Autor: José Horta Manzano
A pátria em chuteiras
Myrthes Suplicy Vieira
E estamos de volta aos permanentes embates entre o Direito e a Moralidade.
O time do Direito entra em campo confiante e, de peito estufado, entrega sua flâmula ao capitão da equipe adversária. Nela está escrito: “Nós não fazemos as leis, apenas zelamos por sua observância”.
O capitão do time da Moralidade adianta-se um passo, inclina-se para a frente, recolhe delicadamente a flâmula com as duas mãos, agradece com um sorriso e apresenta a sua. Nela pode-se ler: “Nós escolhemos nossos representantes com base nas condutas morais que a maioria dos funcionários e torcedores de nosso clube julga fundamentais e imprescindíveis para o exercício de qualquer mandato”.
O jogo começa. Os jogadores dos dois times ensaiam as melhores jogadas, procurando evitar a ocorrência de faltas que coloquem em risco desde muito cedo a estratégia elaborada pelos respectivos técnicos para vencer a partida. De repente, um jogador do time do Direito, posicionado dentro da área, recebe um passe irregular, vira-se e marca o primeiro gol. A equipe da Moralidade sai correndo em protesto e cerca o juiz: “O senhor não vai apitar nada? Ele estava claramente adiantado em relação à linha de impedimento!”
O juiz, que estava distraído durante a jogada, consulta rapidamente o bandeirinha, que se havia igualmente distraído durante o lance, e, sem apoio racional para outra decisão, decreta: “Vamos voltar a jogada”. O jogo recomeça, a bola é jogada para escanteio e, sem novos lances duvidosos, a partida termina no zero a zero.
Um novo campeonato tem início. Desta vez, orientada por um novo técnico, a equipe do Direito consegue expressivos resultados positivos e assume a liderança em poucas partidas. O dirigente da equipe da Moralidade, acabrunhado, passa a contestar acidamente os lances duvidosos de cada uma das partidas, entrando com sucessivos recursos no Tribunal de Justiça Desportiva. Os desembargadores dão sempre o mesmo veredito: “Julgamos improcedente a demanda da Moralidade por falta de evidências na súmula das partidas de que os árbitros tenham exacerbado de suas funções”.
Realimentado em seus brios, o time do Direito dá prosseguimento a sua jornada vitoriosa, argumentando, sempre que contestado em juízo, que as mesmas jogadas foram feitas anteriormente pelo time vice-campeão, sem que tivesse havido qualquer punição.
Combalido, o dirigente da equipe da Moralidade demite o técnico, faz uma profunda reforma no time com contratação de novos jogadores e esforça-se por estabelecer laços mais estreitos com o Tribunal de Justiça Desportiva. Reúne-se com os advogados do clube e decide entrar com uma representação na Associação Nacional de Árbitros, propondo que doravante todas as partidas sejam filmadas e que os lances duvidosos sejam julgados em tempo real por um conselho de árbitros de plantão, a partir da revisão das imagens.
Uma luzinha trêmula começa a se acender no final do túnel. A Associação de Árbitros, já incomodada com o crescente volume de reclamações vindas de várias outras equipes, acolhe favoravelmente a proposta e compromete-se a estudar a possibilidade de que ela passe a ser incorporada em caráter experimental. Os torcedores do time da Moralidade saem às ruas, dançando e cantando, para celebrar a chegada de novos tempos.
Quando informado da decisão da Associação de Árbitros, o dirigente da equipe do Direito contrata a peso de ouro os mais eminentes advogados e entra com recurso no Tribunal de Justiça Desportiva alegando que “não se podem alterar as regras depois de começado o jogo”.
A argumentação apresentada em corte pelo advogado-chefe do time do Direito é considerada brilhante e empolga a todos: “Toda essa lamúria dos times perdedores do campeonato é pura empulhação. Por falta de habilidade técnica dos jogadores e por falhas de planejamento de seus respectivos técnicos, o que eles estão querendo, de fato, é ganhar ‘no tapetão’. Ora, senhores, nenhum juiz está autorizado a apitar ‘perigo de gol’, já que essa figura jurídica não existe em nossa Constituição”.
