Lula e Bolsonaro julgados

José Horta Manzano

Antes de qualquer outra consideração, quero deixar claro (como se necessário fosse) que não nutro especial simpatia nem pelo Lula nem por Bolsonaro. O primeiro traz, como marca registrada, a amoralidade, mãe da corrupção, da ladroeira, do populismo e de males que podem afundar o Brasil ainda mais. Do segundo, o pouco que se sabe não é animador. O gajo parece limitado, hesitante, inexperiente. Falta-lhe firmeza. Mais vale não tentar a experiência.

Ambos são políticos. O próprio de todo político é manter-se no noticiário a qualquer preço. «Falem bem, falem mal, mas falem de mim» ‒ é a divisa de todos eles. Quanto mais aparecerem na telona, na telinha e na telica, melhor será. Político vive de voto, e voto só se recebe quando se é conhecido. Propaganda faz parte do jogo.

Corre no Tribunal Superior Eleitoral processo contra cada um dos dois personagens citados. São acusados de «propaganda eleitoral antecipada». Taí um conceito difícil de delimitar. Político discursa, faz pronunciamento e dá entrevista diariamente. A partir de que ponto a fala se transforma em propaganda eleitoral?

Se já não era fácil responder à pergunta que acabo de fazer, os modernos meios de difusão da palavra e da imagem se encarregaram de baralhar ainda mais as cartas. Vídeos circulam no Youtube falando bem (ou mal) deste ou daquele personagem. Pedem «Lula em 2018» ou «Bolsonaro no Planalto» ou ainda «Juca de Chiquinha para presidente». Propaganda eleitoral antecipada é isso?

A corte eleitoral está embaraçada. Em princípio, candidatos que fizerem campanha antes da hora serão punidos com multa financeira. Mas como multar candidatos se as candidaturas ainda não estão registradas? E se apoiadores lançarem vídeo na rede ‒ sem conhecimento nem autorização do elogiado ‒, como proceder? «Mandar retirar o vídeo», dizem alguns. «Mas isso é censura à livre expressão do pensamento», retrucam outros.

O mundo tem evoluído rapidamente. A lei, como é natural, segue atrás. (Não se pode legislar sobre realidade que ainda não existe.) Estamos diante de fato novo para o qual a legislação não está adequada. Pessoalmente, não vejo problema no fato de um futuro candidato se fazer conhecer por antecipação. Aliás, tudo o que é demais cansa. Propaganda demasiado longa periga deixar o eleitor enjoado.

De qualquer modo, o panorama mudou. Antigamente, para fazer propaganda, o político precisava de muito dinheiro e forte aparelho partidário. Hoje em dia, basta um telefone celular para filmar o discurso feito em casa. Em seguida, é só divulgar pelo Youtube ou por qualquer rede social.

Não dá mais pra segurar. Estou curioso pra ver o que decide o legislador.

Em dia de Enem? Francamente…

José Horta Manzano

A grande mídia nacional, cujos órgãos chegam a publicar manuais de redação, deveria tomar mais cuidado com a escrita. Mormente nos títulos. E principalmente em temporada de Enem.

O verbo pedir tem diferentes acepções, mas só se constrói com a preposição para em um caso: é quando se pede licença para fazer algo. Portanto, a expressão «pedir para» comporta um termo oculto. Levantando a cortina, temos «pedir (licença) para».

Assim, em frases como pedir para entrar, pedir para ir ao banheiro, pedir para sair mais cedo, é adequado empregar a preposição para depois do verbo. Já a chamada do jornal é inadequada. Deveria ser «PSDB pede a Luislinda que fique em silêncio (…)».

Se a mídia escrita não tem o poder de aprimorar o ensino da língua, seria desejável que, pelo menos, não atrapalhasse.

Cabresto no Enem

José Horta Manzano

São tempos de Enem. Estão em efervescência candidatos a uma vaga em escola de ensino dito superior. Superior a que ou a quem? ‒ continuo me perguntando. É que não me parece que ensino propiciado por faculdade seja intrinsecamente superior ao que uma escola técnica oferece. Mas vamos deixar pra lá, que deve ser birra minha.

Dez entre dez candidatos enfrentam a prova de redação com especial temor. Não deixam de ter razão. No Brasil, a língua caseira se distancia mais e mais da língua culta, mas é nesta última que deve ser redigido o texto de 30 linhas. A baixa qualidade do ensino médio não facilita o aprendizado da norma padrão. Como resultado ‒ exagerando um pouco ‒ é quase como se o examinando tivesse de se exprimir numa língua estrangeira. Para a maioria, é um sufoco!

Estudante 10

Em princípio, a prova de redação serve para aferir a capacidade do candidato a concatenar ideias, a exprimi-las por escrito com lógica, a respeitar regras gramaticais, a empregar termos adequados e a grafá-los corretamente. No fundo, a opinião do aluno sobre o tema proposto pouco deveria importar. Interessa saber se ele consegue deitá-la no papel de maneira clara e coerente.

No entanto, as autoridades responsáveis pela organização do exame nacional houveram por bem inserir um componente ideológico à prova de redação. Ao aluno, é proibido exprimir opinião que possa ser considerada «desrespeitosa aos direitos humanos». O conceito é suficientemente vago para dar margem a interpretações pessoais várias. Uma frase ou uma ideia que, aos olhos do examinador A, possa parecer desrespeitosa não o será no julgamento do examinador B. Está armada a confusão.

A prova de redação, por si, já faz brotar gotas de suor frio nos jovens. Não precisa acrescentar dificuldade ao que já era complicado. Como já disse, pouco importa a opinião do examinando. Vivemos num país em que o direito à livre expressão do pensamento é garantido pela Constituição.

Caso o texto contenha injúrias, ameaças ou ofensas pessoais, o corretor deve denunciar à autoridade competente. Nem por isso, deveria ter o direito de dar nota zero ao examinando. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Se alguém escrever que escoceses são sovinas ou que poloneses são chegados a uma vodcazinha estará sendo «desrespeitoso» a direitos humanos? E se disser que os eleitores de Mr. Trump têm mente estreita? Que tal dizer a mesma coisa dos eleitores de Señor Maduro? Onde está a linha vermelha?

Parece-me extremamente injusto acrescentar esse cabresto. É penduricalho que não faz sentido. Afinal, não se trata de prova de Educação Moral e Cívica. Que as ideias do aluno sejam quadradas ou que sejam pouco convencionais pouco importa. Se suas palavras configurarem crime previsto no Código Penal, que seja denunciado. Se não, que seja deixado em paz.

No Brasil, em matéria de estudos e de formação profissional, o verdadeiro desrespeito aos direitos humanos é o menosprezo crônico aos ofícios técnicos e manuais.

Interligne 18c

2017-1104-02 Estadao

Chamada Estadão, 4 nov° 2017

PS
Estes últimos tempos, as decisões do STF andam meio assim assim. Mas, de vez em quando, acertam em cheio. Foi o caso de hoje.

