Frase do dia — 147

«Impossibilitada de colher os louros de uma organização à altura das promessas feitas sete anos atrás pelo antecessor, Lula da Silva, Dilma opta por criminalizar o senso crítico da população em relação aos deveres do poder público e a consciência de que a realização da Copa do Mundo no Brasil não é uma dádiva merecedora de gratidão eterna.»

Dora Kramer, em sua coluna in Estadão, 13 jun° 2014.

O raio vívido

José Horta Manzano

Quando escrevi ontem sobre o hino nacional truncado, já tinha o pressentimento de que nossos preclaros dirigentes não houvessem pensado em exigir da Fifa a execução integral da peça. Escrevi para esconjurar, mas era mais desabafo que esperança.

Optimista incorrigível, continuo achando que não precisa procurar muito para encontrar o lado bom de cada acontecimento. Estancado o hino na altura do salve, salve, o povo não se abalou: jogadores, pessoal técnico, cartolas e ― principalmente ― a multidão de espectadores continuou impávida a louvar o sonho intenso e o raio vívido.

Eu assistia à transmissão pela televisão francesa. O comentador, abismado com o estádio cantando a cappella, qualificou a cena de sublime. Deu pra lavar a alma dos ofendidos e pra despejar a água suja por cima dos arrogantes dirigentes da Fifa.

O jogo foi o que foi, assim-assim, meio chinfrim. Todas as resenhas esportivas que consultei foram unânimes em afirmar que o juiz errou feio quando decretou penalidade máxima indevidamente.

Bandeira sorrindoMas tem uma coisa de que os estrangeiros não se deram conta. Numa certa altura, lá pelo fim do jogo, um coro se alevantou do estádio e escandiu repetidamente uma frase de oito sílabas. A grita foi ganhando corpo, como um grito de guerra insistente. Prestei atenção. Não foi difícil me dar conta de que, se grito de guerra era, não se dirigia aos jogadores.

Como outros milhões de brasileiros, ouvi nitidamente uma frase pra lá de ofensiva visando dona Dilma, com aquelas palavras que a gente costuma evitar dirigir a senhoras de fino trato. Seu entourage havia imaginado que, abolindo o discurso, poria a dirigente a salvo de vaias. Conseguiu o intuito, que vaias não houve. Mas quem havia de prever um concerto coral de impropérios, concertado, ritmado e global?

Pobre presidente, que vexame! O padrinho dela, que é arroz de festa mas não é bobo, preferiu nem aparecer. Enfim, se o povo lançou aquele ultraje, por algo será, como dizem os espanhóis. Devem ter lá suas razões.

Para resumir: o espetáculo maior da partida não foi obra dos atores, mas da plateia. O sonho intenso pressentido no Hino Nacional parece cada dia mais perto de se realizar. Basta que um raio vívido ilumine os eleitores em outubro.

O melhor da Copa

José Horta Manzano

Cada um enxerga a Copa com seus próprios olhos. Para um jogador de futebol em começo de carreira, pode ser a vitrine que o vai propulsar ao estrelato mundial. Para um técnico profissional, pode significar a abertura de interessantes oportunidades. Para autoridades nacionais, pode servir de trampolim para angariar simpatia e votos. Para empresários corruptos, é o momento de contar e recontar a fortuna amealhada nas costas dos bobões habituais.

Para indiferentes ― que os há, acredite! ― é hora de tirar uns dias de férias e desaparecer do mundo dos mortais. Para torcedores, é um momento de emoção, de alegrias, de tristezas. E no final ― quem sabe? ― pode até chegar a hora de gozar a alegria suprema de ver a esquadra nacional subir ao degrau mais alto do pódio. A todos, é permitido sonhar.

Como não sou jogador, nem selecionador, nem autoridade, nem empresário corrupto, não lanço à Copa olhar profissional. Aprecio o esporte em si. Gosto muito daquele balé colorido e imprevisível em que a partitura é inventada e reinventada a cada instante.

Um dos atrativos maiores do futebol é justamente essa incerteza quanto ao resultado. Em outros esportes, o melhor costuma vencer. É raro que, em atletismo, o mais rápido ou o mais ágil deixe de levar a medalha. No futebol, não é assim. Já vi a Itália perder para a Coreia do Norte. Aconteceu na Copa de 1966. O resultado deixou trauma que, passado meio século, ainda não se dissipou.

