O padrão dos loucos varridos

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Mesmo para os padrões que costumam ser usados para avaliar loucos varridos, Bolsonaro exagera na paranoia. Vamos aos antecedentes.

Em 1988, o capitão se candidatou pela primeira vez a um cargo eletivo. Naquele tempo, a urna eletrônica ainda era um sonho com ares de ficção científica. Foi eleito vereador do município do Rio de Janeiro.

Com dois anos de vereança, decidiu alçar voo mais ambicioso. Abandonou o mandato e candidatou-se a deputado federal. Saiu eleito. Deve ter gostado do novo emprego. Profissionalizou-se. De lá pra cá, cumpriu oito mandatos seguidos, sempre representando o Rio na Câmara Federal.

Desde a virada do século, as eleições vêm sendo realizadas com urna eletrônica. Que se saiba, Bolsonaro jamais reclamou nem lançou dúvida sobre a lisura dos pleitos. É sabido que os insatisfeitos costumam chiar; portanto o silêncio do capitão indica que ele estava feliz e satisfeito.

Um dia, decidiu tentar a Presidência da República. A história, todos conhecemos. Foi o candidato mais votado no 1° turno, mas não atingiu os 50% necessários para a vitória. Foi preciso organizar mais um turno. No segundo, os 55% de votos recebidos foram amplamente suficientes pra lhe dar direito a subir a rampa.

Pouco tempo depois da eleição, Bolsonaro botou em circulação um rebuliço estranho e fora de esquadro. Deu início a uma bizarra campanha de descrédito do sistema que o tinha levado ao Planalto.

Choramingou que a eleição tinha sido “fraudada”. Com toda probabilidade, a atitude do capitão é caso único no mundo. Um candidato enxergar fraude na eleição em que saiu vencedor é realmente de dar vertigem.

O mais curioso vem agora. Nas oito vezes em que se elegeu deputado, o capitão nunca se insurgiu contra a lisura do sistema. Já nas eleições presidenciais, denuncia fraude no primeiro turno, mas não no segundo. Como é que pode?

Se o sistema tivesse sido fraudado para impedi-lo de ganhar no primeiro turno, os autores da fraude, vendo que tinha funcionado tão bem, teriam insistido na falsificação. Ou seja, Bolsonaro também teria sido impedido de ganhar no segundo turno.

Esse mistério da desconfiança seletiva, o capitão nunca esclareceu. Nem esclarecerá, visto que o delírio, que decorre da triste patologia que o acomete, só existe na cabeça dele.

Bolsonaro e o jornalista desaparecido

José Horta Manzano

Rapidez de raciocínio não é a qualidade mais notável do capitão. Sua capacidade de percepção global de uma situação também não é lá essas coisas. Assim mesmo, ele ainda consegue nos surpreender.

Ontem, foi questionado sobre o desaparecimento na selva de um jornalista estrangeiro e de um sertanista brasileiro. Soltou a seguinte frase: “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem é uma aventura que não é recomendada que se faça (sic)”.

E o principal veio em seguida:


“Pode ser acidente, pode ser que tenham sido executados”.


Não é comum ouvir um presidente confessar com candura que, no país por ele governado, há regiões sem lei, onde cidadãos perigam “ser executados” assim, sem mais nem menos. Repare que ele não disse “assassinados”, mas “executados”.

Tirando o fato (já conhecido) de ele se exprimir em linguagem de miliciano, é surpreendente o capitão não se dar conta de que sua fala é confissão de fracasso.

De fato, tirando regiões em estado de guerra como a Síria ou o Iêmen, nenhum dirigente diria coisa desse tipo. Nem que fosse verdade.

Fica a desagradável impressão de que o governo não controla parte do território nacional.

Ou, pior ainda: que, tendo recebido informações confidenciais sobre o acontecido, o presidente as está sonegando ao distinto público.

Há ainda uma última (e terrível) hipótese: a de que a ordem de “execução” tenha emanado das mais altas esferas do poder. Mas seria tão absurdo, que prefiro nem falar nisso.

Observação
Não se espera de um presidente da República que emita comentários pessoais sobre o maior ou menor perigo que indivíduos tenham decidido enfrentar.

Neste momento de preocupação nacional, cabe a ele tranquilizar a população e assegurar que está “pessoalmente empenhado” em descobrir rapidamente o paradeiro dos desaparecidos.

Pode até ser blá-blá-blá, mas é o que se espera de um dirigente.

As férias do presidente

Jornal online Fórum, de tendência lulopetista

José Horta Manzano

O autor da manchete tropeçou na concordância(*), mas acertou na petulância.

Estou me referindo à petulância de um presidente que faz questão de mostrar que trabalha pouco. Deve achar bonito.

Em outras terras, presidentes e figurões de alto coturno costumam ser bastante discretos na hora de sair de férias. Não querem jornalistas nem fotógrafos por perto. Nem dão informações, nem publicam foto em rede social.

Nosso presidente, petulante, não vê problema nenhum em divulgar seu pouco apego ao batente. Numa terra em que tem gente batalhando duro, de sol a sol, pra poder sobreviver!

(*) As regras de nossa língua pedem que, quando o sujeito estiver no plural, o verbo acompanhe. O sujeito da frase é viagens. Portanto, a forma verbal deveria ser fizeram e não fez.

O camburão

Pesquisa Datafolha, 26 maio 2022

José Horta Manzano

Pesquisas de intenção de voto, há muitas. Mas ninguém pode negar que, nestes tempos de campanha para a Presidência, a mais ansiosamente aguardada no país é a Datafolha. A mais recente saiu quentinha do forno ontem, dia 26.

Dá Lula na cabeça seja qual for a configuração. Nosso guia bate com folga qualquer adversário. Aliás, “qualquer adversário” é força de expressão. Espremida a fruta, constata-se que os candidatos são só dois: Bolsonaro e o Lula.

Se a eleição fosse hoje, como a prudência manda dizer, teríamos uma disputa entre dois nomes. Salvo o milagre de a terceira via tomar fermento e crescer rapidinho, o panorama vai permanecer assim até outubro.

Daqui até lá, o capitão vai continuar esperneando, distribuindo dinheiro a parlamentares do Centrão, loteando a máquina federal, discursando raivoso, trocando ministros e presidentes da Petrobrás, tratando com benevolência matadores e desmatadores. Também vai continuar a praticar seu esporte favorito: dar um tiro no pé diariamente. Portanto, sua pontuação no eleitorado não tende a subir.

Daqui até lá, o Lula vai continuar fazendo o que sabe fazer melhor: reuniões com este e com aquele, conchavos, confabulações, jantares com endinheirados, discursos raivosos, promessas, promessas promessas. Vai dar seus tirinhos no pé também, que ninguém é de ferro. Resultado do páreo: sua pontuação tende a continuar estável.

Portanto, se tudo continuar como está – e parece que assim será –, o Lula é bem capaz de levar no primeiro turno. A partir daí, o roteiro é o de um filme de ficção política. Cada um pode imaginar o seu. Este blogueiro criou um script muito bom, um pitéu capaz de ganhar o Festival de Cannes.

  • Inconformado, Bolsonaro ensaia um golpe de Estado.
  • É apoiado por um punhado de generais palacianos e por um sargento aqui, um cabo acolá.
  • Fracassa.
  • É preso.
  • Desce a rampa – que digo! – sai discretamente por uma porta lateral em frente à qual um camburão está à espera.
  • Atrás dele, vai a meia dúzia de generais palacianos, em fila indiana.
  • Em 48 horas, o filme termina.
  • Dia 1° de janeiro, o Lula assume.

