Loop, segundo tempo

Eduardo Affonso (*)

Com o empate no tempo regulamentar e na prorrogação, o jogo entre Lula F.C. e o Clube de Regatas L.J. vai para a disputa nos pênaltis.

O goleiro Sérgio Fernando, titular absoluto da L.J. se posiciona. Quem vai bater é Cristiano.

Lá vem Cristiano e… Fora! Cristiano chuta para fora, senhores!

Cristiano reclama com o juiz, diz que o apito tirou sua concentração e pede para bater de novo.

O juiz concede, e lá vai Cristiano – agora sem o apito.

Sérgio Fernando esfrega as mãos, Cristiano corre, dá uma paradinha e… bola na trave!

A torcida da L.J. comemora, mas a comissão técnica do L.F.C. exige que a cobrança seja feita novamente, porque a paradinha de Cristiano atrapalhou sua performance.

O árbitro acata, e lá vai Cristiano em sua terceira tentativa. Toma distância, dá uma bicuda e… Sérgio Fernando espalma com categoria.

Parece que… não, Cristiano exige bater outra vez porque Sérgio Fernando teria adivinhado o ângulo e defendido por pura sorte. Exige uma melhor de três.

O juiz informa que essa já foi a terceira cobrança perdida, mas Cristiano e a torcida da L.F.C. não se dão por vencidos. Apesar de ser uma partida do campeonato local, ameaçam recorrer à à Conmebol e à Fifa.

Nova cobrança é autorizada. Cristiano toma distância, enche o pé, mas Sérgio Fernando é um muro no gol e agarra.

Fim de jogo, amigos do esporte! L.J. é a camp… Não, ainda não. A L.F.C. exige que o árbitro consulte o VAR, porque Sérgio Fernando teria dado um passo para trás e a bola teria ultrapassado a linha.

O árbitro consulta o vídeo. Vamos aguardar seu veredito.

Volta o árbitro, e informa que apenas o calcanhar do goleiro Sérgio Fenando tocou a linha. A bola não entrou.

Cristiano e a comissão técnica cercam o juiz, argumentando que o árbitro de vídeo foi parcial, que a tecnologia não é confiável, que todo o campeonato deve ser anulado e o goleiro Sérgio Fernando suspenso.

Muita tensão no estádio, senhores, com a torcida do L.F.C. subindo no alambrado e ameaçando invadir o gramado.

A proposta apresentada pelos dirigentes do L.F.C. é que Cristiano continue batendo pênaltis indefinidamente, até a bola entrar. Enquanto isso não acontecer, a cobrança não terá validade.

Há um confronto generalizado nas arquibancadas, com as duas torcidas se engalfinhando. A PM se protege no fosso e pede reforços.

O técnico do L.F.C. tenta impugnar a bola, a grama, o tom de branco das linhas de marcação da grande área, a iluminação, a acústica e a localização do estádio, além de apresentar nudes do goleiro Sérgio Fernando, feitos com uma cam escondida no vestiário.

Sérgio Fernando aguarda o desenrolar dos acontecimentos encostado na trave e parece murmurar algo como “Om Mani Padme Hum” – ou “PQP MQGCDC”, segundo nossos especialistas em leitura labial.

Vão ser retomadas as cobranças. E, segundo as regras impostas pelo L.F.C, enquanto a bola não entrar, não vale.

Pode isso, Arnaldo?

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

Ode ao ódio

José Horta Manzano

Quando, em 1785, o poeta alemão Friedrich Schiller deitou no papel os versos que viriam a ser conhecidos como An die Freude (=Ode à Alegria), estava longe de imaginar o destino fabuloso que teriam aquelas poucas linhas.

Da mesma forma, quando Ludwig van Beethoven, tempos depois, poria música em cima dos versos do poeta e os incluiria ao último movimento de sua 9Sinfonia, não podia sonhar que aquela melodia se tornaria um dia o hino de uma Europa pacificada e unida. Logo ele que, contemporâneo de Napoleão, passou a vida num continente conflagrado.

E nem em delírio algum dos dois ousaria supor que a obra sofreria, duzentos e tantos anos mais tarde, agressão tão pesada como a que sofreu em 2 de julho de 2019. E justamente no recinto aveludado do Parlamento Europeu! A peça de Schiller e Beethoven serviu de fundo musical para o espetáculo mais incivilizado e deprimente que aquela Casa já conheceu.

Três anos atrás, como se sabe, um plebiscito revelou que metade do povo britânico queria abandonar a União Europeia enquanto a outra metade preferia continuar no barco comum. A estreita diferença entre o ‘sim’ e o ‘não’ ao Brexit tem dado margem a muito conflito. Dois primeiros-ministros já caíram por isso. O divórcio, que já devia estar consumado, continua emperrado. Alguns sugerem a organização de nova consulta. Desorientada, a política britânica vive um deus nos acuda.

Faz algumas semanas, foram eleitos os novos deputados europeus, que são, na União Europeia, os únicos representantes eleitos diretamente pelo povo. A câmara é composta de 751 deputados. Cada país tem direito a um contingente correspondente a sua população. Dos 79 deputados britânicos, 29 são afiliados ao partido favorável ao Brexit, cujo lider é Mr. Nigel Farage. Vivem uma situação surreal: embora sejam contrários à permanência de seu país na União Europeia, têm assento garantido no parlamento europeu.

A decência ensina que, quando o deputado está numa situação delicada como essa, se faça o mais discreto possível. Faltar às sessões, em sinal de protesto, é solução aceitável. Pois não foi o caminho escolhido pelos membros do partido do Brexit no dia 2 de julho, na sessão inaugural da nova legislatura. Estavam todos presentes à sessão solene, com direito a música ao vivo e até soprano para abrilhantar a execução do hino europeu. (É justamente a Ode à Alegria, obra bicentenária de Beethoven e Schiller.)

Assim que a música começou, no entanto, os deputados britânicos do partido do Brexit puseram-se de pé e viraram as costas para o plenário, numa atitude de escracho e desrespeito, não habitual em ambientes solenes. E não foi só. Cada um deles já tinha instalado uma bandeirinha britânica, bem visível sobre a escrivaninha, ato que não combina com um ambiente pan-europeu e supranacional.

Não se deve desrespeitar um hino nacional, ainda que seja de país estrangeiro. O que os deputados brexistas fizeram foi ofensa gravíssima a todos os europeus. Imagine se, durante uma sessão do parlamento inglês, alguém desse as costas durante a execução do ‘God save the Queen’. Perigava ser linchado. Pois foi exatamente o que fizeram os deputados do Brexit. Coisa de gentinha.

O comentário de um leitor do site da BBC acertou na mosca: eles certamente não dariam as costas ao salário nem às mordomias do cargo. Ao final do ultraje explícito, não ganharam um voto a mais. O desaforo só acentuou a antipatia que eles já despertam em muita gente. Foi tremendo erro de marketing. Além de gentinha, são pouco inteligentes.

