Trompe-l’oeil

José Horta Manzano

O japonês Akiyoshi Kitaoka (1961-) é professor de Psicologia no College of Letters da Universidade Ritsumeikan, em Kyoto (Japão). Há décadas vem-se especializando no estudo da percepção visual e de ilusões de óptica. Seus trabalhos demonstram que é possível «trapacear» com a visão humana, em especial a visão periférica.

Como se sabe, nossa visão bruta está longe de ser perfeita. As imagens que captamos precisam ser processadas pelo cérebro para fazerem sentido. Ao manipular as informações de que o cérebro necessita para interpretar o quadro, os desenhos do cientista conseguem dar um «nó nos miolos». Acabamos enxergando movimento em imagens estáticas.

Embora fixas, as gotas do centro parecem estar caindo.
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Os quadrados estão perfeitamente alinhados na vertical e na horizontal. No entanto, a parte central parece sobrelevada e distorcida.
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Os “ovos” vermelhos parecem desfilar. Mas estão perfeitamente imóveis.
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“A inquietude do Japão”
O sol da bandeira parece mover-se embora esteja parado.
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As “correias transportadoras” que, embora paradas, parecem desfilar.
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Os quadrados estão perfeitamente alinhados na vertical e na horizontal. (Pegue uma régua e confira.) No entanto, a parte central parece sobrelevada e distorcida.
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Os cilindros dão a impressão de girar. Mas estão imóveis.
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As engrenagens parecem girar, umas no sentido horário, outras no anti-horário. Mas estão paradas.
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Nota
Trompe-l’œil (literalmente ‘engana-olho’) é a expressão francesa para ilusão de óptica.

Homicídio anunciado

José Horta Manzano

Na Europa, a terrível notícia de que um automóvel tinha subido no calçadão de Copacabana e atropelado quantidade de gente se alastrou feito rastilho. Escaldados pelo que já aconteceu em Nice, em Berlim, em Barcelona, os europeus imaginaram logo que se tratasse de ataque de djihadistas terroristas. Parecia uma evidência.

Mais tarde, chegou o desmentido da polícia carioca. A desgraça não tinha sido obra de terrorista islâmico, mas façanha de criminoso comum, daqueles que se dedicam ao esporte macabro de jogar com a vida alheia ‒ e com a própria.

Constatou-se que o condutor do veículo era epiléptico, «detalhe» que se havia abstido de revelar no momento de tirar a CNH. Para piorar, estava havia anos privado do direito de dirigir, em decorrência de ter acumulado mais de uma dúzia de multas que vão desde estacionar em local proibido até trafegar em excesso de velocidade e ignorar sinal fechado. Um motorista exemplar, em suma.

Não sei como a Justiça vai enquadrar esse cidadão. O que a mídia veiculou me leva a considerar que ele cometeu homicídio doloso ‒ aquele em que o criminoso assume deliberadamente o risco de matar. De fato, sabendo-se sujeito a perder a consciência a qualquer momento, esse senhor estava ciente de que um automóvel em suas mãos podia se tornar arma descontrolada e mortífera. Como realmente aconteceu.

Uma particularidade me deixa perplexo. Os modernos meios eletrônicos estão aí para facilitar a vida de todos. Cidades, pequenas e grandes, estão abarrotadas de câmeras de segurança. Londres nos dá um excelente exemplo. Para circular no centro daquela cidade, motoristas têm de pagar pedágio diário. Em vez de instalar pórticos com barreiras e funcionários para cobrança, o pagamento se faz por telefone celular e o controle é levado a cabo por câmeras que, instaladas nas vias de acesso, registram a chapa de todos os carros que entram e saem. Ninguém escapa.

Por que não pensar num sistema análogo para flagrar motoristas que continuam a dirigir apesar de estarem com a carteira suspensa? «O carro que for fotografado pela câmera pode não estar sendo conduzido pelo motorista que perdeu o direito» ‒ hão de retrucar os leitores mais atentos. É verdade. Assim mesmo, o proprietário seria convocado a dar explicações à autoridade de tráfego. Para escapar à sanção, teria de apresentar bom álibi e um relato convincente do que tiver ocorrido.

A minha pode até não ser a solução ideal, concedo. Mas está na hora de agir. Não se pode permitir que assassinos potenciais ‒ conhecidos de antemão! ‒ possam circular por aí pondo em risco a integridade física e a vida dos demais.

Açúcar e mosca

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 18 jan° 2018

O estagiário faltou à aula justo no dia em que ensinaram colocação pronominal. Não aprendeu que o pronome relativo atrai o pronome oblíquo átono. Assim como açúcar atrai mosca, os pronomes relativos (que, o qual, quanto, quem & alia) atraem o pronome oblíquo. O ímã é forte, não há como escapar.

Portanto, o título correto será:

«Juiz diz que Maluf se movimentava com destreza».

Baú de memórias ‒ 6

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Mais uma experiência inacreditável que resgatei sem querer bem lá no fundo do meu baú de memórias. Como o último tema que abordei foi o do marketing, a lembrança veio por associação. Sei que pode parecer ficção, mas meus mais de 20 anos trabalhando como pesquisadora de mercado e de opinião pública estão repletos de fatos inusitados como o que vou relatar.

Eu estava envolvida na época com um levantamento qualitativo dos hábitos de consumo de uma marca de preservativo masculino. O fabricante desejava saber para que tipo de práticas sexuais ele era mais utilizado por cada segmento de público e qual o grau de satisfação dos usuários com o desempenho do produto em práticas não-convencionais.

Como o tema era para lá de delicado, optamos por realizar entrevistas em profundidade diretamente na residência dos respondentes ou em outro local em que eles se sentissem à vontade. Como também era difícil recrutar interessados em expor sua vida íntima para desconhecidos, decidimos trabalhar com base em indicações – ou seja, uma pessoa já entrevistada indicava amigos ou conhecidos que igualmente se dispusessem a falar sobre suas práticas e fantasias sexuais.

O público-alvo era extenso: casais heterossexuais tradicionais com e sem filhos, casais homoafetivos, profissionais do sexo, homens e mulheres, solteiros e divorciados, jovens e idosos. Não dá para resumir em poucas linhas as descobertas que fizemos em cada um desses segmentos. Só posso dizer que eu e meus colegas pesquisadores passamos por um bom período de muitas risadas e espantos.