Observação final
Que o Lula não saia dessa muito enfatuado, achando que ganhou por mérito próprio. As coisas não são bem assim. Se ele for eleito, seu grande cabo eleitoral terá sido o capitão. Se o presidente fosse outro – qualquer outro –, o Lula não ganhava de jeito nenhum. Xô!

Ainda bem que o vice é Geraldo Alckmin. O Lula já tem idade, nunca se sabe o que pode acontecer. Com Alckmin, pelo menos, dificilmente teríamos censura à mídia e apoio a ditadores sanguinários, uma obsessão do Lula.

O dia seguinte

José Horta Manzano

24 maio 2022
Uvalde (Texas), EUA
Um adolescente que carregava pouco bestunto e muita raiva no coração resolveu se vingar a esmo de uma sociedade que lhe parecia opressora. Armou-se como verdadeiro Rambo e atirou na própria avó. Em seguida, dirigiu-se à escola que havia frequentado até outro dia e atirou às cegas. Adicionando crianças e adultos, matou mais de vinte. Foi abatido pela polícia.

Rio de Janeiro, Brasil
Operação policial de extrema violência levada a cabo na Vila Cruzeiro (Complexo da Penha, Rio de Janeiro) deixou um rastro sangrento de 25 mortos. Segundo relatos, bom número dentre os metralhados são “vítimas colaterais”, gente cujo único crime era estar no lugar errado, na hora errada. Ressalte-se que nosso ordenamento jurídico proíbe justiça expeditiva, execuções sumárias e atos de tipo miliciano-mafiosos como esse.

25 maio 2022
Washington (DC), EUA
Joe Biden, presidente da República, fez declaração emocionada sobre o massacre da véspera. Declarou-se “sick and tired” (= enojado e cansado) com a multiplicação desse gênero de ocorrência. A bandeira nacional que ondula sobre a Casa Branca foi baixada a meio-pau. O presidente acrescentou que, nos próximos dias, viajará ao Texas para uma visita pessoal às famílias das vítimas da tragédia.

Brasília, Brasil
Jair Messias Bolsonaro, presidente da República, utilizou o Tweeter para dar parabéns aos “guerreiros”(sic) do batalhão policial que “neutralizaram”(sic) marginais. O presidente não declarou ter intenção de fazer visita de consolo às famílias das vítimas – pessoas que ele deve considerar sub-humanas. Em Brasília, a bandeira nacional não foi baixada a meio-pau.

Os espanhóis dizem: “Más vale vergüenza en cara que mancha en el corazón” (= Mais vale vergonha na cara que mancha no coração). Há os que preferem a mancha. Por não sentirem vergonha. Ou talvez porque lhes falte o coração.

A régua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

 


“O homem é a medida de todas as coisas”

Protágoras


 

Bolsonaro ouviu o canto do galo do poder absolutista mas até hoje não descobriu de onde ele vem, nem que tipo de vocalização lhe seria necessária para reproduzi-lo com sucesso por aqui. Escutou o canto da sereia mas, acreditando que não passava de singela homenagem de seus seguidores fardados, desatou-se do mastro e jogou-se atabalhoadamente na água.

 

Freud e Paulo Freire
Tivesse algum dia se dado ao trabalho de esmiuçar o pensamento desse e de outros filósofos da antiguidade, saberia que tudo é relativo, inclusive e principalmente sua autoridade. Imediatista, megalomaníaco, voluntarista e incapaz de pensamento crítico, ele confunde alhos com bugalhos e costuma tomar a parte pelo todo – provavelmente entenderia a palavra homem como simples indicador de gênero. Acreditando ser ele próprio medida de tudo à sua volta, julga que o Brasil e o mundo deveriam se curvar à sua paralela noção de realidade, aos seus princípios morais (ou falta deles), às suas vontades e ambições.

Tivesse lido Freud alguma vez, saberia que seu psiquismo está fixado na fase de onipotência típica de Sua Majestade, o Bebê. Entenderia que nessa etapa primitiva do desenvolvimento psíquico não existe mundo fora dele e a mãe (pátria) é apenas um seio que jorra leite sempre que requisitado. Tudo leva a crer que, por circunstâncias familiares adversas (mãe omissa e pai castrador), Bolsonaro jamais superou a fase do narcisismo infantil e regride continuamente à ilusão de poder inquestionável sempre que se sente ameaçado por alguma autoridade externa.

Tivesse ido além do título do livro de Paulo Freire, compreenderia que “se a educação não é libertária, o sonho do oprimido é se tornar opressor”. Se educar é frustrar, como postulam os especialistas, ele nunca se deixou educar para a cidadania. Sua formação militar o ajudou a radicalizar a noção de que toda obediência tem de ser necessariamente cega, acrítica: afinal, soldados não são feitos para pensar. No entanto, num arroubo juvenil e ainda apostando em sua superior autoridade moral, achou um dia que poderia subverter o dogma supremo da hierarquia militar. A humilhação máxima que sofreu ao ser expulso do exército por transgressão marcou sua personalidade para todo o sempre.

 

A ferida narcísica
A profunda ferida narcísica que se abriu em seu peito e o ressentimento acumulado desde então tornaram-se a marca registrada de sua atuação no mundo político e transformaram o caráter de virilidade tóxica – compensatória de sua impotência – em marco distintivo do bolsonarismo. Dando sequência ao seu complexo de Édipo embutido e jamais resolvido, Bolsonaro e bolsonaristas continuam tentando a todo custo matar o Pai Supremo, simbolicamente representado pelo Judiciário e encarnado na figura de Alexandre de Moraes, antes que sejam eles próprios castrados.

Desde que assumiu o poder em 2019, ele se comporta literalmente como se tivesse comprado a fazenda Brasil de porteira fechada. Dono de todas as consciências, ele não se cansa de instituir como regra que a ninguém é dado enxergar o mundo com outras cores ou rebelar-se contra seus éditos, uma vez que “autorizado” por seu povo e seu exército.

 

O STF e a Constituição
Professor de Deus, ele vem dando aulas diárias de constitucionalidade aos ministros do Supremo. Exibe em tom ameaçador seu douto saber jurídico, abordando temas de alta relevância para a democracia e o estado de direito, afetos principalmente ao conceito de liberdade de expressão, mas se aventurando também em questões secundárias, como a demarcação e exploração de terras indígenas, os limites de ação da Petrobrás na determinação de preços e as exigências legais imprescindíveis para a realização de eleições limpas e auditáveis.

Pontifica livremente sobre critérios de inocência e culpabilidade de parlamentares e membros do seu governo, sobre liberdade de imprensa, sobre equilíbrio e autonomia dos três Poderes da República, sobre o “interesse público” da não-adoção de medidas que beneficiariam minorias e sobre tudo o que causa “legítima comoção” na população brasileira, como se ela estivesse contida como um todo no seu grupinho de aliados e apoiadores.

 

Meu reino, meu gozo
Reinar sozinho, sem se sentir constrangido pelos tais pesos e contrapesos democráticos, seria sua única possibilidade de gozo orgástico – e ele sabe que nunca o poderá atingir graciosamente. Para chegar lá, seria preciso ter capacidade de entrega, abrir mão do desejo de ser o condutor e deixar-se ser conduzido no balé amoroso, o que lhe é impensável. Se não vai por bem, deve raciocinar, então é legítimo que se faça pelo estupro das instituições democráticas.

