O leite condensado e o rabo

José Horta Manzano

O pudim de leite de minha avó não levava leite condensado. Preparado com leite, ovos e açúcar, ia ao forno em banho-maria e lá ficava um bom tempo. Dava muito trabalho, mas o resultado era esplêndido, como se dizia na época. Nada a ver com esses pudins melequentos e enjoativos de hoje.

Estive pesquisando sobre a produção de leite condensado no Brasil. Aprendi que teve início nos anos 1920. Mas uma coisa é produzir, outra coisa é vender. Nos arquivos do jornal Folha de São Paulo, a primeira menção a esse produto só aparece, tímida, em 1933. Era então apresentado como alimento para “creanças, doentes e adolescentes”.

Em 1934, é citado mais duas vezes. No ano seguinte, aparece de novo uma vez só. É a prova de que estava ainda longe de se tornar artigo de consumo popular. Acostumadas ao leite fresco, as cozinheiras resistiram um bom tempo antes de adotar o produto enlatado. A difusão do leite condensado entre as donas de casa (é assim que se dizia na época) só ganhou força a partir dos anos 1950.

Na Europa, leite condensado não é produto de grande consumo. Nas raras vezes em que comprei, tive de perguntar pra saber em que gôndola estava escondido. Costuma ser apresentado em dois tipos de embalagem: latinha e tubo (do tamanho do tubo de maionese). Há ainda duas opções: com açúcar e sem. O que não contém açúcar é mais vendido que o adoçado.

A razão é simples. Em princípio, leite condensado é visto como substituto do leite fresco. Para pessoas que gostam de tomar café com pouquíssimo leite, não é interessante comprar leite de caixinha. Vai estragar antes de ser consumido. Esse cliente prefere comprar leite condensado de tubinho. Usa um pouco de cada vez, põe a tampa, e o produto não estraga.

Conforme o país e determinadas características de fabrico, a denominação varia: leite condensado, leite concentrado ou leite evaporado. Na culinária europeia, não é ingrediente constante. Continua sendo visto, não como um produto em si, mas como substituto do leite fresco. Não frequenta os livros de doçaria. É produto para se ter guardado no fundo da prateleira para alguma emergência.

Se, por milagre, minha avó ressuscitasse, havia de levar muitos sustos. Como primeira providência, ela certamente sairia correndo pra comprar um jornal, que sempre foi um hábito diário.

Havia de ficar encantada de encontrar um mundo bem mais colorido do que o que ela conheceu. É verdade que automóveis perderam a cor e se limitam hoje a preto, branco, tons de cinza e algum bordô. Em compensação, os jornais perderam a monotonia do preto e branco e são impressos em cores. A tevê também – que era um chuvisqueiro cinzento – ganhou cores vivas. E as roupas, então! Uma policromia!

No entanto, ele havia de ficar assustada de ver que o Brasil tem agora um presidente que solta palavrão em público. E palavrão pesado, daqueles que, quando aparecem no jornal, vêm com tarja preta.

E havia de ficar abismada de ler, por detrás da tarja acanhada, as palavras presidenciais. E havia de ficar aterrada ao perceber que o presidente sugeriu à imprensa enfiar leite condensado num lugar que, (apesar de ela não captar direito qual poderia ser), intuiu que fosse impublicável. E enfiar com lata e tudo!

Pasma com o desvio de finalidade de um produto que já foi precioso, raro e caro, não tenho dúvida: ela pediria imediatamente pra ser levada de volta ao lugar de onde veio. E remataria em seu mineirês do século 19: «Arre! Este mundo não serve mais pra mim não, gente. Me deixa muito aflita! Ocês, que são brancos, que se entendam. A conversa tá muito boa, mas eu já vou indo.»

Impeachment, impedimento

José Horta Manzano

Pela nossa legislação, qualquer cidadão da República pode solicitar a destituição do presidente da República. O pedido fundamentado de impeachment(*) será acompanhado de provas documentais e mencionará 5 testemunhas. Deve ser apresentado à Câmara Federal, que proverá.

É interessante fazer as contas de quantos pedidos de impeachment foram apresentados contra os seis presidentes que antecederam Bolsonaro. Fiz as contas de quanto tempo cada presidente permaneceu no trono e comparei com os pedidos de destituição que sofreu. O resultado é interessante.

Itamar recebeu
um pedido de impeachment a cada 183 dias

FHC recebeu
um pedido de impeachment a cada 108 dias

Lula recebeu
um pedido de impeachment a cada 79 dias

Collor recebeu
um pedido de impeachment a cada 42 dias

Dilma recebeu
um pedido de impeachment a cada 30 dias

Temer recebeu
um pedido de impeachment a cada 26 dias

e agora, senhoras e senhores, o campeão estourado:

Bolsonaro recebeu
um pedido de impeachment a cada 11 dias!

Como diz Dona Cultura
Todo mal tem sua cura
Água mole em pedra dura

Tanto bate até que fura

Desde tempos antiquíssimos já se sabe que, no final, a insistência sempre acaba vencendo. Apesar da (frágil) barreira representada por cupinchas de circunstância instalados na Câmara, não custa insistir. Pedir o impeachment de Bolsonaro sai de graça e pode render dividendos inestimáveis. Livrar-se do homem não tem preço: vale mais que acertar no milhar. Já preparou seu pedido?

Na origem, o impedimento era feito por meio de um trabelho para entravar os pés e impedir a marcha.

(*) Impeachment é palavra que importamos diretamente do inglês. É substantivo derivado do verbo to impeach. Adotamos com casca e tudo, sem mexer em uma letra sequer.

O inglês importou essa palavra do francês empêcher, lá pelos anos 1300. Na travessia do Canal da Mancha, o verbo sofreu alteração de sentido. Em francês, equivalia a nosso impedir; em inglês, adquiriu o senso de impugnar, incriminar, acusar alguém de crime contra o Estado.

Por seu lado, o francês recebeu o termo do latim medieval impedicare, evolução do latim clássico impedire, que equivale a nosso impedir.

No original latino, o verbo é composto pela partícula in + pes/pedis (=pé). Impedire, na origem, traz a ideia de prender os pés, atravancar, não deixar andar, segurar.

Não é bem o sentido que atribuímos a nosso impeachment nacional. A intenção não é segurar o presidente. O que se quer é o contrário: vê-lo pelas costas. Que corra sem olhar pra trás, vá-se embora pra bem longe e não volte nunca mais.

País medieval

José Horta Manzano

É curioso constatar que o governo dirigido por doutor Bolsonaro nunca atira na direção certa. Se o tiro vem da direita, aponta a arma para a esquerda. E vice-versa. Não está claro se fazem isso de propósito ou se lhes falta senso de orientação. De orientação política e social, entenda-se.

No ano passado, quando governos do mundo inteiro sonhavam com o dia em que poderiam vacinar a população e livrar-se da pandemia, nosso doutor fazia pouco caso e torpedeava toda iniciativa que visasse a encomendar vacina.

Agora, que as vacinas começam a aparecer, ele levou uma trombada. Não sei se captou o anseio da população ou se os filhos o aconselharam, fato é que se tem mostrado menos veemente em sua cruzada antivacina. Mas o homem não dá ponto sem nó. Logo abaixo, veremos como, agora que era hora de gritar e bater o pé, se mantém em silêncio – o silêncio dos que calam e consentem.

No Brasil, a insegurança jurídica impera. Com isso, nunca se sabe se o que vale hoje continuará valendo amanhã. No momento em que escrevo, a Associação Brasileira das Clínicas de Vacina está em preparando a importação de cinco milhões de doses de Covaxin – a vacina indiana anticovid. Os destinatários da mercadoria são as clínicas particulares do país.