Há momentos mágicos em que um jogador manda a bola por cima de meia dúzia de adversários para aterrissar aos pés de um companheiro que, por sua vez, dá sequência à coreografia. Sejam quais forem os times em campo, o espetáculo é sempre bonito. Se houver emoção, melhor ainda.

Homem com a mão no coração (detalhe) by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Homem com a mão no coração (detalhe)
by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Mas há um momento, nesses jogos internacionais, que ― para mim ― paira acima de todos: é a hora do hino. O nosso é fabuloso. Se hino bonito ganhasse Copa, o nosso teria mais estrelas que a Marselhesa. O nosso é de escutar em pé, mão do coração, nó na garganta.

Recortei e guardo até hoje um artigo que o jornal londrino Guardian publicou doze anos atrás, por ocasião da Copa de 2002. O autor faz esfuziantes elogios ao hino brasileiro dizendo que é o mais gentil, o mais alegre, o mais melodioso, o mais envolvente. Parece escapado de uma ópera de Rossini. Chega a dizer que nosso hino é um dos grandes presentes que o Brasil deu à felicidade humana. É mole?

Parece que a Fifa impõe que a execução do hino de cada país não exceda um minuto e meio. Muitos cabem nessa exigência. O nosso, não. O resultado é que nosso cântico nacional costuma ser truncado, sustado na metade, deixando os jogadores com cara de bobos e o público com um gosto de quero mais.

Hino BrasilEntendo que regra é regra. Leis não são feitas para serem discutidas, mas para serem cumpridas. Mas, convenhamos, nossos (sempre) distraídos congressistas, aqueles que assinaram sem ler a Lei Geral da Copa, deviam ter pensado nesse detalhe.

Posso até entender que se desviem alguns bilhões do dinheiro brasileiro para construir estádios monumentais, mas tenho dificuldade em aceitar que um de nossos símbolos nacionais mais fortes seja desfigurado diante de bilhões de terráqueos.

Os bilhões de dólares, com «arenas» ou sem elas, com «Copa das copas» ou sem ela, seriam desviados de qualquer maneira. Mas truncar o hino, ah, está aí um crime facilmente evitável.

No momento em que escrevo, faltam ainda algumas horas para a abertura do campeonato. Quem sabe uma luz terá baixado nos organizadores? Quem sabe nos deliciaremos com a execução integral da primeira parte do hino?

O futebol é esporte que sempre reserva alguma surpresa. Vamos torcer. Esperemos que seja executado sete vezes. Por inteiro.

Tempo frio, tempo quente

José Horta Manzano

Folha de São Paulo (Brasil)
«Com geada, ao menos 21 cidades do sul registram temperaturas abaixo de zero»

Interligne 37dStern (Alemanha)
«Heißer als Brasilien: Rekordhitze in Deutschland»
«Mais quente que no Brasil: recorde de altas temperaturas na Alemanha»
(35,6° nas cercanias de Karlsruhe)

Cada cabeça, uma sentença ― 2

José Horta Manzano

RP-Online (Alemanha)
«Cafu: “Wir glauben alle an ein Finale gegen Deutschland”»
«Cafu: “Acreditamos todos numa final Brasil x Alemanha”»

Interligne 18h

Estadão (Brasil)
«Pelé quer ‘revanche’ contra o Uruguai na Copa do Mundo»

Interligne 18hFotbollskanalen (Suécia)
«Tyskarna har landat: “Brasilien är favoriter”»
«Os alemães aterrissaram: “Brasil é o favorito”»

Cada cabeça, uma sentença

José Horta Manzano

No Brasil, a Gazeta Esportiva, publicação especializada, botou na manchete:
«Seleção espanhola desembarca em Curitiba longe da torcida».

Na Espanha, o diário La Verdad, de Murcia, preferiu um tom mais ufanista. E mandou o título:
«Brasil recibe con pasión a España».

Cada um enxerga o mundo com seus óculos.