Acabrunhado, o dirigente da equipe da Moralidade reúne-se em caráter emergencial com seus advogados. O clima é tenso. Com voz trêmula, o dirigente expõe seus pontos de vista: “É bem verdade que ninguém pode ser condenado com base em regras que ainda não existiam quando o campeonato começou. Mas não dá para esquecer que o próprio time do Direito já havia manifestado publicamente seu irrestrito apoio às novas regras propostas muito antes de serem sagrados campeões. Para sorte deles, as regras simplesmente não foram implementadas a tempo, uma vez que os representantes de sua base aliada conseguiram bloquear a votação. Cabe a nós, agora, demonstrar que essas pessoas não nos representam. Ao contrário, elas ferem nossa própria essência, que está alicerçada no fato incontestável que nem tudo que é legal é moral”.
O advogado-chefe levanta-se e, hesitante, apresenta seu raciocínio jurídico para encontrar uma saída legal para o conflito: “De fato, forçoso é admitir que parte da razão está com nossos adversários. Não se pode mudar as regras depois de apitado o início do jogo, mas, se os senhores pensarem bem, verão que também não é defensável que um time entre em campo com 13 jogadores para enfrentar os 11 habituais do time adversário. E, fazendo uma analogia com o jogo político, fica claro que o instituto da reeleição (considerando que nossos adversários foram campeões nas duas últimas rodadas) equivale a impor a regra espúria de que eles têm o direito de entrar em campo com mais jogadores do que o permitido. Além disso, nossos adversários foram os responsáveis pela indicação de muitos dos juízes encarregados de deliberar sobre quaisquer lances duvidosos neste campeonato. Temos de buscar na história dos julgamentos desportivos momentos de exceção em que as regras puderam ser revistas, sem comprometer o Estado de direito. Isso nos auxiliará a provar que já há jurisprudência formada a nosso favor”.
Comovidos, quase às lágrimas, os participantes da reunião abraçaram-se e concordaram em entrar com uma última representação na Associação Nacional de Árbitros, solicitando que as regras da Moralidade Pública, aprovadas na gestão anterior, fossem finalmente implementadas e já passassem a valer para o campeonato seguinte.
Após algumas semanas de tensão à espera do veredito dos desembargadores, alívio geral. O juiz responsável pelo caso havia registrado sua decisão em tom poético: “Julgo procedente a demanda apresentada pela turma da Moralidade. Ainda que não exista a figura jurídica de impedimento por falta de representatividade, as possibilidades de enquadramento jurídico para a decretação do impedimento são várias: abuso de poder econômico e político, erro de pessoa, falsidade ideológica, falta de decoro, improbidade administrativa, perturbação da ordem pública, etc. Um ditado coreano diz que, quando dois elefantes brigam, quem paga o preço é a floresta. Orgulho-me em dizer que sou também parte responsável pela preservação da floresta”.
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora. O título do artigo faz alusão ao livro homônimo de Nélson Rodrigues.
A desgraça de uns…
José Horta Manzano
A economia brasileira, hoje sabemos, começou a ser maltratada no segundo governo do Lula. Desde que dona Dilma assumiu o trono, a coisa piorou. Com a implantação, à força, de regras obsoletas às quais ela deu o nome de «nova matriz», a economia nacional passou a ser pisoteada.
Foi falta de tino. A chance de uma experiência econômica já fracassada em outros países dar certo no Brasil era nula. Deu no que deu. Estamos hoje, pires na mão, fazendo novena pra espantar o perigo de agências de classificação de risco rebaixarem ainda mais nossa nota.
Seja como for, o mal está feito. Como parecem longínquos aqueles primeiros anos do Lula em que, à custa de pesado investimento em marketing, o mundo nos tinha lançado um olhar surpreso e interessado. Àquela altura, alguns chegaram a acreditar que o gigante havia despertado. Iludiram-se. Infelizmente, era voo de galinha. O balão desinchou rápido.
Enquanto amargamos nós o risco iminente de descrédito e de fuga de capitais estrangeiros, há fila de países torcendo pra isso acontecer. O primeiro deles é nossa vizinha Colômbia. Este domingo, o diário El Espectador, de Bogotá, publicou análise sobre o assunto.
