Birras
José Horta Manzano
Prisão sem bloqueador
Nem todos os estabelecimentos penitenciários brasileiros são equipados com bloqueador de celular. Numa época como a nossa, em que o barateamento de dispositivos de vigilância envolveu o mundo numa teia de controles, fica difícil justificar essa ausência de monitoramento justamente onde ele é mais necessário. Se alguém souber o motivo dessa lacuna, por favor mande carta para a redação.

Sem seguro
Em agosto de 2017, um balão caiu no velódromo do Parque Olímpico do Rio de Janeiro e provocou incêndio. Era de noite, ninguém se feriu, mas o prejuízo ficou em 10 milhões de reais. Por mais incrível que possa parecer, a instalação esportiva não tinha seguro contra estragos causados pelo fogo. Como o assunto saiu de foco, nunca mais se falou nisso. A conta foi paga, naturalmente, com dinheiro do contribuinte.
De um prédio público, nem se fala: é inadmissível que não tenha seguro. Mas também de um prédio particular, é estranho que proprietários não se preocupem em proteger o que lhes pertence. Em terras mais civilizadas, seguro residencial contra incêndio é obrigatório. Em geral, a seguradora oferece planos que cobrem também queda de raio, chuva de granizo, inundação, vidraça estilhaçada, roubo por arrombamento. Pagar seguro e nunca ter de utilizá-lo é sempre melhor que perder a casa e descobrir que não tinha seguro.

Nome feio
Crodowaldo, Ketymarani, Frankstein, Izuperiu, Leidi Dai são alguns dos prenomes estranhos carregados por milhões de infelizes conterrâneos nossos. A meu ver, a liberdade de imaginação dos pais termina onde esbarra no direito que o filho tem de portar nome digno. O pobrezinho vai ter de arrastar o nome pelo resto da vida. Não se pode admitir que pais ignorantes ou irresponsáveis deem ao filho prenome estigmatizante.
Por que é que nomes que saem do ordinário não são obrigatoriamente submetidos, antes de serem sacramentados, à apreciação do dono do cartório ‒ que se supõe ser pessoa letrada? Em caso de dúvida, que um juiz seja consultado.
Não prejudicar a vida alheia, por meio de atribuição de nome ridículo, é item importante na lista dos direitos humanos. Nessa matéria, um dique de contenção tem de ser erguido pra proteger inocentes. Portar nome digno é mais importante do que vestir azul ou rosa. Alô, dona Damares!
Árabes e judeus
José Horta Manzano
Apesar da energia despendida pelos governos petistas para promover e alargar linhas de fratura no seio da sociedade brasileira, o estrago não ultrapassou os clichês ligados à aparência física. As famigeradas quotas raciais foram estabelecidas grosseiramente. Na base, guiaram-se apenas pela cor da pele e restringiram-se a distinguir duas categorias: de um lado, pretos e mulatos; de outro, brancos e orientais. A medida tosca se limitou à aparência externa de cada indivíduo. Não tendo descido a minúcias, a estigmatização poupou a diversidade de nossa herança étnica e cultural. Melhor assim.
Nosso país faz parte do clube seleto dos que não ressentem o eco das rusgas entre judeus e árabes. Passando ao largo das desavenças no Oriente Médio, o brasileiro não demonstra preconceito contra nenhum dos dois povos beligerantes. Seria falso dizer que isso ocorre porque não os conhecemos. A sociedade brasileira integra milhões de descendentes de imigrantes árabes e judeus, que são considerados cidadãos exatamente como os outros, nem melhores, nem piores.
O fato de representantes das duas colônias sobressaírem em altos cargos da política nacional não abala ninguém. A mídia nem costuma sublinhar a origem desses personagens. Os árabes Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab, Rosinha Garotinho e Fernando Haddad são conhecidos e apreciados (ou detestados) por motivos que nada têm a ver com a origem de seus antepassados. O mesmo se aplica aos judeus Jaime Lerner, Jacques Wagner, Alberto Goldman e Ilan Goldfajn.
No estrangeiro, as paixões são mais vivas. Quando doutor Temer subiu à Presidência, a notícia chegou correndo ao Líbano, terra de seus antepassados. A mídia se empolgou e homenagens foram prestadas ao político brasileiro. No vilarejo de onde vem a família, doutor Temer é nome de rua.
Agora, que doutor Alcolumbre foi eleito presidente do Senado, foi a vez de a mídia israelense se entusiasmar. Todos salientaram o fato de ser a primeira vez que um judeu chega à Presidência de nossa Câmara Alta.
Note-se que o Brasil é menos efusivo quando algum de seus filhos chega a posição importante no exterior. Temos uma brasileira sentada no trono da Suécia e, no entanto, raramente se tem notícias da rainha Sílvia que, filha de Herr Walther Sommerlath e de dona Alice Soares de Toledo, cresceu no Brasil e fala nossa língua como qualquer conterrâneo. Além da coroa, ela dispõe hoje de tripla nacionalidade: brasileira, alemã e sueca.
Confirmando a convivência pacífica entre comunidades, temos agora o judeu Davi Alcolumbre e a árabe Simone Tebet no Senado, ambos em posição de destaque. A mídia estrangeira pode continuar se entusiasmando. Quanto a nós, vamos torcer pra que as linhas de fratura criadas à força acabem por cicatrizar sem deixar marcas.
Frase do dia — 389
Alinhamento automático
José Horta Manzano
Em novembro passado, quando o pai ainda nem havia ainda vestido a faixa, doutor Bolsonaro júnior, em visita a Washington, enfiou na cabeça um boné marcado «Trump 2022». Pela mesma ocasião, encontrou-se com o genro do presidente americano e atirou-lhe flores ao descrevê-lo como ‘um dos mais importantes conselheiros da Casa Branca e grande empresário’.
De lá pra cá, vivemos um não oficial alinhamento automático com a maior potência do planeta. Embora a expressão pareça fácil de entender, não sei exatamente o que significa um país alinhar-se automaticamente com outro. Acho que ninguém sabe direito. Que haja convergência em diversos temas, posso entender. Daí a colar feito sanguessuga me parece complicado. Colônias, protetorados e satélites podem agir assim. País soberano, não.
Não convém que o Brasil grude em outro país, como se sombra fosse. Pouco importa que os EUA sejam a potência dominante. O problema é o mesmo. Com a mudança de dirigentes, a orientação do país que serve de modelo pode se alterar. Quando isso ocorre, como é que fica? Caso apareça novo presidente com ideias semelhantes às de Mr. Obama, um pouco menos America first e um pouco mais globalizantes, que fazemos? Desgrudamos? E se, em seguida, vier outro Trump? Grudamos de novo?
Ajustar a política externa é exercício pra lá de delicado. A própria União Europeia ‒ fechado clube de menos de 30 sócios relativamente bem de vida, com níveis de desenvolvimento não muito díspares ‒ tem de fazer exercícios de contorcionismo nesse campo. É virtualmente impossível encontrar solução unificada que contemple o interesse individual de cada membro. Haverá sempre os descontentes, que se recusarão a sentar-se à mesa do banquete.