Loteria de vistos

José Horta Manzano

Faz alguns dias, um fanático descerebrado cometeu um assassinato em massa em Nova York. Num ato incompreensível para a moral que rege nossa civilização, o sujeito tomou assento ao volante de um furgão e atropelou ciclistas indefesos. Detido pelas forças policiais, descobriu-se que era um imigrante da Ásia central, estabelecido havia vários anos nos EUA. Ficou comprovado que o assassino estava em situação regular, admitido no país pelo sistema de loteria.

Por minha parte, já tinha vagamente ouvido falar nessa bizarra prática de concessão de visto permanente por sorteio, mas nunca tinha me preocupado em investigar mais a fundo. Após pesquisa, descobri que é procedimento legal e usual há quase três décadas. A cada ano, cinquenta mil autorizações permanentes são concedidas a candidatos por esse estranho sistema de sorteio cego.

Como bom populista, Mr. Trump saltou sobre a ocasião para estigmatizar o modelo. Numa saraivada de tuítes, mostrou-se contrário ao método, que abriria as portas, segundo ele, para perigosos terroristas. Por uma vez, estou propenso a concordar com o presidente americano. Mas não exatamente pelas mesmas razões.

Segundo o que diz a mídia, o indivíduo que assassinou os ciclistas não mostrava sinais de desequilíbrio ao se estabelecer no país. A sanha terrorista desenvolveu-se mais tarde. O homem radicalizou-se nos últimos tempos, vários anos depois de tirar o bilhete premiado. Dependesse de mim, extinguiria essa loteria esquisita. Não é difícil.

Com exceção dos oriundos de um punhado de países, todo candidato a visto temporário para os EUA tem de preencher questionário e submeter-se a entrevista pessoal. Por um sim, por um não, a autorização pode ser negada. Para os que desejam estabelecer-se no país, então, o caminho é mais pedregoso. Cerca de um milhão e meio de imigrantes chegam a cada ano. O procedimento é longo e minucioso ‒ as portas não se abrem para qualquer um.

Como se vê, a estrutura das autoridades de imigração está preparada para examinar milhões de dossiês por ano. Ao deixar entrar cinquenta mil pessoas por sorteio, a meu ver, estão bobeando. Desperdiçam a ocasião de escolher os candidatos cujo potencial seria mais útil ao país. Além do mais, o sistema é cruel.

Qualquer um pode enlouquecer ou radicalizar-se a qualquer momento ‒ contra isso, não há remédio. Por mais minucioso que seja, o exame do dossiê de cada candidato não pode detectar mudanças futuras de personalidade. Mas a seleção pode, isso sim, beneficiar os mais promissores.

Enfim, não cabe a mim dar opinião na casa dos outros. Fico com meu espanto, que o problema é deles. Como se dizia antigamente, «eles, que são brancos, que se entendam».

Turismo à nossa custa

José Horta Manzano

Corrupção, peculato, prevaricação, concussão, malversação são termos que se ouvem quotidianamente. Embora se os chame pudicamente «malfeitos», são atos criminosos tipificados pelo Código Penal Brasileiro no capítulo que trata dos crimes praticados por funcionário público(*) contra a administração.

Estes últimos anos, o aumento de volume deles coincidiu com a expansão vertiginosa da propagação de notícias. O resultado é um jorro contínuo de coisas tortas. Francamente, não dá pra esconder mais nada. Mesmo assim, na maior parte do tempo, terminam em nada. Ou em pizza, se preferirem.

O exemplo mais recente de malversação de dinheiro público está sendo dado estes dias por ninguém menos que o presidente da Câmara Federal ‒ o primeiro nome na atual linha sucessória da presidência da República. Doutor Maia convocou a esposa e mais nove(!) deputados federais para um giro de uma semana por Oriente Médio, Itália e Portugal. A orla mediterrânea tem clima muito quente no verão, razão que deve ter levado Sua Excelência a escolher este comecinho de novembro. Passeia-se mais à vontade.

A razão oficial da viagem não ficou clara. Falou-se vagamente em «motivação diplomática», seja lá o que isso queira dizer. Vários indícios põem em dúvida a alegação. O primeiro-ministro de Israel recusou-se a receber os parlamentares. O prefeito de Jerusalém idem. Dois ou três encontros com parlamentares locais foram de mera cortesia e não duraram mais que 20 minutos. Na maior parte do trajeto, a presença de jornalistas e de fotógrafos não foi admitida.

A viagem se fez em avião da FAB. Hospedagem em hotel de cinco estrelas e alimentação também vão para a conta do contribuinte brasileiro. O deputado Orlando Silva, do Partido Comunista, faz parte da comitiva. É aquele que foi ministro do Esporte tanto do Lula quanto da doutora. O moço é lembrado por ter usado cartão corporativo do governo federal, certa ocasião, para pagar uma tapioca. Supõe-se que, no Oriente Médio, não se tenha contentado com churrasquinho grego. Por lá, há restaurantes supimpas. Os preços são elevados, mas… que importa? Quem paga somos nós.

Sabe o distinto leitor o que vai acontecer com esses parlamentares quando voltarem? É claro que sabe: nada.

Malversación
Semana passada, os deputados regionais da Catalunha (Espanha) votaram a independência do território. Considerando que os parlamentares cometeram uma ilegalidade e violaram a Constituição, a Justiça nacional abriu processo contra os principais implicados.

Entre os crimes dos quais são acusados, está a malversação, o desbarato de dinheiro do contribuinte. De fato, o plebiscito que organizaram, à valentona, em 1° de outubro custou mais de um milhão de euros aos cofres públicos. Caso sejam considerados culpados com circunstâncias agravantes, a pena pode chegar a oito anos de prisão acrescida de perda dos direitos civis por um prazo de até 20 anos.

Se o mesmo rigor fosse aplicado aos parlamentares brasileiros, não sobraria muita gente no Congresso.

(*) Funcionário público
No Artigo 327, o Código Penal Brasileiro define como funcionário público, para efeitos penais, «quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função pública». Durante o exercício do respectivo mandato, portanto, todo parlamentar é funcionário público.

Kíruna

José Horta Manzano

Você sabia?

Em meados do século 17, um morador do norte da Suécia encontrou, ao passear pelo campo, uma estranha pedra de cor preta. Por curiosidade, levou-a pra casa e depois entregou-a a comerciantes de passagem. Estes mandaram examinar o pedregulho. Constatou-se que se tratava de minério de ferro. Naqueles tempos recuados, a descoberta não apresentava grande interesse. Ficou por isso mesmo.

Duzentos e cinquenta anos mais tarde, o avanço da Revolução Industrial fez crescer a importância do ferro. De fato, ferro + carvão = aço, o principal insumo da indústria pesada. Em 1890, uma empresa iniciou a exploração sistemática do mineral. Em volta da mina, naquelas lonjuras nevadas pra lá do Círculo Polar, nasceu um povoado.