Mas não lhe basta o poder secular. Precisa também fazer seus apóstolos acreditarem que ele possui traços divinos de liderança carismática: a obsessão pela verdade que liberta, o pendor pastoral (“Eu sou, realmente, a Constituição”), acreditar-se ungido pelo próprio Deus para conduzir os destinos da nação.

 

Cloroquina e ivermectina
Como iluminado defensor das liberdades individuais, transgredir é com ele mesmo. Quanto mais normas legais forem quebradas em sua gestão, mais sente seu poder fortalecido e reforçada a crença de que ele é a única régua admissível para medir acertos e erros na condução dos negócios públicos – como transformar reserva natural em polo turístico, defender o trabalho infantil, defender a tortura, defender o excludente de ilicitude para policiais e militares, armar a população civil ou eliminar os radares de trânsito.

Na sua visão, é mera questão de tempo para que a OMS declare oficialmente que as vacinas são, de fato, experimentais e que foi um erro usá-las para substituir a cloroquina e a ivermectina, já que, além de custarem muito caro, podem ter efeitos colaterais inaceitáveis, como causar Aids em adolescentes ou miocardite em crianças, ou ainda conter chips para transformar pessoas em robôs. Ou para que o Supremo declare que, “dentro das quatro linhas da Constituição”, só ele teria o direito de decretar confinamento na pandemia, e interdite governadores e prefeitos que não seguissem a orientação federal. Sociólogos, filósofos e historiadores também se renderão um dia ao fato de que o nazismo foi um movimento de esquerda e que é possível perdoar o Holocausto mas não esquecê-lo, uma vez que “quem esquece seu passado não tem futuro”.

 

O psiquiatra aprendiz
Sua mais recente – e estupefaciente – incursão foi no universo da psiquiatria. Demonstrando sua expertise na área de psicopatologia aplicada à política, alertou para os eleitores ainda indecisos: só um “imbecil ou psicopata” defende a volta do AI-5.

Campeão mundial de atos falhos, resta saber se ele mais uma vez se autorrotulou sem querer (“O chefe do executivo mente”) ou se a crítica velada ao comportamento padrão de seus apoiadores mais exaltados foi só uma maneira de recriminá-los por vazarem antes da hora a intenção de golpe caso fracasse nas urnas. Ou talvez ainda ele tenha imaginado que, se vencedoras, as hostes de esquerda vão tentar instituir a ditadura do proletariado e, assim, roubar dele a bandeira do fechamento do Congresso e do STF.

Vale conferir com o psiquiatra-chefe de plantão após a abertura das urnas.

 

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dois avisos

José Horta Manzano

Na quarta-feira 18 de maio, a Casa Branca mandou dois avisos.

Primeiro aviso
Suécia e Finlândia apresentaram seu pedido oficial de entrada na Otan. Para refrescar a memória, a Otan é uma aliança militar de defesa mútua do tipo “um por todos, todos por um”. Inclui os EUA, o Canadá e praticamente todos os países europeus, com exceção das micronações e dos países neutros (Suíça e Áustria).

No fundo, o interesse maior de cada membro do clube é abrigar-se debaixo do “guarda-chuva” nuclear dos Estados Unidos, a maior potência militar do planeta. É a melhor garantia contra agressões como a que a Ucrânia está sofrendo.

Só que tem um problema. A admissão da Suécia e da Finlândia não será imediata. O processo pode levar 6 meses ou mais. Enquanto isso, tecnicamente os dois países não fazem parte da aliança e, em princípio, não contam com sua ajuda.

É um período perigoso. Se sofrerem um ataque – da Rússia, de quem mais? – terão de se defender sozinhas.

O presidente Biden mostrou ter entendido o drama. Ontem mesmo a Casa Branca publicou um comunicado oficial garantindo que, mesmo neste período em que o procedimento de adesão não está finalizado, os EUA acudirão Finlândia e a Suécia “para deter e enfrentar toda agressão ou ameaça de agressão”. Traduzindo: para os EUA, os dois países já fazem parte do clube.

O recado foi direto para Putin: mexeu com eles, mexeu comigo. Não ouse!

Segundo aviso
No mesmo dia, Elizabeth Bagley, diplomata indicada por Biden para o cargo de embaixadora dos EUA em Brasília, foi sabatinada pelo Congresso americano.

Durante a audição, a diplomata lembrou que tem 30 anos de experiência em supervisão de eleições ao redor do mundo. Disse ter certeza de que as eleições brasileiras de outubro serão livres e justas, dada a tradição do país nesse particular.

Com estilo diplomático, fez uma referência leve mas incisiva ao comportamento do capitão, que tem feito o que pode para conturbar o processo eleitoral. A nova embaixadora mostrou estar ciente de que “os tempos serão difíceis” por causa “da quantidade de comentários”. Não chegou a apontar o autor dos “comentários”. Nem precisava.

São múltiplas as maneiras de exercer pressão sobre um país. Nem sempre é necessário recorrer a uma invasão. A futura embaixadora americana traz na sacola recados para o capitão. Se ele continuar a perturbar o processo eleitoral e, pior ainda, se ousar tentar derrubar a ordem constitucional, as consequências serão imediatas e vigorosas.

Diferentemente do que Bolsonaro parece acreditar, os países no mundo atual são interdependentes. O Brasil não é uma ilha. Nosso país depende de tecnologia estrangeira para funcionar. Um avião enguiçado precisa de peças americanas. Um aparelho de ressonância magnética é fabricado no exterior. Nossa indústria – química ou mecânica – é tributária de insumos americanos.

O que a embaixadora dirá a Bolsonaro – e que não sairá nos jornais – é justamente isto: se vosmicê ousar dar “aquele” passo torto, a torneirinha vai fechar e o Brasil vai parar. Será um caos. Um embargo americano pode ser extremamente dolorido, que o digam Cuba e o Irã.

Com o país enguiçado e o povo revoltado, quem vai levar um chute no traseiro é vosmicê.

Pronto, já lhe dei o aviso adiantado.

Reflexões – 1

José Horta Manzano

A prestação de solidariedade que Bolsonaro fez à Rússia não me sai da cabeça. Ao fazer a jura de submissão diante de Putin, ele esboçou uma reverência, daquelas que se costumam reservar para a rainha da Inglaterra.

Porque que razão ele pronunciou a frase da “solidariedade”, visivelmente ensaiada? Vamos ver.

Putin é o modelo ideal no projeto que o capitão rumina para si. Para Bolsonaro versão 2022, Trump é o passado; o presente se chama Putin. O dirigente russo é a norma, a referência de tudo o que o capitão gostaria de ser. E de ter!

O ditador russo reina sozinho. Os outros poderes são marionetes, todos controlados por ele. O Legislativo vota as leis que Putin determinar. O Judiciário põe na cadeia quem Putin mandar.

A imprensa livre desapareceu. A Nôvaia Gaziêta, último jornal livre, fechou algumas semanas atrás. Adversários políticos e oponentes ao regime desapareceram: ou foram envenenados ou estão passando alguns anos num simpático campo de reeducação na Sibéria.

A tevê aberta é toda estatal e só conta ao povão a verdade putiniana. Um cidadão brasileiro comum está mais bem informado sobre o que ocorre na Ucrânia do que um cidadão russo comum.

