Os “malfeitos” da Volkswagen

José Horta Manzano

Carro 5A coisa anda preta pros lados da Volkswagen. Para os que acham que desgraça pouca é bobagem, taí a confirmação dos fatos. A maior montadora de automóveis do planeta – pelo critério de número de carros produzidos – está numa sinuca de bico.

Já contei ontem o lado mais folclórico da tempestade que despenca sobre a companhia. O Wolfsburg Futebol Clube, cuja história se confunde com a da Volkswagen, tomou uma lavada do Bayern Munique por cinco a um. Com cinco gols marcados em apenas nove minutos pelo surpreendente Lewandowski. O deles, não o nosso.

Carro 6Fosse só isso, não daria uma crônica. O problema é bem maior e pra lá de grave. A mídia brasileira, preocupada com problemas internos, tem dado pouco espaço à catástrofe que se abate sobre a montadora alemã. Na Europa, já faz vários dias que jornais, rádio e tevê trazem, em manchete, a evolução da tragédia.

Apanhada com a boca na botija por autoridades de vigilância dos EUA, a VW foi obrigada a reconhecer ter instalado em 11 milhões(!) de carros movidos a diesel um dispositivo eletrônico secreto para fraudar controles antipoluição.

A coisa funcionava de modo sorrateiro. No momento em que o carro era submetido aos controles periódicos obrigatórios, a engenhoca emitia dados falsos que faziam crer que a emissão de poluentes estava dentro das normas americanas. Na verdade, os gases estavam muitíssimo acima da tolerância.

Carro 7O escândalo está assumindo proporções globais. O presidente do grupo, mesmo alegando ignorar a falcatrua, foi forçado a demitir-se – o que me parece consequência lógica. Se o homem sabia, é mau dirigente e tem de sair. Se não sabia, é mau dirigente e tem de sair. (Toda semelhança com situação ocorrida no Planalto terá sido coincidência fortuita e involuntária.)

O valor da ação da VW perdeu 35% em três dias. A companhia periga ser contemplada pelo fisco americano com multa bilionária: fala-se em 18 bilhões de dólares, quantia equivalente ao lucro total do grupo em 2014.

Como efeito colateral, a imagem de seriedade de toda a indústria alemã levou um arranhão. Outro efeito secundário é a confiança do consumidor na honestidade de todas as demais montadoras, alemãs ou não. Estão todos com um pé atrás. A pergunta que se faz estes dias é: «Na hora de compra seu novo carro, você compraria um Volkswagen?»

Carro 8Está aí um típico caso em que os «malfeitos» de um abalam outros que nada têm a ver com o peixe. Vale repetir que toda semelhança com acontecimentos brasileiros terá sido coincidência fortuita e involuntária.

Tem mais desgraça se despejando sobre a companhia alemã. Amanhã continuo.

The big Lewandowski

José Horta Manzano

Entre as manchetes internacionais de hoje, uma chama a atenção. É esta aqui:

Chamada do jornal alemão Die Zeit, 23 set° 2015

Chamada do jornal alemão Die Zeit, 23 set° 2015

«The big Lewandowski» – o grande Lewandowski! Pois é. Deu no Die Zeit, importante jornal alemão. Se saiu, deve ser verdade. Só que…

Robert Lewandowski

Robert Lewandowski

… Só que o rapaz não é exatamente aquele em quem você está pensando. O «big Lewandowski» de que trata o artigo não é o nosso ministro do STF, mas um jogador de futebol atuando no Bayern de Munique.

É que na partida de ontem contra o Wolfsburg, outro clube alemão, Robert Lewandowski ousou marcar 5 gols em 9 minutos! Tirando campeonato de várzea, poucas vezes se viu tal façanha. Naturalmente, o profissional foi devidamente aplaudido de pé pelo distinto público alemão.

Já o distinto público brasileiro está desfiando novena, trezena e ladainha. Estamos todos ansiosos à espera do dia em as decisões do nosso Lewandowski, ministro do STF, nos farão levantar da cadeira para aplaudir de pé. Oxalá chegue logo.

Carta aberta ao Lula

José Horta Manzano

by Eduardo Baptistão desenhista paulista

by Eduardo Baptistão
desenhista paulista

O advogado Antonio Tito Costa, hoje com 92 anos, foi prefeito de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, entre 1977 e 1983. Eram anos difíceis. A ditadura militar estava nos estertores mas mantinha a mão de ferro. A inflação crescia e a marmita dos movimentos sindicais ameaçava explodir.

