Mês: maio 2015
Passeio público
José Horta Manzano
Confesso minha ignorância no assunto. Sempre imaginei que a calçada – aquela faixa situada entre terreno privado e leito carroçável – fizesse parte do bem comum. Aliás, o nome passeio público, pelo qual é conhecido em parte do País, já diz o que tem de dizer: que o passeio é público. Mas é possível que eu esteja enganado.
Leio que a prefeitura paulistana decidiu multar todo proprietário de casa ou terreno em frente ao qual a calçada estiver deteriorada. Embutida nessa penalidade, está a ideia de que cabe a cada um consertar seu trechinho, cimentá-lo, calçá-lo, nivelá-lo.
É normal, compreensível e necessário que cada um mantenha sua propriedade dentro das regras municipais. Aspecto exterior da casa deve respeitar o que estiver estipulado. Também é certo que cada morador cuide de seu trecho de calçada seguindo as normas cidadãs aplicáveis a todo bem público: não sujar, não pichar, não emporcalhar, não esburacar, não deteriorar, não destruir.
O que me parece fora de esquadro é a obrigação feita ao particular de reparar bem público degradado por terceiros. Mal comparando, é como se o condômino do oitavo andar fosse obrigado a arcar com o conserto do elevador porque um defeito mecânico fez que a cabine ficasse bloqueada justamente no andar do infeliz. Não faz sentido. Se o ascensor é bem comum, conserto de rotina tem de ser arcado por todos.
Em rigor, seria admissível que a municipalidade cobrasse uma «taxa de manutenção de calçadas», destinada a angariar os fundos necessários. Todos contribuiriam para a conservação do que pertence a todos. Inatacável.
Exigir que cada um se ponha a refazer o passeio que lhe está à frente é medida descabeçada. Este fará um desnível mais acentuado, com duas pistas bem delineadas para passagem de seu automóvel. Aquele preferirá plantar uma árvore bem no meio do passeio, com o intuito de sombrear seu próprio jardim. Aquele outro pode optar por ladrilhar seu trecho com caquinhos de cerâmica – bonitos, mas escorregadios em dia de chuva. Uma casa de mãe joana.
Construir o bem público, renová-lo, reparar defeitos é atribuição do poder público e por ele deverá ser exercida. Sem isso, jamais será alcançada a uniformização que beneficia a todos – a quem anda a pé, a quem enxerga mal, a quem empurra carrinho de bebê, a quem se locomove em cadeira de rodas.
O padeiro
Rubem Braga (*)
Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um ‘lockout’, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.
Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:
– Não é ninguém, é o padeiro!
Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?
“Então você não é ninguém?”
Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina – e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.
Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”
E assobiava pelas escadas.
(*) Rubem Braga (1913-1990) é por muitos considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis.
STF – novo ministro
Mal-entendido episcopal
José Horta Manzano
Hoje aponto mais uma curiosidade na série erros de compreensão. Já falamos do avental inglês, do surrender, do Corinthians, da cidade do Porto. Vamos entrar na igreja.
Entre os antigos gregos, inspetores e superintendentes eram chamados de ἐπίσκοπος (epískopos). O nome não fazia distinção entre sacros e profanos. Todo controlador tinha direito à apelação. O termo é composto de epi (sobre) + skopeo (vigiar, tomar conta). Os romanos sugaram a palavra e a incorporaram a seu léxico sob a forma latinizada epĭscŏpus.
Com o advento do cristianismo, a palavra especializou-se. Passou a designar o chefe de uma comunidade de fiéis, aquele que ocupava posição mais elevada em relação aos demais. Na Igreja Católica, o termo qualifica hoje o prelado que, sucessor dos apóstolos primitivos, oficia sob a autoridade do papa e tem o encargo de zelar pelas paróquias de sua jurisdição.
Em domínios franceses, a erosão natural transformou o primitivo epĭscŏpus no moderno évêque. Em terras hispânicas, o termo evoluiu dentro das leis linguísticas: deu obispo.
A última flor do Lácio dá, neste caso, prova de que realmente estava no fim da fila. Há de ter recebido a nova palavra por via castelhana. Em princípio, o obispo espanhol deveria ter permanecido tal e qual em português. Mas não foi assim. Por que será?
Aconteceu uma colisão. Na Europa medieval, com exceção dos eclesiásticos e de um ou outro nobre, o povão era iletrado. Aos lusos, a palavra castelhana obispo soou como se «o bispo» fosse. E assim ficou. O “o” inicial, entendido como artigo, foi eliminado.