A meu conhecimento, nenhum país entre os quase 200 que há no planeta admitiu esse tipo de prática. Em todos eles, o trato da pandemia é da alçada governamental. Assim como cabe às autoridades determinar confinamento, fechamento de lojas e funcionamento de escolas, cabe também a elas adquirir, distribuir e aplicar vacina. Imagine se fosse deixada a cada comerciante a decisão sobre abertura do próprio estabelecimento: o resultado seria uma enorme confusão.

Embora o modo de agir do atual governo federal nem sempre dê essa impressão, governo serve, em princípio, para articular o funcionamento do país. Essa história de permitir que os que podem pagar passem à frente dos demais e tomem vacina antes é simplesmente escandalosa. Essa prática, indigna do século em que vivemos, tem de ser banida.

Pesquisa Instituto PoderData

Na Idade Média, o regime era outro. Quem era da classe nobre tinha filhos nobres; plebeus tinham filhos plebeus; filho do rei era príncipe. Assim, a estratificação da sociedade se perpetuava, sem permeabilidade possível. O elevador social ainda não tinha sido inventado. De lá pra cá, o mundo evoluiu.

Em muitos aspectos, nossa sociedade guarda resquícios medievais. Nosso elevador social anda emperrado e só funciona no tranco, à força de manivela. Temos um sistema de saúde pública bizarro, que segrega os usuários de segunda classe e os mantém higienicamente afastados dos que têm acesso aos mimos da primeira classe.

Se essa marca ostentiva de diferença de classe social na área de saúde costumava ser tolerada na vida de todos os dias, a pandemia baralhou as cartas e exige que seja distribuída nova mão. Não é admissível que cidadãos abastados sejam servidos antes dos menos favorecidos. A doença se alastra por toda parte. A mortalidade é ameaça para todos.

Se alguma pressão tem de ser exercida, que se pressione o governo central. Cabe a ele se mexer para suprir o sistema público de saúde com as vacinas necessárias. Isso não é – nem deve ser – tarefa de empresas particulares. A vida daquele que tem posses vale tanto quanto a daquele que não tem.

Neste momento, cabe, a quem tem o poder de fazê-lo, impedir que essa prática perversa se instale no país. Não convém dar mais uma mostra de que certos brasileiros são mais iguais que outros.

Pesquisa do Instituto PoderData mostra que um em cada três brasileiros acha justo que aqueles que podem pagar tenham o direito de procurar uma clínica privada para receber o imunizante. Sabe-se que não há 33% de gente abastada na população do país. A conclusão é terrível: boa parte dos que não têm condições de pagar pela vacina concorda com o privilégio e acha correto os mais ricos poderem se vacinar antes deles. Se isso não é mentalidade medieval, o que será?

Por que será?

José Horta Manzano

Quando alguém toma atitude fora dos parâmetros, convém desconfiar. Razões, pode haver muitas. Pode ser para ceder a chantagem, por convicção íntima, por vontade de aparecer. Há outras possibilidades. Vamos aos fatos.

É o Estadão(*) quem dá a notícia. Indusparquet, firma que se apresenta como a maior fabricante de pisos de madeira do país, é ativa na exportação. Algum tempo atrás, um lote de mercadoria sua foi apreendido pelo Ibama. Foi a maior apreensão já registrada no estado de São Paulo. A infração foi punida com multa milionária.

Foi aí que entrou em cena o modo Bolsonaro de gerir a coisa pública. A madeireira foi agraciada com perdão da dívida. Ficou o dito pelo não dito. E desculpe alguma coisa aí, hein! Não admira saber que a firma multiplicou suas exportações para EUA e Europa, nos últimos dois anos, justamente em virtude de produtos feitos de ipê e cumaru.

Se Bolsonaro insiste em liberar a pilhagem da floresta amazônica, não será por nenhuma das razões que mencionei na entrada. Que se saiba, não está sendo vítima de chantagem por parte das madeireiras. Não consta tampouco que faça isso por convicção íntima – convicção de quê? Vontade de aparecer, ele tem, é verdade; mas já aparece demais com a baixaria que sai de sua boca sem precisar aliviar multas.

Não sei como é que fica na cabeça do distinto leitor, mas na minha, espremendo bem, só sobra uma razão a explicar a estranha atitude do doutor. Se ele permite a destruição da floresta para beneficiar uns poucos neandertais, só vejo uma razão possível: ele está muito interessado em agradar a essa gente. É esquisito. Eleitoralmente, não contam. São muito poucos e não pesam na urna. O que é que sobra?

Bem, eu dei a pista. Cada um que tire suas conclusões.

(*) O artigo integral está aqui.

Ódio à ciência

José Horta Manzano

Artigo do jornalista Vinicius Sassine, publicado no Estadão, dá a informação:

«O governo Jair Bolsonaro cortou 68,9% da cota de importação de equipamentos e insumos destinados à pesquisa científica. A medida afeta principalmente as ações desenvolvidas pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz no combate à pandemia da Covid-19. Em 2020, o valor foi de US$ 300 milhões. Para 2021, serão apenas US$ 93,3 milhões.»

O distinto leitor leu corretamente. No meio da epidemia mais grave que o país já enfrentou, quando o pouco que temos de institutos de pesquisa se descabelam pra tirar do chapéu uma solução para prevenir o alastramento da doença, doutor Bolsonaro gira a faca na ferida. Cortou mais de 2/3 dos incentivos que deviam beneficiar a pesquisa.

Ele segue firme e bate o pé. Odeia a ciência. E continua apostando na derrocada do país. Em sua cabecinha, sobrevive a ideia fixa: com a nação em ruínas, montanha de mortos, caos total, ele se atribuirá plenos poderes e se tornará o salvador da pátria.

É por caminho semelhante que ditadores subiram ao trono. Napoleão se aproveitou do caos provocado pela Revolução Francesa. Josef Stalin valeu-se da bagunça que se seguiu à Revolução Bolchevique. Adolf Hitler surgiu das cinzas da Alemanha derrotada e humilhada em 1918. Só que tem uma diferença importante. Todos esses ditadores cresceram de um desmoronamento que não tinha sido provocado por eles. Já nosso doutor procura, por conta própria, provocar esse desmoronamento.

Essa teoria é a única que explica tim-tim por tim-tim todas as suas atitudes que, à primeira análise, parecem desconjuminadas e incompreensíveis. No delírio presidencial, há método.

A meu ver, a sua destituição não deveria passar pelo impeachment, caminho pedregoso e incerto; ele devia mesmo é ser interditado. Tinha de sair do Planalto direto para o hospital psiquiátrico. Lugar de Napoleão de hospício é o hospício.

Vaquinha

José Horta Manzano

Até o momento em que escrevo, os pedidos de impeachment contra o presidente já passam de 60. É um recorde; nem a Dilma conseguiu atingir essa marca.

O processo de destituição de um presidente da República é longo e doído. E deixa sequelas. Quando possível, é melhor evitar. Mas no caso de doutor Bolsonaro, não dá pra esperar. Tem de ser já, agora, antes que a destruição das instituições chegue a um ponto irrecuperável.

A interferência do lulopetismo no andamento da República também foi perniciosa. Mas o problema maior, além da roubalheira, era o aparelhamento – a instalação de capangas em órgãos oficiais. A estrutura em si não foi abalada. Quando o petismo foi derrotado, bastou dar uma ‘limpa’ nos postos-chave.

Com o doutor é diferente. Não são somente os postos de chefia que estão sendo aparelhados (com militares e outros cupinchas ineptos). O mal é mais profundo.