Tomemos o caso do repúdio ao ditador venezuelano. O apoio explícito a señor Guaidó, presidente autodeclarado, só foi subscrito, até o momento presente, por 19 dos 28 países membros da UE. Os demais, cada um por um motivo que lhe diz respeito, preferem manter distância do conflito e não declarar apoio nem a um nem ao outro. A Grécia nem tenta disfarçar: dá apoio integral ao regime de señor Maduro. E ressalte-se que são todos sócios do mesmo clube.
Enquanto um Brasil entusiasmado apoiou Guaidó desde o primeiro dia, a Itália, apesar de contar com um Salvini tão chegado aos Bolsonaros, difere da maioria dos europeus. Recusa-se a manifestar apoio ao autoproclamado presidente venezuelano. Isso tende a demonstrar que o caminho do alinhamento automático ‒ com quem quer que seja ‒ não nos convém. É insustentável. Atritos e divergências aparecem rapidinho.
Samba de um homem só
José Horta Manzano
Somos duzentos e tantos milhões. Pra enquadrar a marcha da nação e marcar o compasso dos cidadãos, há dezenas de ministros, centenas de parlamentares federais e estaduais, milhares de magistrados, prefeitos, vereadores, altos funcionários. Esse povo todo está lá, numeroso, justamente pra dar equilíbrio ao andamento da máquina. A multiplicidade de atores é garante dessa harmonia. Quando exercido por milhares de autoridades ao mesmo tempo, o poder se dilui, assegurando a despersonalização das diretivas. É importante para o bom funcionamento da democracia representativa.
Entre estarrecido e deprimido, o Brasil assistiu a espetáculo desagradável no fim de semana que passou. O drama representado no palco do Senado Federal foi grotesco, indigno de um país que se quer ‘emergente’. (Bem longe de emergir, ficou claro que ainda falta muito pra botar a cabeça fora d’água.) Só faltaram sopapos, porque o resto se viu: gente falando errado, discursos trôpegos, traições, gritos, atropelos, tentativa primária de fraude, casuísmos, decisões conforme a cabeça do cliente, indisciplina generalizada. Uma barafunda.
E tudo isso por quê? Que é que há de tão importante no cargo de presidente do Senado pra provocar tamanho apetite entre 81 marmanjos? Aí é que reside a negação do poder difuso e equilibrado. O presidente da Câmara Alta detém nas mãos imenso poderio. Cabe a ele ‒ e a ele só ‒ determinar a pauta das deliberações. Um projeto de lei que não lhe agrade? Vai pra gaveta. Um pedido de impeachment de ministro do Supremo, que não lhe pareça oportuno? Vai pra gaveta. Um pedido de impeachment do presidente da República, que não lhe convenha? Vai pra gaveta. Um pedido de suspensão da imunidade de um colega simpático? Vai pra gaveta e lá fica.
Esse poder desmedido dado a um só homem abre as portas pra obscuras transações. Não é à toa que um despeitado Renan, ao jogar a toalha, lamentou ter sido traído por um dos Bolsonaros juniores ‒ aquele que é senador e que anda enrolado com a Justiça. Ficou subentendido que o enrolado dava seu voto em troca do apoio de Renan em caso de pedido de suspensão de imunidade parlamentar. É o toma lá dá cá florido e vigoroso.
O presidente da República tem o direito de governar por decretos, se assim o desejar. Isso lhe confere poder discricionário. Um solitário ministro do STF tem o direito de expedir decisões que balançam as estruturas da República. Isso lhe confere poder discricionário. Agora sabemos que também o presidente do Senado detém o controle do que será ou não votado. Isso lhe confere poder discricionário.
Conclui-se que, no frigir dos ovos, passando por cima dos milhares de pequenas autoridades que exercem um nacozinho do poder global, o grosso mesmo está concentrado nas mãos de um punhado de indivíduos, que se podem contar nos dedos das mãos. Cada um deles, quando age solitário, nos faz dançar o samba de um homem só.
Observação
Davi Samuel Alcolumbre (1977-) é o novo presidente do Senado. O intrigante e raro sobrenome é judeu sefardi(*). Os antepassados de doutor Alcolumbre hão de ter deixado um dia a Espanha, muito provavelmente quando da expulsão de 1492, para se estabelecerem nalgum país do leste do Mediterrâneo, de onde, séculos depois, emigraram para o Brasil. A grafia do nome flutua conforme a transcrição: Alcolumbre, Alculumbre, Alkulumbre são algumas das variantes.
O «Al» inicial denota arabização. De fato, ‘al’ é o artigo em árabe. Essa característica do nome Alcolumbre reforça a tese de a família estar estabelecida na Espanha à época do domínio mouro, que durou sete séculos.
(*) Diz-se sefardi (plural: sefardim) dos judeus originários da Península Ibérica. Em hebreu moderno, Sefarad é o nome dado à Espanha.
Com ou sem crase? ‒ respostas
Dad Squarisi (*)
Aqui está a solução do teste de ontem sobre o emprego do sinal indicativo de crase.
1. O governador vai a Santa Cruz domingo de manhã.
2. Tinha de agradecer muita coisa a muita gente.
3. Empregados domésticos têm direito a férias.
4. Convém esclarecer às mães solteiras de seus direitos.
5. Eis as notas promissórias correspondentes às duas últimas prestações.
6. O presidente compareceu à sessão solene de instalação dos trabalhos legislativos.
7. O sistema está parado desde as 15h30.
8. Não é essa a blusa a que me referia.
9. Estava à toa na vida.
10. Aquela pasta é igual à que comprei.
11. Fez prova semelhante à de Maria.
12. Ele pertence a uma academia com projeção nacional.
13. Não foi possível chegar a conclusão alguma.
14. Chegou à conclusão de que não valia a pena.
15. Conseguiu o emprego devido a suas qualidades.
16. A secretaria funcionará de segunda a quinta das 14h às 18h30.
17. Na faixa leste do estado, o tempo está sujeito a instabilidade passageira.
18. Ante as arremetidas dos opositores, o parlamentar se recolheu sem reação.
19. A declaração pode ser preenchida a lápis ou a (à) tinta.
20. Considerando os difíceis processos apresentados, sente-se o comitê à vontade para expressar…
21. Dirigiu a S. Exª os agradecimentos da noite.
22. O expediente será das 8h às 10h.
23. Todo infrator está sujeito a punição.
24. A situação atual, dada a ignorância dos presentes, tende a piorar.
25. Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido à percentagem de apenas 55%.
26. Não pude sair devido à falta de tempo.
27. A regra também se pode aplicar à frase de Irene.
28. A regra também se pode aplicar a esta frase.
29. Espera-se um futebol à brasileira.
30. Nas minhas férias fui a Manaus.
31. Reportou-se à Roma dos Césares.
32. Faço minhas orações a Nossa Senhora.
33. Rezei à Mãe de Deus.
34. É recomendável não dar confiança a mulher alheia.
