O feitiço e o feiticeiro

José Horta Manzano

É público e notório que José Antonio Dias Toffoli, ministro do STF e atual presidente do TSE–Tribunal Superior Eleitoral, passou anos a serviço da CUT e do PT. Quando foi nomeado membro vitalício da suprema corte de justiça do País, nenhuma grita popular se alevantou, num sinal evidente de que a promiscuidade entre o público e o privado não incomoda ninguém.

JustiçaAto legal é uma coisa. Ato ético é outra. O que é legal não é necessariamente ético. São casos como o da nomeação do ministro Toffoli que revelam flagrante diferença entre o Brasil e terras mais civilizadas. Em outras plagas, nenhum cidadão aceitaria nomeação de figurão sobre o qual pesasse suspeita de conflito de interesses.

Um personagem como Dias Toffoli poderia até obter a chefia de um ministério, que esse é cargo de confiança. Jamais se admitiria, porém, que entrasse para o topo da magistratura. A Justiça deve, por definição, ser distribuída de forma neutra e isenta. Há razões suficientes para pressentir que decisões políticas desse ministro possam favorecer seus companheiros de tantas jornadas.

Irremediavelmente, o que está feito, está feito. Caso o homem não se resolva a ir embora antes, tem direito a permanecer no cargo pelos próximos 23 anos, até 2037.

Interligne 18b

Nas campanhas de 2006 e de 2010, já vigorava o aberrante dispositivo do horário eleitoral (dito) gratuito. Eram tempos em que a oposição ao governo central andava encorujadinha, envergonhada. Só os que já ocupavam o poder desferiam ataques virulentos. Os postulantes só faziam se defender. Desajeitadamente, diga-se.

Desta vez, mormente no intervalo entre o primeiro e o segundo turno, a paisagem mudou. Uma revigorada oposição tem revidado à altura. Não era o que o Planalto esperava. O fato novo exige resposta imediata e certeira.

O TSE já andou mexendo os pauzinhos para pôr fim a esse incômodo. Onde já se viu oposição que ousa contestar – em público! – o governo instalado? Só faltava essa…

Não se sabe se por iniciativa própria ou inspirado em algum conselho marqueteiro, o ministro Toffoli fez saber que os princípios que regem a propaganda eleitoral dita gratuita têm de ser revistos. O magistrado preconiza maior controle da matéria levada ao ar.

Vento

Por minha parte, não concordo com essa visão que nos faz voltar aos tempos da censura prévia. Melhor será fixar as regras do jogo e, em seguida, soltar os gladiadores na arena. Aquele que infringir o regulamento passará por julgamento imediato e terá, como pena, diminuição de seu tempo de propaganda. Garanto-lhes que dói muito mais que pena pecuniária.

Mas não sou eu a fazer a lei. Portanto, teremos de nos conformar com o que for decidido. Mas tem uma coisa: o ministro Toffoli e as correntes que lhe são simpáticas podem estar jogando jogo perigoso. Explico.

O PT e a nebulosa que o envolve detém hoje as rédeas do poder. Sendo assim, a oposição será a grande perdedora em caso de cerceamento do conteúdo do horário gratuito. Essa propaganda é o único meio de que a oposição dispõe para projetar-se em escala nacional. À situação, ainda sobrará o fato de estarem governando o país – um confortável e fabuloso palanque. A proposição do ministro é astuciosa.

Mas… e se – numa hipótese arrojada, naturalmente – a oposição vencer a eleição e se instalar no Planalto? Os papéis se inverterão, não? O feitiço pode virar contra o feiticeiro.

Petistas, governistas & simpatizantes em geral deveriam sempre trazer em mente que os ventos costumam mudar de direção sem pedir licença a ninguém.

O Lula e os nazistas

José Horta Manzano

Não há dúvida: o Lula tem o dom do mimetismo. É capaz de captar o espírito do ambiente em que se encontra e devolver o que cada espectador deseja ouvir. Quando, anos atrás, se descreveu como «metamorfose ambulante», não estava gracejando: a definição era exata.

radio 3Tivesse ele surgido nos anos 40 ou 50, seu sucesso teria sido muito mais longevo. Teria durado 20 anos no poder ou até mais. Como Franco, Salazar, Stalin & companhia. O Lula procura sempre – dentro dos limites de sua própria erudição – adaptar o pronunciamento à plateia.

Para falastrões, o problema maior de nossos tempos é que a informação se propaga com a velocidade do raio. Falou aqui e agora, todo o mundo já está sabendo daqui a segundos. Portanto, ficou difícil restringir o discurso aos que compareceram de corpo presente. Celulares permitem propagação imediata por meio de voz, uotisápis, feicibúquis, fotos, vídeos e outros tchapitchápis.