A estrutura pacientemente construída durante décadas está sendo destruída. Os órgãos responsáveis pelas questões agrárias e indígenas estão entre as vítimas. A cobertura vegetal do país, que a natureza levou milhares de anos para consolidar, foi entregue a madeireiros e a agrotrogloditas para demolição.

A imagem do Brasil no estrangeiro, que já não estava lá essas coisas nos últimos anos do lulopetismo, foi pr’as cucuias de vez.

Fiquei sabendo da existência de um site chamado Vakinha, talvez o distinto leitor já conheça. Ele abriga as mais variadas propostas de financiamento colaborativo (em bom português: crowdfunding). Estão lá centenas de vaquinhas para ajudar quem precisa.

Entre as propostas, uma me pareceu original. Era a «Vaquinha para comprar o Centrão e aprovar o impeachment do Bozo», título que dispensa explicação. A ideia era simples: se cada um dos 60% de brasileiros que desaprovam o governo doasse 1 real, estariam reunidos os milhões necessários.

Não prosperou. Conseguiram só cinco mil e poucos reais, doados por 150 apoiadores. Acho que faltou divulgação.

Pode parecer folclórico ou até pretensioso. Como é que alguém imagina que os parlamentares aceitariam pagamento assim, às claras, para derrubar Bolsonaro? Olhe, é melhor não duvidar! Tenho certeza de que haveria muitas mãos estendidas.

Tribunal Penal Internacional

José Horta Manzano

É curioso que certas notícias envolvendo interesses brasileiros circulem somente na mídia estrangeira. Pela rádio pública francesa, fiquei sabendo de uma denúncia criminal contra Jair Bolsonaro, oferecida estes dias ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Os autores são indígenas brasileiros de etnias amazônicas. Entre eles, está o conhecido cacique Raoni.

A base da acusação são alegados crimes ambientais e genocídio dos autóctones. O único veículo brasileiro que deu a informação foi o portal Pública. A denúncia tem 69 páginas e está muito bem documentada. Uma cópia confidencial do texto completo, traduzido para o português, está aqui.

Não se sabe ainda se a demanda será aceita pelo TPI. Se for, doutor Bolsonaro tem de começar a se preocupar. Não imagino que venham colhê-lo dentro do Palácio do Planalto para confiná-lo nas masmorras de Haia (Holanda). Enquanto for presidente, corre outros perigos, mas não este.

No entanto, assim que deixar o cargo, que tome cuidado. Livre de viajar dentro do país mas não lá fora, estará na esdrúxula situação dos que têm muito dinheiro mas só podem se locomover dentro do próprio país, como é o caso de Paulo Maluf. É que, se for dançar um tango em Buenos Aires ou andar de xícara na Disneylândia, periga ser detido e despachado para o TPI. Vai acabar provando do mesmo prato que já foi servido a outros antigos presidentes – Lula e Temer.

Reparem que, no Brasil, uma temporada (longa ou curta) na prisão está se tornando passagem obrigatória no ritual pós-presidencial. Dilma escapou por pouco. Bolsonaro só vai escapar por milagre.

Quem fez a Índia mudar de ideia?

José Horta Manzano

Faz poucos dias, doutor Bolsonaro se viu diante de um dilema. Ele, que por longos meses tinha desdenhado da imunização contra a covid, viu-se obrigado a optar: ou caía a ficha, ou caía ele.

Às carreiras, mandou fretar um avião de empresa comercial, adornou com faixa e fita (e adesivo), e ameaçou despachá-lo para Bombaim para buscar um punhado de doses de vacina. Não era importante o número de pessoas a vacinar, o principal era fazer bonito e disfarçar aquela imagem de inação.

Deu tudo errado. A improvisação não funcionou. Os indianos, que bobos não são, foram logo avisando: «Nem vem, que não tem». Desativado, o avião adesivado encalhou no Recife. O adiantamento de doses não veio e a coleção de fracassos de Bolsonaro enricou com mais um carão. Desta vez, internacional.

Sem vacina e com o titico que lhe resta de prestígio abalado, o doutor achou que era hora de tomar uma atitude decidida. Quem insistiu junto aos indianos, quem conversou, como foi a negociação – ninguém sabe. Esta parte não consta das lives caseiras nem foi objeto de nota à imprensa.

O fato é que, no espaço de menos de uma semana, a justificativa dos indianos para a não-entrega de um adiantamento de vacinas começou a soar esquisita. Tinham dito que a prioridade era vacinar seus zilhões de habitantes, e que isso ia demorar meses, desculpa assaz compreensível. No entanto, de repente, o avião fretado levantou voo, deu um bate-volta a Bombaim e trouxe um lotezinho de vacinas.

Quem fez a Índia mudar tão rápido de ideia?

Na época em que o astronauta improvisado (o mesmo que hoje é ministro improvisado da Ciência e Tecnologia) deu uma voltinha no espaço, foi voz corrente que o governo do Lula tinha pago 10 milhões de dolares pelo passeio prestigioso, apresentado ao distinto público como conquista da tecnologia nacional.

Na aventura das vacinas trazidas da Índia, ainda não vi menção de pagamento, nem por cima, nem por baixo do pano. No futuro, vai acabar aparecendo.

Teria sido bom que tivessem tratado com o mesmo empenho o caso dos hospitais de Manaus antes que o oxigênio acabasse – descaso que gerou uma das maiores vergonhas que o poder público nacional jamais protagonizou.

Mas fica a pergunta inicial: quem fez a Índia mudar tão rápido de ideia?

Indulto presidencial

José Horta Manzano

Ao apagar das luzes, sempre aparece algum engraçadinho pra fazer travessuras. Tem que desconfiar do último minuto; é justamente quando ninguém mais espera, que o demônio ataca.

O instituto da graça presidencial é resquício do Ancien Régime. De fato, no regime absolutista anterior à Revolução Francesa de 1789, quando a lei seguia apenas a vontade do rei, o monarca tinha o poder de condenar ou até graciar um cidadão. Reis já se foram faz tempo, mas muitos países conservaram o princípio da graça presidencial.

Os Estados Unidos, a França e o Brasil estão entre esses países. Na falta de dirigentes de sangue azul, é o presidente da República quem tem a prerrogativa de indultar e graciar – nossa Constituição fala em conceder indulto e comutar penas.

Na minha opinião, é instrumento poderoso demais para ser confiado a um só indivíduo, ainda que fosse o presidente. Tem de ser muito bem enquadrado pela lei, o que não me parece ser o caso dos EUA.

De fato, um dia antes de deixar a Casa Branca, Mr. Trump extinguiu a pena de 70 pessoas e comutou a sentença de 73 outros indivíduos. Todos são pessoas de suas relações.

Chamada G1, 20 jan° 2021

Não sei o que pensa o distinto leitor, mas esse dispositivo consitucional me parece uma excrescência, uma prática que combinava com a época de Luís XV, mas que hoje soa anacrônica.

Seja como for, o artigo do G1 contém uma imprecisão. O indulto é sempre coletivo. No Brasil, a concessão de indulto natalino é habitual; ele é concedido a toda uma categoria de sentenciados; por exemplo: os condenados a penas mais curtas do que 4 anos, não reincidentes, sem sangue nas mãos. Não se escolhem os beneficiários, vai a  categoria inteira, desde que responda aos requisitos.

Quando se perdoa a pena de um indivíduo isoladamente, não é indulto, mas graça. Deve-se dizer que o presidente graciou fulano de tal. Apesar de ter perdoado a pena de 70 pessoas, Trump não o fez coletivamente, mas individualmente. Eles não faziam parte de uma categoria precisa; o único ponto comum entre eles era serem todos amigos seus.