35. Emprestei o livro a (à) Teresinha.
36. Retornou à casa de Petrópolis.
37. No festival não se assistiu a nenhuma grande peça.
38. Disse gentilezas a você.
39. A fusão corresponde às expectativas do grupo.
40. Colocou o painel à direita do semáforo.
41. Para ter os direitos reconhecidos, recorreu a (à) instância superior.
42. Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá às pessoas.
43. Fez referência a (à) minha tia e à sua.
44. Dirigiu-se àqueles que até ontem eram seus pares.
45. Dirigiu-se às que pareciam suas amigas até ontem.
46. Eis a matéria à qual você se referia ontem.
47. Vou a casa buscar o agasalho.
48. Vou à casa de amigos buscar agasalhos.
49. Observe-a a distância, discretamente.
50. Observe-a discretamente à distância de uns 100 metros.
51. Curso de português a distância.
52. Não gosto de bife à milanesa.
53. Estava a ponto de bala.
54. Ufa! Reclama a toda hora.
55. É honesto a toda prova.
56. À medida que se acostuma no novo ambiente de trabalho, fica mais produtiva.
57. Paulo é a pessoa a quem você deve favores à beça.
58. Este é o homem a cuja filha você se referiu ontem.
59. A água inundou até a cozinha.
60. O marinheiro não está a bordo.
61. Não me refiro a Vossa Senhoria, mas à senhora que o acompanha.
62. Viram-se cara a cara.
63. Daqui à Esplanada são cinco minutos de carro.
64. Daqui a uma hora chegaremos a Brasília.
65. Tomou o remédio gota a gota.
(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.
Com ou sem crase?
Dad Squarisi (*)
Muitas vezes, o uso da crase dá dor de cabeça. Vai aqui abaixo um teste com 65 questões sobre o emprego do sinalzinho indicativo de crase. O distinto leitor está convidado a examinar cada frase e anotar se o a (as) deve ou não receber acento grave. As respostas serão publicadas amanhã.
1. O governador vai a Santa Cruz domingo de manhã.
2. Tinha de agradecer muita coisa a muita gente.
3. Empregados domésticos têm direito a férias.
4. Convém esclarecer as mães solteiras de seus direitos.
5. Eis as notas promissórias correspondentes as duas últimas prestações.
6. O presidente compareceu a sessão solene de instalação dos trabalhos legislativos.
7. O sistema está parado desde as 15h30.
8. Não é essa a blusa a que me referia.
9. Estava a toa na vida.
10. Aquela pasta é igual a que comprei.
11. Fez prova semelhante a de Maria.
12. Ele pertence a uma academia com projeção nacional.
13. Não foi possível chegar a conclusão alguma.
14. Chegou a conclusão de que não valia a pena.
15. Conseguiu o emprego devido a suas qualidades.
16. A secretaria funcionará de segunda a quinta das 14h as 18h30.
17. Na faixa leste do estado, o tempo está sujeito a instabilidade passageira.
18. Ante as arremetidas dos opositores, o parlamentar se recolheu sem reação.
19. A declaração pode ser preenchida a lápis ou a tinta.
20. Considerando os difíceis processos apresentados, sente-se o comitê a vontade para expressar…
21. Dirigiu a S. Exª os agradecimentos da noite.
22. O expediente será das 8h as 10h.
23. Todo infrator está sujeito a punição.
24. A situação atual, dada a ignorância dos presentes, tende a piorar.
25. Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido a percentagem de apenas 55%.
26. Não pude sair devido a falta de tempo.
27. A regra também se pode aplicar a frase de Irene.
28. A regra também se pode aplicar a esta frase.
29. Espera-se um futebol a brasileira.
30. Nas minhas férias fui a Manaus.
31. Reportou-se a Roma dos Césares.
32. Faço minhas orações a Nossa Senhora.
33. Rezei a Mãe de Deus.
34. É recomendável não dar confiança a mulher alheia.
35. Emprestei o livro a Teresinha.
36. Retornou a casa de Petrópolis.
37. No festival não se assistiu a nenhuma grande peça.
38. Disse gentilezas a você.
39. A fusão corresponde as expectativas do grupo.
40. Colocou o painel a direita do semáforo.
41. Para ter os direitos reconhecidos, recorreu a instância superior.
42. Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá as pessoas.
43. Fez referência a minha tia e a sua.
44. Dirigiu-se aqueles que até ontem eram seus pares.
45. Dirigiu-se as que pareciam suas amigas até ontem.
46. Eis a matéria a qual você se referia ontem.
47. Vou a casa buscar o agasalho.
48. Vou a casa de amigos buscar agasalhos.
49. Observe-a a distância, discretamente.
50. Observe-a discretamente a distância de uns 100 metros.
51. Curso de português a distância.
52. Não gosto de bife a milanesa.
53. Estava a ponto de bala.
54. Ufa! Reclama a toda hora.
55. É honesto a toda prova.
56. A medida que se acostuma no novo ambiente de trabalho, fica mais produtiva.
57. Paulo é a pessoa a quem você deve favores a beça.
58. Este é o homem a cuja filha você se referiu ontem.
59. A água inundou até a cozinha.
60. O marinheiro não está a bordo.
61. Não me refiro a Vossa Senhoria, mas a senhora que o acompanha.
62. Viram-se cara a cara.
63. Daqui a Esplanada são cinco minutos de carro.
64. Daqui a uma hora chegaremos a Brasília.
65. Tomou o remédio gota a gota.
Amanhã vêm as respostas!
(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.
Anemia global
José Horta Manzano
Este é um momento em que as altas esferas de países importantes (mas não só) estão atravessando um período de dúvidas, de retraimento. A vida é feita de altos e baixos: quando uns estão na subida, é comum e normal que outros estejam descendo. O que é menos comum é que tantos dirigentes estejam em fase de retraimento. Uma verdadeira anemia.
Donald Trump, o cacique-mor, fecha o segundo ano de mandato com uma espinha atravessada na garganta. Prometeu que ergueria, de qualquer modo, uma muralha pra afastar miserentos. De repente, dá-se conta de estar órfão de pai e mãe: o Congresso fechou a torneira e não lhe dá o crédito necessário. E agora?
Theresa May, primeira-ministra britânica, é outra que anda mais cabisbaixa que de costume. Por um lado, está compromissada por ter garantido ao povo tirar seu país da União Europeia. Por outro, a própria Europa lhe impõe um cardápio de pesadas condições, caso insista em deixar o bloco. Um dilema.
A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, está mal das pernas. Desgastada pelos longos anos de poder e enfraquecida por recentes derrotas em eleições parciais, já declarou que está encerrando a carreira e que não vai se recandidatar para a próxima legislatura.
