Os sucessores

José Horta Manzano

Essa foto sorridente foi tirada estes dias. Embora nenhum dos onze personagens apareça envolto na bandeira nacional, o fato de carregarem uma foto do antigo presidente – de faixa presidencial e tudo – deixa supor que sejam bolsonaristas. De alto coturno, sem dúvida, mas bolsonaristas.

Se não, vejamos. A ausência de diversidade do grupo é típica dos seguidores do capitão. É o retrato de um Brasil uniforme, que só existe nos sonhos deles, bem longe do Brasil real. Na foto, são onze homens e nenhuma mulher. São todos brancos sem mistura. Tirando um ou outro, estão todos na força da idade – nem muito jovens, nem muito velhos.

Estão todos bem alimentados, sem exagero. O infalível personagem que simboliza o atirador anabolizado, primitivo e supertatuado também aparece. O onipresente filho n° 03 também está lá. Dos onze participantes, cinco ostentam pelos faciais, que lhes acentuam a imagem de virilidade. O personagem anabolizado é justamente o mais barbudo, sabe-se lá por que motivo. Por alguma razão pessoal, os demais dispensam essa marca de masculinidade.

É curioso que a confraria tenha julgado necessário exibir uma foto do ex-presidente fugido. Mostrar retrato de pessoa viva é raro. É mais comum ver grupos ostentando a foto de um ente querido que já não está mais neste mundo. Quando eu era jovem, por exemplo, me lembro que nossas fotos de família eram tiradas contra uma parede onde estava pendurado um retrato do avô falecido décadas antes.

A inserção da foto do capitão é enigmática. Não ficou clara a mensagem que o grupo quis passar. Tudo depende da disposição de espírito dos confrades. Há diversas possibilidades.

Disposição de espírito branca
“Somos apóstolos do capitão e ele continua sendo nosso guia. Aqui está a prova.”

Disposição de espírito amarela
“Nosso mestre está no momento fora do ar, mas ele volta logo. Ele é este aqui, ó!”

Disposição de espírito laranja
“Bolsonaro iniciou a ascensão da extrema direita. Agora, com ele ou sem ele, vamos seguir em frente.”

Disposição de espírito vermelha
“OK, ele está politicamente morto e talvez não volte nunca mais. Mas não estamos tristes, não, pelo contrário. Repare no nosso sorriso!”

As joias contrabandeadas

José Horta Manzano

O caso das joias contrabandeadas (supostamente a mando do então presidente Bolsonaro) continua a provocar turbulência. A mídia, que se apossou do assunto, insiste em falar de um “presente para a então primeira-dama”. Está faltando ânimo pra largar as certezas do “ouvi dizer” e explorar o universo do “e se fosse outra coisa”.

Há fatos que saltam à vista.

Valor
Há controvérsia quanto ao valor. Sem ser diamantário, a simples observação dos mais de 50 diamantes grandes que formam colar e brincos, adicionados à baciada de pequenos brilhantes incrustados no relógio e no anel informa que o valor total – cuja avaliação por especialista ainda não foi divulgada – pode ser bem superior a 3 milhões de euros. Pode ser o dobro disso ou até mais, só a perícia dirá.

Origem
Há controvérsia quanto à origem do mimo. Um vídeozinho de 1 minuto demonstra. Logo no início da gravação, interrogado por jornalistas, Bolsonaro conta: “Eu estava no Brasil quando esse… esse… presente foi ofertado lá… [pausa] nos Emirados Árabes”. Ora, toda a mídia repete que o mimo foi generosidade dos donos da Arábia Saudita, mas Bolsonaro, o destinatário, confirma que as joias vieram dos Emirados Árabes. Confundir os dois é o mesmo que confundir Suíça com Suécia, ou Brasil com Argentina.

Desleixo
Há cheiro de queimado quando se vê que uma encomenda de milhões de euros foi transportada na mochila do assessor de um assessor. Pra completar o quadro, veio também uma estatueta equestre cinzelada à mão, arrancada de sua base e espatifada em quatro ou cinco pedaços. Vê-se que o centro das atenções não era a peça artística mas o conteúdo do estojo. Ou talvez quem se encarregou do carreto tinha sangue neandertal nas veias.

Desembaraço
O cheiro de queimado aumenta quando se sabe que foram feitas nada menos que oito tentativas (frustadas) de retirar, em nome do capitão, as peças da alfândega na lábia, no grito e na carteirada.

Esse amontoado de informações às vezes contraditórias me lembra a peça Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello. Os fatos estão aí, só falta a arte e a perspicácia de organizá-los numa sequência lógica. Proponho um esboço de organização.

Por alguma razão que o inquérito esclarecerá, o capitão pediu (ou o mandachuva árabe propôs) uma recompensa por algum favor recebido ou a receber. O valor estipulado foi de 3 milhões de dólares (ou 4 milhões, ou 5 milhões – montante a comprovar). Quando o emir (ou sultão ou rei) pediu o número da conta bancária de Bolsonaro a fim de fazer a transferência, este explicou que não era possível, visto que o mundo mudou e não se pode mais ter conta secreta no exterior com a mesma liberdade de antes. Conversa vai, conversa vem, ficou acertado que, em vez de dinheiro, o valor seria convertido em diamantes, mais cômodos de carregar.

Nessa altura, com medo de ser apanhado pela Receita na hora de passar a alfândega, o capitão sugeriu que as pedras não viessem soltas, mas montadas em colar, brincos, relógio. Em caso de má surpresa, ficaria mais fácil explicar que era um presente para a primeira-dama. Ao fim da aventura, era só desengastar as pedras e vendê-las aos poucos em Antuérpia ou no mercado nacional mesmo.

O rei (ou sultão ou emir) argumentou que não dispunha de diamantes nesse valor, nem soltos nem montados. Precisava primeiro passar encomenda à Casa Chopard. Ficou assim combinado.