Em pronunciamento feito ontem em Pernambuco, o Lula comparou Aécio Neves aos nazistas(!). Questionou o fato de o moço não ter pegado em armas contra a ditadura – escamoteando o fato de que, nascido em 1960, o senhor Neves era pré-adolescente quando dona Dilma tentava um golpe armado contra o governo.

Foi mais longe. Herodes, Jesus Cristo, The Economist e os banqueiros entraram no discurso. Discurso? Estava mais pra salada mista. O tribuno insistiu na contraposição entre «nós» e «eles», sendo que, desta vez, o «nós» são os nordestinos. «Eles» são o resto do povo brasileiro.

Foi ovacionado, naturalmente. A esmagadora maioria dos ouvintes não faz a menor ideia do que tenham sido os nazistas. Aliás, duvido que o próprio Lula tenha ampla noção do assunto. Ninguém calculou mentalmente pra se dar conta de que dona Dilma e o senhor Aécio não são da mesma geração e que, portanto, suas trajetórias não poderiam ter sido paralelas.

DiscursoHerodes entrou na história do Lula como Pilatos entrou no Credo: por estar no lugar errado e na hora errada. Mais desonesta ainda é a tentativa do Lula de identificar a mineira bem-nascida Dilma com os deserdados do Nordeste enquanto instala o mineiro bem-nascido Aécio como carrasco dos desprovidos.

Em resumo, uma fala sem pé nem cabeça, pronunciada por quem não sabe o que está dizendo e destinada a quem não sabe o que está ouvindo.

A difusão ultrarrápida da informação, no entanto, trabalha contra tribunos populistas. Discursos incisivos têm efeito ambíguo. Agradam a uns e chocam outros. Será por isso que os mandatários atuais se opõem tão ferozmente à liberdade de imprensa.

Frase do dia — 194

«Na minha opinião, quem votasse no PT deveria ser preso em flagrante, logo na saída da secção eleitoral, por incentivo ao crime organizado, incitação à formação de quadrilha, cumplicidade de desvio de verbas públicas e conivência com evasão de divisas. E tem mais. Caso levasse a chamada “colinha”, teria sua ficha criminal agravada por premeditação!»

Entreouvido num elevador dia destes.

Veja quem ganha as eleições

Carlos Brickmann (*)

Ibope, Datafolha, institutos de pesquisas são para os fracos: acertam na maioria das vezes, mas há também casos de erro. A cada pesquisa que divulgam, aparece alguém insatisfeito com o resultado dizendo que não foi ouvido e não conhece ninguém que o tenha sido – como se fosse fácil conhecer algum dos três mil entrevistados numa população de 200 milhões.

Para os fortes, há o melhor instituto do mundo, o DataCarlos, que não erra nunca. Pesquisas do DataCarlos não têm margem de erro para cima ou para baixo. Seu intervalo de confiabilidade é de 100%. E só não é superior a 100% porque o maior especialista mundial em números impossíveis, Guido Mantega, não veio ainda trabalhar conosco (nem virá, que aqui ninguém é doido).

O DataCarlos não tem pesquisadores, não faz entrevistas, não se preocupa com amostragens, e só sabe o nome dos candidatos porque saem todos os dias nos meios de comunicação. Pois nem o nome dos candidatos afeta a pesquisa.

Temer 1E agora, a resposta que todos querem conhecer: o vitorioso nas eleições será o PMDB. Ganhe Dilma ou ganhe Aécio, o PMDB, sob o comando de Michel Temer (ou de outro líder que melhor encarne os interesses partidários), governará o Brasil. Vai nomear os ministros importantes, faturar (eta, palavra perigosa!) os êxitos da administração, escolher até os jardineiros (fantasmas) de cada prédio público, do Oiapoque ao Chuí.

Com a vantagem de, em caso de fracasso, poder botar a culpa na pessoa que os cidadãos comuns pensam que é presidente.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.

A chefa bambeou

José Horta Manzano

Dona Dilma, (ainda) presidente de nossa desamparada mas valente República, disse ontem que «nunca uma eleição teve aspectos tão agressivos como esta». Ela tem razão, não há que desdizer. Engraçado é que ela disse isso com a ingenuidade de quem chega de Marte. Dois princípios estão na base da agressividade apontada pela chefe de nosso Executivo – ou por seus marqueteiros, tanto faz.

Isaac Newton e a maçã

Sir Isaac Newton e a maçã

O primeiro deles é alicerce da física newtoniana: toda ação gera reação contrária de igual intensidade.

