A Copa é uma beleza!

Percival Puggina (*)

MegafoneQuem xingou Dilma no Itaquerão? Fossem sonoros aplausos, a comunicação oficial não teria constrangimento em ressaltar a ruidosa e alegre saudação popular dedicada à presidente. Mas não foram aplausos. Impunha-se, portanto, circunscrever a ação a um pequeno e seleto grupo de privilegiados e encontrar responsáveis.

O ex-presidente Lula, que, prudentemente, não passa nem de avião por sobre os estádios com cuja construção se comprometeu, veio às falas. Ao se manifestar, no dia seguinte, durante um comício do PT em Pernambuco, apelou para o velho truque de emoldurar o fato num quadro simplista: o estádio teria sido capturado por não torcedores, gente cheia de ódio.

Quem estimulou esse ódio? Setores da imprensa. Quais as razões do ódio? Revolta dos ricos contra o crescente bem estar dos pobres. Mas, adiante, sublinhou não haver no estádio ninguém com cara de pobre. “A não ser você, Dilma”. Nenhum “moreninho”. E afirmou que o público era formado pela “parte bonita da sociedade, que comeu a vida inteira”.

by François Matton, desenhista francês

by François Matton, desenhista francês

Ao querer simplificar, Lula complicou e se complicou. É impossível não perceber os preconceitos desse discurso. Para que tal oratória fique de pé, o ex-presidente decide que branco é bonito e moreninho, feio. E que quem sempre comeu se revolta quando todos comem. Por quê?

Faltando os porquês, o discurso cai. Desaba como uma pedra sobre os sapatos Louboutin da presidente com cara de pobre. Lula sempre forçou antagonismos para se posicionar: pobres contra ricos, moreninhos contra branquinhos, olhos claros contra olhos escuros, empregados contra patrões, índios contra civilizados. Ou vice-versa, ao gosto do freguês. Agora, nos apresenta o Brasil dividido, também, entre o Brasil dos bonitos e o Brasil dos feios. Arre, Lula!

DiscursoMas não foi só aí que, por excesso de simplificação, a oratória ex-presidencial despencou a ponto de tornar a fala imprestável para qualquer par de neurônios que lhe desse atenção. Afinal, quem ― sem consultas, sem ouvir a opinião pública, na escuridão do próprio bestunto ― decidiu trazer a Copa de 2014 para o Brasil? Quem cedeu às exigências e padrões da Fifa? Quem multiplicou as sedes e construiu estádios onde sequer existem clubes de futebol? Quem, se não o próprio Lula, criou o cenário para a festa do dia 12, não no histórico Maracanã, não na Capital Federal, mas no estádio do seu Corinthians?

Agora, após o acontecido, ele imagina que o país também se divide entre uma multidão burra e uns poucos inteligentes, entre os quais ele próprio. E fala, novamente, como se nada tivesse a ver com o que acontece no País.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

A quantidade faz a força

José Horta Manzano

Você sabia?

Alguns meses atrás, o site informativo americano Business Insider publicou o resultado de estudo baseado na classificação PISA, que mede o grau de instrução de jovens de 15 anos.

Foram computados os adolescentes que tinham alcançado a nota máxima em matemática ou testes verbais. Em seguida, esses números foram comparados com a população de cada país.

Ainda que, estatísticamente, o resultado seja pura estimativa, não há de estar muito afastado da realidade.

Nosso país, por ter população importante, aparece na lista dos 25 melhores. No entanto, em porcentagem, nossos adolescentes estão bastante distanciados dos demais. Aparecem na rabeira.

Disso tudo, já sabíamos. Assim mesmo, vale a pena dar uma espiada na classificação.

Os 25 países com mais mentes brilhantes Fonte: Actualidad.RT.com

Os 25 países com mais mentes brilhantes – Clique para aumentar      (Fonte: Actualidad.RT.com)

Interligne vertical 11c1. EUA
Estudantes de nível excelente: 1.7%
5.336.300 habitantes de nível brilhante