Lá vêm os holandeses

José Horta Manzano

Aqui na Europa, principalmente nos países mais quentes, a chegada da primavera é anunciada pelo alongamento dos dias, pelo chilrear dos passarinhos, pelas folhas que brotam dos troncos nus das árvores e… pela chegada dos holandeses.

Caramujo 2Todos os europeus dão grande valor à chegada dos dias de sol e calor. É compreensível. Após 7 ou 8 meses de frio, vento, neve, gelo, chuva e céu cinzento, o sol é recebido com reverência.

É costume tirar férias no período que vai de maio a setembro. Quem estiver com a carteira mais recheada toma um avião e embarca para algum destino longínquo, tipo Tailândia ou República Dominicana. Volta com munição para fazer vizinhos babarem de inveja. Quem estiver menos abonado escolhe um pacote para Malhorca ou para a Turquia. O sol e o calor são garantidos e acaba saindo mais em conta.

Por alguma razão que desconheço, os simpáticos holandeses têm especial predileção por deslocar-se com a casa nas costas, feito caramujo. De maio a setembro, as estradas europeias ficam coalhadas de veículos que servem de meio de transporte e de casa ao mesmo tempo. Conforme a língua, têm nome diferente: trailer, motor-home, caravane, camping car, remolque, Wohnwagen, camper. Os portugueses costumam dar-lhe o sugestivo nome de casa móvel.

Caravane 1É incrível como país tão pequeno consegue exportar tantos viajantes, cada um com a família no trailer. Vêm quase todos para o sul: França, Itália, Espanha, Portugal, Grécia, Croácia. São simpáticos, os holandeses. Povo alegre, exuberante, daqueles que falam alto, riem muito, são bons copos em qualquer reunião. Gente alta, corpulenta e extrovertida.

Acampamento holandês

Acampamento holandês

Dizem as más línguas que os comerciantes não os apreciam particularmente. É que parece que, tirando a água e o pão, já trazem todos os mantimentos de casa. Assim, não apresentam grande interesse para quitandeiros, feirantes e hoteleiros. Não posso confirmar, estou-lhe vendendo o peixe pelo preço que paguei.

Fiquei surpreso quando soube que um grupo de bravos batavos(1) havia atravessado o Atlântico para se estabelecer temporariamente em São Paulo a fim de trazer apoio à seleção holandesa de futebol. Ainda mais surpreendido fiquei quando soube que a onda laranja(2) havia montado acampamento à beira da Represa Guarapiranga, nas cercanias da cidade. Acampar em São Paulo!

Enfim, cada um tem direito de armar sua barraca onde bem lhe aprouver. Isso tudo deixa uma certeza: vão faltar alguns holandeses nas estradas europeias este verão.Interligne 18c

(1) Batavo é o outro nome que se dá aos holandeses. Quem quiser variar pode usar também neerlandeses.

(2) Sabe por que o uniforme deles é cor de laranja? Porque os soberanos dos Países Baixos pertencem à dinastia de Orange-Nassau. A origem do nome Orange é bem antiga e tem a ver com a cidadezinha de mesmo nome, situada no sul da França. Mas essa já é uma outra história. Entre orange e laranja, ninguém duvidou: a cor tornou-se símbolo do país. E tingiu o uniforme dos jogadores.

Pardon anything

Gregorio Duvivier (*)

Hello, Gringo! Welcome to Brazil. Não repara a bagunça. Don’t repair the mess. In Brazil we give two beijinhos. Em São Paulo, just one beijinho. If you are em Minas, it’s three beijinhos, pra casar. It’s a tradition. If you don’t give three kisses, you don’t marry in Minas. In the other places of Brazil, you can give how much beijinhos you want. In Rio, the beijinho is in the shoulder.

The house is yours. Fica à vontade. Qualquer coisa é só gritar. Shout. Mas keep calm. Como é que se fala keep calm em inglês? Here the things demoram. It’s better to wait seated. Everything is atrasado, it’s like subentendido that the person will be atrasada. For a meeting, it’s meia hora. For a party, it’s two hours. For a stadium, it’s one year. For the metrô, it’s forever.

Turismo 2Never say you are a gringo. Yes, people love gringo but people also love money and gringos have money so people vai cobrar de você mais money because you are gringo. Say you are from Florianópolis. People de Florianópolis look like gringo and they have a strange sotaque igual like you. People will believe you are from Florianópolis.

