Nuvens negras: mudança climática

José Horta Manzano

O clima anda perturbado. A dança das nuvens está cada dia mais frenética. Ondas de frio são mais congelantes que antigamente e ondas de calor, mais escaldantes. O problema vai além da filosofia. Não faz mais sentido ser «climatocético» como Mr. Trump. Podemos até discutir se as atividades humanas são ou não as únicas responsáveis pela maluquice climática ‒ o que não podemos é negar que o clima endoideceu. A realidade está aí, basta ter olhos para ver.

Em 2003, a Europa ocidental sofreu a maior onda de calor em cem anos. Foi excepcional pela duração, pela intensidade e pela abrangência territorial. Durou quinze dias e atingiu uma dezena de países, de Portugal à Dinamarca. Calcula-se que tenha sido responsável por 70 mil mortes ‒ 40 mil somente na França. A imensa maioria das vítimas é constituída de idosos, cuja morte foi apressada pelo calorão. Chega-se a essa estimativa comparando os óbitos ocorridos durante a onda de calor com a norma estatística.

Durante o episódio saariano de 2003, recordes de alta temperatura foram batidos. Temperaturas de 40° ou 41° foram registradas na Alemanha, em Luxemburgo, na França e até na amena Suíça. Na calorosa Espanha, os termômetros enlouqueceram: marcaram 45° em Sevilha e 46° em Córdoba. Nível pra beduíno nenhum botar defeito.

Os que imaginavam que se passaria um século até que sobreviesse nova onda de calor excepcional se enganaram. Já em 2015, as nuvens ameaçaram. Novo episódio de calor extremo ocorreu, mas sua abrangência territorial foi modesta. Atingiu a Suíça e arredores.

by Vincent L’Epée, desenhista suíço

Nova investida da natureza está se dando atualmente. A Europa está sufocando. Das praias do sul de Portugal até a tundra do norte da Suécia, o verão tem permanecido muito quente desde o dia 1° de julho. E agora, em agosto, já faz uma semana que os termômetros não mentem: faz um calor extremo. A Suécia, tão próxima do Polo Norte, está sendo devorada por incêndios florestais provocados pelo calor e pela secura do ar. Temperaturas acima de 35° ‒ e até acima de 40° ‒ tornaram-se corriqueiras no continente. Até Lisboa, tão agradável em tempos normais, foi castigada estes dias com a marca de 44 graus, um despropósito!

Desarmados para episódios dessa natureza, os europeus assaltam lojas de ventiladores. Dado que quase ninguém tem ar condicionado, o rádio e a tevê difundem astúcias pra se proteger do clima extremo. Ensinam cuidados especiais a dispensar a recém-nascidos e a anciãos.

Volta à moda a palavra canícula, que designa este período. O termo, presente em todas as línguas latinas, vem da astronomia. O tempo que vai, grosso modo, do fim de julho ao fim de agosto coincide com a época em que Sírio, a estrela mais brilhante da constelação do Cão Maior, está em conjunção com o Sol. De cão (canis em latim), vem canícula.

Se as mudanças climáticas continuarem nesse passo, daqui a um ou dois séculos, o planeta será irreconhecível.

Saariano

José Horta Manzano

Você sabia?

A Europa ocidental enfrenta estes dias onda de calor saariana. Por sinal, trata-se de uma bolha de ar extremamente aquecido que escapou do deserto e chegou até aqui.

Ontem, 2 de julho, fez quarenta graus em Paris. Desde 1947, o termômetro não subia tão alto por lá. Na Andaluzia, sul da Espanha, a temperatura tem atingido os 44 graus.

Até na moderada Suíça, estamos transpirando. Em Genebra, fez ontem 35°. E aqui está a previsão para os próximos cinco dias:

Meteo 1Quem foi mesmo que disse que na Europa nunca faz calor?

Períodos extremamente quentes são aqui ditos caniculares. Neste momento, atravessamos uma canícula. As palavras são as mesmas em nossa língua, embora mais raramente usadas. Conhece a origem da expressão?

Canicule 1A estrela mais brilhante do céu chama-se Sirius. Fica na constelação do Cão Maior, donde seu apelido: Canicula – cachorrinha. Cão, em latim, é canis.

Canicule 2No Hemisfério Norte, entre 24 de julho e 24 de agosto, Sirius nasce e se põe junto com o Sol. Dado que é justamente nesse período do ano que sobrevêm os grandes calores, os dois fenômenos se amalgamaram na cabeça das gentes. Calor forte identifica-se com canícula. Ou seja: um calor do cão.