Quando as joias ficaram prontas, Bolsonaro despachou um assessor graduado (ministro da República) para ir buscar. Por medida de precaução, a encomenda não veio na bagagem pessoal do ministro, mas na de um assessor. O resto da história todos já conhecem.

A sequência dos fatos não há de ser muito diferente do que o cenário que tracei. A estas alturas, ainda não se pode saber como terminará o caso dos diamantes contrabandeados. O fato é que essa história vai enriquecer a galeria de crimes cometidos por Jair Bolsonaro.

O imperador africano

Sagração de Bokassa 1°

José Horta Manzano

O século 19 marcou o apogeu da colonização da África pelas potências europeias. No final do século, o continente estava fatiado e repartido entre poucos países colonizadores. França e Inglaterra detinham a parte do leão. Os ingleses controlavam boa parte da costa Leste, enquanto os franceses mandavam no Oeste – aquela protuberância rombuda da África, que se projeta no Oceano Atlântico.

As potências europeias saíram enfraquecidas da Segunda Guerra mundial. O nacionalismo africano encontrou terreno fértil para se afirmar. Nos anos 1950-1960, não houve como segurar o movimento: uma a uma, foram pipocando novas nações recém-independentizadas.

A República Centro-Africana alcançou a independência em 1960. Trata-se de um território sem saída para o mar, pouco populoso mas de bom tamanho (maior que a França e maior que o estado de Minas Gerais).

Nas primeiras décadas após a onda de independência, a França conservou forte influência sobre as antigas colônias. Hoje em dia, a presença francesa é menos marcante mas, naquele tempo, Paris era o fazedor de reis. Para ser bem sucedido, todo golpe de Estado tinha de ter o apoio do antigo colonizador.

Em 1965, por meio de um golpe e com apoio francês, Jean-Bédel Bokassa foi alçado à liderança da África Central. Enquanto o governo do novo ditador seguia conforme aos interesses de Paris, tudo foi bem. Em 1976, deslumbrado com o poder, Bokassa inventou que queria transformar o país em império, e que ele seria o imperador. Assim foi feito. Houve festa de coroação, com trono, manto, cetro, coroa, diamantes e pedras preciosas. Um remake da sagração de Napoleão.

Tornado imperador, Bokassa impôs uma política autoritária e excessivamente repressiva. Sua política tomou nova direção, que contrariava os interesses franceses. Três anos depois da proclamação do império, Bokassa foi destituído por um golpe de Estado fomentado e financiado pela França. Isso aconteceu em setembro de 1979.

Um mês depois, em outubro de 1979, o Canard Enchaîné, popular semanário francês de sátira política, revelou que Valéry Giscard d’Estaing, presidente da França, tinha sido presenteado pelo imperador Bokassa com 30 quilates de diamantes. Considerando que o preço médio do diamante lapidado é de 12.000 euros por quilate, isso dá um total de 360 mil euros (R$ 1,8 mi). O escândalo se alastrou mais rápido que fake news.

Giscard d’Estaing estava em plena campanha de reeleição à Presidência. A notícia não podia cair em momento pior. A oposição fez a festa e ajudou a pisar na ferida. Abafa daqui, abafa dali, a história nunca foi elucidada preto no branco. Fica ao gosto do freguês. Por minha parte, acredito que o propagador da notícia tenha sido o próprio imperador africano destituído. Foi vingança pelo golpe de Estado que o arrancou do trono, fomentado pelo governo francês. O caso entrou para a história como Les diamants de Bokassa (Os diamantes de Bokassa).

Giscard d’Estaing acabou perdendo a reeleição. O desastre de imagem causado pelos diamantes do imperador há de ter contribuído para a derrota.

Estourou semana passada, no Brasil, o caso dos diamantes de Bolsonaro. Assim que fiquei sabendo, lembrei imediatamente dos “diamants de Bokassa”. Se a história das pedras das Arábias tivesse vindo à tona antes, Bolsonaro poderia até ter perdido a eleição. Mas… que bobagem estou dizendo! Ele já foi derrotado!

A saga dos diamantes ainda vai dar pano pra manga. Ninguém dá um presente de 3 milhões de euros sem ter um bom motivo pra isso. Reis, xeiques e emires são podres de ricos, mas nem por isso saem distribuindo milhões assim, sem mais nem menos. Alguns pontos ainda estão nebulosos.

Por que razão esse mimo milionário foi dado a Bolsonaro? Qual foi a contrapartida?

Outra curiosidade é o fato de ter sido necessário designar o sub do sub para viajar à Arábia, tomar posse da encomenda e embarcar num avião de volta carregando essa fortuna numa mochila(!). Por que é que Bolsonaro não trouxe na bagagem presidencial? Por que é que o presente não veio por mala diplomática árabe, para ser entregue ao capitão em Brasília?

Quem sabe um dia teremos as respostas. Ou será que o escândalo vai continuar enevoado para todo o sempre?

Baía de Guanabara

Lado a lado, IRIS Dena e IRIS Makran
navios de guerra iranianos atracados no Rio de Janeiro

José Horta Manzano

Dias atrás, contei a história dos dois navios de guerra iranianos que percorriam os oceanos à cata de algum porto de certa importância onde lançar âncora e pavonear-se do poderio bélico da república islâmica.

Na Europa, América do Norte, Austrália ou Japão, nem pensar – a porta está trancada. A Rússia e a China, embora mantenham algum tipo de diálogo com Teerã, preferiram que os barcos fossem se exibir em outras plagas. Países pequenos e de pouca reverberação não servem à finalidade a que a marinha iraniana se propõe.

Sobraram as potências médias. A Indonésia permitiu a atracação dos dois navios. Depois disso, o Irã solicitou autorização para entrar em algum porto da América Latina. O Chile recusou. Afim de não criar ruídos com os EUA, o governo brasileiro não quis resolver antes da volta de Lula de Washintgon. Os Estados Unidos pediram que o Brasil não acolhesse os navios, que não têm nada que fazer por aqui.