A meu ver, a graça presidencial seletiva não devia poder ser exercida pelo chefe do Executivo. Se a Justiça condenou, cabe à Justiça repensar, rever, reestudar, reconsiderar e, eventualmente, extinguir a pena. Essa possibilidade de o rei graciar seus amigos me parece destoar feio da democracia em que imaginamos viver.

Observação
O exemplo dado por Trump há de ter sido anotado com esperança e alegria pelo clã dos Bolsonaros. Se a Justiça condenar algum dos rebentos antes do término do mandato do pai, é mais que provável que o sentenciado seja graciado. Mais vale esperar que o doutor seja despachado de volta à insignificância de onde nunca deveria ter saído.

O general e a selva

José Horta Manzano

Cada macaco no seu galho. Para a guerra, vão os militares. Para a mesa de discussões, vão os diplomatas. Não convém misturar os profissionais, se não é capaz de dar choque.

Nosso presidente, como o Brasil e o mundo já se deram conta, sofre de séria disfunção cognitiva; em termos familiares: é imbecil. Essa dificuldade de apreensão da realidade é agravada por seu caráter agressivo e por suas reações paranoicas.

De um personagem com essas características, não se poderia esperar que acertasse na hora de escolher assessores. Recheou ministérios e autarquias com militares. Não se sabe se fez isso para confortar sua paranoia ou por outra absconsa razão. O resultado é um desastre. O inefável general Pazuello, ‘gerentão’ da Saúde Pública, é brilhante exemplo.

A subida ao trono de Joe Biden ratifica a perda do único apoio externo com que Bolsonaro podia contar. Agora que o presidente se sente vulnerável, a paranoia aumentou e seus efeitos se espalham pelos altos círculos da República. Doutor Bolsonaro perde o sono ao imaginar que, qualquer dia destes, a Amazônia será invadida por sabe-se lá quais inimigos. Sem dificuldade, tem conseguido contaminar generais. Militares são treinados a enxergar o mundo em preto e branco, sem nuances intermediárias. Em princípio, interlocutores têm de se encaixar obrigatoriamente em um de dois grupos: ou são amigos, ou são inimigos.

Quando dirigentes estrangeiros criticam a política ambiental do Brasil, não é hora de ‘mandar pólvora’, como insinuou Bolsonaro. É hora de mandar a diplomacia para a linha de frente. É hora de conversar, de ouvir, de explicar, de entender, de refletir, de apaziguar, de maneirar. É hora de escutar, de se abrir, de argumentar, de convencer. É hora de perceber que a riqueza das florestas brasileiras não se resume ao estrondo do abate de árvores, ao lucro da extração de madeira, à tristeza da extinção da vida animal.

Diferentemente do que pensam Bolsonaro e seus amigos militares, ninguém no mundo tem séria intenção de tomar a Amazônia brasileira. Nem mesmo a China, capitão! O que assusta o mundo é a ameaça de perder a mais importante floresta equatorial do planeta. Se ela desaparecesse, o clima mundial – e, naturalmente, do Brasil também – sofreria consequências desastrosas para a vida de todos nós. Mas Bolsonaro e seus amigos não entendem isso. Ou se recusam a entender, o que dá no mesmo.

Fiquei sabendo hoje que o Exército está cuidando de ocupar a Amazônia antes que algum aventureiro lance mão. A derrocada de Trump e o sentimento de impotência estão por trás. Este escriba tem uma sugestão – gratuita e sem compromisso. Sugiro que o comando da organização de resistência ao invasor seja confiado ao general Pazuello. Com essa cajadada, mata-se um coelhão: o general será curto-cirtuitado, fazendo desaparecer o principal entrave(*) à Saúde Pública. O país vai respirar aliviado. Os cidadãos estão precisando respirar – no sentido próprio.

(*) ‘Principal entrave’ é modo de dizer. O principal entrave à Saúde Pública não é o general trapalhão, mas seu chefe.

Passaporte vacinal

José Horta Manzano

Até dois dias atrás, vacinação era miragem distante, coisa de país rico. Ontem, o Brasil foi o 52° país a dar início à vacinação, transformando a miragem em realidade. Estivéssemos num contexto menos pedregoso, seria um momento de alegria e de alívio no estilo “agora, vai!”. Infelizmente, o país atravessa tempos estranhos, agressivos, emperrados, emburrecidos. Estamos em fase de demolição, não de construção. É bom tomar cuidado, que é sempre possível despencar um fragmento de parede lá de cima.

Até que o último brasileiro seja imunizado vai levar entre um e dois anos, mas o importante é que, finalmente, a roda começou a girar. Percalços, haverá muitos. É bom não esquecer que temos no Planalto um clã inteiro de Bolsonaros. Desgraça pouca é bobagem, como diz o outro. Um Bolsonaro incomoda muito a gente, dois Bolsonaros incomodam muito mais. E assim por diante.

Na Europa, a vacinação começou faz mais de mês. Pesquisas detectam que, à medida que o programa avança, baixa o número de antivax – aqueles que recusam a imunização. Trata-se de efeito manada virtuoso. Ao constatarem que o amigo, a vizinha, o colega ou a vovó se vacinaram e não sucumbiram, vão-se animando e deixando pra lá conselhos perniciosos como os de nosso sábio presidente. No fundo, fica claro que a aversão à vacina era apenas a face visível de um inconfessado medo de injeção, coisa de criança.

Na Europa, já se discute a criação de um passaporte vacinal, um documento a comprovar que o titular foi imunizado contra a covid. Determinados países exigem que todo visitante prove ter sido imunizado contra a febre amarela, exigência que não choca ninguém, pois não? Imagine agora o quadro. Um país como Israel, que dentro em breve terá vacinado toda a população, não vai querer que estrangeiros infectados reintroduzam o vírus no país. É permitido crer que vão logo passar a exigir que visitantes provem ter sido vacinados.

Mesmo no interior de um país, a questão vai surgir e impactar a circulação das gentes. Passados os primeiros tempos, parte da população terá sido imunizada, enquanto outra parte continuará desprotegida e exposta ao vírus. Companhias aéreas, empresas de transporte, teatros, restaurantes, faculdades não desejam que seus veículos ou seus estabelecimentos voltem a ser focos de infecção. Assim, vão pressionar para a criação de algum tipo de documento que garanta que o titular está imunizado. Estes serão admitidos, enquanto os demais darão com o nariz na porta.

Há que ter em mente uma verdade científica. Quanto mais tempo um vírus circula, mais risco há de ele sofrer mutações. Um dia, uma delas pode bem revelar-se mais contagiosa que as anteriores, como aconteceu na Inglaterra. Pode também surgir uma mutação que provoque quadro ainda mais grave de infecção – atingindo, inclusive, populações mais jovens. São cenários que a Saúde Pública de todo país ajuizado quer absolutamente evitar.

Eis por que, na sociedade pós-covid, nova segregação periga juntar-se às existentes: a discriminação contra os não-vacinados.

Esqueceram de aprender com os erros

José Horta Manzano

Em abril do ano passado, a epidemia de covid começava a assustar o mundo. No entanto, no Brasil, muita gente fina jurava que a doença nunca chegaria ao país, visto que o clima tropical não convinha ao vírus. Era a primeira de uma longa série de patacoadas pronunciadas desde então. A fala da ‘gripezinha’, obra de nosso capitão, veio logo engrossar a série. Aliás, em qualquer série de patacoadas, a participação do presidente é garantia de boas pérolas.

