As urnas helvéticas
José Horta Manzano
Mês passado, eu lhes tinha adiantado que os cidadãos suíços se preparavam para se pronunciar sobre vários assuntos de importância. Entre eles, estava um plebiscito sobre a instituição de um salário mínimo nacional e um referendo sobre a compra de aviões de caça para o exército.
O voto foi ontem, domingo. Talvez alguns de meus distintos leitores já tenham tido notícia do resultado. Mais provavelmente, a enxurrada de eletrizantes acontecimentos brasileiros há de ter roubado a cena e ofuscado todo o resto. Vou contar como ficou.
Salário mínimo
Estes últimos dias, a meio caminho entre a zombaria e a inveja, toda a mídia europeia vinha falando no assunto do piso salarial suíço. Todos ressaltaram o montante: disseram que, se o povo aceitasse a proposta, o país passaria a ter o salário mínimo mais elevado do planeta. É verdade que 4000 francos suíços (algo em torno de dez mil reais) impressiona.
Já na cabeça do eleitor suíço, a questão era outra. Ninguém se impressionou com o montante. O voto era sobre o princípio: um piso salarial nacional deve, sim ou não, ser fixado?
Visto o custo de vida no país, quatro mil francos (brutos) dão justinho para uma pessoa sozinha. Vida pra lá de modesta, sem fantasias e sem luxo. Para um casal, a coisa aperta um bocado. Vai ser difícil chegar ao fim do mês sem abrir o bico.
O resultado foi inapelável: os suíços botaram pra correr o salário mínimo. Uma maioria de 76% dos votantes desaprovou a ideia. O sim não venceu em nenhum dos cantões. O país vai continuar sem piso salarial legal.
Aviões de combate
O voto deste 18 de maio incluía um referendo sobre a compra de 22 caças Gripen ― de mesmo tipo que os que nosso exército decidiu adquirir. O montante total seria de mais de 3 bilhões de francos suíços, algo entre 7 e 8 bilhões de reais.
O resultado da votação foi mais apertado que o do salário mínimo. Assim mesmo, mais de 53% dos votantes rejeitaram a decisão. As negociações foram arquivadas. Por uns dez anos, no mínimo, nenhum avião de caça será adquirido.
Num país onde as forças aéreas somente estão disponíveis no horário comercial, faz sentido. Se você não entendeu, leia meu artigo de 18 fevereiro passado. Clique aqui.
Fico a me perguntar se, numa tresloucada hipótese, o governo brasileiro decidisse submeter ao povo a decisão de adquirir os caças Gripen, qual seria o resultado?
Um dia, talvez, cheguemos lá. Por enquanto, vamos desfrutando de nossas novíssimas e portentosas «arenas».
Recordar é viver ― 1
José Horta Manzano
«A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) afirmou nesta quarta-feira (3) que o trem-bala ligando Campinas ao Rio de Janeiro ficará pronto para a Copa do Mundo de Futebol de 2014, que acontecerá no Brasil, pelo menos no trecho entre São Paulo e Rio de Janeiro.
Ela reafirmou que o governo não pretende gastar recursos em estádios e que o foco dos investimentos públicos será em mobilidade urbana nas cidades escolhidas para sediar o evento, definidas no domingo passado (31/05).»
Artigo de Eduardo Bresciani, publicado no site do jornal O Globo, em 3 junho 2009.
Quem acreditou se estrepou.
Convicções
De camisa florida
José Horta Manzano
Você sabia?
Se eu lhes perguntar qual é o país mais visitado do mundo, que é que me responderão? Pois eu lhes conto: em números absolutos, a França, com 83 milhões de visitantes, ganha de longe.
Mas há uma outra resposta. Se considerarmos a quantidade de turistas como porcentagem da população residente, o panorama é mais nuançado. Com magros 800 habitantes, o minúsculo Estado do Vaticano ganha disparado, milhas à frente do segundo classificado. Cinco milhões e meio de estrangeiros passam por lá a cada ano, o que dá 6500 visitas por habitante. Uma enormidade.
Há que conceder que mini- e microestados falseiam as estatísticas. São ponto fora da curva ― expressão em voga atualmente. Melhor observar o que se passa em países de tamanho habitual.
