Lula não gosta de Poor’s

Maurício Terra (*)

A declaração do ex-presidente Lula a respeito da reclassificação do Brasil pela agência Standard & Poor’s pode ser compreendida de 3 maneiras bastante diferentes:

Interligne vertical 11aou é uma mais uma bravata de petista para desqualificar opositores sem discutir o mérito da argumentação;

ou trata-se de pura e simples ignorância a respeito dos métodos utilizados para medição de riscos – reflexo do fato de seus sei lá quantos títulos de “doutor” não terem sido obtidos por méritos acadêmicos;

ou ainda é o caso de personalidade incapaz de confrontar adversidades, como uma criança que acusa o irmão pela traquinagem descoberta pelos pais.

(*) Excerto de artigo de Maurício Terra, publicado no DP de 12 set° 2015. Para ler na íntegra, clique aqui.

Mercado persa

José Horta Manzano

Futebol 1Nos últimos anos, as relações exteriores estão longe de ser o foco das atenções do Planalto. Na era do Lula, ações desengonçadas foram tentadas. Jogo de futebol para apaziguar a guerra entre palestinos e israelenses foi o truque imaginado por nosso iluminado guia, vejam só! Depois dessa, levaram um chega pra lá e recolheram-se a seu canto.

Por natureza, diplomacia é discreta. Dispensa ações espetaculosas. Grandes acertos entre nações não se fazem diante das câmeras nem na presença de jornalistas. Quando vem o comunicado oficial, já está tudo combinado.

O Lula, crente que possuía um «toque de Midas» capaz de moldar a realidade à sua conveniência, levou oito anos tentando deixar sua marca na história da humanidade. Não é impossível que tenha, algum tempo, acalentado a ideia de receber um prêmio Nobel. Em qualquer categoria servia, nem que fosse honoris causa. Evidentemente, não recebeu nada, que nem todo o mundo é trouxa.

Recolhido nosso guia à condição de cidadão comum, sua sucessora mostrou total inapetência – pra não dizer desdém – pela política internacional. A seu favor, diga-se que a moça tem tido muito com que se preocupar dentro das fronteiras.

Itamaraty

Esse desprezo do Planalto por assuntos externos, longe de ser negativo, começa a dar frutos. Afinal, convenhamos: dona Dilma, seus áulicos e seu partido lidam com relações exteriores, aos trancos e barrancos, há apenas doze anos. Enquanto isso, o Itamaraty carrega dois séculos de experiência no ramo. O traquejo de um e do outro não é comparável.

Quase na surdina, como se deve, o ministro das Relações Exteriores do Brasil está, este fim de semana, em Teerã. Não foi propor partida de futebol nem associação ao Mercosul. A visita é mais séria. No rastro do aquecimento das relações entre os EUA e o Irã, a perspectiva alvissareira é o fim do embargo que estrangula a economia da potência médio-oriental há 35 anos.

Poucos se dão conta de que o Irã – que também pode, sem ofensa, ser chamado pelo tradicional e poético nome de Pérsia – é um grande país. Tirando fora o regime autoritário, que ressuscitou costumes que a gente imaginava banidos para sempre, é uma nação de peso. Regimes passam, nações ficam.

Iran 1São 80 milhões de habitantes (tanto quanto a Alemanha). O PIB anual, estimado em 12 mil dólares per capita, está longe de ser irrisório. Para efeito de comparação, o Brasil chega a 16 mil dólares por cabeça, pouca coisa a mais. Uma curiosidade: o nome da moeda persa é rial, palavra que tem a mesma origem que nosso real – a moeda do rei.

Na mídia brasileira, a visita do chanceler Mauro Vieira não mereceu mais que nota de pé de página. A notícia, contudo, não escapou a países que estão de olho no imenso potencial do mercado iraniano pós-embargo. Entre eles, naturalmente, a China.

Teerã

Teerã

O fato de a agência oficial chinesa ter publicado artigo sobre o assunto mostra que o governo de Pequim está atento a todos os que tiverem intenção de levar uma lasquinha do novo mercado.

Quanto à agência oficial iraniana, já pôs no youtube a coletiva de imprensa dada hoje pelo ministro brasileiro e pelo homólongo persa. Está aqui.