Uma de minhas entrevistadas era uma mulher casada, fissurada em sexo anal. Como o marido se opunha intransigentemente à prática, ela viu-se forçada a “adotar” um amante mais jovem e mais liberal e com ele se encontrava regularmente. O caso nos interessava bastante, já que o preservativo tinha para ela dupla finalidade: evitar uma gravidez indesejada nas relações com o marido e proteger-se de doenças venéreas que evidenciassem uma possível traição. Além disso, para cada parceiro, os requisitos quanto ao desempenho do produto eram bastante distintos.

A entrevista foi longa e animada. Muito simpática e descolada, ela não opôs nenhuma resistência às perguntas mais invasivas e nem mesmo ao fato de a entrevista ser gravada. Quando terminou, agradeci a gentil acolhida e fiz questão de reassegurar-lhe que as informações cedidas jamais seriam divulgadas sem estrita permissão dela.

Cerca de um mês depois da entrevista, já envolvida com outros temas de pesquisa e sem me lembrar da conversa que com ela tinha tido, fui convidada para o casamento da filha de uma amiga de longa data. A igreja era pequena e estava lotada. Após a cerimônia, entrei na fila dos cumprimentos aos noivos. Minha amiga estava postada ao lado do casal, ajudando-os a recepcionar os convivas. Estrangeira e muito divertida, ela se preocupava em demonstrar intimidade com as regras de descontração dos brasileiros mesmo em eventos formais.

Quando chegou minha vez, ela me abraçou, comentou entusiasmada alguns detalhes da cerimônia e me pegou pelo braço, dizendo: “Vem comigo, quero lhe apresentar uma pessoa”. Acompanhei-a até um salão lateral da igreja, onde eram servidos champanhe e bolo. Várias pessoas conversavam animadamente de pé, numa rodinha. Minha amiga invadiu a roda me arrastando atrás e toda orgulhosa me apresentou a um casal: “Quero que você conheça fulana, minha melhor amiga desde que cheguei ao Brasil, e o marido dela”.

Quando ergui os olhos, não pude acreditar no que estava prestes a acontecer. Diante de mim, pálida e rígida como um cadáver, lá estava a mulher que eu havia entrevistado um mês antes. Tive apenas alguns segundos para me perguntar qual seria a melhor forma de evitar um constrangimento fatal para todos os circunstantes.

Paradoxalmente, foi o olhar de estarrecimento que ela me lançou que providenciou a pista de que eu precisava. A mensagem era clara: era preciso que eu comunicasse corporalmente, em absoluto silêncio, que ela não corria risco nenhum de ser desmascarada.

Num segundo, fez-se luz dentro de mim. Adotei uma cara de estudada paisagem, estendi a mão profissionalmente, esbocei um sorriso e disse com toda a serenidade que me foi possível: “Muito prazer!”

Pude acompanhar com os olhos cada um de seus músculos se distendendo e a respiração voltando ao normal. As cores logo voltaram a seu rosto e seu olhar agora era de gratidão. Ela sorriu de volta e se encarregou de me apresentar ao marido.

Deixei passar alguns segundos e escapuli à francesa, por uma porta lateral, dando graças mentalmente por ninguém ter se apercebido da saia justa. Nunca mais a vi, mas tenho a certeza de que, se eu precisar um dia de alguém que testemunhe a favor do meu profissionalismo ou da confiabilidade dos pesquisadores em geral, ela será a pessoa certa.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Essas palavras que não conhecemos

José Horta Manzano

Você sabia?

Com grande frequência utilizamos palavras cujo significado não conhecemos. «Como assim?» ‒ perguntará, um tanto indignado, o distinto leitor. «Eu não uso palavras que não conheço!»

Pois eu não teria tanta certeza. Volta e meia me surpreendo fazendo isso. Como sou curioso e não gosto de deixar ponto sem nó, costumo tomar o tempo de ir ao dicionário conferir. Vez por outra, o resultado é um espanto. A gente se dá conta de que não tinha a mínima ideia do significado do termo utilizado.

Vou tratar hoje de duas expressões bastante comuns, daquelas que ouvimos com grande frequência. A primeira é «ledo engano» e a segunda, «reputação ilibada». Você, que já há de ter pronunciado essas palavras, talvez não conheça o exato significado dos adjetivos ledo e ilibado.

Ledo
Descende da forma latina lætus. Linguistas ainda não conseguiram se pôr de acordo quanto à origem da raiz. Em todo caso, chegou ao latim com o significado de alegre, exultante, vivaz. Um cognato sobrevive em italiano moderno: lieto, usado para significar alegre. A forma portuguesa ledo ‒ atualmente usada unicamente para qualificar engano ‒ é de mesma natureza que a latina e conserva o mesmo significado. Portanto, «ledo engano» é «engano alegre».

Curioso, não? Talvez provenha da ideia de que aquele que se engana sem se dar conta do erro continua alegre, não fica chateado. A gente costuma dizer «bobo alegre», pois não?

Ilibado
Em nove a cada dez aparições, o adjetivo ilibado qualifica a palavra reputação. Mas o que significa mesmo? Pois também essa raiz aparece no latim. Libatus é o particípio passado do verbo libare, que significa espargir, derramar uma parte do vinho (ou outra bebida alcoólica) depois de ter provado. É um ritual semelhante ao daquele bocadinho de pinga que, antes de beber, se derrama «pro santo». Em rituais expiatórios da Roma antiga, fazia-se o contrário: experimentava-se antes e derramava-se o resto.

Com o passar do tempo, o significado do verbo libare evoluiu. Em vez de designar o ato de derramar, passou a dar nome ao ato de experimentar, degustar, ter prazer em saborear. A palavra libido é parente próxima. Portanto, dizer que algo ou alguém é ilibado significa que não foi tocado, que é puro, limpo, inteiro, não contaminado.

Entre os integrantes de nosso andar de cima, está cada dia mais difícil apontar um representante que responda a esses critérios.

Pente-fino

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 17 jan° 2018

Este blogueiro é do tempo em que se passava pente-fino. Falo da época em que saúva e piolho eram pragas nacionais. Ingenuamente, a gente pensava que essas marcas de atraso haviam desaparecido da paisagem.

Eis senão quando… os piolhos hão de ter ressurgido. E em quantidade considerável! Como as fábricas de pente já não dão conta das encomendas, o jornal nos informa que até o Supremo se pôs a fazer pente-fino. Que labuta!

A Terra é redonda

José Horta Manzano

A Terra é redonda. Ainda que alguém possa demonstrar alguma dúvida ‒ fato que sucedeu há alguns anos com um figurão de nossa política ‒, acredite: é redondinha. Como também são os demais planetas e estrelas. A Terra forma figura geométrica com três dimensões. Além da altura e da largura, tem a profundidade.

