Os aviõezinhos

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno se interessa por assuntos de aviação, veja você! Quando pode, ele gosta de dar uma vista-d’olhos em notícias de avião e de aeronáutica.

Passeando pelo portal Flightglobal, referência em matéria de artefatos voadores, deu com um artigo sobre os caças encomendados por nossas Forças Aéreas à firma sueca Gripen.

A informação é pra lá de surpreendente. Todos tínhamos ficado sabendo que a encomenda brasileira era de 36 aparelhos. Pois parece que a quantidade já não é mais aquela. Um misterioso «representante» das Forças Armadas, cuja entidade não foi revelada, informa que a compra será triplicada. Em vez de 36 aviões, a Aeronáutica quer adquirir 108 aparelhos. Cento e oito! Dá exatamente três vezes a quantidade inicial.

Caça Gripen - foto Saab

Caça Gripen – foto Saab

Quando uma novidade dessa magnitude é espalhada à boca pequena, meio envergonhada, é bom desconfiar. A grande mídia brasileira não noticiou. É muitíssimo suspeito que decisão de gasto de 17.4 bilhões de dólares (quase 45 bilhões de reais!) seja tomada assim, nos bastidores, sem que ninguém dê um pio.

Sigismeno, que é meio bobão mas não chega a ser idiota total, ficou com a pulga atrás da orelha. Achou que era muito dinheiro e, pior que isso, percebeu que a notícia chegava em hora imprópria. Com esses desfalques à Petrobrás pipocando a cada dia, a informação de que quase 50 bilhões de reais vão ser gastos com aviões de combate cai particularmente mal.

Avião 10Esquisitice por esquisitice, Sigismeno constatou que essa história dos caças já começou torta. O Lula, presidente na época, anunciou que ia comprar Rafales franceses. Depois, deixou o dito pelo não dito, enfiou o rabo no meio das pernas, voltou aos palanques e esqueceu o assunto. Sobrou para a sucessora.

Depois de quase quatro anos de vai não vai, a pupila decidiu finalmente bater o martelo. Contrariando o que o padrinho havia garantido, firmou compromisso com a sueca Gripen. Seriam 36 aviões. Como é possível que, em momento tão delicado, os 36 se possam ter transformado em 108?

Avião 6Sigismeno tem sua ideia. Ele soube das recentes passeatas em que parte da população, sentindo-se frustrada com o que acontece no andar de cima, começa a clamar pela volta dos militares ao comando da nação. Interpretou esse aumento nas despesas militares como um afago, uma “bondade” para com os quartéis. Entendeu que o governo, desnorteado e atazanado, trata de acalmar as casernas.

É como se o Planalto dissesse: «Fiquem por aí, amigos uniformizados. Guardem seus tanques e não saiam às ruas. Não fica bem humilhá-los oferecendo malas de dinheiro, mas tomem estes aviõezinhos e façam deles bom uso. Se quiserem, podemos até comprar mais alguns, que dinheiro é o que não falta. Mas, por favor, deixem-nos em paz.»

Na falta de explicação mais convincente, estou inclinado a acreditar que meu amigo pode até ter razão. Esse Sigismeno tem cada uma…

A China e seus satélites

José Horta Manzano

Quando dois ou mais se juntam para formar um clube, há que haver objetivo comum. Se assim não for, não faz sentido.

Em 2001, Terence James O’Neill, economista inglês funcionário do banco de investimento Goldman Sachs, conjecturava sobre a evolução da economia mundial para os 50 anos seguintes. Considerou que quatro grandes países tinham condições não só de figurar em primeiro plano, mas até de desbancar economias tradicionais.

Comparação entre os sócios do "Brics"

Comparação entre os sócios do “Brics”

Esses países – atualmente chamados «emergentes» – são o Brasil, a Rússia, a China e a Índia. Todos eles têm superfície extensa e população numerosa. Seguindo a tradição inglesa, o economista logo procurou combinar a primeira letra do nome de cada um dos países para formar um acrônimo. Podia ter sido Crib, Irbc, Bcir, Ricb – todos difíceis de pronunciar. Bric pareceu-lhe mais palatável. E assim ficou.

O mundo comprou a conjectura de O’Neill pelo valor de face: uma elucubração sem efeito prático, nada mais. Os quatro países, de fato, têm pouca coisa em comum. As diferenças são mais importantes que as semelhanças. Em alguns aspectos, as disparidades são enormes: população, religião dominante, clima, base econômica são exemplos gritantes.