Pátria educadora – 2

Cláudio Humberto (*)

Beca 1A Universidade Federal do Paraná abriu 60 vagas no curso de Direito especialmente reservadas para os “beneficiários do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária”.

Se dinheiro sobra para financiamento de estudo dos sem-terra, falta para o Ministério da Educação. Com a crise financeira, o governo cortou R$ 1 bilhão no orçamento do seu ministério “mais importante”.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

De bom tamanho

José Horta Manzano

Señor Leopoldo López, cidadão venezuelano que não compactua com os rumos «bolivarianos» que estão sendo impostos a seu povo, estava na cadeia havia ano e meio à espera de julgamento.

Manif 2Seu crime? Opor-se ao descalabro que tomou conta de seu país, outrora pacífico e promissor. Organizou passeatas, liderou manifestações, difundiu centenas de tuítes. Os guias da «revolução» não apreciaram nadinha. Disseram que o rapaz fazia apologia da violência, que suas palavras configuravam incitação à selvageria.

Depois de deixar que ele mofasse numa masmorra por quase dois anos, submeteram-no a um daqueles processos que fazem lembrar os expurgos stalinistas dos anos 30. A acusação pediu 14 anos de prisão e 14 anos obteve. Um jogo de cartas marcadas.

Justiça 3Catorze anos por delito de opinião, distinto leitor. Nosso vizinho (e sócio no Mercosul!) anda cada dia mais parecido com a China, o Irã, a Arábia Saudita, a Rússia, a Coreia do Norte, países onde nenhuma dissensão é tolerada.

Se a sentença que desabou sobre o infeliz cidadão não tiver sido decisão política, que terá sido?

Interligne 18b

Ocorre-me um episódio que fez barulho, no Brasil, alguns meses atrás, mas que já anda meio esquecido. No meio de tanta turbulência, é natural que detalhes desçam pelo ralo. Vale a pena repescar este aqui.

Lula e Fidel 2Quando começou a se dar conta de que a vaca ia indo direto pro brejo, nosso guia ficou furioso. Um belo dia, olhos dardejantes, num discurso inflamado, convocou um tal de Stédile par pôr em ação seu «exército». Todos os jornais deram a notícia.

Concluindo: se os tuítes de señor López foram incitação à selvageria, a ameaça de nosso guia também foi. Que pena merece o autor? Será que catorze anos estariam de bom tamanho?

300 + 1

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 11 set° 2015

Chamada do Estadão, 11 set° 2015

Não vejo motivo para espanto, que não é só deputado que advoga em nome de outros. Tem até ex-presidente(!) que se tornou lobista de construtora. Que faz um lobista? Defende os interesses de seus mandantes.

Se faltava encontrar o elo entre nosso guia e os «300 picaretas» que ele um dia denunciou, não precisa procurar mais: a conexão agora está clara. São 300 picaretas… mais um.

A faixa presidencial

José Horta Manzano

Você sabia?

Pelo rodar da carroça, senhor Michel Temer pode ir encomendando o terno da posse. Parece ser questão de (pouco) tempo. O rebaixamento da nota de confiança na economia do País é golpe duro e vem em hora delicada. Desconfiança dos financistas internacionais é o pior que poderia acontecer neste momento.

Faixa presidencialOs grandes investidores institucionais – fundos de pensão, fundos de ações, cestos de investimento – têm como regra seguir a orientação das agências de avaliação de risco. Estatuto de fundo sério proíbe expressamente que se arrisque dinheiro em países mal avaliados. Portanto, não é questão de simpatia. O Brasil continua bonito por natureza, mas será desprezado, que as regras têm de ser seguidas.

Os personagens políticos brasileiros, tão flexíveis, estão-se tornando todos oposicionistas, já repararam? Até nosso guia anda vociferando mais que chefe de oposição. Com a água batendo na cintura, ninguém quer saber de prestar solidariedade à atual mandatária. Tem gente que nem se aproxima mais dela, com medo de aparecer a seu lado em alguma foto furtiva.

Getúlio Vargas

Getúlio Vargas

Arthur Bernardes

Arthur Bernardes

Ah, que senhor Temer aproveite e mande também preparar a faixa presidencial, símbolo do cargo! Aquele pedaço de tecido aformoseia e vai bem em qualquer um – desde que o portador saiba usar.