O segundo princípio nos foi legado pela Paz de Augsburgo, concluída em 1555 para pôr fim aos conflitos de religião que sacudiam o Sacro Império Germânico. Cujus regio, ejus religio – tal príncipe, tal religião.

Não vamos aqui discutir física nem religião. Vamos apenas tomar de empréstimo essas máximas para identificar o caminho que tem levado a atual campanha a adotar clima tão agressivo.

É notório que dona Dilma é autoritária. Quem lê linhas e entrelinhas do noticiário já se deu conta de que a presidente, quando tenta sorrir descontraída diante das câmeras, não está a mostrar sua verdadeira natureza. No dia a dia, a chefa costuma desancar funcionários, esbravejar, humiliar assessores, menosprezar subalternos, impor sua excelsa vontade no grito. Quando se apagam os refletores dos estúdios, a verdadeira senhora Rousseff renasce.

Palácio Schezler, Augsburgo, Alemanha Salão de festas

Palácio Schezler, Augsburgo, Alemanha
Salão de festas

O Lula era (e, apesar de alquebrado pela idade e pelos excessos, continua sendo) desbocado, vulgar, irado. Sua sucessora não só conserva os recalques do padrinho, como os incrementa com sua natural soberba. Desde que o último presidente militar deixou o governo até o advento da senhora Rousseff, nenhum mandatário tão belicoso tinha subido a rampa do Planalto. João Figueiredo prometia «prender e arrebentar». Dona Dilma arrebenta sem prevenir.

Nossa presidente não pode culpar senão a si mesma pela deriva que acomete a campanha eleitoral.

Paz de Augsburgo, 1555

Paz de Augsburgo, 1555

Cujus regio, ejus religio
Quando as práticas do príncipe fazem uso da mentira sistemática, das quase-verdades, da quase-lógica, dos ataques pessoais, dos golpes abaixo da cintura, da usurpação de ideias alheias, da pretensão de ter inventado a roda, é natural que os súditos se sintam autorizados e até incentivados a seguir o mesmo receituário.

Ação e reação
Bateu, levou – em linguagem caseira, essa é a tradução do princípio de Newton. Durante doze anos, uma oposição fragmentada, atônita e hesitante não ousou levantar a voz. Mas a casta dominante abusou e atolou-se em crimes e malfeitos. Essa situação encorajou a oposição a mostrar seus músculos.

Taí. Os senhores do Planalto, que tinham armado esquema aparentemente infalível para conservar o poder, sentem que a reeleição está por um fio. Eis por que dona Dilma desce, por um momento, do pedestal da soberba para choramingar que a campanha está «agressiva».

Frase do dia — 193

«O PT chegou ao governo e se tornou o partido mais triste, mais vergonhoso de nossa história. Foi pior até do que a ditadura militar, no campo da ética, da seriedade.»

Pedro Simon, 84 anos, homem político gaúcho que já foi deputado estadual, governador e senador por quatro mandatos. Declaração dada em entrevista concedida ao jornal espanhol El País, 16 out° 2014.

No creo en brujas…

… pero que las hay, las hay.

José Horta Manzano

Bruja 2Não sou muito dado a assuntos esotéricos. Em matéria de vidência, premonição e artes conexas, costumo ficar com um pé atrás. Previsão boa mesmo é aquela que foi registrada em cartório. De preferência, antes de ocorrer o fato previsto. Isso é coisa rara.

Programa de tevê gravado e difundido no youtube antes do acontecimento tem, a meus olhos, o mesmo valor. Nestes tempos modernos, podemos dispensar carimbo, estampilha, autenticação e firma reconhecida.

Não sei se meus distintos leitores conhecem um certo senhor Carlinhos, de Apucarana (PR), para quem o futuro não envolve segredos. Vê e conta, a quem quiser ouvir, o que vai acontecer. Por vezes, erra – que ninguém é perfeito. Mas seus acertos são despudorados e desconcertantes. Fiquei sabendo hoje da existência do homem.

Se você não conhece o rapaz e dispõe de 7 minutos, recomendo seguir o caminho seguinte:

Bruja 1Primeiro, assista a um vídeo de 2 minutos, gravado pela TV Apucarana na primeira fase da «Copa das copas», ainda antes do encontro Brasil x México. O filminho foi publicado no youtube em 16 jun° 2014. Contrariando a esperança de milhões, o vidente afirma, com todas as letras, que o Brasil não ganhará a Copa. Diz também que os times que mais se aproximam do título são Alemanha, Holanda e Argentina. Diz mais ainda: se o Brasil pegar a Alemanha ou a Holanda, vai perder – vai levar um gol atrás do outro. E tem mais um detalhe: afirma que Neymar estará afastado do campo durante um ou dois jogos da segunda fase.