Kíruna – vista geral

Com o tempo, o vilarejo cresceu até converter-se na cidadezinha de Kíruna, hoje com quase 20 mil habitantes. E a exploração do minério continuou e se tornou a maior mina de ferro subterrânea do mundo. Depois de mais de um século de escavação, o buraco ‒ cada vez mais extenso e profundo ‒ tornou-se uma ameaça para a cidade. De fato, o perigo é grande de afundarem todos, casas e gentes. Isso pode acontecer a qualquer momento sem aviso prévio.

Conscientes do risco, dirigentes da mina e autoridades locais tomaram a decisão de deslocar a cidade. O sítio escolhido para receber os habitantes fica três quilômetros a leste. Estudos preliminares calcularam que a mudança levaria cem anos. Um escritório de arquitetura norueguês apresentou projeto para levar a cabo a transposição em menos de 20 anos. Foi contratado.

Kíruna no inverno

Calcula-se que o custo da operação, inteiramente pago pela mineradora, será de um bilhão de dólares. As construções antigas e históricas ‒ como a igreja e a torre do relógio público ‒ serão desmontadas e reconstruídas na nova localização. Quanto às casas, os proprietários têm duas opções. Se quiserem, podem vender sua propriedade. Nesse caso, a mineradora pagará o preço de mercado acrescido de 25%. Se preferirem, abandonarão o imóvel e receberão um novo, de tamanho equivalente, situado na nova cidade.

Parte da população já está instalada na nova Kíruna. Prevê-se que, já nos anos 2020, a operação esteja bem adiantada. Os moradores acataram a decisão com bom humor. Entendem que não há outro jeito: é mudar ou… afundar.

Nota
Fiquei pensando no desastre que a imprudência da mineradora Samarco causou a Mariana e ao vale do Rio Doce. A Companhia Vale ‒ uma das maiores e mais ricas mineradoras do planeta ‒ é uma das duas controladoras da Samarco. Estão brigando na justiça até hoje, empurrando a culpa para terceiros. Que diferença…

Profissão de fé

José Horta Manzano

A crer no que predizem as pesquisas eleitorais, já estamos nos encaminhando para o segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Num momento em que nem se sabe direito quem serão os candidatos, já se discute a decisão entre os dois finalistas. As sondagens já asseguram que Lula e Bolsonaro formam o duo vitorioso.

Sob um olhar céptico, está aí um bom caminho pra economizar e pra ganhar tempo. Passa-se por cima de prévias partidárias, de campanha, de horário eleitoral (dito) gratuito. Brasileiros terão de comparecer uma só vez atrás do biombo de papelão para teclar o número do preferido. Um ganho não desprezível! Feliz ou infelizmente, não é assim que funciona.

Entre as nações civilizadas e democráticas, o Brasil é uma das poucas em que eleitores votam no escuro. «No escuro? Como assim?» ‒ há de perguntar o distinto leitor. Pois explico. Em países avançados, é costume cada candidato a cargo majoritário apresentar programa claro e detalhado do que pretende fazer. Cada um expõe seu projeto de governo.

Na França, por exemplo, esse elenco de intenções se chama «profession de foi» ‒ profissão de fé. Trata-se de aclaração das principais medidas que o candidato se compromete a tomar caso seja eleito. Ao votar, os eleitores têm boa noção do pensamento do postulante e da direção que pretende imprimir ao mandato. A “profissão de fé” de cada concorrente é enviada por correio a todos os lares do país. Geralmente, inclui os pontos principais. Eleitores são convidados a visitar o site oficial do candidato para tomar conhecimento das propostas em formato integral.

Aqui abaixo, para dar-lhes uma ideia, reproduzo o resumo das intenções exprimidas por Emmanuel Macron, justamente aquele que acabou eleito para a presidência.

“Profissão de fé” do então candidato Macron

No Brasil, candidatos são mais reticentes. Jogam uma ideia aqui, um conceito ali, um projeto acolá, mas têm dificuldade em reunir declarações esparsas num todo coerente. Em geral, preferem frases de efeito e expressões vagas que não os comprometam. No passado, quando metade da população era analfabeta, não fazia sentido botar programa por escrito ‒ poucos leriam até o fim. Hoje, a paisagem mudou.

Nos últimos sessenta anos, duas cartas de intenções marcaram nossa história: o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e a Carta aos Brasileiros do Lula. Note-se que tanto o Lula quanto Juscelino foram eleitos. No fundo, nem brasileiro nem ninguém gosta de votar no escuro.

Se eu fosse candidato, trataria de pôr ideias em ordem e alinhavar rapidinho uma «profissão de fé». Eleitor brasileiro não é tão burro quanto supõem alguns. O problema é que, na falta de conhecer em detalhe o projeto de cada um, acabam por se deixar levar pela propaganda marqueteira. A (desastrosa) eleição da doutora é a prova contundente. Que nos sirva de lição.

O STF e seus ministros

José Horta Manzano

«Quando il gatto non c’è, i topi ballano» ‒ quando o gato não está, os ratos fazem a festa. Quando um indivíduo tem certeza de que nada nem ninguém o pode ameaçar, é grande o risco de se deixar levar pela soberba dos que tudo podem. A garantia de estar blindado contra todo tipo de ataque gera um sentimento de poder absoluto.

Na estrutura da alta administração da República, os cargos têm prazo de validade. Presidente, deputado e senador têm mandato limitado no tempo. Ministro, que ocupa cargo de confiança, pode cair a qualquer hora, dependendo apenas de uma canetada de quem o nomeou. O topo do Judiciário, no entanto, é sujeito a regras diferentes. Os ministros do Supremo Tribunal Federal, uma vez nomeados, escapam ao destino do mortal comum: ninguém os pode tirar de lá.

É compreensível que juízes gozem de determinadas garantias. Aliás, a própria Constituição determina a vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade de subsídios dos magistrados. Faz sentido. Para exercer sua função com serenidade e imparcialidade, um juiz tem de ter segurança. Se não as tivesse, seria presa fácil tanto para coação de gente poderosa quanto para ameaça de bandido perigoso.

No entanto, a própria lei se contradiz quando obriga os ministros do STF a se aposentarem, queiram ou não, ao atingir 75 anos de idade. Está aí a prova de que nem a vitaliciedade nem a inamovibilidade são garantias absolutas. Vencido o prazo, são postas de lado. Como se vê, tudo é relativo.

Nosso STF tem sido criticado ultimamente. Suas Excelências têm sido protagonistas de verdadeiras cenas de novela de segunda categoria. É possível que a presença constante de holofotes e câmeras lhes dê a sensação de estar num palco iluminado. Fato é que, com indesejável frequência, se comportam como comadres que se atracam num cortiço. Insinuações, ofensas, insultos são atirados como flechas, à vista de todos, num espetáculo deprimente.