2. Japão
Estudantes de nível excelente: 4.05%
5.167.800 habitantes de nível brilhante

3. Coreia do Sul
Estudantes de nível excelente: 4.40%
2.200.000 habitantes de nível brilhante

4. Alemanha
Estudantes de nível excelente: 2.60%
2.129.140 habitantes de nível brilhante

5. França
Estudantes de nível excelente: 2.20%
1.445.400 habitantes de nível brilhante

6. Taiwan
Estudantes de nível excelente: 5.85%
1.365.390 habitantes de nível brilhante

7. Canadá
Estudantes de nível excelente: 3.10%
1.081.280 habitantes de nível brilhante

8. Rússia
Estudantes de nível excelente: 0.65%
932.750 habitantes de nível brilhante

9. Reino Unido
Estudantes de nível excelente: 1.4%
885.220 habitantes de nível brilhante

10. Austrália
Estudantes de nível excelente: 3.3%
748.440 habitantes de nível brilhante

11. Itália
Estudantes de nível excelente: 1%
609.200 habitantes de nível brilhante

12. Polônia
Estudantes de nível excelente: 1.45%
558.830 habitantes de nível brilhante

13. Singapura
Estudantes de nível excelente: 9.10%
483.392 habitantes de nível brilhante

14. Turquia
Estudantes de nível excelente: 0.65%
481.000 habitantes de nível brilhante

15. Hong Kong
Estudantes de nível excelente: 6.00%
429.300 habitantes de nível brilhante

16. Holanda
Estudantes de nível excelente: 2.55%
427.635 habitantes de nível brilhante

17. Bélgica
Estudantes de nível excelente: 3.45%
384.330 habitantes de nível brilhante

18. Espanha
Estudantes de nível excelente: 0.75%
354.525 habitantes de nível brilhante

19. Suíça
Estudantes de nível excelente: 4.25%
339.873 habitantes de nível brilhante

20. Brasil
Estudantes de nível excelente: 0.10%
198.700 habitantes de nível brilhante

21. República Tcheca
Estudantes de nível excelente: 1.80%
189.180 habitantes de nível brilhante

22. Nova Zelândia
Estudantes de nível excelente: 4.1%
181.753 habitantes de nível brilhante

23. Suécia
Estudantes de nível excelente: 1.90%
180.823 habitantes de nível brilhante

24. Finlândia
Estudantes de nível excelente: 3.25%
175.955 habitantes de nível brilhante

25. Áustria
Estudantes de nível excelente: 1.7%
143.854 habitantes de nível brilhante

Fontes:
Business Insider
RT – Agência russa de informações

Frase do dia — 149

«O acúmulo de desmandos formou um passivo em que a realidade venceu o marketing.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão de 20 jun° 2014, aludindo ao governo federal e à queda de popularidade de dona Dilma.

Furou

José Horta Manzano

Ninguém pode contestar: futebol é o esporte mais popular sobre a face da Terra. Compreensivelmente, o campeonato mundial é o evento mais midiatizado do planeta. O fato de ser quadrienal ajuda a botar pimenta: quanto mais raro for o artigo, mais valioso será.

Ser focalizado, nem que seja por um instante, pelas câmeras que transmitem jogos da Copa faz efeito fulminante. Para gente desconhecida, gera um causo pra ser contado pelo resto da vida. Para medalhões, é a confirmação do status, a glória planetária autenticada com carimbo e firma reconhecida.

Astros, dirigentes, esportistas, políticos disputam um lugar no camarote VIP ― ou perto dele ― para ter, quem sabe?, a sorte de ser focalizado. A exposição garante notoriedade instantânea.

É verdade que há pessoas que, por alguma particular razão, preferem não ser filmadas nessas ocasiões. Para evitar vaias, apupos ou xingamentos, por exemplo. Ou, mais prosaicamente, para não serem flagradas num lugar onde não deveriam estar naquele momento.

Interligne 18b

Certos figurões chegam a programar, com antecedência de meses ou até de anos, sua presença nessas vitrines. Foi o caso de nosso guia, que presidia o País quando teve lugar a Copa da África do Sul.

O homem chegou a deslocar-se até o continente africano. Seus servis assessores haviam programado um percurso que incluía ― ora vejam a coincidência ― uma passagem pela República Sul-Africana justamente por ocasião da final da Copa. Seria uma ocasião de ouro para aparecer na tribuna oficial, no jogo final do campeonato, como convidado de honra do chefe do Estado. Exposição mundial garantida.

Acontece que o trajeto do Brasil na competição não foi glorioso. A Seleção curvou-se antes do que se esperava. E nosso guia, que não se contenta com coisa pouca, renunciou à aparição pública. Ficou para a Copa seguinte.