Politics is complicated. We don’t like Dilma because of corruption but I think she don’t rob but people from PT rob and Dilma don’t do nothing to stop people robbing but politics is complicated.

Try this moqueca. Put some farofa. Try this açaí. Put some farofa. Try this chicken we call à passarinho because it looks like a little bird. Now put some farofa. Now put some ovo inside the farofa. Mix with some banana. Delicious. You don’t have farofa in your country? You now nothing, you innocent.

I’m catholic but I’m also budista and I am son of Oxóssi. How do you say Oxóssi in English? It’s the brother of Ogum. You don’t know Ogum? They are guerreiros. And my Moon is in Áries. Ou seja. Imagine the mess.

Try this xiboquinha. It’s cachaça with canela and honey. Try this Jurupinga. It’s cachaça with wine. Or maybe it’s wine and sugar. Nobody knows. It’s delicious. Try this soltinho da Bahia. It’s organic. I only smoke when I drink. But the problem is I drink a lot. Try this brigadeiro. This is called larica. Now put some farofa. Delicious.

This cup passed really fast. Volte sempre. Come back always! Fica lá em casa. We are family now. You like that? You can keep it. It’s your. Faço questão. I make question. Go with god and desculpa qualquer coisa. Pardon anything.

(*) Gregorio Duvivier é ator e escritor.

Fascínio e contradição

«La gente che protesta per le strade, ma che poi s’incanta davanti alla tv non appena da quello schermo spunta la maglia verdeoro della Seleçao. Contraddizione più evidente e profonda forse non potrebbe esserci, per raccontare, o magari solo provare a immaginare, quello che sarà questo Mondiale, in cui il Brasile degli stereotipi e dei rassicuranti luoghi comuni, tutto samba, futebol e joga bonito, si scontra e collide con l'”altro” Brasile, quello che pure è lì da almeno un decennio e che il mondo non ha voluto però vedere, cioè il Paese – Continente che certo è entrato tra i “brics” della Terra, ma pagando un costo sociale enorme e ancora lontano dall’essere saldato.»

Interligne vertical 8«Um povo que protesta nas ruas mas que depois se encanta em frente à tevê assim que surge a camisa verde-amarela da Seleção: é difícil encontrar contradição mais flagrante e mais profunda para descrever (ou só para tentar imaginar) o que será esta Copa.

Será um campeonato em que o Brasil dos estereótipos e dos repousantes lugares-comuns ― samba, futebol, jogo bonito ― entrará em colisão com o ‘outro’ Brasil, aquele que está aí já faz mais de uma década e que o mundo não quis ver: o país-continente cuja entrada nos ‘brics’ acarretou enorme custo social ainda longe de ser saldado.»

Dario Ricci, jornalista italiano, in Il Sole 24 Ore, 8 jun° 2014.

Conselhos aos turistas

José Horta Manzano

Nos anos 90, a coisa fervia pelos lados da Península Balcânica. Entre sérvios, croatas, bosnianos, a convivência ficou explosiva. Muito guerrearam, muitos mataram, muitos morreram.

Mãos ao alto 1Se, na época, um hipotético viajante tivesse de aventurar-se por aquelas bandas, convinha seguir rigorosas regras de sobrevivência em regiões de conflito. Assim mesmo, por mais obediente que fosse nosso aventuroso turista, regra nenhuma poderia salvá-lo de um míssil ou uma bomba.

A Guerra dos Bálcãs acabou. Hoje, não só a Albânia é uma festa (dixit Jorge Amado), mas toda a península. A Albânia, por sinal, com seus 3 milhões de habitantes, recebe 3 milhões de visitantes a cada ano. A Croácia, país de 4 milhões de almas, acolhe incríveis 10 milhões de turistas! Manuais de sobrevivência saíram de moda.

Oficialmente, o Brasil não está em guerra ― pelo menos no papel. No entanto, a situação de conflagração civil que castiga o país e se agrava ano após ano causa efeitos iguais aos de um conflito tradicional. Talvez até piores.

Numa guerra, pelo menos, há um inimigo declarado, o que facilita sua identificação. Num estado de quase-guerra, como é o caso brasileiro, a ameaça é difusa. O inimigo não ataca necessariamente com bazuca. O leque de armas é mais sutil, bem sortido, traiçoeiro. A ameaça pode vir de onde menos se espera.

