Prepare seu coração

José Horta Manzano

Dentro de 71 dias, seremos milhões a depositar nossa confiança (ou nossa ojeriza) na familiar urna eletrônica. Fazemos parte de um contingente habilitado a votar que supera a marca de 150 milhões de cidadãos.

Por mais que alguns ainda mantenham ilusões de terceira via, uma análise desapaixonada revela que a escolha dos eleitores já não contempla essa perspectiva. A eleição está afunilada, e restam apenas dois candidatos no páreo.

Pouco importa o programa de governo que apresentem – se apresentarem algum. Nosso próximo presidente será aquele, dos dois, que for alvo do nível de rejeição mais baixo. Mais uma vez, a maior parte do eleitorado não votará por convicção, mas por eliminação.

Meu voto não será de adesão. Por mim, os dois candidatos iriam para a lata do lixo. Com uma pedra em cima, que é pra nunca mais saírem de lá.

O voto nulo não faz sentido. É deixar que outros decidam em meu lugar. Vou escolher o menos pior. Prepare seu coração.

Cartaz com boas-vindas a Lula
“Lula é um bandido”
Uberlândia, junho 2022

Cartaz com boas-vindas a Bolsonaro
“Bolsonaro é um assassino”
Washington, março 2019

Me ajuda aí, pô!

José Horta Manzano

Muita gente está até hoje refletindo sobre a irresponsável convocação que o capitão fez ao corpo diplomático lotado em Brasília para lhes dar um “brienfing”. No dia em que o presidente tiver deixado o poder e for feito um balanço, esse episódio será um dos pontos infames – são tantos! – que serão recordados de sua desastrosa passagem pelo Planalto.

Ao refletir retrospectivamente sobre o simulacro de governo que nos vem sendo imposto há três anos e meio, vai ficando claro que o capitão é exemplo cuspido e escarrado da figura do pidão. O termo, coloquial mas dicionarizado, designa o indivíduo que vive pedindo as coisas, que passa a vida na expectativa de que outros resolvam seus problemas.

Já no dia a dia, longe de apresentar as realizações de seu governo, o presidente se apoia em “laives” e falas de cercadinho para se lamuriar. Em vez de se mostrar tranquilizante, aparece regularmente sob os trajes de quem pede ajuda, por não estar conseguindo cumprir seu papel.

Há momentos em que o pidonismo fica ainda mais evidente. Tome-se o Sete de Setembro do ano passado, quando Bolsonaro se comportou como se estivesse prestes a anunciar um golpe de Estado com a entrada do país em regime ditatorial. A coisa pegou supermal. O Judiciário, a imprensa, presidentes de instituições e cidadãos comuns encresparam. O ambiente ficou tão pesado que, com medo do camburão, o presidente apelou para seu lado pidão. Chamou Michel Temer, pediu conselho, e o resultado todos conhecem: aquela carta ao povo, com pedido de desculpas. Que o capitão, sozinho, nunca conseguiria redigir.

Outro momento de “me ajuda aí, pô” foi quando Bolsonaro se encontrou com Biden, à margem da Cúpula das Américas. Ele jura que não disse isso mas as paredes, que têm ouvidos, contaram que o capitão pediu ajuda a Biden para evitar que Lula subisse ao poder e instalasse o comunismo no Brasil. A gente fica aqui imaginando na má impressão que o pedido extravagante deixou na cabeça de Biden, que conhece Lula e sabe que ele já esteve 8 anos no poder sem sequer tentar instalar o comunismo no país.

A recente convocação de embaixadores se inscreve no mesmo quadro do pidão compulsivo. Naquela ocasião, o discurso de Bolsonaro foi além do simples pedido. No fundo, era uma chantagem. O recado subliminar era: ou vocês me dão uma ajuda aí, ou vão ter de aguentar o Lula na Presidência.

Conclusão? O pidonismo é mais uma característica – desagradável e negativa – que vem enriquecer a já abastada coleção de horrores que povoam a mente de nosso perturbado capitão.

Desequilíbrio

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Os diplomatas são discretos por dever de ofício. Não são eles que farão comentários sobre a preleção que o capitão lhes deu ontem. Qualquer palavra que dissessem seria comprometedora. A mensagem que transmitirão aos respectivos governos é de que o presidente do Brasil, ao conspurcar a imagem do próprio país, cometeu um flagrante crime de responsabilidade.

De toda maneira, que venha dos embaixadores que estavam presentes ou dos plebeus, como nós outros, seres pensantes que não fomos convidados, o comentário será unânime: “Que papelão!”.

Mais uma vez, o presidente expõe o fundo de sua personalidade e deixa patente sua imbecilidade e seu desequilíbrio. É um ser atormentado. O infeliz não se dá conta da incoerência de seus ataques ao sistema de voto brasileiro. Se foi eleito para a Presidência por um sistema fraudado, é sinal de que a fraude o favoreceu. Por que razão não o favoreceria de novo?

Parece que até os círculos de devotos mais chegados estão começando a se cansar desse fluxo incessante de baboseiras. Se até eles estão irritados, imagine nós. O discurso de Bolsonaro é o discurso de um derrotado. A cada pronunciamento desse tipo, ele deve perder milhares de votos.

Em artigo de hoje, Eliane Cantanhêde equacionou com precisão: “A grande ameaça à democracia, à eleição e à imagem do País não é a urna eletrônica, é o presidente da República”.

Crime de responsabilidade

José Horta Manzano

Bolsonaro passou por cima do Itamaraty e mandou o chefe de cerimonial do Planalto convidar embaixadores estrangeiros lotados em Brasília para um encontro a realizar-se nesta segunda-feira. O convite não explicita o tema da reunião, mas todos já sabem do que se trata. O capitão já deixou vazar que tem intenção de “convencer” os diplomatas de que o sistema brasileiro de voto eletrônico é falho, disfuncional e aberto à fraude.