Tribuna VIP

Tribuna VIP

Chegou 2014. Não adianta ficar repetindo aqui o que todos já sabem: nem a atual presidente, nem o anterior, nem ninguém que lembre a existência de um deles consegue passar ileso num estádio. São vaias e apupos garantidos.

Grande deve ser a frustração de nosso guia. Justamente ele, que antevia, na exposição midiática que esta Copa lhe garantiria, o reconhecimento universal, carimbado e autenticado, de sua glória pessoal. Deu no que deu.

Interligne 18b

Mas nosso messias não está só: há um outro frustrado. Não sou depositário de segredos de cabeças coroadas, dessarte não posso dar garantia sobre o que vou dizer. Mas pode bem ter-se passado assim.

Primeira consideração:
Entre Copa do Mundo e Eurocopa, a Espanha ganhou todas. Ia de vento em popa. Tudo indicava que chegaria, com facilidade, à final da «Copa das copas».

Felipe VI, da Espanha

Felipe VI, da Espanha

Segunda consideração:
A monarquia espanhola anda bambeando. Repetidos escândalos envolvendo membros da família real ― e o próprio rei ― achacaram os espanhóis. A abdicação do antigo e a assunção de novo rei poderia trazer aquela brisa que desanuvia a atmosfera.

Conclusão:
Por que não juntar o útil ao agradável? Por que não fazer coincidir a sagração do herdeiro com o triunfo da seleção espanhola na Copa? Imaginem que maravilhoso seria se o mundo inteiro visse a aparição do sorridente casal real na tribuna de honra do Maracanã a acenar para a plebe no momento da vitória esportiva de seu país?

Esse cenário não me parece fantasioso. Por mim, foi assim que aconteceu ― aposto minhas fichas. De toda maneira, não saberemos jamais. O que sabemos, isso sim, é que, asseguradamente, o casal real não estará presente à cerimônia de entrega da taça. Furou.

Falando em entrega de troféu, Vladimir Putin já anunciou que estará presente à final da Copa. Quem é que lhe vai fazer companhia? Algum mandarim da Fifa?

Dura lex, sed lex

José Horta Manzano

Você sabia?

Foto: TDG, Genebra

Foto: TDG, Genebra

Os que vendem aqueles petrechos imprescindíveis para compor o perfeito torcedor andam fazendo bons negócios. Bandeiras, bonés, cornetas & congêneres se vendem bem estes dias. E não só no Brasil.

Todo suíço adora hastear uma bandeirinha ― seja em época de Copa ou não. Na janela, num mastro plantado no jardim, na barraca de acampamento, qualquer lugar é bom. Países de território exíguo tendem a ser mais apegados a marcas de nacionalidade.

Fachadas de prédios, nestes dias de «Copa das copas», andam coloridas. O número de estrangeiros é grande, donde a diversidade de bandeiras. Além das suíças, as portuguesas, as italianas e as alemãs são as mais comuns. Até ontem, viam-se muitas espanholas também. Compreensivelmente, desapareceram todas hoje de manhã.

Tenho até um vizinho exótico, que arbora a bandeira da Nova Zelândia ― e não somente durante campeonatos de futebol. Mas isso é raro.

Anda na moda cobrir o espelho retrovisor externo do automóvel com uma capa estampada com o desenho da bandeira. É costume recente e tem feito muito sucesso. Mas cuidado! Pode ser ilegal!

Foto: Keller Fahnen, Suíça

Foto: Keller Fahnen, Suíça

Um automobilista do Cantão de Berna escreveu a um jornal local lamentando-se da multa que levou por ter coberto seu retrovisor com a bandeira nacional. O motivo? É que, em certos modelos de automóvel, o espelhinho externo incorpora uma lampadazinha que serve de pisca-pisca.

Se a capa, ao cobrir o retrovisor, ocultar o pisca-pisca, o automobilista pode ser acusado de ter modificado de modo ilícito as características homologadas do veículo. E a multa pode ser salgada.

A polícia promete não pecar por excesso de zelo, isto é, não tem intenção de parar todo carro que passar com capinha sobre o retrovisor. No entanto, se isso acontecer numa batida policial, aí não tem jeito: multarão.

Dura lex, sed lex. No cabelo, só Gumex.

Uff!

José Horta Manzano

Estadio 4Por intermédio de um vídeo assustador, a audiência internacional da inglesa BBC fica a par da precariedade das estruturas provisórias erigidas às pressas para permitir acesso às arquibancadas do Maracanã.

