável». Há de ser contaminação do inglês “friendly”.

No lugar de qualificar o sujeito de «amigável», mais vale dizer que é amistoso, amical, amável, simpático, cordial, gentil. Ou, simplesmente, amigo. A expressão utilizada na chamada soa esquisita.

Chamada Estadão
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Thank you
Pelos serviços que tem prestado ao país, doutor Sergio Moro foi homenageado com um prêmio conferido pela Universidade Notre Dame. Ao receber a honraria, o juiz pronunciou palavras de agradecimento. Na chamada da notícia, o jornal qualificou a fala do magistrado de «discurso de gratidão». Como é que é? Ficou esquisito. A palavra gratidão tem forte carga emocional (e até moral), enquanto agradecimento é gesto de boa educação.

«O acidentado demonstrou gratidão para com o bombeiro que o salvou do incêndio» ‒ é situação em que a palavra cabe perfeitamente. Doutor Moro, que não deve gratidão à universidade que o homenageou, apenas proferiu «discurso de agradecimento». Mostrou que é educado. Educado e esperançoso. Segundo o doutor, «a era dos nossos barões da corrupção está chegando ao fim»

Inxalá!(*)

(*) Inxalá é livre transcrição de interjeição árabe que significa «Queira Deus!». Está na origem de nosso oxalá, de mesmo sentido.

Humor inadequado

José Horta Manzano

Bebida 2Não sei se é permitido entrar no parlamento brasileiro com bebida alcoólica na sacola. Mesmo que seja proibido, difícil será controlar.

O senador paulista José Serra – engenheiro, economista, poliglota – já governou seu estado. A idade, aliada à cultura razoável e ao traquejo conferido por cinquenta anos de política, deveria ter bonificado o personagem.

Todos temos direito a algum deslize, que ninguém é perfeito. No entanto, o que é admissível num bate-papo informal não é tolerável no discurso público de um parlamentar.

Ontem, 9 de junho, o senador criticava a tendência, típica do grupo que nos governa há doze anos, de privilegiar obras faraônicas, o mais das vezes irrealizáveis. Como exemplo, citou a estrambótica ideia do trem-bala, felizmente enterrada. Até aí, nada a assinalar: o parlamentar estava apenas cumprindo seu papel de político de oposição.

O caldo engrossou quando, numa didática tortuosa, senhor Serra citou uma fábula bizarra sobre a descoberta do churrasco pelos chineses, uma historinha sem pé, sem cabeça e sem graça.

by Fabricio Pontes, desenhista paraense

by Fabricio Pontes, desenhista paraense

Mas foi logo em seguida que a coisa desandou de vez. O senador aconselhou ao governo que, para evitar investir 75 bilhões numa estrada de ferro no único intuito de adquirir tecnologia, recorresse ao suborno, ao roubo de informação.

Com esse rasgo patético, Serra desceu ao nível de Paulo Maluf, aquele que já foi governador biônico e está hoje na lista de procurados pela Interpol. Certa vez, criticando o ato de um estuprador que havia assassinado a vítima, Maluf aconselhou: «Tem desejo sexual? Estupra, mas não mata!»

Não estivéssemos atravessando tempos tão bicudos, com escândalos pipocando diariamente, a fala do senador Serra poderia gerar processo de perda de mandato por falta de decoro. No mínimo, merece uma admoestação.

Etilômetro, o popular bafômetro

Etilômetro, o popular bafômetro

O senador perdeu excelente ocasião para criticar a falta de investimento do governo em educação de alto nível. Preferiu argumentação de botequim. É pena. Dizem que a fala foi “irônica”. Brincadeira tem hora e lugar.

Por via das dúvidas, seria conveniente instalar um bafômetro ao lado do púlpito de onde parlamentares discursam. Todos seriam obrigados a passar pelo teste antes de cada pronunciamento.

Rapidinha 17

José Horta Manzano

Flagrante

Não sou jurista. Mas tenho sensibilidade suficientemente aguçada para perceber quando um texto legal é vítima de desvirtuamento. A alcoolemia pode ser detectada de forma simples e instantânea com o uso do bafômetro ― um nome, aliás, divertido e bastante pertinente.

Etilômetro, o popular bafômetro

Etilômetro, o popular bafômetro

Com base no preceito legal de que nenhum cidadão pode ser obrigado a produzir prova contra si mesmo, convencionou-se que o teste não pode ser imposto ao cidadão. Este tem de dar seu acordo explícito. O que se viu no caso do futebolista (e deputado!) Romário foi exatamente nessa linha.

Por estas bandas aqui, a coisa não funciona exatamente assim. Caso um motorista se recuse a soprar no canudo, será conduzido incontinenti ao posto policial mais próximo para que lhe seja retirada uma amostra de sangue. À força, se necessário. Segurança pública não rima com cumplicidade de dissimulação de delito. O interesse da sociedade passa à frente de eventuais comodidades pessoais.

Levando ao extremo o atual entendimento, um suspeito de assassinato por arma de fogo poderia recusar que se lhe examinassem as mãos à procura de resíduos de pólvora. Colher sinais de pólvora nas mãos do suspeito ou recolher seu bafo de onça são procedimentos que, a ver meu, fazem parte da panóplia de todas as forças policiais do mundo. Nenhum cidadão deveria poder se esquivar.

Rapidinha 16

José Horta Manzano

Gente fina pela metade

Saiu no jornal que Romário, o jogador de futebol, foi apanhado numa batida policial. Não consentiu em soprar no bafômetro. Esse tipo de atitude equivale a confissão de culpa. Quem cala, consente. Amargou multa de quase 2 mil reais e está proibido de dirigir veículo automóvel por um ano.

Romário

Romário

Concordo que ninguém é perfeito, todos temos um lado sombrio. Mas esses eleitos deviam tomar mais cuidado que um zé qualquer. Todos aplaudiram quando o antigo profissional do gramado ousou desancar cartolas da Fifa e do comitê que organiza a «Copa das copas».

Desvios de conduta podem até ser tolerados em não-famosos. No entanto, aqueles que chegam aos píncaros da simpatia popular têm de ser mais zelosos. Um escorregão desses pode destruir uma reputação. Eleitor consciente não aprecia ser traído. Memento Demóstenes! ― falo do político goiano, não do estadista ateniense.

Gente fina tem de ser fina por inteiro e o tempo todo.