Pelo critério de visitantes como porcentagem da população, os países europeus são campeões. Em primeiro, aparece a Áustria que, com população de 8 milhões e meio, acolhe 24 milhões de visitantes a cada ano. Dá quase três turistas por habitante! Logo atrás, vem a Croácia, destino apreciado para as férias de verão. No total, uns dez estados europeus recebem turistas em número superior ao de sua própria população.
E como é que ficam as Américas? Ao norte, o Canadá se sai bem: os visitantes representam 46% da população. Os EUA, onde os forasteiros de passagem equivalem a 21% da população também não podem reclamar. As Antilhas são constituídas por microestados, fato que perturba o resultado estatístico.
Vamos falar da América do Sul. Quem seria o campeão? Difícil adivinhar, não é? Pois é nosso vizinho Uruguai. Visitantes representam 80% da população do país. Atrás dele, está o Suriname (45%). A Guiana (22%), o Chile (20%) e a Argentina (14%) seguem mais descolados.
E nosso país, como é que anda? Pois saibam que fica na rabeira da classificação continental, em penúltimo lugar. Os 5 milhões e meio de pessoas que visitam o Brasil perfazem apenas 2,86% da população local. Pior que nós, só a Venezuela.
E por que um afluxo de turistas tão diminuto em nossas terras? A lógica ensina que, quanto maiores forem os atrativos turísticos, mais visitantes virão. O Brasil tem beleza natural de sobra, cachoeiras, praias, pantanais, sol, calor. O que é que atravanca a vinda de mais gente?
A distância não há de ser: China, Nova Zelândia, Chile ― todos longe dos grandes centros emissores ― recebem proporcionalmente mais turistas que nós. Até Paraguai e Bolívia nos ultrapassam.
Não tenho respostas, infelizmente. Tenho apenas conjecturas ― e elas não são nada risonhas.
Obs 1: Os dados vêm da Organização Mundial do Turismo, órgão da ONU, e se referem ao ano de 2012.
Obs 2: Vale a pena examinar de perto o resultado de cada país. Clique no mapa para ter acesso ao site do jornal inglês The Telegraph. Em seguida, uma clicada em cada país vai-lhe dar a população, o número de visitantes e a porcentagem.
Que venham todos!
Visão panorâmica
José Horta Manzano
Aproveitando o fim de semana, vamos dar uma espiada em torno pra ver o que é que andam dizendo de nós.
Le Brésil reste sur un chaudron social
O Brasil continua em cima de um caldeirão social
Manchete do diário argelino Liberté, num apanhado da convulsão social que sacode o país-sede da «Copa das copas».
Brasilien: protester mot VM-2014 växer
Brasil: protestos contra Copa-14 crescem
Manchete do site A Voz da Rússia, em sua versão em língua sueca. Traz um relato dos protestos do dia 15 de maio.
Brasilien im Chaos ― Vier Wochen vor der WM: Panzer am Strand!
Brasil em caos ― Quatro semanas antes da Copa: tanques de guerra na praia!
Reportagem do sensacionalista Bild, o jornal de maior circulação na Alemanha. Conta o que aconteceu quando da greve de policiais no Recife.
Mundial en Brasil, ¿una pesadilla para los viajeros?
Copa no Brasil: um pesadelo para os turistas?
Artigo do Forbes (edição mexicana) sobre os desafios que os turistas que visitarem o Brasil durante a Copa deverão enfrentar.
Il Brasile rischia di perdere le Olimpiadi 2016
O Brasil está arriscado a perder as Olimpíadas de 2016
Artigo intrigante do Il Secolo XIX, tradicional diário de Gênova, Itália. Revela rumores de que, à vista do atraso na preparação da infraestrutura, o CIO (Comitê Internacional Olímpico) estaria estudando um plano B: a transferência dos jogos de 2016 do Rio para Londres.
Le Mondial de tous les dangers
A Copa de todos os perigos
Artigo do jornal francês L’Alsace. Dá uma visão dos acontecimentos recentes e diz textualmente: «Infelizmente, a um mês do início da competição, a escolha do Brasil para acolher a Copa aparece como aposta de alto risco, transformando esta edição no «Mundial de todos os perigos».
Brasilien: Fußball statt Schule
Brasil: futebol em vez de escola
Manchete de reportagem da rede de televisão Euronews (versão alemã). O texto descreve a comoção que toma conta do Brasil. O título sintetiza.