É com esse paraíso que o capitão sonha: ter o poder absoluto, como Putin. E também possuir bilhões de dólares, evidentemente. Igualzinho ao autocrata russo.

Mas nossa realidade tupiniquim é diferente. Na minha opinião, a probabilidade de o capitão realizar seu sonho está próxima de zero. Nem mesmo se, por desgraça, fosse reeleito.

Não é angelismo da minha parte. É que nosso andar de cima é amebóide, uma enguia escorregosa que ninguém consegue apreender. Na minha concepção de “andar de cima”, ponho todos: parlamentares, magistrados, militares de alta patente e civis de alta estatura. Todos estão de olho no dinheiro, sim, mas o instinto de sobrevivência fala mais alto. Todos sabem que, com um Bolsonaro ditador, correriam perigo de ir parar atrás das grades.

O capitão pode (e ainda vai) causar estragos enormes ao país, mas não conseguirá implantar sua sonhada ditadura. Bolsonaro é um saco vazio, sem estofo. Sem ajuda, não pára em pé. Só está lá até hoje porque está sendo escorado.

Personalidade caricata

José Horta Manzano

Certas personalidades do mundo artístico ou político são fáceis de caricaturar. Outras, um pouco menos. Há os que chamam a atenção por algum atributo físico; há outros que deixam como marca a maneira peculiar de se vestir; outros ainda impressionam por algum comportamento fora dos padrões.

No exterior, os desenhistas têm sido mais assíduos em desenhar charges sobre Bolsonaro do que eram nos tempos do Lula. O capitão não chama a atenção por atributo físico nem pelo vestuário: o que impressiona mesmo são suas ideias, sua grosseria, seus baixos instintos, seu modo explícito de destruir o futuro da terra em que nasceu e do povo que o elegeu.

O leitor estrangeiro pode não ler a mídia brasileira nem assistir ao Jornal Nacional, mas as charges publicadas na mídia local de cada país se encarregam de dar o recado e mostrar a todos quem é o homem que preside o mais populoso país latino.

Nunca encontrei charge suave de Bolsonaro. Todas elas traem a indignação do desenhista estrangeiro, que nada mais faz que botar no papel a revolta dos leitores de bom senso diante do modo bolsonárico de governar.

Aqui está uma seleção de charges colhidas em Oropa, França e Bahia. (Bahia não, era só pra rimar.)

 

by Antonio Rodríguez, desenhista mexicano

 

 

Um Bolsonaro de verdade!!!
by Joep Bertrams, desenhista holandês

 

 

Vou varrer a política… e o meio ambiente!
by Brandan Reynolds, desenhista sul-africano

 

 

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

 

 

O Semeador
by Joep Bertrams, desenhista holandês

 

 

Enquanto isso, no Brasil…
by Kak, desenhista francês

 

 

by Marian Kamensky, desenhista austríaco

 

 

Alusão ao filme de Charles Chaplin “O Grande Ditador”, de 1940.
by Kunturis, desenhista grego

 

 

Oba! Graças à covid, estou conseguindo rapar a floresta amazônica inteirinha!
by Marian Kamensky, desenhista austríaco

 

 

by Plantu, desenhista francês

 

 

Desordem em andamento
(trocadilho em inglês com as palavras Ordem e Progresso)
by Antonio Rodríguez, desenhista mexicano

 

 

Plano Bolsonaro para o Desenvolvimento da Amazônia
Os índios têm terras demais!
by Solal Comics, França

 

 

O Brasil tem que continuar avançando! Feliz ano novo! Boa saúde!
by Vadot, desenhista belga

 

 

Bolsonaro, presidente do Brasil
by Placide, desenhista francês

 

 

Estamos de volta!
(A ditadura pelas urnas)
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

 

O imperador do Japão

José Horta Manzano

Numerosos pontos ligam Bolsonaro e Lula, os dois principais concorrentes às presidenciais de outubro. Um ponto importante é o fato de ambos serem homens do passado.

Bolsonaro continua a viver com os pés fincados nos anos de chumbo que o Brasil viveu quando eram os militares que davam as cartas. Ele imagina ressuscitar a ditadura. Aliás, na sua cabeça, não é bem assim – a questão não é nem de reimplantar o sistema que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

De fato, por mais autoritário que fosse o regime daquela época, até que havia certa rotatividade no topo do Executivo. Do 31 de março até a eleição de Tancredo, cinco generais se sucederam no comando da nação.

Na cabeça de nosso aprendiz, não é assim que deve funcionar. Ele imagina ser guindado à cabeça de um regime sem rotatividade, sem alternância, sem mudança. Pretende permanecer no topo sozinho, como um Führer, um Duce, um Conducător, um Lider Máximo. Até a queda final, que pode ser por deposição ou coisa pior. Tudo que sobe acaba caindo um dia. Mas cada um se ilude como pode, não é mesmo?

Lula, nesse ponto, não pensa igualzinho a Bolsonaro. Por ter exercido a Presidência – pessoalmente ou por procuração – durante 14 anos, já perdeu as ilusões. Os quase 600 dias de cadeia lhe ensinaram que, quanto mais alto for o coqueiro, maior será o tombo. Sua parecença com Bolsonaro, em matéria de ligação com o passado, é forte, mas não se pode dizer que sejam idênticos.

Lula, que alguns dizem ser esperto como raposa, não quer (ou não consegue) entender que o mundo mudou. Não estamos mais nos anos 1970, em que ele subia numa caixa de sabão à frente da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, fazia um discurso inflamado para os companheiros, dizia o que lhe passava pela cabeça, e tudo ficava por isso mesmo. Ele ainda não se compenetrou de um fator inexistente à época mas fortíssimo hoje: o politicamente correto.

Nascido nos EUA anos atrás e potencializado por internet e redes sociais, a tendência a se exprimir de maneira politicamente correta impõe linguagem pasteurizada, isenta de palavras e expressões que possam, de perto ou de longe, ser consideradas ofensivas por esta ou aquela categoria de cidadãos.

Outro dia, Lula dircursou numa cerimônia de um partido chamado Solidariedade. (Abram-se parênteses: Este blogueiro acredita que todos os partidos deveriam se chamar Solidariedade. Afinal, ser solidário deveria ser a característica maior de todo afiliado. Fechem-se os parênteses) Lula sabe que muitos, neste país, acalentam o sonho de implantar o semipresidencialismo. No afã de demolir essa ideia que o horroriza, tirou do bolsinho uma metáfora infeliz. Referiu-se ao imperador do Japão de forma depreciativa.

Ato contínuo, uma torrente de críticas desabou. Deputados petistas se sentiram incomodados. Até (ou principalmente) a comunidade japonesa ressentiu-se da menção desairosa.

Sabe-se que história e geografia não são ocupam lugar preferencial nos parcos conhecimentos de nosso guia. Sabe-se que, apesar de ter passado 8 anos como presidente do país, outros assuntos devem ter lhe parecido mais interessantes – afinal, ler e estudar dá uma preguiça! História, geografia e geopolítica ficaram de fora.

Vai aqui um conselho ao Lula. Dificilmente ele lerá estas linhas, mas algum assessor bem-intencionado talvez possa transmitir-lhe a ideia.

Ô Lula! Da próxima vez que vosmicê quiser trazer a imagem de um homem poderosíssimo, use uma figura que não existe, mas que impressiona. Aqui estão algumas metáforas que não vão incomodar ninguém:

Ele age como se fosse o sultão de Samarcanda!