Em resumo, o objetivo é enxovalhar nosso avançado processo de voto, sistema que vem dando satisfação há um quarto de século. O presidente prefere não recordar o fato de ele vir sendo eleito e reeleito há décadas por esse mesmo sistema. Ousa acusar de fraudulenta a última eleição presidencial, vencida por ele. Os diplomatas hão de estar perplexos com o contorcionismo presidencial.

Agora vamos aos fatos. Eu, você e o menino da porteira, que não somos personalidades públicas, somos livres de ter e exprimir nossas opiniões. Já com o presidente, o caso é diferente. Ao receber em palácio diplomatas estrangeiros, ele deixa de ser o cidadão Jair Bolsonaro. Naquele momento, ele é o presidente da República do Brasil. Suas palavras têm um peso que as nossas não têm.

Diplomatas costumam ser discretos, é o próprio da função. Difícil será obter deles algum comentário depois do encontro. Mas as paredes têm ouvidos. Nestes tempos de redes sociais hiperativas, não vamos tardar a saber o que foi dito.

Caso se confirme que o presidente chamou representantes de dezenas de países estrangeiros para difamar e desacreditar nosso sistema eleitoral, rebaixando o Brasil ao vergonhoso patamar de republiqueta de bananas, ele terá cometido flagrante crime de responsabilidade – um crime que o expõe a processo de impeachment.

É surpreendente que ninguém, no entourage presidencial, tenha alertado o chefe para esse risco. Talvez seja a demonstração de que essa gente não pensa com a própria cabeça e não consegue enxergar um palmo além do nariz.

Se o crime não for denunciado por nenhum parlamentar da oposição, será porque estão todos dormindo no ponto.

Segunda urna

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

José Horta Manzano

No passado, na época em que se podia chamar gentes e coisas pelo nome certo, o ministério que cuidava das Forças Armadas de um país se chamava Ministério da Guerra. Ainda que não houvesse guerra à vista, entendia-se que sua função era estar de prontidão para a próxima.

Na década de 1960, o Brasil seguiu a tendência mundial de substituir o nome desse ministério. A menção à guerra desapareceu. Hoje, em nosso país, seria o caso de pensar seriamente em ressuscitar a antiga denominação.

O atual ministro da Defesa, um general de nome Paulo Sérgio de Oliveira, fiel escudeiro do capitão, vem agindo como menino de recados. Suas palavras estão encharcadas de pensamento bolsonárico.


O general é o porta-voz informal do desespero presidencial. Tornou-se verdadeiro ministro da Guerra. Da guerra às urnas.


Suas investidas são praticamente diárias. A última saiu ontem. Trata-se de uma proposta capenga de aproveitar a votação de outubro próximo para testar a confiabilidade da urna eletrônica. A ideia é organizar uma votação paralela, com registro em papel. Em seções eleitorais selecionadas, o eleitor votaria duas vezes: uma vez na urna tradicional e uma vez pelo arcaico sistema com cédula de papel ou coisa que o valha.

A apuração seria a prova dos noves. A totalização da eletrônica teria que bater com o voto em papel. Agora imagine o distinto leitor. Em outubro, além do presidente da República, elegeremos deputados federais, senadores, governadores e deputados estaduais. Votar uma vez já não é tarefa simples. Imagine então votar duas vezes: o risco de se enganar é elevado. Suponha que, por infelicidade, o total dos dois sistemas não bata. Como é que fica?

Será o sinal verde para a balbúrdia. As redes ferverão. Bolsonaro fará pronunciamentos mais agressivos que de costume. Generais se pronunciarão. É o caminho para melar as eleições e dar um jeito de prolongar mandatos à espera de nova votação. Isso na melhor das hipóteses – as consequências podem ser ainda piores.

A armadilha é clara, só não vê quem não quer. Vamos torcer para que o TSE não ceda à pressão.

Dizem…

José Horta Manzano

Certas declarações são inacreditáveis. Não, não estou falando de nosso capitão. Há gente que, com um pouco menos de grosseria, diz asneiras iguais ou piores que as dele. Vamos ver.


“Tem gente dizendo que já começou a terceira guerra mundial.”


Quem teria pronunciado essa sentença tão vaga quanto ameaçadora? Pelo impreciso “tem gente que”, supõe-se que seja um indivíduo distante dos círculos de decisão onde se prepara o futuro da nação. Quem terá sido?

Vamos a mais um indício. O mesmo sujeito, na mesma ocasião, emendou com ar sério: “[Nos fóruns internacionais] perguntam se estamos com as democracias ou do outro lado do mundo (com a Rússia)”. E acrescentou: “Já está havendo um estremecimento e o Brasil é tão abençoado que as pessoas disputam o poder sem perceber que lá fora pode ter uma guerra em andamento”.

Bem, pelo teor do palavreado, dá pra perceber que se trata de alguém que fez estudos mas que está distante do poder. Será um palestrante, um professor universitário, um empresário. Certo?

Errado, senhôras & senhores! O nome do homem é Paulo Guedes, ministro da Economia desde o início da (indi)gestão Bolsonaro. Num ato falho, talvez para impressionar a plateia ao revelar que frequenta importantes fóruns, acabou confessando dois pecados.

Em primeiro lugar, mostrou o pouco interesse que o ministro da Economia da maior potência da América Latina tem pela inserção de seu país nos negócios globais. O homem parece ter pouca leitura. Se este blogueiro, que não participa de “importantes fóruns internacionais”, está a par do que Sr. Guedes só conhece de ouvir dizer, ele também deveria estar sabendo. Basta ler a imprensa internacional.