Mãos ao alto 2Não é à toa que a Croácia, cujo território ardia inóspito 20 anos atrás, acolhe hoje o dobro de turistas que acolhemos nós no Brasil. Tenha-se em mente que o pequeno país balcânico tem área equivalente à do Estado da Paraíba.

A Suécia não passou pelas eliminatórias e não conseguiu se classificar para a fase final da «Copa das copas». Assim mesmo, alguns apreciadores do esporte decidiram viajar ao Brasil para assistir a alguns jogos. Estive lendo, horrorizado, as recomendações que o governo sueco dá a seus ousados súditos que se estejam dirigindo a nosso paraíso tropical.

Aqui está uma seleção dessas advertências.

Interligne vertical 11cConselhos de segurança

* A vigilância é sua melhor defesa. Procure saber onde você se encontra e preste atenção a toda modificação súbita na composição do grupo. Fique sempre junto a seu grupo ― quanto mais gente, melhor.

* Mulheres não devem viajar sozinhas sob nenhum pretexto.

* Não use transporte público, especialmente depois de escurecer. Viaje somente em táxis munidos de taxímetro. À noite, se estiver sozinho, o melhor mesmo é evitar andar de táxi.

* Não passeie na praia após o pôr do sol. Evite todo e qualquer lugar pouco frequentado.

* Escolha um hotel seguro. Nunca abra a porta do quarto antes de saber quem está batendo. Em caso de dúvida, confirme por telefone com a portaria antes de abrir.

* Seja cauteloso ao comer ou beber em lugares muito frequentados. Nunca aceite comida ou bebida de estranhos.

* Estelionatos e engodos são comuns: seja vigilante se um estranho tentar atrair sua atenção ou distraí-lo.

* Deixe documentos originais no cofre do hotel. Carregue uma cópia, se necessário.

* Planeje com bastante folga traslados entre hotel e aeroporto. Certos percursos são mais arriscados que outros.

* Nunca ofereça resistência a criminoso armado. Guarde a calma e entregue, sem hesitação, seus pertences. Evite olhá-lo nos olhos.

* Não dirija. Se não houver outro jeito, siga as regras de proteção contra assaltos e sequestros.

* ‘Arrastões’ são uma forma local de crime. Uma gangue pode, por exemplo, bloquear uma rua, uma loja, um bar ou um restaurante e roubar todos os que ficarem encurralados.

Francamente, um guia para intrépidos viajores de malas prontas para Cabul, Bagdá ou Damasco não seria muito diferente. Ou não?

Dá uma vergonha…

Presidentes de antigamente

Venceslau Brás fez uma das mais completas e jovens vidas públicas do País: vereador, prefeito, deputado estadual, secretário de Estado, deputado federal, líder de governo, ministro, vice-presidente e, afinal, presidente da República. E tudo isso antes da idade de 50 anos.

Era mineiro de Itajubá, onde nasceu em 1868 e faleceu em 1966, aos 98 anos.

Presidiu a República de 1914 a 1918. Ao deixar o cargo, com 50 anos de idade, voltou à sua Itajubá, de onde nunca mais saiu. Passava os dias lendo e pescando.

Em 1946, o PSD mineiro precisava de um nome forte e acima das lutas internas para enfrentar Milton Campos, candidato da UDN ao governo. Foram buscar o velho Venceslau em Itajubá, ele aceitou. O partido reuniu-se em convenção numa sexta-feira 13 para homologar.

Benedicto Valladares, receoso de perder a liderança de Minas se o ex-presidente voltasse à ativa, lançou na última hora o nome de Bias Fortes e derrotou Venceslau. O episódio ficou nos anais da política mineira como “a noite da traição”.

Carlos Luz, Mello Vianna e outros, indignados, romperam com Benedicto e com o PSD. Apoiaram Milton Campos e o brigadeiro Eduardo Gomes, e derrotaram Bias Fortes. Milton Campos ganhou. Venceslau continuou lendo e pescando em Itajubá.