Quando «lutaram» para que a organização da Copa fosse atribuída ao Brasil, nossos medalhões tinham duas intenções:
1) dar uma dentadinha (ou dentadona, depende do apetite) onde fosse possível;
2) mostrar ao mundo a imagem de um Brasil evoluído, rico, poderoso, harmônico, feliz.
Ninguém tem dúvida quanto à primeira intenção: foi amplamente alcançada. Já quanto à segunda… ai, ai, ai.
Mas os figurões devem estar se lixando. Já levaram seus trocados. A vergonha fica para nós.
Pobres escandinavos…
Olhar italiano
José Horta Manzano
A ANSA ― Agenzia Nazionale Stampa Associata ― é a mais importante agência italiana de notícias. Seu site apresentou, alguns dias atrás, um retrato cru dos preparativos para a «Copa das copas». Cru, mas verdadeiro, não há que contestar.
Começa contando que, a um mês do apito inicial do campeonato, o Brasil já ganhou a copa dos atrasos e do desperdício. Refere-se a obras previstas e nunca realizadas como o trem-bala Rio-SP ou o futurístico monotrilho do centro de Brasília ao estádio. Há ainda obras inacabadas, como três dos doze estádios. A isso tudo há que adicionar os custos faraônicos, que superam amplamente o que se gastou com a copas da Alemanha e da África do Sul reunidas.
O artigo pondera que, no pesado balanço, ainda tem de ser debitada a perda de nove vidas nos trabalhos de construção. Diz também que esse conjunto de trapalhadas suscitou um vasto descontentamento em muitas camadas da sociedade, gente que teria preferido ver esses fundos utilizados para melhorar serviços de saúde, instrução e transporte.
O autor explica que, quando festejou a atribuição da Copa ao Brasil, sete anos atrás, o Lula pretendia mostrar ao mundo o progresso econômico e social do País. Não podia prever a série interminável de incidentes e de acontecimentos negativos que acabaram projetando ao exterior a imagem do Brasil como gigante de pés de barro, incapaz de programar e de organizar um evento de alcance mundial.
Referindo-se à Copa das Confederações de 2013, o texto assinala que a competição será pouco lembrada pelo futebol e muito mais por causa das «oceânicas» manifestações de protesto contra o dinheiro público gasto por Dilma Rousseff para a Copa, enquanto os serviços públicos brasileiros não estão à altura de um País que reclama o direito de acesso ao restrito clube das grandes potências.
O articulista fecha seu escrito recordando que a torcida (em português no texto) espera que a Selecao jogue e vença a final. Mas Dilma, em constante queda nas pesquisas, terá um motivo a mais para torcer.
Quem viver verá.
Frase do dia — 136
Aconteceu em 15 de maio, em jantar oferecido a jornalistas esportivos. Dona Dilma, usando e abusando de sua proverbial facilidade de exprimir ideias claras, declarou que a busca da reeleição é mais complicada que a da eleição por três motivos:
«Primeiro porque você é a presidenta, segundo porque quer se reeleger e terceiro porque você é assim como é. Ou seja: tudo é motivo para crítica».
Uma cocada de fita pra quem tiver captado a profundidade do pensamento.
in Folha de São Paulo, 16 maio 2014.
Orient Express
José Horta Manzano
Você sabia?
O mui oficial jornal Beijing Times, controlado pelo Estado chinês, anunciou um projeto pra lá de ousado. Trata-se da construção de uma linha de trem de alta velocidade (trem-bala) entre a China e os Estados Unidos.
Prevê-se que a extensão seja de 13 mil quilômetros. Para efeito de comparação, note-se que a distância entre o extremo leste e o extremo oeste do Brasil é de 4300 quilômetros. A linha deverá sair do nordeste da China e cruzar boa parte do território russo.
Para passar da Ásia à América, é preciso vencer o Estreito de Bering. A escavação de um túnel submarino de 200 km deverá resolver o problema. Para dar-lhe ideia da complexidade da obra, tenha presente que, atualmente, o túnel ferroviário entre a França e a Grã-Bretanha é o que tem o trecho submerso mais longo do mundo: 37 km.
No Novo Mundo, o Alasca e o Canadá inteiros ainda terão de ser atravessados antes da chegada ao terminal em Nova York. Numa hipótese optimista, um trem lançado a uma velocidade média de 350 km/h levará dois dias e uma noite para fazer o percurso. Sem contar as paradas.