Aqui está um vídeo de menos de um minuto em que a BBC flagra o momento do insulto.

O crustáceo censurado

José Horta Manzano

A mídia israelense não deixou barato – crucificou o conterrâneo deles que atualmente ocupa a função de embaixador em Brasília. Talvez o distinto leitor já tenha tomado conhecimento através de redes sociais. Se não for o caso, conto a história.

Desde que o ainda candidato Bolsonaro, sem atinar com as consequências do que dizia, declarou que, se eleito, transferiria a embaixada do Brasil de Tel-Aviv para Jerusalém, o alto escalão israelense ficou alvoroçado. Se Bolsonaro fosse eleito e cumprisse a promessa, a mudança de endereço da embaixada do Brasil seria um importantíssimo gesto de apoio à política do país.

Doutor Bolsonaro acabou eleito. No dia da tomada de posse do cargo – um incômodo primeiro de janeiro que atrapalha todo o mundo – Israel foi o único país não latino-americano a prestigiar o evento com a presença do chefe de governo. Enquanto os demais países enviavam ministros, encarregados de negócios, chefes de gabinete, Israel mandou um sorridente Benjamin Netanyahu, tratado aqui como convidado VIP.

O tempo passou, a ideia de mudança de endereço da embaixada foi colocada no fundo da geladeira, e ninguém por aqui fala mais nessa tolice. Acontece que o governo israelense não esqueceu. Assunto importante para eles, continua na pauta. Nesse cenário, o embaixador de Israel em Brasília almoçou domingo passado com doutor Bolsonaro, antes de irem juntos assistir ao jogo da Seleção.

Na refeição, nada de pão com leite condensado como nos tempos de demagogia forçada. O chef preparou lagosta – coisa fina e cara. (Mas quem paga é a viúva.) Como é moda nestes tempos de selfies pra cá e pra lá, uma foto imortalizou a cena da refeição. A forma dos copos revela que ambos se hidratam com sorsos alternados de vinho tinto e de uma bebida escura que lembra suco de uva ou coca-cola. (Deve substituir o leite condensado ausente.)

Ao aceitar compartilhar um prato de lagosta regado a vinho, o embaixador mostra não seguir a linha ortodoxa da religião hebraica. Não é tão grave assim, mas, como integrante da casta dos dirigentes do país, não lhe cai bem mostrar desabrido desrespeito à dieta kosher, sob pena de chocar parte importante do eleitorado. Ora, lagosta, assim como tudo o que vem do mar e não tem escamas nem nadadeiras, é alimento proibido pelas regras religiosas. Antes de tuitar a foto, a embaixada de Israel em Brasília não teve dúvidas: borrou grosseiramente os pratos pra esconder a transgressão alimentar.

Acontece que, talvez por ser domingo, o especialista em photoshop devia estar de folga. Os borrões pretos pintados em cima dos crustáceos são tão malfeitos que deixam aparecer parte da cor típica do alimento refinado que pretendiam esconder. Clique na foto pra ampliar e comprovar. Pegou mal pra caramba. As redes sociais não perdoaram. O almoço com lagostas ao molho de photoshop foi ridicularizado. Até (ou principalmente) a imprensa israelense deu cobertura à gafe. Aqui está o artigo do The Times of Israel.

Ah, essas redes sociais! Quando a gente está crente de abafar, dá o maior furo… Como diz o outro, ‘em boca fechada, não entra mosca’. Atualizando, fica assim: ‘Em almoço sem foto, ninguém fica sabendo qual foi o prato’. De qualquer modo, amanhã todos terão esquecido. E a conta, naturalmente, vem pra nós.

Greve – 2

José Horta Manzano

Outro dia eu contava a origem da palavra greve. (Pra quem perdeu, o post está aqui.) O tempo que levei escrevendo sobre essa palavra me levou a um momento de reflexão sobre o significado dela, tanto na etimologia quanto na vida real e nas consequências para cada cidadão.

Os franceses inventaram a greve e… abusam dela. Eu me lembro de um exemplo clássico. Era no tempo em que eu viajava frequentemente ao Brasil. Como todo o mundo, eu procurava escolher companhia que oferecesse bom preço e conexões decentes – evitando, se possível, aquelas que cobravam um pouco menos mas, em compensação, te faziam passar uma noite dormindo nos agradáveis bancos de madeira do aeroporto de Uagadugu. Com direito a mosquitos, pernilongos e muriçocas.

A preocupação maior era evitar a Air France, ainda que os preços fossem promocionais. A razão não era nenhuma desconfiança com a empresa, que é cotada entre as melhores do planeta. O nó do problema eram as greves, imprevisíveis e frequentes. Nesse ponto, francês é campeão. Quem faz escala em Paris está sujeito a elas. Ora são os controladores aéreos, ora os comandantes, ou o pessoal de solo, ou as aeromoças (adoro o sabor antiquado e romântico desse nome). É sempre arriscado. Se acontece no dia do seu voo, é pandemônio garantido.

No mundo, em qualquer empresa, quando surge desavença entre patrão e empregados, o caminho usual e adequado é discutir primeiro. Se realmente não houver jeito, aí sim, como último recurso de pressão, entra-se em greve. Na França, não funciona dessa maneira. Quando há uma reivindicação qualquer, entra-se logo em greve antes de discutir. A discussão, tumultuada, ocorre durante a greve. É balbúrdia na certa, que acaba prejudicando empresa, funcionários e usuários. Todos saem perdendo.

O distinto leitor ficará espantado se eu lhe disser que na França, duas ou três vezes por ano, até o rádio entra em greve. Falo das emissoras públicas, que são as mais sintonizadas e populares do país. Um belo dia de manhã, você liga o rádio pra ouvir as notícias e só vem música. A cada dez minutos, a música é interrompida por uma voz aveludada que informa que, em razão de um ‘movimento’ de funcionários por questões salariais, a emissora não está em condições de oferecer os programas habituais. E o ouvinte que se vire. A parede não tem prazo pra terminar e pode durar vários dias.

Para entrar em greve, cada categoria de profissionais escolhe o momento em que o cidadão ficará mais incomodado. Funcionários de metrô não vão parar de trabalhar no fim de semana, mas em plena segunda-feira de manhã, quando o movimento é mais intenso. Enfermeiras grevistas não escondem a seringa em agosto, mês de férias, mas numa época em que todos estejam no batente. E assim por diante, todo grevista procurando atrapalhar o mais possível.

Atualmente, está ocorrendo uma greve pra lá de original. As provas do baccalauréat (equivalente a nosso Enem) realizaram-se estes dias. Nessa época, a moçada do país inteiro fica em efervescência, todos nervosos e ansiosos. Pois acredite, distinto leitor: parte dos professores encarregados de corrigir as provas escolheu exatamente este momento pra entrar em greve. Recusaram-se a entrar as notas no sistema informático. Compreensivelmente, o país ficou indignado e o auê foi ensurdecedor – a tal ponto, que a reivindicação dos grevistas passou para segundo plano em meio à grita geral. É demais cruel impor esse suspense aos já estressados estudantes. Até o presidente da República interveio por meio de fala à nação, acontecimento raro.