O vídeo, disponível no youtube, está aqui.

Em seguida, dê uma olhada no vídeo de 5 minutos gravado durante um programa do canal SBT e inserido no youtube em 12 jul° 2014. Indagado sobre as eleições que ocorreriam dali a 3 meses, o rapaz dá o nome dos três finalistas, na ordem de chegada. Põe Aécio em 1° lugar, Dilma em 2° e Marina em 3°. Repare bem que ele já menciona o nome de Marina Silva, esquivando Eduardo Campos, o candidato que viria a falecer dois meses mais tarde.

O vídeo, também disponível no youtube, está aqui. Se tiver pressa, pode pular o começo e assistir a partir do último minuto.

Urna 2Do jeito que vão as coisas, só resta aos atuais mandatários um último recurso: manipular os resultados das exóticas «urnas» eletrônicas.

Neste Brasil versão século XXI, uma desonestidade a mais ou a menos não há de fazer diferença.

Frase do dia — 192

«Tamanho é o marasmo das contas bolivarianas que a atual renda per capita venezuelana caiu 2% em relação a 1970, apesar de o preço do barril de petróleo ter aumentado dez vezes.»

Mac Margolis, em sua coluna do Estadão, 19 out° 2014.

Paraísos fiscais

José Horta Manzano

Ladrão 2Não resta dúvida de que o assunto do momento é a divulgação da roubalheira na Petrobrás. Eleições, temos a cada dois anos, não é surpresa. A baixaria é esperada, programada e bem preparada. Xingamentos, dossiês, ameaças de processo, sopapos, contravenções eleitorais, brigas de rua, calúnias, suspeitas de fraude, tudo isso é corriqueiro e, até certo ponto, tolerado.

Mensalão, dinheiro na cueca, avenidas e túneis superfaturados, viadutos que desabam são acontecimentos ainda mais graves. Infelizmente, sua repetição vem contribuindo para atenuar-lhes o impacto. Já está pra fazer dez anos que somos sacudidos por um escândalo novo a cada semana. O resultado é que o povo anda meio indiferente, apático, blasé.

Petrobras 3Mas a dilapidação da Petrobrás supera tudo o que a imaginação mais fértil (e mais maligna) pudesse antever. Perto dessa rapinagem, mensalão é dinheiro de pinga. O desfalque é tão monstruoso que chega a eclipsar a eleição presidencial. E como é que fica?

Se novo mandato for conferido a dona Dilma, não há conserto. O máximo que se pode esperar é algum esperneio, alguma declaração indignada, e pronto: fim de papo. Se, no entanto, a oposição levar a taça, o maior favor que poderia fazer ao País seria privatizar essa empresa tentacular. É a melhor – se não a única – maneira de evitar que tragédias como a atual se repitam.

No Brasil, o nível moral e intelectual dos eleitos é cronicamente baixo. O Estado, que depende dessa gente para gerir estatais do porte de uma Petrobrás, não está em condições de fazê-lo. Essa firma gigantesca estaria melhor em mãos privadas. Alguém acredita que, se não fosse pública, a empresa pudesse ter sido alvo de gatunagem dessa importância?

Desempenho Petrobrás x grandes petroleiras Índice FTSE - Financial Times Stock Exchange

Desempenho Petrobrás x grandes petroleiras
Índice FTSE – Financial Times Stock Exchange

Certo que não. Seria firma grande e respeitada, daria emprego a milhares de funcionários e – o que é importante – pagaria o devido imposto sobre seus ganhos. Sem ter de arriscar dinheiro do povo e sem ter de se preocupar com a lucratividade da empresa, o Estado recolheria os pesados tributos que incidem sobre a prospecção de petróleo, seu refino e a venda de seus derivados. Quem perderia com isso, se não os assaltantes?

LadrãoIsso posto, sobram perguntas no ar. O afano na Petrobrás sobe à casa dos bilhões. Não são milhões, são milhares de milhões – quantia inconcebível para mortal comum que, no fim do mês, tem de fazer conta de chegar.

Na berlinda, estão um doleiro e um antigo diretor da empresa. Pressionados, propuseram devolver algumas dezenas de milhões. Mas falta explicar onde está o resto do dinheiro. Dizem que foi utilizado para a campanha eleitoral de 2010. De 2010? E por que não para a de 2014? A roubalheira parou em 2010?

Balela. Posso até acreditar que algum trocado tenha ido parar nos cofres do partido dominante. Mas ninguém me fará engolir a toada de que, além do caixa dois de campanha, ninguém se beneficiou.

