Cabresto no Enem

José Horta Manzano

São tempos de Enem. Estão em efervescência candidatos a uma vaga em escola de ensino dito superior. Superior a que ou a quem? ‒ continuo me perguntando. É que não me parece que ensino propiciado por faculdade seja intrinsecamente superior ao que uma escola técnica oferece. Mas vamos deixar pra lá, que deve ser birra minha.

Dez entre dez candidatos enfrentam a prova de redação com especial temor. Não deixam de ter razão. No Brasil, a língua caseira se distancia mais e mais da língua culta, mas é nesta última que deve ser redigido o texto de 30 linhas. A baixa qualidade do ensino médio não facilita o aprendizado da norma padrão. Como resultado ‒ exagerando um pouco ‒ é quase como se o examinando tivesse de se exprimir numa língua estrangeira. Para a maioria, é um sufoco!

Estudante 10

Em princípio, a prova de redação serve para aferir a capacidade do candidato a concatenar ideias, a exprimi-las por escrito com lógica, a respeitar regras gramaticais, a empregar termos adequados e a grafá-los corretamente. No fundo, a opinião do aluno sobre o tema proposto pouco deveria importar. Interessa saber se ele consegue deitá-la no papel de maneira clara e coerente.

No entanto, as autoridades responsáveis pela organização do exame nacional houveram por bem inserir um componente ideológico à prova de redação. Ao aluno, é proibido exprimir opinião que possa ser considerada «desrespeitosa aos direitos humanos». O conceito é suficientemente vago para dar margem a interpretações pessoais várias. Uma frase ou uma ideia que, aos olhos do examinador A, possa parecer desrespeitosa não o será no julgamento do examinador B. Está armada a confusão.

A prova de redação, por si, já faz brotar gotas de suor frio nos jovens. Não precisa acrescentar dificuldade ao que já era complicado. Como já disse, pouco importa a opinião do examinando. Vivemos num país em que o direito à livre expressão do pensamento é garantido pela Constituição.

Caso o texto contenha injúrias, ameaças ou ofensas pessoais, o corretor deve denunciar à autoridade competente. Nem por isso, deveria ter o direito de dar nota zero ao examinando. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Se alguém escrever que escoceses são sovinas ou que poloneses são chegados a uma vodcazinha estará sendo «desrespeitoso» a direitos humanos? E se disser que os eleitores de Mr. Trump têm mente estreita? Que tal dizer a mesma coisa dos eleitores de Señor Maduro? Onde está a linha vermelha?

Parece-me extremamente injusto acrescentar esse cabresto. É penduricalho que não faz sentido. Afinal, não se trata de prova de Educação Moral e Cívica. Que as ideias do aluno sejam quadradas ou que sejam pouco convencionais pouco importa. Se suas palavras configurarem crime previsto no Código Penal, que seja denunciado. Se não, que seja deixado em paz.

No Brasil, em matéria de estudos e de formação profissional, o verdadeiro desrespeito aos direitos humanos é o menosprezo crônico aos ofícios técnicos e manuais.

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2017-1104-02 Estadao

Chamada Estadão, 4 nov° 2017

PS
Estes últimos tempos, as decisões do STF andam meio assim assim. Mas, de vez em quando, acertam em cheio. Foi o caso de hoje.

4 pensamentos sobre “Cabresto no Enem

  1. O que está se tornando motivo de preocupação, mas parte das pessoas finge que não percebe e outra vê como ótima solução, é uma tendência à direita. O MEC infelizmente cedeu à esta inclinação.

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    • Maria José,

      A meu ver, pouco importa que o MEC tenda à direita, à esquerda, à frente ou que fique parado. O que me incomoda é ver que estão misturando estações. Prova de redação não é teste para aferir se examinandos são «respeitosos» ou não. É para ver se sabem se exprimir e defender sua opinião.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Manzano,
    Não quero abordar questões sobre o foco principal do seu artigo de hoje, mas chamou a minha atenção a sua convicção e afirmativa de que “….. não me parece que ensino propiciado por faculdade seja intrinsecamente superior ao que uma escola técnica oferece.”
    Pois é . . .
    Nos tempos tidos como de “governo ditatorial” no início dos anos 70 a política então propagada pelo Ministério da Educação, a cargo de um nacionalista, o Ministro Jarbas Passarinho, focou nesse sentido do ensino técnico, sem sucesso.
    Curso técnico, na minha opinião e confirmado no que eu vejo hoje 45 anos após, em país em desenvolvimento não deveria ser focado a todos, indistintamente.
    Deveria ser opção e foi um curso obrigatório.
    Mas indo ao que realmente interessa nos tempos atuais, a discussão que coloco é o aproveitamento do “conhecimento”, proporcionado quer pelas universidades ou mesmo por escolas técnicas.
    Há um vídeo na web abordando a mudança em curso, fundada no que foi, no passado, a “Kodak”…
    Quanto ao futuro há mil especulações, como propagado na obra “Homo Deus”, que ainda não li, mas que propaga expectativas …
    Você consegue traduzir temas profundos e complexos num linguajar compreensível, daí a minha sugestão de dar numa próxima oportunidade um enfoque sobre essa questão do “conhecimento futuro, quer por curso técnico ou universitário”.

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    • Ricardo,

      Obrigado pela intervenção. Vou preparar um post para aclarar minha posição. Concordo que, sem explicação, a frase que você citou fica assim meio estranha, pendurada no ar.

      No fundo, o que me incomoda é a palavra «superior», que transmite uma sensação de que determinados indivíduos são melhores que outros e pairam acima do populacho.

      Voltarei ao assunto.

      Forte abraço.

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