Machado de Itararé, Barão de Assis

Deonísio da Silva (*)

Quando junho vier, antes de outubro chegar, milhões de leitores serão enganados por um falso Machado de Assis.

O alienista 3É que serão distribuídos seiscentos mil exemplares (600.000; você não leu errado!) de uma edição falsificada de «O alienista», uma história de loucos, isto é, de médico e louco, dos quais todos nós temos um pouco, mas não na dose a ser administrada ao distinto público nas próximas semanas.

Machado de Assis foi o maior escritor brasileiro de todos os tempos. De seu livro roubado e mutilado foi produzida essa montanha de equívocos, com o seu, o meu, o nosso dinheiro, por meio de um recurso fabuloso, a renúncia fiscal, que, entretanto, tem resultado em projetos culturais tão louváveis, bonitos e importantes! Mas que vem se prestando também a algumas falcatruas.

A vida do Bruxo do Cosme Velho, como o chamou Carlos Drummond de Andrade, não foi fácil, mas, se ele vivesse no Brasil de hoje, seria ainda pior. Poucos entendem seus livros nos circuitos escolares, e a razão é muito simples. Basta olhar nossos indicadores de educação no mundo!

Mas o motivo é outro, segundo nos esclarece Patrícia Secco, a autora da «adaptação».

O alienista 1«De onde menos se espera, daí é que não sai nada», profetizou o lendário humorista gaúcho Barão de Itararé. «Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis», disse Patrícia Secco ao jornalista Chico Felitti. «Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso.»

Escreve o jornalista: «Ela simplifica mesmo: Patrícia lançará em junho uma versão de ‘O alienista’, obra de Machado lançada em 1882, em que as frases estão mais diretas e palavras são trocadas por sinônimos mais comuns (um ‘sagacidade’ virou ‘esperteza’, por exemplo).» (…) «A ideia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil.»

Machado era órfão de mãe (de pai é uma coisa, de mãe é outra, o abandono é ainda maior!), descendente de negros, pobre, gago, epiléptico, casou com uma solteirona portuguesa que tinha comido a merenda antes do recreio, e não tiveram filhos para não transmitir a ninguém o legado da doença. Mas deixou-nos uma obra imortal!

Mais que gênio, oxigênio de nossas letras, Machado venceu preconceitos de raça, de cor, de dinheiro, de tudo. Mas não passou pela senhora dona Patrícia Secco, em breve «coberta de ouro e prata (600.000 exemplares!)», mas que «descubra seu rosto», «queremos ver a sua cara».

Augusto Meyer disse que «quase toda a obra de Machado de Assis é um pretexto para o improviso de borboleteios maliciosos, digressões e parênteses felizes».

Araripe Júnior também foi outro que se enganou: «Filho das próprias obras, ele (Machado) não deve o que é, nem o nome que tem, senão ao trabalho e a uma contínua preocupação de cultura literária».

O alienista 2Astrojildo Pereira enganou-se ainda mais: «Machado de Assis é o mais universal dos nossos escritores; (…) ele é também o mais nacional, o mais brasileiro de todos».

O francês Roger Bastide, destacando a paisagem carioca que poucos viam em Machado, concluiu: «Escrevi estas páginas de protesto contra os críticos literários que lhe negam essa qualidade: humilde homenagem de um estrangeiro a um mestre da literatura universal».

Paro por aqui. A senhora dona Patrícia Secco não tem o direito de fazer o que fez. A obra de Machado de Assis não é dela. É patrimônio do povo brasileiro.

(*) Deonísio da Silva é escritor e filólogo.

As causas e os efeitos

José Horta Manzano

O site internet do Christian Science Monitor, de Boston, publica um artigo bastante didático intitulado How Brazil’s oil boom went bust ― Como o boom petrolífero do Brasil enguiçou.

Segundo a matéria, a produção brasileira de petróleo ― insignificante nos anos oitenta ― cresceu continuamente durante trinta anos até atingir 2.7 milhões de barris por dia em 2010.

Petrobras 3Nos primeiros anos deste século, com a descoberta de imensas reservas na camada pré-sal, tudo indicava que a extração cresceria vertiginosamente e que o país se encaminhava para destino inexorável de superpotência petroleira.