A agência Standard & Poor’s rebaixou a classificação do Brasil. A agência Fitch fez o mesmo. O periódico colombiano considera que falta pouquíssimo para o Brasil desaparecer da carteira do banco de investimento JP Morgan. Muitos fundos seguem a cartilha desse banco. Se nosso país deixar de ser recomendado, muito dinheiro vai bater em retirada.
E é justamente aí que entra a Colômbia. Com seus quase 50 milhões de habitantes, o país vizinho está longe de ser um zero à esquerda. É a terceira economia da América do Sul. Por enquanto, nossos dois países estão empatados na avaliação dos peritos. Caso o Brasil desça um degrau – basta unzinho só – sem arrastar a Colômbia na queda, bilhões de dólares sairão daqui para encher os cofres de lá.
Em Bogotá, também rezam novenas e trezenas.
Lula perdeu
Fernão Lara Mesquita (*)
Dilma manda avisar, a quem interessar possa, que Joaquim Levy fica e que “a opinião do maior partido da coalizão não é necessariamente a opinião do governo”, que a CPMF é imprescindível e coisa e tal…
Ela estava reagindo à entrevista de Rui Falcão à Folha de São Paulo, na qual esse cara que ninguém elegeu diz aos brasileiros como ele quer que o Brasil seja governado. Ficou claro que ele não falava só por ele. Tem as costas mais que quentes.
Essa separação governo ↔ PT é um marco. A gastança não vai recuar, o que seria pedir demais, mas descarta-se inflá-la a ponto de provocar explosão imediata, o que desaguaria inevitavelmente no golpe.
Era o que Lula queria. Lula perdeu.
(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do blogue Vespeiro.
Um pouco d’arte ― 54
Arrecadação recorde
Cláudio Humberto (*)
Ao contrário do que alardeia a presidente Dilma, o total das receitas realizadas pelo governo federal este ano já supera o recorde histórico de R$ 2,2 trilhões estabelecido em 2014. O valor equivale a tudo que o governo Dilma conseguiu embolsar desde janeiro com impostos, taxas, ações na justiça, multas, etc. É ainda mais expressivo por ser 50% maior que o R$ 1,4 trilhão arrecadado em 2010, último ano do Lula.
Se mantiver o ritmo (e o mandato) até o final do ano, o governo Dilma vai chegar a R$ 2,8 trilhões embolsados do contribuinte.
O governo Dilma se tornou uma máquina de arrecadar desde a posse da presidente em 2011. Em cinco anos, superou R$ 10 trilhões.
(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.
Buscando a receita
José Horta Manzano
Há males que vêm pra bem é expressão conhecida e usada com frequência. Em contraposição, também há casos em que coisas boas acabam atrapalhando a vida e infernizando a existência.
No caso de males que, no final, se revelam úteis, há exemplos aos montes. Guerras, se trazem destruição, desgraça e morte, contribuem para o progresso. Os grandes conflitos do século XX são responsáveis pela invenção ou pelo desenvolvimento de técnicas de grande utilidade. Falo da radiologia, da traumatologia de reconstituição, do avião a jato, dos antibióticos e de numerosos outros «subprodutos».
Bens, quando chegam de repente e sem que o beneficiado tenha tido de fazer grande esforço, podem causar transtorno. É o caso daqueles que tiraram a sorte grande nalguma loteria, enricaram, e… acabaram se perdendo. Escritos bíblicos já contavam a história do filho pródigo, aquele que dissipou num piscar de olhos a fortuna recebida de mão beijada.
No Brasil, desde que a gente é criança, nos convencem de que o País é rico, que tem enorme riqueza mineral, a maior floresta do mundo, clima excelente, povo cordial, diversidade biológica fantástica, petróleo, litoral extenso, vizinhos amigos, paz social, habitantes talentosos, as mais lindas praias, terras ainda não desbravadas, subsolo riquíssimo, água à vontade, território livre de terremotos e tsunamis. Em três palavras: um paraíso terrestre.