O comentador se felicita pelo fato de os estádios brasileiros terem atendido à demanda «até agora».

Esperemos que aguentem pelo menos até o fim da Copa das copas. Depois, seja o que Deus quiser.

Interligne 23

Para assistir ao filmezinho de minuto e meio, clique aqui. Atenção: almas sensíveis e cardíacos devem-se abster de clicar.

Negócio da China

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem gosta, gosta. Assim como deve haver brasileiros apaixonados por críquete (eu não conheço nenhum, mas nunca se deve duvidar), há chineses tarados por futebol. Vocês me dirão que, no meio de zilhões de habitantes, se encontra de tudo. É verdade.

Problemas, enquanto não nos atingem, não despertam nossa atenção. Em linguagem mais chã: pimenta no olho do outro é colírio. Vamos aos fatos.

Crédito imagem: dramafever.com

Crédito imagem: dramafever.com

Nosso planeta ― como nos ensinou uma vez nosso guia em aula memorável ― é redondo e gira. Isso faz que diferentes regiões vivam sob diferentes fusos horários. Os jogos do atual campeonato mundial foram programados para favorecer, na medida do possível, espectadores do continente americano, da Europa e da África. É por isso que se joga um pouco mais cedo no Brasil ― justamente para que não caia no meio da madrugada na Europa.

Mas não dá para satisfazer a todos. Sempre haverá os que ficam a ver navios. Desta vez, foram os espectadores do Extremo Oriente. Pela hora chinesa, os jogos caem de madrugada ou de manhã cedo. Para quem tem de trabalhar no dia seguinte, a coisa se complica um bocado. Frise-se que Pequim não decretou que os dias de jogo sejam feriados.

E como é que o chinês fanático por futebol se vira pra não perder transmissões ao vivo? Ora, dá-se um jeitinho. Por lá também, burlar a lei faz parte da cultura nacional. O inglês Telegraph informa ― e o americano Fox 31 repercute ― que a Copa das copas está deixando muita gente doente na China.

Crédito foto: Associated Press

Crédito foto: Associated Press

Doente entre aspas, naturalmente. Depois de perder uma noite de sono, é difícil trabalhar. O mais prático é pedir um atestado médico e justificar a falta ao serviço. Num site chinês chamado TaoBao, qualquer um pode conseguir um talão de atestados por 16 centavos de dólar ― um negócio da China!

Mas a manha, amplamente difundida, é pra lá de conhecida, manjada demais. Mais vale conseguir um documento de qualidade superior. Um atestado com cara de verdadeiro, em papel timbrado de hospital com assinatura de médico, chega a custar pelos 50 dólares. É caro, mas… para um apaixonado, todo sacrifício é pouco.

O governo anda de olho. Assim mesmo, para um torcedor de verdade ― de corneta, boné e bandeirinha ― o risco compensa.

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Nota:
A magnífica aula de geografia ministrada por nosso guia, faz alguns anos, está devidamente imortalizada no youtube. Se você quiser recordar, clique aqui. São 59 segundos inesquecíveis.

A última democracia?

José Horta Manzano

O site de informação Slate traz ― tanto em sua versão inglesa quanto na francesa ― artigo assinado por Anne Applebaum com interessante visão das futuras Copas do Mundo.

«Será o Brasil a última democracia a organizar uma Copa do Mundo?» ― é a pergunta que encabeça o artigo.

A jornalista constata que as obras grandiosas construídas especialmente para Copas e Jogos Olímpicos tendem a tornar-se elefantes brancos. Estádios sul-africanos, japoneses, sul-coreanos e pequineses, erigidos especificamente para esses grandes encontros esportivos, são hoje subutilizados.

by Paulo Ito

by Paulo Ito

As estruturas de concreto levantadas para os Jogos Olímpicos de Inverno de Sotchi, na Rússia, já começam a trincar. A reciclagem pós-olímpica do leste de Londres, tão anunciada pela mídia, ainda não é realidade. Onde quer que se tenham realizado Copas e Olimpíadas, despesas foram muito superiores ao orçamento.

A única diferença entre outros países e o Brasil é que, para nós, o arrependimento chegou antes. Já faz meses que o povo brasileiro se manifesta contra os gastos irresponsáveis que nosso governo se comprometeu a fazer.

O mundo tem observado a reação dos brasileiros com olhos mais atentos do que se imagina. Estes últimos meses, Alemanha, Suíça, Suécia e Polônia, assustadas com as despesas, retiraram sua candidatura para organizar os JOs de Inverno.