O zé povão ‒ que somos nós ‒ assiste atônito e impotente aos bate-bocas. Fica a amarga sensação de que Suas Excelências se valem da garantia de que não serão demitidos. Não correm o menor risco de receber «bilhete azul».

Vamos agora refletir. Por um lado, tanto no Executivo quanto no Legislativo, os cargos mais importantes não são vitalícios: dependem de um mandato que pode (ou não) ser renovado pelo voto popular na eleição seguinte. Por outro, a regra da aposentadoria compulsória anula a vitaliciedade dos ministros do STF. Em conclusão, nenhum dos cargos maiores da República é vitalício de verdade, em nenhum dos três Poderes.

Depois de todos esses considerandos, vamos aos finalmentes. Seria o caso de pensar em abolir o caráter vitalício do cargo de ministro do STF. Um mandato fixo de oito ou dez anos me pareceria equânime. Chegado ao termo desse período, o magistrado poderia candidatar-se a novo mandato. Acredito que, assim, as labaredas da fogueira de vaidades em que se exibem Suas Excelências perderiam muito de sua intensidade.

Epílogo
Sem chegar a sugerir que ministros do STF venham a ser eleitos pelo voto popular, acredito que deveriam ser escolhidos por um colégio eleitoral ampliado, que incluísse o presidente da República, membros da alta magistratura, representantes da OAB e outros cidadãos de elevada cultura e reputação imaculada. Não custa sonhar.

Nota
Entre os onze ministros atuais, há dois ou três com direito a permanecer no cargo por mais um quarto de século a contar de agora. É um exagero. Muita coisa muda em 25 anos. Manter um indivíduo na mesma função pública, intocável e inamovível, durante tanto tempo pode ser prejudicial para a sociedade.

O aniversário do Lula

Josias de Souza (*)

Lula fez aniversário nesta sexta-feira. Deveria ter presenteado a si mesmo com o silêncio. Mas percorre Minas Gerais em caravana. Faz comícios diários. Seus lábios não desgrudam do microfone. Assim, sem medo de ser patético, declarou: «Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo para envergonhar milhões e milhões de pessoas que a vida inteira confiaram em mim.»

Lula discursou num comício na cidade de Montes Claros. Apresentou-se à plateia como um símbolo, seu papel predileto: «Estão tentando me destruir desde que nasci. Tentem destruir o Lula, vocês nunca vão conseguir, porque o Lula não é o Lula, é uma síntese daquilo que são milhões e milhões de mulheres e homens. Lula é uma idéia criada por vocês.»

O pajé do PT, de fato, pode se dar ao luxo de falar como símbolo. Deixou de ser qualquer um quando virou líder sindical em plena ditadura. Perdeu eleições como símbolo, chegou ao Planalto como símbolo, invocou a condição de símbolo para sobreviver ao mensalão e, como símbolo, imaginou-se invulnerável no petrolão. Agora, responde pelo que passou a simbolizar.

Suprema ironia: coube ao companheiro Antonio Palocci formular a pergunta que explica por que muitos brasileiros deixaram de respeitar os cabelos brancos do símbolo: «Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’ enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto Lula são atribuídos a dona Marisa?», indagou Palloci na carta que enviou ao PT para se desfiliar da legenda.

Lula tornou-se um símbolo completo. Fez-se sozinho na vida. E se desconstrói sem a ajuda de ninguém. O símbolo discursa como se fosse uma estátua de si mesmo. E age como pardal que suja a própria testa de bronze. Costuma-se dizer que Lula virou um político como todos os outros. Bobagem. Aconteceu algo pior. Lula tornou-se um símbolo completamente diferente de si mesmo.

Certas frases ‒ «Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo…» ‒ passam a impressão de que o autor será símbolo do cinismo até o fim. No aniversário do símbolo, um simples “parabéns” soa como ironia.

(*) Josias de Souza é jornalista e comentarista político

Nota deste blogueiro
A frase do Lula lembra uma fala do general De Gaulle em coletiva de imprensa. Em 1958, ele acabava de assumir o governo da França apoiado em nova Constituição que lhe conferia amplos poderes. Dando-se conta de que alguns se mostravam inquietos com tanto poder concentrado nas mãos de uma só pessoa, tranquilizou a população: «Não é aos 67 anos que vou iniciar uma carreira de ditador.»

De Gaulle disse a verdade. Assim como não tinha sido ditador antes, não se deixou tentar depois. Já quando fala o Lula ‒ homem condenado por corrupção a quase dez anos de cadeia ‒, é permitido desconfiar.

Suicídio à catalã

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 outubro 2017.

Em 1939, disparado o último tiro da sangrenta guerra civil, a Espanha mergulhou numa ditadura longeva. Foram quase quarenta anos durante os quais nem Catalunha nem província espanhola alguma tinha direito de utilizar a língua regional. Pra se exprimir na língua materna, catalães, bascos, galegos e demais bilíngues tinham de fechar portas e janelas. E falar baixo, que o controle era pesado. Foram décadas de medo e de opressão, em que pai desconfiava de filho e irmão desconhecia irmão.

Promulgada três anos depois da morte do caudilho, a Constituição de 1978 devolveu aos cidadãos espanhóis as liberdades que lhes haviam sido sonegadas pela ditadura. Ampla autonomia foi concedida às províncias históricas. Dos catalães, o referendo convocado para validar a carta magna recebeu aprovação de 91%, taxa superior à média nacional. A língua local ganhou estatuto oficial em pé de igualdade com o castelhano. De lá pra cá, nas ruas, nas escolas, nas administrações e no governo provincial, o catalão é língua veicular. Nove em cada dez funcionários públicos respondem à administração local e não a Madrid. Os cidadãos contam com assembleia provincial eleita pelo sufrágio universal. Têm até um corpo de polícia regional. Não se pode, em sã consciência, classificar os catalães como povo oprimido.

No entanto, já faz anos que os dirigentes da província vêm soprando as brasas do sentimento nacionalista. Cada um dos sucessivos presidentes da região parece nutrir a vaidade de se tornar um Bolívar dos tempos modernos, um herói da independência. De tanto apregoarem que a secessão traria riqueza e felicidade para todos, conseguiram convencer parte dos cidadãos. Muitos acreditaram e o movimento foi crescendo até desembocar num plebiscito organizado à valentona e considerado ilegal por Madrid.

A partir daí, episódios desastrosos se sucederam. Por um lado, manifestações independentistas; por outro, passeatas unionistas. Intervenção enérgica da polícia nacional contra benevolência da polícia local. Declarações madrilenhas ancoradas na Constituição versus pronunciamentos barceloneses assentados numa (romântica) exaltação nacionalista. Se revoluções não estivessem fora de moda, todas as condições estariam reunidas para um levante armado. Por sorte, povo de barriga cheia não costuma pegar em armas.