Aqui entra em ação uma incrustada tendência do socialismo latino-americano, há tempos incorporada pelo lulopetismo: convém rejeitar tudo o que vem dos Estados Unidos. A diretiva é clara e não deixa margem a interpretação. Apesar de estarmos em plena reconstrução da relação Brasil-EUA, esgarçada por Bolsonaro, Lula não resistiu. Preferiu deixar uzamericânu falando sozinhos. Deu autorização aos barcos.

O almirante da miniesquadra iraniana deve estar muito feliz. Afinal, embora não seja a mesma coisa que Nova York ou Rotterdam, o Rio de Janeiro é uma cidade grande, importante, belíssima e conhecida no planeta inteiro. Atracar na Baía de Guanabara não é pra qualquer plebeu.

Os navios já lançaram âncora no Rio ontem, domingo, logo de manhã cedinho. A estadia prevista é de sete dias, até sábado 4 de março. Os barcos, que tinham passado as últimas semanas feito zumbis, vagando por águas internacionais enquanto aguardavam resposta do Brasil, finalmente encontraram um porto de prestígio para atracar. Lula da Silva preferiu alfinetar Biden enquanto dava palco e holofotes à teocracia islâmica, aquela terra simpática em que mulher que não usar o véu obrigatório vai para a cadeia.

Não há de haver grandes consequências, mas é legítimo perguntar se não teria sido mais razoável alfinetar Teerã em vez de Washingon.

A perna curta

“Segundo mídia brasileira, Bolsonaro foi vacinado contra a covid”

 

José Horta Manzano


Mentira tem perna curta, todo o mundo sabe disso.


E o ditado vale para todos, sem exceção. Quem mente muito acaba desmascarado com frequência.

O capitão Bolsonaro, que um dia governou este país, entra na categoria dos mentirosos compulsivos. Para o ouvinte de cabeça fria, destrinchar o que ele diz e separar o falso do verdadeiro é um desafio.

Desde que se instalou a pandemia de covid, o capitão não deixou escapar nenhuma ocasião para zombar do povo maricas que tinha medo da doença. Assim que surgiu a vacina, montou uma cruzada contra ela. Disse que todos tinham de fazer como ele, que era homem de verdade e que recusava a vacina. Preferia cloroquina.

Muitos adeptos do presidente engoliram essa gororoba, esnobaram a vacina anticovid e ainda proibiram os filhos de se vacinarem contra doenças infantis. Um triste desastre.

Empacado, Bolsonaro jurou de pés juntos nunca ter se vacinado contra a covid. Apesar disso, impôs 100 anos de sigilo aos dados de seu cartão de vacinação. O Brasil ficou com a pulga atrás da orelha. Se é verdade que não se vacinou, por que diabos esconde o cartão? Aí tem treta.

Com o capitão derrotado nas urnas e fugido para o exterior, o mistério é agora desvendado. Por fim, é conhecida a razão do sigilo secular: ele se vacinou sim. Que desmoralização, capitão! O distinto leitor e a simpática leitora poderão argumentar que, pra se desmoralizar, é preciso antes ter moral. Mas essa já é uma outra história.

Homiziado na Florida, Bolsonaro foi obrigado a reagir. Negou com veemência ter se vacinado e alegou que o registro é obra de algum pirata informático mal-intencionado. Exaltado, ameaçou entrar com processo contra o ministro da CGU que desvendou o segredo. Quá!

Realmente, o capitão estava convencido de que ia continuar no poder indefinidamente, com reeleição ou golpe, tanto faz. Imaginava que, enquanto estivesse vivo, ninguém jamais teria acesso a seu registro vacinal.

A reeleição não veio, o golpe gorou, outro presidente está no Planalto. E o mentiroso da perna curta levou um tombo e caiu de boca.

E agora? Como se justificar perante os devotos por seus conselhos furados? Como explicar atitudes do tipo “faça o que eu digo, não o que eu faço”?

Sem problema: seus seguidores acreditam em qualquer historinha, por mais esfarrapada que seja, desde que venha da boca do ex-não-vacinado. Cada um acredita no que quer, não é mesmo?

Lula e os infiltrados

José Horta Manzano


“Nós temo que tirá bolsonarista que está lá escondido há tempo!”


Dá até um friozinho na barriga sentir de novo o clima de guerra fria, uma época em que espiões soviéticos se infiltravam em governos da Europa Ocidental com o objetivo de colher informações para enviar a Moscou. Frisson.

Mas a frase não foi pronunciada por nenhum chanceler alemão, mas por nosso novo presidente – que responde pelo nome de Lula 3. Foi num evento em Santo Amaro (Bahia). A plateia, cativa e domesticada, vibrou.

Eu lembrei da promessa solene de Lula, sacramentada no discurso de vitória: “Vou governar para todos os brasileiros, não só para os que votaram em mim”. E me perguntei se a declaração de Santo Amaro era compatível com a promessa do 31 de outubro. Tenho a sensação de que não é.

No governo, os cargos “de confiança” são milhares. Contando os assessores nomeados diretamente pelo presidente e os funcionários nomeados por esses próprios assessores, dá cerca de 20 mil pessoas. É um mundaréu de gente.

Lula parte do princípio de que esse contingente passa o dia de papo pro ar, só aparecendo no trabalho para bater o ponto. O desejo de Lula é dispensar essa massa de inúteis e substituí-la por novo contingente… de inúteis.

Eu acreditaria nas boas intenções do presidente se ele dissesse que vai cortar metade desse mundo de desnecessários. Aí, sim, a gente perceberia sua preocupação com o dinheiro dos brasileiros. Todos aplaudiriam. Agora, dizer que vai dispensar os bolsonaristas [pra substituí-los por petistas, subentende-se] é asneira sem tamanho.