Em segundo lugar, ao falar durante cerimônia no Ministério das Comunicações, o ministro escolheu hora e lugar errados. Assuntos dessa gravidade  têm de ser imediatamente repassados ao mais alto escalão. A informação de que ficou sabendo por ouvir falar cabia numa reunião ministerial, com o presidente e toda a tropa. Quem sabe algum ministro deixaria, por um instante, de apenas bajular o capitão, e determinasse que o corpo técnico de seu ministério encampasse a questão.

Do presidente, é sabido que nada se pode esperar. Nos numerosos ministros, tampouco se pode ter muita confiança.

Resta-nos São Benedito, que não costuma falhar. Quase nunca.

Brasil armado

José Horta Manzano

Nos bons tempos de antigamente, arma de fogo era artigo raro. Entre os civis, os que mais se interessavam eram os caçadores – por motivos óbvios. Aliás, armas se vendiam em loja de artigos para caça e pesca.

Mas toda sociedade evolui. Assim ocorreu com a sociedade brasileira, que nem sempre evoluiu no bom sentido. Em certos pontos, em vez de progredir temos regredido. No quesito armas, por exemplo.

Hoje qualquer pivete anda armado. E atira. Não se passa um dia sem notícia de algum homicídio causado por um assaltante imbecil, num ato que não traz proveito ao autor.

Pense agora no crime de Foz do Iguaçu, em que o bolsonarista matou o petista. Reparou que matador e vítima estavam ambos armados? Um trazia a arma dentro do carro de família – com a família dentro! O outro levava consigo um revólver em plena festa de aniversário – com a família ao lado!

É verdade que se tratava de profissionais da polícia, mas isso não os obriga a andar armados quando não estão em serviço. Aliás, suponho que devesse até ser proibido.

O fato é que, se nenhum dos dois estivesse carregando o trabuco, o entrevero teria se limitado a uma troca de insultos, como é moda atualmente, e mais nada. No entanto, com a bênção e o incentivo do clã presidencial, armas se disseminam e nosso faroeste cria raízes profundas.

Outros dramas estão a caminho.

A matraca

O trem blindado, o capacete de aço e a matraca

José Horta Manzano

Faz hoje 90 anos que estourou em nosso país uma guerra interna. Em São Paulo, é conhecida como Revolução Constitucionalista, enquanto no resto do Brasil é chamada de Revolução Paulista. Tinha o objetivo de derrubar o governo e destituir o ditador Vargas.

Eram objetivos ambiciosos demais e praticamente impossíveis de alcançar, tanto que o movimento malogrou. As tropas federais eram superiores em número de combatentes e em equipamento. Os combates tiveram início em 9 de julho de 1932 e se encerraram três meses depois, com a rendição do exército paulista e o desterro dos chefes principais.

O capacete de aço, o trem blindado e a matraca entraram para a história como símbolos daquele conturbado período. O capacete de aço protegia a cabeça dos combatentes. O trem blindado, apelidado de “Fantasma da Morte” pelos soldados federais, semeava o terror, fazendo as vezes de um verdadeiro tanque de guerra, camuflado e com canhão. E a matraca era um engodo engenhoso; ao ser girada na noite escura, imitava ruído de metralhadora, assustando e retardando a progressão da tropa inimiga.

Não assisti à Revolução de 1932. Sem querer cometer sacrilégio, matraca, para mim, traz doces lembranças da infância. Era o vendedor de biju doce que passava na rua em frente de casa. O homem andava curvado sob o peso de um enorme tambor verde-claro onde estava armazenada sua preciosa carga de guloseimas.

A matraca e o biju

Para anunciar sua chegada, o vendedor de biju girava uma matraca. Mas era um modelo diferente da que tinha sido usada em ’32. A matraca do biju tinha um som característico, compassado, que me marcou a infância. Será que o homem do biju ainda passa?

Observação
Os símbolos da revolução foram tema de uma irreverente marchinha de carnaval composta por Braguinha, gravada por Almirante e lançada em 1933. No youtube aqui.

Seis por meia dúzia

José Horta Manzano

Nossa memória coletiva é curta. Fatos que enchiam a atualidade 5 ou 6 anos atrás sumiram, saíram de cartaz e ninguém fala mais deles.

Lula da Silva assumiu a Presidência em 2003. Com o passar dos anos, o lulopetismo foi se entranhando na cena política nacional. Com linguajar soviético-policial, dizia-se que o PT tinha “aparelhado” as instituições da República; que seus braços tinham “infiltrado” estatais, autarquias, semiautarquias, agências, departamentos e repartições; que estava tudo “dominado”.

A infiltração parecia estar instalada para todo o sempre. A menos que se faça uma despetização, “o Brasil está perdido”, temia-se. Nesse espírito, Bolsonaro foi eleito.

Não foi preciso esperar os 13 anos da era anterior. Hoje, passados apenas 4 aninhos, eis que de novo a sensação geral é de que a República está infiltrada. A diferença é que, desta vez, não são mais elementos lulopetistas, mas bolsonáricos.

Contas feitas, jornalistas informam que, nos altos escalões, seis mil militares estão refestelados. Sem contar montanhas de apadrinhados em estatais, autarquias, semiautarquias, agências, departamentos e repartições.

Igualzinho ao que era antes. Trocamos seis por meia dúzia.

Isso deixa uma notícia ruim: esteja quem estiver instalado no trono, sinecuras serão tomadas de assalto por uma horda de companheiros e apaniguados sem qualificação para o posto nem disposição para o batente.

Tem-se a impressão de viver num rodopio, num moto perpétuo, num movimento pendular supernocivo para a sociedade, mas no qual nós, os membros da sociedade, não podemos participar.

