Bolsonaro e o jornalista desaparecido

José Horta Manzano

Rapidez de raciocínio não é a qualidade mais notável do capitão. Sua capacidade de percepção global de uma situação também não é lá essas coisas. Assim mesmo, ele ainda consegue nos surpreender.

Ontem, foi questionado sobre o desaparecimento na selva de um jornalista estrangeiro e de um sertanista brasileiro. Soltou a seguinte frase: “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem é uma aventura que não é recomendada que se faça (sic)”.

E o principal veio em seguida:


“Pode ser acidente, pode ser que tenham sido executados”.


Não é comum ouvir um presidente confessar com candura que, no país por ele governado, há regiões sem lei, onde cidadãos perigam “ser executados” assim, sem mais nem menos. Repare que ele não disse “assassinados”, mas “executados”.

Tirando o fato (já conhecido) de ele se exprimir em linguagem de miliciano, é surpreendente o capitão não se dar conta de que sua fala é confissão de fracasso.

De fato, tirando regiões em estado de guerra como a Síria ou o Iêmen, nenhum dirigente diria coisa desse tipo. Nem que fosse verdade.

Fica a desagradável impressão de que o governo não controla parte do território nacional.

Ou, pior ainda: que, tendo recebido informações confidenciais sobre o acontecido, o presidente as está sonegando ao distinto público.

Há ainda uma última (e terrível) hipótese: a de que a ordem de “execução” tenha emanado das mais altas esferas do poder. Mas seria tão absurdo, que prefiro nem falar nisso.

Observação
Não se espera de um presidente da República que emita comentários pessoais sobre o maior ou menor perigo que indivíduos tenham decidido enfrentar.

Neste momento de preocupação nacional, cabe a ele tranquilizar a população e assegurar que está “pessoalmente empenhado” em descobrir rapidamente o paradeiro dos desaparecidos.

Pode até ser blá-blá-blá, mas é o que se espera de um dirigente.

Cavanhaque

José Horta Manzano

Na primeira metade do século 19, a França viveu uma época de grande agitação social, com insurreições, golpes e revoluções. Louis Eugène Cavaignac (1802-1857) destacou-se como militar e homem político. O homem marcava presença em todos os movimentos. Só sossegou quando perdeu (feio) as eleições presidenciais de 1848. A propósito, diga-se que, despeitado, recusou-se a reconhecer o resultado do pleito.

Na França, é um nome histórico um tanto esquecido. Pouco se ouve falar dele. Já no Brasil, curiosamente, o general é lembrado diariamente. É que, por uma dessas peças que história prega, o francês emprestou seu sobrenome a um atributo masculino que está muito de moda: o cavanhaque.(*)

É interessante notar que, de uma trintena de línguas que consultei, nenhuma usa essa palavra pra indicar a barbicha que muitos homens, hoje em dia, deixam crescer na ponta do queixo. Na pátria do general, o atributo se chama barbiche ou barbichette. Várias línguas lembram da imagem do bode e dizem algo como barba de bode (kaprobarbo em esperanto, por exemplo).

General Louis Eugène Cavaignac (1802-1857)

Descobrir o porquê desse uso nosso custou alguma pesquisa. Em Portugal, a barbicha chama-se pera(ê). A palavra cavanhaque, para nomear essa excrescência pilosa, é exclusividade brasileira. Pelo que consegui encontrar, teria sido usada pela primeira vez por um dos integrantes da equipe do Marechal Rondon, o conhecido sertanista.

Quem relata é o filósofo e linguista francês Jacques Derrida (1930-2004), em seu livro De la Grammatologie. Os sertanistas costumavam dar apelidos aos índios. Numa incursão, em contacto com uma tribo de nhambiquaras, travaram conhecimento com um indígena de barbicha ‒ coisa rara, visto que índios costumam ser imberbes. Um dos sertanistas deu-lhe o apelido de Cavanhaque, justamente por achá-lo parecido com o general francês. Não consegui saber como é que o apelido de um índio se difundiu a ponto de cobrir o país inteiro.

Se tudo isso é verdade, não posso garantir. É o relato fiel do que encontrei. Se alguém tiver melhor explicação, eu ficaria feliz em conhecer.

(*) Cavaignac pronuncia-se cavenhac.