Mas o dinheiro ‒ ou a perspectiva de empobrecer ‒ está forçando os catalães a encarar a realidade. Inquietas com a querela, muitas empresas se estão prevenindo contra más surpresas. Cerca de 1500 delas, por recear dupla tributação, já se transferiram para outros recantos da Espanha. De fato, o temor é de que tanto Madrid quanto a província rebelde cobrem impostos, o que criaria um enrosco fiscal inaceitável.

Tem mais. Para existir, um estado independente tem de ser reconhecido. A União Europeia já deixou claro que não reconhecerá o novo país. Dado que numerosas regiões europeias nutrem veleidades separatistas, a aceitação da independência catalã encorajaria movimentos semelhantes na França, na Itália, na Bélgica, no leste europeu. Nenhum Estado vê com bons olhos manobras que possam afetar sua integridade territorial. O novo país teria até dificuldade em se tornar membro da ONU, pois França, Rússia e China, que têm direito a veto, tenderiam a bloquear a adesão. Uma Catalunha independente periga ficar solta no mapa, como navio fantasma, um Estado não reconhecido.

Na altura em que escrevo, é impossível prever o desenrolar dos fatos num futuro próximo. Os dirigentes provinciais ultrapassaram a linha vermelha e se meteram num dramático dilema. A opinião pública catalã exige que cumpram o que alardearam e proclamem, por fim, a independência. Se o fizerem, no entanto, incorrerão em crime de alta traição, passível de ser punido pela justiça espanhola com 30 anos de cárcere. Foram longe demais, ultrapassaram a encruzilhada. Sero in periclis est consilium quærere ‒ quando se está no meio do perigo, é tarde demais para pedir conselho.

Por essas e outras, os independentistas catalães têm de botar água na fervura. Na (remota) hipótese de conseguirem o que pretendem, seriam rejeitados e boicotados por todos os vizinhos. Não teriam outra solução senão tornar-se semicolônia russa ou chinesa. Ou centro europeu de jogatina, uma espécie de Las Vegas mediterrânea. Seria verdadeiro suicídio. Mais vale deixar como está.

Nota
Artigo escrito antes do simulacro de proclamação de independência encenado pela assembleia provincial catalã em 27 de outubro.

Pré-sal

José Horta Manzano

Uns dez anos atrás, falou-se muito no petróleo a extrair do fundo do mar que beira a costa brasileira, tesouro escondido debaixo de alentada camada de sedimentos e de sal. À época, nosso guia & acólitos chegaram a posar para fotos fantasiados de operário da Petrobrás, com as mãos lambuzadas de óleo. Até Hugo Chávez, que ainda não se havia transmutado em passarinho, chegou a comentar, com uma pontinha de inveja, que o Brasil estava para converter-se em potência petroleira.

Depois disso, mazelas antes inimagináveis começaram a emergir. O governo da doutora foi um desastre. Veio a Lava a Jato. Os podres de nosso guia e de toda a (extensa) turma vieram a público. A Petrobrás, rapinada e maltratada, por pouco não desmoronou. No corre-corre, o assunto do pré-sal saiu de foco. O que cada um queria mesmo era salvar a própria pele.

Hoje o tema ressurge. Os optimistas dirão que é bom sinal: indica que o pior da tempestade político-policial passou. Não tenho tanta certeza, mas vamos admitir que assim seja. É hora de examinar de perto o significado dessa reserva, desconhecida até poucos anos atrás.

Por mais que Mister Trump tape os olhos com peneira, as mudanças climáticas se tornam mais evidentes a cada dia. Países mais adiantados implementam políticas de substituição de combustível fóssil por fontes de energia renováveis. A Alemanha já decretou que, o mais tardar em 2030, proibirá a circulação de veículos com motor a combustão ‒ o que exclui todos os movidos a gasolina, óleo diesel, querosene ou mesmo gasogênio. Somente veículos movidos por energia não-poluente serão permitidos.

Se a humanidade ainda existir daqui a 500 anos, fico imaginando o que os terráqueos de então pensarão de nós. A queima desmedida de óleo fóssil para mover automóveis será vista como um dos maiores desatinos já praticados pela humanidade primitiva dos séculos 20 e 21. Além de poluir a atmosfera da qual dependemos todos, a combustão de derivados de petróleo desperdiça uma riqueza que levou milhões de anos para se constituir.

Dê uma olhada a seu redor, distinto leitor. Bote reparo nos objetos que o cercam. Uma tela de computador? Um telefone celular? Uma caneta? Uma almofada? Um tapete? Um copo? Uma folha de plástico? A moldura envernizada de uma porta? Pois há forte chance de que, na composição de cada um desses objetos, tenha entrado algum derivado de petróleo.

Por que, então, extrair a fórceps essa riqueza? Para queimá-la em motor poluente de automóvel? Não faz sentido. No Brasil, não é o dinheiro que falta. Nosso problema maior, como todos hoje se dão conta, é o roubo e o malbarato do dinheiro público. Uma (pequena) diminuição da corrupção nas altas esferas trará mais benefício do que a exploração do pré-sal. De quebra, as gerações futuras agradecerão.

VIP por um dia

José Horta Manzano

Karon Grive, súdita britânica, é escritora. Para fugir da umidade e das brumas que envolvem sua Escócia natal no outono, decidiu passar um mês na Grécia, na ensolarada Ilha de Creta. Como não é dada a luxo, a quinquagenária escolheu um voo barato. Domingo último, embarcou em Glasgow, num Boeing da companhia de baixo custo Jet2, para a viagem de 3000 quilômetros até Heraklion. O bilhete custou-lhe 46 libras ‒ menos de 200 reais.

Ao se aproximar do guichê para o check-in, notou que o movimento era baixo. Puxou conversa com o funcionário e perguntou se os passageiros eram numerosos.

«‒ Adivinhe!», responde ele.

«‒ Sei lá. Uns dez, quem sabe?», arriscou.

«‒ Ih, tá frio. Pode baixar.»

«‒ Meia dúzia? Será?»

«‒ Menos. Só esperamos três passageiros!»

Karon Grive: VIP por um dia

Surpreendida, Karon se dirigiu ao salão de espera. Quando saiu a chamada para o embarque, ela reparou que, além dela, ninguém se levantou. Quando as portas da aeronave se fecharam, ela entendeu que era a única passageira. Os outros dois viajantes não se tinham apresentado. Situação insólita.

É verdade que, neste fim de temporada, o número de passageiros diminui, mas dificilmente a esse ponto. Companhias aéreas, quando não conseguem preencher determinado número de assentos, costumam cancelar o voo. Excepcionalmente, a Jet2 decidiu seguir o programado.