Por seu lado, a prisão de doutor Ribeiro, ex-ministro da Educação – pessoa notoriamente não qualificada para o cargo que exerceu – é boa notícia. Não digo a prisão em si, dado que, dependendo do juiz, um habeas corpus a qualquer hora vai tirar o doutor do cárcere. A boa notícia é que, diferentemente do que às vezes se imagina, não está tudo dominado.

A Polícia Federal continua cumprindo sua missão e mostrando que não é órgão do governo, mas do Estado brasileiro. É um alívio, uma constatação importante nestes tempos de desvirtuamento das instituições. Não é a salvação da lavoura, mas não deixa de ser um bálsamo.

Alimenta um bilhão?

José Horta Manzano

Faz dez dias, em discurso na Cúpula das Américas, Jair Bolsonaro garantiu que “o Brasil alimenta 1 bilhão de pessoas no mundo”. Foi rematado exagero.

Os dez principais produtos que o Brasil exportou em 2021 foram:

Que levante a mão quem encontrar, nessa lista, alimento para um bilhão de pessoas.

Soja? E alguém come soja? Tirando algum tofu que se come uma vez por ano, a soja não é para consumo humano. Serve para a engorda de animais. Óleo de soja? Fora do Brasil, nunca vi.

Farelo de soja, que são os resíduos após extração do óleo, destina-se também à alimentação animal.

Entre os dez principais ítens exportados em 2021, somente as carnes e os açúcares servem para comer. Será exagero dizer que esses produtos “alimentam um bilhão”. Onde está esse bilhão que se alimenta de carne e de açúcar?

A pauta das exportações brasileiras me deixa pensativo. Sei que a humanidade tende a tornar-se vegetariana. Na Europa, a oferta de produtos vegetais que substituem a carne aumenta a cada dia. Em diversos países, são lançadas campanhas para diminuir o consumo de produtos animais.

Me parece surpreendente que, tirando os “açúcares e melaços”, as locomotivas que puxam nossas exportações continuem baseadas em carnes e produtos para engorda animal.

Com o trigo, a Ucrânia e a Rússia – essas, sim – alimentam um bilhão. O Brasil, não.

Um governo previdente captaria o Zeitgeist – o espírito das grandes transformações da sociedade global – e incentivaria o plantio de outros vegetais,  grãos principalmente.

Eu disse um governo previdente.

Vox populi – 3

José Horta Manzano

Semana passada, uma pesquisa encomendada ao Ipespe deu que falar. Entre outros pontos, media a percepção que o eleitor tem da honestidade de cada candidato.

Nesse quesito, 35% dos eleitores julgam que, entre todos os candidatos à Presidência, Lula é o que melhor se enquadra no conceito de honestidade. Quanto a Bolsonaro, são 30% os eleitores que o veem honestidade nele – 5 pontos percentuais abaixo do placar do Lula.

Não deixa de causar certa surpresa que o Lula, depois de gramar ano e meio de masmorra úmida por ter sido reconhecido como corrupto – por três instâncias –, ainda seja visto como campeão de honestidade.

Outra curiosidade vem do fato de Bolsonaro, que insiste em garantir que não há corrupção em seu governo, receber pontuação mais baixa que o Lula.

A pesquisa causou um choque nas hostes bolsonaristas. Choveram pedidos de bloqueio dos resultados. Pelo que entendi, os sondadores se encolheram e suspenderam a publicação, mas o estrago já estava feito. Todos os veículos da mídia nacional já tinham publicado a notícia.

Derramado o leite, só nos resta avaliar o que esses números dizem do Brasil que se oculta atrás de uma persistente cegueira coletiva e contagiosa.

Se for bem agitada a bateia, o ouro da pesquisa vai aparecer, bem escondido, lá no fundo. Pra se dar conta da realidade, basta examinar esses números ao contrário.

Se 35% dos eleitores acreditam que o Lula é honesto, isso significa que 65% o consideram desonesto. É verdade estatística. E o capitão? A pesquisa atesta que 70% dos pesquisados o veem como desonesto.

Fica a certeza de que, seja qual for o vencedor, o Brasil será presidido por um desonesto. Ou, pelo menos, por um indivíduo que é pressentido como desonesto por 2 em cada 3 brasileiros.

Brasil, país do futuro? Brasil, país sem futuro.

O país mal-amado

José Horta Manzano

Deslumbrada com as baboseiras cuspidas por Bolsonaro nos EUA, a grande mídia brasileira sonegou a seus leitores a notícia do ano: o corredor automobilístico Lewis Hamilton foi homenageado pela Câmara Federal brasileira.

O que me alertou foi um artigo publicado na mídia estrangeira. Um projeto de resolução relatado no ano passado pelo deputado federal Jhonatan (sic) de Jesus propunha conceder ao corredor britânico o título de cidadão honorário do Brasil.

Entre os partidos, só o Novo (Amoêdo) orientou seus deputados a rejeitarem a proposta. Sem mais objeções, o projeto acabou sendo aprovado quinta-feira passada. Sir Lewis Carl Davidson Hamilton, que já ostentava o título de cavaleiro da Ordem do Império Britânico, recebeu mais uma honraria para enriquecer sua coleção: é cidadão brasileiro “honoris causa”.

A justificativa para a concessão da cidadania honorária é a “relação emocionalmente forte” que o campeão tem com nosso país. Mas o que derreteu mesmo os deputados foi quando Sir Lewis (agora Senhor Lewis) teve a feliz ideia de desfraldar uma bandeira brasileira ao término do último GP de São Paulo de F1. O gesto trouxe a lembrança de Ayrton Senna, figura que marcou nossa memória coletiva.