Tito Costa tinha sido eleito pelo MDB, o partido que se contrapunha à ditadura. Nessa qualidade, estava próximo de oposicionistas, entre os quais Luiz Inácio da Silva, o Lula. Caminharam juntos por aqueles tempos pesados. Passada a tempestade, cada um seguiu seu destino.

Em carta aberta dirigida ao Lula e publicada na Folha de São Paulo de 20 set°, o antigo prefeito relembra aqueles anos e escancara a alma. Com sinceridade comovente, expõe sua visão dos caminhos tortuosos pelos quais enveredou o antigo metalúrgico.

Vale a pena ler. Quem estiver interessado deve clicar aqui ou aqui.

Que ninguém durma

José Horta Manzano

Num país onde cultura – convenhamos – não é a preocupação central, acontecem lances de pasmar. Não sei quem será o responsável pelo nome atribuído a cada operação da Polícia Federal. Seja(m) ele(s) quem for(em), tiro o chapéu.

Giacomo Puccini (1858-1924), compositor italiano

Giacomo Puccini (1858-1924), compositor italiano

Quando, em 1957, surgiu a chanchada Tem boi na linha, o velho Felipe Jorge, meu professor de Português, escandalizou-se: «Como é que ousaram lançar filme com erro gramatical no título?» – exclamava. Para o venerando mestre, o fim do mundo devia estar se aproximando.

Turandot 2Apesar da apreensão do lente, o mundo não acabou. Sessenta anos depois, o filme Que horas ela volta?(sic) prova que o boi continua na linha. Decididamente, o zelo pela linguagem correta ainda não entrou no rol das preocupações de quem dá título a filmes.

Já a PF mostra um surpreendente esmero nesse aspecto. Confesso que tive de pesquisar pra saber que diabo significava Satiagraha. A vistosa operação atual, que uns escrevem Lava Jato, outros Lava-jato, mas que pessoalmente prefiro grafar Lava a Jato, é outro exemplo de presença de espírito. Faz alusão à lavagem de sujeira oculta debaixo do tapete e avisa que não será feita com vassoura de piaçaba, mas com jateamento dos bons.

Boi Barrica, My Way são outros títulos sugestivos. Mas, com este novo que saiu ontem – Nessun dorma –, chegamos a um patamar músico-poético-simbólico nunca antes atingido.

Turandot 1Nessun dorma é a grande ária do personagem Calaf, cantada no terceiro ato da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. Fazendo eco à ordem dada pela princesa Turandot, Calaf repete que ninguém deve dormir aquela noite em Pequim.

Na ópera, o objetivo da vigília é descobrir o nome do príncipe, custe o que custar, antes do romper da aurora. No Brasil, o propósito da PF é relembrar aos que tiverem cometido «malfeitos» que ainda há tapetes por levantar e que o jateamento está longe de terminar.

Interligne 18h

Há uma excelente gravação da ária Nessun dorma, feita ao vivo em 1994 em Los Angeles, quando do encontro dos três grandes tenores da época: Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti com orquestra dirigida por Zubin Mehta. Foi justamente a peça que encerrou o concerto. Clique aqui quem quiser recordar.

Finesse diplomática

José Horta Manzano

Não é segredo para ninguém que sutileza diplomática não combina com a espessura de nossa presidente. Quando se trata de relações exteriores, o comportamento pesadão de dona Dilma costuma provocar desastre.

Dilma 13Para piorar o quadro, nossa presidência conta, desde os tempos do velho Lula, com os inestimáveis serviços de um certo senhor «top-top» Garcia, ‘assessor especial’ para assuntos estrangeiros. Falo daquele personagem que insiste em manter os pés mergulhados e cimentados em ideologias que faleceram décadas atrás.

O Lula era presa fácil para quem soubesse atiçar-lhe a vaidade. Mal aconselhado por seu entourage em matéria de relações exteriores, deu passos fora de esquadro e causou vexames memoráveis. Dona Dilma, desinteressada pelo assunto e mais preocupada em segurar-se firme pra não cair do trono, é presa mais fácil ainda.