Acidente circulacao 2Anos mais tarde, já velhinho, Venceslau continuava dirigindo seu carrinho pela cidade. Um dia, bateu no carro de uns estudantes. Saltou, entregou-lhes um cartão para irem receber as despesas do conserto. O cartão dizia: “Venceslau Brás”.

Os estudantes leram, perguntaram: ― Que número?

Não era rua, era o próprio. A mais longa aposentadoria política do pais.

Interligne 18b

Colhido nos alfarrábios do jornalista Sebastião Nery
http://www.sebastiaonery.com.br/

Frase do dia — 146

«O socialismo dura até que acabe o dinheiro dos outros.»

Margaret Tchatcher (1925-1913), primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990.

A Dama de Ferro enunciou a ideia em diversas ocasiões, donde a multiplicação de versões da mesma frase. Giram todas em torno da mesma ideia central.

A cartilha

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 jun° 2014

Pelos anos 60, o mundo não funcionava como hoje. O planeta vivia na base do «nós ou eles» – quem não era de um campo era necessariamente do outro. O adversário era mais temido que odiado.

O espaço capitalista, capitaneado pelos EUA, apreciava ser visto como «mundo livre». Já os dirigentes do universo comunista, liderados pela União Soviética, encarnavam as «forças do progresso». Era claro exagero: nem os capitalistas eram assim tão livres, nem os comunistas sobressaíam pelo progresso civilizatório.

Espanha, Portugal, Brasil, Filipinas e outros integrantes do «mundo livre» eram contidos com mão de ferro por ditaduras ferozes. Albânia, Bulgária, Coreia do Norte, Romênia – dirigidos por «forças do progresso» – contavam entre os países mais atrasados.

«Plebiscito Popular»

«Plebiscito Popular»

Impiedosos, os anos 70, 80, 90 mudaram a face do mundo. O papa polonês, a queda do Império Soviético, o fim das ditaduras ibéricas e latino-americanas, o fracasso de Cuba, o banimento de tiranetes asiáticos, o fortalecimento da União Europeia se encarregaram de redistribuir as cartas e reequilibrar as forças.

A redemocratização do Brasil e a subida do poder aquisitivo condenaram ao baú dos arcaismos expressões como: ligas campesinas, comunismo revolucionário, agricultura de subsistência, luta de classes, esquerda socialista, solidariedade entre os povos.

Numa época como a atual, em que o hedonismo foi elevado à categoria de ideal supremo, antigas expressões de desprendimento e de solidariedade perderam-se num passado ingênuo e deliciosamente démodé.

Os participantes

Os participantes

Démodé? Pois há quem tente realumiar o mundo com fogo extinto. No Brasil, articula-se uma campanha – cujos iniciadores permanecem discretos – que preconiza a convocação de um «plebiscito constituinte», seja lá o que isso queira dizer. Uma cartilha, termo escapulido do baú, está à disposição dos interessados.

O opúsculo, nomeado Cartilha Plebiscito Popular, agride a boa linguagem logo de entrada, na chamativa capa policrômica. Ao qualificar o plebiscito como «popular», demonstra ignorar que, por definição, todo plebiscito é popular. A redundante expressão reaparece, despudorada, 39 vezes ao longo das 40 páginas da «cartilha». E pensar que uma rápida consulta ao dicionário teria evitado o vexame…

Num saboroso anacronismo, o folhetim exuma expressões e conceitos empoeirados. Voltam à cena as classes dominantes, os setores oprimidos, a maioria explorada, a democracia burguesa, os setores reacionários. Ressurge a imperiosa necessidade de estatizar empresas. É um verdadeiro mergulho num mundo que já foi, um libelo romântico em total assintonia com a realidade atual. A cartilha não logra demonstrar a relação de causa e efeito entre o nebuloso «plebiscito popular» e o atingimento do almejado padrão de excelência.

O movimento é prestigiado por 214 instituições entre as quais se contam indefectíveis uniões campesinas, movimentos místicos, grupos revolucionários, frentes pró-cotas, centros de solidariedade aos povos. Sem surpresa, o MST e o Partido Comunista apuseram sua chancela.

Um aderente, no entanto, destoa. Entre os apoiadores do movimento, está… o Partido dos Trabalhadores. Impávido, com todas as letras, bem-comportado, na ordem alfabética. Não fosse este um adjetivo pouco adequado às atribulações da agremiação, eu diria que o partido assinou o manifesto meio envergonhado.