A viajante, como se pode imaginar, foi tratada como rainha. Os tripulantes a paparicaram e a chamaram pelo nome ‒ coisa pouco comum. A comandante do aparelho deixou a pilotagem em mãos do copiloto e veio sentar-se ao lado da passageira encantada. Descreveu-lhe o voo, mostrou-lhe paisagens, apontou para o espetáculo de uma tempestade vista do alto. Em suma, a turista fez uma viagem de sonho, sozinha e tratada como VIP num jato concebido para levar 189 viajantes.

A escritora descreveu a situação como surreal. Não é impossível que a experiência singular sirva de inspiração para o romance policial que pretende escrever à beira do Mediterrâneo. É impossível imaginar melhor propaganda para um livro que ainda nem foi escrito. Muita gente, informada pela BBC sobre o acontecido, já está ansiosa para ler a obra.

Black is beautiful

José Horta Manzano

Nenhum excesso é benéfico. Tudo o que é demais faz mal, todo o mundo sabe disso. No entanto, acontece de a gente cair no exagero sem se dar conta. Hoje fiquei sabendo de mais uma.

Folheando o jornal britânico The Telegraph, entre umas notícias sobre o Brexit e outras sobre a família real, encontro artigo surpreendente. Fala do Brasil e de uma polêmica envolvendo uma propaganda de papel higiênico. Pelo que entendi, uma empresa lançou produto de cor diferente do habitual: em vez de brancos, amarelos ou de florzinha, os rolos são pretos.

“Você já viu muito cocô na vida”
Será que este slogan seria mais bem aceito?

Até aí, nada demais. Há quem ache mais bonito o papel de toalete vermelho. Outros preferem o verde, que combina com a cortina do box. Há ainda quem não abra mão do azul com desenhos ‒ igualzinho ao tapete em frente à pia. Preto, realmente, não é comum. Mas… por que não?

Os marqueteiros da empresa hão de ter espremido as meninges pra encontrar um slogan. A propaganda do similar estrangeiro, que apela para palavra vulgar, é dificilmente aplicável em nossa terra. Por seu lado, «Preto é bonito» tampouco cai bem no Brasil do século XXI. Numa terra em que entrega virou delivery e desconto se diz off, expressão em português soa chué. «Le noir est plus beau» ficaria bem nos anos 1920 mas hoje o francês passou de moda. Restou o inglês, que é mais chique. Ficou «Black is beautiful».

Ah, pra quê! A (ainda) não oficial Polícia dos Costumes se alvoroçou acusando a frase de racista. Como é que é? Sim, senhor! Parece que o slogan é marca registrada de uma campanha antirracista em voga na África do Sul nos tempos do regime de apartheid. Usada fora do contexto, ofende. Pode?

Black is really beautiful

Parece que pode. Em nossa terra, hoje em dia, há uma patrulha barulhenta que vê o mal por toda parte. Meter a mão nas burras do erário e encher cuecas, malas e apartamentos de dinheiro do povo não é grave. Mas todo cuidado é pouco ao pronunciar o nome da cor preta. Nem que seja em inglês. É terreno minado.

A meus olhos, a ofensa está em outra parte. Indecente de verdade era o slogan «Brasil, um país de todos», lançado pelo governo federal enquanto rapinava a Petrobrás e promovia catastrófico assalto ao dinheiro de todos. Tem pior ainda. O cúmulo do escárnio foi a «Pátria Educadora» da presidente hoje destituída. Ou não?

Guinada à direita extrema

José Horta Manzano

Estes últimos anos, a Europa tem sido palco de forte afluxo migratório composto pelos que fogem de situações de conflito e pelos que simplesmente buscam um futuro melhor. Nem sempre é fácil fazer a distinção entre os perseguidos pela guerra e os que fogem da fome. Se bem que, no fundo, são todos fugitivos. É legítimo que todo ser humano busque melhores condições de vida.

No entanto, por maior que seja a benevolência, o volume de clandestinos que chegam diariamente é tão elevado que causa problemas. Os recém-chegados desconhecem a língua e os costumes do país que os acolhe. Muitas vezes, professam religião diferente e raramente têm formação profissional. Acabam se sentindo como se tivessem desembarcado noutro planeta. Quanto aos nativos, assustados com a quantidade de novos imigrantes, tendem a rejeitá-los.

Reichstag ‒ o palácio que acolhe o Parlamento alemão

Anos atrás, um primeiro-ministro francês ‒ aliás, membro do Partido Socialista ‒ disse algo como «A França não pode acolher toda a miséria do mundo». Se as palavras não foram exatamente essas, a fala mostrava um certo desalento. Quanta miséria a França pode acolher? A pergunta ficou no ar. E está sem resposta até hoje.

Na época, era só a França, mas hoje praticamente toda a Europa enfrenta a mesma questão. Que fazer? Fechar fronteiras? Construir muros à moda de Mister Trump? Instalar cercas de arame farpado? Ou deixar entrar quem quiser? Não é fácil encontrar solução. Por mais segura que seja a canoa, a capacidade de receber passageiros é limitada. Ultrapassado o limite, ela periga afundar. Como é que fica, então?

A consequência inevitável desse estado de coisas é o fortalecimento de sentimentos nacionalistas, antieuropeus e xenófobos. Partidos de extrema-direita, que haviam desaparecido desde o fim da Segunda Guerra, ressuscitam revigorados. O fenômeno é visível, já faz alguns anos, na Itália, na França, no Reino Unido. Ultimamente, Hungria, Polônia e República Tcheca acompanham o movimento. Até poucas semanas atrás, a Alemanha se mantinha fora do clube. Isso acabou.

Sessão do Bundestag ‒ os deputados federais alemães

As recentes eleições legislativas deram força à AfD (Alternativa para a Alemanha), partido de extrema-direita. Conseguiram eleger, de uma vez, 92 deputados para o Bundestag, a câmara baixa. É a primeira vez, desde 1945, que a direita extrema logra eleger deputado. O partido tornou-se, da noite para o dia, a terceira força política do país. É pra deixar muito alemão horrorizado. Os fantasmas do passado tenebroso estão saindo do baú.

Abre-se esta semana a nova legislatura do Bundestag. Por tradição, o discurso inaugural é feito pelo deputado mais idoso, seja ele de que partido for. O problema é que, desta feita, o mais velho era justamente um senhor eleito pelo partido de extrema-direita. Pior que isso, Herr von Gottfried (77 anos) é ferrenho adepto da corrente negacionista, daqueles que garantem que as câmaras de gás nunca existiram e que a exterminação dos judeus não passa de um mito.

Às pressas, o regulamento do parlamento foi modificado. O discurso de abertura passou a ser confiado ao deputado mais antigo, não ao mais idoso. A manobra salva as aparências mas, infelizmente, o problema continua tal e qual. A subida de forças nacionalistas de extrema-direita é pra lá de inquietante. Principalmente na Alemanha.