Instituída no Brasil pelo marechal Hermes da Fonseca, a faixa já é centenária. Tirando um retoque aqui, outro ali, o desenho pouco se alterou desde a criação. O que se tem alterado, isso sim, é a maneira de vesti-la.

Fernando Collor foi o último a paramentar-se com a faixa sobre a camisa, mas debaixo do paletó – como se vinha usando fazia 80 anos. Depois dele, sabe-se lá por que razão, os presidentes passaram a portar o adereço por cima do paletó. Fica mais visível, é verdade, mas abala a solenidade dos raros momentos em que se costuma usá-la. Afinal, não é faixa de concurso de miss.

Sabia o distinto leitor que, se calhar de Michel Temer assumir o trono, será o primeiro presidente paulista desde Rodrigues Alves, que deixou o Catete em 1906, faz mais de um século, num tempo em que ainda não se usava a faixa?

Juscelino Kubitschek

Juscelino Kubitschek

Depois disso, o único paulista a ocupar a presidência o fez de forma interina e efêmera: foi Ranieri Mazzili, em duas ocasiões: 1961 e 1964. No total, só presidiu a nação por um mês. Em caso de vacância do cargo, o presidente do Congresso assume provisoriamente, eis por que o homem foi parar lá.

Vamos ver se senhor Temer, dono de certo senso de elegância, vai pensar em vestir a faixa condignamente. Se o destino decidir guindá-lo ao cargo maior, naturalmente.

Interligne 18hEcharpe 1

Origem do símbolo
A faixa, como símbolo de poder, surgiu na Europa em meados do século XIX. Foi adotada em dezenas de países, tanto na Europa quanto na África e na América. Na França, é atributo de prefeitos, não do presidente. Os alcaides a vestem em cerimônias oficiais, principalmente quando celebram casamentos. É sempre usada por cima do paletó.

As águas vão rolar

Canivete do exército suíço

Canivete do exército suíço

Interligne 28a

Canivete do exército francês segundo Michael Crawford, desenhista americano

Canivete do exército francês
segundo Michael Crawford, desenhista americano

Interligne 18h

PS: De repente, me dou conta de que os menores de 60 anos devem estar-se perguntando o que é que o título tem que ver com as imagens. Explico. Para o carnaval de 1954, Zé da Zilda compôs uma marchinha muito simples, fácil de memorizar, daquelas que todos se lembram com facilidade. Ia assim:

As águas vão rolar
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu passo a mão no saca, saca, saca-rolha
E bebo até
Me afogar.

Fosse hoje, o autor perigava ser processado por incitação ao uso indiscriminado de bebida alcoólica. Na época, o mundo funcionava diferente. A gravação original está no youtube.

O cabinho de pera

José Horta Manzano

Pera 1Quando querem dizer que um indivíduo “se acha”, os franceses dizem que ele «ne se prend pas pour la queue d’une poire» – não se considera um cabinho de pera. É expressão coloquial, a utilizar com moderação. Não pega bem em fala formal.

Numa certa altura dos acontecimentos, vozes chegaram a se levantar para incentivar o doutor Joaquim Barbosa, antigo membro e presidente do STF, a candidatar-se à presidência da República. Afastado dos holofotes, o ex-ministro está hoje menos visível. Longe dos olhos, longe do coração.

Mesmo assim, quando provocado, não nega fogo. Ainda estes dias, indagado sobre eventual processo de impedimento contra a presidente, Barbosa lançou, sem se preocupar com o efeito que pudesse causar, a seguinte pérola: «Não acredito no Tribunal de Contas da União como órgão sério desencadeador de um processo de tal gravidade. O Tribunal de Contas é um playground de políticos fracassados.»

Joaquim BarbosaFrase pesada, não? Tivesse saído da boca de nosso guia ou de certas figurinhas carimbadas do Congresso, não teria grande importância, que grande parte daquela gente é primitiva. Mas vindo de antigo presidente do STF, francamente…

Há opiniões que o distinto leitor e eu podemos até emitir, em conversa informal, de preferência numa roda de amigos. Já uma figura da estatura do ex-ministro teria de manter recato. O decoro na escolha dos termos faz parte da liturgia do alto posto ocupado.