Quando se nomeia novo representante diplomático junto a um país estrangeiro, o embaixador tem de receber a acreditação do Estado no qual vai exercer. Seu nome tem de ser aceite – homologado, se preferirem.

A prudência manda que ambos os governos se ponham de acordo antes de anunciar o novo nome. Mas nem sempre se procede assim. Muitas vezes, o Estado emissor dá a público o nome do escolhido, dando sua acreditação por favas contadas.

Barão do Rio Branco by José Geraldo Fajardo, artista carioca

Barão do Rio Branco
by José Geraldo Fajardo, artista carioca

Já por duas vezes, o governo de dona Dilma envergonha o Estado brasileiro nesse campo. A primeira foi quando a presidente humilhou publicamente o novo embaixador da Indonésia. Ocorreu na época em que um brasileiro, condenado por tráfico de droga, acabava de ser executado naquele país. Enganando o representante estrangeiro, nossa mandatária mandou convocá-lo a palácio como quem lhe fosse conceder a acreditação. Na hora agá, negou-se a aceitar suas credenciais e despachou o homem para casa sob a vista de pequena multidão de autoridades. Uma afronta.

Estes dias, dona Dilma reincidiu. Israel, mais prudente que a Indonésia, comunicou o nome do diplomata que tencionava nomear ao posto de embaixador em Brasília. É bem possível que dona Dilma nunca tenha ouvido falar nesse senhor. Seu entourage, contudo, o conhece de outros carnavais. Sabem que o personagem é ferrenho defensor da política de implantação de colônias em território palestino.

NeandertalA nomeação caiu mal em Brasília. Posso até compreender que o governo brasileiro se sinta incomodado em homologar representante estrangeiro cujas ideias sejam frontalmente divergentes da visão do Planalto.

Qual é o procedimento diplomaticamente correto em casos assim? Faz-se chegar ao conhecimento do Estado emissor, discretamente e por canais diplomáticos, que o novo embaixador é inaceitável. É um direito reconhecido internacionalmente. Ninguém fica sabendo, ninguém passa vergonha. Indica-se outro embaixador. Assunto encerrado.

E o que é que fez o Planalto? Num procedimento raro e fora dos padrões, dona Dilma fez saber – pessoal e publicamente – que o homem não seria bem-vindo. O mundo inteiro ficou a par da rejeição, o que pegou pra lá de mal. O governo israelense ficou embaraçado e o Planalto deu mais uma mostra de sua diplomacia neandertaliana.

Ah, pobre barão do Rio Branco…

O cara

José Horta Manzano

Que saudades do tempo em que, ao abrir o jornal, a gente dava de cara com notícias boas. E olhe que não faz tanto tempo assim. Lembram-se quando, numa cúpula realizada seis anos atrás, Obama se referiu ao Lula com palavras elogiosas?

Pois é, parece que faz muito tempo. Momentos de magia costumam ser varridos pelo tempo. Desaparecem na impiedosa névoa do passado, aquela que apaga ilusões momentâneas e escancara realidades menos charmosas.

Estive lendo dia destes um relato daquele acontecimento, feito na hora, a quente. O artigo continua atual, não ganhou uma ruga. Que julguem meus distintos leitores.

Interligne 18h

Obama é brother de Lula

Tiago Luchini (*)

Livro 1É o comentário do momento! Todo mundo está falando sobre isso e a mídia, como sempre, adora. Numa reunião do G20, as lentes da BBC captaram uma interação entre Obama e Lula. Resultado? A mídia reporta “Barack Obama afirmou que Lula é o ‘político mais popular da Terra’. Além disso, Obama também disse que adora Lula e que o brasileiro tem ‘boa pinta’.”

Vale assistir ao vídeo e ponderar:

1) Obama começa dizendo: “This is my man!” que traduziram como “Este é o cara”. Na prática é uma expressão em inglês usada quando você não tem muito que dizer quando encontra alguém e quer ser camarada, simpático. É algo bem comum e, até certo ponto, bem breguinha. Eu traduziria como “Este aqui é meu chapa!” ou “meu brother!”, dependendo da escolha. Só estou mudando a gíria de década.