Diante da ameaça de punição equivalente a 15 dias de desconto de salário, muitos grevistas entregaram os pontos e devolveram as provas corrigidas. Pequena minoria, no entanto, resistiu até o fim. Para contornar o problema, o ministério da Educação decidiu considerar que, para aqueles cujas provas tinham sido confiscadas pelos grevistas, valeria a média das notas das provas parciais do último ano letivo. Mais à frente, quando chegasse a nota do baccalauréat, valeria a mais favorável – a do ‘bac’ ou a média do ano.

No Brasil de antigamente, havia alguma greve. Nunca chegamos à recorrência que o fenômeno assume na França, mas greve sempre houve. Depois que o andar de cima foi capturado pelo lulopetismo, quinze anos atrás, sindicatos foram amansados com generosos mimos e as greves minguaram. Renascerão, sem dúvida. Por enquanto, estão quietinhos. Devem estar catando os cacos pra remendar o vaso.

Coleção de imprecisões

José Horta Manzano

Logo de manhã, costumo dar uma olhada nas manchetes de meus jornais habituais. Algumas merecem reflexão. As de hoje estão aqui.

Portal BR18, 6 julho 2019

Do Portal BR18
Maia não vê ‘crime’. Fico aqui tentando adivinhar qual teria sido a misteriosa razão que levou o estagiário a proteger a palavra “crime” com um par de aspas. Esses urubus gráficos se usam em citações. Não é o caso. Podem-se também usar pra sublinhar palavra usada em sentido irônico ou desvirtuado. Não parece ser o caso – doutor Maia acredita realmente que a divulgação não constitui crime. Portanto, salvo melhor juízo, as aspas podem voltar pro armário. (De onde nunca deviam ter saído.)

Até agora, falamos da forma. Agora, vamos ao fundo. A manchete diz que doutor Maia não vê crime. E daí? Ainda que ele esteja no topo do Legislativo, não lhe cabe emitir opinião sobre o grau de criminalidade do que quer que seja. A opinião dele vale tanto quanto a minha ou a de qualquer vivente. Quem deve dizer se há ou não há crime é a Justiça. Ponto final.

Estadão, 6 julho 2019

Do Estadão
Quando o político se vê encurralado e sem argumentos convincentes, costuma apelar para a velha saída do julgamento popular. Costumava aparecer ao pé do patíbulo, como última declaração do supliciado. Getúlio Vargas, que se autossupliciou, escreveu que deixava a vida pra entrar na história. Fidel Castro foi pelo mesmo caminho e disse, com voz trêmula, que a história o absolveria. (Até hoje, não ocorreu.) Lula da Silva ressuscitou a formulação do caudilho cubano ao repetir que a história o absolveria. (Por enquanto, continua cumprindo pena na cadeia.) Doutor Bolsonaro, ao lançar mão desse tipo de argumento, está indo pelo mau caminho. (Pode dar azar.)

Estadão, 6 julho 2019

Do Estadão
Maia de olho em 2022! No andar de cima, a compostura anda fazendo muita falta. Doutor Maia é presidente da Câmara. O cargo, pra lá de importante, deveria absorver todo o seu tempo. Sua preocupação deveria ser com o hoje, com o que está acontecendo agora, com os acertos que serão feitos amanhã de manhã. Não é hora de se preocupar com apoios políticos a vigorar daqui a três anos. Doutor Maia deixa claro que não está nem aí para o que acontece hoje na Casa que preside. Parece mais preocupado com assegurar a continuidade da boquinha.

Estadão, 6 julho 2019

Do Estadão
Um esquema de segurança que deixa passar uma mala com 39 quilos de cocaína num avião da frota presidencial não merece o nome que tem. Esse, sim, merece aspas: esquema de «segurança». Estava na hora de reforçá-lo. Assim mesmo, fica a interrogação sobre o que terá acontecido. Quem carregou a mala? Quem entrou com ela no avião? Por que não passou pelo raio X como toda bagagem? Houve cumplicidades? Quem ganhou com isso? A quem seria entregue? Quem forneceu a mercadoria? Saberemos um dia. Ou não.

Folha de São Paulo, 6 julho 2019

Da Folha
De novo, gente de olho em 2022. Será por isso que somos invadidos por essa sensação difusa de que não há governo. Estão todos fixados no que vai acontecer daqui a três anos. E daqui até lá, como é que fica? Continuamos empurrando com a barriga?

O Globo, 6 julho 2019

Do Globo
Por mais bem-intencionado que esteja o secretário da Desestatização, a afirmação é obtusa. As estatais não são corruptas. Nem mesmo a Odebrecht é corrupta. Nenhuma empresa é corrupta. Quem se deixa corromper são os diretores e demais funcionários dessas empresas. Dizer que uma empresa é corrupta, além de incorreto, é perigoso: acaba criando uma imagem distorcida. Durante os governos petistas, a Petrobrás foi conduzida por gente corrupta e criminosa. A empresa, em si, nunca foi corrupta.

Reunião na cadeia

José Horta Manzano

Artigo do jornal argentino Clarín relata a visita feita por Alberto Fernández a Lula da Silva, em Curitiba. Señor Fernández é candidato ao cargo de presidente da Argentina. Sua chapa tem, como vice, ninguém menos que Cristina Kirchner. A ex-presidente, figurinha carimbada da política do país hermano, está atualmente enrolada com a justiça por suspeita de corrupção. Seu processo só não avança devido ao fato de ela ser senadora, cargo que lhe garante imunidade.

O promotor da viagem e mestre-sala do candidato em Curitiba foi o inoxidável Celso Amorim, responsável pela bizarra orientação da política externa brasileira durante os dois mandatos de Lula da Silva.

A frase soltada pelo candidato à presidência argentina, mencionada no início deste escrito, faz sentido. Doutor Bolsonaro é visto com desconfiança pelos argentinos. Mauricio Macri, atual presidente e candidato à reeleição, anda mal das pernas, maltratado pelas pesquisas. Bolsonaro tem dado apoio explícito a Macri. Ao fim e ao cabo, visto que apoiador e apoiado estão na berlinda, cada elogio do apoiador reforça a síndrome do abraço de afogados. Nessa briga, quem sai ganhando mesmo é o candidato Fernández – que leva Cristina a tiracolo. Daí o comentário debochado reproduzido na entrada deste artigo.

Curitiba: o candidato Fernández e o inoxidável Amorim

É consternante notar que, entre os dirigentes latino-americanos, desapareceu toda cautela para evitar acidente diplomático. A própria noção de incidente diplomático está em recesso.

Desde que os governos petistas se puseram a apoiar explicitamente candidatos nas eleições do Equador, da Bolívia, da Venezuela e de outros países ‘amigos’, liberou geral. Atitudes inimáginaveis, pelos cânones da diplomacia tradicional, tornaram-se corriqueiras.