Playground 2Não tenho antipatia por esse senhor. Afinal, o Brasil deve a ele a quebra do antigo tabu que determinava que gente importante não vai pra cadeia. Nesse particular, nossa história recente se divide entre o antes e o depois do Mensalão. Agradecidos ficamos todos.

O fato de ter prestado bons serviços à nação, contudo, não lhe dá blindagem para pairar acima do bem e do mal. A arrogância carcome a imagem daquele que, um dia, foi grande. A modéstia daria frutos mais saborosos.

Playground 1No fundo, o destino costuma fazer bem as coisas. O ministro estava no lugar certo na hora adequada. Prestou serviços inestimáveis a seus conterrâneos. Todos lhe somos gratos. Foi-se embora porque quis. Agora, basta.

Se lhe pudesse dar uma sugestão, diria ao doutor Barbosa que deixasse a soberba de lado. Que não arruine a extraordinária imagem que deixou.

AQUILA NON CAPTAT MUSCAS
A águia não caça moscas
Seres superiores não devem se preocupar com ninharias

Uma fábula contemporânea

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Coroa de rei

Era um reino grande, bonito por natureza e relativamente poderoso, mas sempre às voltas com a indolência e a indisciplina de seus cortesãos. Buscavam todos com avidez formas de agradar o rei, sem que para isso tivessem de fazer muito esforço. O fundamental, diziam, era que o rei acreditasse piamente que era amado por seu povo, respeitado por outros reinos e que sua fama de ser capaz de superar as piores adversidades jamais seria maculada.

O tesoureiro do rei era um dos mais criativos nessa missão. Sempre que o rei extrapolava nos gastos com guerras, acordos internacionais, recepção festiva a embaixadores estrangeiros, saraus, importação de cosméticos e roupas especiais para a rainha ou brinquedos para os príncipes, ele conseguia convencê-lo a introduzir novos tributos.

Rio Alma 1

O reino já tinha até mesmo conquistado fama além-fronteiras por ter inovado na geração de novas receitas. Cobrava-se, por exemplo, pela utilização dos espaços públicos, assim como pelo uso das águas dos rios e córregos. “Tudo isso reverte em favor das pessoas”, orgulhava-se em alardear o tesoureiro. “Afinal, a população não teria como sobreviver, cuidar de suas plantações e animais e transportar suas mercadorias se não pudesse contar com a generosa natureza de nosso reino e com a magnanimidade de nosso rei que não se opõe a compartilhá-la com o gentio. Nada mais justo, então, que todos paguem para usufruir dessas benesses”, concluía ele.

Secretamente, o tesoureiro vinha trabalhando na criação de um novo imposto que incidiria sobre o ar respirado, demorando-se apenas na finalização do difícil trabalho de estabelecer alíquotas proporcionais à estatura, peso, gênero, idade e condição física de cada cidadão. Mesmo antevendo novas e virulentas revoltas da população, nada abalava seu ânimo, já que sabia que podia contar com o fervor da guarda palaciana para refrear a fúria da população.

by Robert Thaves, desenhista americano

by Robert Thaves, desenhista americano

Outro que se esmerava em projetar uma imagem de dinamismo e inovação para o atendimento dos interesses do rei era o administrador do principal burgo do reino. Sabia ele que o rei apreciava fazer longos passeios diários em visita a suas múltiplas herdades, sempre cercado por seu séquito. Com isso, as estradas do reino estavam sempre congestionadas e, para facilitar a passagem de tantas carruagens e carroças de apoio, o administrador optava por interditá-las por longos períodos. Não havia como estipular a duração exata da obstrução na ida e na volta, uma vez que o rei não podia ser importunado com a pequenez de problemas administrativos.

Trafic 1Pouco tempo se passou para que as primeiras reclamações furiosas começassem a chegar. Muitos camponeses se queixavam das dificuldades para levar seus produtos até o burgo e alguns, descrentes de que a situação pudesse mudar a curto prazo, optavam por fazer o percurso a pé, carregando nas costas enormes cestos de palha.