Na hora de desenhar essa bola numa folha de papel, surge um problema: enquanto a bola tem três dimensões, a folha tem só duas. Como fazer? Por mais engenhoso que seja o artista, a imagem final será necessariamente distorcida.

Na Antiguidade, essa dificuldade não incomodava ninguém. A cartografia estava longe de ser preocupação central da humanidade. O quebra-cabeça de transferir a imagem de uma esfera para um papel plano ‒ desenhando assim um planisfério ‒ só apareceu no século 16, depois que a expedição de Fernão de Magalhães deu a volta ao mundo e comprovou que realmente o planeta era redondo.

Planisfério pela projeção Mercator

Nenhuma representação plana de um corpo esférico será perfeita. Se se conservam os ângulos, as dimensões dos continentes será deformada. E vice-versa: se se privilegiam as dimensões, os ângulos aparecerão deturpados.

Existem dezenas de diferentes projeções, todas elas imperfeitas. A mais utilizada sempre foi a que o matemático e geógrafo Gerard De Kremer criou. O estudioso nasceu em 1512 num vilarejo que hoje faz parte do território belga. Como era costume na época, seu nome foi latinizado para Gerardus Mercator.

A projeção de Mercator é fiel aos ângulos, mas distorce as proporções. Num planisfério desenhado segundo esse método, à medida que as terras se afastam do Equador, as dimensões vão se deformando. As regiões situadas em altas latitudes, próximas aos polos, parecem muito mais extensas do que realmente são. Num planisfério de Mercator, a Groenlândia parece maior do que a América do Sul. Na realidade, o continente sul-americano é oito vezes mais extenso do que a gelada Groenlândia.

Acostumados que estamos a ver planisférios com superfícies distorcidas, ficamos com a impressão de que os países situados longe do Equador são muito maiores do que na realidade são. Canadá, EUA, Rússia e China são grandes, sim, mas não tanto assim.

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crédito: Reddit.com

Para repor as coisas nos devidos lugares, está aqui uma sobreposição do mapa do Brasil e dos EUA, ambos retratados na mesma escala e com a mesma projeção. Embora os dois países sejam grandes, vale lembrar que o território brasileiro é mais extenso que o território contíguo dos Estados Unidos ‒ ou seja, com exclusão do Alasca.

Bandeiras secretas

José Horta Manzano

Você sabia?

Antes de 1994, quando ainda vigorava o regime de segregação racial conhecido como apartheid, a África do Sul ainda se sentia próxima dos tempos coloniais. A população branca segurava firme as rédeas do poder mas, assim mesmo, pairava no ar a pouco agradável impressão de estar vivendo em terra alheia. A prova é que a bandeira do país guardava três bandeirinhas «de reserva» bem na faixa branca central. Embora já fosse independente, o país tinha dificuldade em desgrudar das origens britânica e neerlandesa.

Antiga bandeira da África do Sul. Foi substituída pela atual em 1994.

Com a eleição de Nelson Mandela à presidência e a transição miraculosamente pacífica que se seguiu, o regime mudou, o apartheid foi para o museu e a bandeira, naturalmente, foi redesenhada.

Hoje em dia, poucos são os países cuja bandeira guarda inserida uma bandeirinha «de lembrança». Esse fenômeno é frequente com pequenos territórios britânicos que vivem em regime de semi-independência.

Há uma bandeira, no entanto, que leva nada menos que oito bandeirinhas ocultas, como num jogo de esconde-esconde. É a elegante bandeira da Noruega. Como os demais países escandinavos, ostenta a cruz viking.

Bandeira da Noruega e as oito bandeiras escondidas.

Apesar da aparência relativamente simples, uma observação mais atenta revelará oito bandeiras nacionais mimetizadas, como naqueles quebra-cabeças que desafiam a «encontrar o coelho».

Há mais casos de bandeiras ocultas dentro de outras. Há que prestar atenção: quem procura, acha. Todavia, uma coisa é certa: nosso lindo pendão da esperança não se aninha dentro de nenhum outro.

Crédito
A descoberta das bandeiras ocultas dentro do pendão norueguês se deve à perspicácia do blogueiro espanhol Diego González.

No aguardo do visitante

José Horta Manzano

Daqui a uma dezena de dias, ocorrerá um evento histórico. Um importante personagem político deverá estar de visita a uma cidade que não costuma frequentar. Imagina-se que fará um pronunciamento. Os olhos e os ouvidos do planeta inteiro estarão abertos e atentos para não perder uma migalha do que o homem vai dizer.

Uma baciada de jornalistas do mundo inteiro estão na fila para obter a cobiçada autorização que lhes dará o direito de portar crachá e cobrir o evento. Já faz alguns dias que mil e quinhentos agentes especiais ‒ muitos deles armados ‒ já foram despachados à cidade para cuidar da logística e da segurança do visitante e de seu entourage.

Esse batalhão de homens treinados está encarregado de cuidar minuciosamente de todos os detalhes de hospedagem, alimentação e transporte do ilustre líder. Naturalmente, sem descurar a segurança, ponto primordial.

Para evitar manifestações hostis, a polícia local isolará e garantirá ordem e segurança no trajeto que o personagem deve seguir e nos pontos que deve visitar. O espaço aéreo da cidade será fechado a todo sobrevoo. Drones e helicópteros das forças policiais, munidos de câmeras com visão noturna, esquadrinharão em permanência toda a área central da cidade para prevenir toda tentativa de incursão.

Se o distinto leitor me acompanhou até aqui, há de estar imaginando que estou a descrever eventual comparência do messias de Garanhuns a Porto Alegre para inteirar-se do destino que a Justiça lhe reserva. Sou obrigado a decepcioná-lo. Não, não estou me referindo ao Lula.

Descrevi os preparativos para a esperada visita que Mr. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, deve fazer à Suíça daqui a dez dias. O dirigente vai participar do World Economic Forum, evento organizado todo janeiro em Davos.

Este ano, espera-se a presença de 350 líderes governamentais oriundos dos quatro cantos do planeta ‒ entre os quais 60 chefes de Estado ou de governo(!) ‒, além de um milhar de personagens importantes da sociedade civil, da vida acadêmica e da mídia. É esperada ainda alentada comitiva de ministros do governo americano, de senadores e de deputados.