Esse pessoal pendurado em cabide de emprego não tem necessariamente cor política. São como parlamentares do centrão: aceitam qualquer proposta, desde que levem vantagem. Ter sido nomeado durante a gestão Bolsonaro não faz deles bolsonaristas de bandeira enrolada. Pode ser até que sim, mas pode bem ser que não.

O Lula, que antigamente parecia tão esperto, parece que anda perdendo a malícia. Em vez de dizer a bobagem que disse, devia ter ficado quieto. O que ele disse tem o poder de acentuar a clivagem já existente entre bolsonaristas e o resto dos brasileiros. Com essas ideias de acuar os devotos do capitão num canto, Lula acaba obtendo o efeito contrário: o espírito de corpo deles se reforça e os transforma em adversários ainda mais empedernidos.

Com esse tipo de discurso, Lula 3 prepara armadilhas para si mesmo. Que tal um novo 8 de janeiro?

Bolsonaro no exílio

José Horta Manzano

Fugido do Brasil e autoexilado nos EUA, Bolsonaro sopra o calor e o frio. Um dia, diz que está de malas prontas para voltar; dia seguinte, informa que o retorno não tem data marcada. Ora vem, ora não vem.

Por age assim? Acredito que basicamente é pra mostrar-se vivo. Se, além de sumir de circulação, ficasse quietinho, seria dado por morto e descartado como carta fora de jogo.

É verdade que todos os seus planos foram por água abaixo e não lhe resta nenhum mourão ao qual se agarrar. As Forças Armadas do Brasil não o acompanharam, Trump não quis saber de recebê-lo, seus aliados estão aos poucos saindo de fininha para entender-se com o Lula. A 8.000 km de distância, com medo de voltar, o que é que o capitão pode fazer além de gesticular?

Observe agora a ilustração acima. É uma montagem de fotos extraídas de filmetes feitos por devotos que pagaram pra ouvir uma “palestra” de Seu Mestre num templo evangélico da Florida sábado passado. As imagens foram tiradas de filmezinhos amadores, de baixa qualidade, eis por que aparecem meio desfocadas.

Qualquer um pode notar que o ex-presidente engordou – e muito. Nessas fotos, não me parece que estivesse vestido com colete à prova de balas, como costumava andar no Brasil. O diâmetro do capitão é inteirinho dele mesmo. Imagino que a haute cuisine do Planalto esteja fazendo falta. Nos EUA, sozinho naquele casarão sem terreno onde está homiziado, sem a esposa (que já lançou seu grito de independência e voltou a Brasília), deve estar se alimentando de pizza, hambúrguer, batata frita e maionese em dose dupla.

Ao permanecer nos EUA, Bolsonaro dá sossego a muita gente. A ele, pra começar, que vai pra cama sem o pavor de ser acordado pela PF. Para seus devotos, porque a ausência de Seu Mestre mantém acesa a chama sebastianista de um hipotético retorno. E também para os não-bolsonaristas, que preferem vê-lo pelas costas.

Assim, sua ausência convém a todos. Que ele continue na Disneylândia!

Lula nos EUA

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

A imensa vantagem de Lula, em qualquer viagem internacional, é que sua fama chega antes dele. No Brasil, ele venceu a presidencial com 51% dos votos mas, se todos os eleitores dos países democráticos tivessem podido votar, ele teria levado com um placar soviético de 80% ou 90%. Em resumo: no exterior, o demiurgo conta com enorme capital de simpatia.

Em matéria de ideologia, Lula continua o mesmo. (Aliás, ninguém costuma mudar – algum ângulo mais pontudo da personalidade pode até ser limado, mas a essência permanece.) Pelas contas, estamos na versão Lula 3.0, mas o presidente continua empacado no ideário que já adotava nos tempos de líder sindical. O antagonismo entre “nós” e “eles” é marca de sua personalidade. O vitimismo do oprimido que se revolta contra o opressor está na base de sua cartilha.

Ele persevera na ideia de que redistribuição de riqueza se faz por decreto – daí a guerra declarada contra a política de juros do Banco Central. Lula realmente acredita que bastaria baixar os juros para eliminar a carestia. Não entende (ou não quer entender) que a economia não é ciência exata, e que qualquer mexida num dos pilares pode fazer o edifício desmoronar. Com juros baixos, capitais estrangeiros que hoje garantem o funcionamento do Estado brasileiro vão fugir em busca de mercados mais atraentes. Acontecendo isso, o governo trava.

Se Biden tocar no assunto da invasão da Ucrânia pelos russos, o fará por pura formalidade. O presidente americano já conhece a posição de Lula e sabe que não adianta insistir. De todo modo, para os EUA, um Brasil “neutro” é sempre melhor que um Brasil “solidário à Rússia”, como Bolsonaro um dia garantiu a Putin.

Lula adora navegar entre siglas que lhe parecem importantes. Sons como OEA, Mercosur, Celac, OCDE, Unasur são bálsamo para seus ouvidos. O Brics faz parte desses clubes. Aliás Lula acaba de indicar Dilma Rousseff para presidente do Banco do Brics, com sede em Xangai (China). A Rússia também faz parte do Brics. Com sua lógica peculiar, Lula acredita que não fica bem o Brasil por um lado, ser sócio da Rússia, e por outro condenar a invasão da Ucrânia. Prefere prestigiar o companheiro Putin, colega de clube, e dar de ombros para o povo ucraniano, que sofre as penas do inferno.

Nosso presidente dá preferência a manter acordos comerciais enquanto fecha os olhos para o massacre intencional de milhões de seres humanos promovido por Moscou no território de um país soberano. É o mesmo raciocínio que o faz apoiar gente asquerosa como os irmãos Castro de Cuba, Nicolas Maduro da Venezuela, Daniel Ortega da Nicarágua, Bachar El-Assad da Síria, os aiatolás do Irã, ditadores africanos.

Lula é considerado humanista. Pois é estranho que um humanista dê preferência a sacrificar um povo inteiro no altar das boas relações entre companheiros, mas a realidade é essa. Parece que a máscara de “pai dos pobres” de Lula é só pra inglês ver.