Lá por 2010, no entanto, algo aconteceu. Estes últimos quatro anos, a extração estagnou. A produção de 2013 foi a mesma de três anos antes. Qual a razão?

O Christian Science atribui o desempenho pífio da Petrobras à má gestão da companhia. Menciona os escândalos, a lavagem de dinheiro, as propinas, a prisão de um diretor. Ah, esse mundo moderno onde tudo se sabe…

Depois de considerações técnicas e financeiras, o jornal cita uma fala em que a presidente de nossa República deixou claro que enxerga o país como uma grande Venezuela: «A Petrobras é maior que nós todos. Ela é tão grande quanto o Brasil».

O artigo termina vaticinando: «O destino [de Dilma Rousseff], tanto quanto o do país, depende do desempenho da maior companhia do Brasil».

Poderiam também ter dito que a Petrobras é a cara do Brasil: os males que afligem a gigantesca companhia são os mesmos que atormentam o País.

É sabido que as mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos. A Petrobras andou pra trás, perdeu credibilidade e valor de mercado. O País vai pelo mesmo caminho.

Campeã da poluição

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz décadas que a corrente ecologista alemã é influente. Uma de suas bandeiras tem sido a erradicação da energia nuclear. O desastre de Fukushima acelerou dramaticamente o movimento.

Central atômica 1Para fugir da insegurança nuclear, os alemães têm aumentado a produção de eletricidade a partir de matéria fóssil: petróleo, gás, carvão. Mas nada sai de graça. Afastam-se os riscos ligados a um acidente nuclear, é verdade, mas surgem os inconvenientes da queima de combustível fóssil.

Despacho da AFP repercutido pelo jornal francês Les Echos nos dá conta de que a Alemanha, com 760 milhões de toneladas emitidas em 2013, é o maior produtor de CO2 da Europa. Pior que isso, é um dos cinco países da União Europeia onde a produção de gases com efeito de estufa está aumentando em vez de diminuir. Em 2013, foram 2% a mais que no ano anterior.

O abandono da produção de energia atômica afasta o perigo imediato de um acidente grave. Sua substituição pela queima de matéria fóssil, no entanto, aumenta o risco de mudanças climáticas de consequências catastróficas.

Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come.

Nem só de futebol

José Horta Manzano

Com o título “No Brasil, há outra coisa além do futebol!”, o jornal Le Parisien anuncia uma exposição de obras de Cândido Portinari (1903-1962) no Grand Palais de Paris. Pela primeira vez, o distinto público parisiense poderá apreciar a arte do pintor maior, um dos três mestres da pintura latino-americana.

Um longo artigo informa sobre vida e obra do paulista de Brodowski. Portinari, que havia visitado Paris em 1930, morreu prematuramente aos 59 anos vítima de saturnismo ― envenenamento provocado pelo chumbo contido nas tintas que utilizava.

Guerra e Paz, by Candido Portinari

Guerra e Paz, by Candido Portinari

Os painéis monumentais chamados Guerra e Paz (14m x 10m) são o ponto culminante de sua obra. Pintados em meados dos anos 1950, tinham sido encomendados pelo governo brasileiro para presentear a sede das Nações Unidas em Nova York.

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Esses painéis, exibidos em permanência na ONU, foram expostos no Brasil em 2012. E agora se oferecem ao olhar do público francês. Que os interessados tomem nota: a exposição abre as portas hoje, 7 maio, por cinco semanas. A entrada é grátis. Folga às terças-feiras.

Chuva de turistas

José Horta Manzano

Torre Eiffel

O site de informações da cidade de Angers (França) revela que 660 mil turistas brasileiros visitaram a França em 2013. É um bocado de gente!

Na América do Sul, o Brasil é o maior mercado emissor de turistas para a França.

Já ganhou!

José Horta Manzano

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

by Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

O site francês Eurosport dá conta de pesquisa de opinião publicada dois dias atrás. Nada menos que 43% dos franceses acreditam que a seleção do Brasil vai levar a «Copa das copas».

Nas apostas francesas, a Espanha vem em segundo lugar, lá longe, com 9% dos palpites. A Alemanha (8%), a Argentina (4%) e a própria França (4%) vêm a seguir.