Apoio declarado à reeleição de Trump é o pão nosso de cada dia do entourage de nosso presidente. O próprio doutor Bolsonaro declarou com todas as letras que, caso a dupla Fernández/Kirchner vença as eleições argentinas, o país vai virar uma Venezuela. O troco veio rápido. Em visita a nosso território, o candidato ofendido se permite debochar de nosso presidente. E tudo bem. Admirável mundo novo!

Ignorantões

José Horta Manzano

Confirmando que o alto escalão da República continua nadando de braçada na arrogância que só a ignorância permite, doutor Bolsonaro reeditou uma fala já soltada em novembro passado por aquele seu ministro que tem nome de pedra semipreciosa.

Na época, o time presidencial tinha ficado ressentido por causa de um comentário feito por uma ONG norueguesa sobre a destruição que aniquila o que resta de nossa cobertura vegetal. Doutor Onyx disse então que, em matéria de preservação ambiental, o Brasil não tinha nada a aprender com a Noruega, país que já tinha destruído todas as florestas. Santa ignorância! Logo a Noruega, um dos países mais verdes da Europa!

Chamada do Portal BR18 (Estadão) – 4 julho 2019

Desta vez, foi o próprio presidente da República. Se contar, ninguém acredita. Durante café da manhã tomado com parlamentares hoje de manhã, doutor Bolsonaro saiu-se com esta: «Sobrevoei a Europa, já por duas vezes, e não encontrei 1km2 de floresta». De novo: santa ignorância!

Europa: cobertura florestal
crédito: jakubmarian.com

Está aqui um mapa que mostra, em verde, as regiões da Europa que têm mais de 15% do território coberto de floresta. Além dessas zonas, há quantidade de outras onde a cobertura florestal existe, mas não atinge 15%. Há trechos de floresta por toda parte. Daqui de casa, por exemplo, avisto floresta pelas janelas de um lado e de outro do imóvel. E olhe que vivo em zona densamente construída!(*)

Em torno da mesa desse café da manhã presidencial deviam ser todos broncos, tanto quem falava quanto quem ouvia e achava graça. Mapeamentos feitos por peritos valem mais do que ‘dois sobrevoos’ do continente.

Mas que gente é essa?

(*) A Suíça e outros países europeus contam com técnicos especializados em preservação da floresta. São a versão moderna do antigo lenhador, aquele que ia buscar lenha no mato. Os de hoje são funcionários contratados pela administração local. Com formação em botânica, examinam as árvores e dão instruções aos operários para abater aquelas que chegaram ao fim da vida ou que estão doentes. Uma floresta tem de ser vigiada, saneada, observada, cuidada.

Além de ser homem de poucas letras, nosso presidente tem assessores fracos, mancos e zarolhos. O resultado é esse aí: desastroso.

Greve

José Horta Manzano

Você sabia?

A palavra que utilizamos para indicar uma parada de trabalho ― organizada voluntária e coletivamente na esperança de alcançar melhora salarial ou vantagem laboral ― vem do francês. Tem longa história.

Na época em que rei detinha poder absoluto, decisões dependiam, naturalmente, de sua excelsa vontade. Na Paris do século XII, a burguesia pleiteava um espaço público adequado para cerimônias e festas. Em resumo: queriam um salão de festas ao ar livre. O rei Luís VII aquiesceu, mas impôs uma condição: exigia que, em troca, os burgueses lhe pagassem a soma de 70 libras, montante considerável para a época. Concluído o trato, um terreno às margens do Rio Sena ficou reservado para cerimônias e festejos. Era o salão de festas da alta burguesia. O rei garantiu que nunca se construiria ali.

Place de Grève em 1746 Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

Place de Grève em 1746
by Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

A proximidade do rio era bem prática. Tirando ocasiões em que era ocupado para festejos, o espaço era regularmente utilizado como atracadouro para barcaças que traziam carvão e outras mercadorias para abastecer a cidade. Grève é o nome dado pelos franceses a um terreno de pedrisco que se inclina em direção à água. Uma praia de cascalho, em suma. Daí o nome de Place de Grève ― a Praça do Cascalho.

A promessa do rei foi mantida e o enorme espaço retangular está lá até hoje. Séculos depois, a majestosa sede da prefeitura foi construída no alto da praça. O palácio acabou provocando a mudança do nome da praça. Ela passou a ser conhecida como Place de l’Hôtel de Ville ― Praça da Prefeitura. É o nome atual.

Nem só de festas viveu a Place de Grève. Execuções públicas foram praticadas lá, desde fogueiras medievais reservadas para bruxas e hereges até as primeiras cabeças guilhotinadas pelos revolucionários de 1792.

A Revolução Industrial deu nascimento às primeiras manufaturas e, em consequência, aos primeiros operários. O grande espaço que a praça oferecia era raridade na Paris de princípios do século XIX ― uma teia irregular de ruelas estreitas e malcheirosas. Assim, em pouco tempo, tornou-se ponto de encontro de homens à procura de trabalho. Donos de manufatura à cata de mão de obra passavam por lá para engajar pessoal.

Place de l'Hôtel de Ville nos dias atuais

Place de l’Hôtel de Ville
nos dias atuais

Com o passar dos anos, os operários foram-se dando conta de que, unidos, tinham mais força pra reivindicar melhores salários ou melhores condições de trabalho. A maneira mais simples e mais visível de mostrar descontentamento era deixar de comparecer ao emprego. Coletivamente, de preferência. A Place de Grève encontrou vocação nova: tornou-se ponto de agrupamento dos que se recusavam a trabalhar em razão de alguma reivindicação.

A praça acabou emprestando seu nome à novidade. A língua francesa adotou o termo grève para designar paralisação de trabalhadores. Faire la grève (=fazer a greve) é como dizem. Cada língua encontrou solução própria pra descrever o fenômeno novo. Das 30 línguas mais faladas, somente duas adotaram o termo francês: o turco e o português.

Eis por que, enquanto outros dizem huelga, sciopero, Streik, stávka, nós permanecemos fiéis ao original e não arredamos pé. Greve é greve.

Texto originalmente publicado em 21 set° 2014.

Acordo UE-Mercosul: por que agora?

José Horta Manzano

Por inesperado, o destravamento do acordo entre o Mercosul e a União Europeia surpreendeu. Com altos e baixos, estava em banho-maria havia 20 anos. Até uma semana antes da cúpula do G20, não se imaginava que seria assinado tão já. Até mesmo na véspera da assinatura, ainda se punha o verbo no condicional.

Frise-se que o documento sacramenta apenas um acordo de princípio, que poderá (ou não) entrar em vigor um dia. Na hipótese optimista, passará a valer daqui a alguns meses; na pessimista, será daqui a muitos anos. É que tem de ser ratificado individualmente pelo parlamento dos 28 membros da UE e dos 4 integrantes do Mercosul. São 32 congressos nacionais (31, caso o Reino Unido deixe a UE). Não é brincadeira.

