José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 set° 2015
Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil – Eichmann em Jerusalém: um relato da banalidade do mal. Em 1963, Hannah Arendt reuniu uma coletânea de artigos seus e os transformou no livro que leva esse título. A obra levanta polêmica até hoje. A controvérsia, no entanto, vai ficar para uma outra vez. O que hoje nos interessa é a universalidade do pensamento da autora.
Judia, de origem alemã, naturalizada americana, a senhora Arendt não gostava que a definissem como filósofa. Preferia ser designada como cientista política. O livro em questão, mais conhecido pelo subtítulo, introduz o conceito da banalização do mal.
O personagem central, Adolf Eichmann, foi um dos principais organizadores do extermínio dos judeus perpetrado pelo regime nazista durante a Segunda Guerra. Terminado o conflito, fez como numerosos correligionários: encontrou refúgio na Argentina, país onde viveu anos tranquilos, sem história. Em 1961, numa operação ousada e francamente impensável nos dias atuais, um comando especial israelense raptou-o e despachou-o ilicitamente de Buenos Aires a Jerusalém.
O objetivo era julgá-lo. Para que nenhuma dúvida subsistisse quanto à lisura do tribunal, as sessões foram públicas e integralmente filmadas. Hannah Arendt, que, durante a guerra, havia padecido em campo de concentração, estava particularmente interessada no desenrolar do processo. A síntese à qual ela chegou é peculiar e, até certo ponto, surpreendente.
Como a maior parte do público, a filósofa imaginava que a ação judicial fosse revelar um ser monstruoso e desprovido de humanidade, um sádico, um sanguinário, o demo em pessoa. Para seu espanto, ao sabor do desdobramento dos debates, delineou-se um funcionário zeloso, obediente, cumpridor dos deveres, dedicado e confiável. Em nenhum momento, o acusado demonstrou dar-se conta da hediondez de seus atos. Parecia até sincero ao repetir que não fizera mais que desempenhar-se e cumprir ordens e obrigações.
Hannah Arendt identificou, nesse comportamento, os efeitos da banalização do mal. De tanto ser repetido, martelado e repisado, o que era monstruoso tinha-se tornado corriqueiro. A noção do mal se diluíra a ponto de converter-se em trivial burocracia.
Sem chegar a esses extremos – que nos proteja São Benedito! – a sociedade brasileira em geral, e a política do País em particular, se embrenham num caminho análogo. Perigosamente análogo.
A violência que, desde o tempo dos primeiros aventureiros, caracteriza nosso corpo social tem-se propagado. Livre, solta e incontida. A medida mais vistosa que cidadãos de bem costumam adotar é erguer muros e enjaular-se dentro de casa. A ninguém ocorre que as grades, se trazem alívio, não dão solução. E assim seguimos, conformados, resignados, convencidos de que a vida é assim mesmo e de que nada se pode fazer. É o mal banalizado.
No caldeirão da roubalheira, que é um dos componentes maiores da selvageria em que vivemos, esfervilham parlamentares de altíssimo coturno, megaempreiteiros, pequenas autoridades, obscuros funcionários, estafetas e até laranjas. Ainda estes dias saiu a notícia da prefeita de cidadezinha paupérrima que teria desviado, em proveito próprio, milhões de reais destinados à merenda escolar. À merenda escolar!
Sem se constranger, gente graúda defende bandidos condenados. Ministros se contradizem, presidente deita falatório estéril, parlamentares fingem que parlamentam e a gente finge que acredita. Vivemos no país das maravilhas. Dá-se mais importância a um boneco cheio de vento do que à família que vive debaixo da ponte – aqueles seres invisíveis que vegetam logo ali na esquina e que ninguém quer ver. É o mal banalizado.
Se, a nossos olhos, crimes e malfeitos parecem toleráveis, o mesmo não ocorre com os que nos observam de longe. Notícias correm hoje em dia. Tanto as boas quanto as más – especialmente as más. A benevolente estima com que nosso País sempre contou começa a chancelar.