No entanto, Nosso Guia há de ter farejado no acrônimo inventado pelo inglês boa oportunidade de subir um degrau e tornar-se – por que não? – guia global. Já pensou? Fez o que pôde para promover encontros e reuniões de cúpula. Por inércia, desembocamos no projeto de criação de um banco comum de desenvolvimento.

No meio do caminho, a África do Sul foi agregada ao acrônimo não se sabe exatamente por quê. Talvez para acrescentar um «s». Talvez para incluir um membro em cada continente e dar, assim, importância global ao grupo. A Indonésia teria sido escolha mais coerente.

Um banco de fomento? Para o Brasil, não vejo bem o interesse. Já temos nosso BNDES. Injetar nosso suado dinheirinho num banco que financiará projetos na Índia? Ou na Rússia? Como perguntaria o outro: que vantagem Maria leva?

A economia chinesa é, de longe, superior à soma do PIB dos outros membros do «clube». A dissimetria é abissal. Em teoria, pode até parecer que os sócios têm peso igual. Na hora do vamos ver, todos funcionarão como satélites da China. Duvido que algum projeto contrário aos interesses chineses seja aprovado. Não se pode dizer o mesmo dos interesses brasileiros.

Cerimônia de fundação do Banco del Sur

Cerimônia de fundação do “Banco del Sur”

Tirando a projeção mundial que Nosso Guia contava obter para sua humilde pessoa, não vejo que interesse o Brasil tem nesse projeto de banco. Nosso Guia, abatido pelos atuais dissabores, segue caminho descendente. As últimas eleições mostraram a perda de embalo de seu partido. Nem poste ele consegue mais plantar. Acredito que já tenha perdido as esperanças de tornar-se o pai mundial dos pobres.

O presidente do conselho de administração do novo banco será indicado pelo Brasil. É posição honorífica, nada mais. No novo banco, nenhum «companheiro» há de se lambuzar como têm feito no BNDES e na Petrobrás. Chinês, além de desconfiado, é pra lá de cioso com dinheiro.

É possível e bastante provável que esse banco tome o mesmo caminho do Banco del Sur – lembra-se dele, distinto leitor? –, aquela fantasiosa invenção chavista endossada pelo Lula. Nasceu em 2009 e continua no papel até hoje. Era golpe de marketing. Caiu no esquecimento.

O lado bom

José Horta Manzano

«À quelque chose, malheur est bon», dizem os franceses – mesmo o pior dos desastres tem seu lado bom.

1001 noites 1Tem presidente da República sendo acusado de crime de responsabilidade(1). A expressão, de aparência inofensiva, dá nome a um dos piores crimes que alta autoridade possa cometer. Comprovada a denúncia, o acusado será punido com perda do mandato.

Tem gente graúda sendo presa, aos montes. Para escapar a condenação pesada, tem acusado implorando lhe seja concedido o benefício da delação premiada.

1001 noites 2Tem preso propondo devolver dezenas ou centenas de milhões de dinheiro roubado, numa comprovação evidente de que pilhagem gigantesca houve. Tem gente sem dormir, como disse um senador da República.

Tem dezenas de políticos fazendo novena pro santo das causas perdidas – São Judas Tadeu ou Santo Expedito, ao gosto do devoto. É capaz de ser tarde demais.

A Petrobrás, que tinha levado sessenta longos anos para firmar imagem mundial de solidez e seriedade, voltou rapidamente a ser vista como empresinha de segunda classe.

1001 noites 3Aquela que já foi a maior companhia nacional(2), aquela que tem Brasil até no nome, arrasta, em sua derrocada, a imagem do País. A notícia de que o próprio governo brasileiro se servia nos cofres da estatal reforça a reprovação que pesa sobre nós desde sempre: é prova definitiva de que o Brasil, apesar da grandiloquente conversa fiada oficial, continua empacado no estágio de republiqueta de bananas.

Arca 1Mas nem tudo está perdido. Alguém se lembra do pré-sal? Aquela fa-bu-lo-sa descoberta que prometia garantir o aprovisionamento energético do país por um século? Aquele achado que prometia transformar o Lula em xeique das 1001 noites e todos os brasileiros em milionários?

Pois é. Se realmente existe petróleo debaixo daquela montanha de sal e se sua explotação for um dia possível, não é na semana que vem que o óleo começará a jorrar. E isso é excelente notícia por dois motivos.