Ele pensa que é o imperador da Quirguízia!

Ele se acha o emir da Mongólia!

Deixo aqui a pista. Seus assessores certamente encontrarão outras variantes, que é pra não bater sempre na mesma tecla.

Aproveite, que conselho meu é grátis e desinteressado. Como dizia um irmão meu, “se é de graça, até injeção na veia”.

Candidatura oficial

José Horta Manzano

Não é todos os dias que uma eleição que só se realizará daqui a 5 meses, num país de importância estratégica próxima de zero, desperta tamanho interesse.

Ou por acaso alguém já viu a grande mídia internacional se interessar por eleições em países tão grandes e tão periféricos como o nosso, tais como Indonésia (275 milhões de habitantes) ou Paquistão (225 milhões de almas)?

No caso brasileiro, há a junção de duas forças antagônicas.

De um lado, está o governo Bolsonaro, com sua procissão de desgraças de alcance mundial: destruição da Amazônia e de outros biomas, aproximação com regimes autoritários ou ditatoriais, tratamento agressivo e insultuoso dispensado a personalidades estrangeiras, gestão catastrófica da economia.

De outro, está o recall do governo Lula. Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar na lenda do Lulinha paz e amor, pai dos pobres e protetor dos desvalidos, fato que, aliás, pouco interesse apresenta fora do país. Porém, visto do exterior, o Lula transmitiu a ideia de estabilidade constitucional, e respeito às instituições. Se foram descobertos muitos casos de corrupção grossa, foi porque a Lava a Jato muito investigou. Desde que ela foi enterrada pelo capitão, é compreensível que a descoberta de peculatos e outras maracutaias tenha ficado prejudicada.

Na torcida para ver o Brasil livre de um governante que incentiva a instabilidade, parece que o mundo torce pela eleição de Lula. Guardadas as devidas proporções, equivale à torcida mundial pela eleição de Joe Biden e cancelamento de Donald Trump.

 

Em inglês (Guardian, Reino Unido)

 

Em francês (Le Monde, França)

 

Em italiano (Il Giornale, Itália)

Em sueco (Västerbotten-Kuriren, Suécia)

Em alemão (Spiegel, Alemanha)

 

Em inglês (South China Morning Post, Hong Kong)

 

Em russo (Krasnaya Vesna, Rússia)

 

Em espanhol (El Mundo, Espanha)

 

Quem manda aqui sou eu

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Um jornalista italiano do Corriere della Sera entrevistou estes dias Serguêi Márkof. O entrevistado, que foi conselheiro pessoal de Putin de 2011 a 2019, dirige hoje o Instituto de Estudos Políticos de Moscou. Conhece muito bem o ditador.

Quando o entrevistador, curioso, lhe perguntou que critérios Putin adota para escolher ministros, assessores e auxiliares, respondeu: “É simples. Ele põe sempre a pessoa errada no lugar certo. Assim, no final, quem decide tudo é ele mesmo.”

Pode parecer engraçado, mas temos no Brasil um presidente que faz igualzinho. Em cargos importantes, bota sempre gente que não entende do riscado, assim quem acaba decidindo é ele mesmo. Já repararam?

Lembre-se do Pazuello, o “especialista em logística” que, em plena emergência sanitária nacional, cometeu o irreparável: despachou respiradores para o estado errado.

Não se esqueça do Salles, o ministro do Meio Ambiente que se mancomunou com uma máfia de madeireiros marginais.

Tenha em mente o Milton Ribeiro, ministro da Educação até outro dia, que andou metido com venda de verbas oficiais contra barras de ouro.

A lista de incapazes que cercaram (e ainda cercam) o presidente é longa como prontuário de delinquente recidivista.

Ah! O Bolsonaro tem outra característica putiniana. Além de tomar a si todas as decisões, decide mal, exatamente como o russo. Ainda agora acaba de vetar verba para a Cultura, mostrando que continua firme no propósito de perenizar o atraso da nação. Sua decisão foi tão mal tomada quanto a do colega Putin, com sua desastrada invasão do país vizinho, seguida de feroz mordaça na mídia do país.

Tanto o capitão quanto o ditador russo tentam seguir métodos soviéticos em pleno século 21. Não se dão conta de que o mundo mudou. Num universo mergulhado na internet, em que a informação circula, é evidente que métodos stalinianos não funcionam mais.

Ainda dá tempo

José Horta Manzano


Num mundo polarizado como o nosso, tentar se equilibrar em cima do muro pode não ser a melhor solução.


Poucos dias antes da invasão da Ucrânia, quando batalhões russos, em quantidade impressionante, já se amontoavam junto à fronteira, Bolsonaro foi a Moscou prestar reverência ao ditador Putin.

A guerra de conquista prestes a ser lançada não lhe pareceu motivo válido para suspender a viagem nem para acrescentar, de última hora, uma “visita de médico” a Kiev – nem que fosse pra equilibrar a posição brasileira.


 

Solidariedade “à” Rússia (sic)

Uma vez em Moscou, declarou – sem ter sido indagado – que o Brasil se solidarizava com a Rússia. Foi mais um erro monumental provocado por seu inexistente senso de geopolítica – fato raro mesmo entre seus antecessores mais incapazes.

Estivéssemos sob outras latitudes, sua carreira terminaria naquele instante e seu futuro eleitoral estaria comprometido por décadas, talvez para sempre. Mas não estamos sob outras latitudes. As nossas são tropicais.

Estourada a guerra, ninguém exigiu do presidente um posicionamento definitivo. E ele não se posicionou. Ficou, pois, o dito pelo dito mesmo. Ficou cimentada a posição do Brasil: todos nós nos solidarizamos com a Rússia. E ponto final. Pô.

Até certo ponto, é compreensível que o capitão procure amigos aqui e ali. Afinal, ele é rejeitado pelo mundo civilizado, justamente em razão das incivilidades que vem cometendo desde que vestiu a faixa. Parodiando a expressão inglesa “serial killer” (assassino em série), eu diria que nosso presidente é pessoa “serially incivilized” (um incivilizado inveterado).


 

Num mundo em plena turbulência, o Brasil precisa de aliados

Procurar amigos é uma coisa; bater à porta de ditadores ferozes e sanguinários é outra, bem diferente. Em vez de solidarizar-se com autocratas belicosos, Bolsonaro estaria mais inspirado se se dedicasse a aparar as arestas e aplainar as relações com os ofendidos. Os que foram por ele agredidos são justamente nossos aliados e parceiros tradicionais, dirigentes de países com os quais compartilhamos interesses comuns.

Se ele um dia ofendeu a esposa de Macron, ignorar a existência da França não é a melhor solução. Veja o resultado: o presidente francês acaba de ser reeleito para mais 5 anos no Eliseu. Se Bolsonaro não procurar consertar esse deslize, as relações franco-brasileiras permanecerão curto-circuitadas esse tempo todo, o que não é boa coisa.

Se insultou o presidente argentino, afastar-se do personagem não é o melhor remédio. Há que ter em mente que a Argentina não vai se mudar amanhã. Não vai sair do lugar e continuará sendo nossa vizinha pela eternidade.


