Frase do dia — 89

«A desconfiança em relação ao Brasil é excessiva. Os críticos estão exagerando.
(…)
Mas hoje (…) estamos fazendo road-shows.»

Guido Mantega, ministro da Fazenda de nossa República, em entrevista concedida dia 25 jan° 2014 aos enviados do Estadão a Davos.

Frase do dia — 81

«(…) A atual conjuntura sugere que o Brasil está se tornando uma Argentina, a Argentina está virando uma Venezuela, e a Venezuela já é quase um Zimbábue.»

Editorial do Estadão de 17 jan° 2014.

O chinês e os mapas

José Horta Manzano

Você sabia?

O chinês
Entre 1850 e os primeiros anos do século passado, a China viveu tempos confusos. A extensão do território e a precariedade dos meios de comunicação dificultavam o controle e a imposição da autoridade central.

China paintingO Japão e as potências europeias aproveitaram a desordem para tirar uma casquinha aqui e ali. Ao cabo da primeira guerra sino-japonesa, ganha pelo País do Sol Levante, a China teve de entregar Taiwan e outros arquipélagos que interessavam ao vencedor. Os ingleses obtiveram uma concessão de soberania por 99 anos sobre um naco de terra adjacente a Hong Kong.

A Rússia, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro também se aproveitaram daqueles tempos para fazer valer seus interesses políticos e comerciais. Em 1911-1912, com o fim do regime imperial, foi proclamada a república. Mas muita água ainda teve de passar sob as pontes do Rio Yangtzé antes que o país se estabilizasse.

Em 1909, no ocaso do regime imperial chinês, o Brasil recebeu uma comitiva vinda do país oriental. Era encabeçada pelo príncipe Liu She-Shun, representante de Sua Majestade. O intuito da visita era duplo: buscava firmar acordos comerciais e ― principalmente ― tentava convencer o governo dos Estados Unidos do Brazil a aceitar imigração de mão de obra chinesa.

O senhor Liu, recebido com todas as honras devidas a tão ilustre visitante, esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta última cidade, deu uma passada pelos cartões postais de então, incluindo uma inevitável visita à Escola Normal ― orgulho do nascente magistério republicano. Foi saudado em francês, como se usava na época. E em francês respondeu.

Um ano antes da visita do príncipe, a primeira leva de imigrantes japoneses já havia aportado a Santos. Pode ter sido porque os japoneses estavam sendo bem avaliados por seus empregadores, pode também ter sido porque a instabilidade da China atrapalhava ― o fato é que o pleito do embaixador chinês gorou. Não se estabeleceu uma corrente contínua de imigração de chineses para o Brasil.

Os mapas
Era grande a cobiça que a China, desorganizada, despertava em potências estrangeiras. Os chineses se ressentiam da situação. Um exemplo é o mapa abaixo, onde países são representados por animais indesejados, cada qual carregando seu estandarte.

Mapa chinês alegórico Princípios do séc. XX

Mapa chinês alegórico
Princípios do séc. XX

As bandeiras são um tanto fantasiosas, assim mesmo dá para distinguir a Itália, Suíça, a Suécia, a Hungria. A águia americana aparece também.

Naqueles tempos, a península indochinesa ― aquela tripa de continente onde hoje estão o Vietnã, o Cambodja, o Laos ― era colônia francesa. No mapa, a França aparece simbolizada por uma rã assentada sobre a Indochina e prestes a agarrar a China. Por que uma rã? Porque os franceses são chamados frogs (=sapo) pelos ingleses. O apelido pejorativo vem do fato de os gauleses terem o surpreendente hábito de comer pernas arrancadas de rãs vivas. Para quem não está habituado, it’s really shocking, é chocante.

Para completar o capítulo geográfico, uma curiosidade. Cada um de nós sente que é o centro do universo. É natural, it’s human nature. Pois o mesmo ocorre com nações e países. Quando desenhamos um mapa-múndi, pomos o nosso país no centro e o resto em volta. Estamos acostumados a ver as Américas à esquerda, a Europa à direita e o Oceano Atlântico no meio. A China e o Japão quase caem do mapa.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Os chineses sofrem do mesmo mal. Sentem, eles também, que são o centro do mundo. Você já viu um planisfério chinês? Veja então a imagem abaixo. A China é localizada no meio do mapa. A Europa fica na extrema esquerda e as Américas se situam na extrema direita, com o Brasil quase caindo do mapa.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Cada um vê o mundo com seus óculos.

Rapidinha 12

José Horta Manzano

Com reportagem de Ricardo Chapola, o Estadão nos informa que foi criado um site exclusivamente para passar o chapéu e arrecadar uma ajudazinha do distinto público. Para quê? Ora, para pagar a multa a que um dos réus do mensalão foi condenado.

Três dúvidas me ocorrem:

Interligne vertical 141) O partido ao qual esse senhor é afiliado é considerado abastado. Por que não enfiam a mão no bolso e acabam logo com essa encenação?

2) Dados relativos a movimentação bancária são, em princípio, sigilosos. Quem garante que o montante anunciado terá sido realmente alcançado? De qualquer maneira, seja qual for a quantia declarada, ninguém poderá contestar.

3) Três dos condenados no processo do mensalão pertencem ao mesmo partido. A vaquinha está sendo lançada para dar arrimo apenas a um deles. Por que razão os outros dois não ousam recorrer à caridade pública? Será lícito tomar esse silêncio por uma reconhecimento de culpa?

Quem viver verá.

De ouro

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno leu matéria do Estadão deste domingo e ficou sabendo que a Fifa, numa decisão um tanto fora dos padrões, decidiu conceder uma Bola de Ouro a Pelé ― uma espécie de bola honoris causa.

O mundo inteiro, Sigismeno incluído, sabe que Edson Arantes do Nascimento foi um grande jogador de futebol. Autor de mil e tantos gols, participou de quatro Copas do Mundo ― em três das quais a seleção do Brasil foi campeã.