Na França, depois de três meses de manifestações de protesto dos «gilets jaunes ‒ coletes amarelos», o presidente Macron anda sumido, encolhidinho. Com medo de povo, só dá entrevista para plateias amestradas. Se as eleições fossem hoje, aquele que venceu com o voto de dois em cada três franceses sairia derrotado.
Pedro Sánchez, primeiro-ministro socialista da Espanha, além de ter curta maioria no Congresso, está enfrentando outros inimigos. A revolta surda dos catalães que clamam por independência é pedregulho no sapato. Pra coroar, na importante região da Andaluzia, que governavam havia mais de 40 anos, os socialistas perderam para a direita.
Maurício Macri, da Argentina, está diante de galopante inflação acompanhada de degradação da economia do país. É a receita do Deus me livre, caminho certo pra acabar com qualquer dirigente.
Na Venezuela, não precisa nem dizer. O país, exaurido, titubeia. Como limão espremido, não dá mais caldo. E o ditador está de costas pro precipício, à espera de quem lhe diga: «Um passinho atrás, Excelência».
E no Brasil? Nem bem começou, o governo de doutor Bolsonaro já parece vacilante. O presidente tem problemas com os filhos, com o vice. Relações com o Congresso se anunciam agitadas. Ainda é cedo pra chegar a uma conclusão, mas, do jeito que vai, o que se vê é um governo menos forte do que se imaginava. Nesse particular, o dirigente maior de nosso país está emparelhado com os que mencionei: todos anêmicos. Deve ser isso a globalização.
Vale retro, Satanas
José Horta Manzano
O mesmo sapato vai funcionar de modo diferente, conforme o pé que o calce. Alguns indivíduos hão de se sentir à vontade com ele. Outros vão reclamar que aperta o dedinho. Haverá quem o ache estreito, preferindo mais alto no peito do pé. Alguém pode até sentir que o couro roça o calcanhar, o que pode formar bolha. No fundo, cada um é que sabe onde lhe aperta o sapato ‒ expressão que, em matéria de deboche, vale esta outra: «pimenta nos olhos dos outros não arde». Assim é a vida. Há vários ângulos a partir dos quais a mesma realidade pode ser encarada.
No Brasil, a tragédia provocada pela ruptura do dique de contenção de um depósito de rejeitos mineiros chocou, em primeiro lugar, pela dimensão humana. Centenas de compatriotas mortos é número maior que o das vítimas do avião da TAM que se espatifou anos atrás. A opinião pública se alarmou ao saber que existem milhares de reservatórios espalhados pelo país, todos sem garantia de solidez. A sensibilidade da população foi também abalada pelo fato de um acidente semelhante já ter ocorrido nas Minas Gerais três anos atrás. Pior: a gloriosa Companhia Vale do Rio Doce ‒ hoje simplesmente Vale ‒ está implicada em ambos.
A Suíça não tem exploração mineira. Dos montes helvéticos, não se extrai ferro, nem carvão, nem petróleo, nem metal nenhum. Não há reservas minerais conhecidas. No entanto, o país abriga, há quase dez anos, a sede de operações da Vale na Europa, na América do Norte e no Oriente Médio. O luxuoso prédio, de aparência futurista, foi construído sob encomenda, num bairro de altíssimo padrão, a dois passos da beira do lago.
Quando da instalação, a direção da companhia solicitou à municipalidade que mudasse o nome daquele trecho de rua. É que o nome antigo, «Chemin de la Vergognausaz», soava muito próximo a «Caminho da Vergonhosa». Solícitas, as autoridades aquiesceram. Perda de tempo. O futuro viria confirmar que a mudança de nome não passava de emplastro em perna de pau, ou seja, ação cosmética, sem efeito prático. A companhia continuaria a envergonhar o Brasil e o mundo com seu desleixo assassino.
Enquanto o Brasil chora seus mortos, um grupo de bem-comportados cidadãos suíços decidiu protestar contra a empresa, brandindo cartazes e usando máscaras. Foi dia 30 de janeiro. Deu até no jornal nacional do país. A grita dos manifestantes não é de ordem humanitária, mas econômica. Alertam para o fato de a Vale poder vir a abater do lucro as multas milionárias que terá de pagar. Se fizer isso, a lucratividade vai baixar e, consequentemente, os impostos cobrados em território suíço. Cada um é que sabe onde lhe aperta o sapato.
A Vale soltou comunicado informando que as atividades no Brasil não afetam a lucratividade da unidade suíça. Bem, se eles dizem, há de ser verdade.
Vale retro, Satanás!
Jogo de palavras anotado num dos cartazes levantados pelos manifestantes.
Nossa vida, mais amores
Ruy Castro (*)
Um dos maiores poemas, talvez o mais célebre, da literatura brasileira diz em sua segunda estrofe:
Nosso céu tem mais estrelas
Nossas várzeas têm mais flores
Nossos bosques têm mais vida
Nossa vida, mais amores.
Você adivinhou: é a Canção do Exílio, de Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), que começa, claro, com
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.
Quando o poeta o escreveu, em 1843, o Brasil, ainda com 90% de território a desbravar, tinha de si próprio uma visão romântica e idealizada. Hoje sabemos muito mais sobre o país ‒ e tanto que, se Gonçalves Dias fosse reescrever seu poema, teria outras imagens a escolher. Eis algumas.
Nossas barragens são criminosas e inseguras ‒ rompem-se e levam à morte o que encontram pela frente. Nossos viadutos e pontes vão abaixo ou racham, pela ação do tempo ou por serem feitos com material de quinta. Nossos museus se incendeiam e destroem patrimônios que não nos pertencem, mas à humanidade.
Nossos mares, baías e rios recebem nossos abjetos dejetos naturais e industriais e só têm o odor como protesto antes de morrer. Nosso céu é, às vezes, uma hipótese ‒ algo que deve existir acima da camada de poluição. E nossos sistemas de fiscalização, obedientes a interesses maiores, não fiscalizam.
Nossos hospitais, escolas e transportes públicos são carentes, insuficientes ou inexistentes. Nossas estradas, ruas e calçadas são crateras, impróprias para humanos e carros. Nossas cidades têm vastos territórios vedados aos cidadãos e outros em que, pela miséria, seus habitantes podem praticar tudo, menos a cidadania. E nossos administradores são inoperantes, incompetentes ou corruptos.
Falando neles, nossos corruptos são, estes, sim, dignos de poemas e rapsódias. Penetraram por todas as brechas conhecidas da vida pública. E, como não paramos de descobrir, também pelas desconhecidas.
(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.
A 40km/h
José Horta Manzano
Nós, os que temos mais de 30-40 anos, somos os últimos a ter vivido a era pré-informática. Somos, portanto, os últimos a nos deslumbrar com as facilidades do mundo conectado. Aos que virão depois de nós, tudo isso parecerá natural. Crianças e jovens de hoje hão de ter dificuldade em imaginar como era antes do computador e do smartphone.