A atenção do mundo estará voltada para os pronunciamentos e para os tuítes que Mr. Trump emitirá. Jornalistas se esforçarão para destrinchar as palavras do líder, por vezes cabeludas.

O anúncio que o tribunal de Porto Alegre fará, referente aos crimes de nosso ex-presidente, não deverá ocupar a manchete dos grandes veículos mundiais. Será relegado a nota de rodapé. A vida é cruel. Ninguém se condói da desgraça de líderes decaídos.

Politicamente chato

José Horta Manzano

Artigo dedicado a fanáticos por linguagem politicamente correta e aos que anseiam pela obrigatoriedade da linguagem dita «inclusiva».

Volta e meia se alevanta uma grita contra esta ou aquela palavra, esta ou aquela expressão acusada de sexista, preconceituosa ou até ofensiva. Termos que, até ontem, se usavam na fala de todos os dias passam a cambetear e acabam por resvalar para o abismo dos proscritos. Via de regra, um exame atento revela que a acusação não se sustenta.

Já ouvi muita gente preconizando asneiras. Aqui estão algumas:

    • o banimento da palavra ‘mulato’ por ser derivada de mula;

    • a proscrição do termo ‘judiação’ por ser agressivo para com judeus;

    • a estigmatização do verbo ‘denegrir’ por sugerir que o que é negro é ruim, conceito que ofenderia pessoas de raça negra;

    • a substituição da secular expressão ‘correr risco de vida’ pela bizarra ‘correr risco de morte’.

Sou de opinião que, se é pra fazer, melhor será ir até o fim, fazer completo e benfeito. Coser um pequeno remendo aqui e outro acolá, como fez o infeliz Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), é perder tempo e esforço. Impor linguagem ao mesmo tempo «inclusiva» e politicamente correta será objetivo difícil de alcançar. Além de sair caro, periga desfigurar a língua.

Entre mil outros, vou tomar hoje o exemplo de palavras pertencentes à extensa família descendente dos latinos pater (pai) e mater (mãe). A esmagadora maioria dos cognatos seguiu a «linha paterna», se assim me posso exprimir. E designam hoje realidades que nenhuma «linguagem inclusiva» conseguirá alterar. Vamos a alguns exemplos:

Patrimônio
Impossível substituir por ‘matrimônio’, palavra que dá nome a outro fato.

Apadrinhar
Dá pra conceber algo como: «A governadora ‘amadrinhou’ a nova creche»?

Patrocinar
Imagine só: «O patrão concordou e a empresa ‘matrocinou’ o evento».

Patrício
Pense num: «Passeando no estrangeiro, dei de cara com meu ‘patrício’ João e minha ‘matrícia’ Maria». Bizarro, não?

Patrono
«José Bonifácio é o ‘patrono’ da independência e a princesa Isabel, a ‘matrona’ da abolição da escravatura.» Pode?

Padrão
Considere um: «O ‘peso padrão’ é um quilo e a ‘velocidade madrã’ é 100km/h». Sem comentários.

Patriota
Dá pra sonhar com um: «Anita Garibaldi foi uma das grandes ‘matriotas’ que nossa história registrou»?

Padroeiro
Que tal um: «São José é o ‘padroeiro’ da cidade; Santa Bárbara, a ‘matroeira’»?

Padronizar
«Convém adotar estilo ‘padronizado’ e escrita ‘matronizada’.» Chique, não?

E assim por diante.

Em menor quantidade, os descendentes da mater latina também estão na praça. E são insubstituíveis. Veja.

Matrimônio
Impossível substituir por patrimônio ‒ a vaga já está ocupada. Portanto, homens vão continuar contraindo matrimônio.

Matrícula
Mulheres se matriculam. Homens também. Onde é que já se viu um homem se ‘patricular’?

Matriz
Aceita-se «A companhia ‘matriz’». Já «O estabelecimento ‘patriz’» fica um bocado estranho.

Resumo da ópera
Com tanto problema espinhoso à espera de solução, mentes privilegiadas melhor fariam se deixassem a língua em paz para se dedicarem a empreitadas mais úteis e prementes.

 

O custo lulopetista

José Horta Manzano

«Os contribuintes brasileiros pagarão por um belíssimo aeroporto na cidade de Nacala, em Moçambique. O aeroporto opera com 4% de sua capacidade. Em sua pista de 3.100 metros pousam apenas dois jatos de médio porte por semana, transportando menos de uma centena de passageiros cada um. Este é um retrato bem acabado da incúria no manejo dos recursos públicos que marcou a triste passagem de Lula da Silva pela presidência da República.»

Do editorial O pesado custo lulopetista ‒ Estadão, 12 jan° 2018.

Cotas raciais & apartheid

José Horta Manzano

Faz pouco mais de meio século, metade do continente africano era colônia francesa. A partir dos anos 1960, guerras e revoluções deram origem a processos de separação. Região após região, todas foram se libertando da metrópole.

Independência política, no entanto, não rima com independência cultural. Praticamente todos os novos países guardaram o francês como língua oficial e de cultura, ainda que nem sempre seja o idioma do dia a dia da população. Essa forte ligação com o antigo colonizador gerou forte pressão migratória em direção à metrópole.

A rápida expansão econômica ocorrida na Europa do pós-guerra constituiu as três décadas ditas «gloriosas»: 1950, 1960 e 1970. O reerguimento requereu importante quantidade de mão de obra. Na França, isso favoreceu maciça imigração proveniente das antigas colônias do Oriente Próximo (Argélia, Tunísia e Marrocos) e da África negra.

Chamar de «quilombos» seria rematado exagero, mas o fato é que essas populações forasteiras se instalaram nos arredores das grandes cidades, em conjuntos habitacionais construídos para classes menos favorecidas. O tempo passou. Hoje já estamos na terceira geração dos que vieram com a primeira onda de imigração. Boa parte dos descendentes continua vivendo nos mesmos conjuntos periféricos.

Por numerosos fatores que incluem baixa escolaridade dos mais velhos, condições econômicas precárias, diferenças de cultura religiosa e dificuldades de integração na sociedade francesa, os jovens dessa terceira geração chegam ao final do ensino médio com nível de aprendizado inferior ao da média nacional. É válido comparar o drama desses jovens ao dos brasileiros oriundos de camadas mais humildes: ambos os grupos enfrentam os mesmos desafios.