A adesão do PT atropela o bom senso. Senão, vejamos: o desenho da página 11 da cartilha deixa claro que chegou a hora de cuidar da saúde, da educação, da moradia, da reforma agrária, do salário. Sabemos todos que o partido que ocupa o poder federal há 12 anos controla todos os patamares do governo da República. Executivo, Legislativo, estatais, agências reguladoras, nenhum degrau lhe escapa.

As reclamações

As reclamações

Se não impuseram, em quase três lustros de poder, as reformas que ora pleiteiam, difícil será acreditar que o venham a fazer na rabeira de um «plebiscito popular». Apesar dos ventos favoráveis e da confortável e submissa maioria congressual, reformas importantes nunca foram feitas, donde a persistência do descalabro na Educação, na Saúde Pública, na infraestrutura.

A sugestiva capa da cartilha é ilustrada por uma horda de manifestantes, municiados com bandeiras vermelhas, pressionando um Congresso de onde parlamentares fogem intimidados. É a tradução gráfica da substituição de representantes eleitos por bandos raivosos.

Ninguém discorda do fato de que nossos eleitos deixam a desejar – e muito! Mas será que escorraçá-los e substituí-los por hostes revolucionárias será a melhor solução?

A Hora do Brasil

José Horta Manzano

Nos anos quarenta, a grande distração das famílias, depois do jantar, era o rádio. Espetáculos ao vivo, radionovelas, concertos preenchiam o espaço que vai da última garfada ao primeiro bocejo.

radio 3Programas caipiras contavam com boa audiência. (Naquele tempo, a gente ainda podia dizer «caipira», que a palavra «sertanejo» ainda não era obrigatória.)

Alvarenga & Ranchinho eram os reis do gênero. Mas havia outros, alguns atuando em dupla, outros a solo. Entre estes últimos, estava o Nhô Totico, de quem minha avó não perdia uma apresentação. Ele ia além do estereótipo. Precursor no gênero one man show, criou numerosos personagens que retratavam o quotidiano da São Paulo e do Brasil de seu tempo. Tinha boa audiência.

Certa noite, logo antes de encerrar o programa, Nhô Totico ousou dizer algo como: «E agora, desliguemos nossos radinhos, que vem aí a Hora do Brasil»(*).

Ai, ai, ai… Do Catete, Getúlio Vargas mandou o cacete. O humorista até que se saiu relativamente bem. Não apanhou, não foi preso, só levou uma suspensão de alguns dias. Doutor Getúlio, no fundo, devia se dar conta de que a difusão daquele programa diário e obrigatório ― criado por ele mesmo ― era maçante, uma pedra no sapato para a maioria dos radio-ouvintes.

É verdade que, naqueles anos sem internet e sem tevê, não havia outra maneira eficaz de fazer chegar aos rincões mais afastados as notícias das atividades oficiais da Corte. O tempo se encarregou de alterar o quadro.

Nhô ToticoHoje, com multimídia, multicomunicação, multirelacionamento, enxurradas de informação chegam instantaneamente a qualquer lugar. A Hora do Brasil ― que, desde então, foi rebatizada como A Voz do Brasil ― perdeu sua razão de ser. É melancólico constatá-lo, mas chegou a hora da aposentadoria. Merecida.

Em consideração à paixão que muitos brasileiros demonstram pelos jogos da Copa do Mundo ― especialmente aqueles de que o Brasil participa, tudo indica que o horário de transmissão do programa oficial será flexibilizado estas próximas semanas. Atenção, não se cogita eliminá-lo! Apenas deslocá-lo para um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde.

Acredito que, assim como a gente sabe a hora de começar uma atividade, sabe também quando é hora de encerrá-la. Salvo melhor juízo, chegou a hora de dizer adeus à Voz do Brasil. Foi bom enquanto durou, mas o ciclo, no meu entender, se extinguiu.

Que se encerrem as transmissões. E que se injetem os fundos assim poupados na criação ou no adensamento de programas de ensino à distância. Será dinheiro mais bem empatado.Interligne 37i

(*) Hora do Brasil era o nome que então se dava à atual Voz do Brasil.