Primeiramente, porque o petróleo é material precioso demais para ser desperdiçado como combustível para automóveis. É riqueza finita, não renovável, e vai acabar logo, logo. Sua queima polui nossa atmosfera. Daqui a duzentos anos, quando todas as reservas se tiverem esgotado, os bisnetos de nossos bisnetos vão-nos agradecer por termos conservado o precioso estoque. Há de servir pra finalidade mais útil que virar gasolina.

Prisioneiro 3Segundamente – e é o ponto mais importante – imagine o distinto leitor que, por um descuido da Providência, o processo de contratação de empreiteiros para explorar o pré-sal já estivesse em curso. A gatunagem estaria provocando desfalque duas, três ou quatro vezes mais importante. Os salafrários estariam afanando não bilhões, mas, talvez, trilhões!

Nem sempre é fácil, mas, com boa vontade, sempre se encontra um lado bom.

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(1) Editorial do Estadão de 16 nov° 2014 vê crime de responsabilidade na atitude dos dois últimos presidentes da República.

(2) Artigo da Folha de São Paulo de 15 nov° 2014 informa que, em valor na Bolsa, a Petrobrás caiu para o 3° lugar atrás de Ambev e Itaú.

O coqueiro e a ladeira

José Horta Manzano

A distinta e fiel leitora Michèle fez um comentário muito pertinente no post Falam de nós – 1, publicado em 3 nov°. Achei que a resposta podia interessar outros leitores, eis por que ela está aqui a seguir.

Interligne vertical 16 3KbCompreendo seu desconcerto, Michèle, que é o de tanta gente. Também eu me sinto desarmado. Mas deixe estar, que tudo o que sobe acaba descendo um dia. E, como todos sabem, mais alto é o coqueiro, maior é o tombo.

Coqueiro 1Há duas maneiras de afastar esse cálice amargo de nossa boca e de arredar do andar de cima essa gente que nunca deveria ter lá entrado. Uma das soluções é mais demorada; a outra, bem mais rápida.

O caminho demorado é dar instrução ao povo. É radical, só que, pra chegar lá, precisa primeiro investir e, em seguida, esperar uns vinte anos. Nossa elite governante não tem tempo nem vontade de se dedicar a civilizar os mais carentes. Portanto, essa ruela é sem saída.

Sobra a solução rápida. E ela já está a caminho. Se estivéssemos no século XIX, diríamos que ela «vem a cavalo». Nos anos cinquenta, a expressão era «vem vindo a jacto». Sabe o que é, Michèle? Pois é a economia.

A dor mais doída que se pode impor a um povo é a dor de bolso. Você, que é muito jovem, não conheceu os tempos da hiperinflação. Era um terror. Os preços dobravam a cada mês. Ninguém mais tinha ideia do valor de objeto nenhum. Se lhe cobrassem 10, 15, 20 ou 25 por um produto qualquer, dava no mesmo. A gente sequer sabia qual seria o salário no fim do mês – os reajustes eram mensais. Não dava pra fazer conta, nem previsão. Loucura maior seria comprar a prestação. Era desespero total.

Se o Collor foi despachado de volta pras Alagoas, 20 anos atrás, foi em grande parte por causa do vendaval econômico que varria o País. Somente a estabilidade permitiu que um FHC e um Luiz Inácio governassem com relativa tranquilidade. Para os mais jovens, parece que é ponto pacífico, que sempre foi assim. Não foi, acredite. O Plano Real foi uma conquista histórica e trouxe um bem-estar com que nós, os mais antigos, nem sonhávamos. Esse foi, sim, o grande salto em direção ao Primeiro Mundo.

Crédito: Baixaki

Crédito: Baixaki

Hoje, pelo andar da carruagem, estamos descendo a ladeira, veja só. A inflação de volta, preços subindo, indústrias fechando. A China – nosso principal mercado(!) – andando em marcha reduzida. A Argentina às portas da falência e a Venezuela em perdição. No governo, a roubalheira corroendo o que resta. A dívida pública engordando. A marca Brasil perdendo prestígio e caindo em descrédito perante o resto do mundo. Todos os indicadores estão no vermelho e apontam para baixo.

Não vai demorar muito. O fruto vai cair de podre. Como? Não sei, que não tenho bola de cristal. Aliás, acho que ninguém sabe direito como vai ser. Mas a coisa não pode – e não vai – continuar assim mais muito tempo. A má gestão, quando ataca a economia, afeta a todos, ricos, pobres e remediados.

Abraço a você. E obrigado pela fidelidade.