De tempos em tempos, invenções revolucionárias vêm sacudir o coqueiro e abrir novos caminhos para a humanidade. As décadas em torno na virada do século 19 para o 20 foram férteis em novidades importantes. Nossos bisavós devem ter sentido o mesmo encantamento quando a luz elétrica veio iluminar o serão e eliminar a noite. Nossos avós viram surgir o avião e o rádio, novidades que provocaram uma guinada no caminho do homem.
Outro momento fascinante tinha ocorrido bem antes, em meados do século 19. Foi quando o transporte ferroviário entrou em concorrência com o cavalo. Assustados cidadãos hão de ter-se sentido inebriados com a experiência de viajar à vertiginosa velocidade de 40km/h. Um assombro!
Nós, os dinossauros pré-informáticos, passamos boa parte da vida sem dispor de facilidades que hoje parecem evidentes. Nos tempos de escola, quando o mestre encomendava um trabalho de pesquisa, não havia jeito senão passar horas na biblioteca pública atrás de livros e enciclopédias. Quando a gente tinha uma dúvida, pouco importa o assunto, o único remédio era perguntar a quem sabia.
Falando nisso, eu me lembro que, nos anos 1950, o jornal Folha da Manhã (hoje Folha de São Paulo) punha à disposição do distinto público um serviço fabuloso para esclarecer dúvidas. Chamava-se Folha Informações. Respondia pelo telefone 52-6161. A gente ligava, a mocinha atendia solícita. Fazia-se a pergunta ‒ que podia ser de qualquer natureza ‒ e deixava-se um número para o retorno.
Horas mais tarde (ou dias depois), vinha a resposta por telefone. Tudo grátis! A pergunta podia ser «Qual é a capital da Austrália?» ou «Qual é a fórmula pra converter graus Fahrenheit em Celsius?». Ou ainda «Quem descobriu a vacina contra a varíola?». Em matéria de google, era o que tínhamos. E já era um avanço, uma Enciclopédia Britânica ao alcance de quem não tinha meios de comprar uma.
Eu me pergunto se os jovens de hoje, que têm tudo à distância de dois cliques ‒ desde o preço do sushi no boteco da esquina até a biografia de Gengis Khan ‒ chegam a se dar conta do tesouro de que dispõem. Talvez não. Tanto faz, que a vida é assim mesmo. Por acaso nós nos sentimos deslumbrados quando viajamos a 40km/h?
Os cabelos de Nossa Senhora
José Horta Manzano
Lembro-me de um tempo em que ‒ diziam ‒ especialistas do exterior vinham admirar as proezas da engenharia brasileira. Contam que, à época da Guerra Fria, invejosos e incrédulos engenheiros soviéticos atravessaram meio mundo exclusivamente pra medir o espaço entre as colunas de sustentação do Museu de Arte de São Paulo, na avenida Paulista. À época, era o vão livre mais amplo já erguido no planeta, não sei se a estatística ainda vale.
De lá pra cá, parece que um pedregulho penetrou nas engrenagens e travou o suave funcionamento do mecanismo. Viadutos cedem, pontes desabam, barragens estouram. Por quê? Estaria o software de engenheiros nacionais fora de validade? Estaria o solo tropical mais instável que de costume, a ponto de tragar construções sem aviso prévio?
O distinto leitor sabe que não são essas as razões. O fato é que o desleixo, doença crônica nossa, cobriu estas terras tropicais com sua teia de miséria. O desmazelo ‒ e sua irmã gêmea, a impunidade ‒ estão na raiz desses problemas. A ruptura da barragem de Brumadinho é a mais recente dessas catástrofes. A série macabra já vem de longe e todos tememos que não termine aqui.
Acidentes acontecem, é verdade, e são às vezes imprevisíveis. Ninguém pode prever que um meteorito vá um dia riscar o céu e se espatifar dentro duma represa, provocando ruptura do muro de contenção. É difícil antecipar uma chuva de 40 dias e 40 noites sem parar, como nos tempos bíblicos, provocando o transbordo da represa. É tremenda má sorte um tornado se formar bem em cima do reservatório, provocando um remoinho cuja força acabe arrombando a parede de concreto. São ocorrências pra lá de extraordinárias. Suas consequências vão além do que o engenho humano pode prevenir.
O que tem acontecido com nossas obras de engenharia civil, no entanto, está dispensando meteoritos, tornados e dilúvios bíblicos. Construções desmoronam assim, sem mais nem menos, como fruta madura cai da árvore. Em seguida, quando se analisa com cuidado, a constatação é sempre a mesma: faltou manutenção. A entidade responsável, confiante na bondade divina, descuidou-se de vigiar e de fazer os reparos necessários enquanto ainda era tempo. Lembraram-se do adágio «Faz a tua parte, que Eu te ajudarei», mas ficaram só com o ‘Eu te ajudarei’, esquecendo-se do ‘faz a tua parte’.
Semana passada, doutor Bolsonaro fez saber, através de seu ministro de Minas e Energia, que pretende retomar a construção de usinas nucleares. Entre quatro e oito novas enormes silhuetas fumegantes deverão surgir no território.
Usina nuclear serve pra gerar energia elétrica. O Brasil tem duas delas em funcionamento, que respondem por 1,1% da eletricidade do país. Oito novas usinas, na hipótese mais ousada, representarão 4% da energia nacional. Se considerarmos os bilhões de dólares que serão investidos, o resultado é magrinho. Muito dinheiro pra pouco efeito.
Mas o pior não é o dinheiro. Com a cultura do desmazelo que nos invade, plantar usinas nucleares é decisão temerária. Se uma represa que se rompe causa centenas de vítimas, uma central nuclear que explode pode deixar milhões de mortos, sem contar a contaminação de grande parte do território nacional por centenas de anos.
Em países como Alemanha, Suíça e outros ajuizados, já está sendo aplicado o plano de abandono da energia nuclear. Não é coisa que se possa fazer do dia pra noite. Na Europa, os próximos 30 anos verão o desaparecimento paulatino desse tipo de geração de energia, que será substituída por matrizes renováveis.
Projetar usinas nucleares no Brasil em pleno século 21 é andar de marcha a ré. «Quem anda de costas», dizem no Catecismo, «pisa os cabelos de Nossa Senhora». Convém evitar.
Como desalojar Maduro
José Horta Manzano
De duas semanas pra cá, o drama venezuelano se exacerbou. Ao sofrimento diário de ter de encontrar comida para os filhos, juntou-se o medo de sair à rua e dar de cara com distúrbios violentos. Para o cidadão comum, o sofrimento ‒ que parecia ter chegado ao máximo ‒ piorou. Por ‘cidadão comum’, entendo os que não são militares, nem altos funcionários do regime, nem milicianos a soldo do governo, nem apaniguados de todo tipo.