Nosso País é um dos raros capazes de exibir certificado de nascimento. Falo da carta que Pero Vaz de Caminha escreveu a Dom Manuel dando notícia do achamento de novas terras. Quando o escrivão previu: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo», estava, sem se dar conta, vaticinando o futuro da nação.
O chato é que as gerações que se seguiram passaram por cima da condição (em se plantando) e se aferraram direto à conclusão (dar-se-á nela tudo). Faz 500 anos que a característica nacional é permanecer, mão estendida, à espera do fruto que a terra bendita nos vai fazer cair na palma da mão.
As benesses inerentes à terra brasileira atrapalham mais que ajudam, acreditem. Nações menos aquinhoadas nos dão a prova. Senão, vejamos.
Estes dias, dona Dilma está viajando pela Europa do Norte: a Suécia primeiro, a Finlândia depois. São nações com escassas riquezas minerais, clima rude, pouca diversidade biológica, agricultura quase impossível, nem uma gota de petróleo, praias frias e infrequentáveis, vizinhos nem sempre cordiais – a Finlândia é colada à Rússia, da qual, aliás, já foi província.
No entanto… são países ricos. Em 2013, a Suécia registrou 58 mil dólares de PIB por habitante, enquanto a Finlândia chegou a 49 mil dólares. Para efeito de comparação, o Brasil não passou de 11 mil dólares. E como é possível que territórios pouco habitados e abandonados pela natureza possam enriquecer dessa maneira?
Dona Dilma há de ter escrito um lembrete na caderneta pra não esquecer de perguntar isso a eles. Aos figurões suecos, ela vai indagar como é possível um país de natureza pobre, com menos de 10 milhões de habitantes, ter 220 empresas(!) implantadas em solo brasileiro, que dão emprego a 50 mil conterrâneos. Na pequena Finlândia, ela perguntará como fez um país de pouco mais de 5 milhões de almas, onde mal e mal se cultiva um pé de repolho, para estabelecer 50 empresas(!) em solo tupiniquim.
Quem sabe ela não trará a receita pra nos tirar do buraco? Há que ser otimista, camaradas!
Frase do dia — 265
«Pimenta é refresco. O ex-presidente Lula não se cansa de aconselhar Dilma a se “aproximar do povo”. Ele mesmo, porém, não se atreve a circular em ambientes públicos não controlados.»
Dora Kramer, em sua coluna do Estadão.
Pixuleco
José Horta Manzano
Quando Luiz Inácio da Silva, o Lula, chegou ao posto máximo do Executivo, o sorriso abriu-se-lhe de orelha a orelha. Sentiu-se numa nuvem. Deu-se conta de que, mais ainda do que já estava acostumado, bastava levantar um dedinho pra que todos se curvassem à sua vontade. E a seus caprichos. Era paparicado por grandes e pequenos, por ricos e pobres. Um verdadeiro estado de graça.
Não sei quanto tempo terá durado o inebriamento. Terão sido alguns meses. Passado o encanto inicial, o figurão investiu-se, corpo e alma, na batalha da reeleição. Precisava porque precisava garantir a permanência no trono. Aquilo era bom demais pra ser descurado.
Embora a expressão ainda não estivesse na moda, «fez o diabo». Paralelamente à distribuição de bolsas variadas a clientela cativa, cuidou de alimentar oportunistas e aliados de circunstância. Cargos, sinecuras, benesses, mensalões e petrolões estão aí pra provar.
Reeleito, deu-se conta de que o horizonte de número um se fecharia em quatro anos. Passado esse tempo, impossibilitado de competir mais uma vez, teria de ceder o lugar. A perspectiva não há de lhe ter agradado.
Que não fosse por isso. Faria o necessário para escolher um sucessor sem graça, sem carisma, sem potencial para fazer-lhe sombra. Arregaçou as mangas e mandou pra escanteio – para usar sua costumeira metáfora futebolística – todos os postulantes que lhe pudessem prejudicar a popularidade. Foi assim que optou por dona Dilma, aquela que as más línguas chamaram de poste.
Nosso líder fez bem questão de colar seu nome ao dela. Deixou bem claro que, por detrás da desconhecida, continuaria ele dando as cartas. Gente simples chegou a convencer-se de que aquela era «a muié do Lula».