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Já ensinava o velho Lucius Annæus Seneca, filósofo e estadista romano, em suas Epístolas Morais a Lucílio:

«Multos fortuna liberat pœna, metu neminem»
«A sorte livra muitos do castigo, mas não do medo»

Frase do dia — 201

«Se ela fizer um segundo mandato igual ao primeiro, sem ouvir ninguém, estaremos perdidos.»

Luiz Inácio da Silva, referindo-se a Dilma Rousseff e à ameaça que ela representa ao projeto de poder perene do PT. A declaração foi repercutida pelo Estadão de 1° nov 2014.

Os amigos do Lula

José Horta Manzano

Um dos objetivos maiores da agigantada vaidade do Lula era conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nem que fosse um postozinho de segunda classe, sem direito a veto. O que importava a nosso messias, custasse o que custasse, era entrar nos livros de História como aquele que tinha alçado o País a patamar de destaque.

Burkina Faso 2Hoje é ideia morta e enterrada. Nossa bizarra política exterior mostrou-se incapaz de se impor no Mercosul, onde somos sócios ultramajoritários com 70% das ações. Até em Honduras, o Lula tentou e fracassou. Recuou inclusive na Bolívia. Mais tarde, chegamos a nos desentender com o pequeno Paraguai. E a África então? Sumiu na poeira do caminho.

Mas não era assim antes de 2010. Nossa trôpega diplomacia, esquecida de que quem manda na ONU são as grandes potências, procurava agregar o maior número possível de nações deserdadas, na esperança de que apoiassem o pleito do Brasil. A ingenuidade que reinava pelas bandas do Planalto devia sonhar com um levante dos países pobres, uma espécie de Revolução Francesa mundializada.

Burkina Faso 1Em 2007, no dia em que o mandachuva do Alto Volta(*) – hoje chamado Burquina Fasso – completava 20 anos à frente do país, o Lula fez questão de prestigiar, com sua presença, o personagem. Pouco importou a nosso líder o fato de o antigo capitão Blaise Compaorê ter chegado ao poder na esteira de um golpe de Estado em que o mandachuva anterior foi assassinado.

Nosso presidente tampouco se importou com o fato de os 20 anos de mando do bambambã africano terem mantido o país entre os 10 mais atrasados do mundo. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Burquina Fasso é de 0.343. O Brasil tem 0.744. A Noruega atinge 0.944.

Burkina Faso 3O Lula apertou amistosamente a mão do ditador, discursou, posou para fotos, foi acolhido em visita de Estado com direito a tapete vermelho e hospedagem principesca. O ditador continua lá até hoje. O povo continua na mesma indigência. Só que, faz uns dois dias, a situação mudou.

O povo, cansado de tanta miséria e tanta corrupção, se sublevou contra a enésima tentativa do «presidente» de alterar a Constituição a fim de ganhar mais um mandato. «Chega, que já aguentamos 27 anos! Está na hora de acabar com isso!» – clamam.

A guerra civil está declarada. Os edifícios públicos de Uagadugu, a capital, estão sitiados. Alguns foram incendiados. Quebra-quebras, tiros e incêndios já causaram 30 mortes. O «dono do país» disse que não renuncia. Tudo, agora, está nas mãos do exército. O que os generais decidirem será respeitado à força.

Tenho certeza de que, na impossibilidade de viajar para prestar solidariedade ao amigo africano em apuros, nosso messias já telefonou a ele. Dizem que, homem fiel, nosso líder nunca traiu ninguém. Não será a esta altura da vida que há de começar.

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apud Cahiers d'études africaines by Yves Person

apud Cahiers d’études africaines
by Yves Person

(*) Desde o século XV, navegadores portugueses visitaram a costa da África ocidental. Cada acidente geográfico recebia nome, fosse rio, cabo, estuário, ilha, promontório, golfo. Por razões hoje esquecidas, um rio que desembocava naquelas redondezas recebeu o nome de Rio da Volta.

Quatro séculos depois, quando o território atravessado pelo rio se tornou protetorado francês, recebeu o nome de Alto Volta, como temos nós o Alto Tietê ou o Alto Amazonas.

Em 1984, por ocasião de um golpe de Estado, o nome – que trazia perfume de tempos coloniais – foi substituído por denominação de sabor local.

Mais uma última informação: Burquina Fasso conta com mais de 60 etnias, cada uma falando sua própria língua. Para se entenderem, utilizam o francês.