O Lula não mudou

José Horta Manzano

Este domingo, o jornal espanhol El Mundo publicou entrevista concedida pelo Lula. A leitura do documento é aflitiva. Ao final, a gente fica sem saber se o ex-presidente acredita realmente no que afirmou ou se está apenas representando um papel. Talvez as duas opções sejam verdadeiras. As respostas oscilam conforme a pergunta do repórter. Em certos assuntos, ele diz o que acredita ser verdadeiro. Em outros, dá a resposta que imagina que os leitores estejam esperando. No cabeçalho da reportagem, o próprio jornal fez um elenco das respostas mais marcantes. Vale a pena dar uma vista d’olhos.

Candidato em 2018
«Vou-me apresentar, aos 72 anos, porque ninguém sabe, como eu, cuidar do povo mais necessitado»

Observação 1
Nosso guia continua passando por cima da evidência de que presidente não é eleito para cuidar apenas do povo mais necessitado. Recebe mandato para governar o país inteiro ‒ pobres, ricos e remediados.

Observação 2
O país foi dirigido pelo ex-sindicalista, direta ou indiretamente, durante 13 anos. Se soubesse cuidar dos pobres, estes já deveriam ter desaparecido. Em vez disso, o desastre foi tão grande que o povo ‒ incluídos os «mais necessitados» ‒ se rebelou e derrubou a turma toda. Querer voltar agora é demais ousado.

Observação 3
Na época das eleições de 2018, nosso guia já estará completando 73 aninhos, não 72.

Corrupção
«O processo que me movem é uma farsa. Ninguém achou provas.»

Observação
As acusações contra o demiurgo estão entre as mais embasadas. Há toneladas de provas documentais e testemunhais.

Venezuela
«Não entendo por que a Europa se preocupa tanto com Nicolás Maduro. Foi eleito democraticamente.»

Observação
No meu tempo, diríamos que o moço está dando uma de joão sem braço. Está-se fazendo de ingênuo. Todos sabem como funciona o processo eleitoral venezuelano, movido a fraude maciça e a brucutus.

Felipe VI
«Numa situação de tensão como a que se vive na Catalunha, o rei não deveria tomar partido mas mediar.»

Observação
O Lula mostra atroz ignorância. O rei não “tomou partido”, mas lembrou aos súditos que o país tem uma Constituição a respeitar. Nosso guia continua firme na visão conflituosa de mundo: ou se está de um lado, ou se está de outro. Sem nuances. É a mais pura expressão do “nós x eles”.

Catalunha
«Entendo que o nacionalismo catalão vem de longe, mas eu prefiro uma Espanha unida.»

Observação
O Lula não se dá conta de que ninguém está interessado em saber que Espanha ele prefere. Com esta última declaração, ele anulou o pito que havia passado no rei da Espanha na resposta anterior. Quem se considera “estadista” não deve opinar em assuntos internos de outro país.

Como pode o distinto leitor constatar, o ex-presidente não mudou nadinha. Continua exatamente como sempre foi: ego inflado, recalcado, mentiroso, intrometido, presunçoso, demagogo. O passar do tempo não lhe foi benéfico. Que Deus nos livre de ter de aguentá-lo de novo no Planalto.

O país do molha a mão

Carlos Brickmann (*)

A procuradora-geral Raquel Dodge disse, ao tomar posse, que o povo “não tolera a corrupção”. Sua Excelência está certa, mas na frase faltou um pedacinho que lhe daria mais precisão: o povo não tolera “a corrupção dos outros”. O problema não somos nós, mas aqueles safados que condenamos.

Uma entidade séria, a Transparência Internacional, em pesquisa agora divulgada, mostrou que 11% dos brasileiros admitiram pagar propina para ter acesso a serviços públicos como saúde, educação, segurança, emissão de documentos. Detalhe interessante: a pesquisa se realizou na época do impeachment da presidente Dilma Rousseff, com manifestações de massa contra a corrupção do governo. Petrolão, não; mas tudo bem molhar a mão.

As respostas positivas, em que tanta gente confessa não apenas seu hábito de transgredir a lei como o desprezo pelos que protestam contra isso, são obviamente verdadeiras: ninguém mente ao confessar que age fora da lei. Portanto, se as autoridades pensam ter apoio do povo para combater os atos mais comuns de corrupção, podem ir desde logo mudando de ideia.

A pesquisa, porém, traz aspectos mais positivos. Dos brasileiros, 81% garantem que, se presenciassem um ato de corrupção, denunciariam. Claro que até agora ninguém o fez, exceto em troca de algum tipo de perdão dos suculentos – em alguns casos, tão bons que vale a pena até assumir a culpa de um crime. Mas é bom sinal. Quem sabe um dia?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Meu pé de laranja-lima

José Horta Manzano

Nossa língua tem maneira bem prática de dar nome a árvores frutíferas. Partindo do nome do fruto, acrescenta-se a desinência -eiro ou -eira à raiz da palavra. Não funciona em todos os casos, mas dá pro gasto.

Pra compensar, o sistema serve até para alguns arbustos e até para árvores que não dão frutos comestíveis. Assim, temos: manga/mangueira, abacate/abacateiro, goiaba/goiabeira, laranja/laranjeira, tomate/tomateiro. Mas também: paineira, caneleira, magnoleira, palmeira.

clique para ampliar

Sabe-se lá por que razão, uma correlação tão simples é cada vez mais ignorada. Em vez de cafeeiro, muitos usam «pé de café». No lugar de abacateiro, «pé de abacate». E ainda «pé de laranja», «pé de pitanga» e por aí vai. Será a lei do mínimo esforço em ação? É uma pena. Acho um empobrecimento.

Ontem, na legenda de uma bela foto, o Estadão explicou que se tratava de uma «fábrica de tijolos». Este blogueiro é do tempo em que esse tipo rudimentar de indústria se chamava olaria. A palavra deve ter-se tornado arcaica. E eu junto.

Uma curiosidade
No caso de fruta, o nome da árvore será sempre do mesmo gênero que o nome da fruta. Assim: pêssego/pessegueiro, ameixa/ameixeira, mamão/mamoeiro, pera/pereira. Há uma única exceção: figo/figueira.

Mudança

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um dos melhores livros que já li leva exatamente esse título. Escrito por três psicólogos americanos, defende a tese de que uma estratégia de mudança, para ser efetiva e duradoura, precisa ser em alguma medida paradoxal. Em outras palavras, ela precisa propor um novo paradigma, um novo enquadramento para a realidade que se deseja alterar, capaz de inspirar soluções alternativas às já tentadas.

Valendo-se da teoria matemática dos grupos, os autores explicam que, se a solução sugerida pertencer ao mesmo grupo do problema, ela perderá eficácia a curto prazo, e os benefícios, se houver algum, terminarão sendo automaticamente anulados com o tempo. Em linguagem matemática, se o problema for representado por +1 e a tentativa de solução por -1, o resultado será sempre zero se ambos pertencerem ao mesmo grupo.