Caminho traçado

José Horta Manzano

Fascismo 4Lúcida e interessante é a visão do escritor boliviano Juan Claudio Lechín(*) sobre as diferenças entre ditadura e fascismo. Seu livro Las máscaras del fascismo, publicado em 2011 por Plural Editores (La Paz, Bolivia), corajoso e didático, põe o dedo na ferida. O livro traz subtítulo sugestivo: Castro, Chávez, Morales, um ensaio comparativo.

Um decálogo (dodecálogo seria melhor dito) elenca as principais características do perfeito caudilho fascista.

Interligne vertical 11c1. O caudilho fascista é messiânico, carismático e de origem plebeia.

2. Os braços do caudilho são o partido e a tropa de choque, seja paramilitar, seja militar ― com forte componente de aventureiros descompromissados e de delinquentes.

3. A língua do caudilho: a propaganda política.

4. A fé do caudilho: uma fantasiosa promessa política redentora.

5. O ouvido do caudilho: serviços de inteligência repressiva, espiões e delatores.

6. O caudilho toma carona na refundação da pátria e/ou na mudança do nome; na reforma constitucional e/ou na modificação da constituição e em novos símbolos do Estado.

7. O caudilho dedica-se a destruir atos eminentemente liberais ― valores e instituições.

8. O caudilho é antiliberal e antiamericano.

9. O caudilho transforma em igualdades políticas os seguintes conceitos: caudilho = partido = Estado = nação = pátria = povo = história épica.

10. O adeptos do caudilho: adesão popular militante. Retorno à servidão.

11. A perpetuação do caudilho no poder: governo vitalício, com ou sem eleições. Monarquia plebeia.

12. Valores medievais: coragem militar, arrojo, prestígio de morrer combatendo, valores marcadamente viris (machistas), senhoriais e homofóbicos. Inflamar a militância com inflamados discursos de confrontação, lutar por um ideal santo, contra o herege irreconciliável.

Com base nas características elencadas, o autor não reconhece o chileno Augusto Pinochet nem o argentino Jorge Rafael Videla como fascistas, apesar de seus crimes. Comandaram ditaduras, mas não fascismos.

A essência do pensamento de Lechín está resumida nestas poucas linhas:

Fascismo 3«El fascismo es un modelo pragmático para la toma absoluta del poder por parte de un caudillo mesiánico, por medio de la seducción o el crimen, las urnas o los fusiles, el discurso o el golpe, la nacionalización o la privatización y cualquier otro instrumento eficaz para el objetivo absolutista. En este concepto se inscriben todos los caudillos, cada uno ciertamente impulsado o frenado por las características de su propia realidad; de ahí que muestren diferentes desempeños aunque subyazca la misma naturaleza.»

Traduzindo, fica assim:

«O fascismo é modelo pragmático para a conquista absoluta do poder por parte de um caudilho messiânico por meio da sedução ou do crime, das urnas ou dos fusis, do discurso ou do golpe, da nacionalização ou da privatização, e de qualquer outro instrumento eficaz para alcançar o objetivo absolutista. Nesse espírito, inscrevem-se todos os caudilhos, cada um, por certo, estimulado ou freado pelas características de sua própria realidade. Eis por que, embora o modus operandi possa diferir, a mesma natureza esteja sempre latente.»

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Qualquer parecença com a realidade brasileira destes últimos anos pode não ser mera coincidência.

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(*) Juan Claudio Lechín Weise (1956-) é homem de letras e pensador boliviano, agraciado em 2004 com o Premio Nacional de Novela. Seus estudos começaram em seu próprio país e prosseguiram na Itália, no Peru, na Venezuela e nos Estados Unidos. Diplomado cum laude em Economia pela Universidade de Boston.

Frase do dia — 145

«A presidenta Dilma invade sem cerimônia a área de atuação do Poder Legislativo. Conseguiu criar mais leis, durante seu governo, do que os 81 senadores somados. Desde sua posse, em 2011, ela transformou em lei 86 medidas provisórias que arremessou para o Congresso, enquanto o dócil Senado propôs e criou apenas 51.»

Cláudio Humberto, in Diário do Poder, 2 jun° 2014.