2) Obama continua querendo ser simpático. O cara é carismático. Aí ele solta um genérico “amo este cara… ele é o mais popular da Terra”. Uma sacada de humor bem feita. Você desloca uma caraterística contundente sua para um terceiro. É agradável e arranca um sorriso das pessoas. Kevin Rudd, primeiro-ministro da Austrália, percebe a piadinha e completa: “O político mais popular de longo mandato”. Rudd não foi tão bom quanto Obama, mas valeu pelo embalo. E o cara é australiano, tinha de soltar uma piadinha. Em tese, eles são bons nisso.

Lula e Obama3) O Lula, como sempre, não sabe de nada. É de dar dó a sensação de perdido dele. É verdade, não gosto do governo do Lula, mas ele parece um cachorrinho perdido no meio de ferozes pit-bulls. É inevitável não pensar como tratamos os estagiários e novatos nas nossas empresas. Lula é o típico estagiário sem-noção.

English 14) A puxadinha que Lula dá em Obama para chamá-lo para mais perto é… triste. Que líder nacional esse que temos que não tem uma mínima noção de comportamento multicultural? Ah, sim, ele nem fala inglês. Mas que vá ler um livro a respeito. Tenho um de cabeça para indicar mas… o cara nunca leu nenhum! Sim, é nosso presidente!

Se eu fosse o Lula, cortaria direto no “This is my man!” – tudo dependendo do meu humor (está aí um dos motivos pelos quais eu nunca serei presidente – o futuro de uma nação não pode estar nas mãos de alguém com humor tão instável quanto o meu). Mas o diálogo iria provavelmente assim:

Obama: “This is my man!”

Lula doutor 2Luchini: “You know what? You are my man too! That’s the beauty of being part of the same big, black family!” (“Quer saber? Você é meu chapa também! Taí a beleza de fazer parte da mesma grande família negra!”)

Retornaria com a mesma moeda, com o mesmo humor e seria simpático da mesma maneira, provocando sorriso nos outros. Até o coitado do Rudd ficaria mal numa saída bonita dessas. Que fazer? Temos aquilo que merecemos.

Interligne 18h

(*) Tiago Luchini é diplomado em Administração de Empresas pela Universidade MacKenzie de São Paulo. É também titular de MBA pela London Business School (UK) e pela Universidade de Columbia (EUA). Vive em Nova York. O texto citado foi escrito em abril 2009.

Governo embolsou

Cláudio Humberto (*)

Arca 1As receitas do governo Dilma bateram esta semana nos R$ 2 trilhões, só em 2015. O governo dispõe de mais de 1.160 formas de arrecadação, como impostos, multas, rendas, execuções fiscais, etc, para abastecer os cofres que sustentam sua fabulosa máquina administrativa – tão ineficiente e corrupta quanto cara.

Apesar da choradeira, até agora o governo já faturou o equivalente a 90% do que tinha arrecadado no ano inteiro de 2014.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Frase do dia — 261

«Veja, não roubam para o partido, não roubam só para o partido, é o que está se revelando, roubam para comprar quadros. Isso lembra o encerramento do regime alemão quando se descobriu que os dirigentes do partido tinham quadros, tinham dinheiro no exterior. É o que estamos vivendo aqui.»

Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, em referência a medalhões do Partido dos Trabalhadores. In Estadão, 18 set° 2015.

Os arrependidos

José Horta Manzano

Pão de Açúcar 1Alguns de meus antenados leitores se lembrarão da briga de foice entre senhor Diniz, antigo proprietário da rede de varejo Pão de Açúcar e o grupo francês Casino. A peleja é antiga, mas esquentou mesmo em 2011.

Tinha ficado combinado, já fazia anos, que os franceses assumiriam o controle da rede brasileira. Na última hora, contudo, senhor Diniz mudou de ideia. Lembra um pouco aquela história do sujeito que vendeu mas não quis entregar. Naturalmente, entrou em colisão frontal com os estrangeiros. Depois de muita briga, não houve jeito. Valeu o escrito: o grupo Casino ficou com o comando do Pão de Açúcar.

Estes últimos anos, o conglomerado francês tem investido pesado não só no Brasil, mas também na América Latina, em países hermanos. Afinal, o horizonte parecia tão promissor. Foi indo, foi indo até que, depois da compra do Pão de Açúcar, a região passou a representar 45% das vendas do Casino e 94% do lucro bruto. É enorme.