Munique (Alemanha) e Davos-St.Moritz (Suíça) renunciaram na esteira da recusa que seus cidadãos exprimiram nas urnas. O povo de Cracóvia (Polônia) foi o mais radical: 70% dos eleitores rechaçaram os Jogos.

Pelo andar da carruagem, as únicas candidaturas que deveriam se manter para os Jogos de Inverno 2022 são Pequim (China) e Almaty (antiga Alma-Ata, Cazaquistão). Não por acaso, ambas as cidades estão em países autoritários, onde o povo não tem como manifestar sua opinião.

Porto Alegre, 12 jun° 2014 Foto Marki Djurica, Reuters

Porto Alegre, 12 jun° 2014
Foto Marki Djurica, Reuters

A mesma razão parece explicar a escolha das duas próximas sedes da Copa do Mundo: a Rússia e o Catar. Ambos apresentam a garantia de que não haverá contestação nem protesto. Quanto a algum referendo incômodo, nem pensar ― o ordenamento jurídico desses países desconhece esse instrumento.

Como outros derivativos, o esporte é ópio do povo. Dá prestígio e dá lucro. As Copas e os Jogos Olímpicos ― o zênite do esporte mundial ― são hoje em dia controlados por seleta nomenklatura. E, naturalmente, continuam sendo financiados pelos manés que somos nós.

Brasil x México

José Horta Manzano

Lula caricatura 1Abusando de seu senso inato para a delicadeza e para a diplomacia, nosso guia fez recentemente sutil pronunciamento repercutido pelo diário mexicano El Economista.

Declarou que, enquanto o Brasil é uma realidade econômica, o México não passa de uma promessa.

El Economista não hesitou em destilar a frase e fazer dela o título do artigo: «Brasil se envaidece de seu passado; México, de seu futuro».

Bateu, levou.

Obscurantismo

José Horta Manzano

Você sabia?

Hoje, às 16 horas, Curitiba terá direito a uma partida entre o Irã e a Nigéria. Não só a capital paranaense, mas o planeta inteiro. Em tempo real. Em directo, como dizem nossos amigos lusos.

Eu disse em tempo real? Well… não é bem assim. Há mundo real e há mundo de faz de conta. Algumas regiões do globo vivem apartadas, debaixo de uma redoma, subjugadas e domadas por uma clique que morre de medo de ser apeada do poder.

Adão e EvaUm desses lugares abafados é justamente a República Islâmica do Irã, a antiga e gloriosa Pérsia. A revolução de 1979, que despachou o xá para o exílio e baniu seu regime brutal, ressuscitou certos costumes medievais. Entre eles, a proteção da moral pública, tal como é idealizada pelos guias espirituais da nação.

Segundo a concepção deles, expor ao público um corpo feminino é ato gravemente ofensivo, a evitar a todo custo. No extremo oposto da austera visão iraniana, o brasileiro está longe de sentir-se horrorizado ao contemplar imagem de beldades pouco vestidas. Muito pelo contrário.

Em estádios brasileiros ― especialmente em dias de calor ― moça bonita não costuma esconder suas curvas. Já nas telinhas iranianas, mostrar mulheres seminuas é simplesmente inconcebível. Como conciliar as cenas captadas pelas câmeras brasileiras e a pudicícia persa?

É simples, ora pois. Basta renunciar à transmissão em tempo real. A televisão iraniana fará a retransmissão com defasagem de alguns segundos, tempo necessário para tapar nudezas tropicais. Toda vez que as câmeras se fixarem em imagens insuportáveis para a castidade persa, os cidadãos daquele país terão direito a um substitutivo. Pode ser uma tela preta ou algum verso de Camões. Talvez até uma receita de quindim.

A sorte dos técnicos malabaristas iranianos é que se espera um tempo fresquinho para Curitiba hoje. Se escândalo houver, será menos repreensível.

Interligne 18g

A notícia nos chega pela versão online do grupo italiano AKI de comunicação.

A ousadia

José Horta Manzano

Ainda que muitos não liguem a mínima pra isso, bato pé firme: não aceito que o meu País se transforme em esconderijo de bandidos, fugitivos de Justiça ou párias internacionais. Já bastam nossos bandidos, nossos fugitivos de Justiça e nossos párias nacionais. Já temos Dirceus e Malufs em quantidade suficiente. Chega, obrigado.