Frase do dia — 200

«Lula é mestre em, pelo menos, duas línguas: a de uso corrente e a que lhe convém. O difícil é saber qual delas ele está falando.»

Ruy Castro (1948-), escritor, biógrafo e jornalista. Em sua coluna da Folha de São Paulo de 29 out° 2014.

Vote bem

José Horta Manzano

Amanhã vamos votar. O Brasil inteiro já está sabendo, mas não custa reproduzir aqui um trecho da reportagem publicada pela revista Veja deste fim de semana.

Interligne vertical 12«Desde que Duda Mendonça, o marqueteiro da campanha de Lula em 2002, admitiu na CPI dos Correios ter recebido pagamentos de campanha no exterior (10 milhões de dólares), pairam sobre o partido suspeitas concretas da existência de dinheiro escondido em paraísos fiscais.

Para os interrogadores de Alberto Youssef, no entanto, essas dúvidas estão começando a se transformar em certeza. O doleiro não apenas confirmou a existência das contas do PT no exterior como se diz capaz de ajudar a identificá-las, fornecendo detalhes de operações realizadas, o número e a localização de algumas delas.»

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Se você ainda não sabia, agora sabe. Vote bem. E que os anjos digam amém.

Revista Veja 1Adendo
Quero acrescentar uma consideração. Pouco depois de o teor da reportagem ter passado a conhecimento público, um destacamento de uma cinquentena de vândalos – possivelmente contratados às pressas – dirigiu-se às cercanias do edifício-sede da revista.

Os mandantes encomendaram a surrada tática de investir contra o mensageiro a fim de desviar a atenção do conteúdo da mensagem. Distrai-se o porteiro enquanto os assaltantes passam.

Vista a urgência, com a hora agá batendo à porta, os militantes desprezaram a moda antiga de protestar – cartazes, faixas, megafone e slogans. Lançaram logo mão de maneira moderna mais impactante: picharam paredes e emporcalharam o chão com baciadas de papel picado.

Limpadores de rua 2Ao fim e ao cabo, a manifestação confirma que os acusados sentiram o golpe. Sabiam que todo feitiço acaba virando contra o feiticeiro, mas não esperavam que o retorno do bumerangue viesse tão rápido. E em hora tão incômoda.

Resultado prático: sobrou para varredores, garis e outros funcionários humildes. Serão obrigados a limpar a sujeira deixada por representantes dos que foram apanhados com a mão no saco. Ironicamente, a manifestação há de ter servido para aumentar a tiragem da revista.

Ah, se ao menos os limpadores pudessem varrer também a corrupção…

Frase do dia — 198

«O Lula deu declarações no passado de que tinha admiração pelo Hitler. Numa entrevista à Playboy, em 1979, Lula disse que admirava a obstinação do líder nazista, não sua ideologia. Vou chamar o Lula de nazista por isso? Ele é inconsequente, diz qualquer coisa.»

Fernando Henrique Cardoso, antigo presidente da República, em entrevista à Folha de São Paulo, 23 out° 2014.

Frase do dia — 197

«A frequência com que as palavras “nazismo” e “nazista” são usadas para insultar tende a ser tanto maior quanto menor o conhecimento dos que as empregam.»

Editorial do Estadão intitulado «O nazismo na boca de Lula», 23 out° 2014.

Frase do dia — 196

«Ter sido eleita por méritos de Lula tornou-se, para Dilma, mais obstáculo do que vantagem: se reeleita, o mérito será de Lula; se derrotada, será por falta de méritos próprios.»

Carlos Matheus, professor emérito de Ética e Filosofia Política, em artigo no Estadão de 22 out° 2014.

Frase do dia — 195

«Dilma nada representa. É mera criatura sem vida própria. O que está em jogo é derrotar seu criador, o Lula. Ele transformou o Estado em sua imagem e semelhança. Desmoralizou o Itamaraty ao apoiar terroristas e ditadores. Os bancos e as estatais foram transformadas em seções do partido. Nenhuma política pública foi adotada sem que fosse tirado proveito partidário. A estrutura estatal foi ampliada para ser mantida sob controle, estando o partido no poder ou não

Marco Antonio Villa, historiador, em artigo publicado na Folha de São Paulo, 23 out° 2014.