Casino 1De repente, catapum! A economia do Brasil começa a descer pelo ralo. A preocupação cresce em Paris. Vendas e lucro já baixaram quase 30%, um despropósito. O recente vexame de nosso País ter sido rebaixado na avaliação dos peritos em economia da agência S&P só agrava as perspectivas. O valor da ação do Casino já caiu na bolsa de Paris. Vale hoje tão pouco quanto chegou a valer em 2009, no auge da crise dos subprimes.

Isso mostra que ludibriados não fomos só nós. Até gente graúda e, em princípio, bem informada acreditou no blá-blá-blá dos que nos governam. Ah, se arrependimento matasse…

Interligne 18b

PS: Com informações colhidas do diário Le Progrès, de Lyon (França).

A narrativa de Deus

Dad Squarisi (*)

“Meu colega sofre de irremediável falta de criatividade. Seus personagens têm sempre o mesmo fim.” Dias Gomes referia-se a Deus. Sem modéstia, comparava-se ao Senhor, cujas criaturas não têm alternativa — morrem no final. Punha-se em patamar superior por uma razão simples. Ele era capaz de criar narrativas com desenlaces diferentes.

Arvore 3A observação vem a propósito do pacote anunciado por Joaquim Levy & cia. mesmeira. Em mundo marcado pela inovação, eles voltam ao passado. Recorrem a receitas velhas pra responder a problemas tão antigos quanto o andar pra frente. O governo fez a farra com o dinheiro do cidadão. Ficou no vermelho. Como não planta moeda, alguém tem de pagar a conta. Quem? Ele mesmo — o contribuinte.

Mapa GoiásLevy anuncia a volta de cadáver enterrado em 2008. A criatura ressuscitou com a mesma certidão de nascimento — Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, mais conhecida pela sigla CPMF ou pelo apelido Imposto do Cheque. Provocado por repórter na entrevista coletiva, o ministro riu ao estabelecer o limite do provisório. “Uns quatro anos”, chutou. Você acreditou? Nem eu.

A medida prova que a turma pacoteira faltou à aula em que o professor tratou de Giuseppe Lampedusa. O escritor italiano ensinou lição pra lá de útil a quem joga no time do faz de conta. O enganador finge que faz, mas finge tão bem que é capaz de convencer os desavisados. Ei-la: “Tudo deve mudar pra que tudo fique como está”. Eis o xis da questão: nada mudou. Nem o nome.

EditalQue falta de criatividade! Aqui tudo muda na aparência, mas, no fundo, fica como está. É eterno enquanto dura, resumiu Vinícius. E tem a duração da permanente no cabelo, completou Millôr. Você dorme goiano, acorda tocantinense. Vai ao Palestra Italia, encontra o Allianz Park. Carrega real na carteira, depois encontra cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro outra vez, real de novo.

Tivemos oito constituições. A de plantão nasceu com a morte anunciada. Previa a revisão cinco anos depois de promulgada. A pobre foi modificada sem estar concluída. E as leis? Elas obedecem a mandamento inelutável. São feitas para morrer uns passos adiante. Todas trazem um recadinho: “Revogam-se as disposições em contrário”.

Etc. Etc. Etc.

Brasil mapa 2Eis o xis da questão. Nesta alegre Pindorama, a instabilidade corre solta. Porém o velho usa fantasia. Disfarça-se de novo. O aluno não é reprovado: vai para a recuperação. O jovem não namora. Fica. O governo não resolve os problemas. Adia. Mas… eis que a CPMF voltou — velha, reprovada e com a mesma cara feia. Vamos combinar? Joaquim Levy joga no time de Deus.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Frase do dia — 260

«Segundo a presidente, a oposição, chamada por ela de “esse pessoal”, aposta no “quanto pior, melhor”, como se fosse possível piorar aquilo que seu desastroso governo já fez e lamentavelmente ainda pode fazer ao País.»

in Editorial do Estadão, 17 set° 2015.

Última chance

Sebastião Nery (*)

É um velho e macabro ritual na história brasileira. Quando o presidente da República está para cair, um jornalão dá o grito em editorial na primeira página. E nenhum tem resistido a essas aves de mau agouro. Foi assim com Getúlio, Jânio, Jango, Collor.

by Wellington Soares da Silva, desenhista pernambucano

by Wellington Soares da Silva, desenhista pernambucano

Domingo, de alto a baixo da primeira página, em letras garrafais, a Folha de São Paulo – tentando disfarçar mas indisfarçadamente –, anunciou a derrubada de Dilma. Não diz como nem quando. Mas ousa:– Última Chance.