Um pouco simploriamente, como de costume, Sigismeno veio com suas cogitações filosóficas. Disse que a Fifa não costuma dar ponto sem nó. Até aí, tive de concordar. Disse também que andou espiando no gúgol e ficou sabendo que Pelé jogou sua última partida como profissional mais de 35 anos atrás e que, desde então, pendurou as chuteiras.

Sigismeno sabe que a Fifa nunca se preocupou com outros grandes craques brasileiros, sabe que Garrincha morreu na miséria, sabe que outros grandes foram completamente esquecidos. Espremeu suas meninges à cata de uma razão para essa repentina homenagem que a federação mundial resolveu prestar a Pelé depois de tanto tempo. O homem está aparentemente em boa saúde, portanto não há-de ser daquelas honrarias que se concedem in extremis.

Blatter, Pelé & Dilma Reparem: a Fifa pisoteou a grafia do sobrenome presidencial

Blatter, Pelé & Dilma
Reparem: a Fifa esqueceu de conferir no gúgol e acabou pisoteando a grafia do sobrenome presidencial

De repente, a luzinha acendeu. «Mas é claro! É por causa da Copa do Mundo, que está para começar daqui a 5 meses!» Confesso que, na hora, não entendi bem a relação. «E o que tem isso a ver com o ouro que vão dar ao Pelé?», perguntei.

«Mas você não percebe?», retrucou meu amigo. «Os cartolas de Zurique estão apavorados com protestos e manifestações de rua que possam ocorrer durante a Copa».

«Continuo sem entender», retruquei, sem conseguir acompanhar o raciocínio do Sigismeno.

«Pois é o seguinte, meu caro. Em junho passado, os da Fifa se deram conta de que o povo anda um bocado enfezado com essa história de Copa. Os gastos, o desperdício, os roubos, os atrasos, essa farra toda. Para se mostrar simpáticos, resolveram agradar aos brasileiros. Devem ter pensado até em dar o prêmio a nossa presidente, mas, sacumé, depois das vaias no Maracanã, a coisa ficou meio delicada. É por isso que estão homenageando o Pelé, por imaginarem que é uma espécie de ídolo adorado por todos os brasileiros. É uma tentativa de amansar o povo, você não percebe?».

Bola de ouro

Bola de ouro

Percebo. Devo admitir que percebo. Se vai funcionar, isso são outros quinhentos.

E o Sigismeno, inspirado, ainda profetizou que a Bola de Ouro deste ano ― a verdadeira ― pode ser dada até ao Dalai Lama, mas jamais será dada ao Messi. Porque o moço é argentino. Melhor não atiçar rivalidades.

Parece um gesto ajuizado. Pode dar certo. Ou não.

Frase do dia — 72

«Só revalorizando a meritocracia e com obsessão pelo cumprimento de metas o Brasil dará o salto que precisa dar na qualidade dos serviços públicos. Com uma carga tributária de 36% do PIB, recursos não faltam.»

Fernando Henrique Cardoso, em coluna publicada no Estadão, 5 jan° 2014

Frase do dia — 70

«A queda de 87% no saldo positivo do comércio brasileiro com o exterior (…) é um sinal de como o mundo está cada vez menor para os produtos fabricados por aqui. O superavit no ano passado ― de meros US$ 2,6 bilhões ― é o preço que tem de pagar a economia que menos celebra acordos de investimento entre os países do G20.»

Álvaro Fagundes, editor-adjunto de Mercado. In Folha de São Paulo, 3 jan° 2013

Frase do dia — 67

«Como todos sabem (mas já esqueceram), a última coisa séria feita no Brasil foi o Plano Real. De lá para cá, só remendo e esparadrapo. Por isso, um país de 200 milhões de pessoas acredita que precisa de funcionários de Fidel Castro para cuidar da saúde da população carente.»

Guilherme Fiuza, escritor e colunista, in Revista Época. Texto integral accessível aqui.

Desinventando a imprensa

Ruy Castro (*)

Pesquisa científica divulgada há dias revela que foram os chineses, há 5.500 anos, que domesticaram os gatos ―1.500 anos antes dos egípcios, a quem se creditava essa maravilha. Quando um país está com a bola branca, como a China, não apenas seu presente chama a atenção ― até seu passado fica iluminado. E, se alguns ainda se espantam com o ímpeto com que ela ocupa hoje todo tipo de espaço, só me intriga que não tenha acontecido antes.

A história nos ensina que, com sua criatividade, os chineses já mudaram o mundo pelo menos duas vezes. Uma foi quando inventaram a pólvora ― de que resultaram o canhão, o mosquete, o arcabuz e muita gente morta. A outra foi quando criaram o papel e, daí a séculos, os tipos móveis, de argila ― do que, 400 anos antes de Gutenberg, nasceu a imprensa.

Essas foram as suas grandes contribuições no atacado. No varejo, é aos chineses que devemos o macarrão e, deste, o talharim, o espaguete e a língua de pato. Eles nos deram também a seda, a porcelana, a bússola, o sismógrafo, o moinho hidráulico e até a pipa ― esta, para pescar sem barco. Sem falar no palito de fósforo, nos fogos de artifício e na tinta ― não por acaso, nanquim.

Mas isso foi lá atrás. A China moderna são os bilhões de cacarecos e cafonices que assolam o mercado mundial, empesteiam o planeta e levarão séculos para ser digeridos pelo ambiente. E ela vem agora com uma novidade ainda mais revolucionária: a desinvenção da imprensa. Seus jornalistas, se quiserem manter a licença de trabalho, terão de devorar um manual de 700 páginas para fazer uma prova sobre os princípios do marxismo e se submeter a 18 horas de treinamento para se condicionar a não contrariar o Partido.

No Brasil, havia gente no governo que queria nos impor essa medida. Mas isso foi antes da Papuda.