Não sei se os brasileiros estão-se dando conta do estrago que a apreciação do País vem sofrendo no exterior. O Brasil sempre projetou imagem paradisíaca: sol, calor, alegria, gente pacífica, música, praia, futebol, harmonia, espírito acolhedor – são clichês que a simples menção do nome de nossa terra costumava evocar. Lamentavelmente, a imagem começa a fissurar-se.
Não percebido, traiçoeiro, nocivo e durável: é efeito colateral e inexorável da banalização do mal que plantou raízes em nosso País.
«Brazil is fast becoming the Greece of Latin America, seemingly willing to be wiped off the map of relevance like sad sack Venezuela and arch rival Argentina. It’s too bad, really.»
«O Brasil está-se tornando rapidamente a Grécia da América Latina. Tudo indica que está prestes a ser varrido do mapa da relevância, como o ‘triste saco'(*) chamado Venezuela e a arquirrival Argentina. É pena.»
Kenneth Rapoza, em artigo publicado na Forbes online de 3 set° 2015.
(*) Sad sack (= triste saco) é forma eufemística. Na íntegra, a expressão é Sad sack of shit (= triste saco de fezes). Durmam tranquilos, cidadãos! Estamos em excelente companhia.
Só se lembra Santa Bárbara quando troveja
Adágio
José Horta Manzano
Tudo o que é comum, diário, corriqueiro, habitual passa batido. Os brasileiros com menos de 40-45 anos não conheceram a ditadura. Para esse segmento da população, democracia faz parte do quotidiano. Diferentemente de dez ou quinze anos atrás, há cada dia mais conterrâneos nessa situação.
Essa constatação explica a dificuldade que têm os jovens brasileiros em se identificar com expressões que contenham a palavra democracia. Quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza – dizemos. No entanto, quem comeu melado a vida inteira não se lambuza mais. Quem passou a vida sob regime democrático só conhece o outro lado de ouvir falar.
Nomes como o Memorial da Democracia, que o Lula acaba de lançar, fazem pouco sentido para a população mais jovem. Por que «memorial»? Memorial, memória, lembrança, recordação são palavras de sentido similar. Algo que já se foi merece ser recordado. Algo que deixou de existir merece ser lembrado. Não é – por enquanto – o caso do regime democrático no Brasil.
Quando não faz sentido, um nome torna-se irrelevante. Memorial da Escravidão faria sentido. Memorial do Brasil-Colônia faria sentido. Memorial do Império faria sentido. Memorial da Democracia só fará sentido no dia em que a democracia tiver desaparecido de nosso horizonte. Pelo momento, não há previsão de que isso aconteça. E, se acontecer, o nome do memorial será rapidamente censurado pelos novos donos do poder.
Era o que eu tinha a dizer sobre esse nome de curto alcance. Vamos agora nos ater a uma frase pronunciada pelo dono do lugar no discurso de lançamento. Nosso guia disse que as manifestações contra seu partido e contra o governo mostram uma «irracionalidade emocional da sociedade».
As palavras de nosso amado líder são pesadas, mas ocas de significado. O que ele disse soa bonito, mas faz tanto sentido quanto chamar seu novo prédio de ‘memorial’. Contesto a afirmação de que o momento atual seja «delicadíssimo». O momento é encorajante e auspicioso. Mostra que o gigante adormecido levantou a pontinha do cobertor. Ainda não se sabe se levantará de vez – o tempo dirá.
A verdade nua e crua é que a sociedade brasileira viveu anos de «irracionalidade emocional», sim. Mas foi justamente quando nosso guia presidia aos destinos da nação. Foi na época em que ele, seus áulicos e seu partido ainda ludibriavam oito entre dez conterrâneos.
Hoje, felizmente, acabou. O que o dono do ‘memorial’ chama de «irracionalidade emocional» nada mais é que um despertar moral da nação. Ele sabe disso, razão pela qual se mostra tão angustiado.