(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.

Je ne suis pas Charlie

José Horta Manzano

Charlie 7Para viver em sociedade, há que respeitar regras. A ninguém é permitido fazer nem dizer tudo o que quer, quando quer, do jeito que quer. Para viver assim, só indo morar num deserto, longe da civilização, a centenas de quilômetros d’alma viva. Fora isso, é forçoso reconhecer e aceitar certos limites. A liberdade de cada um termina onde começa a do outro.

Como todo o mundo, fiquei horrorizado com o ataque covarde sofrido pela equipe do semanário Charlie Hebdo, meses atrás. Pouco importa o crime que tivessem cometido, num Estado de direito não se pode fazer justiça com as próprias mãos. O que valia no faroeste não serve para país civilizado. O ataque de que foram vítimas nos leva de volta ao tempo do obscurantismo.

Tão perto do objetivo... Promoção! Dois menus infantis pelo preço de um!

Tão perto do objetivo…
Promoção! Dois menus infantis pelo preço de um!

No entanto, agora que a poeira baixou, posso dizer – sem risco de ser tomado por um terrorista fanático – que o humor daquela publicação não faz meu gênero. É violento demais pra meu gosto. Que se faça graça com o mundo político, com o universo do espetáculo, com figuras públicas e conhecidas, tudo bem: pode até ser engraçado. Já com desgraça e com miséria não se brinca. Pode não ser a opinião de todo o mundo, mas é a minha.

A prova de que a Europa é cristã: Os cristãos andam sobre as águas As crianças muçulmanas afundam

A prova de que a Europa é cristã:
Os cristãos andam sobre as águas
As crianças muçulmanas afundam

Os humoristas de Charlie Hebdo apelaram de novo. Em face do pavoroso drama que há anos aflige o povo sírio – alvo de bombas, gases mortais, rajadas de metralhadora, tortura, falta de abrigo e de comida – os conceptores do semanário não tiveram melhor ideia do que zombar do infeliz garoto que morreu afogado ao buscar refúgio. Ao caçoar do símbolo dos retirantes, insultaram a diáspora inteira.

É indecente e asqueroso.

Proposta de reforma na jurisprudência

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que é necessário repensar com urgência a figura legal do suicídio.

Justiça desequilibradaEsclareço melhor minhas motivações. Há muitos anos, um amigo advogado contou-me que o suicídio é, em princípio, um atentado contra o Estado, na própria medida em que este é legalmente responsável pela manutenção da vida e do bem-estar de seus cidadãos. Em tese, portanto, segundo a lei, qualquer pessoa que atente contra a própria vida poderia ser processada e punida pelo Estado. Contudo, considerando que o único atingido pelas consequências dessa forma de atentado é a própria pessoa, os juízes responsáveis pelo julgamento do caso ver-se-iam na obrigação de oferecer o perdão legal à vítima/ao réu.

Refletindo sobre essa conjuntura, pareceu-me inapropriado alocar todos os casos em uma só categoria genérica de suicídio. Conhecemos todos exemplos de pessoas que morreram – ou tentaram morrer – por simples descuido, vítimas de infelizes circunstâncias momentâneas, enganos, por puro acaso ou simplesmente por não terem percebido a tempo que haviam extrapolado. Sabemos também que há uma parcela de pessoas que buscam ativamente provocar a própria morte, estimuladas por fatores como desesperança, desencanto com a vida, perda de alguém querido, perda de status profissional ou social, doença grave, etc.

TribunalProponho, assim, que o enquadramento legal do suicídio seja subdividido em duas categorias: a do suicídio culposo e a do suicídio doloso. Talvez juristas mais zelosos da precisão queiram contemplar ainda a categoria de suicídio por dolo eventual.

Na categoria suicídio culposo seriam, então, enquadrados todos os casos de aderência da pessoa a maus hábitos que, a longo prazo, podem implicar lesões importantes à capacidade de seu organismo de manter uma vida longa e saudável. Os exemplos mais comuns que me ocorrem são os de pessoas que abusaram por muito tempo do consumo de alimentos gordurosos, açúcares, bebidas alcoólicas, cigarros ou drogas – não porque tencionavam causar danos a si mesmos, mas simplesmente por estarem em busca de prazer ou alívio de alguma tensão.