Durante todo o primeiro mandato do «poste», o Lula chamou para si os holofotes. Não faltou a cerimônias, inaugurações, seminários, convenções e palanques. Reforçou a ideia de que a «muié» fazia tudo o que o «marido» mandava. Ele e ela eram a mesma coisa.
Nenhuma alegria é eterna. Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, como diziam os antigos. Um belo dia, já no segundo mandato da «muié do Lula», o desastre ficou evidente: inflação, desemprego, carestia, roubalheiras, corrupção, obras inacabadas, promessas não cumpridas, um pandemônio.
Faz quase um ano que nosso guia vem tentando descolar sua imagem da do «poste». É missão doravante impossível. O demiurgo, a pupila, o partido e até aliados oportunistas caíram no mesmo pote de cola. O mesmo visgo os envolve e os iguala.
Se faltasse uma prova, que se observem os pixulecos, aqueles bonecos que vêm se tornando símbolo da bandalheira. A atual presidente, o governador de Minas, o prefeito de São Paulo já foram homenageados com a própria imagem inflada e elevada às alturas.
Mas reparem bem: o pixuleco mais importante nunca está muito longe. Para o bem ou para o mal, o Lula continua exercendo seu papel de puxador de cordão.
O futuro chegou e, como havia almejado, nosso guia continua debaixo dos holofotes. Não exatamente como ele tinha sonhado, é verdade.
Mas, que diabo, não se pode ter tudo na vida! Ou não?
Medalha cassada
Cláudio Humberto (*)
Finalmente, três anos após terem sido condenados pelo Supremo Tribunal Federal, os mensaleiros José Genoino, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto perderam a Medalha do Pacificador, a mais alta condecoração do Exército Brasileiro.
O ato é do general Villas Bôas, o atual comandante. O anterior, general Enzo Peri, com medo de irritar Dilma, não havia cassado as medalhas apesar de ser obrigado a fazê-lo pela legislação.
Os mensaleiros já sumiram do Almanaque do Exército.
(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.
Limão galego
José Horta Manzano
Em matéria de discrição, a Suíça é escolada, numa atitude típica de país pequeno. No país alpino, a secretividade foi elevada ao status de tradição nacional. Cada um luta com as armas que tem, não é mesmo? Países grandes e fortes impõem-se pelo tamanho e pela força. Nações sem esses atributos procuram outros caminhos.
Nos tempos em que ainda vigorava rigoroso sigilo bancário, todo ditador digno desse título fazia questão de que o cobertor helvético agasalhasse o grosso da fortuna mal granjeada. Mas nem só de ditadores vive o mundo. Corruptos, ladrões, desonestos e que tais seguiam a mesma via: banco suíço era o lugar mais apropriado pra enfurnar dinheiro de origem duvidosa.
Só que… o tempo passou, a Terra girou, costumes mudaram. Dez anos atrás, ninguém acreditava que a situação fosse evoluir tão rapidamente. Mas evoluiu: em poucos anos, o sigilo bancário suíço praticamente desapareceu. O pouco que resta está vivendo os últimos momentos.
Teve gente, mais esperta e avisada, que se deu conta, a tempo, de que algo estava mudando. Foram os que retiraram suas barras de ouro in natura e saíram carregando na sacola. Encerraram as contas e nenhum rastro ficou. Foram ancorar o iate em portos mais seguros.
Houve os menos atentos (ou mais ingênuos) que, com a mente talvez absorta por outras negociatas, não se deram conta de que a banca suíça perdia rapidamente suas características. Tranquilos e confiantes, deixaram dormir sua fortuna. Deram-se mal.
O Estadão noticiou, faz alguns dias, que cerca de cem contas suspeitas, cujos beneficiários são cidadãos brasileiros, estão bloqueadas. Uma centena, minha gente! A Lava a Jato está muito longe de terminar. Deve haver muita gente em Brasília com dificuldade em pegar no sono. Não só em Brasília.
As relações entre o Ministério Público do Brasil e seu homólogo suíço nunca estiveram tão íntimas, tão cordiais, tão proveitosas como atualmente. Enquanto outros países, como a Ucrânia e a Malásia, reclamam há meses contra a falta de cooperação da Suíça, o Brasil tem conseguido, com facilidade, informações, documentos, provas, atestações e até restituição de depósitos.