José Horta Manzano

«Em Angola, segundo as reclamações trabalhistas, vários operários adoeceram, alguns com suspeita de febre tifoide, em razão das péssimas instalações sanitárias nas obras e das condições de higiene precárias na cozinha do canteiro. Como os banheiros eram distantes do local de trabalho e permaneciam cheios e entupidos, operários eram obrigados a evacuar no mato. A água não era potável, e a comida, muitas vezes, estragada. Na cozinha, era comum a presença de ratos e baratas.»
Esta aí um trecho do relato feito pelo jornal O Globo sobre trabalho escravo em Angola. “Coisa de país africano atrasado” – pode ser a primeira reação de quem lê. Pois não é bem assim, distinto leitor.
O fato é que, por detrás dessa barbaridade, está o dedinho… adivinhe de quem? De nosso conhecido Grupo Odebrecht, sim, senhor.
Por meio de uma nebulosa de empresas, a empreiteira baiana associou-se a uma empresa angolana cujos proprietários são dois generais e o próprio vice-presidente daquele país. É acerto de bom tamanho. Deram as mãos para construir uma usina açucareira.
Os operários – 400 homens de origem humilde, aliciados em vários estados brasileiros – foram despachados para a África para trabalhar em condições análogas às da escravidão. Passaporte confiscado e vigias armados reforçam a suspeita de que o ambiente estava mais pra campo de concentração do que pra parque de diversão.
Denúncia ao MPT (Ministério Público do Trabalho) rendeu frutos: julgado, o conglomerado Odebrecht foi condenado a pagar indenização de 50 milhões de reais. Ainda não definitiva, a sentença admite recurso.
Não é impossível que o negócio tenha sido intermediado por conhecido figurão que atua como lobista da empreiteira baiana. Sabe-se que o homem em questão andou intermediando operações do grupo em terras africanas. Em Angola, especificamente.
Na sentença proferida, um detalhe me surpreende. O montante exigido da empresa condenada é chamado de indenização. Todo dicionário confirma que indenizar é ressarcir, compensar alguém por um mal que lhe tenha sido causado. O Ministério Público do Trabalho reserva-se o direito de reverter os milhões para projetos e iniciativas, assim como para dar publicidade à decisão de justiça.
Se assim for, indenização não será. O nome adequado para esse tipo de condenação é multa. No meu modesto entender, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Nada impedia que o conglomerado, além de ser multado, também tivesse sido condenado indenizar a parte prejudicada.
Com a decisão, os 400 infelizes que sofreram na pele a cupidez, a ganância e a avareza dos megaempresários (e de seus lobistas) ficarão a ver navios. Certas decisões de justiça são, no mínimo, curiosas.
José Horta Manzano
«Joseph Blatter garante que não existe corrupção no futebol» – foi o título de artigo do Estadão de alguns dias atrás. A crer que a quase-lógica de nosso guia anda fazendo escola por aí. O medalhão da Fifa explica que a instituição não é corrupta, mas sim os indivíduos que a compõem. Ah, bom.
O pronunciamento não deixa de lembrar o que têm repetido figurões de nossa República quando falam da roubalheira na Petrobrás. Dizem que a petroleira não é corrupta; se rapina houve, foi obra de diretores e funcionários.
Mas é uma evidência, cáspite! Estamos brincando com palavras. Uma empresa – entidade jurídica – é desprovida de alma e de sentimento. São os funcionários que, agindo em nome da entidade, assumem atitude honesta ou desonesta, ética ou aética, honrosa ou pérfida, sábia ou desastrosa.
Tanto mais hipócritas soam as palavras de Herr Blatter quando se sabe – como sabemos todos – que a roubalheira não se restringe à Fifa, mas se espalha por todo o tecido do futebol: jogos de resultado combinado, transferência de jogadores com pagamento ‘por fora’, evasão fiscal por parte de todos os que têm possibilidade de fazê-lo.
Para seguir a receita de nosso guia até o fim, faltou Blatter convocar manifestação popular para «abraçar a Fifa». O problema é que a sede da entidade está em Zurique, na Suíça, país onde não é fácil reunir algumas dezenas de manifestantes contra um sanduíche e uma tubaína. Eis por que não se animou.