Numa primeira análise, a reação dos parlamentares parece anacrônica. Afinal, com tanto problema mais importante no país, outorgar cidadania honorífica a estrangeiros parece falta do que fazer. No entanto, diante da situação atual do país, a atitude dos parlamentares é compreensível.

Estes últimos tempos, nossa bandeira tem sido confiscada por uma gente estranha, saída não se sabe de onde. Refiro-me a esse povo que, embora se enrole nas cores nacionais, dá sustentação a um presidente que corrói o pouco de civilização que tínhamos. Dá tristeza ver um símbolo – que é de nós todos – prisioneiro de gente que não enxerga além do próprio umbigo.

A visão do pavilhão verde-amarelo destemidamente desfraldado por um estrangeiro sem ligação com os violentos devotos do capitão foi como um bálsamo, o primeiro passo para a reapropriação de nosso símbolo maior.

Acredito que, embora nenhum dos parlamentares se dê conta, seja essa a razão inconsciente que levou boa maioria da Câmara a aprovar a acolhida de novo cidadão.

A pátria, machucada pelos maus tratos que vem recebendo dos que a governam, tem premente necessidade de reconhecimento internacional. Não sei se Senhor Lewis levantou a bandeira de caso pensado. Seja como for, acertou em cheio.

Vacina pra quem pode?

José Horta Manzano

O Brasil é realmente um lugar estranho. No mundo civilizado, a epidemia de covid foi encarada em cada país como problema nacional. Como tal, foi enfrentada pelo poder público.

Na Europa, pelas informações que tenho, a vacinação anticovid foi encampada em todos os países pelo governo central. Em todos eles, a compra, a distribuição e a aplicação da vacina foram atribuição exclusiva do sistema público de saúde.

Me surpreende a notícia de que o presidente Bolsonaro deve assinar, nos próximos dias, uma medida provisória liberando a vacinação privada contra a covid.

Ao entregar a vacinação à iniciativa privada, nosso governo está abrindo mão de sua prerrogativa de coordenador da saúde pública. Por que razão faz isso? Que interesses estarão por detrás da decisão governamental? Não ficou claro.

O efeito colateral é a reafirmação da desigualdade entre cidadãos. Quem puder desembolsar R$ 300 para a picada, receberá vacina de primeira linha. Os outros? Que se danem. Todo o mundo tem que morrer mesmo.

O padrão dos loucos varridos

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Mesmo para os padrões que costumam ser usados para avaliar loucos varridos, Bolsonaro exagera na paranoia. Vamos aos antecedentes.

Em 1988, o capitão se candidatou pela primeira vez a um cargo eletivo. Naquele tempo, a urna eletrônica ainda era um sonho com ares de ficção científica. Foi eleito vereador do município do Rio de Janeiro.

Com dois anos de vereança, decidiu alçar voo mais ambicioso. Abandonou o mandato e candidatou-se a deputado federal. Saiu eleito. Deve ter gostado do novo emprego. Profissionalizou-se. De lá pra cá, cumpriu oito mandatos seguidos, sempre representando o Rio na Câmara Federal.

Desde a virada do século, as eleições vêm sendo realizadas com urna eletrônica. Que se saiba, Bolsonaro jamais reclamou nem lançou dúvida sobre a lisura dos pleitos. É sabido que os insatisfeitos costumam chiar; portanto o silêncio do capitão indica que ele estava feliz e satisfeito.

Um dia, decidiu tentar a Presidência da República. A história, todos conhecemos. Foi o candidato mais votado no 1° turno, mas não atingiu os 50% necessários para a vitória. Foi preciso organizar mais um turno. No segundo, os 55% de votos recebidos foram amplamente suficientes pra lhe dar direito a subir a rampa.

Pouco tempo depois da eleição, Bolsonaro botou em circulação um rebuliço estranho e fora de esquadro. Deu início a uma bizarra campanha de descrédito do sistema que o tinha levado ao Planalto.

Choramingou que a eleição tinha sido “fraudada”. Com toda probabilidade, a atitude do capitão é caso único no mundo. Um candidato enxergar fraude na eleição em que saiu vencedor é realmente de dar vertigem.

O mais curioso vem agora. Nas oito vezes em que se elegeu deputado, o capitão nunca se insurgiu contra a lisura do sistema. Já nas eleições presidenciais, denuncia fraude no primeiro turno, mas não no segundo. Como é que pode?

Se o sistema tivesse sido fraudado para impedi-lo de ganhar no primeiro turno, os autores da fraude, vendo que tinha funcionado tão bem, teriam insistido na falsificação. Ou seja, Bolsonaro também teria sido impedido de ganhar no segundo turno.

Esse mistério da desconfiança seletiva, o capitão nunca esclareceu. Nem esclarecerá, visto que o delírio, que decorre da triste patologia que o acomete, só existe na cabeça dele.

Bolsonaro e o jornalista desaparecido

José Horta Manzano

Rapidez de raciocínio não é a qualidade mais notável do capitão. Sua capacidade de percepção global de uma situação também não é lá essas coisas. Assim mesmo, ele ainda consegue nos surpreender.

Ontem, foi questionado sobre o desaparecimento na selva de um jornalista estrangeiro e de um sertanista brasileiro. Soltou a seguinte frase: “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem é uma aventura que não é recomendada que se faça (sic)”.

E o principal veio em seguida:


“Pode ser acidente, pode ser que tenham sido executados”.


Não é comum ouvir um presidente confessar com candura que, no país por ele governado, há regiões sem lei, onde cidadãos perigam “ser executados” assim, sem mais nem menos. Repare que ele não disse “assassinados”, mas “executados”.