Naquele momento, pouco ou nada se sabia sobre o novo vírus. Na Europa, por uma razão ignorada, a Itália foi atingida mais cedo e mais duramente que os vizinhos. Embora o país conte com estrutura sanitária de alto nível, o súbito aumento no volume de doentes apanhou a todos de surpresa. Hospitais lotados, pacientes em macas nos corredores, cortejos de carros fúnebres circulando na escuridão da noite – foram cenas chocantes que marcaram aquelas semanas.

Primeiro país a sofrer um assalto maior da epidemia, a Itália se defendeu como pôde. A maciça investida do vírus desequilibrou a ação do governo e transtornou a vida dos cidadãos. Toda essa confusão estava ligada à emergência da situação e à inexistência de precedentes. Foi compreensível.

Quando se alastrou com força para os outros países, que já tinham assistido aos dissabores italianos e já tinham tido tempo pra se preparar, o ataque viral encontrou terreno mais organizado. O horror visto na Itália nas primeiras semanas não se repetiu nos vizinhos.

O princípio de que o ser humano aprende com as desgraças não parece aplicar-se, infelizmente, a nosso país. Os erros se repetem e, como é sabido, acarretam as mesmas consequências.

by Kleber Sales

Neste segundo ano em que o planeta vive em função da pandemia e mergulhado nela, o que está acontecendo estes dias em Manaus é um rematado absurdo. É situação surreal, inconcebível, insuportável. Estivéssemos num país africano miserável, ainda passava. Mas no Brasil? Como é que conseguimos chegar a esse ponto de descaso?

Há certamente uma cadeia de responsabilidades, que incluem a direção de hospitais, autoridades municipais, estaduais e federais. No nível operacional, como é possível que os encarregados esperem que pacientes morram asfixiados para só então botar a boca no trombone pra denunciar a falta de oxigênio? Por outra, se denunciaram e não foram escutados, aí o enguiço é feio. Até que nível chegou o grito de alarme? Até o topo? Doutor Pazuello, o mago da logística, é a autoridade máxima. Acima dele, somente o doutor maior, Jair Bolsonaro. Estavam a par da catástrofe anunciada?

Tivemos quase um ano para nos preparar. Somos 200 milhões de almas, com um sistema nacional de saúde que funciona há décadas, com um corpo médico e paramédico de excelência, com indústria que produz os insumos básicos para assistir os doentes de covid. Numa federação como a nossa, não se podem tolerar horrores como os de Manaus. São a negação da solidariedade e da coesão nacional.

Pergunta
A simbólica visita de reconforto a um hospital manauara, que nosso chefe de Estado está programando, foi marcada para quando mesmo?

Quiproquó

José Horta Manzano

Quiproquó(*), substantivo dicionarizado, é a expressão latina quid pro quo nacionalizada. Em português, assim como nas demais línguas latinas, o sentido original foi mantido. O significado é ‘isto por aquilo’ ou ‘uma coisa pela outra’. A expressão é geralmente utilizada quando há troca acidental e involuntária.

Um quiproquó pode gerar situação cômica ou até uma baita encrenca. Se, na hora da troca de presentes de Natal, você se enganar e entregar ao sobrinho de 8 anos a bolsa de água quente que era destinada à vovó, o quiproquó vai terminar em gargalhadas. Já se você tiver a infelicidade de chamar a namorada pelo nome errado, pode ter certeza de que o quiproquó não vai sair barato.

Aqui do meu posto de observação, estou vendo nascer um quiproquó originado pelas (pobres) palavras presidenciais. Já faz tempo que doutor Bolsonaro clama pelo voto impresso. Embora venha sendo eleito e reeleito por três décadas pelo sitema eletrônico, mostra-se cético quanto à confiabilidade da urna eletrônica. E não perde ocasião para exigir o tal do ‘voto impresso’.

Nas análises que tenho lido, os autores parecem ter entendido que o presidente, movido talvez por impulso saudosista digno de um Itamar Franco, gostaria que tornássemos a votar por meio de cédula de papel, como se fazia nos tempos de antigamente. Os analistas comentam, então, que isso seria um retrocesso, uma tentativa de ressuscitar um passado morto e enterrado.

A mim, não parece ser esse o desejo do presidente. Pela minha decriptagem, ele não está pedindo que a urna eletrônica seja abolida; gostaria que lhe fosse acoplada uma mini-impressora. O eleitor votaria apertando botões, como está habituado. Só que, em vez de ir embora de mãos abanando, receberia, ainda dentro da ‘cabine’, um papelzinho impresso com o nome do(s) candidato(s) escolhido(s). Com isso, imagina o doutor, o eleitor teria certeza de que seu voto foi para o candidato certo.

Cartaz de meados dos anos 1920 que denunciava o ‘voto de cabresto’.

Quando se trata de acompanhar o raciocínio de Bolsonaro, todo cuidado é pouco. Em decorrência de sua mente pedregosa, seu raciocínio tortuoso e seu vocabulário indigente, a tarefa é árdua. Sua fala exige interpretação, como se ele se exprimisse numa daquelas línguas mortas que os linguistas tentam reconstruir. Se o que o presidente deseja é realmente o que entendi, o remédio é complexo e arriscado.

Em primeiro lugar, seria preciso investir uma nota para comprar uma impressora para conectar em cada uma das 400 mil urnas em uso. Se cada dispositivo custar 100 reais, o gasto será de 40 milhões. Sem contar a quantidade industrial de tinta e de minirrolos de papel. E o agravamento do problema de urnas enguiçadas.

Em segundo lugar, a novidade seria porta aberta para a volta do voto de cabresto, enterrado há décadas. Voto de cabresto ocorre quando o poderoso do lugar (prefeito, homem político influente, patrão de usina, fazendeiro ou o que for) intima a seus comandados que votem em tal candidato. Com a urna eletrônica, não há meio de controlar se a ordem foi cumprida. Já quando o infeliz volta com o papelzinho na mão, não tem como escapar: é obrigado a mostrar ao patrão. Caso não tiver votado conforme a ordem, sofrerá as sanções reservadas aos desobedientes.

Talvez, na mente delirante do doutor, seja exatamente essa a ideia – poder controlar o voto dos humildes, seja por via do patronato fiel à ‘causa’, seja pelos bons cuidados da seita evangélica à qual o eleitor está afiliado. Que São Judas Tadeu nos acuda!

(*) Desde que o malfadado Acordo Ortográfico (AO90) entrou em vigor, a palavra quiproquó perdeu o trema (era qüiproquó). Com isso, a lista de armadilhas e de inseguranças de nossa língua engordou. Meus cultos leitores sabem que não se pronuncia kiproquó, mas sim kuiproquó.

Vista a baixa frequência de uso desse termo, os mais jovens, que nunca viram um trema pela frente, não vão ter como memorizar. É permitido crer que, dentro de alguns anos, a pronúncia padrão terá virado kiproquó. A boa notícia é que, até lá, o doutor terá pendurado as chuteiras – uff! Estaremos lidando com problemas novos. Novos?

Soberana

José Horta Manzano

Pobre Brasil, obrigado a viver sob o mando de um grupelho de incompetentes. Se a situação já é dramática ao natural, o molho de pimenta da epidemia só fez piorar. O prato ficou intragável. Hospitais transbordando, presidente apinhando praias, doença se alastrando – tudo sem solução no imediato.

Ao despreparo do presidente e de seus pajens, somam-se baciadas de má-fé. Antes da pandemia, até que dava pra ‘passar boiada’ sem que o povão se desse conta. Hoje ficou impossível. Com a intenção de criar factóides e distrair a plateia, Bolsonaro profere enormidades. Mas não tem jeito: no dia seguinte, a covid e seus desdobramentos voltam ao centro do noticiário.