A forma original sobrevive em cultismos introduzidos em português tardiamente: episcopal, episcopado. Entre os cristãos dos primeiros tempos, dizia-se episcopisa de mulheres que exerciam certas funções sacerdotais. Modernas seitas neopentecostais, por razões que lhes são próprias, preferem a curiosa variante «bispa».
E quem não gostar que vá reclamar com o bispo.
Número alarmante
José Horta Manzano
Você sabia?
A Finlândia, chamada “o país dos 60 mil lagos”, tem dois idiomas oficiais. O principal é o finês (ou finlandês), amplamente majoritário: 92% da população o têm como língua materna. Em segudo lugar, vem o sueco, língua materna de 6% dos finlandeses. Leis e documentos oficiais vêm escritos nas duas línguas.
Todo cidadão, ao dirigir-se a instâncias oficiais, tem direito a utilizar indistintamente uma ou outra língua. De toda maneira, quase metade da população fala ou tem excelentes noções de sueco. Não está longe de ser país bilíngue.
Parte da mídia finlandesa, voltada para a minoria linguística, utiliza o sueco. O portal Yle Nyheter é um dos veículos. Estes dias, baseado nos estudos do brasileiro Instituto Igarapé – que monitora a violência no mundo –, informou seus leitores sobre a posição ocupada pelos países do norte da Europa na escala do crime.
Alarmado, o portal constata que, entre os escandinavos, a Finlândia ocupa, de longe, o pior lugar no quesito violência. O ano tomado como base é 2012. Enquanto a Noruega teve 29 assassinatos e a Suécia contabilizou 68, a Finlândia amargou o insuportável número de… 89 homicídios. Isso dá 1,6 por 100 mil habitantes, total difícil de aceitar.
O portal completa informando que a média mundial é de 6 assassinatos por 100 mil habitantes. Diz também que, nessa matéria, o Brasil está bem acima dos padrões planetários. Nosso País contabiliza 28 homicídios por 100 mil habitantes a cada ano, número quase 18 vezes maior que o da Finlândia.
O artigo termina revelando que, em números absolutos, o Brasil é campeão mundial de assassínio. A eliminação de 56 mil vidas a cada ano é desempenho imbatível. Nesse particular, somos campeões do mundo.
Excelência em saúde
José Horta Manzano
Dia 19 de abril de 2006, o então presidente do Brasil pronunciou uma daquelas bravatas que ficarão para sempre gravadas. Coisa nunca antes ouvida nessepaiz.

Paciente atendido no chão da UTI do Hospital José Frota, referência estadual cearense em traumatologia.
11 maio 2015
Ao inaugurar instalações no Grupo Hospitalar Conceição (Porto Alegre), o Lula declarou: «o Brasil não está longe de atingir a perfeição no tratamento de saúde».
A contar daquele dia, nosso guia permaneceu no mando mais quase cinco anos. Para não quebrar a continuidade da obra de redenção nacional, impôs sua sucessora, que já está lá faz quatro anos.

Corredômetro – Estatística de pacientes internados nos corredores das emergências. Estado do Ceará, 12 maio 2015
Hoje, passados nove anos da peremptória e alvissareira afirmação de Luiz Inácio, ainda falta um trisquinho para chegarmos lá. Mas dá pra perceber que que nosso guia tinha razão: os padrões de saúde pública dessepaiz se aproximam, a cada dia, da excelência absoluta.
Obrigado, presidente!
Jeitinho danoso
Escrevo antes do exame de admissão ao STF pelo qual deverá passar, logo mais, o candidato indicado por dona Dilma. Desconheço, portanto, o resultado. Mas tenho considerações a respeito.
O que se passa estes dias é o retrato do Brasil, um exemplo acabado do «jeitinho» brasileiro, prova maior da indisciplina, da desorganização, da leniência de nossa sociedade. Muitos se orgulham dessa faceta nacional – não é meu caso.
Segundo a Constituição, os poderes da República são harmônicos e complementares. Nenhuma hierarquia há entre eles. Portanto, fazer parte do colegiado que encabeça o STF é estar no topo da hierarquia, tanto quanto o presidente da República.
Presidente, muda-se a cada quatro anos, quando nos é permitido despachar o antigo pra casa e eleger outro. Escolha de ministro de STF deve ser feita com cuidado redobrado, dado que o cargo é vitalício. Com a escolha de mau titular, quem se dana é o País. Ninguém poderá tirar o homem de lá.