O não menos oficial China Daily, outro braço do Estado chinês, confirma a existência do projeto e vai mais longe. Afirma que a tecnologia para construir a gigantesca obra já está disponível.
Nenhum dos periódicos informou se já combinaram com os russos ― no sentido literal. Com os russos, com os canadenses e com os americanos, naturalmente.
Aqui no meu cantinho, fico cismado. Não vejo a lógica que possa levar viajantes a preferir passar 48 horas confinados num trem para cumprir um trajeto que, de avião, demanda 12 horas.
Pessoalmente, já cheguei a fazer, décadas atrás, uma viagem de 48 horas de trem. A razão foi uma só: falta de dinheiro para usar meio de transporte mais rápido. Posso confirmar que é duro ficar sentado naquela poltrona durante dois dias e duas noites. Dormir sentado, comer farofa de casa ou gororoba de trem, aguentar ronco de vizinho podem ser atividades excitantes para os muito jovens. Para os que já não têm mais 20 anos, é menos entusiasmante.
O projeto é delirante. Como não me consta que a China dê ponto sem nó, uma razão há de haver por detrás desse anúncio. Poderia perfeitamente ser uma jogada de marketing. Para um país que pretende vender trens de alta velocidade ao estrangeiro, toda propaganda é bem-vinda.
É como propaganda eleitoral gratuita: não custa nada e pode render muito.(*)
(*) Propaganda eleitoral gratuita não custa nada? É relativo. Todos sabem que não há almoço grátis ― alguém terá sempre de pagar a conta. No caso da propaganda eleitoral, se o dinheiro não sair do bolso do candidato, da mídia é que não sairá. Quem paga então? Ora, caro leitor, ao fim e ao cabo, sai do seu, do nosso bolso.
Nostalgia imperial
José Horta Manzano
A derrubada do Muro de Berlim, em novembro de 1989, deu a largada para o desmonte da União Soviética. Dois anos mais tarde, o processo estava concluído. A URSS, que havia pairado como assombração sobre metade do planeta durante 70 anos, expirou.
Foi um susto. Nem o mais pessimista dos soviéticos nem o mais optimista dos ocidentais teria imaginado, meia dúzia de anos antes, que tal desenlace fosse viável. De lá pra cá, foram caindo, um por um, símbolos e clichês que compunham, em nosso inconsciente coletivo, o modo de vida soviético.
Desapareceram as filas de desamparados clientes à porta de supermercados desabastecidos. Estátuas de Lenin e de Stalin foram desatarraxadas do pedestal. Os russos ganharam o direito de ir e vir ― inclusive ao exterior. As cidades cujos nomes homenageavam figurões comunistas foram rebatizadas: Leningrado recobrou seu nome originário, São Petersburgo.
Como em outras metrópoles que perderam um império, flutua no ar de Moscou uma certa nostalgia do bom tempo que se foi. É sentimento de mesma natureza que aquele que portugueses, ingleses, franceses cultivam. Uma ufania saudosa «do tempo em que éramos importantes».
O sintoma mais visível é o apego a relíquias que reavivam a glória passada e dão a impressão de que ela ainda perdura. Cada um dos antigos impérios faz isso à sua maneira.
A cada ano, no dia 9 de maio, os russos comemoram com garbo a vitória na Segunda Guerra. Têm razão, afinal, o conflito ceifou a vida de mais de 20 milhões de cidadãos soviéticos, perto de 15% da população. Foi hecatombe de proporções bíblicas.
Observando as imagens do desfile comemorativo deste ano, notei que os brasões não só mencionam a guerra, mas também conservam os símbolos do Estado soviético da época.
O dístico que celebra a vitória (Победа) é encimado pela sigla CCCP (Союз Советских Социалистических Республик = URSS).
O emblema que comemora a Guerra Patriótica (Отечественная Война) leva ao centro a foice e o martelo entrecruzados, símbolo do antigo regime comunista.
Transposto ao cenário brasileiro, seria como se, numa parada comemorativa da vitória de nosso exército na Guerra do Paraguai, os desfilantes marchassem à sombra da bandeira do Imperio do Brazil.
É curioso.
