Frase do dia — 34

«A pós-graduação é para quem já é graduado e, em tese, não sofre mais desvantagens educacionais»

Demétrio Magnoli, comentando o fato de a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ter aderido ao sistema de quotas para seleção de mestrandos e doutorandos. Conferir no site do Instituto Millenium, 17 out° 2013.

Comentário meu:
Essa medida corrobora a crença ― a meu ver, falsa ― de que índios e negros são intelectualmente inferiores. Um disparate total.

Miscelânea 12

José Horta Manzano

Desenvolvimento humano
O PNUD ― Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento ― publicou a classificação do desenvolvimento humano das unidades federativas do Brasil. O estudo está baseado nos dados do censo de 2010 e consolida os índices de renda, de longevidade e de educação apurados em cada município.

Classificação IDHM 2010

Classificação IDHM 2010 – por Unidade Federativa

Os últimos classificados na lista são, na ordem: Pará (25° lugar), Maranhão (26° lugar) e Alagoas, o campeão do atraso, em 27° e último lugar.

Faz décadas que os clãs Barbalho, Sarney e Collor ― cada um na sua terra ― vêm exercendo influência pesada nos três Estados que ora aparecem com os piores índices de desenvolvimento.

Qualquer relação entre esse coronelato e o atraso da população pode não ser mera coincidência. Veja aqui, em resolução superior, o quadro no site do PNUD.

Interligne 18e

Horário de verão
Para mim, a palavra horário evoca uma tabela organizada com horário de trem, de avião, de aula, de trabalho. O que os ingleses costumam chamar timetable. Pessoalmente, para definir a mudança da hora oficial no período estival, prefiro a expressão hora de verão. Mas horário de verão está bem ancorado na língua. Vamos de horário mesmo.

Depois de muito vaivém na fixação anual de sua data de início e de fim, o período durante o qual os relógios têm de ser adiantados estabilizou-se a partir do Decreto n° 6558, de 2008. Ficou combinado que a operação começa no terceiro domingo de outubro e termina no terceiro domingo de fevereiro.

Nos anos em que o término coincidir com o Carnaval, a volta à hora normal se fará no quarto domingo de fevereiro. Não entendo bem a relação entre o Carnaval e a hora legal, mas o legislador houve por bem evitar a coincidência. Talvez para não amputar uma hora da festa maior ― evitar revoluções é dever de toda autoridade.

Na Europa, faz 30 anos que o acordo é o seguinte: adiantam-se os relógios no último domingo de março e volta-se a atrasá-los no último domingo de outubro. Um detalhe notável, no entanto, faz a diferença. Na Europa, estudos revelaram que o momento mais calmo do dia está situado entre as 2 horas e as 3 horas da madrugada. Assim, quando os relógios marcam as 2h da manhã do último domingo de março, passa a ser 3 horas. E às 3 horas do último domingo de outubro, atrasam-se os relógios para marcarem 2 horas.

É curioso que, no Brasil, tenham pensado em não perturbar o Carnaval, mas não tenham situado a mudança na hora mais sossegada da madrugada.

Seja como for, a partir de 27 de outubro, Brasil e Europa estarão separados apenas por 3 horas.

Relógio ― modelo oficial da Rede Ferroviária Suíça

Relógio ― modelo oficial da Rede Ferroviária Suíça

Há uma outra particularidade brasileira advinda do fato de nem todos os Estados aderirem à mudança de hora. Dou-lhes um exemplo significativo. O município de Caravelas (BA) está situado na mesma latitude de Santa Rita do Araguaia (GO). Dado que as duas estão separadas por quase 15 graus de longitude, a hora solar, inflexível, determina que a cidade baiana está uma hora à frente da goiana. Esse é o tempo real, astronômico. No entanto o horário de verão gera uma surpreendente distorção. Quando for meio-dia em Caravelas, já será uma hora da tarde em Santa Rita, na contracorrente da lógica geográfica.

Como já cantava Noel Rosa, num maxixe de 1932, são nossas coisas, são coisas nossas. Se quiser ouvir a gravação original, clique aqui.

Biografias não autorizadas

José Horta Manzano

MPB ― novos rumos by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

MPB ― novos rumos
by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

O distinto público está meio perdido com a celeuma que ferve estes dias em torno de biografias não autorizadas. Devem ser publicadas ou não? Parece briga de velho ― os envolvidos já são cidadãos entrados em anos.