Ladrão 3São bilhões, minha gente! Do dinheiro seu e do meu. A prova maior de que essa fortuna foi metodicamente remetida para o exterior é a implicação de um doleiro. Fosse o dinheiro destinado a alimentar caixa negra de partidos, não haveria necessidade da intermediação de doleiro. O grosso do butim há de estar bem guardadinho, espalhado por paraísos fiscais, em nome de empresas-fantasma, de parentes, de amigos, de laranjas.

Se um dos diretores da Petrobrás, ator coadjuvante do triste espetáculo, propôs-se a devolver sozinho 70 milhões, onde está a propina distribuída às dúzias de outros beneficiários?

Something is strange

José Horta Manzano

Algo está esquisito.

Datafolha e Ibope divulgaram resultado de pesquisa sobre a intenção dos eleitores para o segundo turno de votação. Parecia até combinado: o resultado de ambos os insitutos foi i-dên-ti-co, com as vírgulas e os pingos nos is. Deu empate entre os candidatos.

Dia seguinte, vem a pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela revista IstoÉ. O resultado é drasticamente diferente do empate previsto pelas outras duas instituições.

Estatísticas 6Segundo o Sensus, Aécio é dono da preferência de 56,4% do eleitorado, enquanto dona Dilma fica com 43,6%. Falamos aqui de votos válidos. Não é nada, não é nada, são 13 pontos de diferença.

A revista IstoÉ, que pagou pelo serviço, divulgou a informação em manchete. O Estadão e a Folha de São Paulo deram a notícia bem de leve, en passant.

Sem ser especialista em análise de sondagens, devo dizer que os números desta última pesquisa fazem mais sentido. Não é concebível que a maioria dos brasileiros anistie os que lá estão e lhes conceda mais quatro anos de poder.

Seja como for, a discrepância entre as pesquisas é bizarra. Pra não dizer mais.

Diplomacia chinfrim

José Horta Manzano

A economia brasileira e a importância do País no tabuleiro internacional vêm-se deteriorando ano após ano. Analistas concordam. O distinto público, no entanto, nem sempre se dá conta do peso que nossa diplomacia representa nesse processo. Pelas escolhas que fez de seguir certos caminhos e esquivar-se de outros.

Aquarela do artista inglês William Smyth Porto do Rio de Janeiro visto de um navio - 1832

Aquarela do artista inglês William Smyth
Porto do Rio de Janeiro visto de um navio – 1832

O caráter fechado da economia brasileira já vem de tempos coloniais. Durante os trezentos anos seguintes ao descobrimento, navios estrangeiros estavam proibidos de atracar em portos brasileiros. Só receberam autorização depois da chegada de D. João VI, em 1808. E olhe lá: os portos só foram abertos porque a corte, que tinha vindo a contragosto fugindo das tropas de Napoleão, sentia falta de bens e mercadorias que não encontravam na carente colônia.

O governo Collor ensaiou tímida abertura. Os dez anos que se seguiram foram promissores. Parecia que nosso País, finalmente, despertava, pronto a ingressar no bazar mundial. E olhe que o momento era favorável, pouco antes do crescimento exponencial da China, quando ainda havia nichos de mercado por conquistar.

by Ernani Diniz Lucas, desenhista mineiro

by Ernani Diniz Lucas, desenhista mineiro

Isso foi até 2003, 2004. Já em meados do primeiro ano de governo do Lula, nosso País deu mostra de desinteresse por trocas internacionais. Inventou uma bobagem chamada Sul-Sul, uma espécie de clube dos pobres – que ideia insana… A formulação da política comercial externa apoiou-se no conceito dos «gigantes nacionais», deu corda (e dinheiro) aos eikes da vida e descansou. Deu no que deu.

E pensar que o governo companheiro tinha certeza de que, gigante por natureza, essepaiz seria forçosamente reconhecido como líder natural da região e, por consequência, como potência planetária. Assim, por inércia, sem mais nem menos, como se evidente fosse, à força de propaganda. Imaginaram que pudéssemos chegar lá por obra e graça do divino, não obstante tremenda desigualdade social, falta de poderio militar, PIB per capita subdesenvolvido e população semiletrada e inculta.

Sob a influência nefasta de um certo senhor Garcia, há doze anos eminência parda de nossa política externa, renegamos a imagem que havíamos levado séculos para forjar. O país cordial, acolhedor, pacífico, tolerante, simpático e esperançoso escorreu pelo ralo. Em seu lugar, surgir um Brasil esquisito, defensor de ditaduras sanguinárias, simpático a revoluções protagonizadas por narcotraficantes, amigo de regimes que apedrejam mulheres, deferente a sistemas autoritários – um Brasil que acolhe condenados pela justiça e repele perseguidos políticos.

