Jornalismo militante

José Horta Manzano

Às seis e meia da manhã, pela hora de Brasília, abro a edição online da Folha de São Paulo. Desfilando pela primeira página, encontro as seguintes chamadas:

  • Presidente da Gazint disse que Bolsonaro tem que ganhar para ‘não ter que gastar mais dinheiro’.
  • Grupos de WhatsApp pró-Haddad proliferam, e PT desconfia de armadilha bolsonarista
  • TSE abre investigação sobre Bolsonaro e compra de mensagens anti-PT
  • WhatsApp bloqueia contas; TSE e PTF apuram atuação eleitoral de empresas
  • Apoiadores de Bolsonaro começam a migrar grupos do WhatsApp para o Telegram
  • Empresários recuam em onda de apoio a Bolsonaro para não se expor
  • Repórter que descobriu envio de mensagens anti-PT participa do Eleição na Chapa
  • Bolinha de papel na cabeça de José Serra antecipa fake news
  • Roger Waters agradece vaias e chama Bolsonaro de insano. Músico diz que boicotaria o Brasil pela democracia caso candidato seja eleito
  • Comida na ditadura causava horror. Tem político querendo transformar o Brasil no país de 40 ou 50 anos atrás
  • O mercado ignora os riscos de um governo Bolsonaro
  • As reformas da extrema direita bolsonarista para destruir o Brasil

Não temos café
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Juro que é verdade, sem tirar nem pôr. Tudo na primeira página. Não estou tentando criar fake news ‒ pra entrar na moda. É consternante reconhecer que o autoqualificado ‘maior jornal do Brasil’ mais parece um panfleto partidário. O ativismo desse veículo, como diriam os franceses, é cousu de fil blanc ‒ costurado com linha branca. É patente, salta aos olhos. Só não enxerga quem não quer. Para conferir, basta dar uma olhada na sobriedade da primeira página dos outros dois jornais mais vendidos no país, o Estadão e O Globo. A diferença é comovente.

Vale notar que ter a maior circulação entre os jornais do país não significa ser ‘o maior’. São conceitos diferentes. Na Alemanha, o Bild tem, de longe, a maior circulação. Bate, com folga, qualquer concorrente. No entanto, com seu estilo de tabloide sensacionalista, está longe de ser ‘o maior’. Aliás, nem reivindica essa posição. É apenas o mais vendido, basta. A mesma coisa acontece com a Folha, que costumava ser jornal sério, mas está se perdendo.

A mídia tradicional tem visto seus leitores sugados pela internet. Cada veículo tenta solução própria para compensar a diminuição das vendas. “O maior jornal do país” parece ter escolhido caminho original. Mas é sempre perigoso vender a alma ao diabo. Como ensina o Conselheiro Acácio, as consequências vêm depois.

Welcome to the club!

José Horta Manzano

Desta vez, é certeza: chegamos lá! Nosso barco está ancorado no cais do Primeiro Mundo. Alegria, minha gente! Bem-vindos ao clube!

Volta e meia, ouve-se notícia de que um cidadão americano (ou francês, ou britânico, ou alemão, ou japonês) foi sequestrado, em função de sua nacionalidade, por um grupo armado. Assim, de cabeça, não me ocorre nenhum caso em que o raptado tenha sido brasileiro.

Embaixada do Brasil em Berlim atacada com paus e pedras

Encapuzados lançaram cerca de 80 paralelepípedos contra a Embaixada do Brasil em Berlim

De tempos em tempos, fica-se sabendo que a bandeira americana (ou dinamarquesa, ou italiana, ou suíça) foi queimada e pisoteada com raiva por uma turba inflamada. Assim, de cabeça, não me vem nenhum episódio em que a vítima tenha sido nosso lábaro estrelado.

Com frequência, corre o relato de que uma representação diplomática americana (ou canadense, ou sueca, ou belga, ou espanhola) foi atacada ― com bazuca ou com paus e pedras. Assim, de cabeça, não me lembro de investida contra consulado ou embaixada nossa.

Isso agora é passado, caros amigos. É coisa antiga, é História. Nosso Brasil ― orgulhem-se! ― subiu um degrau na escala de importância dos países. Custou um dinheirão, mas… conseguimos.

Foi preciso investir bilhões, construir estádios, «convencer» a Fifa a acreditar em nós. Foi preciso torrar uma fortuna em Pasadena. Foi preciso meter o bedelho e dar vexame em Honduras. Foi preciso suportar durante doze anos o descalabro de governos incompetentes. Foi muito duro, mas o resultado é gratificante. De agora em diante, nossas embaixadas também estão sujeitas a ataques reivindicatórios. É a consagração!

Encapuzados alemães se esmeraram na noite de 11 a 12 de maio. Lançaram 80 paralelepípedos contra a Embaixada do Brasil em Berlim e conseguiram estilhaçar 31 vidraças (reparem na precisão da prestação de contas da polícia alemã).

Embaixada do Brasil em Berlim atacada com paus e pedras

Paralelepípedos em frente à Embaixada do Brasil em Berlim

Ok, ok, vidraça quebrada não é grande coisa. Concordo. Mas o que fica é o símbolo. O auê das manifestações de rua no Brasil já está gerando eco lá fora. A atenção que temos despertado no exterior confirma que estamos, de fato, adentrando o salão nobre reservado aos VIPs. Estamos entrando pela porta dos fundos, mas… que importa?

Falemos sério agora. Quem tem telhado de vidro deve tratar bem o vizinho. Quem tem embaixada com paredes de vidro deve evitar tratar seu próprio povo como um rebanho de imbecis.

Oxalá a moda de quebrar embaixadas brasileiras não pegue.

Interligne 18b

Entre outros veículos, a notícia apareceu nos seguintes:

Estadão
Folha de São Paulo
Bild (Alemanha)
Der Spiegel (Alemanha)