Dos males, o pior

José Horta Manzano

Pra saber o que vai acontecer neste ziguezagueante governo que nos cabe tolerar, só tendo bola de cristal guardada no armarinho da farmácia do banheiro. Bem à mão, como escova de dente e cortador de unha.

No momento em que escrevo, a mídia séria (ainda) afirma que um dos bolsonarinhos – aquele que é deputado estadual – desistiu de postular posto de embaixador da República do Brasil junto aos Estados Unidos da América do Norte. Nada garante que, quando este post tiver sido mandado ao éter, a notícia já não se tenha modificado. You never know – nunca se sabe.

No país, os que têm ouvidos de ouvir ouvem. Os que ainda têm um olho aberto observam. Os que guardam capacidade de cogitar cogitam. E todos eles se perguntam: «Que será pior? Guardar o filho deslumbrado junto ao regaço do pai ou despachá-lo pra além-mar?».

Se ficar por aqui, periga reforçar o time da maldade, aquele grupelho já conhecido como ‘gabinete do ódio’. Bom para o país é que não há de ser. Pode-se ter certeza de que as intrigas palacianas só tenderão a aumentar.

Se for mandado pra longe, sua exposição internacional será necessariamente maior. Sabe Deus a vergonha que nos fará, então, passar! E tudo junto à corte do país mais vigiado do planeta, aquele de que todos escrutam o menor suspiro. Vai ser um sufoco.

Confesso que, as duas opções traduzem o real significado da palavra dilema, qual seja, uma escolha obrigatória entre duas possibilidades más. Seja o que acontecer, será ruim para o Brasil. Valha-nos, São Benedito!

Chamada Esdatão, 22 out° 2019

Ao dar a notícia, o repórter do Estadão escorregou. Disse que o bolsonarinho desistiu da embaixada em meio à resistência de seu nome no Senado.

Enganou-se. Devia ter dito que o rapaz desistiu em meio à resistência a seu nome no Senado. Quem resiste, resiste a algo, não de algo. Existe resistência a alguma coisa, não de alguma coisa. Exemplos:

Resistiu à ideia de ir ao cinema.

Resiste a aceitar a oferta.

Não ofereceu resistência à prisão.

Em dia de Enem? Francamente…

José Horta Manzano

A grande mídia nacional, cujos órgãos chegam a publicar manuais de redação, deveria tomar mais cuidado com a escrita. Mormente nos títulos. E principalmente em temporada de Enem.

O verbo pedir tem diferentes acepções, mas só se constrói com a preposição para em um caso: é quando se pede licença para fazer algo. Portanto, a expressão «pedir para» comporta um termo oculto. Levantando a cortina, temos «pedir (licença) para».

Assim, em frases como pedir para entrar, pedir para ir ao banheiro, pedir para sair mais cedo, é adequado empregar a preposição para depois do verbo. Já a chamada do jornal é inadequada. Deveria ser «PSDB pede a Luislinda que fique em silêncio (…)».

Se a mídia escrita não tem o poder de aprimorar o ensino da língua, seria desejável que, pelo menos, não atrapalhasse.

Extorsão por chantagem

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 11 set° 2017

Nem que o pedinte chegasse com uma sacola de escorpiões conseguiria extorquir motoristas. É impossível.

A linguagem popular acredita que os verbos roubar e extorquir sejam sinônimos perfeitos. Não são. Veja por quê.

Roubar é verbo elástico. Aceita múltiplas regências. No uso mais comum, o objeto tanto pode ser a pessoa de quem algo foi roubado quanto a coisa roubada.

Exemplos:

●  Ladrões roubaram a sacristia. (= assaltaram o local e levaram objetos)

●  Ladrões roubaram o cálice de ouro da sacristia.

Extorquir é bem menos flexível. Extorque-se algo de alguém. E só.

Exemplos:

●  Chantagista extorquiu mil reais da vítima.

●  Por métodos pouco ortodoxos, a polícia extorquiu a confissão do acusado.

●  Homem usa escorpiões vivos para extorquir dinheiro de motoristas.

Nota
Extorquir, torcer, torturar, entortar são primos-irmãos. Descendem todos da raiz latina torqueo, torquere. Extorquir carrega a ideia de extrair algo de alguém por uso de força ‒ torcendo-lhe o braço, por exemplo.