Juan Guaidó, presidente da Assembleia, destituiu Maduro por conta própria e proclamou-se presidente provisório. Boa parte da população, cansada de guerra, deu apoio. Brasil, EUA e mais uma pancada de países latino-americanos aproveitaram pra desconhecer Maduro como presidente. Por seu lado, a União Europeia deu-lhe ultimatum marcando prazo de oito dias para convocar novas eleições. Caso assim não ocorra, a UE promete fazer coro com os que apoiam doutor Guaidó. Como respaldo, o ditador ainda conta com a Rússia mais um punhado de países, entre os quais alguns menos recomendáveis como Cuba, Irã, Turquia.
Se Maduro, aboletado no Palácio Miraflores, ainda posa de mandachuva, não é por abundância ou falta de apoio estrangeiro. No fundo, pouco importa a gesticulação de Washington, de Brasília ou de Bruxelas. Apesar das ameaças, os EUA continuam sendo o maior comprador do petróleo do país. Nenhum dos que apoiam Guaidó impôs boicote nem embargo comercial. Nem adiantaria. A razão da inamovibilidade do ditador, todo o mundo sabe, é o apoio que recebe da cúpula das forças militares. Enquanto durar essa sustentação, Maduro vai continuar no trono, ainda que a Venezuela continue a sangrar.
E por que é que o apoio dos militares é inabalável? O fato de estarem no bem-bom não explica tudo. A fibra humanitária também conta. Um fato revelador, ocorrido este fim de semana, dá boa pista pra esclarecer a questão. Señor José Luis Silva y Silva, coronel da Guarda Nacional Bolivariana, é adido militar junto à embaixada da Venezuela em Washington. Agarrando sua coragem com as duas mãos, o militar fez defecção e renegou o compromisso de lealdade para com a corporação. Lançou nas redes sociais um ‘pronunciamiento‘ em que se põe à disposição de Guaidó, o presidente interino.
Na exposição de motivos, o coronel explicou que há militares que, como ele, gostariam de abjurar a fé bolivariana, mas hesitam por dois motivos. Caso trabalhem fora do país, temem pelas represálias que a família, que ficou na pátria, possa sofrer. Caso vivam na Venezuela e consigam escapar do país com a família, receiam não ser bem acolhidos, dado que estarão fugindo de uma ditadura que sustentaram por muitos anos.
Taí a razão: os militares, base de sustentação da ditadura, temem o que lhes possa acontecer caso Maduro seja destituído. Não é a cara feia de Brasil, EUA e outros países que vai abalar o pedestal. Nem a simpatia de Rússia, Cuba & alia que vai ajudar. Para fazer cair o ditador, garantias têm de ser dadas ao chefes militares. Internamente, doutor Guaidó, em primeiríssimo lugar, teria de acenar com anistia ampla, geral e irrestrita. Externamente, EUA ‒ em primeiro lugar ‒ mas também Brasil e os demais deveriam dar sinais de estarem dispostos a acolher, com simpatia, todo dirigente militar que deseje se expatriar com a família.
Enquanto os militares venezuelanos não enxergarem um futuro desanuviado, não deixarão de apoiar a ditadura. A agonia do regime e o calvário do povo hão de se espichar.
Urgência urgentíssima
José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 janeiro 2019.
Muitos anos de maus governos maltrataram o país. Apesar de sacolejado por golpes e revoluções, o brasileiro não se lembra de ter assistido antes a tanto descaminho por tão longo tempo. O horizonte trancado durante quase duas décadas gerou sensação de impotência. A bateção de panela de 2013 foi bonita, empolgou, mas não resolveu. A destituição da doutora foi um começo de solução, mas não passou disso: um começo. Serviu pra desanuviar, mas não afastou o espectro do retorno vigoroso da rapina institucionalizada. Como náufragos, os brasileiros procuravam uma tábua à qual se abraçar.
Eis senão quando, na última campanha eleitoral, um candidato obscuro e desconhecido emergiu das profundezas do baixo clero do Congresso. No princípio, ninguém teria apostado um real furado no sucesso do homem. Estava mais pra figura folclórica, um daqueles candidatos que parecem estar lá só pra dar um tchauzinho na televisão e pra receber uns caraminguás do fundo eleitoral. À medida que o tempo foi passando, como quem não quer nada, a candidatura engrossou, ganhou peso e tomou lastro. Sem ser radical, do tipo ‘todos al paredón’ ou ‘à guilhotina os burgueses’, a fala do postulante denunciava o descalabro instalado nas altas esferas. O discurso não vinha tricotado com fios de oratória arrebatadora, mas dizia o que os brasileiros, cansados de guerra, queriam ouvir. Aquele em quem, seis meses antes, nenhum apostador teria botado fé venceu a corrida e ganhou direito ao trono do Planalto. Terminada a corrida e conquistada a taça, é hora de sentar e cogitar sobre o rumo a tomar.
Em princípio, preocupação com filhos termina assim que eles atingem a maioridade, deixam o lar e vão viver a própria vida. No clã dos Bolsonaros, no entanto, filhos já grandinhos continuam grudados ao pai. A mostra explícita de família unida sai bem na foto, mas os rebentos têm dado sérias dores de cabeça ao patriarca. Nas semanas escoadas desde a tomada de posse, francamente, mais atrapalharam que ajudaram. Já antes da entronização, era perceptível que os juniores se comportavam como crianças mimadas, daquelas que, na hora do recreio, desdenham dos coleguinhas: «Meu pai é mais forte que o seu!». Agora, que o chefe virou presidente, a dor de cabeça virou enxaqueca.
Os herdeiros não são a única fonte de problemas de doutor Bolsonaro. Um vozerio descontrolado percorre o mundinho que lhe está em torno ‒ secretários, conselheiros, assessores, ministros. Talvez em virtude daquele natural deslumbre que subjuga todo noviço, as declarações do entourage do presidente andam abrindo remoinhos e levantando ondas que lambem o país inteiro. São falas desencontradas, cada um se sentindo livre de afirmar o que lhe passa pelo bestunto, numa cascata de tagarelice bizarra que vai desde política externa até vestuário infantil.
Unanimidade de opiniões, concedo, é característica de regime totalitário. Como exemplo máximo, temos a bem-comportada torrente de aplausos que coroa todo anúncio de decisões tomadas pelo comitê central do partidão, na China ou em Cuba. Não é sadio, nem é o que gostaríamos de ter em nossa incipiente democracia. Nem por isso, o inverso é aceitável. As estrepolias dos filhos do presidente adicionadas à inabilidade dos que lhe orbitam em torno está gerando algaravia. Botar remédio nesse estado de coisas é caso de urgência urgentíssima.
Um outro ponto que vem gerando atrito é a radicalização religiosa de alguns dos novos componentes do andar de cima. É importante ter presente que Estado laico é invenção relativamente recente. Desde sempre, o Estado foi ligado à religião, o que não é um mal em si. Mais importante do que a crença pessoal de membros do governo é o ambiente de tolerância que deve reinar. Há países civilizados com religião oficial ‒ Inglaterra, Dinamarca, Noruega, Grécia ‒ onde, nem por isso, os habitantes se sentem aprisionados por uma teocracia em que nada existe fora da fé. A tolerância e a benevolência, se bem aplicadas, são precioso anteparo contra excessos.