Somente 8% dos entrevistados acredita que a França chegará à final. E minguados 6% imaginam que ela vença e leve a taça.

Na prática…

… a teoria é outra.

José Horta Manzano

Apareceu estes dias uma notícia surpreendente: o Partido Socialista Brasileiro deu-se conta, de repente, de que a plataforma de seu candidato à presidência da República ― um certo senhor Campos ― diverge consideravelmente do programa partidário.

Impensável em países onde a política é bem estruturada, essa situação não comove ninguém no Brasil. Plataforma política se adapta aos ventos do momento. Não combina com o programa do partido? Que não seja por isso: modifique-se o programa. É exatamente isso que a mencionada agremiação política fará nas próximas semanas.

Proletários de todos os países, uni-vos!

Proletários de todos os países, uni-vos!

Realmente, não fica bem, em pleno século XXI, um programa de partido pregar a «socialização dos meios de produção». Soa pra lá de démodé. Chega a ser patético no ponto em que propõe a eliminação de «um regime econômico de exploração do homem pelo homem».

O manifesto do partido atinge o ápice do irrealismo quando preconiza a «transferência gradativa ao domínio social (entenda-se ao Estado) de todos os bens passíveis de criar riquezas». É mole?

Esse quiproquó vem demonstrar, se ainda fosse necessário, a inutilidade dos partidos políticos no Brasil. Visto o divórcio entre a teoria programática e a prática do dia a dia, os partidos são meros balcões de negócios onde uma revoada de indivíduos ― dentes longos e unhas afiadas ― disputam os bens da Viúva.

Vamos de férias?

José Horta Manzano

Você sabia?

A revista Manager Magazin, do grupo editorial alemão Stern, anunciou estes dias o resultado de uma pesquisa interessante sobre o tempo de lazer ao qual têm direito os assalariados de dez países selecionados. O estudo, publicado sexta-feira última no meio da ponte do feriado de 1° de maio, caiu como uma luva.

Pelo levantamento da revista, o «país do samba, do Carnaval e do futebol», com 30 dias de férias legais e 11 feriados, encabeça a classificação. O único país que se lhe pode cotejar é a Lituânia. No resto do mundo, ninguém tem direito a tantos dias de folga.

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados Azul: número de dias de férias legais Verde: dias feriados

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados
Azul: número de dias de férias legais
Verde: dias feriados

Franceses e austríacos, que contam respectivamente com 40 e 38 dias por ano, não podem se queixar. Bem abaixo, vem a Alemanha com seus 20 dias de férias e 10 feriados.

Na rabeira, aparecem a China e o Canadá. Pequim concede a seu povo 10 dias de férias mais 11 feriados. Ottawa também garante 10 dias de férias mas somente 9 feriados. Os EUA, se aparecessem na na lista, se situariam entre a Índia e a China, com um total de 25 dias de folga.

Quando relatou a Dom Manuel I o achamento da nova terra, Pero Vaz de Caminha sublinhou: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo».

Infelizmente, Pero Vaz não deixou explícito quem deveria se encarregar do plantio. Até hoje estamos esperando que alguém o faça. Enquanto isso, vamos de férias, moçada, que ninguém é de ferro!

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PS: Os feriados especiais previstos no Brasil em função da «Copa das copas» não estão incluídos. Entram na categoria das receitas não-contabilizadas.

Frase do dia — 133

«A política interna, marcada por uma combinação de populismo, gastança federal, baixo investimento, desleixo com a educação, protecionismo, aparelhamento e loteamento do governo e de suas empresas, tolerância à inflação e desprezo à produtividade, levou a indústria à estagnação e erodiu as contas externas.»

Rolf Kuntz, jornalista, em sua coluna do Estadão, 3 maio 2014.

O voto e a roda

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 maio 2014

Naquele tempo, ainda havia trem. Na estação da estrada de ferro, o jovem aprendiz, ansioso, apresentou-se logo de manhãzinha para seu primeiro dia de trabalho no serviço de manutenção. O chefe do setor apresentou-o ao funcionário mais antigo e recomendou a este último que se encarregasse de transmitir, pouco a pouco, todo o seu saber ao novato.