Tirando o fato (já conhecido) de ele se exprimir em linguagem de miliciano, é surpreendente o capitão não se dar conta de que sua fala é confissão de fracasso.

De fato, tirando regiões em estado de guerra como a Síria ou o Iêmen, nenhum dirigente diria coisa desse tipo. Nem que fosse verdade.

Fica a desagradável impressão de que o governo não controla parte do território nacional.

Ou, pior ainda: que, tendo recebido informações confidenciais sobre o acontecido, o presidente as está sonegando ao distinto público.

Há ainda uma última (e terrível) hipótese: a de que a ordem de “execução” tenha emanado das mais altas esferas do poder. Mas seria tão absurdo, que prefiro nem falar nisso.

Observação
Não se espera de um presidente da República que emita comentários pessoais sobre o maior ou menor perigo que indivíduos tenham decidido enfrentar.

Neste momento de preocupação nacional, cabe a ele tranquilizar a população e assegurar que está “pessoalmente empenhado” em descobrir rapidamente o paradeiro dos desaparecidos.

Pode até ser blá-blá-blá, mas é o que se espera de um dirigente.

Livre, justa e solidária

South China Morning Post, Hong Kong (China)

José Horta Manzano

Dou uma vista d’olhos na edição online dos principais veículos da mídia internacional. Em todas as línguas, o mundo continua horrorizado com a tragédia de Pernambuco. Os relatos vêm sempre acompanhados de fotos impactantes e da contagem macabra dos mortos.

Dou uma espiada na edição online dos grandes veículos da mídia brasileira. Na manchete e nas chamadas da página principal, nem um pio sobre as enchentes. Nada. Quem quiser ter alguma informação tem de fazer uma busca. No Brasil, o desastre pernambucano parece assunto encerrado.

Fica a impressão de que, para a mídia nacional, nem Recife nem Pernambuco fazem parte do território brasileiro. É como se a tragédia tivesse acontecido no Nepal ou na Mongólia, num lugar longínquo e pouco interessante.

É verdade que, comparados às seiscentas e tantas mil vítimas da covid, a centena de mortos de Pernambuco parece pouca coisa. Mas não se pode raciocinar assim. Embora “todo o mundo tenha que morrer”, como ensinou nosso capitão, cada um que se vai deixa um rastro de tristeza. Um marido, uma esposa, filhos, amigos, uma família desamparada. Quando não é a família inteira que desaparece ao mesmo tempo.

Fica claro que o Brasil já virou a página dessa tragédia. Eu me pergunto o porquê desse desinteresse. Por que razão esses sinistrados saíram do foco das atenções tão rapidamente? Gostaria que a razão não fosse aquela que estou adivinhando, mas acho que é isso mesmo: porque são pobres.

EuroNews – Edição russa

Não há de acontecer, mas me pergunto se, por hipótese, um desastre semelhante atingisse um bairro de gente fina – como a região da Vieira Souto, da Oscar Freire ou outra equivalente – se a indiferença seria a mesma.

Acredito que todos nós temos a resposta. A olhos estrangeiros, a desigualdade que cinge a sociedade brasileira sobe a níveis inimagináveis. Até tragédias recebem tratamento diferenciado, dependendo da posição social dos atingidos.

O Artigo 3° de nossa Constituição enumera os quatro objetivos fundamentais da República. O primeiro deles é “construir uma sociedade livre, justa e solidária”.

Falta muito pra chegarmos lá. Se é que um dia chegaremos.

O camburão

Pesquisa Datafolha, 26 maio 2022

José Horta Manzano

Pesquisas de intenção de voto, há muitas. Mas ninguém pode negar que, nestes tempos de campanha para a Presidência, a mais ansiosamente aguardada no país é a Datafolha. A mais recente saiu quentinha do forno ontem, dia 26.

Dá Lula na cabeça seja qual for a configuração. Nosso guia bate com folga qualquer adversário. Aliás, “qualquer adversário” é força de expressão. Espremida a fruta, constata-se que os candidatos são só dois: Bolsonaro e o Lula.

Se a eleição fosse hoje, como a prudência manda dizer, teríamos uma disputa entre dois nomes. Salvo o milagre de a terceira via tomar fermento e crescer rapidinho, o panorama vai permanecer assim até outubro.

Daqui até lá, o capitão vai continuar esperneando, distribuindo dinheiro a parlamentares do Centrão, loteando a máquina federal, discursando raivoso, trocando ministros e presidentes da Petrobrás, tratando com benevolência matadores e desmatadores. Também vai continuar a praticar seu esporte favorito: dar um tiro no pé diariamente. Portanto, sua pontuação no eleitorado não tende a subir.

Daqui até lá, o Lula vai continuar fazendo o que sabe fazer melhor: reuniões com este e com aquele, conchavos, confabulações, jantares com endinheirados, discursos raivosos, promessas, promessas promessas. Vai dar seus tirinhos no pé também, que ninguém é de ferro. Resultado do páreo: sua pontuação tende a continuar estável.

Portanto, se tudo continuar como está – e parece que assim será –, o Lula é bem capaz de levar no primeiro turno. A partir daí, o roteiro é o de um filme de ficção política. Cada um pode imaginar o seu. Este blogueiro criou um script muito bom, um pitéu capaz de ganhar o Festival de Cannes.

  • Inconformado, Bolsonaro ensaia um golpe de Estado.
  • É apoiado por um punhado de generais palacianos e por um sargento aqui, um cabo acolá.
  • Fracassa.
  • É preso.
  • Desce a rampa – que digo! – sai discretamente por uma porta lateral em frente à qual um camburão está à espera.
  • Atrás dele, vai a meia dúzia de generais palacianos, em fila indiana.
  • Em 48 horas, o filme termina.
  • Dia 1° de janeiro, o Lula assume.