Já no dia seguinte ao da assinatura, mais de 300 ONGs ligadas à preservação da natureza se alevantaram, indignadas. Valendo-se da forte ação lobística de que são capazes, têm intenção de pressionar os governos europeus para que suspendam a ratificação enquanto o Brasil não der provas de ter tomado medidas concretas para impedir o avanço da destruição da floresta úmida. Alô, madeireiras!

Na França, sindicatos e associações de classe que representam os interesses dos agricultores estão de cabelo em pé e armas na mão. Enxergam a produção agrícola brasileira como ameaça. Temem que o mercado deles, antes cativo, seja inundado com produtos brasileiros, o que geraria crise na produção, com perda de renda e de empregos. Também eles sabem fazer pressão sobre os parlamentares. Alô, exportadores agrícolas!

Mas o que é que terá precipitado a conclusão de um acordo guardado na geladeira por tantos anos? Por que justamente agora, sob os holofotes da cúpula do G20, vitrina midiática de importância capital para os figurões que participam? É bem possível que o súbito desenlace tenha ocorrido por razões que pouco têm a ver com floresta tropical, defensivos agrícolas ou concorrência desleal. A razão pode ser bem mais banal.

Monsieur Macron, fragilizado pela crise dos Coletes Amarelos, precisa mostrar serviço. A finalização do acordo durante a vitrine do G20 há de ter-lhe parecido excelente ocasião. Decidiu embarcar nesse trem mesmo tendo de se expor à fúria de ecologistas e agricultores. Feitas as contas, deve ter concluído que os ganhos superam as perdas.

Frau Merkel está em fim de carreira. Já anunciou que não será candidata à reeleição. Viu no acordo um valioso item a acrescentar ao currículo. É permitido especular que tenha combinado antes com Monsieur Macron; afinal, França e Alemanha, juntas, são o motor da Europa.

Monsieur Jean-Claude Juncker é o presidente da Comissão Europeia, com mandato terminando estes dias. Pelas mesmas razões que Frau Merkel, tinha todo interesse em ver o sucesso das tratativas. Será lembrado como aquele que assinou o acordo mais importante da história da União Europeia. Ninguém resiste à força desses três personagens.

Resta falar de señor Macri e de doutor Bolsonaro, que colhem frutos que não plantaram. O presidente do país hermano, que está em campanha de reeleição, anda mal das pernas, castigado por pesquisas desfavoráveis. Para ele, a assinatura do acordo cai como luva. É trunfo não desprezível na corrida eleitoral.

Como seu colega argentino, doutor Bolsonaro está em queda de popularidade junto ao povo, em conflito com o Congresso, embrenhado no cipoal que lhe tecem os filhos. Por essas e outras, deve ter soltado um sorriso de orelha a orelha, tamanha a satisfação de ter podido assinar o acordo. Não resolve todos os problemas, mas dá-lhe oxigênio e uma trégua bem-vinda.

Eis como a convergência de interesses pessoais, alheios ao que estava sendo discutido, teve o condão de agilizar a conclusão de um acordo no qual, de tão emperrado, ninguém mais botava fé.

Mordillo, um poeta

José Horta Manzano

No fim de semana passado, às vésperas de completar 87 anos, faleceu o desenhista argentino Guillermo Mordillo Menéndez (1932-2019). Trabalhador incansável, deixou muito jovem o país natal, passou pelo Peru e pelos EUA, e fixou-se por longo tempo em Paris.

Ao chegar à França, como não falava uma palavra da língua, criou um personagem mudo e sem nome, que aparece solitário ou em grupo. Os desenhos do artista dispensam diálogo para serem entendidos.

Mordillo colaborou com publicações de prestígio, como as francesas Paris Match, Marie Claire, Lui e a alemã Stern. Passou as últimas décadas na ilha de Maiorca (Espanha), onde faleceu.

O universo do artista é fantástico, surreal, onírico, absurdo. O traço arredondado dos personagens instala clima de delicadeza e ternura. Sua paixão pelo futebol ressurge com frequência. Os personagens, sistematicamente brancos, ressaltam sempre, mesmo em meio a profusão de cores.

Aqui vai um tributo a esse poeta que trazia emoção na ponta do lápis.

Acordo Mercosul-UE

Os frutos do acordo

Vera Magalhães (*)

Além do enorme impacto comercial e econômico que a retirada de barreiras trará para o Brasil, devolvendo o país ao tabuleiro global, do qual estava escanteado, o acordo com a União Europeia funciona também como uma bem-vinda garantia de que o ímpeto bolsonarista em áreas como meio ambiente também terá de ser contido. O capítulo político do tratado inclui o compromisso dos países signatários com o Acordo de Paris e com outras metas ambientais.

A assinatura do acordo faz letra morta da cantilena bobalista da ala ideológica do governo. Ela pode até continuar entoando seus mantras no Twitter, comemorando como sua uma construção que é anterior e mais plural. Mas o fato é que, na vida real, falaram mais alto o pragmatismo e a disposição pelo liberalismo econômico e pela abertura do País ao resto do mundo.

(*) Vera Magalhães é jornalista. Trecho de artigo de 30 junho 2019.

Hora e vez de Bolsonaro

Eliane Cantanhêde (*)

Bolsonaro sai vitorioso do G-20. A seu jeito, um tanto estabanado, ele ganhou elogios de Trump, respondeu à altura a Merkel, surpreendeu Macron, foi malcriado com Xi Ji Ping com boas razões, comprometeu-se com o Acordo de Paris e abriu mais a porta da OCDE para o Brasil. Tomara que aproveite o acordo com a UE e o bom momento para parar de fazer e falar “besteiras”, controlar os excessos do seu entorno e passar a governar, ou seja, a focar as prioridades do País.

(*) Eliane Cantanhêde é jornalista. Trecho de artigo de 30 junho 2019.

O dilema do presidente

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 junho 2019.

A sinceridade não costuma ser a qualidade primeira do homem político. Uns mais, outros menos, todos acabam contornando promessas feitas quando era hora de atrair e cativar eleitores. Tanto faz que tenham sido promessas de raiz ou de circunstância. Virada a página da eleição, faz-se tábula rasa e o passado some. Alguns eleitos exageram no caradurismo. Roçam a desfaçatez. A julgar por declarações dadas recentemente, doutor Bolsonaro parece esforçar-se para aparecer nesta última categoria.

Em visita ao município onde passou a infância, nosso presidente foi claro. (Clareza não é lá seu forte mas, com boa vontade, dá pra entender o que ele quis dizer.) Pra começar, agradeceu aos que votaram nele e, curiosamente, também aos que lhe negaram voto. Dado que essa generosidade d’alma não é comum em suas falas, fica a impressão de ele estar seguindo, a seu modo, o conselho de algum assessor mais antenado. O objetivo nítido era contentar a todos, mas não se sabe se foi atingido. Devotar-se, ao mesmo tempo, a Deus e a Mamom é complicado.