Após rápida consulta ao relógio, o veterano conduziu o recém-chegado à beira de um trem que estava para partir dali a meia hora. Pediu ao jovem que observasse atentamente o que ele ia fazer. Tomou uma marreta e deu três pancadinhas numa roda do primeiro vagão. Em seguida, passou à segunda roda e repetiu o movimento. E assim por diante, roda por roda, vagão por vagão, deu a volta ao trem.

Train 5Terminado o peculiar balé, o aprendiz perguntou timidamente qual era a serventia daquela tarefa. O velho funcionário disse que não fazia a menor ideia, mas repetia esse movimento diariamente fazia 35 anos. Porque lhe tinham ensinado no seu primeiro dia de trabalho.

Essa fábula ilustra a força inercial de certos fatos e atos que se transmitem de geração em geração e varam os séculos sem que ninguém saiba ao certo por quê. A obrigatoriedade do voto é um bom exemplo.

Pelo ordenamento constitucional do Brasil imperial, o voto era obrigatório. Fazia sentido. No imenso território que ensaiava seus primeiros passos como nação independente, os alfabetizados eram poucos. O legislador brasileiro decidiu manter distância da visão democrática e universalista que Rousseau lançava sobre a política. Preferiu outra abordagem: o voto censitário.

Considerando que a massa não estava apta a escolher seus próprios representantes, confiou o encargo a cidadãos selecionados. Para fazer parte do colégio de eleitores, havia que preencher alguns requisitos: ser homem livre com mais de 25 anos e, sobretudo, dispor de determinada renda.

Essa seleção, ressentida como se honraria fosse, instituía a «função» de eleitor. Por esse entendimento, o voto «pertencia» à nação, cabendo a ela designar aqueles que estavam aptos a desempenhar a tarefa. Era natural, portanto, que os eleitores, uma vez convocados pelo Estado, tivessem a obrigação de votar. Em caso de impedimento, era até autorizado o voto por procuração – o eleitor transferia o encargo a um representante.

by Fernando de Castro Lopes, desenhista Correio Braziliense

by Fernando de Castro Lopes, desenhista
Correio Braziliense

O método de escolha dos representantes do povo sofreu transformação radical de lá para cá. Tivesse essa mudança ocorrido de golpe, talvez a estrutura tivesse sido integralmente repensada e fosse, hoje, harmoniosa. Não foi o que aconteceu. Quis o destino que a evolução do sistema eleitoral se estendesse, gradual, por decênios ‒ um conserto aqui, um remendo ali. O resultado carece de coerência.

A sequência de modificações transfigurou o modelo originário. O caráter censitário do colégio eleitoral foi-se esgarçando à medida que novas categorias de cidadãos eram autorizadas a votar. A idade mínima do eleitor foi baixando, degrau após degrau, dos 25 para os atuais 16 anos. A participação foi aos poucos franqueada a um número crescente de cidadãos: mulheres, militares, analfabetos. A exigência de renda mínima foi abolida.

O sistema atual, após todas essas mudanças, nem de longe lembra o modelo de 200 anos atrás. A «função» de eleitor cedeu lugar ao direito de ser eleitor. À primeira vista pode não parecer, mas tivemos aí profunda guinada conceitual. O voto não mais «pertence» à nação, mas a cada eleitor. A escolha dos dirigentes deixou de ser feita por cidadãos aos quais o Estado atribuiu uma tarefa. Passou a ser feita, em tese, por todos os cidadãos.

Urna 5O «eleitorado de função» era obrigado a exercer seu papel, exatamente como conscritos têm de servir nalguma das Armas. A obrigatoriedade do voto estava, assim, justificada. O atual «eleitorado de direito» tem a faculdade de escolher seus representantes. Quem diz faculdade não diz obrigação. Se obrigação for, não será mais um direito.

No contexto atual, o voto obrigatório é contrassenso. Cidadão constrangido a praticar um ato qualquer não estará exercendo seu direito, mas cumprindo obrigação.