Comunicar x informar

José Horta Manzano

O Lula teve muito poder. A roda do destino girou e derrubou o homem. A vida é assim mesmo, crua, cruenta e cruel. Ai daquele que se deixar dominar pela soberba!

Doutor Moro tem muito poder. Muita gente tenta puxar o tapete pra fazê-lo escorregar. Até hoje, não conseguiram. Resta esperar que, antes que algum mal lhe aconteça, consiga levar a cabo o trabalho que começou.

Doutor Moro tem realmente muito poder. Pode convocar, interrogar, acusar, inculpar, mandar prender, julgar e sentenciar. Mas não pode mudar a língua.

Chamada Estadão, 22 jul 2017

O estagiário que dá título à matéria do Estadão não sabe disso. Ao ler de soslaio o conteúdo do artigo, mandou ver: «Moro manda comunicar Lula sobre bloqueio de bens». Como é que é? Comunicar Lula sobre?  Tsk,tsk, o rapaz andou gazeteando durante as aulas de Linguagem.

Comunica-se algo a alguém. Na acepção em que foi utilizado na chamada acima, o verbo comunicar é bitransitivo. Pede dois objetos: um direto e um indireto. Comunicar dá o mesmo recado que informar, mas não obedece à mesma regência.

Há opções melhores e menos desastradas do que a escolhida pelo redator. Eis algumas:

  •  Moro manda comunicar a Lula bloqueio de bens.
  •  Moro comunica a Lula bloqueio de bens.
  •  Moro manda informar Lula sobre bloqueio de bens.
  •  Moro informa Lula sobre bloqueio de bens.
  •  Moro cita e intima Lula para dar-lhe ciência do sequestro de seus bens.

Comunicar o Lula? Pode não, senhor.

Palmas pra ela

José Horta Manzano

«(…) Vocês podem tentar criar qualquer conflito ou qualquer barulho ou ruído entre mim e o presidente Lula, que vocês não vão conseguir.»

Dilma Rousseff, por ocasião da entrevista coletiva concedida em Bruxelas dia 24 fev° 2014.

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Entre mim e ele? Concordo que soa muito estranho, mas assim é.

Bandeira Brasil UEQuanto ao mais, com sua habitual falta de tacto, Dona Dilma misturou estações. Confundiu Cúpula UE-Brasil ― reunião de elevado nível ― com debate na OMC, onde não costumam discursar chefes de Estado. Soltou os cachorros no lugar inadequado e na hora indevida. Chorou pitangas para auditório que esperava outra coisa.

Chegado o momento da coletiva, a plateia de repórteres já temia o pior. Todos já se perguntavam se a presidente usaria martelo, marreta ou britadeira para acariciar a língua portuguesa.

Para surpresa geral, ela encaçapou a bola sete. Ninguém esperava, sejamos honestos. É raríssimo ouvir seja quem for dizer «entre mim e ele». Pois está corretíssimo, acreditem. É uma questão de coerência gramatical.

As preposições pedem pronome na forma oblíqua. Vejam só:

Interligne vertical 12Dirigiu-se a mim.
Chegou antes de mim.
Veio até mim.
Testemunhou contra mim,
Não espere nada de mim.
Causou forte impressão em mim.
Para mim, não vale nada.
Manteve o respeito perante mim.
Por mim, está tudo bem.
sem mim, que fico por aqui.
Discutiam sobre mim.

Por que, diabos, somente a preposição «entre» escaparia à regra geral? Pois não escapa, ensina a norma culta. Entre mim e ele, sim, senhor. Quer mais inusitado ainda? Veja só: entre ele e mim. Gramaticalmente correto, sim, senhora.

Voltando à fala da presidente, há um ditado francês que diz que une fois n’est pas coutume ― um raro acerto aqui ou ali não significa que ela acerte sempre.

Desta vez, acertou. Pela singularidade do ato, sugiro uma salva de palmas pra ela. Clap, clap.

Razão dá-se a quem tem. Mas… que ninguém se engane. O malho não se aposentou. Está apenas de férias e pode voltar a qualquer momento.Interligne 18c

Se você ainda duvidar da redenção presidencial, comprove aqui:
O Globo
Jornal do Brasil
Valor Econômico
Folha de São Paulo