O Lula e os nazistas

José Horta Manzano

Não há dúvida: o Lula tem o dom do mimetismo. É capaz de captar o espírito do ambiente em que se encontra e devolver o que cada espectador deseja ouvir. Quando, anos atrás, se descreveu como «metamorfose ambulante», não estava gracejando: a definição era exata.

radio 3Tivesse ele surgido nos anos 40 ou 50, seu sucesso teria sido muito mais longevo. Teria durado 20 anos no poder ou até mais. Como Franco, Salazar, Stalin & companhia. O Lula procura sempre – dentro dos limites de sua própria erudição – adaptar o pronunciamento à plateia.

Para falastrões, o problema maior de nossos tempos é que a informação se propaga com a velocidade do raio. Falou aqui e agora, todo o mundo já está sabendo daqui a segundos. Portanto, ficou difícil restringir o discurso aos que compareceram de corpo presente. Celulares permitem propagação imediata por meio de voz, uotisápis, feicibúquis, fotos, vídeos e outros tchapitchápis.

Em pronunciamento feito ontem em Pernambuco, o Lula comparou Aécio Neves aos nazistas(!). Questionou o fato de o moço não ter pegado em armas contra a ditadura – escamoteando o fato de que, nascido em 1960, o senhor Neves era pré-adolescente quando dona Dilma tentava um golpe armado contra o governo.

Foi mais longe. Herodes, Jesus Cristo, The Economist e os banqueiros entraram no discurso. Discurso? Estava mais pra salada mista. O tribuno insistiu na contraposição entre «nós» e «eles», sendo que, desta vez, o «nós» são os nordestinos. «Eles» são o resto do povo brasileiro.

Foi ovacionado, naturalmente. A esmagadora maioria dos ouvintes não faz a menor ideia do que tenham sido os nazistas. Aliás, duvido que o próprio Lula tenha ampla noção do assunto. Ninguém calculou mentalmente pra se dar conta de que dona Dilma e o senhor Aécio não são da mesma geração e que, portanto, suas trajetórias não poderiam ter sido paralelas.

DiscursoHerodes entrou na história do Lula como Pilatos entrou no Credo: por estar no lugar errado e na hora errada. Mais desonesta ainda é a tentativa do Lula de identificar a mineira bem-nascida Dilma com os deserdados do Nordeste enquanto instala o mineiro bem-nascido Aécio como carrasco dos desprovidos.

Em resumo, uma fala sem pé nem cabeça, pronunciada por quem não sabe o que está dizendo e destinada a quem não sabe o que está ouvindo.

A difusão ultrarrápida da informação, no entanto, trabalha contra tribunos populistas. Discursos incisivos têm efeito ambíguo. Agradam a uns e chocam outros. Será por isso que os mandatários atuais se opõem tão ferozmente à liberdade de imprensa.

O feioso português da presidenta

Carlos Eduardo Gonçalves (*)

Este escriba aqui não vota em Dilma não, apesar de já ter votado em Lula, em 2006.

Os motivos são diversos, mas destaco dois: a incompetência no manejo da economia e a corrupção sistêmica.

Tem um terceiro, porém, que pode até ser menos relevante, mas que, confesso, me gera certa repulsa e me motivou a rascunhar este post: o uso do português pela presidenta.

Dilma, desculpe-me, mas seu português é de estarrecer. Embaralhado, sem fluência, sem um charmezinho sequer.

Além disso, muitas vezes não dá mesmo para entender o que ela quer dizer, tortuosas estruturas de difícil apreensão, idas e vindas labirínticas. E aquele repetir infinito do «no que se refere», tão pouco natural e sinalizando escassez de termos e expressões substitutas.

A presidenta já citou o Velho do Restelo para criticar os críticos, mas será que leu efetivamente Camões?

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(*) Carlos Eduardo Gonçalves é economista, escritor e professor da USP. Edita o blogue Prosa Curta, alojado no Estadão.

Frase do dia — 190

«Ao dizer que ‘voto não se transfere’, a fim de desdenhar do apoio de Marina Silva a Aécio Neves, a presidente Dilma Rousseff contraria a razão de sua própria eleição em 2010. Ou então, nestes quatro anos, passou a acreditar que era ela a dona daqueles quase 56 milhões de votos transferidos por Lula.»

Dora Kramer, em sua coluna no Estadão de 14 out° 2014.

Menosprezo oportunista

José Horta Manzano

Dizer isto hoje parece mentira, mas houve tempos em que o PT carregava aura de ética, de sabedoria, de retidão e de credibilidade. Os mais jovens podem achar que estou delirando. Assim era, garanto.

Dislike 2Nos tempos benditos que antecederam o ascenso aos mais altos cargos, os dirigentes do partido da estrela solitária conseguiam discernir o bem do mal. Não acreditam? Pois assim era, garanto.