É frustrante constatar que, em consequência de opções ideológicas empacadas num mundo que já acabou, nosso País se tenha apequenado. Nossa economia avassalou-se à China e atrelou-se às diretivas de Pequim. O Mercosul, criado para ser o motor de nossa inserção no circuito comercial planetário, tornou-se tribuna política onde tiranetes e postulantes se reúnem para maldizer os loiros de olhos azuis. Uma tristeza. A gente se pergunta como é possível ser tão dogmático e tão primitivo.

Dilma e Garcia 2O Estadão de 17 out° publicou uma comparação interessante entre duas visões da diplomacia política e comercial brasileira. O diplomata de carreira Rubens Barbosa e o «assessor» Garcia revelam suas convicções. O senhor Barbosa foi embaixador em Londres (1994-1999) e em Washington (1999-2004), o topo da carreira, sonho de todo diplomata brasileiro. O senhor Garcia, como já mencionei, é a eminência parda por detrás do desastre diplomático brasileiro destes últimos doze anos.

Se tiver curiosidade de ler o artigo do Estadão, clique aqui. Se você tiver mais o que fazer, tem problema não. Basta saber que Barbosa é artífice do projeto de Aécio Neves para o Itamaraty. E que Garcia está há 12 anos por detrás das decisões diplomáticas do Brasil e tudo indica que continuará lá em caso de vitória de dona Dilma.

Você escolhe.

Cammina fuori

Massimo Pietrobon (*)

Cammina fuori
Hai mai pensato che quasi tutta la tua vita hai camminato lungo percorsi disegnati per te da qualcun altro? Sentieri già battuti, strade urbane, marciapiedi, passerelle, pavimenti, scale, piazze – tutti questi suoli sono stati creati da qualcun altro e tu semplicemente li segui. Forse non siamo così liberi negli spostamenti come crediamo di essere.

Interligne 18b

Caminhe fora
Já lhe ocorreu, algum dia, que você passou a vida inteira percorrendo caminhos construídos para você por alguma outra pessoa? Estradas já batidas, ruas, calçadas, passarelas, andares, escadas, praças – todo esse chão foi criado por alguém e você não faz senão pisar e seguir adiante. Quem sabe nossa liberdade de ir e vir não seja tão ampla como imaginamos.

(*) Massimo Pietrobon, italiano de Treviso, edita o blogue poliglota Capitan-mas-ideas.blogspot.it

É do Caribe

José Horta Manzano

Você sabia?

Estava lendo, na Folha de São Paulo, sobre denúncia de malversações no consulado do Brasil em Mendoza, na hermana República Argentina. Os malfeitos foram apontados – pasmem! – pelo Banco Central do país vizinho.

Perto do assalto à Petrobrás, é café pequeno. Responsáveis pelo consulado andaram comprando dólares no oficial e vendendo no paralelo. É comércio pra lá de rentável dado que, naquela economia desregrada, o ágio é importante.

Santa Lucia

Santa Lucia

Pela reportagem, fiquei sabendo que nosso cônsul, sobre cujos ombros recai a suspeita maior, já não oficia em Mendoza. Foi transferido, faz alguns meses, para o posto de embaixador em Santa Lúcia, nas ilhas caraíbas (em português: no Caribe).

Curioso, procurei me informar sobre esse país, do qual havia vagamente ouvido falar. Pois saiba o distinto leitor que a ilha de Santa Lúcia mede uns 20km de largura por uns 40km de comprimento. Tem população total de 170 mil pessoas, um terço das quais vive em Castries, a capital. Profundos laços culturais e intensas trocas comerciais entre nosso país e Santa Lúcia justificam amplamente a instalação de embaixada brasileira nesse país, parceiro importante e estratégico.

Levei um pouco mais longe minha curiosidade. Descobri que o Itamaraty mantém embaixada em outros países exóticos. Em Antigua e Barbuda, por exemplo, país de 440km2 e 90 mil habitantes. Num país chamado Granada igualmente. Granada espalha seus 90 mil habitantes por um território de 350km2. Para efeito de comparação, note-se que o município de São Paulo tem superfície de 1500km2.

Outro paraíso privilegiado a contar com embaixada brasileira é o burgo de Basseterre (13 mil habitantes), capital de São Cristóvão e Névis, país de 40 mil habitantes.

