Eleições vêm aí

José Horta Manzano

A cada quatro anos, na única eleição em que os brasileiros estabelecidos em países estrangeiros têm licença para votar, descubro algum problema que nossas comunidades expatriadas enfrentam.

Este ano, o estrepe que dói no pé de conterrâneos no estrangeiro se chama Donald Trump, e atormenta os que um dia procuraram os EUA na crença de lá encontrar seu eldorado e de engatilhar seu ‘sonho americano’.

Estimativas dão conta de 2,1 milhões de brasileiros vivendo nos Estados Unidos, enorme contingente que representa 40% de nossos compatriotas fora do país.

Para acolher o afluxo de eleitores esperados para o 4 de outubro, os serviços consulares do Brasil abriram nada menos de 12 postos de votação, situados nas regiões com maior concentração de brasileiros.

Reportagem da Folha relata o caso do Consulado-Geral de Nova York, que vale como exemplo. Por medo de ser apanhado por uma patrulha brutal do ICE, o serviço que caça imigrantes ilegais (ou não), nossos conterrâneos passam longe de multidão, ajuntamento, fila na calçada, enfim, todo lugar em que possa ser vítima de uma batida. Isso vale tanto para documentados quanto para indocumentados – as patrulhas se deixam guiar pela aparência ou pelo faro, que nem sempre é perfeito.

Ciente desse impedimento, nosso consulado procurou um lugar mais discreto, longe de bairros “manjados”. Encontrou um lugar onde os votantes possam entrar rápido, sem se aglomerar na calçada, pondo-se todos a salvo do ICE.

É louvável a preocupação do consulado, mas receio que não vai encorajar muita gente a sair de casa. O medo de ser preso e, sabe-se lá, expulso, é grande demais.

Contra a brutalidade de Trump e de seus serviços, não há nada que possamos fazer. Por seu lado, as competentes autoridades brasileiras podem, sim, aplainar a vida dos brasileiros que, enfrentando Trump ou não, ganham a vida e sustentam a família no exterior.

Para começar, há um ponto importante a ser mencionado. Os 5,3 milhões de brasileiros do estrangeiro remetem anualmente ao Brasil o montante de US$ 4 bilhões. São mais de R$ 20,7 bilhões, soma considerável. É dinheiro que entra em nossa economia limpinho, caído do céu. Corresponde a US$ 750 por pessoa (crianças incluídas), ou seja, quase R$ 3.900 por cabeça. Não é qualquer cidadão nacional que paga tudo isso de imposto direto.

Nos EUA, o problema é esgueirar-se nas esquinas para escapar à versão trumpiana do famigerado ICE. Em países onde não se perseguem estrangeiros, o problema muitas vezes é a distância entre o domicílio do eleitor e o posto de votação. Na França, por exemplo, há um só lugar para votar: Paris. Isso significa que o brasileiro residente em Marselha, segunda cidade do país, tem de percorrer os 777 km que separam as duas metrópoles (7h45 de automóvel). Esse é o caso de muitos outros países.

Está na hora de o Brasil implantar, nem que seja só para os eleitores do exterior, o voto por correspondência. Não estou falando de voto por internet, mas de voto por carta levada pelo correio. Dos grandes países da Europa, conheço bem três onde esse tipo de voto está em vigor há décadas: a França, a Suíça e a Itália.

Se o Brasil adotasse esse método, os eleitores registrados no consulado receberiam em casa o material de voto. Exprimiriam seu voto confortavelmente, em seguida bastaria seguir as instruções: botar no correio (não precisa nem selar) e despachar. Os votos seriam apurados no próprio consulado, em seguida enviados a Brasília.

Esse procedimento anula patrulhas do Trump, e apaga também a distância do domicílio até o posto consular.

Há ainda outros pontos a inserir em nossa legislação a fim de facilitar a vida dos que pagam, por meio de suas remessas mensais à pátria, o pedágio de terem ousado trilhar um caminho diferente. Ficam para uma próxima vez.

Black is beautiful

José Horta Manzano

Nenhum excesso é benéfico. Tudo o que é demais faz mal, todo o mundo sabe disso. No entanto, acontece de a gente cair no exagero sem se dar conta. Hoje fiquei sabendo de mais uma.

Folheando o jornal britânico The Telegraph, entre umas notícias sobre o Brexit e outras sobre a família real, encontro artigo surpreendente. Fala do Brasil e de uma polêmica envolvendo uma propaganda de papel higiênico. Pelo que entendi, uma empresa lançou produto de cor diferente do habitual: em vez de brancos, amarelos ou de florzinha, os rolos são pretos.

“Você já viu muito cocô na vida”
Será que este slogan seria mais bem aceito?

Até aí, nada demais. Há quem ache mais bonito o papel de toalete vermelho. Outros preferem o verde, que combina com a cortina do box. Há ainda quem não abra mão do azul com desenhos ‒ igualzinho ao tapete em frente à pia. Preto, realmente, não é comum. Mas… por que não?

Os marqueteiros da empresa hão de ter espremido as meninges pra encontrar um slogan. A propaganda do similar estrangeiro, que apela para palavra vulgar, é dificilmente aplicável em nossa terra. Por seu lado, «Preto é bonito» tampouco cai bem no Brasil do século XXI. Numa terra em que entrega virou delivery e desconto se diz off, expressão em português soa chué. «Le noir est plus beau» ficaria bem nos anos 1920 mas hoje o francês passou de moda. Restou o inglês, que é mais chique. Ficou «Black is beautiful».

Ah, pra quê! A (ainda) não oficial Polícia dos Costumes se alvoroçou acusando a frase de racista. Como é que é? Sim, senhor! Parece que o slogan é marca registrada de uma campanha antirracista em voga na África do Sul nos tempos do regime de apartheid. Usada fora do contexto, ofende. Pode?

Black is really beautiful

Parece que pode. Em nossa terra, hoje em dia, há uma patrulha barulhenta que vê o mal por toda parte. Meter a mão nas burras do erário e encher cuecas, malas e apartamentos de dinheiro do povo não é grave. Mas todo cuidado é pouco ao pronunciar o nome da cor preta. Nem que seja em inglês. É terreno minado.

A meus olhos, a ofensa está em outra parte. Indecente de verdade era o slogan «Brasil, um país de todos», lançado pelo governo federal enquanto rapinava a Petrobrás e promovia catastrófico assalto ao dinheiro de todos. Tem pior ainda. O cúmulo do escárnio foi a «Pátria Educadora» da presidente hoje destituída. Ou não?