A viagem a Washington, por seu lado, não vai resultar em grandes avanços nem fortes recuos. Para Biden, será a ocasião de mostrar que o Brasil continua um grande aliado, não armado e não belicoso. Para Lula, vai marcar um início de mandato com pé direito, sendo recebido com honras pelo chefe de Estado mais poderoso do planeta. E os ucranianos que se danem.

Os disparates de Lula

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Os disparates de Lula parecem suaves se comparados aos de Bolsonaro. Assim mesmo, embora pronunciados em linguagem decente, não deixam de ser disparates. Tenho às vezes a impressão de que Lula nunca antes atravessou um período de graça como o momento atual.

Aquele meio Brasil que viu na sua eleição uma luz no fim do túnel está aliviado e leniente com suas primeiras besteiras. Esse contingente de brasileiros tende a ser condescendente com as escorregadelas do novo presidente. São eleitores que reagem como se o Lula fosse um iniciante na política, um eleito de primeiro mandato.

Quanto à outra metade do Brasil – os eleitores que votaram em Bolsonaro – é de imaginar que o comportamento do ex-presidente derrotado não tenha agradado. O Datafolha ainda não publicou nenhuma pesquisa a respeito, mas Bolsonaro deve ter deixado um contingente de decepcionados. Sua fuga para o exterior é um crime de abandono de incapazes.

Tanto faz que o chefe seja chamado de Führer, Duce, Conducător, Caudillo, Comandante ou Mito – o próprio de uma seita extremista é a devoção incondicional ao messias. Ele concentra todos os atributos: a sabedoria, o discernimento, a força e a coragem. Um Führer que fraqueja, foge, se esconde no exterior, e deixa os devotos ao deus-dará é uma paulada na moleira. Um contrassenso. Um golpe duro. Um tranco capaz de abalar toda a paróquia.

Isso me faz acreditar que, frustados com o comportamento do líder, muitos dos que votaram nele estão atualmente menos propensos a se opor com veemência a Lula. O Mito fugido nem ao menos apresentou uma boa desculpa para a atitude. Se estivesse sob mandado de prisão, por exemplo, seria compreensível. Mas não há, por enquanto, nenhuma medida decretada contra ele. Se não volta, é porque não quer.

Voltemos agora ao período de graça do Lula. Acho que ele, inebriado com a renovada sensação de poder, não está percebendo que o tempo passa rápido e o tempo de bonança está escorrendo por suas mãos. A ampulheta é implacável.

Ele já disse que respeitar regras fiscais é bobagem. Já levantou o espantalho de nova moeda a ser compartilhada entre Brasil e Argentina. Já tratou seu antecessor de genocida, igualando-se a ele em despudor. Já prometeu financiamento para a exploração de gás na Argentina, quando o Brasil tem milhares de obras paralisadas. Mais de uma vez, já chamou Temer de ‘golpista’. Já repetiu que o impeachment de Dilma foi ‘golpe’, uma distorção da verdade histórica.

Eu me compadeço de um Lula que, aos 75 anos, culpado ou não, purgou 580 dias de cárcere. Compreendo que essa privação de liberdade tenha deixado ressentimentos. Mas não acredito que seja este o melhor momento para esconjurar velhos rancores. Os brasileiros, que anseiam por um ar puro e livre de miasmas, não merecem ser bombardeados com patacoadas.

Presidente, não estrague essa “janela de oportunidades” – como se diz hoje em dia – com declarações ruidosas e desnecessárias. Chega de poluição declaratória. Vá direto ao ponto. Dê aos brasileiros o que eles estão precisando receber.

Como se dizia antigamente: “Ô Lula, aproveita enquanto o Brás é tesoureiro, que essa sopa vai acabar!”(*)

(*) Em outras versões desse sábio ditado, o polivalente Brás é carcereiro.

Vaidade

José Horta Manzano

Os seguidores do “mito” são de uma ingenuidade comovente. Acreditam em qualquer coisa que se diga. Encampam qualquer notícia, desde que venha de fonte amiga, como grupo de zap-zap por exemplo. Se a origem lhes parecer confiável, engolem sem filtro, sem raciocinar, sem analisar.

Se circula no grupo a notícia de que convém apelar para extraterrestres, já vão fazendo sinais para o alto procurando um E.T. Se Seu Mestre disse que as urnas são viciadas, já espalham a informação como se fosse verdade bíblica. Esses indivíduos fazem jus à apelação “zumbis”. Embora sejam do gênero humano, comportam-se como irracionais.

Aderem ao “mito”, sim, mas não abandonam o mundo como quem entra para o convento. A par da devoção à seita, mantêm uma vida secular que os faz parecerem normais. Como todos os humanos, conservam qualidades e defeitos. A vaidade está entre essas características.

Será a vaidade uma qualidade? Um defeito? A pergunta é quase filosófica. Não me cabe definir. Na vida de todos os dias, a vaidade pode ser bem útil. É ela que faz o pesquisador se esforçar para apresentar um resultado fora de série, de olho nos louros. Serve também para incentivar um artista a dar o melhor de si em busca dos aplausos. Mas a vaidade tem seus limites.

Imaginem o distinto leitor e a graciosa leitora que o assalto ao centro do poder, que sacudiu Brasília domingo passado, tivesse ocorrido 20 anos atrás, numa época em que ninguém tirava foto com telefone celular. Tendo em mente que o quebra-quebra se desenrolou longe de repórteres e cinegrafistas, simplesmente não haveria imagens.

Sem imagens, seria praticamente impossível provar a presença de quem quer que seja. As autoridades encarregadas de estabelecer responsabilidades estariam de mãos atadas. Mas a vaidade – e a ingenuidade – dos participantes entregou o ouro.