A solução encontrada por Paris e por Brasília, no entanto, não foi a mesma. A França reconheceu que o problema vem da base e é por lá que tem de ser resolvido. Tem reforçado o ensino médio dessas regiões. Os professores vêm sendo especialmente treinados para lecionar nas escolas da periferia. Por seu lado, o currículo é adaptado às necessidades específicas dessa franja da população. O objetivo é fazer que o certificado de conclusão da escola média desses alunos tenha o mesmo valor que o dos demais franceses. A partir daí, cada um seguirá seu caminho. Os que optarem por prosseguir os estudos estarão em pé de igualdade com os outros jovens do país.

Já as autoridades brasileiras, a meu ver, enveredaram por caminho equivocado. Deram de barato que a qualidade atual do ensino médio é insuficiente para certos contingentes populacionais ‒ e que assim continuará pela eternidade. Para dar um «empurrãozinho» nos que não têm lastro suficiente para seguir estudos universitários, arquitetaram um engenhoso sistema de quotas. É um achado. Disfarça as lacunas de aprendizado de alguns alunos e dá um jeitinho de pô-los na faculdade. Para coroar o equívoco, desprezaram a seleção por nível econômico e preferiram selecionar por critérios raciais.

Dos grandes países, o Brasil é de longe o mais miscigenado. Tentar estabelecer categorias raciais aqui é insensato. De fato, por impossível, nenhum critério para definição de raça foi instituído. A seleção funciona na base do olhômetro. Pardos e mulatos, que são produto do cruzamento de raças, têm sido arbitrariamente classificados como «afrodescendentes» quando, na verdade absoluta, são também eurodescentes. Não ficou esclarecido por que razão a ascendência africana sobrepujaria a europeia.

Os resultados deletérios já começam a aparecer. Denúncias de fraudes na autodeclaração racial pipocam nas universidades federais. Comissões estão para ser criadas com o fim específico de avaliar a veracidade de propósitos de candidatos autodeclarados negros ou mulatos. A que ponto chegamos! Na falta de elementos objetivos, dependemos de «comissão julgadora» para determinar a «raça» de cada indivíduo.

Na Europa, onde a simples menção à noção de raça dá arrepios, soluções como essa adotada pelo Brasil são inconcebíveis. A memória coletiva ainda carrega o horror da seleção racial instituída pelos nazistas nos anos 1930 e 1940, quando se ensinava à população como reconhecer judeus pela aparência.

Às vezes tenho a impressão de que estamos no caminho acelerado de instituir um apartheid à brasileira. Separação, cada um no seu canto, proibição de casamento interracial. Banheiros, bares, restaurantes, escolas, hospitais e bairros distintos para cada um, dependendo da raça determinada por uma comissão específica. Cada um carregará no bolso um documento oficial atestando a denominação racial que lhe tiver sido atribuída.

Cruz-credo! Nosso futuro está cada dia menos risonho.

Dinheiro vivo

José Horta Manzano

Olhando assim, distraidamente, a gente quase não se dá conta, mas o fato é que a vida de corrupto está cada dia mais complicada. Corrupção sempre houve e não está perto de acabar mas antigamente passava praticamente despercebida. Uma vez a cada morte de papa, estourava um escândalo ‒ que costumava acabar numa confraternização em torno de uma bela pizza. E tudo bem.

A tendência a descerrar a cortina entrou na pauta do dia. O fator principal foi o advento da internet, que escancarou portas para a propagação da informação em larga escala e em alta velocidade. Muito lixo inútil circula na rede, mas quem tem o cuidado de separar o joio do trigo encontra informações preciosas. Sem o concurso da internet, a própria Operação Lava a Jato não teria tido o sucesso espetacular que teve.

Não devemos perder de vista que, apesar do sentimento difuso de impunidade continuada, terminamos o ano de 2017 com um balanço extraordinário, fora dos padrões nacionais. Temos um ex-presidente condenado a quase dez anos de gaiola, uma presidente destituída, os dois maiores figurões políticos da primeira década do século em prisão domiciliar ou fechada (Dirceu & Palocci). Sem contar governadores de Estado, prefeitos, deputados, senadores presos e condenados. Até o Maluf entrou em 2018 vendo o sol nascer quadrado. Um espanto!

A acelerada extinção de paraísos fiscais confiáveis tem dado dor de cabeça a muita gente com dinheiro para esconder. Nem a Suíça escapou! Os portos seguros que subsistem nem sempre inspiram confiança. Alguém cometeria a temeridade de guardar fortuna no Panamá ou em Chipre?

Doleiros existem às centenas. Quem quiser mandar para o exterior (ou de lá mandar vir) cinco ou dez mil dólares não encontrará problemas. Já pra dinheiro grosso, a história é diferente. Os grandes atores brasileiros do mercado de transferência internacional de capitais estão na cadeia ou com tornozeleira. A quem apelar?

Sobrou a última desesperada opção: guardar dinheiro em casa. Ninguém há de se esquecer da foto do ano, aquela que mostra um apartamento abarrotado com mais de cinquenta milhões. É a prova das atuais dificuldades de movimentar grandes montantes. Em outras épocas, aquela fortuna já estaria agasalhada em Genebra, em Luxemburgo ou em Jersey.

Mas o pior vem agora. Dia 1° de janeiro entrou em vigor instrução normativa exarada pela Receita Federal regulamentando movimentação em espécie. Todo pagamento acima de 30 mil reais em dinheiro será obrigatoriamente declarado, por quem recebe, à Receita Federal. Realmente, a coisa está preta.

Por curiosidade, fiz as continhas. Pra escoar aqueles 51 milhões encontrados no apartamento baiano ‒ pagando no máximo 29 mil reais de cada vez, para escapar ao contrôle ‒ seria preciso fazer 1750 pagamentos. E deixar um certo espaço de tempo entre cada um deles, que é pra não dar na vista. Já imaginou a mão de obra?

Francamente, corruptos profissionais precisam seriamente pensar em mudar de profissão.

 

Marketing burro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dizem que uma pessoa satisfeita com o desempenho de um produto/serviço, marca ou fabricante conta para outras três os motivos de sua satisfação. A propaganda boca a boca acaba sendo uma das formas mais vitais de marketing para seu gestor já que, além de potencializar a atração do artigo sobre quem ainda não o experimentou, tem custo zero. Por seu lado, uma pessoa insatisfeita tende a pesar a mão ao explicar para outras dez as razões de sua decepção. Com essa simples atitude, a marca pode sofrer significativo abalo de imagem antes mesmo que outros potenciais usuários tenham acesso a ela. E, mais grave, para recuperar credibilidade, o gestor precisará encarar pesadíssimos investimentos em propaganda formal.