O jornal suíço 24 Heures traz um resumo do escândalo Petrobrás. Cita a declaração de Monsieur André Regli, embaixador da Suíça em Brasília: «L’image de la Suisse auprès des Brésiliens a fortement évolué grâce à cette coopération judiciaire» – a imagem da Suíça melhorou muito, junto aos brasileiros, graças a essa cooperação judicial.
Tremei, mensaleiros, petroleiros & congêneres! Limão galego, relou tá pego! Tem muita gente que nem sabe que já foi relada.
Máximas do Barão ― 25
«O homem que se vende recebe sempre mais do que vale.»
Máxima apropriada para os tempos estranhos que vivemos.
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho.
Carta recebida
Prezado editor deste blog,
Lamento informar que uma de suas colunistas estará temporariamente impedida de enviar novas colaborações.
D. Myrthes Suplicy Vieira foi inesperadamente acometida por um surto de insanidade, tendo sido forçada a se internar em clínica psiquiátrica para tratamento emergencial, ainda sem data definida para alta. Segundo os psiquiatras que a atenderam, o problema ocorreu após um período de intenso e prolongado estresse com o atual quadro social e político de nosso país.
Aparentemente, o surto foi motivado pela leitura de duas reportagens, a saber:
“Vigilante morre atropelado com um tiro na cabeça” – conforme é narrado pelo jornalista, dois soldados da PM paulista registraram um boletim de ocorrência numa delegacia, informando que tinham atendido a um chamado para socorrer um homem que teria sido atropelado, sendo que o motorista do veículo teria se evadido do local sem prestar atendimento à vítima. Quando a ambulância de resgate chegou ao local, os ditos PMs teriam dispensado o veículo e impedido que os paramédicos tocassem o corpo do rapaz, alegando que ele já estava morto e que cabia a eles preservar o local do crime. No dia seguinte, no entanto, o legista designado para o caso entregou um laudo em que atestava que a morte se devera à perda de massa encefálica decorrente de um tiro na parte de trás da cabeça.
“Procuradores da Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro processam dois cidadãos por financiamento de campanha eleitoral” – segundo a nota, um deles teria doado a exorbitante quantia de R$ 15,00 para a campanha de um deputado; os procuradores, então, solicitaram imediatamente ao juiz a quebra do sigilo fiscal do tal cidadão, embora o pedido tenha sido negado pela juíza responsável pelo caso diante da “insignificância” da contribuição. O outro caso, considerado um pouco mais grave e prontamente acolhido pelo juiz, refere-se à doação de quantia ainda maior (R$ 50,00) igualmente para financiar campanha eleitoral. O advogado contratado pelo réu manifestou sua indignação com o “absurdo” da decisão de envolver a justiça num caso de pouca relevância nacional, dado que mesmo que o cidadão fosse julgado culpado ele seria condenado a pagar uma multa de algo em torno de R$ 150,00. Já o réu-cidadão, ao ser entrevistado por uma emissora de televisão, encarou despudoradamente a câmera e disse: “Doei sim. No próximo ano, vou dobrar a meta e doar R$ 100,00 para ver no que vai dar.”
No final da tarde, já combalida com essas notícias, D. Myrthes teria assistido a um vídeo divulgado no Facebook em que a presidente da República discursa para um grupo de sindicalistas e pergunta desafiadoramente: “Quem tem a força moral, o caráter ilibado… suficiente para atacar a minha honra? Quem?!”

Na sequência, D. Myrthes teria começado a apresentar um quadro de forte agitação psicomotora e passado a proferir frases desconexas, em que apenas palavras isoladas faziam algum sentido: “non-sense”, “puro Kafka”, “golpismo”, “motivos nobres para transgressões”, “moralistas imorais”, etc. Depois, num gesto tresloucado, ela jogou-se ao chão, ficando de quatro, rosnando e agitando o traseiro, roubou a ração de suas cachorras e, ao ser confrontada por elas, mordeu as duas. Mais tarde, recolheu-se embaixo do armário da sala e recusa-se a tomar banho.