(*) Ruy Castro, escritor e jornalista, em sua coluna na Folha de São Paulo.

A infantaria

José Horta Manzano

Agressão só pode suscitar reação inflamada. Os ecoterroristas da (poderosa) Greenpeace ― aquela que, de paz, só tem o nome ― não conseguiram captar essa mensagem em 40 anos de ativismo.

Que ninguém me entenda mal. Sou o primeiro a preconizar a substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia renovável. Tanto porque a queima de gaz e petróleo polui a atmosfera, quanto porque essa riqueza que não se renova é preciosa demais para ser queimada.

O que desaprovo vigorosamente são os métodos dessa organização não governamental. You can catch more flies with honey than with vinegar ― dizem os ingleses ― é mais fácil apanhar moscas com mel do que com vinagre. O modus operandi aplicado pelos dirigentes de Greenpeace está longe de ser meloso. Está mais para vinagre.

Reunir uma trintena de idealistas jovens e ingênuos e mandá-los para a linha de frente pode lisonjear os dirigentes da organização, mas não fará avançar a defesa da «causa». Nem um milímetro.

A infantaria da ong ― falo do grupo de 30 jovens adultos ― foi escolhido a dedo. No intuito de criar um imbróglio internacional, misturaram gente de uma vintena de países diferentes. Nesse particular, conseguiram seu intento: armaram um tremendo quebra-cabeça para as autoridades russas.

Mas, sacumé, russo não brinca em serviço. O navio ― sim, senhor, a opulenta organização dispõe de dois navios ― foi apreendido. Os arrojados ativistas foram direto para o xilindró. E lá teriam permanecido ainda um bom tempo, não fosse um evento internacional do qual, compreensivelmente, pouco se fala no Brasil: os Jogos Olímpicos de Inverno. Daqui a pouco mais de um mês, em 7 fev° 2014, a cidade russa de Sochi será palco da cerimônia de abertura da versão hibernal das Olimpíadas.

Tal como a Copa 14 é importante para a imagem do Brasil, os JOs de inverno são uma vitrina para a Rússia. Estes últimos dias, o governo de Vladimir Putin abriu um pacote de bondades. Liberou o bilionário Mikhail Khodorkovski, inimigo político do atual presidente, que apodrecia num campo de trabalho na Sibéria fazia 10 anos. Soltou também duas daquelas moças que, cabecinhas de vento, tinham tido a bizarra ideia de cantar uma oração punk em plena catedral ortodoxa.

A infantaria da Greenpeace Crédito: Daniel Teixeira, Estadão

A infantaria da Greenpeace
Crédito: Daniel Teixeira, Estadão

O perdão concedido aos ousados grumetes de Greenpeace se inscreve nessa mesma linha. Tiveram sorte. Não fosse a proximidade dos JOs e a aspiração russa de sair bem na foto, perigavam passar alguns anos pouco calorosos.

O resultado? Pois a poderosa organização conseguiu ser citada pela mída planetária, o que lhe há de granjear apoio e doações ― cada um é livre de doar a quem lhe aprouver. Os 30 incautos que, instrumentalizados, se prestaram a essa palhaçada devem estar-se sentindo heróis.

E o principal, a defesa do Ártico, como é que fica? Pois não saiu do lugar. Ninguém em sã consciência imaginaria um só instante que a gigantesca Gazprom, a Petrobrás russa, renunciasse a suas atividades na sequência de um protesto frouxo e desajeitado.

Alguém precisa avisar a esses ecoterroristas que terão muito mais sucesso se fizerem a mesma encenação nas plataformas brasileiras. Na hipótese mais elementar, receberão asilo político, se assim o desejarem. Na hipótese mais optimista, frearão a exploração petrolífera, o que não deixa de ser uma boa herança para os que virão depois de nós.

Novo aeroporto

José Horta Manzano

Como é bom ser grande empresário num país de gente apática! Nossa falta de noção de pertencimento a uma comunidade faz que cada um de nós reaja com um simples dar de ombros a qualquer notícia, seja ela boa ou má.

O máximo que se vê é algum protestozinho mole aqui ou ali ― alguma manifestação que acaba se desmanchando em vandalismo. De estudar, que é bom, não gostamos. De aprender, que é bom, não gostamos. De nos esforçar, que é bom, não gostamos. De dar o melhor de nós mesmos, que é bom, não gostamos. Passamos a vida à espera de que alguém faça alguma coisa. Costumamos ter a nítida impressão de que o problema não é conosco.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

Alguns poucos se apercebem dessa generalizada tendência ao descaso, ao «tô-nem-aí». Para desgraça nossa, nem sempre são os mais bem-intencionados. Vai daí, nossas portas estão abertas a aventureiros, predadores, espertalhões, inescrupolosos, aproveitadores. A conjunção deletéria do descaso da população com o oportunismo de uma meia dúzia trava o país. E perpetua o insuportável contraste entre a riqueza indecente de uns contra a miséria negra de outros.

Em seu blogue alojado no Estadão, Marina Gazzoni nos contava, semana passada, que está prevista a construção de novo aeroporto (mais um!) para servir a cidade de São Paulo. O projeto foi apresentado por um consórcio de grandes empreiteiras. A certeza de que seja aprovado sem reticências é tão grande, que as construtoras já compraram até o terreno. Afinal, convencer autoridades públicas é especialidade de grandes empresários…

Reinventando o avião by Glen Baxter, desenhista inglês

Reinventando o avião
by Glen Baxter, desenhista inglês

O adjetivo absurdo, de tão usado, já gastou. Dizer que a ideia é absurda soa banal. Contraditória? Incoerente? Insensata? Disparatada? Que cada qual escolha o termo que melhor lhe convier. Estamos diante de uma estupidez sem nome.