 

É hora de virar a página dos insultos passados e olhar para a frente

Com a carta de desculpas redigida por Temer e assinada por Bolsonaro, este último conseguiu aplacar a indignação dos brasileiros com as barbaridades proferidas naquele 7 de Setembro de triste memória. Que convoque Michel Temer de novo e lhe confie a missão de preencher as lacunas de nossa diplomacia mambembe! O ex-presidente, que é culto, não é ministro de Bolsonaro nem deve favores ao capitão, saberá encontrar termos contritos mas não servis para expressar uma guinada no posicionamento internacional do Brasil neste momento grave para a humanidade.

Enquanto o destino do planeta se decide nas margens do Mar Negro, nenhum país tem o direito de virar a cara e fazer de conta que não é com ele. O peso populacional do Brasil, se não houvesse outra razão, nos obriga a nos posicionar claramente. Se Bolsonaro não sabe o que fazer – e as palavras pronunciadas em Moscou mostram que não sabe – que tome conselho com quem sabe.

A guerra acabará. Bolsonaro passará. Mas o Brasil ficará. Os brasileiros das próximas décadas não podem ser reféns das más decisões de um presidente pusilânime.

Observação
Na verdade, distorcendo a norma gramatical, o capitão não disse que o Brasil se solidarizava com a Rússia, mas que se solidarizava à Rússia. O fundo foi tão desastrado, que ninguém se preocupou com a forma.

Quase-verdades

José Horta Manzano

No Brasil, todos se lembram das irritantes “quase-verdades” do Lula. Na época, pensávamos que, com esse discurso, ele tinha descido ao ponto mais baixo que um presidente pode atingir. Era engano.

Com Bolsonaro, já não temos meias verdades: o capitão mente descarada e compulsivamente. Despudoradamente. E ninguém parece se importar mais com isso. Uns chegam até a aplaudir. Essa indiferença mostra uma complacência perigosa para o futuro das relações sociais entre cidadãos deste país.

Lula e Bolsonaro passarão, mas o tecido social que eles esburacaram permanecerá. Se a mentira já não choca, é sinal de que a confiança desapareceu. Como viver numa sociedade em que todos desconfiam de todos?

Desconfiança dá muito trabalho e consome muita energia. Se esse fator um dia entrar no cálculo do PIB nacional, o resultado será desastroso. Devemos estar abaixo do Afeganistão.

O silêncio do Lula

José Horta Manzano

Nesta segunda-feira, vão se completar 4 dias (4 x 24h = 96 horas) que o ex-capitão Bolsonaro, atual presidente da República, outorgou o primeiro indulto nominal concedido por um presidente do Brasil desde 1945. Foi um ato inesperado, intempestivo, fora do ordinário, que ainda está a merecer explicação convincente por parte do autor.

Escoadas essas 96 horas, Lula da Silva, o ex-presidente que pretende desbancar o atual nas urnas de outubro, não se posicionou sobre o fato. Vivo e bem de saúde deve estar, pois tem lançado dezenas de tuítes. Nenhum, no entanto, relacionado com o assunto.


“Fugiu de medo, fez cocô no dedo”?
(A expressão que a gente usava era mais contundente.)


Terá ensurdecido? Ou quiçá não tem lido jornais nos últimos dias? Não consegue furar e atravessar a bolha que o cerca e que o impede de ver que há mais mundo lá fora? Ora, vamos. Sem brincadeira.

Não se posiciona com receio de desagradar a uma parte de seu eleitorado? Não creio. Pois se, ainda outro dia, fez comentário sobre aborto voluntário, tema passional e muito mais clivante.

Quer evitar confrontar o provável futuro adversário? Ora, que história mais tola. Se estão em confronto permanente há anos, desde que Bolsonaro se inscreveu como candidado à Presidência, em 2018! De qualquer maneira, somente da luta sairá um vencedor. Sem luta, ninguém vence e a situação estagna, o que não interessa a ninguém. E o Lula sabe disso.

Há mais mistérios entre céu e Terra do que sonha minha parca imaginação. Exploradas as possibilidades mais plausíveis, restou uma. Tenho tendência a acreditar que o Lula não se manifestou por um motivo tão absconso, que ele mesmo prefere não revelar.

Vamos lá. É possível que, tendo aprendido a lição com Trump e Bolsonaro, o demiurgo de Garanhuns esteja se protegendo para o futuro: está guardando o indulto no bolsinho do colete.

Suponhamos que seja eleito presidente (de novo!). Suponhamos que algum companheiro caia nas malhas da justiça. Suponhamos agora – neste ponto, só se pode mesmo é supor, porque o Lula nunca foi de se mexer pra salvar companheiro nenhum – suponhamos, pois, que ele decida “livrar a cara” do indivíduo e evitar-lhe a Papuda. Que opção tem? Ora, o indulto nominal.

A quem o criticar, argumentando que faz igualzinho ao Bolsonaro, responderá que, desde criancinha, concordou com o indulto individual. “A prova é” – dirá – “que não critiquei o Bolsonaro quando ele concedeu perdão a um companheiro”.

E tem mais. Sempre haverá um punhado de juristas e magistrados prontos a sustentar a tese de que o indulto presidencial pode ser concedido a título preventivo.

Assim, ao final do mandato, logo antes de passar a faixa ao sucessor, o Lula concederia indulto… a si mesmo. A título preventivo. Antes mesmo de ser condenado. Uma espécie de imunidade perene.

Que não duvide o distinto leitor: “nessepaíz” já vimos coisa pior.

No cavalo certo

José Horta Manzano

Em 2019, as eleições presidenciais argentinas estavam sendo preparadas. Todos já sabiam que o presidente Mauricio Macri, candidato à própria sucessão, não tinha chance. Bolsonaro passou por cima das evidências. Foi até lá, trocou beijos e abraços com o dirigente argentino e ainda ousou criticar o adversário. Deu no que deu: o adversário ganhou – o que todos já sabiam que ia acontecer, menos o capitão. As relações Brasil x Argentina se complicaram.

Em 2020, foi a vez das presidenciais americanas. Os prognósticos se apresentavam apertados. Nem a vitória de Trump, nem a de Biden estava garantida. Bolsonaro passou por cima da reserva a que todo chefe de Estado inteligente se obriga nessas horas. Com palavras e atos, foi ostensivo ao sustentar Donald Trump. Encerrada a contagem dos votos, constatou-se que o presidente não havia sido reeleito. Inconformado, Bolsonaro negou a realidade quanto pôde, e foi um dos últimos dirigentes mundiais a reconhecer que tinha perdido a aposta. As relações Brasil x EUA se complicaram.

Em 2021, chegou a hora das eleições chilenas. As pesquisas hesitavam em apontar claramente o vencedor. Em situações assim, a prudência ensina que chefes de Estado estrangeiros devem evitar demonstrar claramente sua preferência por este ou por aquele. Nunca se sabe. Mas Bolsonaro não reza por essa cartilha. Pra piorar, não deve ter assessores qualificados. De novo, apostou no cavalo errado. Botou todas as fichas em cima de Señor Kast, candidato da extrema direita. Ganhou Señor Borić, um jovem esquerdista. As relações Brasil x Chile se complicaram.

Neste mês de abril de 2022, é a França que está em pleno processo eleitoral. O mandato do presidente Macron se encerra dentro de poucas semanas. Pela lógica, nosso capitão já teria se jogado nos braços de Marine Le Pen, candidata da direita extrema. Mas tem um porém.

