Recompensa

Sebastião Nery (*)

Severo Gomes, industrial, ministro da Agricultura no governo Castelo Branco e da Indústria e Comércio no governo Geisel, senador por São Paulo, culto e patriota, chegou a Tutóia, pequeno porto do Parnaíba, no Piauí.

Entrou no bar miúdo, ponta de rua. Na cabeceira da mesa, cabelos grisalhos, olhos esfuziantes, paletó e gravata, o velho professor do grupo escolar contava histórias de muito longe:

Alexandre Magno

Alexandre Magno

– Alexandre, o grande Alexandre, o maior dos generais da antiguidade, filho de Felipe da Macedônia, nas batalhas era uma águia; depois das batalhas, um deus, bom e clemente. Um dia, ao fim de um combate terrível, foi visitar os prisioneiros e encontrou os generais do exército inimigo de joelhos, prontos para serem degolados. Um se levanta:

– Grande Alexandre, vamos morrer. Mas nossa morte será a maior das vitórias. Porque não há maior glória do que ter a cabeça cortada pela espada do grande Alexandre.

Alexandre olhou para o alto, como um deus:

– Levantem-se! Homens dessa bravura não podem morrer.

O bar estava calado, embriagado nos lábios do velho professor, que se ergueu, foi saindo devagar e já lá da rua encerrou a história:

– E o grande Alexandre levou todos para a sua Casa Civil.

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(*) Excertos das memórias do jornalista Sebastião Nery.