As más línguas diriam que, depois de passarem a vida sustentados por seus fãs, esses artistas agora os desprezam, já que não precisam mais deles. Os admiradores se sentem órfãos e, com razão, descartados. É como se estivessem sendo atirados ao lixo como um objeto que não tem mais serventia.

Por outro lado, sejamos justos, é natural que a maioria das biografias retratem o percurso de figuras de uma certa idade. A vida de artistas de 20 aninhos ainda tem páginas em branco a serem escritas mais adiante.

Biografia 3O fato é que esse bate-boca está parecendo briga de cortiço. Fica no ar a impressão de que os que resistem a ser biografados têm muito podre a esconder.

No entanto, há uma solução simples. Não é a panaceia, mas pode acalmar a situação. Basta que os que se sentem incomodados encarreguem um escritor ou um jornalista de escrever a história de sua vida. Que mandem escrever um paralelepípedo de 800 páginas, cheio de detalhes, de fotos, de causos. Há que contar algumas passagens picantes, se não, ninguém vai se interessar. Mas podem silenciar sobre episódios que não queiram desvendar.

Pronto, não é a solução milagrosa, mas é um compromisso entre o sim total e o não absoluto. Pelo menos, acabam com essa querela de baixo nível. Entre mortos e feridos, salvar-se-ão todos.

Suas Excelências

José Horta Manzano

Faz três semanas, a revista Congresso em Foco publicou o resultado de estudo levado a cabo entre 13 de junho e 14 de agosto deste ano. O levantamento deve ter dado muito trabalho de pesquisa. Visava a apontar quais, entre os 513 deputados e 81 senadores, eram réus em ações criminais. Como se sabe, nossa elite dirigente não é composta de seres comuns como nós. Eventuais «malfeitos» desse povo não passam pela delegacia da esquina ― são julgados diretamente pelos juízes maiores, os do STF.

Processo penal

Processo penal

A lista final é assustadoramente longa. Parece brincadeira, mas não é. O número de senadores acusados é proporcionalmente idêntico ao de deputados que respondem a processo penal. São 37% dos senadores e 37% dos deputados. Imaginam o que isso significa? Mais de um terço de suas excelências têm alguma pendenga com a Justiça criminal! Não estamos falando de litígio de condomínio, discussão com vizinho, injúria, calúnia, ofensa à honra, despejo por falta de pagamento. Trata-se realmente de acusações penais, daquelas que, para gente menos privilegiada, costumam render cadeia.

Todos os Estados e todos os partidos estão representados na lista. Sobra para todos. E que fazemos nós outros? Continuamos a votar nessa gente? Quem preferir esperar pela condenação definitiva pode se sentar num sofá bem confortável. Ainda periga tardar anos e anos. Até lá, vão todos continuar tentando se reeleger, que é uma maneira de conservar seus privilégios.

Para quem quiser conferir, a lista completa está no site de Congresso em Foco. Clique aqui para ver a impressionante lista nominal.

Casa da avó

José Horta Manzano

Vovó

Vovó

Minha avó era um puro produto do século XIX. Em sua casa, visita de mulher separada(*) era tolerada. Até desquitada(*) entrava. No entanto, o novo companheiro da pecadora não passava da soleira. Eram as regras da casa. Ninguém era obrigado a frequentar aquele lar, mas os que quisessem entrar tinham de estar conformes ao regulamento.

A Igreja Católica não permite o ordenamento de mulheres. Tampouco aceita o casamento de seus sacerdotes. Pode ser até que as coisas mudem no futuro ― Papa Francisco dá sinais de não se opor à flexibilização de certos regulamentos. Seja como for, as regras da casa atualmente são como são. Os tempos medievais passaram e o Tribunal da Inquisição também já foi extinto. Portanto, ninguém mais é obrigado a abraçar a fé católica e a permanecer-lhe fiel durante toda a vida. No entanto, os que desejarem fazê-lo terão de se conformar com o regulamento.

Em casa de japonês, não se entra com sapato nos pés. Não se usa cumprimentar dando a mão, muito menos dando beijinho. Costuma-se agradecer na entrada, elogiar durante a estada e agradecer de novo na saída. Ninguém é obrigado a frequentar casa de japonês, mas os que quiserem guardar bom relacionamento com nossos amigos orientais terão de se conformar com o regulamento.

Em estádio de futebol, não se pode consumir bebida alcoólica ― pelo menos, assim era antes de a Constituição da Fifa ser içada acima da nossa. Em açougue, cachorro não entra. Em templo muçulmano, ninguém pode entrar com sapato nos pés. No Clube do Bolinha, mulher não é admitida. Em determinados batalhões militares de aparato, homens de estatura inferior a um metro e oitenta não são aceitos. Em espetáculos cujo conteúdo pode chocar almas sensíveis, não é permitida a entrada de crianças.