José Horta Manzano
Certos personagens seguem um percurso peculiar. O espanhol Alberto Lucas López é um deles. Cresceu na Espanha, onde fez curso de Jornalismo na Universidade de Navarra.
Desde cedo, sentiu especial atração pelo infografismo – aquele ramo da arte de informar que se vale de recursos gráficos para dar o recado. Um nicho bastante delicado, que requer sensibilidade, minúcia, equilíbrio artístico. A informação tem de chegar ao leitor sem necessidade de textos longos.
López se especializou no ramo. Poucos anos depois de exercer em seu país natal, foi contratado pelo South China Morning Post, diário de referência de Hong Kong, publicado em língual inglesa. O moço é hoje diretor gráfico do jornal.
Entre seus trabalhos, um me chega particularmente. Trata-se de um infográfico que cobre as 23 línguas mais faladas. Mais de 4 bilhões de terráqueos têm, como primeira língua, uma das 23 maiores – você sabia?
O trabalho do infografista mostra o número de falantes de cada uma delas. O quadro é bastante eloquente. Sem trocadilhos…
É interessante notar a predominância do chinês (dialetos incluídos). Causa surpresa notar que a lista inclui línguas das quais pouco ou nada se ouve falar: urdu, marathi, tâmil, lahnda, telegu, bengali. É igualmente curioso constatar a ausência de línguas que nos são mais familiares como o holandês, o romeno, o polonês, o catalão. É porque não estão entre as 23 mais.
A quem quiser admirar o infográfico original – que se abre com resolução melhor – recomendo clicar aqui.
José Horta Manzano
Não se pode dizer que nosso guia tenha subido na vida trabalhando duro. Antes de atingir a idade de 40 anos, já tinha deixado de bater ponto. Daí pra diante, dedicou-se a deitar falatório enquanto os companheiros cuidaram do resto. E que resto!
Esse percurso peculiar há de lhe ter dado a impressão de que o mundo funciona na base da força do pensamento. Basta desejar – e vociferar quando necessário – para moldar presente e futuro. Insistindo em sofismas, nosso guia tentou mudar até o passado, um assombro! Por um momento, houve gente que chegou a acreditar.
Hoje, tudo isso acabou. Afinal, nenhum mal é eterno. Alguns anos atrás, no entanto, quando «fez o diabo» para conseguir que os Jogos Olímpicos de 2016 fossem atribuídos à cidade do Rio de Janeiro, nosso demiurgo ainda vivia num mundo de fantasia.
Há de ter acreditado que bastava um sopro seu para garantir o sucesso dos atletas brasileiros. A designação do Rio de Janeiro foi considerada um fim em si, uma conquista, uma glória, o coroamento de admirável percurso político pessoal.
Desmancha-prazeres, o destino ousou contrariar o que parecia ser favas contadas. O vergonhoso desempenho da seleção nacional de futebol no Campeonato Mundial de 2014 despejou um balde de água gelada em muitas esperanças. Mensalão, petrolão e generalizada incompetência governamental lavaram a jato a glória pré-contabilizada.
O resultado é que os JOs 2016 perderam o encanto antes mesmo de começar. Faltando menos de um ano, pouco se fala neles. A julgar pelos resultados do Campeonato Mundial de Atletismo – que se desenrola estes dias em Pequim – dos duzentos e tantos milhões de habitantes de que dispõe, o Brasil não conseguiu espremer um número expressivo de atletas.
Com amor-próprio mais enraizado que o nosso, a China – país de pouco peso no esporte até então – trabalhou duro para brilhar nas Olimpíadas de Pequim, em 2008. E brilhou. No quadro de medalhas, apareceu em primeiro lugar, à frente de mastodontes como os EUA e a Rússia. Das 302 medalhas de ouro possíveis, abocanharam 51, uma façanha.
Em relato desta semana, o portal esportivo da televisão pública francesa apregoa em manchete: «Le Brésil sans relief à Pékin un an avant les Jeux Olympiques de Rio» – o Brasil irrelevante em Pequim um ano antes dos Jogos Olímpicos do Rio.