Pela natureza do cargo, é conveniente que juízes exibam perfil neutro. Essa recomendação de imparcialidade vale sobretudo para juízes-mores. Melhor será que não tenham (nem tenham tido) proximidade com movimentos radicais, com partidos políticos, nem com teorias extremistas, revolucionárias ou sectárias. Serem conhecidos por suas opiniões sensatas, é o mínimo que se pode exigir.
O atual candidato à vaga do Supremo não se encaixa nesse perfil. Pelo que o Brasil inteiro ficou sabendo estes dias, o postulante comunga com ideias próximas às de movimentos radicais. Pior que isso, está demonstrado que passou por cima da lei ao aceitar posto na Procuradoria Pública ao mesmo tempo que continuava exercendo como advogado privado.
Dona Dilma, amparada por seus assessores, não pode alegar ignorância desses fatos. Não devia, portanto, ter nomeado esse indivíduo para posto tão importante. Ao indicá-lo, a presidente fez exatamente como ele: pisoteou a Constituição, o decoro e o bom senso. Tentou “dar um jeitinho”, contornar leis e regras. É revoltante assistir ao menosprezo do interesse da nação em prol das conveniênciais pessoais da presidente e da nomenklatura que lhe assiste.
Que o senhor Fachin seja ou não aprovado pelos parlamentares é de somenos. O pior passo já foi dado pela presidente ao indicá-lo para o topo do STF. Se não quiserem descer mais um degrau na pouca consideração que a nação ainda lhes devota, os congressistas têm de repudiar o postulante. É o mínimo que podem fazer para remendar o tremendo erro presidencial.
Curiosidade etimológica
Fachin (pronuncie Faquín) é forma dialetal vêneta do italiano facchino. Provém do árabe faqih, que designava, na origem, um doutor, um sacerdote, um teólogo ou um juiz – pessoa importante.
Ao entrar na língua italiana, o termo foi perdendo majestade. Com o decorrer do tempo, passou a significar superintendente, controlador de alfândega. Decaiu, em seguida, para designar um escrivão. Continuou perdendo importância. Alguns séculos atrás, adquiriu o sentido de vendedor ambulante, mascate.
Hoje chegou ao fundo do poço. Facchino é como são chamados os carregadores de malas, os descarregadores de caminhão, os que transportam objetos pesados. Aliás, a palavra faquino existe, com o mesmo sentido, em nossa língua. Mas seu uso é pra lá de bissexto.
Esperemos que a (provável) sagração de nosso Fachin nacional não signifique a decadência da função de ministro do STF.
Lição de casa
Dad Squarisi (*)
O Dia das Mães chegava. Por que não aproveitar a data? A professora pediu uma redação aos alunos. Todos os textos deveriam terminar com esta frase: “Mãe só tem uma”.
A meninada pôs mãos à obra. Alguns contaram episódios da infância. Outros, cuidados em caso de doença. Não faltou quem falasse em ajuda nos deveres de casa ou em sufocos devidos a confusões inesperadas.
Um deles deu asas à imaginação e contou história com enredo diferente. Visita havia chegado à casa da família. Alvoroço geral. A mãe, solícita, pediu ao filho que pegasse duas Cocas na geladeira. Depois de poucos minutos, o garoto voltou:
– Mãe, só tem uma.
(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.
Politicamente incorreto
José Horta Manzano
A gente imaginava que Big Brother – o Grande Irmão Controlador – fosse chegar de repente, na sequência de uma revolução. Os tempos atuais mostram que não é bem assim. Mudanças não caem do céu da noite pro dia. As novas modas vêm sorrateiras, de mansinho, e vão-se insinuando sem que ninguém se dê conta. Quando se abre o olho, o mundo já mudou. Sem avisar.
Houve tempo em que a gente podia falar como quisesse, usar as palavras e expressões que bem entendesse, com uma única exceção: palavrão. Nome feio não podia ser pronunciado na presença de gente de respeito. Fora isso, cada um podia falar como lhe agradasse.
Hoje já não é mais assim, como bem sabem meus distintos leitores. Certas palavras e certas expressões entraram para o índex, tornaram-se tabuísmo. A lista engrossa cada dia mais. E ai de quem tropeçar! Não se arrisca a levar um pito – periga ser processado ou, pior ainda, pode acabar preso.
