Black is beautiful

José Horta Manzano

Nenhum excesso é benéfico. Tudo o que é demais faz mal, todo o mundo sabe disso. No entanto, acontece de a gente cair no exagero sem se dar conta. Hoje fiquei sabendo de mais uma.

Folheando o jornal britânico The Telegraph, entre umas notícias sobre o Brexit e outras sobre a família real, encontro artigo surpreendente. Fala do Brasil e de uma polêmica envolvendo uma propaganda de papel higiênico. Pelo que entendi, uma empresa lançou produto de cor diferente do habitual: em vez de brancos, amarelos ou de florzinha, os rolos são pretos.

“Você já viu muito cocô na vida”
Será que este slogan seria mais bem aceito?

Até aí, nada demais. Há quem ache mais bonito o papel de toalete vermelho. Outros preferem o verde, que combina com a cortina do box. Há ainda quem não abra mão do azul com desenhos ‒ igualzinho ao tapete em frente à pia. Preto, realmente, não é comum. Mas… por que não?

Os marqueteiros da empresa hão de ter espremido as meninges pra encontrar um slogan. A propaganda do similar estrangeiro, que apela para palavra vulgar, é dificilmente aplicável em nossa terra. Por seu lado, «Preto é bonito» tampouco cai bem no Brasil do século XXI. Numa terra em que entrega virou delivery e desconto se diz off, expressão em português soa chué. «Le noir est plus beau» ficaria bem nos anos 1920 mas hoje o francês passou de moda. Restou o inglês, que é mais chique. Ficou «Black is beautiful».

Ah, pra quê! A (ainda) não oficial Polícia dos Costumes se alvoroçou acusando a frase de racista. Como é que é? Sim, senhor! Parece que o slogan é marca registrada de uma campanha antirracista em voga na África do Sul nos tempos do regime de apartheid. Usada fora do contexto, ofende. Pode?

Black is really beautiful

Parece que pode. Em nossa terra, hoje em dia, há uma patrulha barulhenta que vê o mal por toda parte. Meter a mão nas burras do erário e encher cuecas, malas e apartamentos de dinheiro do povo não é grave. Mas todo cuidado é pouco ao pronunciar o nome da cor preta. Nem que seja em inglês. É terreno minado.

A meus olhos, a ofensa está em outra parte. Indecente de verdade era o slogan «Brasil, um país de todos», lançado pelo governo federal enquanto rapinava a Petrobrás e promovia catastrófico assalto ao dinheiro de todos. Tem pior ainda. O cúmulo do escárnio foi a «Pátria Educadora» da presidente hoje destituída. Ou não?

Matéria-cinza

José Horta Manzano

Tem notícias que parecem primeiro de abril. Esta de ontem entra na coleção: a entrega de passaportes está atrasada por falta de matéria-prima.

A previsão de normalização? Não, distinto leitor, não é para a semana que vem. Se tudo correr bem, lá pelo meio do ano voltamos à rotina. Daqui a três meses, se tudo der certo.

Chamada do Estadao, 25 abr 2016

Chamada do Estadao, 25 abr 2016

Uma mente maliciosa poderia até entender que, de tanto despachar gente fina para o exterior, anda faltando matéria-prima humana, daí a suspensão da emissão de documentos de viagem. Já não sobrou ninguém para expatriar.

Santo Erasmo

Santo Erasmo de Formia

Sabemos que não é isso. Se pudessem, muitos brasileiros, envergonhados com a baixeza onipresente, se mandariam definitivamente para a Florida. Por que Florida? Porque lá faz calor e nossos conterrâneos receiam o frio, ora.

Bem, se a matéria-prima faltante não é massa cinzenta, há de ser papel. Estou começando a sentir um cheirinho de Venezuela. Lá também começou assim, com falta de papel fino. O nível foi baixando e terminou faltando… papel higiênico.

Valei-nos, Santo Erasmo (≈253 ‒ ≈303), venerado protetor dos que padecem cólicas intestinais!