Do jeito que vão as coisas, podemos ir-nos preparando para mais um vexame transmitido ao vivo em escala planetária. É pena. Quem sabe um dia aprendem que, para as coisas funcionarem, não basta desejar: há que trabalhar.
José Horta Manzano
Começou já faz uns trinta anos.
Discursou em caixa de sabão.
Desde então, contou muita mentira,
Melhorou vestindo casimira,
Foi subindo, ganhou eleição.
Tanto fez que o povo acreditou
E por ele teve devoção.
Mas um dia o povo se cansou
(Neste mundo, tudo é passageiro)
Descobriram que era trapaceiro.
Não deu outra: foi jogado ao chão.
José Horta Manzano
Você sabia?
Na visão brasileira, floresta é floresta, o resto é o resto. Para a maioria de nós, a palavra lembra Amazônia, região mítica e distante, que poucos visitaram.
Em zonas temperadas, a oposição entre a selva e o resto é menos nítida. Sabia o distinto leitor que 32% do território suíço é coberto de floresta? Sim, senhor!
Parece inacreditável principalmente levando em conta que mais de oito milhões de habitantes se espremem num território equivalente à quarta parte do Uruguai. Como é que ainda sobra espaço pra floresta? Fica ainda mais difícil de acreditar quando se lembra que parte da Suíça é inabitável em virtude da presença de lagos, altas montanhas, glaciares ou neves eternas. Pois, assim mesmo, árvores cobrem um terço da superfície total.
Vale notar que a floresta, na Europa, não se apresenta de forma contínua como conhecemos no Brasil. Áreas arborizadas se alternam com pastos, campos cultivados ou zonas urbanizadas. Vista do alto, a paisagem é bastante diferente do que conhecemos. Manchas de floresta, bem recortadas e comportadinhas, convivem com áreas de plantio ou de habitação.
Nos anos 80, com o avanço da urbanização, receava-se que, em poucas décadas, a cobertura florestal desapareceria. Constata-se hoje que o destino, cabeçudo, decidiu de outra maneira. Em vez de diminuir, a área arborizada vem crescendo pouco a pouco.
Como é possível? A razão do milagre é o abandono de áreas cultivadas antigamente. Especialmente em região de montanha, a agricultura é problemática e a produtividade, baixa. Não compensa. Vai daí, pouco a pouco, cultivadores dessas regiões têm abandonado a agricultura. E o que é que acontece nas lavouras descuradas? A floresta ressurge.
Resumo da ópera: ainda há esperança de salvar a Amazônia. Se as zonas desmatadas forem abandonadas, a natureza fará seu trabalho de reflorestamento. Nem tudo está perdido. Mas é aconselhável não esperar que a última árvore seja derrubada.
José Horta Manzano
Custou, mas não tinha outro jeito. Sabe quando a gente faz alguma coisa, não por vontade, mas porque não há como escapar? Pois foi o que fez nosso requintado governo no caso de señor Roger Pinto Molina, aquele senador boliviano que, tempos atrás, se tinha refugiado na embaixada do Brasil em La Paz.
O caso, que se arrasta há mais de três anos, anda meio esquecido. Também, pudera: no lamaçal que escorre atualmente, assunto abaixo de um bilhão não interessa a ninguém.
Sentindo-se perseguido pelo governo de seu país, o senador boliviano pediu asilo em nossa embaixada em maio de 2012. Fortemente contrariado em sua tacanha ideologia, nosso governo resolveu passar por cima dos usos e costumes internacionais em matéria de asilo político.
Em vez de pressionar para que Evo Morales concedesse salvo-conduto permitindo ao refugiado viajar até o aeroporto e embarcar para o Brasil, o Planalto fez corpo mole. Para não ferir susceptibilidades bolivarianas em La Paz, engavetaram o assunto e esqueceram o perseguido.
Meses mais tarde, um funcionário da embaixada, condoído da sorte do infeliz, lançou-se numa aventura rocambolesca, digna de filme de James Bond. Acabou trazendo o senador, por vales e montes, até território brasileiro. Foi aí que a coisa pegou feio. A atitude do funcionário indignou o Planalto que, enfurecido, espalhou censuras e punições. Cabeças rolaram. Até nosso ministro de Relações Exteriores foi defenestrado, tamanha era a ira de nossos estranhos governantes.