Um dia, em nossa eleição de 2018, quando Bolsonaro já tinha passado para o segundo turno, Madame deu uma entrevista à televisão francesa. Entre um assunto e outro, o apresentador mencionou o nome de Bolsonaro, naquele momento candidato à Presidência do Brasil, e o classificou como “de extrema direita”. Em seguida, perguntou à política francesa o que ela achava do brasileiro. Madame declarou que “não é só porque alguém costuma dizer coisas desagradáveis que se deve logo colar-lhe uma etiqueta de extrema direita”. Ficou claro que ela repelia o capitão. É certamente baseado nessa declaração que ele se absteve de tomar partido na atual disputa francesa, que voltou a alçar Madame Le Pen ao segundo turno.

Quanto ao Lula, mostrou mais uma vez que, mesmo sendo fraquinho em geopolítica, de bobo não tem nada. No primeiro turno, apoiou Monsieur Mélenchon, velho militante da esquerda radical, que completa 71 anos este ano. Pois não é que o homem quase passou para o segundo turno? Com 22% dos votos, faltou um nadinha pra ultrapassar Madame Le Pen, que obteve 23,4%.

Ao apoiar Mélenchon, o Lula estava também retribuindo a visita que o político francês lhe fez quando mofava no cárcere úmido de Curitiba. O destino não quis que o companheiro francês passasse ao segundo turno. No discurso pronunciado assim que foram conhecidos os nomes dos finalistas, Mélenchon dirigiu-se a seus eleitores e, alto e bom som, deu-lhes a recomendação para o segundo turno: “Nenhum voto para a extrema-direita!”. Para deixar bem claro, pronunciou quatro vezes a mesma frase.

Mélenchon recomendou a seus eleitores que não votassem na extrema direita, mas não teve peito pra pedir voto para Macron. Deve ter achado que era demais. Assim sendo, deixou seus apoiadores livres para se absterem, votarem em branco, anularem o voto ou eventualmente votarem em Macron. Em resumo, fez o serviço pela metade.

O Lula, que está ciente de ter boas chances de vencer a eleição brasileira, foi mais realista. Já que o companheiro Mélenchon ficou pelo caminho, lançou uma série de tuítes conclamando a derrotar a extrema direita francesa. Foi ainda mais longe que o militante francês. Deu serviço completo. Acrescentou que votar em Emmanuel Macron é fundamental porque ele “encarna melhor os valores democráticos e humanistas”.

Lula está agindo com esperteza. Em primeiro lugar, está se valendo da antipatia que Bolsonaro espalhou pelo mundo, especialmente na França. Portanto, ao apoiar o provável vencedor das presidenciais, ganha pontos. Em segundo lugar, Lula sabe que tem boas chances de ser o próximo presidente do Brasil. Um Macron reeleito e que foi apoiado pelo demiurgo estará pronto a abrir os braços para um Lula eleito e que o apoiou.

Quando insultou Brigitte Macron e quando se indispôs com meio mundo, o empacado Bolsonaro não pensou no dia seguinte. O Lula já está pensando no futuro que terá início com sua (provável) volta ao Planalto.

Entre Bolsonaro e Lula, há muitos pontos convergentes e alguns divergentes. Ambos amparam a corrupção, adoram acertos e conchavos, dirigem o país de olho no retrovisor. Uma das poucas diferenças é que o Lula pensa.

Agora chega!

José Horta Manzano

A graça concedida por Bolsonaro a Silveira, seu correligionário e deputado, condenado pelo STF a mais de 8 anos de cadeia, põe em pauta um problema cabeludo.

As leis que regem as instituições da República foram e continuam sendo elaboradas para situações normais. Partiram do pressuposto que postos de responsabilidade são ocupados por gente equilibrada e bem-intencionada. Não estava previsto que, um dia, um personagem desequilibrado e mal-intencionado ocupasse o cargo maior.

Faz três anos que as aspirações autocráticas do capitão vêm submetendo a nação a sobressaltos e a uma pressão cada dia mais insuportável. Anestesiados, seus devotos perderam a faculdade de pensar por si mesmos. Deles, não há nada a esperar.

Os demais brasileiros, moldados por séculos de regime autoritário, não se dão conta de que estamos resvalando para uma autocracia personalística, aberração que não se via por aqui desde os tempos de Getúlio Vargas, destituído 77 anos atrás.

Bolsonaro está conduzindo o Brasil em marcha forçada para um regime de tipo putiniano – autocrático e personalista, duzentos e tantos milhões de homens e mulheres tributários dos caprichos de um desatinado.

A inação das Forças Armadas já denota surpreendente cumplicidade. Exceto uma voz discordante aqui, outra acolá, o silêncio do generalato soa, se não como indiferença, como tácita anuência.

O Congresso – corroído por cooptação desabrida, onerosa e abjeta – perdeu a capacidade de exercer sua função de representar os interesses da população.

O Supremo Tribunal Federal é a última barreira, o derradeiro cinturão de segurança que ainda mantém, bem ou mal, a coesão das instituições da República do Brasil.


A hora é mais grave do que parece à primeira vista.


A Amazônia desaparece ao ritmo de um campo de futebol por minuto. A madeira extraída criminosamente é oferecida a amigos do clã para negócios escusos. Os manguezais são postos à disposição dos amigos do rei. A Instrução Pública, entregue a “pastores” que trocam bíblias por barras de ouro, vai sendo carcomida pelas bordas.

Observe-se que nem o Lula, que está longe de ser um santo, ousou graciar correligionários condenados no mensalão.

O capitão tem de ser parado antes que destrua tudo. Sua destituição tem de entrar na ordem do dia. Ou deixa o poder já, ou deixa o poder já. Não há outra opção.

Como fazer? Os do andar de cima, que perigam perder o que têm se não agirem imediatamente, sabem como fazer.

O impedimento do presidente me parece uma solução. Motivos, há de sobra. Para a argumentação, temos excelentes juristas.

Agora chega!

Incoerência

José Horta Manzano

Coerência, em princípio, é artigo raro na sacola do homo politicus. Ainda assim, há casos leves e casos cabeludos. Nosso atual governo federal é especialmente pródigo em incoerências. O que diz o presidente não se escreve, porque amanhã ele pode perfeitamente ter mudado de ideia. E o pior é que, se for questionado, vai negar a mudança de posição, vai se mostrar ofendido e dar de costas, não sem antes agredir o repórter e mandá-lo calar a boca. Ou pior.


Pintinho costuma acompanhar a galinha


Ministros, assessores, aspones e apaniguados procuram mostrar serviço. Há os que se destacam nesse particular. Um deles é o atual ministro da Saúde, senhor Queiroga, discípulo exemplar.

Folha de São Paulo, 18 abr 2022

Ele deu ao mesmo tempo duas mensagens contraditórias. Por um lado, anunciou o fim da emergência sanitária de covid no país; por outro, pontificou que o novo calendário de vacinação só virá após “evidência científica”.

Ora, digo eu, algo está fora dos eixos. Se o novo calendário de vacinação segue a ciência – o que é compreensível e louvável – e só será implantado após confirmação científica, como é possível que a emergência sanitária de covid esteja sendo decretada sem evidência científica? Quem decidiu o dia e a hora? A participação da ciência nessa decisão não está clara.

Pau que dá em Chico costuma dar também em Francisco.


Se a decisão da vacinação passa pela anuência do corpo científico, a confirmação do fim da emergência também tem de passar


Ou será que essa história de “evidência científica” só vale pra protelar a vacinação e assim agradar ao chefe?