Antes de trocar a ética pela prostituição política, antes de ceder às tentações do vil metal, antes de renegar os princípios fundadores do partido, pautavam-se por um certo discernimento. Acham que não? Pois assim era, garanto.

Dislike 1Querem uma prova? Aqui vai. Todos ficaram sabendo que o candidato Aécio, se eleito, nomeará Armínio Fraga para segurar as rédeas da economia do País. O senhor Fraga, para quem não se lembra, é economista de alto coturno. Foi presidente do Banco Central e diretor do Banco do Brasil. Lecionou em universidades americanas e brasileiras.

Quando tomaram conhecimento das intenções do senhor Aécio, dirigentes petistas botaram a boca no trombone para menosprezar a capacidade do provável futuro condutor da política econômica do País. «Caíram de pau», como se dizia, ou «foram pra cima», como se diz agora. Pois têm a memória curta, os desmiolados…

Em plena campanha presidencial de 2002, quando o Lula ainda vivia na tentativa de alçar-se ao trono do Planalto, a Folha de São Paulo publicou reportagem sobre a visão petista da economia nacional. Aqui vai um trecho:

Interligne vertical 10«Integrantes do alto escalão da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva defendem a colaboração do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, em um eventual governo do PT, no mínimo como um consultor informal.

Petistas com voz ativa na campanha consultados pela Folha vêem o presidente do BC como peça importante para o período de transição e para a fase subsequente à hipotética posse de Lula.

Há quem sugira até a criação de uma espécie de “conselho” para assessorar o governo, do qual Armínio poderia constar.  (…) É tido, inclusive por Lula, como técnico competente, que se preocupa mais com a economia do que com posicionamentos partidários.»

Dislike 3Como veem meus distintos leitores, os tempos eram outros. Hoje, por despeito ou ignorância – talvez por ambos os motivos – o partido cospe no prato que ontem cobiçou.

Para ler na íntegra o artigo da Folha de São Paulo de 10 ago 2002, clique aqui.

O Lula em lua de mel

Lua de mel

Wálter Maierovitch (*)

Para a mídia alemã não representa notícia de interesse público o fato de a chanceler Angela Merkel, chefe de governo, não dar carona ao marido em avião oficial. Por exemplo, Merkel passou a Páscoa na cidade italiana de Nápoles a fim de descansar. O avião oficial que a transportava desembarcou na sexta-feira e o corpo de segurança alemão a acompanhou à residência que alugara com dinheiro próprio.

Avião 6Cerca de quatro horas depois do desembarque de Merkel em Nápoles, chegou o seu marido. Estava programado que o casal passaria a Páscoa em Nápoles. O “maridão”, no entanto, pegou um vôo comercial Berlim-Roma e, na sequência, uma conexão para Nápoles.

Por que não pegou uma “carona” com a poderosa chanceler e esposa? A resposta é simples. A carona em vôo oficial, segundo a legislação alemã, é muito cara. Mais de dez vezes o preço de um bilhete aéreo comercial. Por isso, o casal Merkel viajou separado. Em outras palavras, para economizar. Assim, o varão viajou como um comum mortal que, temporariamente, é esposo da chefe de governo da Alemanha. A mandachuva, de enormes responsabilidades institucionais, cumpriu a lei e fez economia doméstica.

AviaoDepois da Páscoa, um avião alemão oficial conduziu Merkel de volta a Berlim, sede do governo e sua cidade natal. O esposo da chanceler partiu em vôo de carreira, com conexão e passagem paga por ele próprio e não pelo cidadão alemão.

(No Brasil, o senador Eduardo Suplicy, depois de noticiado o fato na imprensa, correu para devolver o valor de uma passagem aérea que o seu gabinete, por sua ordem e numa relação privada, havia comprado para a namorada.)

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(*) Wálter Fanganiello Maierovitch é jurista e professor. Já foi desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. O texto apareceu no Portal Terra já faz algum tempo. Foi recentemente repercutido pela Tribuna da Internet.

Quantos milhares de votos voaram?

Carlos Chagas (*)

Conhecida parte da delação dos ladrões da Petrobrás, José Roberto Costa e Alberto Youssef, na tarde de quinta-feira, a pergunta que varre o país de Norte a Sul refere-se a quantos milhares ou até milhões de votos terá perdido a presidente Dilma Rousseff?

