Qui se ressemble – 2

José Horta Manzano

O Mercosul não foi criado pra ser clube ideológico. A intenção dos fundadores era mais elevada. Visavam a alcançar maior integração comercial entre os membros e, obedecendo ao princípio de que a união faz a força, dar impulso às exportações de todos. Infelizmente, o relacionamento entre os sócios andou constantemente emperrado. Uma crise aqui, uma recessão ali, um deslize acolá – foi como se as rodas da carroça estivessem sempre entravadas.

Na época em que o lulopetismo dominava o país e encontrava eco na Argentina dos Kirchners, no Uruguai de Mujica, na Bolívia de Evo e na Venezuela de Chávez, o Mercosul tornou-se definitivamente um clube ideológico. Chefes de Estado se reuniam de vez em quando para muita foto de família e pouca resolução. O projeto de poder de cada governante tornou-se bem mais importante do que os avanços comerciais do grupo.

Foram-se os lulopetistas, foram-se os Kirchners, foi-se Mujica, foi-se Chávez. (Evo ainda está aí, mas quietinho, parado no ar, na expectativa de saber o que lhe reserva o futuro.) Quando Macri e doutor Bolsonaro anunciaram que o acordo comercial com a União Europeia estava assinado, só faltando ser ratificado, muitos disseram ‘agora vai’. Inclusive este blogueiro.

Que desencanto! A euforia durou pouco. Confirmando o que já diziam as sondagens, o voto popular das ‘primárias’ presidenciais argentinas apontou para a (mais que provável) derrota de Macri, o atual titular. Foi a conta. A turma do Planalto mostrou que o clube está tão ideológico quanto costumava ser. Antes, como todos comungavam os mesmos ideais, a caixa de ressonância do grupo funcionava com harmonia. Agora, que Brasil e Argentina estão na iminência de enxergar o mundo com óculos diferentes, a caixa de ressonância começou a desafinar.

Doutor Paulo Guedes, ministro da Economia, já deixou claro que a dissonância ideológica entre Brasil e Argentina pode significar a dissolução do Mercosul. Veja a que ponto chegamos, distinto leitor: um grupo criado para promover a harmonia, o progresso e o bem-estar entre Estados periga desaparecer por motivo de divergência ideológica entre governos! Será que ninguém se dá conta de que governos são efêmeros, passam, enquanto Estados são permanentes, não se vão?

O provável futuro presidente da Argentina chama-se Alberto Fernández. Na mesma chapa, Cristina Kirchner disputará a vice-presidência. Portanto, se vencerem, señor Fernández será presidente, enquanto señora Kirchner será vice. Passando por cima dessas miudezas, doutor Guedes já inferiu que a Presidência será exercida de facto pela vice-presidente. E não se acanhou de referir-se a ela de forma debochada: «E se a Kirchner quiser fechar (o Mercosul pra acordos externos), a gente sai. E se quiser abrir, então vou dizer: ‘bem-vinda, moça, senta aí’»

Não precisa muito esforço de imaginação pra identificar a pesada marca de família nesse modo desrespeitoso de falar dos outros. Acertou, leitor! É assim que doutor Bolsonaro costuma se exprimir. Você e eu, que não somos figuras públicas, podemos nos permitir esse tipo de linguagem de botequim. Eles, não.

Que fazer? Como dizem os franceses, «qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem». Eta, nós! Estamos bem arrumados.

Bolsonaro e minha médica

José Horta Manzano

Fui pra uma visitinha de rotina à médica que faz o que pode pra manter a saúde deste blogueiro à tona. Casada com um suíço, a doutora mora aqui há muitos anos. Mas guardou a vivacidade e o sotaque dos que nascem e crescem pelas bandas do Rio da Prata.

Procurando ser simpático, sempre chego cumprimentando e soltando as primeiras frases em castelhano. Só faço isso no comecinho, que espanhol não é a língua em que me sinto mais à vontade. Só que ontem não foi possível passar logo para o francês. Aqui vai o porquê.

Assim que nos cumprimentamos, evoquei a débâcle da bolsa argentina no dia anterior e deixei escapar um «que desastre ayer en Buenos Aires, doctora!». Ah, foi a conta. Como boa portenha, minha cara ‘doctora’ estava em estado de choque com o que está acontecendo no seu distante país. Soltou o verbo. Me lembro de ter ouvido os termos «hecatombe», «horror», «desgracia», «tragedia» y otras cositas amables.

Por discrição, não perguntei quais eram as preferências políticas dela. Fiquei sem saber se estava satisfeita ou indignada com a derrota de Macri nas prévias presidenciais. Por seu lado, não foi difícil perceber que estava enfurecida com as declarações de doutor Bolsonaro. É compreensível. Ela não está sozinha nessa fúria. Seus 45 milhões de compatriotas hão de compartilhar o mesmo estado de espírito.

Ao esculhambar nossos hermanos, desqualificando e tratando de «esquerdalha» a ampla maioria que votou no candidato Fernández, nosso presidente foi muito mais longe do que toleram as regras básicas de convivência entre nações. Ele não tem direito de se intrometer no resultado de um pleito democrático e limpo organizado no estrangeiro.

Alberto Fernández, vencedor das prévias argentinas, devolve as amabilidades a Bolsonaro tratando-o de racista, misógino e violento. A política da boa vizinhança começa bem.

Se as barbaridades proferidas por doutor Bolsonaro incomodam no plano nacional, fora do país é ainda pior: chocam e horrorizam. Afinal, a fala do presidente é a voz oficial do Brasil! É como se nós todos tivéssemos ofendido os hermanos. Nossos vizinhos devem estar se sentindo hostilizados pelos 200 milhões de brasileiros.

Doutor Bolsonaro se excedeu no derrame verbal. Vaticinou um futuro de miséria para os argentinos e, inspirado em Trump, anunciou que não estamos dispostos a receber hordas de “balseros” – refugiados provenientes do país vizinho. Humilhou um povo inteiro. Dá muita vergonha.

A verdade é que doutor Bolsonaro passará, mas a Argentina será sempre nossa vizinha de parede. Não convém se indispor com quem vive ao lado. Tenho certeza de que os brasileiros decentes estão se sentindo constrangidos.

Não recebi procuração para pedir desculpas em nome do povo brasileiro. Mas fiz questão mostrar à ‘doctora’ minha indignação. Disse-lhe o que penso de nosso presidente. Tenho a impressão de que ela se acalmou.