Vaidade

José Horta Manzano

Os seguidores do “mito” são de uma ingenuidade comovente. Acreditam em qualquer coisa que se diga. Encampam qualquer notícia, desde que venha de fonte amiga, como grupo de zap-zap por exemplo. Se a origem lhes parecer confiável, engolem sem filtro, sem raciocinar, sem analisar.

Se circula no grupo a notícia de que convém apelar para extraterrestres, já vão fazendo sinais para o alto procurando um E.T. Se Seu Mestre disse que as urnas são viciadas, já espalham a informação como se fosse verdade bíblica. Esses indivíduos fazem jus à apelação “zumbis”. Embora sejam do gênero humano, comportam-se como irracionais.

Aderem ao “mito”, sim, mas não abandonam o mundo como quem entra para o convento. A par da devoção à seita, mantêm uma vida secular que os faz parecerem normais. Como todos os humanos, conservam qualidades e defeitos. A vaidade está entre essas características.

Será a vaidade uma qualidade? Um defeito? A pergunta é quase filosófica. Não me cabe definir. Na vida de todos os dias, a vaidade pode ser bem útil. É ela que faz o pesquisador se esforçar para apresentar um resultado fora de série, de olho nos louros. Serve também para incentivar um artista a dar o melhor de si em busca dos aplausos. Mas a vaidade tem seus limites.

Imaginem o distinto leitor e a graciosa leitora que o assalto ao centro do poder, que sacudiu Brasília domingo passado, tivesse ocorrido 20 anos atrás, numa época em que ninguém tirava foto com telefone celular. Tendo em mente que o quebra-quebra se desenrolou longe de repórteres e cinegrafistas, simplesmente não haveria imagens.

Sem imagens, seria praticamente impossível provar a presença de quem quer que seja. As autoridades encarregadas de estabelecer responsabilidades estariam de mãos atadas. Mas a vaidade – e a ingenuidade – dos participantes entregou o ouro.

Peito aberto e rosto descoberto, todos fizeram questão de se identificar. Acreditando nas ‘fake news’ que davam como certa a intervenção das Forças Armadas, desinibiram-se. Quebraram, arrebentaram e roubaram à farta.

Só que… deu errado. Em vez de Forças Armadas, quem agiu foram as Forças da Ordem. Confiscados, os telefones deduraram toda a patota. Se bem que nem precisava confiscar celular, que muita gente fez “laives” da destruição.

Antigamente, nenhum criminoso queria saber de publicidade. Quanto mais longe dos holofotes, mais seguro operava. Nossos “zumbis” devem imaginar que são estrelas do cinema. Ainda não entenderam que as coisas podem dar errado e, nesse caso, o melhor é fugir sem deixar rastro.

Por não terem entendido, estão agora sendo apanhados por terem sucumbido à vaidade de postar laives e selfies mostrando sua participação nos atos criminosos.

A agressão à democracia foi longe demais. Quem ajudou a espalhar o caos vai ter de responder. Colhido pela polícia, cada participante não vai nem precisar tirar foto na delegacia – selfies coloridos já circulam pelas redes.

De carona

O Globo, 7 jul° 2022

José Horta Manzano

Artigo d’O Globo informa que dezenas de candidatos às eleições deste ano para os cargos de deputado estadual ou federal têm bancado anúncios no feicebúqui e no instagrã. Espero que vosmicê saiba como funciona esse sistema de anunciar em rede social. Quanto a mim, não faço a menor ideia. Sou do tempo em que anúncio se punha no jornal. Não frequento “redes”.

Bom, imagino que, como todo anúncio que se preze, essas inserções tenham um custo. É difícil acreditar que os candidatos enfiem a mão no próprio bolso, portanto devem estar se servindo no fundo partidário – aqueles bilhões desviados de nossos impostos e entregues ao apetite da coleção de partidos que compõem o tabuleiro das incongruências desta exótica República.

Resultado do jogo: os anúncios, na verdade, estão sendo financiados por todos nós.

A maioria dos anunciantes da base bolsonarista se dedica a um sistemático exercício de desinformação, seguindo à risca a cartilha do conspiracionismo. As investidas mais recorrentes, como se pode imaginar, vão contra o sistema de voto eletrônico e contra os ministros do STF – os judas favoritos da turma.

O teor dos anúncios intriga. De candidatos normais, se esperaria que se apresentassem ao grande público, que louvassem as próprias qualidades, que dissessem a que vêm. Em vez disso, temos um bando de zumbis, que entram na sala de visitas dos outros para denunciar o sistema que há de elegê-los – ou até, em numerosos casos, que já os elegeu. Por que fazem isso?

A primeira explicação, que me parece evidente, é não terem nada de substancial a contar sobre a própria personalidade, suas convicções e seu plano de trabalho.

A segunda razão, que decorre da anterior, é que, não tendo nada de interessante a apresentar, tomam carona no bonde do capitão, na esperança de recolher o voto de um punhado de seus devotos mais medrosos.

Em seguida, vem a dúvida. O que pretende essa gente? Será que não se dão conta de que, com esse comportamento, estão jogando um grão de areia na engrenagem bem azeitada da votação eletrônica, consagrada há um quarto de século? Será que não percebem que, ao contribuir para eventual tentativa de golpe, correm o sério risco de serem tragados por ele?

Se – que Deus nos livre e guarde – golpe houvesse e fosse bem sucedido, a primeira providência seria fechar a Câmara Federal e as Assembleias estaduais. Por duração indeterminada, Suas Excelências seriam mandadas de férias sem vencimentos. Talvez fosse organizada nova eleição, talvez não. Em regime autocrático, tudo depende dos caprichos do autocrata, de suas fobias e de sua paranoia.

Com ou sem golpe, esse punhado de candidatos-zumbis já nos dá um antegosto do nível intelectual e moral da nova leva de parlamentares, todos afiados e prontos para se aboletar no bem-bom.