Muita atenção: que ninguém acuse os atuais inquilinos do andar de cima por essa incoerência. Ela lhes foi legada pelos antecessores que, por sua vez, já a tinham herdado dos respectivos predecessores. O descuido do legislador vem de longe, mas nunca é tarde para consertar.

E então? Varremos essa relíquia anacrônica ou continuamos a dar marretadas na roda?

Frase do dia — 132

«La violenza negli stadi brasiliani non sembra aver limiti. Un tifoso è morto al termine di una partita di calcio, all’esterno dello stadio, colpito da un water lanciato dagli spalti.»

«A violência nos estádios brasileiros parece não ter limites. Ao término de um jogo de futebol, um torcedor morreu, no exterior de um estádio, atingido por um vaso sanitário atirado das arquibancadas.»

in QN ― Quotidiano Net, do grupo editorial italiano Monrif, que publica Il Giorno (Milão) e La Nazione (Florença). 3 maio 2014.

Yes, nós temos bananas

Priscila Ferraz (*)

Mais uma vez a demonstração de incivilidade é confundida com preconceito. Aqueles que não têm capacidade para se igualar a outro ser humano tendem a perder a fleuma, atacar e destruir o objeto de sua inveja.

Bananas 2

Esta semana foi amplamente divulgado um vídeo onde se via um jogador de futebol brasileiro, mulato, pegar uma banana que havia sido atirada em sua direção, descascá-la, dar uma dentada e sair jogando seu magnífico futebol. Eu, que não sou vidrada em futebol nem conhecia muito o jogador, fiquei sua fã. A segurança do rapaz mostra que ele sabe o que é, e não se envergonha disso, pelo contrário, não se deixa abater por gesto tão insignificante. Os cães ladram e a caravana passa.

Me abespinha sobremaneira ver que ainda neste século XXI pessoas tão bem informadas sobre genética ainda achem que são diferentes entre si. Ora, conheço macacos que são loiros, e mesmo assim são símios, aliás, somos todos verdadeiros descendentes dos macacos.

Raça 1

Por esse motivo mesmo, fico extremamente irritada quando se distribuem cotas para negros nas universidades. Essas pessoas têm tanta capacidade quanto quaisquer outras para competir de igual para igual nos estudos. Aqueles que não conseguem por seus próprios méritos atingir a nota mínima para cursar a faculdade têm, simplesmente, que procurar sua melhor habilidade; acho que seria ridículo tentar distribuir cotas para anões ou brancos em times de basquete. Eu, por exemplo, não tenho nenhum pendor culinário, e acho que não deveria ser admitida em uma cozinha de restaurante só porque é necessário espaço para avós sem emprego. Sei que tenho outros predicados e a eles me dedico. Eu me sentiria desconfortável de ser atendida por um médico que tenha sido admitido na escola simplesmente por ser negro.

Temos dificuldades de lidar com o diferente, é verdade, mas no Brasil é até engraçado dizer que somos preconceituosos, com a quantidade avassaladora de mulatos, ou seja, pessoas filhas de pais e mães de cores diferentes. Antes do advento do protetor solar em função do câncer de pele, ficávamos horas ao sol, somente para adquirir aquela cor de caramelo deliciosa.

Raça 2

Nos relacionamentos amorosos, temos que convir que preferências existem. Tem quem goste de alto, magro, cheinho, gordão, baixote, negro, japonês, endinheirados não importando o tipo físico etc. Noto que os próprios negros, quando ficam ricos, sempre procuram e acham uma loira para se relacionar ― natural, de preferência. Questão de escolha. Eu mesma sempre digo, quando me perguntam se eu gostaria que minha filha, que é branca, se casasse com um negro: “Depende. Ele é boa pessoa?”

Estudei em escola pública, e lá tinha gente de todo tipo. Brincávamos juntos, sem notar suas peculiaridades, e acho que vem daí minha estupefação quando vejo gestos como o do torcedor invejoso. Mas, se pensarmos bem, há gente muito pior do que ele. Portanto, nada de passeatas contra o racismo, e muito menos “dia da consciência negra”, a não ser que se crie também o dia da branca e da amarela e de quantas cores mais houver.