Fosse como fosse, os congestionamentos e os vários acidentes envolvendo cavalos, pessoas, cestos, carruagens e carroças começaram a incomodar o administrador. Temendo que os sinais de descontentamento da população fossem percebidos pelo rei, ele teve, então, a ideia de dividir todas as estradas e ruas do burgo em duas faixas: uma mais larga para uso exclusivo da família real e de seu entourage – à qual deu o nome de faixa nobre; e outra, bem mais estreita, para o tráfego de carroças e uso dos cidadãos comuns, que passou a designar como faixa de serviço. O projeto amainou os conflitos por algum tempo, mas logo novas reclamações começaram a pipocar.

Trafic 2Os conflitos mais sérios passaram a acontecer nos dias em que o rei decidia ir à caça, acompanhado de membros da família real, dos cortesãos de praxe, de seus auxiliares diretos, de suas matilhas de cães e, ainda, dos servos encarregados de alimentá-los, hidratá-los e recolher suas fezes. Se os cortesãos podiam se valer da faixa nobre para sua locomoção, aos demais participantes dessas empreitadas só restava utilizar a faixa de serviço, compartilhando-a com os cidadãos comuns.

Embora os enormes congestionamentos na faixa de serviço fossem o ponto focal da maioria das reclamações, os vários acidentes e incidentes envolvendo agora cavalos, cães e pessoas de todas as estirpes tornaram-se alvo de agudas críticas e novas preocupações para o administrador.

Ciclofaixa do futuro

Ciclofaixa do futuro

Num dia em que o rei perdeu dois de seus melhores cães atropelados, o administrador percebeu que não havia mais como adiar a tarefa de refazer a divisão das faixas de trânsito. Relutantemente, diminuiu alguns poucos centímetros da faixa nobre e dividiu o espaço restante em duas novas faixas: uma pela qual deveriam circular as carroças dos auxiliares diretos e os servos do rei, a população e suas carroças de transporte de mercadorias; a terceira e nova faixa destinava-se exclusivamente à circulação dos cães da matilha real.

O que aconteceu após a implantação da nova regulamentação de tráfego? Um imprevisto e incontrolável aumento no número de queixas, vindas desta vez tanto da nobreza quanto dos cidadãos comuns. O problema agora era que as faixas de tráfego haviam se tornado tão estreitas que, inevitavelmente, as carruagens e carroças colidiam umas com as outras, as pessoas eram pisoteadas por cavalos e mordidas por cães, e estes continuavam a ser atropelados e mortos por não respeitarem as divisórias de faixas – uma situação compreensível não só por se tratar de animais irracionais, mas principalmente porque os cachorros do rei não estavam acostumados a obedecer a limites.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Desfile chocho

José Horta Manzano

Por morar um bocado longe, não pude assistir aos desfiles do 7 de setembro. Mas vi as imagens – as fotos, pra ser mais exato. A parada de Brasília me pareceu chocha, murchinha, desencantada, sem público, sem calor, sem entusiasmo.

Onde está o público, gente?

Onde está o público, gente?

Interligne 28a

Entusiasmo "espontâneo" só mesmo na tribuna da torcida organizada

Entusiasmo “espontâneo” só mesmo na tribuna da torcida organizada

Interligne 28a

Na falta de faixa presidencial, sr. Wagner ostentou a condecoração da Ordem do Mérito da Defesa

Na falta de faixa presidencial, sr. Wagner ostentou a condecoração da Ordem do Mérito da Defesa. Questão de elegância.

Interligne 28a

Plateia do 14 de julho, Paris

Plateia de um 14 de julho, Paris

Interligne 28a

Plateia do 14 de Julho, Paris

Plateia de um 14 de Julho, Paris

Interligne 28a

Falam de nós – 11

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

«Se pensava che la sua ricandidatura alle prossime presidenziali fosse una passeggiata, Luiz Inacio Lula da Silva si è sbagliato.»

«Se imaginava que sua candidatura à próxima eleição presidencial fosse um passeio, Luiz Inácio Lula da Silva se enganou.»

Bluewin, portal de Swisscom – a mais importante operadora suíça de telecomunicações –, em artigo publicado em língua italiana em 5 set° 2015.

O sete de setembro aqui e ali

José Horta Manzano

Sete de setembro não é feriado na França. Esta segunda-feira é dia como qualquer outro. O presidente da República, François Hollande, está concedendo entrevista coletiva a uma plateia de jornalistas. O formato é clássico: primeiro, fala o presidente; em seguida, jornalistas fazem perguntas.