A função do marketing é a de despertar o desejo, não a de impor o consumo. Em alguns casos, como quando se pretende introduzir no mercado um produto, categoria, marca ou fabricante, ele pode se permitir ir um pouco mais longe, abordando de forma mais agressiva o potencial consumidor, no esforço de criar patamares de desejo. Só não pode, em nenhum caso, substituir-se à consciência crítica do público que pretende atingir.

Todo produto tem o que os especialistas chamam de “benefício único”, ou seja, um atributo que o diferencia de todos os demais da categoria. Pode ser alguma característica físico-química como cor, sabor, textura, tamanho, design. Pode ser um traço de distinção social associado à imagem de marca, algum critério de especialização técnica, seu preço ou até seu caráter de inovação revolucionária. Descobrir qual é esse benefício singular é tarefa da pesquisa de mercado.

Embora poucos saibam, os resultados da pesquisa nem sempre são seguidos ao pé da letra pelo fabricante. Por razões estratégicas, ele pode querer posicionar o produto em segmentos distintos dos que a pesquisa identificou. É movimento corporativo legítimo, ainda que comporte alguns riscos.

O que todo marqueteiro que se preza sabe é que, como diz o ditado, você pode levar um cavalo até à água, mas não pode forçá-lo a beber. É preciso detectar exatamente qual é o perfil mais provável de consumidor que se deixará sensibilizar pela promessa mercadológica e ir ampliando aos poucos a identificação e a mobilização para a compra.

Os problemas começam a aparecer quando o marketing avança sobre a privacidade do público, ignora a necessidade de identificar o segmento a ser abordado prioritariamente e acredita ser mais vantajoso repetir ad nauseam a mensagem publicitária para atrair o maior número possível de interessados. São as chamadas estratégias “de baciada”.

Primeiro foi a assim chamada mala direta. Para os mais jovens, que podem nem desconfiar o que isso significa, explico. Tratava-se de um simulacro de carta pessoal, impressa com uma fonte que mimetizava a escrita humana. Ficou tristemente famosa por numerosas gafes. Como era enviada aleatoriamente a um público extenso, podia acontecer de, por exemplo, um vegetariano receber um informe publicitário convidando-o a saber mais sobre os melhores cortes de carne bovina. Ou algo ainda pior, traumatizante mesmo para o infeliz destinatário, como a divulgação de brinquedos eróticos para um religioso.

Depois foi a vez das impertinentes chamadas de telemarketing. Todos devem se lembrar dos folclóricos atendentes de call center, que se esmeravam no uso de gerúndios. Não demorou para as reclamações aos órgãos de defesa dos direitos do consumidor se acumularem. Pressionada, a agência estatal de telecomunicações decidiu implantar um serviço gratuito de bloqueio de telefones para barrar ligações de telemarketing.

Àquela altura, ninguém poderia imaginar que sentiríamos saudades daquele tempo. Impedidos de dar continuidade à sanha de sedução grosseira, sob pena de multas pesadas, os marqueteiros de plantão criaram logo uma estratégia ainda mais perversa. As chamadas de telemarketing passaram a ser pré-gravadas, A mensagem publicitária acaba sendo acionada automaticamente ao se atender o telefone. Para tornar a coisa um pouco pior, se é que isso é possível, muitos famosos se renderam à inglória causa de emprestar sua credibilidade pessoal para reforçar o apelo do produto/marca. Tragédia anunciada: a grande maioria naufragou num oceano de indiferença e irritação.

A coisa não parou por aí, infelizmente. A estupidez humana não conhece limites, como Einstein nos ensinou. Logo o raio de ação dessa forma rasteira de marketing se estendeu para os meios eletrônicos. Hoje em dia não é nada incomum tropeçar em propagandas, aninhadas em sites e portais de notícias, que são acionadas involuntariamente ao se rolar a página para baixo.

Afinal, você pode estar se perguntando, essa forma invasiva de marketing funciona? A resposta é: se tudo o que o fabricante deseja é auferir lucro imediato, sim. Claro que a repetição da informação tem lá suas vantagens. O nome do produto/marca gruda como chiclete na mente do consumidor e, caso ele se veja envolvido num processo de escolha, num mercado do qual pouco sabe, a assinatura da marca pode ser decisiva para a tomada de decisão. A longo prazo, porém, essa forma preguiçosa e burra de marketing genérico destrói todas as chances de o fabricante vir a se afirmar como detentor de uma imagem de qualidade, seriedade e responsabilidade social.

Nada que diga respeito ao humano é definitivo, no entanto. Mesmo a contragosto, sou forçada a admitir: há quem goste de ser tratado como massa ou gado. Sei que a noção de direito à privacidade caiu em desuso há já algumas décadas. Quanto mais barulho e holofotes forem gerados pela comunicação mercadológica, maior o desejo das novas gerações de fazerem parte do “seleto” público-alvo.

O tempora, o mores…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Três casos emblemáticos

José Horta Manzano

Caso número um
Em fevereiro de 2013, doutora Annette Schavan, ministra da Educação da Alemanha e amiga chegada da chanceler Angela Merkel, foi acusada de plágio. Descobriu-se que sua tese de doutorado havia sido fortemente inspirada ‒ pra não dizer copiada ‒ de textos anteriores.

Em países sérios, não se brinca com certas coisas. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira. Incriminada, a doutora foi chorar sua vergonha nalgum canto. Nunca mais se ouvir falar dela.

Caso número dois
Em março de 2013, uma investigação levada a cabo por um jornal parisiense descobriu que o ministro do Orçamento da França havia sido titular de uma conta pessoal secreta num banco suíço. Se o fato já seria grave para um cidadão comum, imagine a saia justa do ministro ao qual cabe cuidar do orçamento do país.

Num primeiro momento, monsieur Cahuzac compareceu à Assembleia Nacional e, diante dos eleitos do povo, negou veementemente. Mas o jornal tinha mais trunfos. Deu a público uma gravação em que o ministro se referia abertamente à conta secreta. Não teve jeito. Imediatamente, monsieur Hollande, então presidente do país, mostrou ao ministro a porta da saída. Banido da vida pública, o antigo ministro teve de enfrentar processo criminal.

Caso número três
Em janeiro de 2018, uma certa doutora Cristiane Brasil ‒ nome pio e sobrenome patriótico ‒ foi designada pelo presidente da República para assumir a pasta do Trabalho.