O aeroporto de Guarulhos, que há 30 anos serve a capital do Estado, viu passar 32 milhões de passageiros em 2012. No mesmo ano, o movimento de viajantes registrado nos dez aeroportos mais movimentados do planeta foi o seguinte:

    Dubai       = 58 milhões
    Djacarta    = 58 milhões
    Dallas      = 59 milhões
    Paris       = 62 milhões
    Los Angeles = 64 milhões
    Chicago     = 67 milhões
    Tóquio      = 68 milhões
    Londres     = 70 milhões
    Pequim      = 82 milhões
    Atlanta     = 95 milhões (!)

Guarulhos não aparece nem entre os 30 aeroportos mais movimentados do mundo. Como qualquer um pode deduzir, se outros conseguem acolher o triplo dos viajantes atendidos em Cumbica, por que, raios, não seríamos nós capazes de fazer o mesmo? Há maneiras mais práticas, mais baratas, mais eficazes e mais lógicas de melhorar o desempenho da estrutura existente.

Foi um erro ter construído o aeroporto onde se encontra? Muitos dizem que sim. Mas não tem mais jeito: feito está, feito ficará. O que não convém é repetir a asneira.

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário by Ross Thomson, desenhista inglês

Visita curta ― saguão de aeroporto desnecessário
by Ross Thomson, desenhista inglês

Caieiras, o município «escolhido» pelos empreiteiros, é localidade encarapitada na Serra da Mantiqueira, a quase 800m de altitude, num dos raros pulmões verdes que ainda sobram à roda de São Paulo. Para coroar o desatino, aquela serra é considerada zona de mananciais. Uma parte do abastecimento de água da megalópole depende da preservação e dos bons cuidados que se dediquem à região. E tem mais: como localidade serrana, Caieiras é tão sujeita a nevoeiros como Guarulhos.

Antes de pensar em novo aeroporto, ainda há muito que fazer no velho. Ligação ferroviária rápida, aumento da capacidade dos estacionamentos, construção de novos terminais, desapropriação de terrenos circunvizinhos, melhora na logística de movimento de carga, aprimoramento da formação de pessoal, reforço da segurança. Tudo isso é mais lógico e sai mais barato do que construir mais uma estação aérea.

Não tem cabimento termos estádios padrão Fifa e continuarmos com aeroportos padrão Uagadugu.

Delito e emenda

José Horta Manzano

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

A estas alturas, o Brasil inteiro já deve estar sabendo que dona Dilma cometeu uma infração de tráfego. Viajou de automóvel carregando criança no colo. Houve tempos em que era permitido, hoje não é mais. A lei exige que criança seja afivelada em cadeirinha especial. Não é questão de gostar ou não ― é assim, ponto e basta.

Aconteceu o que não tinha de acontecer: foi flagrada por um repórter. Pois é, hoje em dia está cada vez mais difícil evitar deixar rastro. O inquilino do Palácio do Planalto deveria ter isso na mente a cada instante. Já estamos acostumados a que seja displiscente com o País. Mas é surpreendente que desconsidere a segurança do próprio neto.

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

Crédito: Ricardo Duarte, RBS

Há comportamentos que não se costumam recomendar: tomar leite com manga, comer salada de pepino à meia-noite, mergulhar numa piscina depois de uma boa feijoada. Assim mesmo, são atos conscientes que não põem em risco senão o adulto que os comete. Embora não sejam incentivados, maus-tratos infligidos a si mesmo não costumam ser proibidos por lei. Pôr em risco a integridade física de incapaz é outra coisa.

Os assessores de dona Dilma, à vista do auê que se alevantou nas redes sociais, se precipitaram a estancar a sangria. Postaram mensagens em nome da presidente com reconhecimento de erro e pedido de desculpa. Não basta. Faltam duas coisas.

Uma asneira cometida por mim ou por você, distinto leitor, não tem a mesma repercussão que a mesma besteira protagonizada pela mandatária-mor. Em primeiro lugar, falta a presidente prometer publicamente que não repetirá o erro. Para completar, falta ressarcir os cofres do Serviço de Tráfego pagando a respectiva multa. Foi-se o tempo em que a gente se safava com um «desculpe, foi sem querer».

Dilma e os tuítes em seu nome

Dilma e os tuítes em seu nome

Desconheço os preceitos nesse particular. Se houver sanção pecuniária prevista, que dona Dilma pague. Se não houver, que seja esperta e mate dois coelhos de uma cajadada só. Seus marqueteiros estão aí para isso. Basta mandar preparar um vídeo institucional bem-humorado com reconhecimento do erro e advertência a todos os brasileiros para que nunca façam a mesma coisa. Pelo bem de suas crianças.

De toda maneira, o Brasil inteiro já está a par do que aconteceu. Não há como se esconder atrás de um «eu não sabia» ou um «eu não tenho nada com isso». Há momentos propícios para tirar dividendos de um acontecimento incômodo. O caso de Porto Alegre é um deles.

Decisão salomônica

José Horta Manzano

Não há que dizer, tem gente esperta entre nossos dirigentes da alta cúpula. Não estou brincando nem ironizando. Não serão muitos, mas há gente de respeitável eficiência. Ontem recebemos uma demonstração.

É verdade que os da linha de frente, aqueles que aparecem na tevê e na mídia dia sim, outro também, costumam se enfiar em saias justas, chegando até a arruinar estratégias bem construídas pelos homens da sombra. Felizmente, há casos que dão certo.Avião 4

Faz quase 20 anos que as Forças Aéreas alertaram o governo sobre o iminente sucateamento dos caças supersônicos em serviço. Tomada de preços foi organizada na época. A partir daí, o assunto foi posto em banho-maria até que, com a chegada do Lula, foi definitivamente engavetado. Não se sabe bem por que. Talvez tenha sido por mera pirraça. Ou falta de visão. Afinal, bolsa família e palanque permanente saem mais barato e dão mais voto que compra de avião a jato.