Num dos raros momentos de verdade que a política nacional nos tem oferecido, um intimidado aprendiz que ostenta o título de ministro da Saúde deu a dica: “– Um manda, o outro obedece”. Com isso, revelou que seu papel é de boneco de ventríloquo, aquele que só mexe a boca pra ampliar a fala de seu mestre. O país entendeu que essa é a mecânica vigente entre o chefe e todos os ministros e assessores. Todos ecoam o pensamento do capo. Portanto, a trapalhada que hipoteca a saúde e a vida de 210 milhões de brasileiros é obra da mente solitária e maligna de Sua Excelência, o presidente da República.

Se hoje faltam vacinas, seringas, ampolas, supercongeladores e centros de vacinação, não se ponha da conta da Anvisa ou do Ministério da Saúde. O responsável tem nome e endereço: é doutor Jair Bolsonaro, o presidente por acidente.

Ele tem instilado no povo o receio de receber vacina e virar jacaré ou outro bicho. Ou bicha. Parece que essas enormidades têm feito crescer o campo dos antivax, aqueles que são contra a vacinação. Gente que recusa imunização não é novidade: esse grupo existe desde que a vacina contra a varíola apareceu, faz dois séculos.

No entanto, ao fim e ao cabo, o instinto de conservação costuma falar mais alto. A lógica é elementar. O cidadão hesitante vai pôr na balança as vantagens e desvantagens da imunização e vai chegar à conclusão de que o risco de não se vacinar e apanhar uma forma grave de covid é bem maior do que o risco de se vacinar e desenvolver uma forma grave de reação à vacina. Dos males, o menor.

À medida que o programa avança, com milhões e milhões de cidadãos imunizados, a resistência dos antivax diminui. É irônico pensar que grande parte desse povo que é «do contra» não faria mais parte deste mundo se não houvesse vacina; já teriam morrido de varíola, tuberculose ou outras doenças infecciosas que a vacinação praticamente varreu do planeta.

Nessa história de vacina, a incompetência estrutural de nossos governantes, aliada à natural preguiça dos que são cercados por mordomia, nos pôs em situação bicuda. Doutor Bolsonaro, sacerdote-mor da nação, vetou a Coronavac por ser de origem chinesa (e principalmente por ser produzida num estado governado por um desafeto). Vetou essa, mas não encomendou nenhuma outra. Imaginava que os fabricantes nos bateriam à porta implorando por uma encomenda.

Não lhe passou pela cabeça que o mundo inteiro está correndo atrás de vacina. Laboratórios estão sobrecarregados e não dão conta. São, em teoria, 7,5 bilhões de humanos a imunizar. A população brasileira não chega a 3 porcento desse total. Como costuma acontecer quando o assunto é encontrar o lugar do Brasil no mundo, a turma do Planalto errou. As encomendas tinham de ter sido passadas seis meses atrás. Agora, a fila é longa. As compras que forem feitas agora têm pouca chance de ser entregues no primeiro semestre.

Mas tem nova vacina despontando. Chama-se Soberana e está em adiantada fase de desenvolvimento. Deve estar disponível já neste primeiro semestre de 2021. Poderia ajudar a sanar os erros cometidos por nossos imbecis de plantão. Ainda não há fila, o que é boa notícia. Só tem um pequeno defeito, que periga desagradar a doutor Bolsonaro: está sendo desenvolvida em Cuba. Mas será que, sempre preocupado em primeiro lugar com a saúde do próprio povo, ele não faria uma exceção e passaria por cima da ideologia pelo menos desta vez?

Pepino torto

José Horta Manzano

É de menino que se torce o pepino. Antigo, mas de validade permanente, o adágio informa que os bons hábitos vêm da infância. Quem aprendeu de criança, sorte dele, quem não aprendeu, babau. Não dá pra lapidar uma pedra depois de engastada no anel.

Nossas altas esferas são compostas de uma coleção de pepinos tortos. Fica a impressão de que nenhum deles teve berço. Ou pior: se tiveram, o próprio berço já veio torto. É permitido supor que tenham nascido e crescido no meio de gente primitiva e de nariz empinado, desses que têm o rei na barriga e imaginam pairar acima dos demais. Tivemos, às vésperas do Natal, três exemplos edificantes, um atrás do outro, feito rajada de arma automática. Todos eles são manifestações de um mesmo mal.

Primeiro, foi doutor Bolsonaro. (Como não podia deixar de ser, diria o outro.) No auge da pior catástrofe sanitária que o Brasil já conheceu, com quase 200 mil mortos espetados na conta, o homem decidiu tirar férias. Foi descansar num forte catarinense, utilizado como resort pelas Forças Armadas. Francamente, pra quem não trabalhou senão para sabotar o esforço nacional de combate à pandemia, falar em «descansar» é indecente. Bolsonaro não é inteligente, isso já se sabe. Se fosse, teria descansado uma semana na Granja do Torto, residência oficial da Presidência, lugar tranquilo e protegido. Ninguém teria ficado nem sabendo. Mas o pepino torto o faz imaginar pertencer a uma classe de eleitos dos deuses. (Faltou combinar com os deuses, mas essa já é uma outra história.)

Em seguida, foi a vez de João Dória, governador de São Paulo – aquele a quem o presidente da República atribui, com desdém, a paternidade da Coronavac. O governador não poderia ter tido pior ideia. Em meio à pandemia que castiga a população, bem na hora da chegada das primeiras ampolas de vacina, que fez ele? Mandou-se pra Miami para alguns dias de férias. Tirando o mau gosto de escolher a Florida, destino obrigatório de todo novo-rico brasileiro, não era hora de tirar férias. Se tivesse escolhido passar uns dias a olhar a paisagem no litoral do estado que governa, ninguém teria reclamado. Mas Miami? Francamente. Aqui também, o problema é o pepino torto que o faz crer que pertence a uma classe à qual tudo é permitido.

Pra coroar, o STF e o STJ não deixaram passar a ocasião de tentar uma carteirada. Ambas as cortes pediram à FioCruz a reserva prioritária de milhares de vacinas para Suas Excelências, colaboradores & respectivas famílias. Assim, deixariam o populacho para trás e passariam à frente de todos nós. Receberam uma negativa, aliás muito merecida. Doutor Fux ainda reclamou alegando que, se tinha feito esse pedido, era pra preservar o bom andamento da instituição que preside. Passou por cima do fato de estarem teletrabalhando. Deixou transparecer sua convicção de que o STF é a única instituição nacional que merece ser imunizada. Tanto o pedido quanto a explicação são obras-primas de contorcionismo verbal, que combinam com o status de legítimo pepino torto.

De Bolsonaro, pode-se esperar tudo, dado que não é inteligente nem perspicaz. Mas de gente como João Dória, essa atitude é mais intrigante. Imbecil, o moço não é. Ignorante, tampouco. Como é que foi tomar decisão assim tão fora de esquadro, tão impopular, tão demolidora da própria imagem de sobriedade? A resposta está no ditado do pepino. Tão convencidos estão – ele e os outros aqui mencionados – de estar acima do populacho, que não se dão conta de que é esse mesmo povão que os pôs onde estão e que lhes paga o salário.

A solução? É elevar o nível de alfabetização, de estudo e de formação do populacho. Povo instruído adquire nível de politização elevado. Povo politizado rejeita homem público prepotente. Talvez seja por isso que, entre nossos dirigentes, tão poucos dão prioridade ao aprimoramento da Instrução Pública. Será pra garantir a sobrevivência da casta dos pepinos tortos.