No começo da Copa América de 1997, Zagallo, técnico da Seleção, andava desprestigiado. Ao final, assim que o Brasil conquistou a taça, ele despejou sobre seus críticos: «– Vocês vão ter que me engolir!». Vinte anos mais tarde, Lula da Silva repetiu a tirada de Zagallo. Foi num discurso em Vitória, quando pesquisas lhe sorriam enquanto nuvens judiciárias já lhe escureciam o horizonte. Dirigindo-se à pequena minoria que, em sua imaginação, não votaria nele para presidente, soltou a mesma frase: «– Vocês vão ter que me engolir!». Acabou engolido pelos acontecimentos.

Ainda na visita à terra da infância, doutor Bolsonaro não se contentou com agradecer pelos votos e pelos não votos. Fez uma ameaça que lembra a de Zagallo e a de Lula da Silva. Não usou as mesmas palavras, mas o sentido está lá. Disse que, caso não haja uma ‘boa reforma política’, será candidato à própria sucessão. Ficou claro o desafio lançado a deputados e senadores. Se o Congresso não conseguir costurar uma reforma que proíba a reeleição, os brasileiros terão de engolir Jair Messias de novo.

De fato, caso o Legislativo não releve o desafio de vedar reeleições, o diagnóstico do presidente quanto a sua futura candidatura é inequívoco: «– Lá na frente, todos votarão [em mim]», profetizou. Por um lado, a frase confirma a intenção de disputar a reeleição. Por outro, a julgar pelo valor de face, denota indisfarçável pendor totalitário. Eleições em que todos votam no mesmo homem são aquelas em que o partido único impõe um candidato só. Visto ser altamente improvável que a miríade de partidos brasileiros aceitem hipotética fusão geral que dê nascença a um partidão solteiro e único, doutor Bolsonaro vai ter de neutralizar concorrentes no muque.

Com apenas seis meses de estrada mas já de olho em 2022, o presidente não tem tarefa fácil pela frente. Que ninguém se deixe iludir pelo fato de a oposição estar destroçada neste momento. No jogo político brasileiro, pra ganhar eleição, o candidato pode dispensar respaldo de partido forte ou de coalizão. A prova disso é o atual presidente que, nanico na partida, vestiu a faixa na chegada. Portanto, aquele que desafiará o atual presidente no próximo pleito pode ser figura hoje desconhecida.

A obrigação primeira de quem quer receber o voto de todos é limpar o terreno arredando rivais e superarando concorrentes. Nesse particular, doutor Bolsonaro está diante de um dilema visguento. Sergio Moro, o pilar moral de seu governo, está atravessando fase de turbulência. Como capitão, o presidente tanto pode atirar o homem ao mar quanto dar-lhe amparo e abrigo. Se decidir abandonar o ministro e condená-lo à fritura em banha quente, eliminará o concorrente mas, em troca, seu governo perderá o esteio. Caso lance uma boia e salve o ex-juiz, o governo recuperará a garantia de intolerância contra a corrupção. Em compensação, doutor Bolsonaro estará vitaminando aquele que poderá vir a ser seu mais perigoso concorrente. E agora, Jair?

 

Fronteiras por atacado

José Horta Manzano

Você sabia?

O Brasil é um país grande. Ocupa praticamente a metade do subcontinente sul-americano e faz fronteira com dez vizinhos. A Rússia e a China, que têm superfície superior à do Brasil, confinam ambas com 14 países. Agora tente imaginar, distinto leitor, um país que fizesse fronteira com 34 países. Impossível? Pois esse país existe. É a França.

Bom, tem uma pegadinha aí. Quando eu disse que a França tem fronteira com 34 países, adicionei fronteiras terrestres e fronteiras marítimas. Assim mesmo, considerando somente as terrestres, a França se limita com 11 países, entre eles o Brasil. De fato, o Estado do Amapá confina com a Guiana Francesa, território francês.

Planisfério mostrando a superfície terrestre e marítima de cada país

Mas há também zonas marítimas sobre as quais um país tem soberania. Essas zonas estão na costa marítima de cada país assim como ao redor de ilhas. A região do Oceano Atlântico sobre a qual o Brasil tem soberania não faz fronteira com nenhum país. Portanto, nossos vizinhos são só dez. E pronto.

A França é dona de territórios espalhados por todo o planeta e muitos deles têm fronteira marítima com a zona de soberania de algum vizinho. Abaixo está a lista dos países com os quais a França faz fronteira.

Alemanha
Andorra
Antígua & Barbuda
Austrália
Barbados
Bélgica
Brasil
Canadá
Comores
Dominica
Espanha
Fidji
Holanda
Itália
Kiribati
Luxemburgo
Madagascar
Maurícia
Mônaco
Moçambique
Nova Zelândia
Papuásia Nova Guiné
Reino Unido
São Cristóvão e Neves
Sainta Lúcia
Salomão
Samoa
Seychelles
Suriname
Suíça
Tonga
Tuvalu
Vanuatu
Venezuela

Impressionante, não?

Sans moi

Grudar no personagem e obrigar o Brasil a cavalgar no ritmo ‘trumpista’ é sinal de perda de contacto com a realidade.

José Horta Manzano

O que o brasileiro diz, em falar caseiro, «me inclua fora» tem tradução perfeita em francês. Em Paris, diz-se «ce sera sans moi» (=será sem mim).

Monsieur Macron, presidente da França, usou esse recurso de linguagem hoje em previsão da conversa com doutor Bolsonaro. Logo ao chegar a Osaka, antes do encontro agendado (depois desagendado, em seguida reagendado, afinal realizado), avisou: «Se não pudermos discutir sobre o Acordo de Paris, ce sera sans la France (=sera sem a França)».

Depois da ameaça de «levar um pito» de Frau Merkel, doutor Bolsonaro sofreu ameaça de «levar um fora» de Monsieur Macron. Note-se que não estamos falando de dirigentes da Mongólia ou do Zimbábue. Alemanha e França são os dois países mais importantes da Europa e formam juntos o motor do continente.

França: temperaturas previstas para 28 junho 2019

Meu pai dizia: ‘Se não for por bem, vai por mal’. Em matéria de defesa da ambição climática do planeta, doutor Bolsonaro escolheu ‘ir por mal’. A adesão cega e total aos propósitos ignorantes que Mister Trump emite nesse particular é nociva a nosso país e nos está fazendo mal. A reviravolta climática já não é ameaça, é realidade.(*) Pra evitar catástrofe maior, cada cidadão pode (e deve) fazer sua parte, mas governos podem muito mais.

Liberar, no Brasil, agrotóxicos já proibidos na Europa é atitude insensata. Agasalhar desmatamento desenfreado também é. Nosso presidente é responsável por esses dois atos. Além de prejudicar a saúde, essas atitudes típicas de mentes desinformadas botam obstáculos na negociação de acordos comerciais.

Doutor Bolsonaro devia pôr na cachola que Mr. Trump não é eterno e que será substituído um dia. Grudar no personagem e obrigar o Brasil a cavalgar no ritmo trumpista é sinal de perda de contacto com a realidade. É como tomar carona num veículo que não se sabe pra onde vai. A gente acaba se perdendo. Doutor Bolsonaro precisa recalibrar seu GPS e começar tudo de novo.