Mas há novelas que têm final feliz. O próprio presidente que havia ordenado o congelamento do programa despertou, de repente, em 2009. Naquele ano, o presidente da França foi o convidado de honra para as festividades do 7 de setembro, nossa data maior. Na ocasião, um Lula eufórico e falante ― talvez em razão de um café da manhã mais abundante que de costume ― deu a entender ao visitante que o Brasil se preparava a bater o martelo na questão dos caças: o Rafale francês seria o escolhido. Só faltou ser carregado nas costas pela comitiva de empresários que acompanhava o presidente visitante.

No dia seguinte, a imprensa francesa festejou. Milhares de empregos seriam garantidos por vários anos, a população ficaria grata a Sarkozy. A simpatia granjearia votos preciosos para sua reeleição. Os infelizes não conheciam o percurso em zigue-zague que nosso antigo presidente costuma seguir. Conversa vai, conversa vem, o governo brasileiro pôs de novo o assunto em banho-maria.

Sem ser especialista em aeronáutica militar, entendi que as principais características político-militaro-financeiras entre os três concorrentes finais empurravam a decisão de Brasília para um beco sem saída.Avião 5

O avião americano era tecnicamente superior aos outros, apresentava a melhor relação entre qualidade e preço. Mas tinha o defeito de ser americano, pecado original intragável para a ala xiita do partido dominante.

O avião francês apresentava uma vantagem não negligenciável: vinha sem pecado original. Não era americano, muito pelo contrário. A França, desde sempre, distinguiu-se por uma política de independência com relação às outras potências. No entanto, o aparelho sofria de um mal incurável: era o mais caro. Além do que, não havia sido ― e ainda não foi ― escolhido por nenhum exército, excetuado o francês.

O avião sueco apresentava mais vantagens que os outros. A alta cúpula da Aeronáutica havia recomendado que fosse ele o escolhido. Era o mais barato. Ainda não está totalmente desenvolvido, o que deixa margem a que se anuncie um «projeto sueco-brasileiro», ainda que seja só pra inglês ver. E, mais que tudo, o Gripen tem uma vantagem oculta: é equipado justamente com motorização americana, como a do modelo rejeitado pelos integristas. Não é, nem deixa de ser. As aparências estão salvas.

Foi agora que se teve a prova de que ainda há cabeças pensantes no andar de cima. Escolheu-se o avião sueco. As vantagens são muitas.

Interligne vertical 81) Traz tecnologia americana de primeira, ainda que embrulhada com papel sueco. A ala xiita pode dormir tranquila sem a impressão de ter sido traída.

2) A FAB sente-se prestigiada, dado que esse é justamente o modelo que lhe tinha parecido mais conveniente.

3) As finanças brasileiras, um tanto alquebradas estes últimos tempos, vão ser menos solicitadas, dado que o custo desse modelo é menor que o dos outros.

4) Na Escandinávia em geral ― e na Suécia, em particular ― uma aura de simpatia se inscreve sobre o nome de nosso País. O Brasil passa a ser visto como nação amiga, simpática. Isso só pode trazer vantagens. Os suecos são grandes investidores no cenário mundial.

5) Os EUA estão satisfeitos, pois a fabricação de peças essenciais será feita, de qualquer maneira, por lá. Os empregos estão salvaguardados.

A única sombra no quadro radioso foi o fato de Brasília ter anunciado a decisão menos de uma semana depois da visita de François Hollande. Ficou uma desagradável impressão de que o presidente e a “presidenta” não chegaram a um acordo sobre eventuais ― digamos assim ― efeitos colaterais… Ficou esquisito, né?

Quanto à tão falada «transferência de tecnologia», que me perdoem os espíritos crédulos, mas devo decepcioná-los. Conhece aquela do pulo do gato? Pois é, em venda de material sensível, funciona da mesma maneira. Ensina-se algum procedimento básico, distribuem-se algumas migalhas, só para constar. Mas o grosso mesmo, o cerne da questão, o coração do problema fica muito bem preservado.

Aviãozinho da alegria

É uma questão de bom-senso. Tecnologia de altíssimo padrão, conquistada a custo de dezenas de anos de pesquisa e de bilhões e bilhões de dólares (ou euros) de investimento, não será jamais dada assim, de mão beijada, só porque um cliente encomendou 36 aparelhos.

Você sabia?
O parlamento da pequena Suíça está em via de aprovar a compra de 22 caças Gripen de modelo equivalente. Não li nenhum reclamo sobre «transferência de tecnologia».Interligne 23

Se alguém quiser dar uma olhada na reação eufórica dos suecos e no muxoxo decepcionado dos franceses, clique aqui abaixo.

Aftonbladet, Suécia

Televisão sueca

SVD Näringsliv, Suécia

Le Monde, França

Les Echos, França

La Tribune, França

As duas faces da moeda

José Horta Manzano

Quem vive muito tempo num palácio cercado de mordomias acaba por desconectar-se da vida real. É mal de que sofrem ditadores, imperadores e todos os mandatários que permanecem por muito tempo no poder. A parede de cristal que os cerca permite-lhes ver as gentes, mas não os deixa ouvir suas reivindicações.

De pobre, ninguém quer saber ― a  sina deles é a solidão. O todo-poderoso, ao contrário, é cercado por uma legião de áulicos que se desdobram para tornar mais doce a vida do capo. Ao redor do chefe formam-se círculos filtrantes destinados a reter tudo o que puder azedar o humor do personagem central ou perturbar-lhe, seja de que modo for, a existência.

Aquele que passa anos sem ter de fazer esforço nem mesmo para abrir uma simples porta precisa de muita força e inteligência para continuar a se dar conta de que existe mundo além de suas paredes de cristal. Precisa de mais força ainda para se dar conta de que seus desejos não se transformam automaticamente em realidade.