Uma coisa é dar abrigo a perseguidos por razões de raça, de etnia, de religião, de orientação sexual, de opinião política. Outra coisa, bem diferente, é acolher bandidos e fugitivos de Justiça. Coração de mãe não é covil de malfeitores.

Interligne 28a

O Brasil mudou muito de uns 5 ou 6 anos pra cá. A economia já não vai tão bem quanto ia, é verdade. Apesar disso ― ou, talvez, por causa disso ― o povo parece ter aberto um olho. Se a proposta de acolher uma futura Copa do Mundo tivesse de ser tomada agora, em 2014, é duvidoso que fosse aceita.

Briga 2O povo descobriu que tem dirigentes. E os dirigentes se deram subitamente conta de que não vivem em círculo fechado. Perceberam que têm um povo por detrás e que essa gente pode até ― ora, vejam só! ― cobrá-los por seus feitos e malfeitos. Francamente, o mundo está de ponta-cabeça.

Pela primeira vez na história dos campeonatos mundiais de futebol do pós-guerra, o Chefe de Estado do país-sede não dirige palavras de boas-vindas aos participantes. Nada, nenhuma saudação! Três pombas se encarregaram de acolher zilhões de telespectadores de olho colado na telinha. Que vexame! Podiam ao menos ter integrado no magro espetáculo de dança uma coreografia de saudação ao mundo. Ficou demonstrado que nossos dirigentes temem o povo.

Interligne 28a

Que é que tem acontecido no mundo? No plano internacional, Chávez desceu sete palmos, Ahmadinedjad foi varrido pra fora da arena e nossos belicosos vizinhos de parede ― atolados em problemas ― andam meio apagados. Do lado de cá das fronteiras, o Lula se foi, o Amorim foi mandado pra escanteio, o ‘top top’ Garcia se recolheu à sua insignificância. Dona Dilma está mais é preocupada em se manter de pé num momento em que todos tentam puxar-lhe o tapete.

Interligne 28a

O nome do senhor Glenn Greenwald, empresário, advogado e jornalista americano, é bastante conhecido no Brasil. Todos o conhecem por ter anunciado ao mundo que os EUA tinham meios de espionar o planeta.

Briga 3Não foi, digamos assim, uma revelação de capital importância. Todos já sabiam disso. Há certas verdades sobre as quais é melhor manter a boca calada. Sabe Deus por que razão, Greenwald passou por cima dessas conveniências. Julgando-se dono da virtude, houve por bem botar a boca no trombone e proclamar bem alto o que todos já sabiam. Causou alguma marolinha, mas nada que abalasse o equilíbrio do planeta. O maior prejudicado foi ele mesmo.

O que menos gente conhece é o passado errático, movimentado e sulfuroso do jornalista. Poucos sabem que já foi até proprietário de um site pornográfico ― atividade pra lá de malvista em sua terra de origem. E que não se justifique como «erro de juventude»: foi 12 anos atrás, quando o advogado já tinha 35 aninhos. O gajo é useiro e vezeiro em matéria de desacato a seu próprio país.

Interligne 28a

O senhor Greenwald concedeu entrevista estes dias ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Ele reivindica que o Brasil dê asilo a Snowden ― aquele maluquinho que andou roubando informações secretas de seu país e, procurado por todas as polícias do mundo, há um ano se encontra encurralado nas estepes russas.

A certa altura, o jornalista preconiza que o Brasil ofereça abrigo a Snowden. Segundo ele, «o Brasil não deve ter medo de deixar os EUA zangados, e acho que qualquer país independente vai acolher o Snowden. Na Europa, os países são muito submissos aos EUA e jamais vão fazer algo que os EUA não queiram. A questão é se o governo brasileiro é independente, mesmo.»

Briga 4Inacreditável! Um estrangeiro atreve-se a lançar desafio às autoridades brasileiras! Justamente um forasteiro que vive em nosso território em situação análoga à de um asilado ― não ousa voltar à sua terra por medo de ser preso.

A que ponto chegamos! A escalada da agressividade continua. Hoje, qualquer um xinga a presidente da República, ameaça de morte o presidente do STF, acusa a Justiça de parcialidade, destrói patrimônio público ou privado, e fica por isso mesmo.

Agora temos o que faltava. Um estrangeiro, que, embora esteja sendo aqui acolhido «de favor», ousa desafiar as mais altas autoridades da República com algo do tipo «vamos ver se você é homem».