O fracasso da bolsa família

José Horta Manzano

Com o passar do tempo, a bolsa família, implantada no governo do Lula, mudou de nome mas não mudou de espírito. Como disse o companheiro José Dirceu, numa conversa que não era pra ser gravada mas foi, o programa não passava de alavanca eleitoreira capaz de trazer 40 milhões de votos para o lulopetismo.

E o truque deu certo. Precisou o impeachment da doutora pra desalojar do poder a turma do mensalão e do petrolão. Não fosse isso, continuariam imbatíveis. Num país de miseráveis, uns trocados no bolso fazem diferença.

Se os dirigentes do país estivessem realmente empenhados em mitigar a miséria, o programa, desde que foi implantado em 2003, já teria tirado da mendicidade, se não todos, pelo menos boa parte dos beneficiários. Não foi o que aconteceu.

A ficha custou a cair para Bolsonaro. Empenhado em deixar, após sua passagem pelo poder, uma marca que não pudesse ser confundida com a genial iniciativa do PT – seu espantalho –, tergiversou e protelou quanto pôde. Mas acabou rendendo-se à evidência. Quem quiser se reeleger na Presidência, tem de distribuir ajuda financeira. Tem muita gente que depende disso pra sobreviver.

Fez corpo duro, hesitou, mas não teve jeito: recriou a bolsa. Só pra não dar o braço a torcer, fez uma mudancinha aqui, outra ali, modificou o nome, mas a nota é uma só.

O Instituto Poder 360 publicou estudo detalhando os beneficiários do Auxílio Brasil (a nova bolsa família) comparados com os funcionários com carteira assinada, estado por estado. O resultado é edificante. Observa-se que, em 19 anos de bolsa (agora auxílio), a situação continua tão dramática quanto antes, se não for mais.

Em 12 dos 14 estados do Norte e do Nordeste, o número de dependentes de auxílio do poder público supera o de empregados com carteira assinada. A pior situação é a do paupérrimo Maranhão, reserva do humanista clã Sarney, que contabiliza dois beneficiários de programa assistencial para cada trabalhador formal.

Nas demais unidades da Federação, a situação é menos tensa. No entanto, mesmo em estados ricos, centenas de milhares de conterrâneos fazem jus à assistência do poder público.

No país, os ricos estão cada vez mais ricos. Os do andar de cima, com infinitas benesses e até polpudos orçamentos secretos estão nadando de braçada. “Pastores”, “bispos” e episcopisas(*) têm até liberdade (e anuência presidencial) para distribuir bíblias com foto de ministro. Diga-me então: por que é que alguém se preocuparia em tirar realmente esses infelizes da miséria?

O que tira gente da extrema pobreza é formação profissional. Mas é aí que mora o perigo. Gente que sabe ler e entender o que leu pode até se dar conta de que nosso governo e nossos parlamentares são “fake”, um circo monumental em que são sempre os mesmos que saem ganhando. Melhor não tentar o diabo.

Que continuem fazendo fila pra receber uns caraminguás. Que continuem a não entender o que leem, assim não há risco de entenderem que estão sendo esbulhados. Que venha Lula (de novo!) ou Bolsonaro (de novo!), tanto faz como tanto fez. O populismo deste é igualzinho ao daquele. Talvez a grande diferença entre os dois seja a quantidade que distribuirão de pílulas contra disfunção erétil.

O capitão prefere espalhar a benesse entre os companheiros militares, que devem estar precisando. O Lula há de preferir distribuir aos companheiros, que também devem estar precisando – afinal, estão todos envelhecendo.

(*) Embora seja forma praticamente desconhecida entre devotos, episcopisa é o feminino de bispo. Dá mais status que o bizarro “bispa”.

O ditador e o aprendiz

José Horta Manzano

Na Europa, o fim das hostilidades da Segunda Guerra Mundial representou o ponto final de um terror de seis anos, que ceifou entre 60 milhões e 70 milhões de vidas humanas. Entre todos os países envolvidos, a União Soviética pagou o tributo mais elevado. A fatura total, entre civis e militares, passa dos 20 milhões de mortos – um cataclismo.

A rendição incondicional da Alemanha foi assinada em Berlim, às 23h de 8 de maio de 1945. Naquele instante, em razão da diferença de fuso horário, já era 9 de maio em Moscou. Essa é a razão pela qual o День Победы (Dia da Vitória) se festeja nessa data na Rússia.

Por feliz coincidência, o 9 de maio coincide com a chegada da primavera. As árvores folhudas, os campos floridos e a temperatura amena propiciam um clima de festa. O fim da “Grande Guerra Patriótica” é festejado com desfile militar na Praça Vermelha na presença do ditador de turno e dos que estiverem no topo do poder.

Este ano, o 9 de maio reveste importância crucial para Vladímir Putin. É a data-limite para anunciar ao bom povo o êxito e a vitória da “operação especial” levada a cabo na Ucrânia. É impensável deixar passar em branco esse dia de comemorações sem dar a boa-nova que todos esperam.

O ministro de Relações Exteriores da França declarou nesta sexta-feira que “o pior está por vir”. Ele também deve estar pensando no frenesi que se apodera de Putin à aproximação do 9 de maio, o prazo-limite.

O ditador russo, como todo autocrata que se preza, tem dado mostras de que a preservação de vidas humanas não está no centro de suas preocupações.


A propósito, repare em nosso Bolsonaro. Nessa matéria, ele ainda não passou do estágio de aprendiz, mas já segue a mesma linha de pensamento do modelo putiniano. Apesar de ser tupiniquim, o capitão leva jeito para a coisa. Basta recordar sua atitude no auge da pandemia, na época em que, ao ver que compatriotas caíam como moscas, repetia que “todo o mundo tem de morrer mesmo”. Como Putin, ele pertence a essa categoria de indivíduos para os quais a vida (dos outros) tem pouca ou nenhuma importância.


Ao fim e ao cabo, Putin tem necessidade absoluta de exibir ao povo russo algo que possa ser chamado de vitória. Afinal, 9 de maio é o Dia da Vitória! A queda de Kiev está descartada. A ocupação da Ucrânia inteira também foi posta de lado. Que rumo tomará a invasão daqui até a data fatídica?

Ocupará a região do Donbass? Conquistará extensa faixa litorânea? Atacará a cidade de Odessa? Usará armas químicas, bacteriológicas ou até nucleares? Ninguém sabe, talvez nem o próprio ditador. O que se sabe é que ele não hesitará em fazer vítimas civis, como acaba de demonstrar ao bombardear a estação ferroviária de Kramatorsk sexta-feira passada. Muita gente ainda há de morrer.

Putin se meteu numa enrascada. Ele já se deu conta de que as sanções econômicas serão mantidas por muito tempo e, irremediavelmente, vão estrangular seu país. Sabe também que, ainda que mandasse suspender a guerra amanhã, as sanções continuariam em vigor. Portanto, a única coisa que ainda pode fazer é manter a censura aos meios de comunicação e apresentar ao povo boas notícias. Talvez isso baste para permitir-lhe permanecer no poder. Talvez.

Boas notícias para Putin são péssimas notícias para o povo ucraniano. É inacreditável o mal que a mente doentia de um só indivíduo pode causar à humanidade.

Sorte temos nós, no Brasil. Sabemos que nosso pequeno aprendiz não tem – e nunca terá – o poderio do compadre russo.


“Somos solidários à Rússia” (sic)
Declaração dada por Jair Bolsonaro em Moscou, no dia 16 fev° 2022 diante de Vladímir Putin.