Ministro fake

José Horta Manzano

Eduardo Pazuello, nosso apalermado ministro-júnior da Saúde, não entende por que é alvo de uma permanente chuva de críticas. Não se deu conta de que é sua submissão canina ao chefe que o põe em situação vulnerável. A plateia nacional nunca assistiu a um militar representando papel tão ridículo como o dele.

Mas por que é que ele não dá demissão? É permitido imaginar que o que está em jogo não é apenas o salário de ministro – afinal, o soldo de general é suficiente pra levar uma vida confortável. Fica no ar a impressão de que debaixo desse angu tem carne. Pra se rebaixar a esse ponto perante seus 200 milhões de conterrâneos, a razão há de ser maior que um mero contracheque mensal. Que será? A cada um, a liberdade de cogitar.

O ministro-júnior deve achar que os brasileiros não gostam dele por causa de seu jeito de sorrir, de se exprimir ou de se vestir, sei lá. Contratou um marqueteiro-mor, um certo senhor Marcos Marques, que prefere ser chamado de Markinhos. Assim, com K, como um certo Kassio. Fica a impressão de que o governo que se proclama ‘nacionalista’ dá preferência a colaboradores que tenham K no nome. Entenda quem puder.

O general parece não ter dificuldade em seguir ordens. Se seguir direitinho as do marqueteiro e modificar seu jeito de comunicar, o general imagina que os problemas estarão resolvidos. Engano. O erro não está no invólucro, mas no conteúdo. Ninguém está incomodado pela silhueta do homem nem pela impostação de sua voz. O que encoleriza são as enormidades que profere.

O pior vem agora. Markinhos, o marqueteiro político contratado por Pazuello, é conhecido pelo perfil beligerante e pelas propostas belicosas. Tentem imaginar o opulento ministro-júnior soltando suas frases sem pé nem cabeça, porém agora num estilo guerreiro, enérgico, agressivo. Aí sim, ele periga afundar de vez.

Onomástico
Pazuello é um sobrenome de evidente origem ibérica. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, a raiz latina Palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego, o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, faz-se o diminutivo com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

No entanto, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefaradis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio quinhentos anos atrás.

E ponto final

José Horta Manzano

“Eu não vou tomar vacina e ponto final. Minha vida está em risco? O problema é meu.”

A declaração foi dada por Jair Bolsonaro terça-feira última.

O jornalista Rafael Barifouse, da BBC Brasil, relata a conversa que teve com dois eminentes infectologistas sobre a displicente declaração presidencial.

“Quem diz que não vai se vacinar porque é decisão individual diz isso por ignorância. Vacinação não é nem nunca foi uma preocupação individual”, é o que afirma a infectologista Raquel Stucchi, da Unicamp.

Ela explica ainda que o objetivo da vacinação é conferir proteção contra um vírus a uma parcela da população suficientemente grande, para impedir que a doença continue a se disseminar.

Quanto maior o número de pessoas vacinadas, mais fácil será controlar a propagação. Se poucas pessoas se vacinarem, ela se alastra facilmente.

“É diferente de um câncer, por exemplo. Se eu não me tratar, só eu vou sair prejudicada porque vou morrer mais cedo. A decisão de não se vacinar tem impacto na saúde coletiva”, acrescenta a infectologista.

O percentual de pessoas que têm que ser vacinadas para conseguir a imunidade coletiva – bloqueando a disseminação de um vírus ou bactéria e evitando epidemias – varia. Depende da taxa de contágio, ou seja, a facilidade com que o patógeno passa de uma pessoa a outra. Depende também da eficácia da vacina, quer dizer, da proporção de pessoas que ficam protegidas ao serem vacinadas.

O infectologista Alberto Chebabo, diretor do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (RJ), esclarece que, para bloquear uma uma doença altamente infecciosa como o sarampo, a taxa de pessoas imunizadas tem de ser de 95%.

Para a covid-19, ainda não se sabe ao certo qual é esse índice, porque ainda é preciso verificar se a eficácia dos estudos será confirmada pela vacinação em massa e quanto dura a imunidade. Assim mesmo, estima-se que será necessário vacinar entre 70% e 80% da população para reduzir a circulação do coronavírus e acabar com a pandemia.

“Temos que lembrar que sempre haverá uma parte da população que não poderá ser vacinada, como grávidas, para quem hoje não é recomendado, quem tem alergias graves e outras contraindicações”, diz Chebabo.

Para os que não puderem se vacinar, a imunização em massa é essencial para evitar que sejam infectadas. O mesmo vale para os que não tiverem uma resposta ideal à vacina.

“Uma postura como a do presidente é atitude egoísta, de quem só pensa em si próprio e não em proteger quem está à sua volta”, diz o infectologista. Chebabo diz ainda que se vacinar será importante mesmo para pessoas que já tiveram covid-19, como Bolsonaro, porque há cada vez mais casos de reinfecção, às vezes deixando o paciente em estado pior do que antes.

Os cientistas ainda não sabem ao certo quanto dura a imunidade adquirida pelos que tiveram a doença. Por isso, uma parte destas pessoas, ou mesmo todas elas, podem ainda ser vulneráveis ao coronavírus.

“A recomendação é que todos se vacinem”, diz Chebabo.

Imbecil

José Horta Manzano

O adjetivo imbecil existia em latim sob a forma imbecillus. Na língua dos romanos, seu significado era diferente do que lhe atribuímos hoje. Era usado para indicar fraqueza de corpo. Em vários textos de Cícero, o adjetivo aparece como qualificativo de homem: homo imbecillus = indivíduo fisicamente diminuído.

É daquelas palavras órfãs que não parecem pertencer a nenhuma família. Sua origem é controversa. Alguns cogitam que talvez pudesse ser formada pela partícula in + becillum, uma forma alterada de bacillum, diminutivo de baculum (bastão). Se assim fosse, a palavra imbecil evocaria a imagem do indivíduo que se move apoiado num bastão. Apesar de simpática, a explicação não é geralmente aceita.

As principais línguas latinas utilizam o adjetivo. Até por volta de 250 anos atrás, ele conservava o valor de fraco de corpo. Aos poucos, foi adquirindo o sentido de fraco de inteligência.

Dado que o burro é um animal simpático (e não mais burro que uma galinha, um sapo ou uma girafa), me dói chamar de burro um indivíduo pouco inteligente. Prefiro imbecil, termo que evoluiu até tornar-se hoje perfeito para designar pessoa com forte déficit de inteligência.

Dois dias atrás, pela enésima vez, doutor Bolsonaro avisou que não tomará a vacina contra a covid, seja ela qual for. Logo ele, que tem a pretensão de tornar-se nosso guia!

Seu universo mental é limitado e não lhe permite enxergar a realidade como ela é. Não se dá conta de que sua ostensiva resistência à vacinação vai influenciar boa parte dos cidadãos, que acabarão fugindo da imunização. E os não-vacinados continuarão a infectar-se entre si, prolongando a duração da pandemia. E a economia continuará sem fôlego. Ora, prosperidade econômica é a chave da reeleição! Mas ele não consegue enxergar isso.

O homem está preso a meia dúzia de ideias que vem ruminando há 30 ou 40 anos. São essas e mais nenhuma.

Acredita ter vocação para ditador e acalenta a tola esperança de que o povo se levante numa guerra civil e o consagre como defensor perpétuo da nação. Isso explica sua fixação em distribuir armas à população.

Homem de poucas letras e de cultura geral indigente, tem visão fragmentária do mundo exterior.