Quando nosso antigo presidente, o Lula, fez o que podia e o que não devia para assegurar que o Brasil se tornasse sede do Campeonato de Futebol de 2014, certamente enxergou as vantagens, o lado bom. Mas, apesar dos dotes de inteligência política que lhe emprestam, foi incapaz de se dar conta de que, se um lado é bom, há sempre outro menos brilhante. Sua corte, se anteviu algum risco, há-de ter preferido calar-se.

Nosso guia viu oportunidade de bons ganhos para empreiteiros ― grandes financiadores de suas campanhas. Há-de ter vislumbrado ganho político certeiro. Talvez tenha até acreditado quando cortesãos e assessores lhe garantiram que tudo estaria pronto a tempo e a hora, que as obras seriam todas edificadas com um pé nas costas.

Mais que tudo, intuiu que seu nome ficaria gravado para todo o sempre como o benfeitor-mor da nação, aquele ser excepcional que teria permitido a nosso país atingir a glória maior do planeta: sediar uma Copa do Mundo de Futebol! Uma nova declinação do nunca antes nessepaiz. Afinal, 1950 já vai tão longe.

Toda moeda tem duas faces. O fato de o presidente taumaturgo só enxergar o lado que lhe convém não exclui a existência do lado mais sombrio da realidade nacional. Apesar de bolsas várias, a distância entre os mais abonados e os mais desafortunados não para de aumentar. A criminalidade, a incivilidade, a insegurança, a ignorância se alastram a cada dia.

Algumas excelências fazem de conta que essa face B do País simplesmente não existe. A população, quanto a ela, vive tão mergulhada na geleia geral que já não se dá mais conta do surrealismo da situação. No entanto…

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

… no entanto, uma Copa do Mundo, como seu nome indica, é do mundo, um evento planetário. Atrai atenção de gregos, troianos, persas e mongóis. A 6 meses do pontapé inicial, os holofotes do mundo começam a focalizar nosso País. Turistas e jornalistas estrangeiros, por viverem em meio diverso, têm, da realidade brasileira, visão diferente da nossa. Coisas que nem mais enxergamos saltam aos olhos de não habitués.

Semana passada, a rádio francesa de informação contínua France-Info dedicou uma série de reportagens ― uma por dia ― ao Brasil, em vista da Copa do ano que vem. Não se falou de tática futebolística, prognósticos nem sorteio de chaves. A série de programas procurou responder à pergunta: que país é aquele?

Falou-se justamente de tudo aquilo que a gente gostaria que fosse esquecido: arrastões, violência, estádios transformados em arena de gladiadores, número anual assustador de homicídios, tentativa de pacificação de favelas. A palavra arrastão não tem tradução em francês ― talvez não tenha em nenhuma outra língua. Assim, a reportagem gastou um minuto inteiro para explicar o que é e como funciona.

Na minha opinião pessoal, nosso guia ― bem-intencionado, mas mal informado e mal assessorado ― precipitou-se ao permitir que a Copa se realizasse no Brasil. Mais teria valido deixar esse evento para o futuro e investir essa dinheirama toda em infraestutura material (= estradas, pontes, viadutos, portos, metrôs, comunicações) e, principalmente, em infraestutura imaterial (= instrução pública, saúde, tecnologia).

Não seria garantia de glória imediata a nosso benfeitor. Pouco importa. A glória imediata é efêmera, enquanto a glória bem alicerçada é indelével.

Desativando a bomba

José Horta Manzano

Li estes dias que o Brasil decente está indignado com as manifestações de «desagravo» que o partido dominante tem feito em favor dos condenados no mensalão.

Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Não sou santo, assim mesmo ando meio desconfiado. É muita esmola pra pouca sacola.

Estamos entrando em período de campanha eleitoral. Não precisa ser marqueteiro nem cientista politico para entender que não seria boa ideia atiçar a antipatia de estratos da população já tradicionalmente hostis à atual elite política. Portanto, a lógica mais elementar ensina que quanto menos se falar no assunto, melhor será.

Qual seria, então, a razão desse auê que estão promovendo? Tiro no pé? Suicídio político?

Artimanha para convencer as massas de manobra não pode ser, que essas não precisam ser conquistadas: já faz 12 anos que comem na mão do governo. O que há então por detrás disso?

A impressão que fica é a de que o topo da cúpula havia ga-ran-ti-do aos mensaleiros que nenhum mal lhes poderia acontecer. Nunca, jamais, em tempo algum. Mas não deu certo. Mesmo fora dos planos, aconteceu. E agora?

Para acalmar os encarcerados, alguma ação teve de ser tomada à atabalhoada. Manifestação pública de «desagravo» é apenas a ponta do iceberg. Como todos sabem, a parte visível dessas montanhas de gelo que derivam no oceano corresponde a 10% do volume total. A manifestação pública é somente a parte visível. O grosso do mimo há de estar abaixo do nível da água. Pode-se imaginar o que seja, mas não dá para enxergar até onde vai.

Ainda assim, sobra uma pergunta: por que tanta preocupação em não melindrar anjos caídos, com mandatos cassados, em fim de carreira, sem futuro político?

Desativando a bomba Crédito: The Walt Disney Co.

Desativando a bomba
Crédito: The Walt Disney Co.

Não me parece incoerente crer que, caso os prisioneiros se sintam abandonados pelos antigos companheiros, podem até ter a indelicada ideia de botar a boca no trombone e contar algumas verdades incômodas. Os pequenos (e grandes) segredos de bastidores que essa gente deve conhecer não caberiam na lista telefônica.

Por essa linha de raciocínio, não é absurdo qualificar esses «desagravos» como a parte visível de um grande cala-boca entre parceiros.

Do Brasil para o mundo!

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil e da maioria dos países americanos, o papel da rádio-televisão estatal é secundário. No Brasil, especialmente, a radiodifusão pública resume-se a meia dúzia de estações de cunho eminentemente local.