Observação final
Que o Lula não saia dessa muito enfatuado, achando que ganhou por mérito próprio. As coisas não são bem assim. Se ele for eleito, seu grande cabo eleitoral terá sido o capitão. Se o presidente fosse outro – qualquer outro –, o Lula não ganhava de jeito nenhum. Xô!

Ainda bem que o vice é Geraldo Alckmin. O Lula já tem idade, nunca se sabe o que pode acontecer. Com Alckmin, pelo menos, dificilmente teríamos censura à mídia e apoio a ditadores sanguinários, uma obsessão do Lula.

Peruada

Correio Paulistano, 29 março 1935

José Horta Manzano

Até os anos 1930, peruada estava para os perus como galinhada estava para as galinhas: designava um bando de perus, nada mais. É um tanto controversa a razão pela qual os estudantes da Faculdade de Direito da USP dão esse nome aos desfiles e às brincadeiras que organizam uma vez por ano.

Há quem diga que, certa feita, os rapazes furtaram perus de um parque da cidade e os transformaram em alimento digno de saciar a fome de muitas bocas. Outros dizem que não é bem assim e que a tradição já vem dos tempos do imperador.

As primeiras menções de peruada como nome dos festejos estudantis aparecem na imprensa dos anos 1930. No Correio Paulistano de 29 de março de 1935, o comitê organizador publica um comunicado com as regras do trote – chamado ‘peruada’. Avisam que o couro cabeludo de todo calouro será rapado. Acrescentam que ainda será cobrada de todos uma “modesta” quantia de 20$000 (vinte milréis, valor considerável para a época, equivalente ao preço de venda de 100 jornais).

Numa demonstração de que não é de hoje que as classes abastadas gozam de privilégios inalcançáveis para os mais modestos, o comitê informa que, mediante pagamento de 200$000 (duzentos milréis, soma astronômica, correspondente ao preço de 1.000 jornais), o calouro será poupado e poderá conservar as melenas.

É muito triste constatar que, passados noventa anos, o país continua empacado. Continuamos vivendo numa sociedade dividida entre os que têm e os que não têm.

Não é chocante que haja desnível financeiro entre cidadãos. O que choca é o exagero. A enorme riqueza não assusta; o que horroriza é a extrema pobreza. Não me parece escandaloso que um indivíduo possua bilhões; já a existência de cidadãos que passam fome é a demonstração de que a sociedade é disfuncional.

Em nosso país, há os que não têm teto, há os que passam fome, há os que têm de trabalhar para sustentar os próprios estudos, há os que são obrigados a ter mais de um emprego para sobreviver, há famílias vivendo debaixo de viadutos, há iletrados e analfabetos.

Enquanto isso, um presidente anda de jet ski e um ex-presidente dá festa de casamento para 200 convidados. Ambos são candidatos nas próximas eleições. São muito bons na hora de insultar-se mutuamente, mas quando vem a hora de apresentar um plano consistente para fazer o país avançar, o que se vê é o nada e o que se ouve é o silêncio ensurdecedor.

Algo enguiçou no país, e ninguém parece muito preocupado em desenguiçar.

Estocando vento

José Horta Manzano

Era 25 set° 2015. Dilma discursava num evento patrocinado pela ONU. Como de costume, falava de modo confuso, com frases que nem sempre tinham começo, meio e fim. Talvez até quisesse dizer algo, mas a mensagem não passava, como se entre ela e o ouvinte houvesse uma parede. Algum som passava, mas as frases chegavam rateando.

Lá pelas tantas – pra quem quiser recordar, é fácil encontrar no youtube –, Madame afirma que o Brasil tem hidroelétricas e que a água é de graça. Diz também que o Brasil também tem vento, mas que não dá pra estocar vento.

Ah, pra quê! Ela foi alvo de uma avalanche de críticas, sarcasmos e gozações. Jornais publicaram charges, o fruteiro da esquina deu risada, o motorista de aplicativo comentou com um sorriso maroto, até o porteiro do condomínio tirou uma casquinha e abanou a cabeça.

Somada ao fato de haver afirmado dois anos antes que acreditava no ET de Varginha, essa da estocagem do vento selou a entrada de Madame no panteão das personalidades excêntricas. (Dizem que um rico que age fora dos padrões normais é excêntrico, mas um pobre nas mesmas condições é louco. Que cada um tire suas conclusões.)

Estadão, 12 mai ’22

Mas o mundo gira. Sete anos depois do vento de Madame, parece que os cientistas estão descobrindo modo de armazená-lo. Isso pode ser visto de duas maneiras. Pode-se dizer que não passa de coincidência e que a fala da doutora não tem nada a ver com a descoberta dos cientistas. Pode-se também dizer que Madame era uma visionária com o dom de levantar um problema antes de todo o mundo. Talvez tenha sido inspirada pelo ET de Varginha, vai saber.

Agora, que estamos no caminho da solução do problema da estocagem do vento, Madame está 50% perdoada. Para receber absolvição completa, tem de revelar ao país se a ideia foi dela ou se foi sugestão do ET. Depois disso, o nó estará desfeito. Conforme for, passaremos todos a acreditar tanto na estocagem de vento quanto no ET.

Agora, sem brincadeira, tente comparar por um instante a personalidade de Madame com a do capitão.

Têm características comuns. São ambos irritadiços, mandões, incompetentes, ignorantes, presunçosos, desbocados, sectários. Devem ter outros pontos em comum que não me ocorrem neste momento.