Rapidinha 26
José Horta Manzano
Doze mil manifestantes (cinco mil segundo estimativa da polícia) desfilaram na cidade de São Paulo dia 13 de maio. São professores da rede municipal de ensino, em greve já há três semanas. Reclamam remuneração à altura do cargo que exercem.
Entre os cartazes, um me pareceu especialmente chamativo e adequado ao momento atual. Dizia:
ME CHAMA DE COPA E INVESTE EM MIM!
(a) EDUCAÇÃO
Frase do dia — 135
«O País está violento, intolerante, raivoso, necessitando urgentemente de um poder moderador/pacificador, cuja tarefa se inicia pela retomada de valores como legalidade, compromisso com a verdade, probidade, civilidade e respeito ao contraditório.
O acirramento de ânimos pode ser eficaz na luta política, mas acaba contaminando a sociedade quando a dinâmica do conflito e do vale-tudo sem regras nem limites é incorporada como prática cotidiana no exercício do poder.»
Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 11 maio 2014.
Welcome to the club!
José Horta Manzano
Desta vez, é certeza: chegamos lá! Nosso barco está ancorado no cais do Primeiro Mundo. Alegria, minha gente! Bem-vindos ao clube!
Volta e meia, ouve-se notícia de que um cidadão americano (ou francês, ou britânico, ou alemão, ou japonês) foi sequestrado, em função de sua nacionalidade, por um grupo armado. Assim, de cabeça, não me ocorre nenhum caso em que o raptado tenha sido brasileiro.
De tempos em tempos, fica-se sabendo que a bandeira americana (ou dinamarquesa, ou italiana, ou suíça) foi queimada e pisoteada com raiva por uma turba inflamada. Assim, de cabeça, não me vem nenhum episódio em que a vítima tenha sido nosso lábaro estrelado.
Com frequência, corre o relato de que uma representação diplomática americana (ou canadense, ou sueca, ou belga, ou espanhola) foi atacada ― com bazuca ou com paus e pedras. Assim, de cabeça, não me lembro de investida contra consulado ou embaixada nossa.
Isso agora é passado, caros amigos. É coisa antiga, é História. Nosso Brasil ― orgulhem-se! ― subiu um degrau na escala de importância dos países. Custou um dinheirão, mas… conseguimos.
Foi preciso investir bilhões, construir estádios, «convencer» a Fifa a acreditar em nós. Foi preciso torrar uma fortuna em Pasadena. Foi preciso meter o bedelho e dar vexame em Honduras. Foi preciso suportar durante doze anos o descalabro de governos incompetentes. Foi muito duro, mas o resultado é gratificante. De agora em diante, nossas embaixadas também estão sujeitas a ataques reivindicatórios. É a consagração!
Encapuzados alemães se esmeraram na noite de 11 a 12 de maio. Lançaram 80 paralelepípedos contra a Embaixada do Brasil em Berlim e conseguiram estilhaçar 31 vidraças (reparem na precisão da prestação de contas da polícia alemã).
Ok, ok, vidraça quebrada não é grande coisa. Concordo. Mas o que fica é o símbolo. O auê das manifestações de rua no Brasil já está gerando eco lá fora. A atenção que temos despertado no exterior confirma que estamos, de fato, adentrando o salão nobre reservado aos VIPs. Estamos entrando pela porta dos fundos, mas… que importa?
Falemos sério agora. Quem tem telhado de vidro deve tratar bem o vizinho. Quem tem embaixada com paredes de vidro deve evitar tratar seu próprio povo como um rebanho de imbecis.
Oxalá a moda de quebrar embaixadas brasileiras não pegue.
Entre outros veículos, a notícia apareceu nos seguintes:
Estadão
Folha de São Paulo
Bild (Alemanha)
Der Spiegel (Alemanha)
Máximas do Barão ― 14
«Cobra é um animal careca com ondulação permanente.»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
Panem et circenses
José Horta Manzano
Truques para acariciar a alma de um povo sofrido não são invenção moderna. Dois mil anos atrás, os dirigentes romanos já se tinham dado conta de que um agradozinho ao povão pode fazer milagres.
Como marca da época, restou a expressão Panem et circenses, em geral traduzida como Pão e circo (por Pão e jogos circenses). Adaptada aos tempos modernos, a máxima fica assim: «Para acalmar o povão, nada melhor que comida e diversão».