Quem quiser que faça as contas, mas se inusitados não acontecerem até o dia 26, Aécio Neves está eleito presidente da República. Não dá para livrar a cara de Dilma, bem como do Lula, muito menos do PT, diante do escândalo agora denunciado.

Avião 10O partido dos companheiros levava 3% de todos os contratos superfaturados de empreiteiras com a Petrobrás. PP e PMDB também participavam da lambança. Será possível que a presidente e o ex-presidente nada soubessem, com tanta gente envolvida? Por onde andou a Abin, encarregada de informar o chefe do governo? E o ministro da Justiça? Precisou a Polícia Federal investigar.

Vem muito mais chumbo grosso por aí. Quando o Supremo Tribunal Federal começar o julgamento dos políticos envolvidos na tramoia, assistiremos deputados, senadores, governadores e ministros serem transformados em réus. Os que tiverem sido reeleitos perderão o mandato. Quanto aos empreiteiros, serão expostos, junto com outros diretores da Petrobrás. Estarão abertas as portas da caverna de Ali Babá.

Carlos Chagas é advogado, jornalista e radialista. O texto é excerto de artigo publicado no Diario do Poder, 11 out° 2014.

Um país com medo de ser feliz

Plácido Fernandes Vieira (*)

Enluminure V 1olta e meia sou tentado a concordar com De Gaulle ou com quem quer que tenha dito que o Brasil não é um país sério. Nos Estados Unidos, uma escuta telefônica clandestina instalada no comitê de um rival político levou à renúncia o então presidente Richard Nixon. Agora, pense aí: e se flagrassem em vídeo, nos EUA ou na Europa, um deputado do partido governista confessando que uma empresa pública foi usada para fazer campanha de um presidente à reeleição? Imagine o tamanho do escândalo e as consequências.

No Brasil, caro leitor, a questão é tratada com escárnio pelos donos do poder. Veja o caso de Minas Gerais. Um deputado estadual do PT foi filmado se vangloriando do uso dos Correios na campanha de Dilma e de Pimentel. Mesmo diante das imagens incontestáveis da fraude, sabe como a presidente da República reagiu ao ser indagada sobre o flagrante? «Vocês são jornalistas. Vocês acreditam nisso?» Ou seja: ela está sugerindo que, em vez de se ater ao que o vídeo revela, os jornalistas não acreditem no que veem mas somente no que ela diz.

Pior é constatar que, diante da prova e da versão oficial, há jornalistas que se desmoralizam a ponto de optar pelo engodo chapa-branca. Na hora de escrever os textos, entre as imagens do que de fato ocorreu e o bla-bla-blá palaciano, eles se comportam bovinamente «neutros», dando ao «desmentido» até mais peso do que à verdade. Ou seja: se, nos EUA ou na Europa, uma bobagem como essa poderia derrubar um governo, aqui o escândalo lhe dá força e o leva à reeleição.

Dilma e LulaEscandaliza-me o fato de que a corrupção hoje no país seja tratada como uma virtude. O caso da quadrilha que roubava a Petrobrás para distribuir entre aliados do governo Dilma e Lula é clássico. Quanto mais se descobrem fatos cabeludos da maracutaia, mais crescem as chances de a presidente se reeleger no 1º turno.

As pessoas parecem ignorar que os R$ 10 bilhões desviados dos cofres públicos na Operação Lava-Jato – conforme estimativa da PF – poderiam estar sendo investidos em educação e saúde com «padrão Fifa», como cobraram os manifestantes de junho 2013. Mas o que vemos é cada vez mais dinheiro no poço da corrupção. É como se o brasileiro, de tão desencantado, tivesse medo de voltar a sonhar em ser feliz. Preferisse ser enganado a sonhar com a possibilidade de um país mais digno e mais justo para todos.

(*) Plácido Fernandes Vieira é articulista do Correio Braziliense. Este artigo foi publicado em 4 out° 2014.

Frase do dia — 182

«Como resistir no país onde o que foi contratado e acertado entre dois homens — por escrito ou no ‘fio do bigode’ — é letra que já nasce morta? Como resistir quando o colega do lado, ao ceder à sedução de um advogado corrupto, aciona o patrão com base numa coleção de mentiras e lhe arranca, sem medo de errar, mais do que ganhou trabalhando anos a fio?

Lula tem razão: somos todos corruptos no Brasil que Getúlio nos legou. Daí a corrupção ‘não colar’ como fator decisivo de eleições: é contra a lei ser honesto no Brasil.»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em artigo publicado pelo Estadão, 19 set° 2014.