(*) Priscila Ferraz é escritora

Primarismo intelectual e moral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A teoria darwiniana de evolução das espécies veio a público há mais de 150 anos, ou mais especificamente há 155 anos, se considerada a data da primeira edição do livro A Origem das Espécies (1859).

Desde os primeiros dias da divulgação de suas ideias, Charles Darwin enfrentou forte polêmica, uma vez que seu conceito de que o homem descende diretamente dos macacos contrariava a versão religiosa de criação divina vigente na época.

Macaco 1Por décadas e até séculos, muitas pessoas se engalfinharam na tentativa de comprovar o predomínio de uma dessas visões. A briga, no entanto, não estava amparada apenas no confronto entre ciência e fé. Deve ter sido um duro golpe no ego de muita gente saber-se descendente de um animal “inferior” – isto é, que ainda anda em quatro patas, vive em árvores e se alimenta de frutos, faz ruídos estranhos que se assemelham a uma risada, movimenta-se de forma trôpega quando de pé, agitando os membros superiores como se estivesse se coçando.

Na tentativa de se livrar dessas imagens mentais que desabonam nossos ancestrais, pouca gente deve ter-se perguntado o porquê da preferência da espécie por bananas. Terá sido por sua forma, por seu interior macio, por ser um fruto fácil de descascar ou por seu sabor? Pouco importa, o mais provável é que por todas essas razões em conjunto, além de uma provável maior disponibilidade das bananas na região em que os primatas habitavam. Que região era essa? O continente africano.

Daí começam a surgir outras ilações. Além de sermos forçados a engolir a ideia de que somos macacos “pelados”, ainda temos de suportar a hipótese de sermos oriundos de um ambiente de negros? Melhor voltarmos para o conceito de descendência divina.

Mas uma pergunta se impõe: qual é a referência usada para dizermos que somos descendentes de um deus? O deus muçulmano? O católico? O judeu? Trata-se de um deus único ou, na verdade, há muitos deuses e deusas, como se acreditava na Grécia e na Roma antiga? Haverá uma hierarquia de deuses ou, se muitos há, conviverão eles em harmonia?

Penso no Olimpo, com Zeus no topo da pirâmide e uma miríade de outros deuses e deusas abaixo dele, cada um especializado em uma função: agricultura, o lar, a caça, etc. Depois meu pensamento vagueia pelas religiões como as conhecemos nos dias de hoje. Levo um susto ao constatar que a esmagadora maioria dessas religiões é monoteísta. Mais um susto ao me dar conta de que as únicas politeístas que sobrevivem são, em sua esmagadora maioria, de origem africana. Lá vêm os pretos de novo, faça-me o favor! Pior, os deuses africanos – os orixás – têm características demasiado humanas. São temperamentais, manipuladores, sedutores, comprazem-se na luxúria, gostam de se comunicar através das danças, dos cantos, das bebidas e das comidas, não lidam com os conceitos de pecado e culpa. Em suma, são primitivos mesmo.

Einstein 1Meu pensamento volta-se agora para Fernando Pessoa: “Sem a loucura, que é o homem mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?”. Concluo em definitivo: moldados em barro ou crias diversificadas de macacos, nada nos retira o título de “bestas”.

Chamo por Einstein em minha defesa: “Só há duas coisas que não têm limites: a estupidez humana e o infinito. Mas ainda não tenho certeza quanto ao último”.

Desanimo, hesito, descreio de mim mesma. Desculpem-me divagar tanto. É que hoje de manhã li uma notícia acachapante no site do UOL: “Estudo mostra que macacos aprendem matemática”. Já eu…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Muy amigo

José Horta Manzano

O semanário uruguaio Búsqueda publicou ― e o site informativo Espectador repercutiu ― uma pesquisa levada a cabo entre os dias 13 e 26 de março. Um universo de 1013 pessoas representativas da população do país declararam qual dos países sul-americanos lhes parecia ser o mais amigo do Uruguai.

GauchoAdivinhem quem foi o feliz ganhador? Pois foi o Brasil. Nada menos que 42% dos entrevistados (quase a metade!) considera que, na América do Sul, o Brasil é o melhor amigo do Uruguai. Bem lá atrás, vem a Argentina com 15%, seguida pela Venezuela com 8%. O Chile e o Paraguai recolheram apenas 3% de opiniões cada um.