Remexendo na memória, encontrei meia dúzia de músicas que, embora tenham feito grande sucesso em seu tempo, não poderiam mais ser lançadas hoje. Seus autores teriam sérios problemas.
Boneca de pano (1950)
de Assis Valente (1907-1958)
Gravada por: Quatro ases e um coringa
Gravada por: Demônios da garoa
Trecho politicamente incorreto:
Um dia alguém a chamou de boneca
E ela, sendo mulher, acreditou
O teu cabelo não nega (1931)
de Lamartine Babo (1904-1963) e Irmãos Raul e João Valença
Gravada por: Castro Barbosa
Trecho politicamente incorreto:
O teu cabelo não nega, mulata,
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata,
Mulata, eu quero teu amor
Nega do cabelo duro (1941)
de David Nasser & Rubens Soares
Gravada por: Anjos do Inferno
Trecho politicamente incorreto:
Nega do cabelo duro
Qual é o pente que te penteia
(…)
‘Mise-en-plis’ a ferro e fogo
Não desmancha nem na areia
Mulher que é mulher (1953)
de Klécius Caldas & Armando Cavalcanti
Gravada por: Dircinha Batista
Trecho politicamente incorreto:
A mulher que é mulher
Não deixa o lar à toa
A mulher que é mulher
Se o homem errar, perdoa.
Cabeleira do Zezé (1964)
de João Roberto Kelly & Roberto Faissal
Gravada por: Jorge Goulart (1926-2012)
Trecho politicamente incorreto:
Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele é? Será que ele é?
(…)
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!
Nega maluca (1950)
de Evaldo Rui & Fernando Lobo
Gravada por: Linda Batista (1919-1988)
Trecho politicamente incorreto:
Tava jogando sinuca
Uma nega maluca me apareceu
Vinha com um filho no colo
E dizia pro povo
que o filho era meu
(…)
Até parece castigo
Ou então é influência da cor
Recompensa
Sebastião Nery (*)
Severo Gomes, industrial, ministro da Agricultura no governo Castelo Branco e da Indústria e Comércio no governo Geisel, senador por São Paulo, culto e patriota, chegou a Tutóia, pequeno porto do Parnaíba, no Piauí.
Entrou no bar miúdo, ponta de rua. Na cabeceira da mesa, cabelos grisalhos, olhos esfuziantes, paletó e gravata, o velho professor do grupo escolar contava histórias de muito longe:
– Alexandre, o grande Alexandre, o maior dos generais da antiguidade, filho de Felipe da Macedônia, nas batalhas era uma águia; depois das batalhas, um deus, bom e clemente. Um dia, ao fim de um combate terrível, foi visitar os prisioneiros e encontrou os generais do exército inimigo de joelhos, prontos para serem degolados. Um se levanta:
– Grande Alexandre, vamos morrer. Mas nossa morte será a maior das vitórias. Porque não há maior glória do que ter a cabeça cortada pela espada do grande Alexandre.
Alexandre olhou para o alto, como um deus:
– Levantem-se! Homens dessa bravura não podem morrer.
O bar estava calado, embriagado nos lábios do velho professor, que se ergueu, foi saindo devagar e já lá da rua encerrou a história:
– E o grande Alexandre levou todos para a sua Casa Civil.
(*) Excertos das memórias do jornalista Sebastião Nery.
Rapidinha 30
José Horta Manzano
«Para se preservar, Dilma celebrou o 70° aniverário do fim da Segunda Guerra em lugar fechado e protegido. Antes dela, o último chefe de Estado a ficar em lugar fechado e protegido em evento ligado à Segunda Guerra chamava-se Adolf Hitler.»
Historinha entreouvida por aí.
O cofrinho
José Horta Manzano
Muita gente anda excitada por saber que abastados brasileiros têm (ou tinham) conta no banco HSBC, agência de Genebra. O alarido só não tem se avolumado em virtude dos escândalos múltiplos – e muito mais midiáticos – ligados ao assalto da Petrobrás.
Com raras exceções, todos os ricos do planeta sempre guardaram dinheiro por aqui. Durante duzentos anos, o compromisso suíço – sempre cumprido –de nunca revelar identidade de detentor de conta atraiu fortunas grandes e pequenas, lícitas e fraudulentas, limpas e sanguinolentas.