Acredito que maus hábitos anímicos também precisariam ser considerados nessa categoria, como os de deixar-se levar por uma vida profissional estressante, a eleição do dinheiro como principal fonte de motivação, a alienação quanto às próprias necessidades e limites, e o abandono consentido de outras formas proativas de experiências prazerosas com a família, com os amigos e com possíveis amores. Uma vida sexual desfocada da capacidade de entrega, desconexão com o plano emocional, além da inconsequente busca do prazer pelo prazer seriam ainda outras possibilidades no plano individual.

Depression 1No plano corporativo, outros maus hábitos poderiam ser elencados para justificar o enquadramento na categoria do suicídio culposo: lançamento de produtos de qualidade duvidosa e a preços extorsivos, sustentados por campanhas mercadológicas luxuosas, ainda que intencionalmente enganosas; incompetência e desatenção dos serviços de atendimento ao consumidor; desrespeito às políticas trabalhistas e aos justos anseios dos funcionários de crescerem e compartilharem dos lucros obtidos.

Já no plano político, a discriminação entre as diferentes categorias de suicídio parece ser bastante mais complexa e delicada, na medida em que o cidadão que aspira a chegar ao poder (ou a manter-se nele) tende a adotar estratagemas que, muitas vezes, sua própria consciência ética recusa. Embalados pela crença de que, uma vez alcançado o objetivo sonhado, ser-lhes-á possível redimir-se de desvios comportamentais, muitos aderem de bom grado a maus hábitos, como elencar promessas que sabidamente não serão cumpridas, cambalacho de votos, adesão à ideologia do partido que lhes abriu as portas mesmo que esta contrarie o próprio rol de crenças políticas, etc. Parece-me assim que, na maioria dos casos, o enquadramento legal mais provável seria o de suicídio político por dolo eventual.

Eduardo SuplicyO único exemplo que me ocorre de suicídio político culposo é o do ex-senador Eduardo Suplicy. Acreditando que o passado de defesa dos direitos humanos e a postura ética irretocável ao longo de mandatos anteriores bastariam para guindá-lo novamente ao posto de senador da República, ele optou por manter um silêncio obsequioso diante dos malfeitos de seus colegas de partido. Deu no que deu.

Por outro lado, os exemplos de suicídio político doloso abundam por estas plagas. Não é preciso dar muitos tratos à bola para identificar em poucos segundos o nome das principais vítimas: Jânio Quadros, Leonel Brizola, Roberto Jefferson, Paulo Maluf, José Serra, Marta Suplicy, etc.

Politica 2Talvez suas listas não coincidam com as minhas, mas tenho certeza de que, com um pouco de tempo, fé em sua intuição e sensibilidade, você será capaz de rapidamente encontrar outros exemplos.

Então, que outros nomes do quadro político atual você apontaria em cada uma das categorias?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lavanderia alpina

José Horta Manzano

Lavanderia 2Mrs. Loretta Lynch esteve de visita à Suíça na segunda-feira dia 14 set°. Attorney General dos EUA – posto equivalente a nosso Procurador Geral da República –, é ela quem se tem empenhado pessoalmente no trato do escândalo da Fifa.

Depois de conversar com o procurador geral da Suíça, convocaram coletiva de imprensa. Deu no rádio, na tevê e nos jornais. Pra dizer a verdade, não havia novidade nenhuma. Foi dito o que todos já sabiam, ou seja, que a meia dúzia de cartolas colhidos em maio no Hotel Baur au Lac (Zurique) continuam presos na Suíça e que pelejam, desde então, para não ser extraditados para os EUA.

Lavanderia 3Foi também informado que havia outros indivíduos na mira dos investigadores americanos, mas nenhum nome foi citado. O mais importante, aquilo que todos esperavam com impaciência não foi dito: se Sepp Blatter periga, sim ou não, ser denunciado no escândalo.

Lavanderia 4Para não deixar leitores sem graça, jornais noticiaram a única novidade que surgiu: que havia suspeita de que chalés alpinos estivessem sendo comprados para lavar dinheiro. Soou meio esquisito. Entendido ao pé da letra, deu a impressão de que, por falta de espaço dentro do apartamento, certos cartolas estivessem investindo em espaçosos chalés nos Alpes para transformá-los em lavanderia.