Trompe-l’œil ‒ 5
José Horta Manzano
O japonês Akiyoshi Kitaoka (1961-) é professor de Psicologia no College of Letters da Universidade Ritsumeikan, em Kyoto (Japão). Há décadas vem-se especializando no estudo da percepção visual e de ilusões de óptica. Seus trabalhos demonstram que é possível «trapacear» com a visão humana, em especial a visão periférica.
Como se sabe, nossa visão bruta está longe de ser perfeita. As imagens que captamos precisam ser processadas pelo cérebro para fazerem sentido. Ao manipular as informações de que o cérebro necessita para interpretar o quadro, os desenhos do cientista conseguem dar um «nó nos miolos». Acabamos enxergando movimento em imagens estáticas.
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O círculo externo parece girar no sentido horário, enquanto o interno gira no outro sentido.
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Um quadrado parece destacar-se do centro, embora todas as linhas sejam retas. Os ângulos também são todos retos.
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À medida que o observador move os olhos, o círculo de pétalas parece girar em sentido horário
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Nota
Trompe-l’œil (literalmente ‘engana-olho’) é a expressão francesa para ilusão de óptica.
O que pode e o que não pode
José Horta Manzano
Doutor Bolsonaro fez seu début internacional num palco de prestígio. Entrou pela porta grande. Ser o convidado de honra logo na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, não é pra qualquer capiau. Durante o discurso, o presidente dava a impressão de funcionar como ventilador, com a cabeça abanando pra um lado e pro outro. Isso ocorre em virtude do posicionamento do ponto.
O ponto (no original, presidential teleprompter) é uma placa de plexiglas fixada no topo de uma haste metálica que se assenta num tripé. À medida que o discurso avança, o texto vai desfilando, como num karaokê, mas visível só do lado de quem faz o pronunciamento. O objetivo é dar a impressão de que a oração é feita de improviso.
Em geral, são colocados dois pontos, à esquerda e à direita do orador. Para dar a impressão de estar falando espontaneamente, ora ele lê no ponto da direita, ora no da esquerda. A ilusão é quase perfeita. O encanto só se quebra quando o discursante engasga na leitura de uma palavra. Não deu outra: aconteceu com o doutor. São acidentes de percurso.
No fundo, que o discurso seja lido no papel, decifrado no ponto ou declamado de cor, o que importa mesmo é o conteúdo. Comentaristas brasileiros consideraram que a fala foi muito curta e superficial. Não compartilho essa impressão. A concisão é qualidade rara. É mais difícil resumir o assunto em poucas palavras do que espichar a alocução durante horas. Ficaram na história os discursos do bondoso Fidel Castro, que chegavam a durar seis ou sete horas, pronunciados sob o sol impiedoso de Havana, com chavões repetidos ad nauseam. Faltava, ao líder máximo, o precioso dom da concisão.
É verdade que a fala de doutor Bolsonaro não foi ao fundo de cada tópico. Não esmiuçou os pontos da reforma da Previdência. Não deu previsão de quantos hectares serão poupados do desflorestamento. Não disse quantos corruptos serão processados. Mas, convenhamos, não era hora nem lugar pra descer a minúcias. As linhas mestras foram traçadas, e isso era o que interessava.
Tirando a mímica do ventilador, o discurso inaugural não me chocou. No dia seguinte, no entanto, a gafe que tinha de acontecer aconteceu. Com pré-aviso de quinze minutos, o presidente cancelou coletiva de imprensa agendada havia semanas. Num universo como aquele, almofadado, azeitado e feito de regras fixas, essas piruetas não estão previstas. Os pretextos foram desencontrados. Certas fontes alegaram cansaço do presidente. Outras disseram que a culpada era a imprensa, que não estava se comportando exatamente como doutor Bolsonaro gostaria.
Blá-blá-blá! É ridículo alegar que a culpa é da imprensa. Mídia com cabresto é atributo de regimes autoritários. No Brasil (por enquanto) o regime é liberal. O cansaço, vá lá, é compreensível. Ainda assim, se fosse verdade, os outros componentes da mesa deveriam ter honrado o compromisso. Não é porque o chefe está de repouso que os companheiros devem acompanhá-lo na greve. Por que não vieram participantes importantes, como Moro e Guedes, cujo comparecimento era esperado?
O fato de o presidente ainda estar em fase de aprendizado não explica desfeitas como essa. Se não sabem como se comportar, que contratem um assessor com experiência internacional. Faltar a um compromisso sem motivo justo, em terras civilizadas, é ressentido como afronta. Quem está tentando «vender» um novo Brasil e atrair investidores não pode cometer afronta justamente aos donos do dinheiro. É mais que tolice: é um disparate.
Grão-Ducado de Luxemburgo
José Horta Manzano
Você sabia?
Em muitos aspectos, Luxemburgo é um país diferente dos demais. Pra começar, é o único grão-ducado de que se tem notícia no planeta. Há reinos, principados, confederações, uniões. Grão-ducado, só esse. O chefe de Estado é o grão-duque Henri. O nome da dinastia se confunde com o nome do país: Luxemburgo.
É um país rico. Pelas contas do FMI, tem o PIB per capita mais elevado do mundo: 112 mil dólares. Para comparação, o do Brasil é de 17 mil dólares.
Para padrões brasileiros, o grão-ducado tem superfície exígua: 2600km2, menos da metade do Distrito Federal. Assim mesmo, faz fronteira com três países: Bélgica, Alemanha e França. Entre os membros fundadores da União Europeia, é o menorzinho.
A população fixa é de 600 mil pessoas. Todos os dias um importante contingente de 200 mil trabalhadores estrangeiros fronteiriços se dirige ao país. Entram e saem diariamente. Metade deles são franceses. Os demais são alemães ou belgas.
O país está na fronteira entre as línguas germânicas e latinas. Essa situação confere ao grão-ducado uma paisagem linguística peculiar. O luxemburguês, um dialeto germânico, é a língua vernacular. Praticamente todos os que cresceram no país se exprimem nesse idioma. No entanto, quando se trata de textos escritos, o alemão e o francês são as línguas mais difundidas.
Em matéria legislativa e judiciária, o francês domina. As leis são todas escritas nessa língua. Já na administração fiscal, reina o alemão. Os impostos são cobrados nessa língua ‒ ficam mais assustadores.
Os primeiros anos de escola (pré-escola) são dados em luxemburguês. Em seguida, a alfabetização é feita em alemão. O francês é ensinado a partir do segundo ano do ensino fundamental.
A colônia portuguesa é importante. Imigrantes lusos representam 16% da população, ou um cidadão em cada seis. Embora conheçam também as línguas do país, esses imigrantes se exprimem em português como primeira língua.
Comunicações oficiais de maior importância costumam ser feitas nas quatro principais línguas escritas do país: alemão, francês, português e inglês.