A popularidade das personalidades políticas francesas é aferida mensalmente. A do presidente, embora seja bem superior aos 7% de dona Dilma, não vai além de 26% dos entrevistados. Um presidente impopular.

François Hollande 7Entrevistas coletivas presidenciais na França são organizadas duas vezes por ano. Ainda que a aprovação do presidente esteja lá no fundo, não há previsão de panelaço. Nem de colheraço. Os céus de Paris não perigam ver boneco inflado vestido de presidiário.

É permitido concluir que as vaias de que dona Dilma é obrigada a fugir não são unicamente fruto da baixa popularidade. O peso da roubalheira é que é insuportável. O sentimento de ter sido assaltado causa frustração e revolta. Eis o cerne da bronca dos brasileiros.

Recebendo refugiados

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 6 set° 2015

Chamada do Estadão, 6 set° 2015

Alguém está brincando com as palavras. Só nestes últimos dois dias, depois que a chanceler deu seu acordo, a Alemanha recebeu 27 trens lotados de refugiados. Calcula-se em 7000 o número total de recém-chegados. Em pouco mais de 24 horas.

Chamada do alemão Die Welt, 6 set° 2015

Chamada do alemão Die Welt, 6 set° 2015

Uma coisa é prometer, outra, bem diferente, é fazer. Como dizem os italianos, «tra il dire e il fare, c’è di mezzo il mare» – entre o dizer e o fazer, há um oceano.

Lágrimas de crocodilo

José Horta Manzano

Letras 1Discurso da presidenta é um perigo. Principalmente se for feito de improviso. E piora quando não há grande coisa a dizer – como costuma acontecer. A boa cidade de João Pessoa teve direito a uma amostra estes dias.

Todos sabem que dona Dilma peleja com a língua portuguesa. A briga é constante. O problema maior da fala da mandatária é a falta de coerência do discurso, que deixa no ar a suspeita de que seu pensamento também seja falho de lógica.

Boulet 1Há um trecho digno de nota. É quando madame declara que: «Esse país também precisa encarar de frente a questão da igualdade racial.» Temos aí três problemas.

Primeiro, o problema da convivência racial – amplificado pelos companheiros, por razões eleitoreiras. Continuar soprando sobre brasas não é a melhor solução.

Segundo, um problema de convivência pronominal. Esse país? Que país? A presidente deve ter-se enganado. Aposto que ela se referia a este país.

Terceiro, um problema pleonástico. Sua Excelência falou em encarar de frente. Como é que é? E a alguém viria a ideia de encarar de costas, presidente? Esse é parente de ver com os olhos e de entrar pra dentro.

Crocodilo 1Há mais. A meu ver, o pior foi a comprovação de que o discurso presidencial é vazio, são palavras ao vento, sem eira nem beira. Vejam como foi.

Numa tentativa de surfar na onda do momento, madame evocou aquele infeliz bebê resgatado sem vida numa praia turca. Afirmou que o menino morreu porque «os países» criaram barreiras para refugiados. Nessa altura, faltou o gesto de grandeza – ninguém pode dar o que não tem.

Dona Dilma ateve-se a acusar «os países», totalmente esquecida de que ela preside um deles. Com a mente colonizada pela influência de seus correligionários, botou a culpa nos outros, como é hábito entre seus companheiros.

Faz mais de quatro anos que dona Dilma preside este país. Digo bem: este. A guerra civil já dura anos na Síria. Que se saiba, nossa mandatária não mexeu uma palha para acolher famílias de refugiados.

Refugiados sírios segundo a contagem da Agência da ONU para refugiados

Refugiados sírios segundo a contagem da Agência da ONU para refugiados

Derramar lágrimas agora e, levianamente, acusar «os países» de negar refúgio a perseguidos soa hipócrita e demagógico.

Terminado o discurso de João Pessoa, como é que fica? Constrói-se uma passarela para acolher famílias sírias? Ou vira-se a página e fica tudo como estava antes?

Interligne 18b

PS: Para almas tolerantes que tiverem a pachorra, o site oficial do planalto publicou o discurso da mandatária. Na íntegra.