Esqueceram de aprender com os erros

José Horta Manzano

Em abril do ano passado, a epidemia de covid começava a assustar o mundo. No entanto, no Brasil, muita gente fina jurava que a doença nunca chegaria ao país, visto que o clima tropical não convinha ao vírus. Era a primeira de uma longa série de patacoadas pronunciadas desde então. A fala da ‘gripezinha’, obra de nosso capitão, veio logo engrossar a série. Aliás, em qualquer série de patacoadas, a participação do presidente é garantia de boas pérolas.

Naquele momento, pouco ou nada se sabia sobre o novo vírus. Na Europa, por uma razão ignorada, a Itália foi atingida mais cedo e mais duramente que os vizinhos. Embora o país conte com estrutura sanitária de alto nível, o súbito aumento no volume de doentes apanhou a todos de surpresa. Hospitais lotados, pacientes em macas nos corredores, cortejos de carros fúnebres circulando na escuridão da noite – foram cenas chocantes que marcaram aquelas semanas.

Primeiro país a sofrer um assalto maior da epidemia, a Itália se defendeu como pôde. A maciça investida do vírus desequilibrou a ação do governo e transtornou a vida dos cidadãos. Toda essa confusão estava ligada à emergência da situação e à inexistência de precedentes. Foi compreensível.

Quando se alastrou com força para os outros países, que já tinham assistido aos dissabores italianos e já tinham tido tempo pra se preparar, o ataque viral encontrou terreno mais organizado. O horror visto na Itália nas primeiras semanas não se repetiu nos vizinhos.

O princípio de que o ser humano aprende com as desgraças não parece aplicar-se, infelizmente, a nosso país. Os erros se repetem e, como é sabido, acarretam as mesmas consequências.

by Kleber Sales

Neste segundo ano em que o planeta vive em função da pandemia e mergulhado nela, o que está acontecendo estes dias em Manaus é um rematado absurdo. É situação surreal, inconcebível, insuportável. Estivéssemos num país africano miserável, ainda passava. Mas no Brasil? Como é que conseguimos chegar a esse ponto de descaso?

Há certamente uma cadeia de responsabilidades, que incluem a direção de hospitais, autoridades municipais, estaduais e federais. No nível operacional, como é possível que os encarregados esperem que pacientes morram asfixiados para só então botar a boca no trombone pra denunciar a falta de oxigênio? Por outra, se denunciaram e não foram escutados, aí o enguiço é feio. Até que nível chegou o grito de alarme? Até o topo? Doutor Pazuello, o mago da logística, é a autoridade máxima. Acima dele, somente o doutor maior, Jair Bolsonaro. Estavam a par da catástrofe anunciada?

Tivemos quase um ano para nos preparar. Somos 200 milhões de almas, com um sistema nacional de saúde que funciona há décadas, com um corpo médico e paramédico de excelência, com indústria que produz os insumos básicos para assistir os doentes de covid. Numa federação como a nossa, não se podem tolerar horrores como os de Manaus. São a negação da solidariedade e da coesão nacional.

Pergunta
A simbólica visita de reconforto a um hospital manauara, que nosso chefe de Estado está programando, foi marcada para quando mesmo?

6 pensamentos sobre “Esqueceram de aprender com os erros

  1. Há uma contradição em termos no título: não se pode esquecer alguma coisa que nunca foi memorizada, lembrada ou aprendida. A arrogância e a perversidade dessas criaturas extrapolaram todos os limites civilizatórios. Ontem à noite rezei para que alguma subcelebridade decidisse fazer alguma coisa urgente e hoje de manhã constatei que vários artistas e “influencers” (inclusive Luciano Huck) já se solidarizaram e enviaram tubos de oxigênio para Manaus. Quem sabe eles não ficam com ciúmes da imagem positiva desse pessoal e levantam a bunda da cadeira.

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    • Como se pode constatar, o descaso inunda todos os níveis da sociedade. A maldade do chefe da nação já não precisa mais ser demonstrada, assim como a dos que o cercam, que são farinha do mesmo saco. Mas, convenhamos, não se pode esperar que todas as instruções, decisões e soluções venham de cima. (Principalmente numa época em que, de cima, não vêm instruções, nem decisões, nem soluções.)

      Nos hospitais de Manaus, como por toda parte, deve haver funcionários pagos para controlar os estoques. Como é possível que tenham deixado baixar o abastecimento ao ponto de deixar gente morrendo asfixiada? Estavam esperando o quê? Milagre de Nossa Senhora?

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      • Pelo que eu ouvi em telejornais e notícias na Internet, os administradores dos hospitais alertaram com bastante antecedência o Ministério da Saúde do esvaziamento de estoque de cilindros de oxigênio e de outros insumos (como remédio para dor, anestésico para intubação, etc.). Deixaram claro que sobra cloroquina e ivermectina, mas faltam muitos outros medicamentos. Foi então que o digníssimo general-ministro decidiu ir a Manas esta semana para visitar os hospitais e levar o “apoio” das Forças Armadas – só que, ontem, informou que não havia aeronaves da FAB disponíveis para levar os produtos a Manaus. Foi desdito pelos fatos mais uma vez: ontem à noite um avião da FAB levou 6 tanques de oxigênio (que dariam para 240 cilindros) e agora de manhã um outro decolou de SP com produtos doados pelo governador. Só falta agora encontrarem uma solução para contratação emergencial de médicos e enfermeiros para substituírem os que estão exaustos com a maratona de tentar salvar os pacientes que ainda sobrevivem com ventilação manual.

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          • Não quero apoquentá-lo com outros detalhes escabrosos do caso Manaus, mas acho que precisa ficar claro que, além das omissões, parece haver uma “contribuição” um pouco mais ativa para agravar o problema: 1) o governo federal aumentou o imposto de importação dos cilindros de oxigênio dias antes do caos se instalar nos hospitais; 2) a White Martins avisou na semana passada que não tem mais capacidade de produção para atender à demanda dos hospitais, que está 3 vezes maior do que o habitual; 3) a polícia local apreendeu 33 cilindros num caminhão e outros 40 numa balsa (nos 2 casos, eram revendedores que alegaram temer que seus comércios fossem invadidos por particulares desesperados para salvar algum parente)

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