(*) A onda de calor temporã que oprime a Europa neste fim de junho já está aí faz quatro dias. Não se sabe exatamente quando terminará – talvez no meio da semana próxima. No país de Monsieur Macron, preveem-se temperaturas entre 40° e 45° para este fim de tarde. Na amena Suíça onde vive este blogueiro, o termômetro marcava 29° à uma da manhã na noite que passou. Durma-se com um bafo desses.

Exportando veneno

José Horta Manzano

O acordo agrícola entre o Mercosul e a União Europeia está emperrado há anos. Entra governo, sai governo, e a coisa não anda. De relance, sem analisar a fundo, a gente imagina que o problema seja o corpo mole dos dirigentes do Mercosul, essa gente despreparada. É apenas parte da verdade.

De fato, há certa inabilidade dos governantes mercossulinos, que têm feito mal seu trabalho. Do lado europeu, no entanto, também há resistência. Alguns países travam luta encarniçada contra o acordo. O carro-chefe dos que se opõem é a França, o maior produtor agrícola da UE.

O receio de Paris é vir a perder mercado caso o continente seja invadido por produtos agrícolas brasileiros, mais baratos porque produzidos em grande escala. Outra queixa dos que se opõem a importações do Brasil – queixa esta exprimida por quase todos os países – vem do medo de serem introduzidos no mercado europeu alimentos infectados por pesticidas.

A mídia brasileira informa que, só neste primeiro semestre de 2019, o Ministério da Agricultura já liberou 239 novos pesticidas para uso no Brasil. Duzentos e trinta e nove somente este ano! A imensa lista de produtos inclui artigos já banidos pela União Europeia.

Para um governo que diz estar trabalhando para alargar os horizontes do comércio exterior brasileiro, essa permissividade é verdadeiro gol contra. Desfazem com uma mão o que fizeram com a outra. Esse governo mostra não estar preocupado com as exportações agrícolas. Nem com a saúde dos brasileiros.

Tempo quente

José Horta Manzano

Fica até cansativo, mas convém repetir: o clima está mudando. Donald Trump e doutor Bolsonaro podem não apreciar, mas não há como negar a realidade. Fenômenos climáticos extremos, que costumavam ocorrer uma ou duas vezes por século, estão se tornando corriqueiros. Neste ritmo, daqui a duas décadas a vida no planeta vai se tornar insuportável.

Este ano, nova onda de calor excepcional está varrendo a Europa. Além de forte, ela chega em junho, o que é considerado muito cedo. Vinda direto do Saara, está lambendo uma dezena de países: Espanha, França, Itália, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia e Polônia. Até na amena Escandinávia, onde o tempo é geralmente fresco, o povo está se estorricando.

by Vincent L’Epée, desenhista suíço

Já faz uns dois dias que o tempo está esquentando. Mas a intensidade aumenta. A partir de hoje, já são esperadas temperaturas acima dos 40 graus em diversos pontos da Espanha e da França. Nenhum dos países vizinhos vai escapar de ver o termômetro subir acima dos 35 graus. E frise-se que ar condicionado é raridade por aqui. Os próximos dois dias prometem ser infernais.

Os meteorologistas acreditam que, a partir de domingo, a temperatura deve arrefecer. Mas é previsão sem garantia porque, além de um horizonte de cinco dias, os dados não são confiáveis. Pra quem quiser escapar a esta fornalha, recomendo a Islândia. O tempo por ali é fresquinho. Por enquanto.

Um bunker no Arizona

José Horta Manzano

Todo o mundo está liberado pra fazer coisa errada. A prática funciona, leve e solta, até que nos apanhem com a boca na botija. Aí, o angu encaroça. Todos fazemos diariamente o que devemos e o que não devemos, o que podemos e o que não podemos. E o barco segue tranquilo até o dia em que o erro é descoberto. Aí… catapum! Vêm as consequências.

A vida é assim, todos somos assim, o fenômeno é banal. Todos fazemos besteira. Um conselho antigo diz: «Se cometer malfeito, não deixe rastro». Doutor Moro se descuidou, não seguiu o conselho e se estrepou. Talvez os anos de magistratura lhe tenham inculcado a certeza de ser invulnerável. Talvez tenha botado fé exagerada na inviolabilidade de mensagens eletrônicas. O fato é que ele bobeou e acabou deixando rastro. Fez como o gato que se esconde e deixa o rabo de fora. Tamanha ingenuidade por parte de pessoa erudita e antenada surpreende.

Faz décadas que acredito que todas as conversas telefônicas são gravadas e conservadas em algum lugar. Hoje em dia, com as facilidades de armazenagem de material digital, tenho a convicção de que todas as mensagens – de som ou de texto – são recolhidas e armazenadas nalgum bunker enfurnado num deserto do Arizona ou do Colorado. Não é imaginável que todas sejam lidas. Mas ficam lá pra uso em caso de necessidade.

O que o distinto leitor e eu dizemos ou escrevemos não é de interesse público. São palavras inconsequentes, sem nenhuma incidência sobre a rotação do planeta. Já o que diz ou escreve um figurão como doutor Moro interessa, sim, a muita gente. Principalmente quando, em conversa clandestina, ele escreve o que não deve e envia a um correspondente com quem não devia estar-se correspondendo.

Mas agora o mal está feito. O moço foi apanhado com os dedos enfiados no pote de geleia. E com a boca lambuzada. Não tem como se esquivar. O que me surpreende é a veemência com que certos blogueiros e articulistas tentam negar a realidade. É esforço jogado fora, minha gente, que o rei está nu. O que interessa é saber o que vai acontecer daqui para a frente. O fato de os dados terem sido obtidos de modo ilegal não anula a ilegalidade da troca de mensagens. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

A origem da receita

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem vai ao médico, nos dias de hoje, não se dá conta de que a regulamentação da profissão ― em terras europeias e americanas ― é relativamente recente.

Da Idade Média até o século XIX, a arte de curar foi exercida por corporações disparates, tais como: homens de igreja, barbeiros, boticários, tira-dentes, curandeiros, charlatães, feiticeiras.

Prescription 2

A Revolução Francesa, entre outros feitos, tornou a sociedade consciente de que certas práticas ancestrais reclamavam por normatização. O sistema métrico, por exemplo, é fruto daquela época. Até então, havia um rosário de unidades de medida ― de peso, de capacidade, de tamanho. Pés, polegadas, quintais, braças, arrobas variavam de uma região a outra.

A Revolução, assim como normalizou as unidades de medida, apontou para a necessidade de sistematizar outros atos e procedimentos que cada um costumava, até então, executar a seu modo. A regulamentação de certos ofícios começou naquela época.