Peito aberto e rosto descoberto, todos fizeram questão de se identificar. Acreditando nas ‘fake news’ que davam como certa a intervenção das Forças Armadas, desinibiram-se. Quebraram, arrebentaram e roubaram à farta.

Só que… deu errado. Em vez de Forças Armadas, quem agiu foram as Forças da Ordem. Confiscados, os telefones deduraram toda a patota. Se bem que nem precisava confiscar celular, que muita gente fez “laives” da destruição.

Antigamente, nenhum criminoso queria saber de publicidade. Quanto mais longe dos holofotes, mais seguro operava. Nossos “zumbis” devem imaginar que são estrelas do cinema. Ainda não entenderam que as coisas podem dar errado e, nesse caso, o melhor é fugir sem deixar rastro.

Por não terem entendido, estão agora sendo apanhados por terem sucumbido à vaidade de postar laives e selfies mostrando sua participação nos atos criminosos.

A agressão à democracia foi longe demais. Quem ajudou a espalhar o caos vai ter de responder. Colhido pela polícia, cada participante não vai nem precisar tirar foto na delegacia – selfies coloridos já circulam pelas redes.

Perdel mané

PERDEL MANÉ

José Horta Manzano

Muitos comparam a depredação de prédios públicos ocorrida ontem em Brasília com os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, quando arruaceiros, agindo sob a égide de Trump, invadiram e devastaram o Capitólio de Washington. Estão errados.

Os pontos comuns entre os dois quebra-quebras são dois. Em primeiro lugar, não foram atos fortuitos nem espontâneos, mas orquestrados e dirigidos. Em segundo lugar, foram ambos montados “em defesa” de um ex-presidente que, embora derrotado nas urnas, se debatia para voltar ao poder. As semelhanças terminam aqui.

O ataque ao Capitólio tinha um objetivo definido. A ideia era impedir que o Congresso, reunido naquele momento, certificasse a eleição do presidente Biden. Já a agressão ao centro do Poderes de nossa capital federal não teve pretexto. Foi barbárie em seu estado puro, organizada por mentes malignas e executada por mercenários broncos.

Ninguém me convencerá de que os integrantes daquela turba – que já chegaram com paus, marretas e bombas de tinta spray – eram cidadãos tranquilos que estavam passeando com a família na Praça dos Três Poderes quando, de repente, largaram mulher e filhos e correram pra arrebentar o palácio mais próximo. Não. São mercenários a soldo de gente poderosa, que tem interesse em ver o circo pegar fogo.

Aos investigadores, resta perguntar “Cui bono?” – a quem interessa o crime. Com tantas pistas e tantas testemunhas, não há de ser difícil descobrir.

Aos planejadores, resta o exemplo de como não se deve agir. É verdade que as autoridades que cuidam da Segurança Pública atravessam um momento delicado, em que os titulares antigos já se foram, e os novos ainda estão em fase de instalação. Que se instalem rapidamente e que se organizem.

Os ataques de ontem fornecem um caminhão de informações preciosas. Que sejam utilizadas para evitar que tais ataques se repitam.

A mudança do capitão

clique para ampliar

José Horta Manzano

A imprensa publicou este flagrante do carregamento dos pertences do capitão (clique na imagem para ampliar). Os jornais descrevem como “mudança” do presidente, mas eu acredito que seria mais apropriado falar em “despejo”, que é a palavra adequada para o caso de alguém ser impedido de ficar, e sair de má-vontade.

Noto alguns detalhes curiosos. O objeto que está para subir no caminhão deve ser bem pesado, visto que há seis carregadores atarantados em torno, com ar de conjecturarem sobre o melhor modo de operar.

Note que o objeto não está saindo da residência presidencial (Alvorada), mas do Palácio do Planalto, centro nevrálgico do Executivo, onde fica o escritório do presidente, o gabinete do ódio e onde despacham os generais palacianos.

Pelo jeitão, se objeto não for um desconhecido mumificado, há de ser uma estátua representando uma figura humana em tamanho real. Estátua? Saindo do escritório presidencial? Como assim? Será que o capitão estaria subtraindo parte do patrimônio nacional, como Lula já fez no passado?

Pode ser que seja uma estátua de propriedade de Bolsonaro, trazida por ele para enfeitar sua sala. Ué, mas até as emas de Brasília sabem que Bolsonaro odeia a arte! Coisa mais esquisita.

Ouriços tchecos em Kiev

Suponho que a Presidência conte com uma governanta ou com um funcionário encarregado de controlar tapetes, quadros, mobiliário e outras obras de arte. Se o objeto misterioso tiver sido “tomado emprestado por descuido”, a verdade deve aparecer da próxima vez que fizerem o inventário. Por enquanto, fica o mistério.

Outro detalhe interessante é a proteção antitanque de guerra, aquela fileira de “ouriços tchecos” que se estendem de borda a borda da rampa. Inventados pouco antes da Segunda Guerra, esses dispositivos de aço espesso e resistente são de grande eficácia em situação de batalha urbana. Impedem a passagem de todo veículo leve ou pesado e até de tanques de guerra.

Na rampa do Planalto, estão pintadinhos de branco, que é pra evitar chocar alguém. Quem terá mandado instalar? O presidente quase ex-presidente ou o ex-presidente quase presidente? Ao subir a rampa, dia 1° de janeiro, será que Lula & acompanhantes vão ter de saltar por cima desses obstáculos? Vai ser um espetáculo pra lá de gracioso, não percam!

Pra vocês verem quanto uma foto despretensiosa pode nos revelar. Basta observar.

Licence to kill

License to kill – Autorização para matar

José Horta Manzano

Arthur Lira, presidente da Câmara, corre pra fazer aprovar com rapidez uma PEC visando a transformar automaticamente ex-presidentes da República em senadores vitalícios.

A PEC propõe proibir ex-presidentes de voltar a concorrer a cargos eletivos, mas garantir que continuem para sempre cobertos pela imunidade presidencial.