Mas tudo que tem começo acaba tendo fim. O edifício construído pacientemente durante dois séculos ruiu de repente por obra de um único homem, um obscuro funcionário de banco. O rapaz trabalhava no setor de informática, sem contacto direto com clientes. Por razões que só Deus explica, resolveu um dia chupar uma lista detalhada de clientes, copiá-la num pendrive e oferecê-la ao fisco francês, equivalente a nossa Receita Federal.
A partir daí, as versões divergem. Juram todos os envolvidos que jamais – oh, que horror! – jamais houve nem sombra de pretensão pecuniária por parte do funcionário infiel. O roubo de dados foi feito por amor à honestidade. O governo francês também jura de pés juntos que não deu um centavo ao moço. Acredite quem quiser.
Fato é que, na esteira desse episódio, o segredo bancário suíço foi pra cucuia em poucos anos. Mas que não seja por isso. Quem tem dinheiro sempre acaba se arranjando. Fechado um paraíso, abrem-se dez novos. Singapura, Cayman, Hong Kong, Panamá, Bahamas estão de braços abertos à espera de clientes fortunados.
Um detalhe me deixa curioso. Cento e vinte e três bancos têm agência ou representação no Cantão suíço de Genebra. São 123(!) bancos, que perfazem um total de 214 agências. O HSBC é apenas um deles. Sendo estabelecimento estrangeiro, não figurava entre os preferidos pelos clientes. Bancos genuinamente suíços sempre inspiraram mais confiança àqueles que optavam pela discrição.
Esse único banco contava com quase 9000 clientes brasileiros, cujos depósitos se situavam, conforme a fonte, entre 6 e 8 bilhões de dólares. Agora vem a dúvida: quanto dinheiro da terra onde canta o sabiá haverá nos outros 122 bancos da praça de Genebra? Melhor nem perguntar. Se tivessem de ir todos para a cadeia, Congresso e grandes firmas fechariam suas portas por falta de gente.
Que se tranquilizem meus distintos leitores. Brasileiros não são os únicos a fazer uso de bancos estrangeiros para guardar dinheiro. Praticamente todos os ricos do mundo fazem o mesmo. Provavelmente, pelas mesmas razões.
PS: Para quem quiser saber quais são os bancos estabelecidos em Genebra, aqui está a lista.
Paredón
José Horta Manzano
Muita gente se entusiasmou quando, naquele final dos anos 50, o ditador cubano Fulgencio Batista foi posto pra correr pela revolución liderada por um bando de jovens. Indivíduos vinculados ao regime deposto foram sumariamente executados diante do paredón, mas isso foi posto na conta dos inevitáveis excessos engendrados por toda mudança política brusca.
Desde que o colonizador espanhol se retirara, no alvorecer do século XX, a ilha se tinha tornado colônia informal dos EUA. O clima tropical, os costumes permissivos, a proximidade das costas americanas faziam que endinheirados escolhessem Havana para um fim de semana descontraído, de jogo, diversão e bebedeira. Alguns chegavam a apelidar Cuba de “bordel dos Estados Unidos”.
Fato é que o regime ditatorial se assentava na corrupção. Mal comparando, assemelhava-se a um Brasil atual com menor liberdade de expressão. Aos amigos do rei, tudo era permitido. Para os outros, sobrava a lei.
A revolución que derrubou o sistema deixou muita gente animada. Finalmente, a distribuição das futuras riquezas prometia ser justa e equilibrada. Havia de trazer bem-estar a todos.
Acontece que o ansiado futuro não veio tão radioso como se esperava. A gangue, que tinha chegado ao poder carregada nos braços do povo, tomou gosto pelas benesses. É próprio da natureza humana. O resultado foi a cristalização do país, que estagnou e parou no tempo. Até hoje, passados quase 60 anos, o povo ainda vive em estado de insegurança alimentar. Não têm dinheiro, nem autorização, nem esperança de viajar para o exterior.
Mas as coisas mudam. A reaproximação que ora se inicia entre EUA e Cuba, inconcebível até poucos anos atrás, prenuncia um desgelo acelerado. Não vai demorar muito para que o atual regime dos bondosos irmãos Castro seja varrido pela história e morra de morte morrida.
Muita gente acredita que Cuba se transformará num Estado de tipo chinês, comunista de direito mas capitalista de facto. Eu não tenho essa ilusão. A ilha é pequena. A proximidade geográfica do grande irmão do norte é fator importante. A diáspora cubana, baseada na vizinha Florida, tem poder financeiro suficiente para influenciar a política da pátria mãe. Não vão permitir que a nomenklatura cozinhe o galo em água fria por décadas.