De alguma viagem que possa ter feito no passado, reteve algumas imagens que gostaria de aplicar ao Brasil. Isso explica:

  • 1) sua insistência em tranformar santuários marinhos em resorts tipo Cancún;
  • 2) sua vontade de fazer ancorar na minúscula ilha de Fernando de Noronha naves de cruzeiro que lá despejarão 6000 passageiros de uma vez;
  •  3) sua afirmação de que ‘na Europa, não há mais florestas’, quando se sabe que a cobertura vegetal do território europeu é bem superior à do Brasil – excluída a selva amazônica.

Para falta de cultura, existe remédio. Se se esforçar, o indivíduo pode até cultivar o espírito através do estudo. Lula da Silva, um dos predecessores de Bolsonaro, é, de certa forma, um exemplo. Mesmo tendo chegado à Presidência ignorantão e não tendo estudado nada durante o mandato, manteve o espírito aberto e conseguiu absorver algum conhecimento. Deixou a Presidência, digamos, menos chucro.

Já o déficit de inteligência é mais cruel. É o caso de nosso doutor. Chegou à Presidência ignorantão e de lá há de sair ignorantão. É a sina dos imbecis.

Trump, Bolsonaro e a reeleição

José Horta Manzano

A não-reeleição de Donald Trump, confirmada oficialmente ontem, há de estar acendendo luz vermelha no Planalto. De um vermelho vivíssimo.

Trump – todo-poderoso, carisma irresistível, voz de trovão, teatralidade convincente – é capaz do melhor e do pior. É daquele tipo de mascate capaz de vender gato por lebre e arrancar aplauso do comprador agradecido. Mas em meados deste ano ousou passar a mão num carregamento de respiradores que o ‘amigo’ Bolsonaro havia comprado na China e que transitavam pelos EUA.

Se esse homem – dono de todos esses atributos, dono da caneta mais poderosa do planeta, senhor da guerra e da paz, responsável pelo maior orçamento do globo – conseguiu a façanha de ser derrotado, como é que se pode enxergar o futuro do pequeno Bolsonaro? Antigamente, se dizia que estava preto. Na era do ‘politicamente correto’, convém dizer que está ruço.

O atual inquilino do Planalto não tem os atributos do ídolo, nem seu poder, sua força, sua riqueza. Não tem um corpo de assessores de alto nível. Não está apoiado num partido tradicional e organizado como Trump estava. Como então imaginar que, desprovido das armas necessárias, possa vencer a batalha da reeleição? (Posto que se segure na Presidência até lá, naturalmente.)

by Kleber Sales, ilustrador.

Bola de cristal, não tenho. Além do que, faltam dois anos para a eleição presidencial. Assim mesmo, sob reserva de acontecimento excepcional, a reeleição de nosso doutor parece causa perdida.

Sua personalidade pontuda, excludente e clivante não lhe valeu nenhum simpatizante além dos que tinha ao ser eleito. Pelo contrário, aqueles que votaram nele unicamente para se livrarem do PT devem estar dobrando a língua e se autoflagelando em penitência: nunca mais darão seu voto ao capitão.

Aos poucos, vai-se delineando um quadro semelhante ao de 2018. O eleitorado vai se fraturar em dois campos bem nítidos. No primeiro, estarão os bolsonaristas, que votarão no doutor porque gostam dele e estão felizes com seu desempenho. Do outro, estarão os demais, os eleitores dispostos a votar em quem quer que seja, desde que Bolsonaro seja derrotado.

Num primeiro turno, o voto antibolsonarista ainda pode se dispersar, mas no segundo, não tem perdão. São só dois candidatos. Não vejo como o doutor poderá ser reeleito, seja quem for o adversário. Ou será que Bolsonaro é mais talentoso que Trump?

O conselho

José Horta Manzano

O aprendizado
O caso se passou no tempo em que eu era funcionário de uma firma. Meu chefe um dia me encomendou um trabalho qualquer. Não me lembro exatamente o que fosse, mas era coisa pouca, um relatório ou algo assim. Eu não estava lá muito disposto a fazer o que ele pedia, então reclamei, disse que tinha muito pra fazer, que o serviço andava acumulado, que aquela semana não ia dar, enfim, enchi de dificuldade.

A essas alturas, benevolente mas sério, ele me fez um sermão: «Olhe aqui, se você não tem vontade de cumprir essa tarefa, está se comportando exatamente como não devia. Com essa insistência em pôr dificuldade, você acaba chamando a atenção para o fato. O resultado é que, amanhã, eu vou me lembrar desta nossa conversa de hoje, e vou cobrar o serviço. E depois de amanhã também. E assim por diante, até que esteja feito. De outra vez que você não quiser fazer algum trabalho, seja esperto: não diga nada, não chame a atenção para o caso. Diga simplesmente que sim, e pronto. Em seguida, se você não executar a tarefa, não tem importância, que eu vou acabar esquecendo.»

O sábio conselho me foi muito útil. Serve tanto para relacionamento entre chefe e subordinado quanto para situações do dia a dia.

Covid na Europa
Tenho acompanhado a evolução da pandemia nos países da Europa. Na maioria deles, o governo tem agido com bom senso. Espertos e bem assessorados, os dirigentes perceberam que o covid era uma excelente ocasião para promover a união nacional. Não deixaram escapar porque, na vida de uma nação, raros são os momentos em que essa união é possível. Acontece quando há ameaça de guerra. Para enfrentar o inimigo externo, o dirigente perspicaz convoca o povo – que passa por cima de diferenças internas e se une no combate ao perigo.

Pois assim foi feito: uma retórica inteligente apresentou a pandemia como poderoso inimigo externo a ser vencido. Os dirigentes que agiram assim cresceram politicamente. Neste momento em que o Reino Unido começa a campanha de vacinação, os habitantes dos demais países europeus, embora ansiosos para estender o braço e receber a picada que salva, não estão em pânico. São gratos a um governo que soube enfrentar a pandemia com transparência e honestidade, e sabem que a vacina virá quando tiver de vir. Têm confiança no governo.

“É tudo histeria e complô!!!”
Charge publicada no jornal alemão Stuttgarter Zeitung

Covid no Brasil
Já em nosso maltratado Brasil, tivemos a desgraça de ter covid e Bolsonaro ao mesmo tempo. É dose cavalar. Desde o início da pandemia, o dirigente-mor não escondeu seus sentimentos: negou a doença, desdenhou dos cuidados básicos de prevenção, tratou o povo de maricas, disse que não era coveiro, incitou os brasileiros à desobediência civil. Para coroar, fez propaganda contra a vacina, pôs medo na cabeça das pessoas, instilou a dúvida.

O resultado é que se vai firmando a impressão de termos na Presidência um homem que não gosta do próprio povo. As pessoas se sentem desamparadas. A estúpida guerrinha da vacina, patrocinada por ele e por seu ministro da Saúde, só faz reforçar o sentimento difuso de abandono. Só o clamor popular é que tem feito o presidente retroceder. Ele vai de recuo em recuo, gerando uma situação constrangedora para ele e angustiante para nós outros. Todos nos demos conta de que, caso esperemos sentados, essa vacina só virá no dia de São Nunca.

De estardalhaço em estardalhaço, nosso dirigente-mor deixou o povo convencido de que não se pode contar com ele. Essa situação criou pânico geral. Governadores, prefeitos, autoridades sanitárias e até o STF se metem no assunto da vacina. Se Bolsonaro tivesse sabido congregar a população num esforço coletivo de combate ao vírus, estaria hoje com aprovação nas alturas. E o povo estaria esperando confiante, certo de que a vacina virá quando tiver de vir. Mas – ai de nós! – ele não quis ou não soube fazer isso.

Vê-se que nosso doutor nunca teve um chefe como o que eu tive, nem recebeu conselho que valha. Ou talvez tenha recebido, mas não entendeu. Dá no mesmo.