E tem mais. A pesquisa quis saber também qual era, na opinião dos entrevistados, o país menos amigo do Uruguai. Pois 61% ― 6 entre 10 cidadãos! ― deram a palma à Argentina. Nesse quesito, o Brasil recolheu nada mais que 2% das opiniões. Para nós, é notícia reconfortante: 98% da população do país vizinho não nos vê como o menos amigo do bairro.

E tem mais ainda. Indagados sobre o país em que gostariam de morar, 38% apontaram o Brasil. Em segundo lugar na preferência dos entrevistados, vem o Chile, com 17%. A Argentina aparece bem atrás, com 12%.

É verdade que a grama do vizinho sempre parece mais verde. Assim mesmo, a notícia é como um bálsamo nestes tempos pra lá de bicudos.

O Terceiro Estado

José Horta Manzano

«Fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós»
Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-geral da presidência da República.

«Le Brésil! Faites un effort pendant un mois, calmez-vous! (…) Eh bien, les Brésiliens, il faut qu’ils se mettent dans l’idée de recevoir les touristes du monde entier et que pendant un mois, ils fassent une trêve. (…) S’ils peuvent attendre au moins un mois avant de faire des éclats sociaux, ça serait bien pour l’ensemble du Brésil et la planète football».(*)
Michel Platini, presidente da Uefa.

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Manif 2As falas reproduzidas aí acima foram pronunciadas por duas personalidades que, em princípio, nada têm em comum tirando fora o fato de pertencerem à mesma geração.

Um é figura política, ministro da República brasileira. Sua frase foi dita faz alguns meses. O figurão se referia à conflagração popular de junho 2013.

O outro é figura do esporte, antigo profissional de futebol, há anos reciclado e transformado em presidente da União das associações europeias de futebol. Sua frase foi pronunciada faz alguns dias.

O que é que terá levado ambos a ousarem pronunciamento tão desastrado? Não vejo conotação política nem intenção oculta em nenhuma das falas. Antes, parecem desabafo sincero, suspiro de desalento.

Mas há um denominador comum aos dois pronunciamentos, ambos emitidos por pessoas que vivem num mundo de fantasia, longe da fria realidade em que vivemos mergulhados nós outros.

Salário elevado, facilidades mil, bajuladores em roda, a turma do “sim,senhor” sempre pronta a curvar-se ― esses medalhões que perderam o hábito de abrir uma porta com as próprias mãos vão, pouco a pouco, se desconectando do mundo real.

Para escapar a essa armadilha, seria preciso ter um espírito crítico ultradesenvolvido, o que, fica claro, não é o caso de nossos dois figurões.

Do senhor Platini, que vive a dez mil quilômetros do território brasileiro, ainda se pode admitir que ignore, até certo ponto, a realidade nacional. Além de viver dentro de uma redoma, convive com os clichês que lhe foram incutidos desde a infância. Continua enxergando o Brasil como o país do futebol, das mulatas sambando, do fio dental, das praias preguiçosas, da caipiriña(sic), da alegria onipresente. Assim mesmo, o desprezo embutido em sua fala incomoda um bocado.

Manif 3Já a alienação do senhor Carvalho, que vive “no coração do Brasil”, é assombrosa. “Fizemos tanto por essa gente”… mas quanta arrogância em cinco palavras!

Estamos habituados ao sectarismo do discurso oficial do atual governo federal, aquela retórica que procura dividir a população em dois campos antagônicos: “nós” e “eles”. O desabafo do ministro-chefe, no entanto, contradiz a filosofia oficial. Os campos não são dois, mas três: nós, eles e a populaça.

Fica claro que tanto o discurso de Platini quanto o de Carvalho se referiam a essa nebulosa terceira entidade, a ralé.

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(*) «Ô, Brasil! Façam um esforço durante um mês, acalmem-se! (…) Veja só, os brasileiros têm de botar na cabeça a ideia de que vão receber os turistas do mundo inteiro e que, durante um mês, têm de fazer uma trégua. (…) Se eles puderem segurar o estouro de seus conflitos sociais durante um mês, será excelente para o Brasil e para o futebol planetário.»