Mas têm diferenças importantes. Da boca de Madame, não me lembro de ter ouvido palavrão soltado em público. Já da boca do capitão, cruz-credo! Quando ele se prepara para falar, é bom tirar rápido as crianças da sala. Ele próprio não se dá ao respeito, razão pela qual não pode esperar pelo respeito de ninguém. Do jeito que se comporta, o capitão é tão respeitado quanto o pinguço que, acotovelado no bar da esquina, resmunga palavrões.

O grande estrago que Madame provocou no país foi de ordem econômica, com sua “nova matriz”, que já veio bichada e com prazo vencido. Mas a economia, sabe como é, estraga-se hoje, amanhã está consertada. Não se lembra como o Plano Real deu um jeito, num piscar de olhos, numa inflação que fermentava havia 50 anos?

Já o estrago provocado pelo capitão é bem mais profundo. Os milhares de quilômetros quadrados de floresta destruída não crescerão nunca mais. Ele acelerou o caminho da desertificação de nosso território. As armas distribuídas a torto e a direito não voltarão ao fornecedor; parte considerável delas vai irremediavelmente terminar nas mãos do crime organizado. As terras da União doadas a grileiros, agora com escritura passada em cartório, não voltarão ao cofre da viúva – são nacos de nosso território ofertados aos amigos do rei, e perdidos para sempre.

A lista é longa. Poderia citar dezenas de exemplos. O problema é que, a cada linha que escrevo, vai batendo o desânimo. Paro antes que venha a depressão.

Conclusão
Acho que até a doutora, apesar da ignorância, da mandonice e da incompetência seria menos nociva para “essepaiz” que o capitão. Se este blogueiro (que jamais votou no PT) tivesse de escolher entre os dois, não hesitaria um instante.

O imperador do Japão

José Horta Manzano

Numerosos pontos ligam Bolsonaro e Lula, os dois principais concorrentes às presidenciais de outubro. Um ponto importante é o fato de ambos serem homens do passado.

Bolsonaro continua a viver com os pés fincados nos anos de chumbo que o Brasil viveu quando eram os militares que davam as cartas. Ele imagina ressuscitar a ditadura. Aliás, na sua cabeça, não é bem assim – a questão não é nem de reimplantar o sistema que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

De fato, por mais autoritário que fosse o regime daquela época, até que havia certa rotatividade no topo do Executivo. Do 31 de março até a eleição de Tancredo, cinco generais se sucederam no comando da nação.

Na cabeça de nosso aprendiz, não é assim que deve funcionar. Ele imagina ser guindado à cabeça de um regime sem rotatividade, sem alternância, sem mudança. Pretende permanecer no topo sozinho, como um Führer, um Duce, um Conducător, um Lider Máximo. Até a queda final, que pode ser por deposição ou coisa pior. Tudo que sobe acaba caindo um dia. Mas cada um se ilude como pode, não é mesmo?

Lula, nesse ponto, não pensa igualzinho a Bolsonaro. Por ter exercido a Presidência – pessoalmente ou por procuração – durante 14 anos, já perdeu as ilusões. Os quase 600 dias de cadeia lhe ensinaram que, quanto mais alto for o coqueiro, maior será o tombo. Sua parecença com Bolsonaro, em matéria de ligação com o passado, é forte, mas não se pode dizer que sejam idênticos.

Lula, que alguns dizem ser esperto como raposa, não quer (ou não consegue) entender que o mundo mudou. Não estamos mais nos anos 1970, em que ele subia numa caixa de sabão à frente da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, fazia um discurso inflamado para os companheiros, dizia o que lhe passava pela cabeça, e tudo ficava por isso mesmo. Ele ainda não se compenetrou de um fator inexistente à época mas fortíssimo hoje: o politicamente correto.

Nascido nos EUA anos atrás e potencializado por internet e redes sociais, a tendência a se exprimir de maneira politicamente correta impõe linguagem pasteurizada, isenta de palavras e expressões que possam, de perto ou de longe, ser consideradas ofensivas por esta ou aquela categoria de cidadãos.

Outro dia, Lula dircursou numa cerimônia de um partido chamado Solidariedade. (Abram-se parênteses: Este blogueiro acredita que todos os partidos deveriam se chamar Solidariedade. Afinal, ser solidário deveria ser a característica maior de todo afiliado. Fechem-se os parênteses) Lula sabe que muitos, neste país, acalentam o sonho de implantar o semipresidencialismo. No afã de demolir essa ideia que o horroriza, tirou do bolsinho uma metáfora infeliz. Referiu-se ao imperador do Japão de forma depreciativa.

Ato contínuo, uma torrente de críticas desabou. Deputados petistas se sentiram incomodados. Até (ou principalmente) a comunidade japonesa ressentiu-se da menção desairosa.

Sabe-se que história e geografia não são ocupam lugar preferencial nos parcos conhecimentos de nosso guia. Sabe-se que, apesar de ter passado 8 anos como presidente do país, outros assuntos devem ter lhe parecido mais interessantes – afinal, ler e estudar dá uma preguiça! História, geografia e geopolítica ficaram de fora.

Vai aqui um conselho ao Lula. Dificilmente ele lerá estas linhas, mas algum assessor bem-intencionado talvez possa transmitir-lhe a ideia.

Ô Lula! Da próxima vez que vosmicê quiser trazer a imagem de um homem poderosíssimo, use uma figura que não existe, mas que impressiona. Aqui estão algumas metáforas que não vão incomodar ninguém:

Ele age como se fosse o sultão de Samarcanda!

Ele pensa que é o imperador da Quirguízia!

Ele se acha o emir da Mongólia!

Deixo aqui a pista. Seus assessores certamente encontrarão outras variantes, que é pra não bater sempre na mesma tecla.

Aproveite, que conselho meu é grátis e desinteressado. Como dizia um irmão meu, “se é de graça, até injeção na veia”.