Antes que fosse ungida no cargo, veio à tona a notícia de que a doutora é ré em processo que corre na Justiça do Trabalho. Pelo menos três antigos funcionários a acusam de haver burlado leis trabalhistas. Acionado, um juiz suspendeu liminarmente a nomeação da doutora.

Diante do contrassenso de instalar no Ministério do Trabalho uma pessoa contra a qual correm processos justamente na Justiça trabalhista, o presidente da República cancelou imediatamente a nomeação. Certo?

Errado, senhores! O presidente mandou acionar a Advocacia Geral da União ‒ cujos funcionários, como todos os demais, são (bem) remunerados com nosso dinheiro ‒ e deu-lhes a incumbência de lançar mão de todos os recursos possíveis para segurar o rojão e assegurar que a quase ex-futura ministra tome posse do cargo.

E ainda há quem se pergunte por que raios o Brasil não consegue sair do subdesenvolvimento…

Nossas eleições e a ingerência russa

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

‒ Então, Sigismeno, quanto tempo sem conversar, hein!

‒ É verdade, andei meio sumido. Coisas da vida. Como é que vai você?

‒ Vai-se levando, Sigismeno. Vosmicê?

‒ Sempre indignado, caro amigo, sempre indignado. É a maneira que encontrei de me sentir jovem. Imagine que o ano de 1968, que marcou o Brasil e o mundo, completa o 50° aniversário. E poucos se lembram, pouco se fala daquele período. É uma pena. Quem esquece o passado está condenado a revivê-lo.

‒ Tem razão, é importante reter as lições do passado. É justamente isso que anda me preocupando.

‒ Em que sentido?

‒ Tem-se falado muito na ingerência russa nas mais recentes eleições americanas e no plebiscito que o Reino Unido organizou para decidir se ficavam ou se saíam da Europa. Sem falar na consulta selvagem que o governo provincial catalão convocou em outubro. Há quem garanta que a influência de Moscou distorceu o resultado de todas essas votações. Você se interessou pelo problema, Sigismeno?

‒ Claro, eu me interessei como todo o mundo. E acredito que uma pressão insistente e bem organizada exercida por meio de redes sociais pode, sim, perverter o voto. Principalmente quando a disputa é acirrada, com o colégio eleitoral dividido praticamente ao meio. Mas por que é que você anda preocupado com isso? Esses votos já ocorreram.

‒ É que este ano é nossa vez. Em outubro, teremos eleições para vários cargos, entre eles o mais importante: o de presidente da República. Se os russos influíram lá, podem perfeitamente fazer o mesmo aqui.

‒ Concordo com você. Poder, podem. Precisa ainda querer. Precisa «combinar com os russos» ‒ com o perdão de sucumbir ao trocadilho.

‒ Ora, Sigismeno, com um Lula candidato (ou um poste dele, que é a mesma coisa) não precisa nem combinar. Assim como agiram para apoiar o Trump, um candidato que lhes parecia mais interessante, podem perfeitamente apoiar um Lula.

‒ O Lula? E por que razão, criatura de Deus? Que interesse teriam os russos em facilitar a vitória do demiurgo?

‒ Ora, Sigismeno, me parece claro. O Trump é meio bobão, pouco interessado em política internacional, isolacionista. Em suma, tem todas as qualidades para agradar ao regime de Moscou. O Lula também é meio bobão. E venal. A mim, parece óbvio que a vitória do baixinho raivoso interessa aos russos.

‒ Pois eu não estou de acordo com você.

‒ E por que não, Sigismeno?

‒ Você há de se lembrar daquele episódio grotesco em que um (então) presidente Lula, mal aconselhado pelo assessor especial para assuntos internacionais, tentou interferir no caldeirão do Oriente Médio. Não se lembra?

‒ Lembro, sim, Sigismeno. Eles procuraram a cumplicidade do semiditador da Turquia e entraram no picadeiro como elefantes em loja de porcelana. Mas foi um fiasco total. Levaram puxão de orelhas de todo o mundo, até do governo de Israel. Acabaram desagradando a todos.

‒ Especialmente à Russia! Das grandes potências, o país de Putin é ‒ de longe ‒ o que maior influência exerce sobre aquela parte do mundo. Influência, aliás, que só faz aumentar com a retirada de Washington da cena internacional. Se a guerra terminou na Síria e se os djihadistas foram derrotados, foi em decorrência da intervenção russa.

‒ E o que é que isso tem a ver com eventual ingerência russa nas eleições brasileiras, Sigismeno?

‒ Ora, é simples. A última coisa que Moscou deseja é que sua hegemonia na região seja contestada. O Lula já mostrou que é capaz de tentar «resolver» sozinho o emaranhado do Oriente Médio, por obra e graça do Espírito Santo, com dois ou três discursos de efeito. Logo ele, o especialista em dividir as gentes entre «nós & eles», veja você a ironia. O fato é que se mostrou suficientemente ingênuo para fazer cócegas nos russos. Russo não brinca em serviço. O Oriente Médio tornou-se o quintal da casa deles. Não querem saber de interferência de ninguém, nem dos EUA, nem do Brasil, nem do Zimbábue.

‒ Então você não acredita que eles possam intervir nas nossas eleições a favor do Lula?

‒ Não, seria incoerente. Se o fizessem, estariam marcando desastroso gol contra. Se ingerência da Rússia houver, caro amigo, não será em favor do messias de Garanhuns. Será, ao contrário, em apoio ao candidato que estiver em melhores condições de derrotá-lo.

‒ É, Sigismeno, o que você diz faz sentido. Ninguém vai ajudar alguém que lhe pode atrapalhar a existência amanhã.

Chavismo para os EUA

José Horta Manzano

Não sei o que significa «chavismo para os EUA». Se o distinto leitor souber o que é, evite criticar esse tipo de chavismo. Sobretudo, cale-se quando visitar a Venezuela. Do contrário, está arriscado a enfrentar sérios problemas com as autoridades. Um conterrâneo cometeu a besteira justamente quando se encontrava na Venezuela. Não deu outra: foi expulso do país.

Chamada Estadão 6 jan° 2017

Vamos falar sério agora. Em duas distraídas linhas, o estagiário deu recado errado. Diferentemente de outras línguas mais rígidas, a nossa permite ‒ até certo ponto ‒ o deslocamento de termos no interior da frase. Mas a liberdade desse troca-troca termina onde a compreensão fica comprometida.