Digam o que disserem, pra mim esse negócio é verdadeira autorização para delinquir. Daqui para a frente, todo presidente será intocável pelo resto da vida, ainda que tenha cometido crimes e barbaridades iguais aos de Bolsonaro ou até piores.

Se o projeto vingar, Bolsonaro estará tranquilo pelo resto de seus dias. E Lula pode trambicar de novo com sítio em Atibaia, triplex no Guarujá ou lingotes de ouro nas Bahamas, tudo com garantia de impunidade até seu último dia de vida.

É sério ou estão brincando? Afinal, que país é este?

Arruaceiros de lá e de cá

José Horta Manzano

Aconteceu em maio de 2003. A Cúpula Anual do G8 estava para realizar-se na cidade francesa de Evian, estação de águas à beira do Lago Leman, localidade bastante turística. A reunião de líderes dos países mais importantes incluía a Rússia conduzida por um Putin que ainda não tinha mostrado seu lado B. Só depois da anexação da Crimeia é que a Rússia seria expulsa e o bloco passaria a chamar-se G7.

Durante os três dias da Cúpula, a cidadezinha de Evian estaria totalmente isolada do mundo, com entradas e saídas rigorosamente controladas por militares armados vindos da França inteira. Só habitantes e visitantes credenciados teriam o direito de entrar. Helicópteros e drones sobrevoariam a localidade. Afinal, eram figurões os que se reuniriam: Jacques Chirac, Vladimir Putin, Silvio Berlusconi, George W. Bush, Tony Blair & alia.

Grupos de jovens, que se autodefiniam como “anti G8”, preparavam manifestações pacíficas. A sabedoria popular, que não costuma falhar, afirma que “é conversando que a gente se entende”. É por isso que até hoje não consegui captar o objetivo daqueles manifestantes que viam com maus olhos o diálogo entre líderes. Será que preferiam que eles se estapeassem ou botassem tanques nas ruas?

Na impossibilidade de penetrar em Evian, onde se realizava a Cúpula, os jovens idealistas escolheram manifestar-se em Genebra (Suíça), cidade bem maior, situada a uns 50 km de distância, à beira do mesmo lago. Os manifestantes marcaram passeatas para os três dias de duração da cimeira. Eram marchas simbólicas com cartazes, megafone e palavras de ordem. Acreditavam que, quando aparecessem nas manchetes e no jornal da tevê, sua visão “anti G8” tocaria corações mundo afora.

Mas nenhuma felicidade é perfeita nem eterna. Grupos de arruaceiros, ao tomar conhecimento das passeatas, sentiram que era chegado o momento de armar um bom quebra-quebra em Genebra. Desordeiros vieram até do estrangeiro – havia alemães, franceses, austríacos, italianos – todos armados de tacos de beisebol e coquetéis Molotov. Um primor.

Vários comerciantes genebrinos, sabedores de que estava para chegar uma horda de agitadores violentos, protegeram a vitrina com tapumes de madeira. Mas nem todos tomaram essa providência. Genebra é uma cidade grandinha, impossível de ser trancada. O fato é que os baderneiros se instalaram na cidade.

Já na véspera da abertura da Cúpula, os profissionais do quebra-quebra entraram em ação. Aproveitaram do escuro da noite para agir. Encapuzados e mascarados, quebraram vitrines, incendiaram lojas, destruíram mobiliário urbano. Foi uma noite de caos. A polícia não pôde fazer muito. Os arruaceiros sempre escolhem agir em campo descoberto, de onde possam escapar rapidamente; nunca se arriscam a jogar bomba em beco sem saída.

E assim continuaram pelas noites seguintes. Hotéis foram atacados e restaurantes McDonald’s, depredados. Os agressores são desocupados sem ideologia: vêm de longe e destroem pelo simples prazer de destruir. Assim que a reunião do G8 terminou, desapareceram. E nunca mais se ouviu falar deles.

Outro dia, em Brasília, quando nosso presidente eleito foi diplomado, arruaceiros tupiniquins decidiram agir. Aproveitando que um punhado de apóstolos do bolsonarismo ainda acampa nas ruas choramingando por um milagre, vestiram-se de amarelo e promoveram uma noite de horror.

Me fizeram lembrar de Genebra 2003 – com eficácia menor, porém. Agiram em campo aberto: posto de gasolina, viaduto, esplanada diante de instituições. São lugares de onde se pode escapar rápido, caso a situação aperte.

A população vê, nesses agressores, bolsonaristas enfurecidos. Já os bolsonaristas acreditam que os autores do quebra-quebra sejam petistas infiltrados.

É difícil dizer com certeza, mas não é impossível que tenham sido agitadores compulsivos, que não precisam necessariamente ser remunerados. Destroem pelo prazer de destruir – o que não os impede de ter preferências políticas. Quais são? Só Deus sabe.

Amazônia à venda

José Horta Manzano


“Aqueles indivíduos bem-intencionados que […] se preocupam com o clima do planeta deveriam dedicar-se a influenciar seus próprios governos no sentido da mudança de padrões insustentáveis de produção e consumo e da utilização de energias renováveis. Nessa área, o Brasil tem muito a oferecer em conhecimento e tecnologia.

Da Amazônia nós estamos cuidando […]. A Amazônia é um patrimônio do povo brasileiro, e não está à venda.”


Não precisa nem dizer que é o autor dessa fala: é evidente que só pode ter saído da boca do capitão. Certo?

Errado! O trecho citado é parte de artigo que a Folha publicou em 2006. Os autores são Celso Amorim, Marina Silva e Sergio Machado Rezende.

É curioso constatar mais uma vez que os extremos se tocam. O tom muda, mas o nó é o mesmo. Bolsonaro já chegou a ameaçar potências estrangeiras ao afirmar que, se ousassem pôr um pé na Amazônia, “a pólvora” iria falar. Amorim e Marina Silva arredondaram o discurso ao proclamar que “a Amazônia não está à venda”, mas a paranoia é a mesma.