Fico aqui a perguntar-me: como será conhecido, no futuro, este meio século em que direitos básicos dos cidadãos da ilha ficaram entre parênteses? Hoje, o nome oficial do movimento é Revolución Cubana. Como se referirão a ela os cidadãos do século 22?
Não me espantaria que a denominação oficial tivesse o mesmo fim de nosso movimento militar de 1964. É mais que provável que, de revolución, seja degradada a mero golpe.
Sem controle… descontrola
José Horta Manzano
Faz muito tempo que não me sento em bancos escolares, daí estar desatualizado. Não sei se ainda se controla a presença dos alunos ou se já liberou geral. No meu tempo, tinha disso não.
Bastava o professor apontar na soleira da porta para todos se levantarem reverentemente, tudo isso no mais absoluto silêncio. A turma só voltava a sentar-se depois de autorizada pelo mestre todo-poderoso.
Em seguida, vinha a chamada. Talvez pra evitar a interminável ladainha de Josés e Marias – os nomes mais comuns à época –, éramos numerados. Ficava mais simples. Lembro-me de um professor, já idoso e de voz fanhosa, que nos divertia muito. Sua chamada ia assim: «Números óón, dóóis, tréés…»
Ausências eram registradas pelo mestre e, em seguida, anotadas na caderneta escolar do discípulo. O livrinho tinha de ser assinado todo mês pelo pai do aluno. Não sei como funciona hoje, mas, faz meio século, pais costumavam ser severos. Ninguém queria levar puxão de orelha por causa de faltas anotadas no boletim. O medo de levar pito calmava toda tentação de cabular.
Fala-se estes dias sobre controle de presença de servidores da Câmara Federal. Como sabemos, os funcionários lotados debaixo daquelas curiosas cúpulas imaginadas por Niemeyer são milhares. Até hoje, o controle era assegurado por uma simples folha de papel. Os apetrechos de ponto biométrico, adquiridos em 2009, foram finalmente postos a funcionar esta semana.
Foi um deus nos acuda. Logo no primeiro dia, filas se formaram na hora de entrada. Tanta gente compareceu, que faltou acomodação para todos. Mesas e cadeiras não foram suficientes. O congestionamento atingiu até o restaurante do pessoal.
A conclusão é evidente: das duas uma. A primeira hipótese é de que a Câmara não esteja apta a receber tantos funcionários. Como nem todos eram assíduos, ninguém se havia ainda dado conta. Se assim for, é urgente encomendar mesas e cadeiras, construir mais algumas cúpulas e – por que não? – instalar um puxadinho ao lado do restaurante.
A segunda hipótese é de que, inflado, o quadro de funcionários da Câmara ultrapasse amplamente o necessário. Boa metade talvez possa ser dispensada sem prejuízo para o serviço. Tendo a privilegiar esta segunda possibilidade.
Fico aqui a matutar. Entre esses que vivem no bem-bom à custa do dinheiro do contribuinte, deve haver muitos que se escandalizam com o comportamento de gente graúda que assalta os cofres de empresa pública. Pensando bem, os dois atos são de mesma natureza – a diferença é unicamente de escala. Ou não?
Frase do dia — 240
«Temos que reconhecer: chegamos ao fim de uma era. O PT vive seu outono. Melhor voltar para o pátio da fábrica onde nasceu e de onde nunca deveria ter saído.
Há que haver certa grandeza mesmo no pecado. O desejo de poder é o pecado máximo de toda política, e o PT se revelou incapaz até de pecar com elegância.»
Luiz Felipe Pondé, médico, filósofo e escritor. O texto integral está aqui.
Pra inglês ver
Dad Squarisi (*)
«Esta não é uma cidade do tamanho do homem.»
Do segundo andar da torre de televisão, o professor da Universidade de Heidelberg olhava a imensidão à frente. Era o ano de 1969. A Asa Norte não passava de barracões esparsos. Os lagos praticamente não existiam. A vida se concentrava na Asa Sul.
Um casal tentava atravessar o Eixo Monumental. Com sacolas e dois filhos pequenos, buscava uma brecha entre os carros. Mas, sem sinalização, as pistas largas pareciam aumentar o percurso de um lado para o outro. A espera prometia ser longa. Sem tirar os olhos da família, o visitante explicou:
— As pessoas são acidente no projeto de Brasília. A cidade não foi feita pra elas. Veja lá a pequenez das criaturas diante da grandiosidade dos monumentos, dos prédios, dos eixos. Nada as socorre. Sem carro, viram reféns do asfalto. Andar a pé? É impossível, difícil ou perigoso. As distâncias são grandes e nada facilita a tarefa de ir e vir.