Há muitos outros casos do mesmo naipe. Não vou citar todos porque é maçante e deixa um gosto amargo. Sabe você quanto custa montar e manter uma embaixada? Não sabe? Nem eu, mas é fácil imaginar que custe mais que dez merréis. Aluguel, mobiliário, meios de comunicação, salário do embaixador, salário do pessoal, gastos de representação, despesas de viagem, papelada, malote diplomático. Serão alguns milhões por ano. Para quê?

São Cristóvão e Névis

São Cristóvão e Névis

Nem Estados Unidos, nem França, nem Reino Unido têm embaixada em Pyong Yang, Coreia do Norte. O Brasil tem. Para que serve, se não como escoadouro de dinheiro que poderia ser mais bem empregado? Pois eu vou-lhes dizer para que serve: é fruto de elucubrações ingênuas dos aspones presidenciais destes últimos doze anos. Se os EUA não têm embaixada e nós temos, isso significa que somos mais importantes. Voilà!

A multiplicação de embaixadas não nos torna mais importantes nem mais respeitados. Demonstrações dessa natureza não convencem. Por minha parte, eu trocaria todos esses penduricalhos por um prêmio Nobel em área científica. Unzinho só. Vale mais que todas as embaixadas no Caribe.

Ninguém sabe direito por que o Brasil é anão diplomático. Por falta de embaixadas é que não será.

Frase do dia — 191

«Das poucas esperanças que nos restam e nos alimentam em busca de um novo tempo neste Brasil contraditório, adolescente, malresolvido, que tal um pouco de carinho e compreensão?

Um ombro amigo é um lembrete: o barco é o mesmo, a casa é uma só. Se pegar fogo no quarto de empregada, queima até a suíte do casal. No fundo, somos todos interdependentes. É bíblico, servos e senhores, lado a lado.»

Eduardo Aquino, neurocientista e escritor, em sua coluna do jornal O Tempo, de BH. Para ler o texto integral, clique aqui.

Debatendo amenidades à véspera do golpe

Fernão Lara Mesquita (*)

A reunião de Dilma Rousseff com “movimentos sociais” reconhecidamente sustentados por seu governo no Palácio do Planalto – para marcar para morrer a democracia no Brasil pelo mesmo gênero de falcatrua plebiscitária que a matou nos vizinhos “bolivarianos” que o PT aponta como modelos politicos – é o grande ausente não só do último debate como de toda esta eleição.

Coup d'etatComecei a sequência desta nota escrevendo que, em qualquer outro lugar do mundo, este seria o tema dominante da campanha. Mas logo me dei conta de que isso é absurdo. Em nenhum país civilizado seria tema de eleição propor aos eleitores a cassação de seus próprios representantes, justamente aqueles que foram eleitos como fonte exclusiva de legitimidade de qualquer ação política ou legislativa.

Isso contradiz o axioma e a essência do contrato social e, por conseguinte, do regime de democracia representativa. Significa a substituição de 140 milhões de eleitores por um punhado de organizações não governamentais – organizadas pelo governo e financiadas pelo partido que ora ocupa o poder.

Perto disso, toda a vasta crônica da corrupção da Era PT fica pequena. Mesmo assim, o absurdo kafkiano de pedir aos eleitores que se cassem a si mesmos não só é exequível entre nós, como, às vésperas da eleição, pôde transformar-se no Decreto n° 8243, assinado pela candidata da situação sem consultar os interessados.

Nem o Congresso Nacional, cujos poderes estão sendo usurpados, nem – acredite quem quiser que venha a ler este texto no futuro – os candidatos que disputaram a presidência da República esboçaram a menor reação. O assunto sequer chegou a ser mencionado ao longo de toda a campanha eleitoral.

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

Adestrando cães para a eleição

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minhas cachorras não entendem nada de processo eleitoral. Tentei explicar a elas que, a intervalos fixos, nós humanos precisamos escolher mandatários. Como elas não sabiam o que significa mandatário, expliquei que são uma espécie de “líder da matilha”.

Assombradas, elas retrucaram: “Escolher? Como assim? Líderes não se escolhem, você apenas os reconhece”.

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Um tanto ressabiada, aprofundei a explicação: É que, entre nós, não há um líder de matilha que seja reconhecido universalmente e nem mesmo lideranças que durem a vida inteira. Elas riram, atônitas. Insistiram em saber por que isso acontece na espécie humana.

Levei algum tempo refletindo e acrescentei: É que cada pessoa dá preferência a um estilo de governo. Como a pessoa escolhida vai mandar em nossas vidas durante todo o mandato, cada um precisa descobrir com qual candidato se identifica mais.

Elas gargalharam à solta por um bom tempo e novamente retrucaram: “Mandar? Líderes não mandam. Eles simplesmente vão na frente e abrem caminho para o resto da matilha. Nós não temos de ‘obedecer’ ao líder, apenas confiamos cegamente nele e, por isso, o seguimos”.