Não passe!

Não passe!

Ninguém é obrigado a frequentar estádios de futebol, a entrar em açougue, a visitar mesquitas, a matricular-se no Clube do Bolinha. Contudo ― e não deveria ser difícil entender ― aquele que quiser comparecer a esses lugares terá de se conformar com as regras. Se espaços públicos têm suas exigências, que dirá espaços privados.

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias, um dos braços da Câmara Federal, é conduzida pelo deputado Feliciano, criador e dirigente de uma das numerosas seitas neopentecostais que pipocam atualmente. Sua escolha para administrar essa comissão provocou escândalo em muitos brasileiros pensantes. Parece que o homem tem um grave problema de intolerância a comportamentos sexuais que não lhe pareçam ortodoxos. É possível que o deputado Feliciano carregue recalques que Freud explicaria. Mas não é disso que lhes quero falar hoje.

Como se diz por aqui, não se deve jogar o bebê com a água do banho. O fato de o deputado ser figura controversa e contestada não justifica a rejeição sistemática de todos os seus atos e de todas as suas ideias. Assim como já elogiei, quando me pareceu justificado, alguma ação do senhor Haddad ― e até mesmo algum (raro) ato do senhor Lula da Silva! ―, tenho de concordar com a decisão tomada ontem pela comissão parlamentar presidida pelo senhor Feliciano.

Vá circular noutra freguesia!

Vá circular noutra freguesia!

A Comissão recomenda à Câmara que aprove um projeto de lei que dá a organizações religiosas o direito de recusar pessoas que violem seus valores. A grita dos discordantes baseia-se nos direitos das minorias. Pois eu acredito que a Comissão, no presente caso, tem razão. Errados estão os discordantes.

Os direitos de que dispõem as minorias não são absolutos. O direito de um indivíduo expira no exato ponto em que começa o direito do próximo. Igrejas, templos, mesquitas, açougues, estádios, cinemas, clubes têm suas regras. Cabe aos aderentes segui-las. Não faria sentido ser admitido num templo religioso ― neopentecostal ou não ― por força de mandado de segurança.

Como na casa da avó, só deve entrar quem estiver em conformidade com as regras.

Interligne 18b

(*) Explicação para os mais jovens que talvez não conheçam
No tempo em que não se divorciava no Brasil, havia uma solução intermediária para oficializar a separação. Chamava-se desquite. Era uma separação judicial que, embora não desse aos cônjuges autorização para se casarem de novo, regularizava a situação.

¿ Por qué no te callas ?

José Horta Manzano

O povo brasileiro pode sentir-se protegido. Big Brother cares for you ― lá no andar de cima, os figurões cuidam de você.

Prisioneiro

Prisioneiro

Já faz quase uma semana que o clima político-policial anda agitado em consequência da revelação que o Estadão fez sobre o crime dito organizado. Falo das investigações e das provas trazidas pelo Ministério Público do Estado de São Paulo sobre a gangue autodenominada PCC.

Matilhas criminosas costumam prosperar lá onde o Estado estiver ausente. As máfias do sul da Itália, da Rússia, da região balcânica têm-se valido desses desvãos para progredir. Nosso país tem uma classe política que muito fala e pouco faz. Os discursos, os pronunciamentos, os anúncios, os comícios apontam todos para um futuro radioso de felicidade geral. Na prática, a teoria tem sido outra.

Preocupados mais com politicagem do que com política, nossos governantes vivem dentro de uma bolha confortável que os isola do dia a dia da nação. Absorvidos por permanentes manobras visando à manutenção de seu próprio poder, desconectam-se da tarefa para a qual foram eleitos. A administração é abandonada a assessores e auxiliares que, incompetentes, vão empurrando com a barriga.

O resultado está aí. O governador do Estado mais importante do País fica sabendo pelos jornais que sua eliminação vem sendo planejada por uma súcia de presidiários.

Criminosos com contabilidade e Conselho de Administração

Criminosos com contabilidade e Conselho de Administração

A presidência da República acaba de anunciar que, dentro em breve, o Brasil estará em condições de tornar seguras as mensagens emitidas por brasileiros. Paradoxalmente, essas mesmas autoridades, tão lestas a reorganizar o fluxo da comunicação entre gente comum, são incapazes de coibir o uso de telefones celulares nas prisões. É paradoxal. Haja descaso!