Com bolsas várias, o governo federal brasileiro tem reavivado o tradicional viés paternalista de nossa sociedade. Pouco preocupados com os alicerces bambos sobre os quais se está construindo o futuro dos brasileiros, os atuais medalhões estão mais é interessados nos dividendos imediatos que possam colher. Sob forma de votos preferivelmente.
O truque da distribuição de pão vem funcionando. Faltava o circo. O campeonato mundial de futebol veio a calhar, verdadeira mão na roda. Pouco importou que os bilhões pudessem vir a ser mais bem empregados: o que interessava era encher os olhos do povo ignaro com os paetês e as lantejoulas do imenso circo futebolístico.
Assim foi feito. No entanto, como já berrava o outro numa passeata, o povo não é bobo. Ninguém aprecia ver a própria inteligência insultada. De um ano para cá, o paciente tem recusado a anestesia. Está de olhão aberto. E o pior é que o mundo inteiro está-se dando conta da real situação do País. Uma humilhação.
Fundada logo após o término da Segunda Guerra, a revista semanal Der Spiegel (O Espelho) é a maior e mais influente publicação investigativa da Alemanha.
Sua edição datada de 12 maio 2014 traz uma reportagem de capa sobre a «Copa das copas». O título Tod und Spiele (Morte e jogos) faz alusão à expressão Brot und Spiele, tradução alemã da original latina. Sutilmente, a revista substituiu o pão (Brot) pela morte (Tod). A rima e o ritmo permanecem, mas o sentido muda drasticamente.
Está aí a demonstração de que o nome do Brasil está, como se diz, na boca do povo. Infelizmente, o mundo está descobrindo justamente o lado que gostaríamos de esconder.
Eigentor Brasilien
Ausgerechnet im Land des Fussballs könnte die Weltmeisterschaft zum Fiasko werden: Demonstrationen, Streiks und Schiessereien statt Party. Die Bürger sind wütend über teure Stadien und korrupte Politiker – und sie leiden unter den stagnierenden Wirtschaft.
Brasil: gol contra
Justamente no país do futebol, a Copa do Mundo poderia ser um fiasco: manifestações, greves e tiroteios em vez de festa. Os cidadãos estão furiosos por causa dos estádios caros e dos políticos corruptos. Ademais, sofrem com a estagnação da economia.
Um pouco d’arte ― 7
Exportando desleixo
José Horta Manzano
Sabemos todos que a Vale é importante multinacional de origem brasileira. Implantada nos cinco continentes, explora minas em mais de 30 países. Dá emprego a perto de 200 mil funcionários e integra o seleto cartel mundial das produtoras de matérias-primas.
O que nem todos sabem é que, em 2012, Greenpeace lhe atribuiu o pouco invejável Public Eye Award, o «prêmio da vergonha», concedido à pior empresa do planeta. Desde então, ela figura na Galeria dos Horrores.
Quarta-feira passada, a mina de níquel explorada pela Vale na Nova Caledônia ― território francês do Oceano Pacífico ― registrou seu sétimo acidente industrial desde 2009. Desta vez, foi um vazamento de ácido da unidade metalúrgica.
Assustada, a população da vizinhança está à beira de uma explosão de nervos. Tendo em vista a repetição desses incidentes e a falta de comunicação por parte da empresa, a presidente da província tomou a decisão de suspender imediatamente as atividades da usina metalúrgica. Madame Ligeart, a presidente, instaurou um comitê de crise.
Pelas primeiras informações, 96 mil litros de ácido clorídrico contendo forte concentração de metais foram despejados. O vazamento poluiu um riacho acabando com os peixes. Do jeito que as coisas vão, a empresa continua forte candidata ao prêmio da vergonha 2015. And the winner is…
Obs:
A informação foi difundida por um site neo-caledoniano de nome altamente sugestivo e perfeitamente adequado às circunstâncias: www.cagou.com.
Isso não é lorota.
Frase do dia — 134
«Segundo o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, os torcedores ingleses podem vir tranquilos para a Copa da Fifa. Não haverá ― garantiu ― perigo maior que o enfrentado pelos soldados britânicos no Iraque. Faltou explicar se os torcedores deverão vir armados, como os militares enviados à guerra.»
Rolf Kuntz, jornalista, em sua coluna do Estadão, 10 maio 2014.
