Assim ficou definido desde que surgiram as primeiras emissões de rádio, pelo final dos anos 20. Na Europa, o Estado assumiu essa responsabilidade e, durante meio século, guardou o privilégio exclusivamente para si. Até os anos 70, praticamente não havia estações comerciais no continente. Nem de rádio, nem de televisão.

De uns 30 ou 40 anos para cá, a situação se afrouxou. Centenas de estações surgiram. Mas uma prática subsiste: a cobrança da taxa de rádio e tevê. De cada possuidor de aparelho de rádio ou de televisão é cobrada uma taxa anual. Na origem, esses recursos serviam para financiar os programas da rádio e da televisão públicas, dado que nenhuma publicidade era difundida.

Os tempos foram mudando, a publicidade foi-se insinuando aos poucos, mas a taxa continua de pé. Por quanto tempo ainda, não se sabe. Na verdade, o celular é hoje capaz de captar, via internet, programas de rádio e de tevê. No entanto, seus possuidores não são sujeitos à taxa de difusão. Como é que vai ficar no futuro? Quem viver verá.

Televisão ― o começo

Televisão ― o começo

Na Europa, o fato de as transmissões radiofônicas terem sido asseguradas durante meio século pelo Estado trouxe uma consequência desconhecida no Brasil. O Estado tornou-se responsável pelo alcance, pela qualidade e pela diversidade de suas emissões. A não necessidade de buscar recursos publicitários deu ensejo a uma diversificação de programas desconhecida na Terra de Santa Cruz. Alguns canais da televisão pública podem se permitir levar ao ar rodas literárias, debates filosóficos ou documentários científicos em horário nobre.

Outra consequência de a rádio e a televisão terem sido confiadas ao Estado foi a criação de canais especificamente voltados para projetar a imagem nacional além-fronteiras. Desde os tempos pré-históricos das ondas curtas, grandes países se esforçaram de propagar sua voz. Era o caso do Reino Unido, da antiga União Soviética, da França.

Hoje em dia, com uma simples parabólica ― às vezes até sem ela ― qualquer um pode acompanhar programas de rádio e televisão emitidos pelas empresas públicas dos grandes países e também de países médios e pequenos, como Portugal, Espanha, Suíça, Bulgária, Dinamarca, Itália, Áustria. Até países exóticos têm emissoras ― em diversas línguas ― que dão ao país uma importância que ele nem sempre tem. O exemplo maior é Al-Jazeera, do Catar.

O Brasil conta hoje com muitos cidadãos vivendo fora de suas fronteiras. Embora ninguém conheça o número exato de indivíduos, estimativas chegam a falar em 3 milhões. É um bocado de gente. Se uma organização estatal e forte antes não fazia falta, agora faz. Não há quem garanta aos expatriados a ligação rádio-televisiva com a terra natal.

Na Europa Central, nenhuma emissora de rádio brasileira está disponível por satélite. Quanto à televisão, apenas duas emissoras comerciais podem ser captadas. O pacote básico da tevê a cabo inclui uma estação brasileira de cunho religioso, daquelas que transmitem novelas entremeadas de proselitismo neopentecostal. A maior emissora de televisão brasileira também está disponível, mas… só para quem estiver disposto a pagar. Na Suíça, a assinatura sai por 42 dólares mensais, mais de 500 por ano (pra lá de 1100 reais). Precisa ser fanático por novela. Quanto ao rádio, nada ― nem de graça, nem pagando.

Organizações estatais de rádio e televisão

Organizações estatais de rádio e televisão

É pena que assim seja. Quem sabe um dia destes, lá em Brasília, alguém acorda. Acho difícil. Os brasileiros são pouco voltados para o exterior. Muitos imaginam que o mundo começa e termina dentro das fronteiras nacionais.

O Brasil conta com uma esquálida organização estatal de comunicação, é verdade. Mas toda tentativa de vitaminá-la tem esbarrado na confusão entre Estado e governo. Os brasileiros do exterior gostariam de sentir a presença da terra de origem. Dispensam autolouvação do governo de turno. Muito obrigado.

Frase do dia — 56

«Os aeroportos brasileiros estão sendo “remendados” para lidar com o fluxo de torcedores na Copa do Mundo. Mas não darão conta da expansão do mercado doméstico brasileiro. As medidas não atendem às necessidades a longo prazo.»

Jamil Chade, ao citar apreciação feita pela IATA(*), in Estadão 12 dez° 2013

(*) IATA = International Air Transport Association, entidade formada por cerca de 240 companhias aéreas, que respondem por 84% do tráfego aéreo planetário.

Em estado de dúvida

José Horta Manzano

Estádio é estádio. Arena é arena. Picadeiro é picadeiro. Palco é palco. Palanque é palanque. Não viria à ideia de ninguém dizer que a peça de teatro será apresentada no picadeiro do teatro. Não seria concebível relatar que, para pronunciar seu discurso, o candidato subiu à arena. Ficaria ridículo contar que o jogo de vôlei teve lugar no palanque.

Picadeiro é termo ligado ao circo. Palco traz à mente o teatro. Palanque lembra imediatamente um comício político. Arena é expressão intimamente conectada a tourada, corrida de bigas, luta de gladiadores. Estádio é construção ― geralmente de grandes dimensões ― onde se praticam esportes atuais, entre os quais o futebol.

O povo brasileiro, sabe-se lá por que, sempre foi bastante permeável a modismos vindos do estrangeiro. Cem anos atrás, a linguagem era recheada de palavras e expressões francesas, a língua de cultura da época. Hoje é vez do inglês. Amanhã, só Deus sabe o que virá.

Há neologismos bem-vindos. Quando falta uma palavra em nosso vocabulário, por que não adotar aquela que já nos vem prontinha do exterior? Comprar feito é tããão mais fácil que inventar um similar nacional, não é mesmo? No entanto, há modismos que perturbam. Um deles, muito em voga atualmente, é o surpreendente e repentino abandono do tradicional termo estádio, substituído pelo bizarro arena.