É insuportável.

Frase do dia — 148

«Lula e Xuxa têm algo em comum além das vogais. Ambos foram personagens com apelidos incorporados a seus nomes, utilizados na construção de um império de entretenimento. O oportunismo nas alianças e na exposição. A ascensão e a riqueza estonteante, a carreira e os vínculos internacionais, a campanha irônica na gangorra real brasileira entre violência e educação.»

Genilson Albuquerque Percinotto, in Tribuna da Internet 12 jun° 2014.

Ignorância e intolerância

José Horta Manzano

Brasileiro tem fama de tolerante e se orgulha disso. De fato, comportamentos olhados de esguelha em outras partes do mundo são, entre nós, aceitos como se naturais fossem.

Aos brasileiros, parece natural:

Interligne vertical 11c* que um casal decida quando é chegada a hora de dissolver a união;

* que gente idosa ou com dificuldade de locomoção tenha assentos reservados e prioridade em certos serviços;

* que qualquer um que declare ter uma gota de sangue subsaariano nas veias passe à frente em determinadas filas, mormente no campo da Educação Pública;

* que, a partir de certa idade, criminosos sejam tratados como se inocentes fossem, e que recebam indulto;

* que compatriotas busquem a sorte no exterior, que por lá se casem, que por lá formem família, que por lá refaçam sua vida;

* que se legalize a situação de duas pessoas de mesmo sexo decididas a juntar os trapos e compartilhar a existência;

* que cidadãos acusados de pesados crimes se apresentem a eleições para cargos elevados. E que sejam eleitos. E que cumpram o mandato;

* que figurões políticos deixem de cumprir o que prometeram, sem que isso acarrete consequência;

* que cada um escolha livremente sua religião, inclusive se isso implicar rompimento com a fé inculcada na infância;

* que qualquer um professe, ao mesmo tempo, duas (ou mais) religiões;

* que mal-intencionados e ignorantes segurem as rédeas do País.

Para os que vivem no exterior, é grande vantagem dispor da cidadania do país que os acolheu. Até uns 20 ou 30 anos atrás, a situação era pouco clara. Brasileiro que ousasse adquirir outra nacionalidade perdia ipso facto a brasileira. Era uma ou outra. Ponto e acabou.

Com o aumento exponencial do número de brasileiros expatriados, o problema se tornou agudo. Foi quando nossos distraídos legisladores se deram conta do absurdo da situação e decidiram que… era chegada a hora de decidir. Ficou então combinado que o brasileiro que adquire, por decisão pessoal, cidadania estrangeira ― visando a facilitar sua vida na nova terra ― será autorizado a conservar a nacionalidade brasileira originária.

Boa parte do público que assistia ontem a um jogo de futebol no estádio de Salvador foi protagonista de um comportamento primitivo e chocante. A cada vez que um certo Diego Costa, jogador do time espanhol, tocava a bola, levava uma vaia. E não é porque jogasse mal. É porque o sergipano ― transferido aos 18 anos para a Espanha, onde acabou se estabelecendo ― adquiriu a cidadania do país onde vive, conforme lhe faculta a norma brasileira.

Constrangido, o comentarista da tevê suíça viu-se na obrigação de explicar a seus ouvintes ― que certamente não compreendiam o que estava acontecendo ― que os frequentadores do estádio não perdoavam ao jovem jogador o fato de ter decidido adotar a nacionalidade do país que o acolheu. Foi vergonhoso.

É assustador constatar que boa parte de nosso povo, embora viva em grandes aglomerados que ousam chamar metrópoles, ainda guardam visão de mundo atrasada, primitiva, digna de grotões.

Diego CostaAqueles que se revoltaram contra a banana lançada contra um jogador algumas semanas atrás são os mesmos que ontem despejaram uma bananeira inteira contra o jovem Diego.

Ainda falta um bom pedaço de caminho para que os brasileiros se abram ao mundo e entendam que o universo não se limita aos confins de nossa maltratada República.

Nossa Seleção não conta com nenhum jogador de declarada origem ameríndia. São todos, por consequência, descendentes de imigrantes ou de gente que um dia, de uma maneira ou de outra, veio de fora.

Por coerência, proponho que se organize uma vaia coletiva a cada jogo da Seleção, extensiva a todos os jogadores. Afinal, todos deixaram a pátria um dia.