Uma vez no Brasil, o interessado continuou num limbo. Diferentemente de signor Battisti, aquele terrorista acolhido com tapete vermelho e banda de música, señor Pinto Molina continuou abandonado à própria sorte. Viveu ao deus-dará por anos, em Brasília, hospedado no quarto de empregada de um conhecido de bom coração.
Faz alguns dias, finalmente, o homem conseguiu o asilo político solicitado em 2012. Como eu disse mais acima, a concessão do asilo veio tardia, espremida, de nariz torcido, a contragosto.
Tout ça pour ça? Tanta história pra tão pouco resultado?, perguntariam os franceses. Fizeram um auê danado – que pegou mal – e, no final, acabaram acolhendo o político. Pergunto: terá valido a pena demitir um ministro da República, como se criminoso fosse?
Francamente, nosso governo não deixa escapar nenhuma ocasião de reafirmar sua pequenez.
José Horta Manzano
Você sabia?
Não consta que nosso País, durante a Primeira República (1889-1930), tenha sido mal administrado. Sabem vocês de quantas pastas era composto o ministério de um Venceslau Brás ou de um Hermes da Fonseca? Eram unicamente sete ministros. Apesar dos precários meios de comunicação da época, sete ministérios bastavam.
Mais de meio século depois do golpe de 1889, o governo de Juscelino Kubitschek ainda se contentava com 12 ministérios. E olhe lá: naquela altura, havia três ministros militares (da Guerra, da Aeronáutica e da Marinha), representados hoje por um só titular.
Ao general João Figueiredo, último fardado a presidir o País, 16 ministérios foram suficientes. Não estamos falando do tempo dos Sumérios, mas de apenas 30 anos atrás.
Uma curiosidade picante. Será que o distinto leitor conhece o número de ministérios da Suíça? Não? Pois digo-lhe: são sete. Cogita-se, há anos, elevar o número para onze, mas há muita resistência. Não é amanhã que isso vai acontecer. O povo acredita – com razão – que a eficiência do governo não está na razão direta do número de ministérios.
No Brasil, já estamos em 39 pastas. Dizem as más línguas que dona Dilma só não instalou mais uma para evitar que o total lembrasse uma certa caverna onde se armazenavam tesouros. Bobagem. Sabemos todos que, hoje em dia, tesouros não se guardam mais em cavernas. Repousam em paraísos fiscais.
Saiu esta semana a notícia de que dez ministérios serão cortados em Brasília. Não foi informado quando isso acontecerá nem quais serão os afetados. Foi dito, isso sim, que o corte trará grande economia de dinheiro público. Tenho cá minhas dúvidas.
Fico com a impressão de que tudo não passa de encenação para a galeria. Senão, vejamos. A cada ministro desalojado, será oferecida uma sinecura qualquer. Seus assessores diretos irão junto. E como fica o pessoal do ministério? Serão todos dispensados? Duvi-de-o-dó!
Se forem concursados, continuarão firmes. Se forem nomeados, é sinal de que são companheiros. Não se os pode abandonar. A mesma caneta que os contratou há de dar-lhes abrigo sob o manto de outro ministério, de uma estatal, de uma paraestatal, de uma instituição governamental. Ninguém será deixado ao deus-dará. Do maioral até a moça do café, todos continuarão a ser remunerados com nosso dinheiro.
O grande número de ministérios, embora visível, não é a consequência mais nefasta do inchaço da máquina pública. Todos sabem disso, mas está combinado: não se toca no assunto. Faz de conta que está tudo bem. A vida continua e seguimos todos felizes.
«Ao admitir, um ano e meio depois, que não tinha percebido a gravidade da crise, agora é oficial: Dilma não precisa de oposição para chamá-la de incompetente.»
Cláudio Humberto, jornalista, em coluna do Diário do Poder.