— Faltam calçadas, faltam bebedouros, faltam banheiros públicos. Falta sombra. Falta transporte coletivo. Imagine o sacrifício que o deslocar-se representa para aquela família. Ou para os idosos. Ou para as pessoas com dificuldade de locomoção. Não há praças nem bancos onde o caminhante possa sentar-se e descansar.
Hoje, passados 46 anos, se o mestre alemão voltasse a Brasília, veria cenário diferente? Na chegada, o aeroporto responderia que não. Recém-inaugurado, obriga o passageiro a andar quilômetros até chegar ao portão de embarque. Cadê esteiras? Cadê trens? Cadê carrinhos que levam e trazem viajantes — tão comuns em Atlanta, Cingapura ou Frankfurt?
A cidade continua alheia às dimensões humanas. Comparada com Berlim, Nova York ou Buenos Aires, a diferença fala alto. As urbes convidam pra rua. Adultos e crianças circulam por praças, se deslocam de metrô, ônibus ou bicicletas, encontram praças bem cuidadas com sombra, bancos e grama que convida para o cochilo ou brincadeiras da meninada.
Brasília parece a prima pobre de Dubai e Doha. Exibe arquitetura e urbanismo espetaculares. O turista diz oh!, mas não volta. Nós, que moramos aqui, queremos mais que o museu ao ar livre. Queremos uma cidade do nosso tamanho. Em 55 anos, o GDF, sozinho, não deu conta do desafio. Que tal uma ajuda? A sociedade manda. O governo obedece.
(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.
Frase do dia — 239
«Atacar Sergio Moro e o MPF – e defender Dirceu, Palocci e as empreiteiras – é sinal de enriquecimento. Não intelectual, claro.»
Fred Navarro, jornalista pernambucano, citado por Carlos Brickmann.
Mãos ao alto!
José Horta Manzano
We shall never surrender!
Winston Churchill
Você sabia?
Não está claro qual era o termo usado pelos anglos, antes do ano 1000, para designar o fato de entregar os pontos ao final de uma batalha.
Brigas e conflitos sempre houve, tanto lá quanto em qualquer parte do planeta. Portanto, toda contenda deixava um vencedor e um vencido. Como é que o perdedor se entregava? Que dizia?
Linguistas acreditam que era usado o verbo arcaico geldan, com significado próximo de pagar, compensar com dinheiro, servir. Faz sentido. Desde tempos imemoriais, vencedor costuma exigir ressarcimento.
A palavra geldan – reconhecível no alemão atual Geld, com o significado de dinheiro – deixou dois descendentes em inglês: yield e gold. E por que será que perdedores, ao entregar-se, deixaram de usar termos dessa família? Por que é que surrender suplantou yield?
Como tantas outras, a palavra foi trazida pelos normandos, povo do norte da França que conquistou a Inglaterra mil anos atrás. Coisa curiosa: a atual palavra inglesa é resultado de um mal-entendido.
O que vem do estrangeiro sempre tem sabor especial. Se a novidade estiver sendo trazida pelo vencedor, então, o sabor especial será ainda mais acentuado. Considerando que o conquistador era portador de um modo mais civilizado de viver, os ingleses adotaram, sem reclamar, uma cachoeira de palavras – entre elas, as que se usavam no fim de batalhas.
Abandonaram o velho geldan e elegeram o francês se rendre (= render-se). Só que houve chiado na linha. Não se deram conta de que o verbo era reflexivo. A expressão foi incorporada à língua corrente inglesa tal qual era ouvida. Saiu tudo grudado e assim ficou até hoje: surrender.
Frase do dia — 238
«A Petrobrás sozinha tem 446 mil funcionários, algum jornal deixou escapar enquanto falava de coisa “mais importante”. Meio milhão, fora aposentados e encostados! É provável que esteja para o resto das pretroleiras do mundo – somadas – como as nossas escolas de Direito estão para as do resto do mundo somadas: nós “ganhamos”, temos mais!»
Fernão Lara Mesquita, jornalista, em notável artigo publicado pelo Estadão deste 4 mai 2015.




