Será que os brasileiros logo estarão dizendo que, domingo que vem, vão à arena assistir a um jogo? Pode ser, melhor não botar a mão no fogo. Os franceses são mais duros na queda. Naquele país, ninguém jamais em tempo algum conseguiria impor uma novidade desse calibre. Stade continua significando estádio. Arènes (que é normalmente usada no plural) é a palavra empregada para designar um campo de touradas.

Le Monde ― o jornal mais prestigioso da França, traz, em sua edição datada de 12 dez° 2013, artigo de Nicolas Bourcier sob o título Le Brésil au stade du doute. A expressão contém um jogo de palavras. Stade tanto significa estádio como estado (=situação). Portanto, tanto se pode traduzir por O Brasil em estado de dúvida, como por O Brasil no estádio da dúvida. Trocadilhos e brincadeiras com palavras são comuns na imprensa francesa.

O texto, naturalmente, tece considerações sobre a próxima Copa do Mundo e sua organização. Menciona o espetáculo horripilante que se viu recentemente num estádio de Joinville. Fala também do acidente que dizimou uma parte do estádio dito Itaquerão. Relata atraso na construção dos estádios de Curitiba, Manaus e Cuiabá. Para coroar, conta que a previsão de custo das construções esportivas teve aumento de um bilhão de reais de um ano para cá. Diz ainda que o total de investimentos em infraestrutura deve ultrapassar os 25 bilhões de reais. No finalzinho do escrito, fica no ar uma dúvida maliciosa sobre a serenidade do clima no qual ocorrerá o megaevento do ano que vem.

O artigo de página inteira está engalanado por vários desenhos humorísticos. Estão aqui abaixo.

Le Monde ― 12 dez° 2013 página inteira

Le Monde ― 12 dez° 2013
Artigo completo

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Le Monde ― 12 dez° 2013 O texto

Le Monde ― 12 dez° 2013
O texto

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Le Monde ― 12 dez° 2013 "Ainda bem que estão todos em frente à tevê!" by Mix & Remix, desenhista suíço

Le Monde ― 12 dez° 2013
“Não vejo a hora em que eles se sentem todos em frente à tevê!”
by Mix & Remix, desenhista suíço

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Le Monde ― 12 dez° 2013 by Payam Borumand, desenhista iraniano

Le Monde ― 12 dez° 2013
by Payam Borumand, desenhista iraniano

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by Boligan, desenhista mexicano

by Boligan, desenhista mexicano

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by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

O custo da Copa 2014  –  by Nicolas Vadot, desenhista franco-britânico

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by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

by Marcelo de Andrade, cartunista da Folha de São Paulo

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As boas-vindas

José Horta Manzano

Chega-me a notícia de que o sorridente Bill Clinton, antigo presidente ― de esquerda, frise-se ― dos EUA teve um encontro com dona Dilma faz dois dias.

Agindo com pouca elegância, nossa presidente aceitou que fossem incluídas frases agressivas no discurso que lhe prepararam para pronunciar na ocasião. Nossa presidente ainda não aprendeu que não convém assumir atitude professoral e desafiante do tipo conosco, ninguém podosco diante de visitantes estrangeiros. Pega mal pra danar.

Dona Dilma declarou que, no panorama atual, «não há espaço para relações hegemônicas»(*). Palavreado estabanado, malcriado, inútil, e típico de quem sofre do que Nélson Rodrigues chamou um dia de complexo de vira-lata. Explico.

Dilma Rousseff & Bill Clinton Crédito: Daniel Marenco, Folhapress

Dilma Rousseff & Bill Clinton
Crédito: Daniel Marenco, Folhapress

É estabanado porque visa a atingir em cheio o estrangeiro. É pisão no pé de propósito.

É malcriado porque colide com nossa tradição de dar boa acolhida a quem vem de visita. Não era hora nem lugar de proferir esse tipo de discurso.

É inútil porque se dirige a alguém que já deixou o poder há 12 anos e que não pode ser responsabilizado pela orientação política atual de seu país.

É marca de um governo que sofre manifestamente de complexo de vira-lata. Ou alguém imagina Frau Angela Merkel, Monsieur François Hollande ou Mr. David Cameron fazer esse tipo de advertência a um antigo mandatário dos Estados Unidos? É o tipo de discurso que se pode esperar de um Chávez, de um Castro, de um Evo. Na boca da presidente do Brasil, não cai bem.

A inflação voltou; o PIB empacou; o Mercosul emperrou; a cada mês que passa, mais famílias se credenciam a receber a bolsa família ― o que é péssimo sinal; o Brasil está cada dia mais longe de ser admitido com membro permanente do CS da ONU; nossas prisões, já superlotadas, passam a aceitar políticos que se julgavam acima do populacho. Com tudo isso acontecendo, é ousadia levantar a crista e tentar dar lição de relações políticas a quem entende do riscado.

Quer dona Dilma queira ou não, quer seus áulicos gostem ou não ― alô, doutor «top-top» Garcia! ― os EUA continuarão ainda por longos anos na dianteira tecnológica, econômica e bélica. Ainda não está à vista o dia em que a situação se alterará.

Em vez de dar murro em ponta de faca, nossa mandachuva-mor deveria se comportar mais como chefe de Estado e menos como chefe de facção.Interligne 12

(*) «Relações hegemônicas» é formulação tortuosa, daquelas que parecem eruditas, mas são pobres de significado. O que a presidente queria dizer ― mas provavelmente não ousou ― era que não há espaço para hegemonias. No entanto, ela se engana. Ou se ilude, o que é ainda pior. Hegemonias existirão sempre, que é assim desde que o mundo é mundo: o forte domina o fraco. O Planalto pode muito, pode mexer até em leis federais, mas não conseguirá mudar leis da natureza. Vai ficar no palavreado.