Tanto o capitão quanto os petistas não conseguem entender que a preocupação do mundo é com o descaso cúmplice do governo brasileiro diante da acelerada destruição da maior reserva de biodiversidade do planeta. E com as consequências que isso trará para a regulação do clima mundial.

Vamos dar um desconto. O artigo do inefável Amorim e da pasionaria Marina foi escrito 16 anos atrás. Vamos torcer pra que tenham clareado as ideias, já que são ambos cotados para participar do governo Lula. Não custa ter esperança.

Sarrafo alto

José Horta Manzano

Desde que venceu duas Copas seguidas (1958 e 1962), o Brasil se impregnou de um estranho sentimento: o de que é o dono da taça. Em outros termos, os proprietários legítimos e vitalícios do troféu somos nós – qualquer eventual vencedor do campeonato será considerado usurpador.

Nestes últimos 60 anos, a cada edição do Campeonato do Mundo, insistimos em fixar como objetivo trazer a taça pra casa, numa espécie de tudo ou nada. É opção arriscada. É como o atleta de salto com vara que coloca o sarrafo alto demais. O risco de não conseguir chegar lá é elevado. Nessa toada, vamos de desilusão em desilusão, uma a cada quatro anos.

Acredito que deveríamos ser mais cautelosos na hora de colocar o sarrafo. Outros países fixam objetivos mais modestos: chegar às quartas ou à semifinal; eventualmente, de chegar à final. O risco de causar um trauma nacional é menor.

Neste sábado de ressaca, a mídia nacional está coalhada de críticas, tanto à equipe quanto (principalmente) ao técnico. É fácil criticar refestelado num sofá em frente à tevê. Tite devia ter feito isto, esqueceu de fazer aquilo, seria melhor se tivesse feito outra coisa. Bobagem. Profecias do passado são fáceis de fazer.

Até a ordem em que os jogadores bateram os pênaltis é criticada! Como se a conquista da taça tivesse sido frustrada só porque fulano bateu antes de sicrano. É um delírio.

Por que a Seleção perdeu? Ora, porque não fez gol, veja você. O escrete jogou cinco partidas. Tirando o passeio diante da fraca Coreia, sobram quatro jogos sérios. Quantos gols foram marcados nesses quatro jogos? Quatro gols. Dá uma média de um por partida. Me parece fraquinho para quem tem ambição de voltar a ser campeão do mundo.

Mas não tem importância. Os “meninos” da Seleção não precisam do prêmio, visto que já estão esbanjando dólares (e arrogância) ao comer bife de ouro enquanto muitos de seus fãs passam fome.

Quanto ao Brasil, já ganhou o prêmio maior: conseguiu livrar-se do tenebroso capitão. Bolsonaro desocupando o Planalto vale mais que ganhar a Copa.

Descontrole emocional

José Horta Manzano

De criança, era comum a gente ouvir dizer que “homem não chora”. É possível que mães e avós dissessem isso só para fazer o menino parar de encher a paciência.

A sabedoria popular ensina que “os extremos se tocam”. Bolsonaro e Lula são opostos em muitos aspectos mas têm pontos em comum. Um deles é o hábito (compulsão?) de chorar em público.

Volta e meia, um deles deixa lágrimas escorrerem, às claras, de preferência diante de uma plateia, sob a luz dos holofotes. Não têm ar de se envergonharem, antes, parecem orgulhosos da façanha.

Alguém já imaginou um líder de verdade chorando em público? Biden? Putin? Macron? Xi Jinping? Boris Johnson?

São coisas nossas.

Perguntar não ofende ‒ 8

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

E o Neymar, nosso craque, hein! Desencantou e fez seu golzinho. Foi de pênalti, mas foi gol assim mesmo.

Aqui não passaram a coletiva de imprensa pós-jogo. Será que ele cumpriu a promessa de dedicar seu primeiro gol ao capitão?

Se alguém souber a resposta, por favor mande carta para a Redação.

Hino recuperado

José Horta Manzano

Estava lembrando da primeira vez que, num jogo do Brasil de Campeonato Mundial, percebi que nosso hino tinha sido truncado. Aconteceu faz umas três ou quatro Copas. A execução parou no “salve, salve”. Foi esquisito. Cioso do respeito aos símbolos da nação, cheguei a pensar que a vitrola tivesse enguiçado, como ocorria nos discos de antigamente. Depois me informaram que o problema não era de toca-discos, o encolhimento era decisão da Fifa. Como assim?

Pois é, a imensa (e bilionária) empresa que regula o futebol no planeta um dia decidiu que nenhum hino poderia mais passar de 90 segundos (um minuto e meio). O nosso, incluindo a introdução, excedia o prazo estipulado. Portanto, guilhotina nele!

Achei revoltante. A meu ver, a Fifa não é a instância adequada para determinar o tempo de execução de hinos nacionais. Podem decidir, por exemplo, que hinos não sejam mais tocados. Mas não faz sentido alocarem um tempo “tamanho único” para todos.

Essa é minha visão. O Brasil de 2014, ansioso por hospedar a Copa, passou por cima dessas miudezas. Não se avexaram e engoliram o hino truncado. Cutucado, o público deu o troco. Uma vez desligado o som nos estádios na altura do “salve, salve”, o povo continuou cantando a cappella, sem orquestra, num espetáculo de dar arrepio.

Este ano, talvez o leitor já tenha reparado, nosso hino voltou a ser cantado até o fim. Talvez alguém tenha feito uma reclamação à Fifa, argumentando que do “Ouviram do Ipiranga” até o “Pátria amada, Brasil” correm 95 segundos, ou seja, somente 5 a mais que o permitido. Não era pedir muito. Foi concedido.

Bom, graças à Fifa, já recuperamos o hino. Falta que nos devolvam a bandeira, que anda por aí, coitada, tomando chuva e envolvendo ombros zumbis.