Herr Bausch, ministro da Mobilidade, acaba de anunciar uma novidade mundial. A partir de março 2020, os transportes públicos serão gratuitos, tanto trens como ônibus. Somente os passageiros de primeira classe nos trens continuarão a pagar passagem. Os demais viajarão de graça. Com essa medida, o governo espera reduzir a emissão de poluentes e os congestionamentos de tráfego.
De onde vem o nome dos meses?
Dad Squarisi (*)
Janeiro
O primeiro mês do ano homenageia Jano. O deus grego tem duas caras. Uma olha pra frente. A outra, pra trás. A primeira abre as portas dos 365 dias que se iniciam. A segunda fecha as do ano que se despede. Janela, que também abre e fecha, pertence à família do entra e sai.
Fevereiro
O segundinho, que tem menos dias que os irmãos, se inspira em Februa, deus da purificação dos mortos.
Março
Epa! Marte, o deus da guerra, originou vários nomes na nossa língua de todos os dias. Um deles é março. Outros, Márcio e Márcia. Marciano também. E marcial? Idem.
Abril
Todos a amam e todos a querem. Trata-se de Vênus, a deusa do amor e da entrega. Em homenagem a ela, criou-se aprilis. Trata-se da comemoração sagrada dedicada à musa olímpica. Daí nasceu abril.
Maio
A primavera no Hemisfério Norte corresponde ao nosso outono. Com inverno rigoroso, os campos se cobrem de neve, e a agricultura sofre. As comemorações que se faziam depois do frio reverenciavam Maia e Flora – deusas do crescimento de plantas e flores.
Junho
Hera em grego. Juno em latim. Ela era a primeira-dama do Olimpo. Defensora incondicional do casamento, ao descobrir as traições do marido, Zeus, não punha em risco o próprio lar. Punia a outra. Passou a ser considerada a protetora da maternidade. Para render-lhe loas, junho se chama junho.
Julho
Julho era o quinto mês do ano antes de janeiro e fevereiro mudarem de lugar. Chamava-se quintilis. Mas, em 44 a.C., mudou de nome por causa de Júlio César. O grande líder romano foi assassinado por gente de casa, Brutus, o próprio filho. Mas não caiu no esquecimento. Ganhou lugar cativo na história e no calendário.
Agosto
Agosto, que rima com desgosto, serve de prova da ciumeira. Por ser o sexto mês do ano, chamava-se sextilis. Mas, como julho balançou o calendário, o primeiro imperador de Roma, sucessor de Júlio César, não ficou atrás. “Eu também quero”, disse ele. Levou. Agosto se chama agosto em homenagem a Augustus.
Setembro, outubro, novembro e dezembro
O quarteto não estava nem aí para a mudança de janeiro e fevereiro. Eles mantiveram o nome. Setembro, do latim septem, era o sétimo mês do ano. Outubro, de octo, o oitavo. Novembro, de novem, o nono. Dezembro, de decem, o décimo.
Gregoriano
Ufa! Até chegar à forma de hoje, o contar dos meses sofreu muitas alterações. Com elas, falhas foram corrigidas. A última mexida, do papa Gregório XIII, ocorreu em 1582. Por isso nosso calendário se chama gregoriano.
(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.
Davos 2019
José Horta Manzano
Presidente ilegítimo
Hoje, abre-se em Davos (Suíça) mais uma edição do WEF ‒ World Economic Forum, encontro annual dos grandes deste mundo, na politica e principalmente na economia. O Brasil está representado por um presidente… ilegítimo.
De fato, minutos antes de embarcar, doutor Bolsonaro transferiu seus poderes ao vice-presidente. A partir daí, general Mourão passou a ser o legítimo presidente do Brasil. Jair Messias entrou num território esquisito, como quem está entre parênteses. Surgem duas hipóteses.
A primeira considera que os poderes presidenciais são unipessoais, ou seja, só podem ser exercidos por uma única pessoa de cada vez. Se assim for, o presidente em exercício é Mourão, o que ficou em Brasília segurando as rédeas. Aquele que será apresentado ao distinto público de Davos não passa de impostor. O que ele disser e os papéis que assinar não terão validade. A voz do Brasil não é ele.
A segunda hipótese concede que os poderes presidenciais sejam exercidos por dois indivíduos ao mesmo tempo. Dado que, em nosso país, vigora regime presidencial, essa ideia é esdrúxula. Se, por hipótese, os dois tomarem atitude diferente diante de um mesmo fato, qual das decisões prevalecerá? A do que largou os poderes e se foi para a Suíça ou a do que ficou tomando conta do forte? Convenhamos : ter dois presidentes ao mesmo tempo é folclórico. Resquícios de um passado que morreu.
Agasalho
Espero que doutor Bolsonaro & excelentíssima equipe tenham trazido bons agasalhos. Hoje de manhã, fazia 13,5° abaixo de zero em Davos. Saiu um solzinho chocho, que fez subir a temperatura. Às duas da tarde, no melhor momento do dia, o mercúrio subiu para 3,5° abaixo de zero. A partir daí, recomeçou a descer rumo às profundezas do inverno alpino.
Convidado de honra
Nem Mr. Trump nem Monsieur Macron estarão presentes. As senhoras May (UK) e Merkel (Alemanha) também decidiram não comparecer. O presidente da Rússia, o número um da China e o primeiro-ministro da Índia mandaram avisar que não virão. Assim, por falta de concorrentes, doutor Bolsonaro foi promovido a convidado-vedette.
Sua fala está marcada para amanhã à 15h30. Os encontros do Fórum de Davos se realizam em quatro salas. Normalmente, há eventos simultâneos, frequentemente quatro de uma vez só. Na meia hora dedicada a doutor Bolsonaro, uma concessão especial: nenhum outro evento ocorrerá ao mesmo tempo. O mundo econômico vai parar, por meia hora, pra ouvir o que tem a dizer o doutor.
Etiqueta grudada
Quando uma etiqueta gruda firme, não há solvente que dê conta de a retirar. Falando da vinda do presidente do Brasil a Davos, o jornal suíço Luzerner Zeitung publica um artigo com título bombástico: «Stargast am WEF hat keine Ahnung von Wirtschaft ‒ Convidado-vedette do WEF não tem nenhuma noção de economia».
O autor da boutade foi o próprio doutor Bolsonaro quando, ainda em campanha, confessou nada entender do assunto. Sinceridade é bom, mas sincericídio mata. Foi ingênuo, o doutor. Podia ter dado uma pirueta e respondido algo como: “Nesse campo, as competências de Paulo Guedes são superiores às minhas. Sugiro-lhe fazer a pergunta a ele”. Teria sido menos impactante.
É um perigo dizer o que passa pela cabeça, sem refletir nas consequências. Segundo os chineses, há quatro coisas que não se podem recuperar: a pedra lançada, a ocasião perdida, o tempo passado e a palavra pronunciada.



