Isso posto, temo que a coluna que o senhor abriga em seu blog fique indisponível por várias semanas.
Grata pela atenção,
Secretária da Clínica Veterinária Acãochego
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
Manual do usuário
Pedaladas
José Horta Manzano
Este blogueiro é do tempo em que o termo pedalada lembrava passeio de bicicleta. Pra girar as rodas, a gente dava pedaladas na Monark ou na Caloi. Hoje em dia, pedalada não se dá, se faz. E o significado mudou.
Nestes tempos estranhos, o sentido da palavra tem evoluído. Não evoca mais as rodas da magrelinha. A imagem que vem é de barbeiragens financeiras cometidas conscientemente por dona Dilma. Parece que é crime. Se for, mais dia menos dia a presidente terá de responder por ele. Quem viver, verá.
Dirigindo-se a plateia amestrada, um Lula que, apesar de viver vida abastada, continua se esforçando para parecer igual aos excluídos, enfiou mais uma vez no cocuruto o boné do MST. Expedientes malandros como esse eram conhecidos já nos tempos do velho Jânio Quadros, mas ainda tem gente que se deixa embalar.
Em 2003, ao fazer o gesto pela primeira vez, nosso guia desencadeou um bafafá. Cidadãos mais conscientes consideraram a atitude imprópria para presidente de país sério. De lá pra cá, o figurão perpetrou impropriedades bem maiores que aquela. Tantas fez que hoje os brasileiros, blasés, não prestam mais atenção.
Estes últimos meses, com o desenrolar veloz e imprevisível dos acontecimentos, o Lula anda mais desnorteado que cego em tiroteio. Perdeu os anéis, quis salvar os dedos. Perdeu os dedos, está tentando salvar as mãos. Seu horizonte anda um bocado nevoento para quem já sonhou abocanhar um Nobel da Paz para, em seguida, terminar presidente do Banco Mundial.
Na cerimônia de ontem, sem muito que dizer, o demiurgo aventurou-se por terreno minado. Falou das «pedaladas» que dona Dilma «fez». Contou não ter lido o processo, fato que não surpreendeu ninguém. Assim mesmo, garantiu que a afilhada cometeu esses «malfeitos» para poder continuar pagando programas de distribuição de dinheiro que ele mesmo havia instituído.
Ora, analisemos. Nos tempos em que o Lula era presidente, não foi preciso «pedalar» pra distribuir aos mais necessitados. A partir do momento em que o cumprimento de programas passou a exigir que leis fiscais fossem infringidas, das duas uma: que se mudassem as leis ou que se extinguissem os programas. Nenhum dos dois foi feito.
Qual é o resumo da opereta? Duas considerações se impõem. A primeira é a confissão – involuntária mas evidente – de que a pupila realmente «fez» pedaladas, ou seja, infringiu a lei.
A segunda consideração remete a meu post de ontem – A lei? Ora, a lei… A fala do Lula reforça a ideia de que leis e regras valem para os outros, não para si mesmo. O demiurgo pode falar mais que outros, se agitar mais que outros, ousar mais que outros, ser mais vaidoso que outros, ser menos culto que outros, ser mais ingênuo que outros mas, no fundo… é um político do mesmo padrão que todos os outros. A lei? Ora, a lei…
Um pouco d’arte ― 53
A lei? Ora, a lei…
José Horta Manzano
O comentário debochado sobre a abrangência da lei é atribuído ao vice-campeão de longevidade entre os mandatários brasileiros: Getúlio Vargas. (Só Dom Pedro II ficou mais tempo.) Visto que não há registro sonoro e que nenhuma eventual testemunha sobreviveu, perdura a dúvida. Afinal, Getúlio disse ou não disse isso?
Seja como for, que o medalhão tenha ou não pronunciado a frase, ela é radiografia de uma das mazelas nacionais: o pouco caso que costumamos fazer de preceitos, regras e obrigações. A lei? Ora, a lei…
Cada um, no íntimo, acredita que restrições e proibições foram criadas para os outros, não para ele mesmo. Pergunto eu: como é possível que o descaso com as regras, um dos pilares da vida em comunidade, seja tão disseminado entre nós?