Mais uma vez, fiquei pensativa por alguns minutos e depois arrisquei: Bom, como o eleito foi escolhido por nós, ele tem, por assim dizer, obrigação de respeitar e fazer cumprir os projetos que seus eleitores acham que são prioritários.

Novas risadas e nova pergunta: “E o que acontece se o líder não cumpre o que prometeu?”

Respondi orgulhosa pela sabedoria de nossa espécie: Aí a gente o destitui e começa tudo de novo, tentando aprimorar o processo de escolha e discutindo novos requisitos para que não aconteça outra falha.

– “Mas o que acontece com o líder que não deu certo? Ele é morto ou banido de vez da matilha?”

Não – respondi – ele pode explicar por que não cumpriu o prometido, comprometer-se a melhorar e, se a gente acreditar que ele está mesmo empenhado em fazer tudo certinho, ele pode até mesmo se candidatar de novo.

Crédito: WaveMusicStudio

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De queixo caído, minhas cachorras engataram uma pergunta delicada: “Mas se ele já deu provas de que não merece confiança, o que leva vocês a acreditarem que vai ser diferente da próxima vez?”

Gaguejei, meio sem graça, tentando me dar um tempo para elaborar uma resposta convincente: Veja bem – comecei – a gente compara sempre dois candidatos e escolhe aquele no qual a gente confia mais. É por comparação, escutando os argumentos que cada um apresenta para convencer a gente.

Crédito: Bullies.centerblog.net

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Elas rolaram no chão de tanto rir: “E vocês se fiam em palavras? Em meio à enxurrada de palavras do debate de ontem à noite, um candidato manteve a cabeça baixa, orelhas em pé, o corpo todo encrespado e projetado para a frente, o rabo baixo e rosnou a maior parte do tempo. Entre nós, isso é sinal de que se está diante de um valentão que quer ganhar a briga na porrada e, portanto, é alguém em quem não se pode confiar. Já o outro candidato manteve o peito cheio, a cabeça e o corpo eretos, olhos bem abertos, sorriso nos lábios e o rabo abanando o tempo todo. Entre nós, isso é sinal de que deseja uma aproximação amigável, de que não há razão para ter medo. Agora, o tom monocórdio e sem vida das palavras dos dois deixava claro, pelo menos para nós, que eles estavam só fazendo de conta que eram isso mesmo”.

Então – disse eu, já exausta – nós humanos às vezes esquecemos de verificar se as palavras que a pessoa está usando combinam com sua postura corporal porque estamos mais preocupados com o conteúdo do que com a forma.

“Mas – observou minha golden retriever – todas as vezes que eu abano o rabo freneticamente e pulo nas pessoas para fazer festa, você puxa a guia de volta e me dá uma bronca. Quando eu começo a latir e a rosnar, você grita ‘não’. Como é que fica?”

Desisti de buscar novas explicações. Elas nunca vão entender mesmo o processo eleitoral dos humanos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O feioso português da presidenta

Carlos Eduardo Gonçalves (*)

Este escriba aqui não vota em Dilma não, apesar de já ter votado em Lula, em 2006.

Os motivos são diversos, mas destaco dois: a incompetência no manejo da economia e a corrupção sistêmica.

Tem um terceiro, porém, que pode até ser menos relevante, mas que, confesso, me gera certa repulsa e me motivou a rascunhar este post: o uso do português pela presidenta.

Dilma, desculpe-me, mas seu português é de estarrecer. Embaralhado, sem fluência, sem um charmezinho sequer.

Além disso, muitas vezes não dá mesmo para entender o que ela quer dizer, tortuosas estruturas de difícil apreensão, idas e vindas labirínticas. E aquele repetir infinito do «no que se refere», tão pouco natural e sinalizando escassez de termos e expressões substitutas.

A presidenta já citou o Velho do Restelo para criticar os críticos, mas será que leu efetivamente Camões?

Interligne 18c

(*) Carlos Eduardo Gonçalves é economista, escritor e professor da USP. Edita o blogue Prosa Curta, alojado no Estadão.

Frase do dia — 190

«Ao dizer que ‘voto não se transfere’, a fim de desdenhar do apoio de Marina Silva a Aécio Neves, a presidente Dilma Rousseff contraria a razão de sua própria eleição em 2010. Ou então, nestes quatro anos, passou a acreditar que era ela a dona daqueles quase 56 milhões de votos transferidos por Lula.»

Dora Kramer, em sua coluna no Estadão de 14 out° 2014.