O autor da chamada escorregou. Só quem já estava a par da história, que já vinha de alguns dias, entendeu o recado. Para total clareza, bastava ter ordenado os termos numa ordem coerente. Assim:

«Venezuela expulsa, para os EUA, brasileiro acusado de criticar chavismo»

ou

«Brasileiro acusado de criticar chavismo é expulso da Venezuela para os EUA»

ou ainda

«Expulso da Venezuela para os EUA brasileiro acusado de criticar chavismo»

«Aquele que sabe que é profundo tende à clareza; aquele que quer parecer profundo tende à escuridão, pois o povo acredita ser profundo tudo aquilo cujo fundo não consegue enxergar.»

Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão.

Monte você mesmo

José Horta Manzano

Pra continuar no assunto de ontem, vou falar um pouco sobre a Ikea. Como já contei tempos atrás, trata-se de uma multinacional de origem sueca especializada em objetos de uso doméstico e em móveis do tipo «monte você mesmo» ‒ verdadeiro quebra-cabeça para não iniciados. Com mais de 400 lojas implantadas em 50 países, a firma fatura 40 bilhões de dólares a cada ano.

Foi em 1943 que um jovem sueco teve a ideia de abrir uma primeira lojinha no vilarejo natal. De la pra cá, o negócio se expandiu impressionantemente. O fundador, que completa 92 anos em 2018, passou boa parte da vida na Suíça. Faz alguns anos, voltou ao país natal. Com fortuna pessoal de 47 bilhões de dólares, aparece em boa posição na lista da Forbes. Tem fama de sovina, daqueles que viajam de segunda classe e andam em carro velho. Mas ninguém sabe direito ‒ pode não passar de intriga da oposição.

As lojas do grupo são imensas, com superfície de pelo menos dez mil metros quadrados distribuídos por dois ou três andares. Todas elas contam com restaurante e mercadinho com especialidades suecas. A movimentação dos visitantes é organizada de tal maneira que o cliente é obrigado a passar por praticamente todos os departamentos até encontrar a saída. Não há como voltar e sair pela porta pela qual entrou. Pode ser um tanto irritante, mas é tremendamente eficaz para os negócios.

A verticalização é significativa, no sentido de que muitos artigos são produzidos por indústrias que pertencem ao grupo. A qualidade não é sempre primorosa, mas os preços accessíveis atraem multidões. Ikea está implantada em todos os países da Europa, no Oriente Médio, no Extremo Oriente e até na América do Norte. Surpreendentemente, ainda não se estabeleceram na América do Sul. Um dia qualquer, aparecem.

Têm o costume interessante de pôr nome sueco em todos os produtos. A língua sueca é pouco conhecida. Algumas vogais levam acentos estranhos, como o a com uma bolinha em cima (å). Aparecem também ä e ö. Certos nomes são impronunciáveis. Por outro lado, alguns deles soam cômicos. Dou-lhes aqui abaixo um apanhado. (Pode clicar pra ver melhor.)

 

A importância do nome

José Horta Manzano

Está estreando estes dias no Brasil o mais recente filme de Pixar. O nome original é Coco. Para evitar «associações linguísticas inconvenientes», segundo a justificativa oficial, a película será intitulada Viva – A vida é uma festa! Alguém acendeu a luz vermelha a tempo, e a providência foi logo tomada. De fato, de coco a cocô, a distância é curta. Melhor prevenir que remediar.

Na hora de escolher nome para produtos destinados ao mercado mundial, é virtualmente impossível premunir-se contra mal-entendidos, cacófatos e duplos sentidos em todas as línguas faladas no planeta. Acredito, no entanto, que especial atenção deveria ser prestada ao efeito que a denominação escolhida produzirá nos principais mercados. Ou nas línguas mais importantes.

Chevrolet Nova

Se uma marca soar mal em lingala, malgache ou kirundi, o estrago não será tão grande. Mas se causar efeito estranho em inglês, alemão, português ou italiano, mais vale escolher outro nome.

Mantendo o foco nos filmes da empresa Disney, o jornal argentino Clarín lembra o caso problemático do filme Moana cujo nome original foi alterado para Vaiana em diversos países, principalmente na Europa, onde Moana era marca registrada. Na Itália, foi ainda mais complicado: Moana era o nome de uma atriz pornô. O filme virou Oceania.

Nos anos 1960-70, um modelo de automóvel Chevrolet chamado Nova fez grande sucesso nos Estados Unidos onde foi vendido aos milhares. Animado, o fabricante abarrotou suas concessionárias mexicanas com esses carros. Passados alguns meses, veio a decepção: o Nova não teve aceitação no México. Para liberar espaço, os revendedores começaram a devolver carros à matriz. Intrigados, puseram-se a tentar encontrar a razão da rejeição. A luz logo se fez: o problema era linguístico. Em espanhol, as palavras «no va» significam «não anda». Era compreensível que ninguém quisesse comprar «un coche que no va» ‒ um carro que não anda.

Lembro-me que, faz uns vinte anos, a maior rede de supermercados da Suíça ‒ que fabrica boa parte do que vende ‒ lançou linha de produtos de beleza. Tinha todos os potes, líquidos e cremes imagináveis. A marca era Feya. Nas línguas nacionais, até que não soava mal. Mas em português, ai ai ai… Esqueceram-se de que a colônia portuguesa é importante no país. Imagine o distinto leitor um produto de beleza chamado Feya. Não demorou muito para a linha ser retirada do mercado. Sumiu e nunca se ouviu falar.

Nosso jogador de futebol Cacá ‒ que convém escrever Kaká ‒ oficiou por vários anos na Europa. Nunca foi contratado por clube francês. Se tivesse sido, teria encontrado problemas relacionados com seu apelido. É que, em francês coloquial, cacá é o correspondente de nosso cocô.

Na Suíça, temos um produto para cuidar de cortinas chamado Pretta. Temos o excelente café Exquisito.Temos ainda um creme dental de nome Candida. E um outro chamado Homeodent (o meu dente). Mas são destinados ao mercado local.

Rabobank – o maior banco de varejo da Holanda

Para terminar, lembro o caso de uma indústria farmacêutica suíça chamada Robapharm. Quando abriram uma filial no Brasil, lá pelos anos 1950, foram obrigados a alterar o nome por razões óbvias. Passou a ser Rovapharm. A firma já desapareceu, engolida por um grupo farmacêutico maior.

Antes de lançar marca ou produto de vocação internacional, convém informar-se sobre o efeito que o nome faz nas principais línguas. Todo cuidado é pouco. Um nome mal escolhido pode ser causa de fiasco comercial.