Vista a ausência de novidades, sussurra-se que o verdadeiro intuito de Mrs. Lynch era afagar o próprio ego.

Não é justo

José Horta Manzano

A economia brasileira está no buraco, ninguém ousará dizer o contrário. Há quem se alegre por estar levando vantagem com a situação: operadoras de cartão de crédito, bancos & congêneres. Mas isso não diminui a intensidade do problema.

Mão estendidaConstatando que as contas não fecham, o Planalto acaba de propor um pacote de medidas que incluem corte de despesas e aumento de impostos. Algo me incomoda nesse projeto. Sou adepto da teoria que manda que cada um assuma a responsabilidade por seus erros.

Há problemas que independem da vontade de quem quer que seja. Catástrofes naturais como enchente, deslizamento de terra, seca prolongada, erupção vulcânica causam estrago grande e requerem o empenho de todos para pôr a casa em ordem. Investimento de tempo, esforço e dinheiro. É justo e natural que cada um dê uma força.

Já o buraco em que a economia brasileira se meteu não surgiu por acaso. Foi cavado pela longa e persistente ineficiência do governo assim como pela desonestidade e pela ganância de boa parte de seus membros. Não é justo nem aceitável que se apresente a conta à sociedade.

by Luiz Fernando Cazo, desenhista paulista

by Luiz Fernando Cazo, desenhista paulista

O acerto tem de vir do mesmo lugar de onde veio o erro. Que se comece desengordurando a máquina pública, parasitada há mais de 12 anos pelos vizinhos dos conhecidos dos amigos dos colegas dos que nos governam. Que se invista em infraestrutura e em formação profissional – os maiores freios do desenvolvimento.

Que façam, enfim, o que lhes parecer mais conveniente. Mas não concordo com que estendam o chapéu a uma sociedade já esbulhada.

Abuso de aspas

José Horta Manzano

Aspas devem ser usadas em três casos:

Interligne vertical 131) para indicar citação

2) para indicar ironia

3) eventualmente, para indicar neologismo ou termo estrangeiro

Fora isso, não convém. Podem dar recado desacertado.

Chamada do Estadão, 14 set° 2015

Chamada do Estadão, 14 set° 2015

Essa chamada apareceu no Estadão online de 14 set° 2015. Tanto “engano” quanto “terroristas” aparecem cercados de dois pares de urubus. Não há razão nem motivo pra isso. Não denotam citação nem estrangeirismo, portanto, só podem estar aí para indicar ironia.

Assim sendo, o título informa que forças egípcias mataram turistas de propósito mas alegaram que tinha sido por engano. Acusação pra lá de pesada.

Mais abaixo, as aspas que envolvem «terroristas» deixam dúvida. O leitor fica sem saber qual é o recado. Fica a impressão de que a região é seguríssima e que encontrar terroristas ali é tão improvável quanto encontrar marcianos.

Levando em conta que nove entre dez leitores não vão além do título ou da chamada, jornais e portais deveriam tomar especial cuidado com manchetes.

Falam de nós – 12

0-Falam de nós

Thierry Ogier

Todas as manhãs, Francisco Tavares tirava seu pequeno bólido da garagem para ir trabalhar. Num percurso digno de quem venceu na vida, ele se dirigia à sua concessionária Peugeot da cidade litorânea de Santos (70 km de São Paulo) ao volante de seu RCZ. O trajeto à beira-mar durava uns vinte minutos. Dirigindo cupê esporte de marca francesa, ele não passava despercebido. Questão de prestígio…

Carro 4Mas a vida regrada de seu Chico – como é chamado pelos clientes – deu uma cambalhota recentemente. Primeiro, o desaquecimento do setor obrigou-o a mudar-se para um ponto mais modesto e mais barato. Em seguida, o gigantesco escândalo de corrupção que sacode o país há um ano começou a produzir efeitos devastadores no conjunto da economia, solapando a confiança do consumidor.

Não restou outra saída: Francisco Tavares fechou a concessionária.

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Extrato do relato de Thierry Ogier, correspondente no Brasil do jornal econômico francês Les Echos. Para ler o artigo integral (em francês), clique aqui.