A valorização das profissões da área de saúde ― medicina, cirurgia, farmácia ― gerou, como corolário inevitável, o rebaixamento de curandeiros e feiticeiras. Barbeiros passaram a dedicar-se unicamente à pilosidade de seus clientes, deixando sangrias e extrações dentárias para profissionais habilitados.

Olho de Horus

Olho de Horus

Embora já fosse adotada esporadicamente desde o século XVII, ganhou força aquela marca de que uma receita tinha sido prescrita por um profissional. Tratava-se de um R barrado ― este aqui: .

Está em uso até nossos dias. É muito provável, distinto leitor, que o médico que cuida de sua saúde tenha guardado o que lhe ensinaram na escola e continue a marcar suas receitas com o símbolo distintivo da corporação. Preste atenção da próxima vez.

De onde vem essa, digamos assim, logomarca? Pois parece que a origem é incrivelmente longínqua. Dizem que as raízes descem até o Egito antigo. O R barrado seria a transcrição, se assim podemos nos exprimir, do hieroglifo que simbolizava o olho esquerdo de Horus, um dos deuses da mitologia egípcia.

Olho de Horus

Olho de Horus

Por que o olho esquerdo? Ih, é uma história complicada, com briga entre deuses, assassinato, esquartejamento, muito sangue. Pra resumir, saiba-se que, numa luta entre Seth e Horus, o olho esquerdo deste último foi arrancado e picado em 64 pedaços. Toth, o deus da ciência e da medicina, foi quem conseguiu dar jeito de recompor o despedaçado olho de Horus.

Seja como for, é surpreendente que milhares de médicos ao redor do planeta encabecem suas prescrições, talvez sem o saber, com símbolo forjado milênios atrás.

Publicado originalmente em 22 agosto 2014.

No Estádio Azteca

José Horta Manzano

No Brasil, a data passou praticamente em branco. Na Itália, o jornal La Sicilia, quotidiano fundado há 75 anos na ilha de mesmo nome, lembrou. De fato, este 21 de junho marcou o 49° aniversário de um dos mais bonitos jogos da história do futebol.

Foi quando o Brasil de Pelé, ao bater a Itália de Riva por 4 x 1 na final da Copa do Mundo de 1970, tornou-se proprietário definitivo da Taça Jules Rimet.

O dia em que o Brasil de Pelé maltratou a Itália de Riva

Aviso aos navegantes
O artigo traz até um link para um filminho de minuto e meio com os cinco gols da partida. Pra quem aprecia, vale a pena. O link é este aqui, ó.

O vaso e o cachepô

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Uma crônica com um título desses fica até com cara de fábula. Mas não é. Trata-se de caso que realmente aconteceu.

Contaram-me essa história como verdadeira e não tenho por que duvidar, pois a relatar-me foi o próprio dr. Venâncio Prates, homem de meia-idade (que já teve, com certeza, 1/4 de idade e um dia ainda há de ter idade inteira), sujeito boa-praça, que leva muito a sério seus cabelos grisalhos – os que ainda lhe restam e que agora observam, lá do alto, a barriga um tanto volumosa a comprometer um bocado a estética do conjunto.

Disse-me que a esposa, dona Ilda, à semelhança de tantas outras, adorava plantas. Frequentava exposições, admirava e elogiava o capricho da natureza na feitura das flores, umas mais belas que as outras, o que sempre a deixava sem saber definir qual a sua predileta, tantas as cores e as formas. Tamanha beleza e tanta variedade enchiam-lhe os olhos.

Foi num Dia dos Namorados que o dr. Prates teve a infeliz idéia de comprar um pequeno vaso com florezinhas muito delicadas, até bonitinhas mesmo. Tinha bom gosto para escolher, e não havia de existir melhor presente para a esposa.

Flor 1

Pois bem, deu-lhe o tal vaso. A mulher ficou radiante e passou uns 5 ou 6 dias agradecendo de tanto que gostou. Mas (e quase sempre há um “mas” para fazer a coisa desandar)… e o cachepô? Um recipiente desses melhoraria e muito o vaso, faria com que as flores ficassem ainda mais bonitas – achava dona Ilda. Um vaso sem cachepô está fadado ao insucesso, ao abandono, ao esquecimento.

Como de costume, dr. Prates atendeu logo ao desejo de sua amada. Um ou dois dias depois, apareceu em casa com um cachepô que, de fato, valorizou mais ainda o presente.

Um “mas” bastava? Claro que sim, se se tratasse de pessoa, digamos, normal. Já dona Ilda, com tanto tempo disponível para conjecturar, conseguia elaborar idéias mais profundas a partir de um simples vaso, agora reforçado pelo cachepô.

by Ewa Helzen, artista de Malta

by Ewa Helzen, artista de Malta

Achou que talvez fosse a cor da sala que não estivesse lá combinando muito bem com as flores, que, aliás, continuavam muito bonitas, embora parecessem já não ornar tão bem com o ambiente.

O dr. Prates não demorou a tomar a decisão de pintar a sala de estar. Claro que, logo em seguida, descobriu que a sala de jantar não podia ficar com a pintura velha e logo deu-lhe nova pintura também. Acatando sugestão da amada esposa, os quartos também foram pintados, o que obrigou, por conseqüência, a aplicar pintura nova ao resto da casa, sem esquecer, naturalmente, o lado de fora.

Feito tudo isso, dona Ilda, que continuava a cuidar muito bem das flores (que bem poderiam ser chamadas de Eva, pois foi por onde tudo começou), a sra. Prates – dizia eu – que tinha tempo de sobra para observar as coisas, após longa, acurada e minuciosa observação dos tons, do tamanho e do formato das flores do vasinho predileto, chegou à conclusão que, na verdade, era a casa que não combinava com a elegância e distinção das flores. Flores tão únicas, como jamais vira em sua vida. E depois, não era só isso, havia também que considerar o valor sentimental que elas representavam.

Flor 2

Não demorou muito e o dr. Prates, apesar das frustradas tentativas de demover a esposa da nova idéia (sem sucesso apesar de alentada argumentação), procurou nova casa, mais ampla, espaçosa (e mais cara também, claro) mas que, enfim, estaria perfeitamente apta a acolher, numa das salas, aquele vaso de flores dentro do cachepô.

Agora era hora de sossegar, mas (olha o “mas” aí de novo…) alguma coisa ainda inquietava o pobre dr. Prates (a esta altura, literalmente mais pobre mesmo, depois dos gastos consentidos). Conhecendo a esposa de longo relacionamento, ou seja, de muitos outros carnavais, pressentia ele que algo mais ainda estava por vir.

O dr. Venâncio Prates me confiou, depois de longo e profundo suspiro, que, preocupado com o conforto da esposa, comprou na semana passada uma almofadinha nova, para ela se sentar no banco do automóvel quando for dirigir.

A almofadinha até que ficou muito legalzinha, mas… (quem diria, hein, outro “mas”!), ele me disse que esta semana estão procurando um modelo novo de carro para comprar. Zero, é claro. E a almofadinha vai ter que ficar uma graça no carro novo.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Texto publicado originalmente em 29 maio 2015.