José Horta Manzano
A bolsa de valores é, por natureza, arisca e desconfiada. Um rumor, um boato, um soluço pode desestabilizar mercados. No entanto, embora seja imediata, o mais das vezes a reação não vai além da epiderme. Não desce ao osso.
Os mandachuvas de Pequim, por razões que lhes dizem respeito, desvalorizaram a moeda nacional três vezes semana passada. As bolsas chinesas sentiram o baque e desmoronaram carregando as do resto do mundo.
Pra lá do susto – que já está passando – fica a realidade que, para o Brasil, é pra lá de preocupante. Desde que nosso país passou a ser governado por incapazes, a porção de manufaturados em nossa pauta de exportação tem decrescido.
O empenho em fazer surgir – do nada – campeões em determinadas categorias (cf. Eike Batista, Odebrecht, Lulinha & cia) fez que o resto da indústria nacional, abandonada, fosse aos poucos perdendo terreno para produtos chineses. Em termos crus, o Brasil deu um salto pra trás e voltou a ser exportador de matéria-prima, como acontecia nos anos 50.
Nestas duas últimas décadas em que o crescimento da China deixou o mundo boquiaberto, o processo de sujeição do Brasil à potência extremo-oriental se acelerou. Acreditando que os ventos favoráveis soprariam até o fim dos tempos, nossos imprevidentes mandatários se jogaram de cabeça. Em matéria de comércio internacional, o Brasil avassalou-se e tornou-se mero satélite da China.
As consequências do enfraquecimento do crescimento chinês nos atingem de maneira direta e duradoura. A China, além de ser grande consumidora de petróleo, tem avidez por alimentos e outros insumos que o Brasil lhe fornece. Com a diminuição da demanda, é inevitável que os preços desabem. A partir do momento em que soja, ferro, carne, suco de laranja passam a ser menos procurados, sua cotação nos mercados internacionais tende a cair.
É péssima notícia para o Brasil atual. À crise generalizada que vivemos, vem-se acrescentar queda na receita das exportações. Não precisávamos de mais esse «efeito colateral» da miopia com que temos sido governados.
José Horta Manzano
Este blogueiro é do tempo em que honestidade era qualidade absoluta, sem qualificativo. O sujeito era honesto ou não era. Ponto e basta.
O vice-presidente de nossa maltratada República nos ensina que é possível ser honesto de menos e honesto demais. Parece arrependido de ter exagerado na dose.
A que ponto chegamos! Pobre País onde honestidade se confunde com ingenuidade.
José Horta Manzano
Você sabia?
Na França, realizam-se cerca de dois mil festivais a cada ano. É número respeitável. Com relação ao número de habitantes do país, seria como se houvesse seis mil festivais no Brasil. Ano após ano.
Há festivais para todos os gostos. De música principalmente: erudita, popular, regional, instrumental, sacra, pop, folclórica, ópera, jazz, rock. Como disse? De samba-canção? Nunca ouvi falar, mas há festival de dança, de cinema, de escultura, de teatro. Entre os menos corriqueiros, está um festival de pirotecnia.
Para refrescar a memória, o termo pirotecnia é composto de duas raízes gregas: pýr (fogo) e techné (arte). É a arte de dominar o fogo. Em linguagem de todos os dias, o festival é um concurso de fogos de artifício.
É organizado anualmente, em agosto, na cidadezinha de Saint-Brevin (13 mil habitantes), na costa atlântica. A cada edição, concorrem três países. Este ano, Alemanha, Holanda e Brasil eram os candidatos. Não sou admirador desse tipo de espetáculo, mas, a julgar pelas fotos e pelos filmes, há de ter sido deslumbrante.
A equipe brasileira levou a taça. Eta nós! Não chega a lavar o vexame da Copa do Mundo, é verdade. Mas, convenhamos, deixar pra trás justamente a Alemanha e a Holanda sempre deixa um gostinho especial.
Pena que, dissipada a fumaça, volte a realidade dura, nua e crua: nada mudou, o Brasil continua atolado. O resto é pirotecnia.
PS: Está no youtube um filminho com a apresentação dos artífices brasileiros. Por aqui.