A resposta não é simples porque a causa não é única. Por minha parte, acredito que princípios básicos como o respeito a regulamentos aprendem-se em casa. Cabe à escola apenas reforçar. Que sociólogos, psicólogos e pedagogos se deem as mãos e levantem a bandeira.
A Fifa, como todos sabem, está abalada por escândalos de rapina e de nepotismo. Cabeças importantes estão rolando, o que abre o apetite de pretendentes ao trono da federação. Um dos que andam botando olho gordo é o carioca Arthur Antunes Coimbra, o Zico, jogador que deixou marca notável na história do futebol brasileiro.
Ele não é o único. Muitos gostariam de ser eleitos para a presidência da Fifa. É uma boquinha e tanto. Fama, glória, reverências, salário elevado vêm junto com o cargo. É pra ministro nenhum botar defeito.
Justamente por se tratar de posto tão cobiçado, o regulamento exige que cada candidato seja apoiado por pelo menos cinco federações nacionais. É peneira prévia, destinada a evitar uma enxurrada de candidaturas. Faz sentido.
Em entrevista concedida à Folha de São Paulo, o Zico se insurgiu contra esse ponto do regulamento. «Por que eu, com 45 anos de vida no futebol, preciso ainda de cinco cartas para me candidatar?»
O questionamento do possível futuro candidato pode até ter fundamento. Essa barreira pode vir a ser removida no futuro. Ou reforçada, quem sabe? No momento, contudo, a lei é essa. Vale para todos, inclusive para quem tem «45 anos de vida no futebol».
Pega mal um pretendente ao trono já contestar, antes da eleição, um ponto do regulamento que não lhe convém pessoalmente. É bola fora.
A magia da meia-entrada
Hélio Schwartsman (*)
O pensamento mágico é parte inafastável da arquitetura mental humana. É que, em larga medida, nossos cérebros operam por ilusões. Como diz o psicólogo Matthew Huts, se você acha que são pensamentos conscientes que o fazem mover seu braço, então você também acredita em mágica.
Ocorre que nem todas as instâncias desse fenômeno são iguais. Há situações em que crenças absurdas, como o comportamento supersticioso, são apenas inúteis, caso do torcedor que veste a meia da sorte sempre que seu time joga. Muitas vezes, porém, o recurso a elementos da magia revela-se útil, o que explica não terem sido dizimados pela evolução. Um estudo mostrou que voluntários acertavam 38% mais tacadas de golfe (“putts”) quando os pesquisadores lhes diziam que usariam o taco de um atleta famoso.
Há, porém, um bom número de instâncias em que o pensamento mágico atua contra nós, seja nos fazendo desperdiçar energia com irrelevâncias, seja nos empurrando ativamente para erros custosos. Por vezes, sociedades inteiras embarcam na ilusão. Meu exemplo favorito de viagem coletiva é a recém-regulamentada lei da meia-entrada, apoiada por mais de 90% dos paulistanos. No discurso de seus defensores, a meia consegue, a custos mínimos, promover a cultura, investir na formação dos jovens e ainda homenagear os mais velhos -tudo isso fazendo justiça social.
O problema é que nada disso é real. Os preços de diversões públicas são livres, o que significa que o empresário já fixa os valores considerando uma cota de meias-entradas. Assim, tudo o que a lei faz é impor um subsídio cruzado difícil de justificar (nada indica que o subsidiado tenha menos renda que o subsidiante) e distorcer a transparência tarifária.
Erros ainda mais caros ocorrem porque acreditamos magicamente que basta a vontade do legislador para materializar benefícios. É um pouco por isso que o Brasil quebrou.
(*) Hélio Schwartsman, filósofo e escritor, é colunista da Folha de São Paulo.
Outras máximas ― 22
La France est un pays extrêmement fertile. On y plante des fonctionnaires. Il y pousse des impôts.
A França é um país extremamente fértil. Plantam-se funcionários. Crescem impostos.
Georges Clemenceau (1841-1929), homem de Estado francês
Dizem que o solo brasileiro é ainda mais fértil que o francês, portanto…