Pense, por exemplo, numa pessoa que sente frio. A tendência universal é recorrer a medidas conceitualmente ancoradas na sensação oposta, ou seja, na ideia de se aquecer. A pessoa pode recorrer de início a alguma fonte externa de calor, como um cobertor, meias de lã ou agasalho. Se não funcionar, ela simplesmente aumenta a dose.

O conforto trazido pode representar um importante alívio dos sintomas, o que induz a pessoa a crer que seu problema está resolvido em definitivo. No entanto, a própria imobilidade do corpo, esmagado sob tantas camadas de roupa e de acessórios, fará com que a sensação de frio volte a incomodar. A pessoa pode, então, experimentar alternativamente alguma forma de geração de calor interno, exercitando-se vigorosamente ou ingerindo alguma bebida quente. Nesse caso, a transpiração levará inexoravelmente de volta a um resfriamento da pele e nova onda de frio será experimentada.

Pense agora na solução implementada pelos esquimós para combater o frio extremo de seu habitat. Os iglus, mesmo construídos com blocos de neve, mostraram ser uma solução engenhosa e eficaz por terem partido de outro conceito-base: o de impedir a circulação dos ventos. Graças a esse novo paradigma, vários outros produtos puderam ser desenvolvidos para combater a hipotermia, como é o caso dos agasalhos térmicos, que incorporam uma camada externa impermeável aos ventos. Até mesmo o frio causado pelo contato com as águas geladas dos oceanos, rios e lagos pode ser minimizado com o uso de trajes de mergulho de neoprene.

Os autores oferecem dezenas de exemplos deliciosos e instigantes de mudanças paradoxais introduzidas com sucesso ao longo da história, tanto em termos comunitários quanto na vida de pessoas comuns. Um dos que mais gosto diz respeito a um oficial francês que recebe ordens de Maria Antonieta para esvaziar a praça em frente ao palácio. Percebendo a enorme desproporção numérica entre seus soldados e a multidão que se aglomera em protesto, ele tem uma súbita inspiração. Sobe num caixote e grita, chamando a atenção da multidão. Em tom respeitoso e sério, ele se dirige aos camponeses e operários dizendo ter recebido ordens de se livrar apenas e tão somente de ‘la canaille’, ou seja, dos indivíduos vis e desprezíveis. Diz ainda que, por não ter como distingui-los a distância, pede encarecidamente a todos os cidadãos de bem que retornem às suas casas. A praça se esvazia em segundos.

Trago de volta essas lembranças inspirada pelo clima geral de final de feira em nossa república. Qual será a estratégia de mudança que teremos de elaborar para pôr fim a tanta desfaçatez, decadência moral e esgarçamento do tecido político, institucional e social em 2018?

Já experimentamos de tudo um pouco: desde intermináveis soluções de força a dirigentes que se proclamam não-políticos como forma de atrair a simpatia de eleitores indignados, passando por toda uma gama de líderes populistas de direita e de esquerda. Fizemos testes com membros da elite e com um da classe operária, com muitos homens e uma única mulher, com figuras públicas afeitas à norma culta da língua portuguesa e outras constrangedoramente donas de raciocínios tortuosos e discurso ilógico e gramaticalmente incorreto. Tivemos até um ditador reconduzido à presidência da república nos braços da população e fervorosamente aclamado como “pai do povo”.

Analisando todos os perfis de dirigentes até onde minha memória alcança, sou forçada a admitir, entretanto, que até hoje não conseguimos pensar fora da caixa. Continuamos elegendo sempre o perfil contrário ao de quem nos desagrada no momento, sem atinarmos com soluções pertinentes a outros grupos conceituais.

Que novos conceitos ainda nos resta explorar? Será que teremos de eleger não o candidato, mas o próprio marqueteiro que cuidou da campanha a peso de ouro? Será que um homem de televisão conseguirá aglutinar em torno de si cérebros privilegiados e corações sinceramente dedicados à nobre tarefa de servir aos interesses da população? Será que um jurista pode nos prometer mais isenção frente aos conchavos partidários e mais idoneidade no trato da coisa pública?

Não tenho as respostas, estou aceitando sugestões, por mais bizarras que elas sejam. Minha capacidade criativa – com o perdão do digno editor deste blog – foi devastada por décadas de irracionalidade e nonsense. No meu cérebro já não nasce nem a grama dos projetos comezinhos de sobrevivência individual. Duvido até da necessidade de lideranças para conduzir nosso imenso e complexo agrupamento social. O caos também é criativo, ora bolas.

Confesso por fim que tenho sentido ímpetos de cortejar a ideia de democracia direta. Alguém mais disposto a embarcar comigo nessa tentação?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Fiquei devastado

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa simples. Frases de aparência inofensiva escondem armadilhas. Uma delas é a contaminação. Basta um instante de desatenção e… catapum! O escriba dá uma escorregadela e troca os pés pelas mãos.

A contaminação se dá quando o termo a traduzir encontra na língua de destino um par que, embora muito semelhante, não dá exatamente o mesmo recado. A tentação é grande de optar pela simplicidade, utilizar a palavra parecida e seguir caminho. Mas nem sempre é a melhor opção. Parecido não é igual.

Quando se sente extremamente chocado com um acontecido, o inglês costuma dizer «I am devastated». Dia sim, outro também, encontramos na mídia nacional a tradução literal: «Fiquei devastado». Errado, propriamente, não está, mas soa esquisito e artificial como filme mal dublado.

Devastar(*) é formado pelo verbo vastar precedido pela partícula de reforço «de». Na origem, significa esvaziar um lugar e transformá-lo em deserto inabitado. Quem preferir traduzir «devastated» por «devastado» que o faça. Proibido não é, mas, convenhamos, um pouco de aplicação não faz mal a ninguém.

Segue aqui abaixo uma lista (não exaustiva) de substitutos. Cada um carrega uma nuance específica, mas giram todos em torno do mesmo tema. Da próxima vez, em lugar do bizarro «Fiquei devastado», experimente:

●  Fiquei arrasado
●  Fiquei abalado
●  Fiquei afetado
●  Fiquei impressionado
●  Fiquei assustado
●  Fiquei perturbado
●  Fiquei abatido
●  Fiquei estremecido
●  Fiquei horrorizado
●  Fiquei aflito
●  Fiquei sensibilizado
●  Fiquei atristado
●  Fiquei entristecido
●  Fiquei compungido
●  Fiquei chocado
●  Fiquei alarmado
●  Fiquei comovido
●  Fiquei aniquilado
●  Fiquei desolado
●  Fiquei aterrado
●  Fiquei destroçado

Não será por falta de opção, não é? Ninguém mais precisa se sentir “devastado”.

(*) Vasto é termo de origem germânica. É parente do inglês waste, do francês gâter, do alemão wüst (deserto), do português gasto.