¿ Por qué no te callas ?

¿ Por qué no te callas ?

Para coroar, vem agora o ministro da Justiça em pessoa declarar que considera inaceitável «a atuação e a dimensão» (sic) da corja de prisioneiros. É de perguntar que atuação ele esperava da malta. E qual seria a dimensão «aceitável».

*

Há horas em que é melhor fechar a boca para não dizer besteira.

Grande jogada

José Horta Manzano

A partir do século XVII, os habitantes de grandes países começaram a se dar conta de que não era normal que uma pessoa ou um pequeno grupo desse as cartas e governasse sozinho. Foi assim na Grã-Bretanha de Cromwell, na França da Revolução, nas colônias da Nova Inglaterra. Aqueles povos se consideravam já maduros para dar um basta à oligarquia. Regimes absolutistas ― com rei sol ou sem ele ― já não combinavam mais com os novos tempos.

Boca de urna 1No Brasil, demorou um pouco. Durante o período imperial, o monarca detinha o Poder Moderador, que, na prática, lhe conferia atributos dignos de um soberano absolutista. Foi preciso esperar até 1889, quando um golpe de Estado derrubou o regime e instaurou a República. A partir de então, nosso país disse adeus, pelo menos em teoria, a governantes discricionários.

Tivemos recaídas. Com golpes em 1930 e em 1937, Getúlio Vargas fez retroceder o Brasil a um regime fechado, no qual uma pequena casta voltava a deter o poder. A liberalização de 1945 durou pouco. Menos de vinte anos depois, as rédeas do País eram entregues a um grupo de militares de alta patente. Novo retrocesso. Finalmente, a democracia voltou em 1985, abrindo para todos os cidadãos a possibilidade teórica de ter acesso a postos de mando.

Por um erro ― proposital? ―, a Constituição de 1988 dava ao chefe do Executivo o poder de editar medidas provisórias. A intenção do legislador há de ter sido nobre: visava a evitar a paralisia do governo. A medida provisória deveria ser reservada para casos de extrema urgência, quando não se pudesse aguardar um voto do parlamento. Deveria servir para prevenir casos como a queda de braço a que estamos assistindo estes dias entre o presidente dos EUA e seu Congresso.

Boca de urna 3Mas, sabemos todos, a carne é fraca. Com uma arma tão poderosa na ponta da caneta, nenhum presidente se privou de lançar mão de MPs intempestivas e mesmo de abusar delas. Fizeram isso, com frequência, em casos não justificados por urgência. Estes últimos tempos, o abuso de MPs tem crescido a ponto de se tornar flagrante, escancarado, indecente. Vê-se que o Executivo continua governando um povo anestesiado. Um novo golpe sem armas está sendo assestado contra a democracia.

Um editorial do Estadão de 15 de outubro nos informa que a MP 615, editada por dona Dilma em maio passado, foi aprovada pelo Senado. A nova lei é verdadeira colcha de retalhos. Subvenciona produtores de cana, autoriza agentes penitenciários a portar arma em horário de folga, alarga prazo de renegociação de dívidas fiscais, regulariza terras ocupadas por templos no DF.

Entre esses variegados balangandãs, um sobressai. A atribuição de licença para motoristas de táxi deixa de ser concessão sujeita a licitação e passa a ser hereditária (sic). Como as Capitanias, lembram-se das aulas de História? Como os cartórios. A partir de agora, filho de taxista, taxistinha será. Por direito adquirido. Não é a prova cabal de que o Brasil está enfim se tornando um país civilizado? O Estadão explica o absurdo da situação tim-tim por tim-tim. Não vale a pena repetir o arrazoado aqui.

Em meu artigo A bolsa eleição, publicado pelo Correio Braziliense de 7 de setembro, denunciei a intenção que se oculta por detrás da importação maciça de médicos cubanos. Vejo em cada um daqueles profissionais um cabo eleitoral pronto a influenciar os mais ingênuos de seus pacientes a apoiar, com seu voto, a oligarquia reinante no Planalto.

Boca de urna 2Se analisarmos sob esse aspecto a concessão de licença hereditária a todos os taxistas, entenderemos que o raciocínio é o mesmo. Motoristas de táxi estão em contacto com dezenas de pessoas a cada dia. Muitas vezes, uma conversa amistosa se estabelece entre o profissional e seu passageiro. Se todos os taxistas do País ― que devem ser muitos milhares ― agirem como cabos eleitorais e derem uma forcinha ao governo, a aristocracia que nos governa estará mais próxima do sonho de se perpetuar no comando.

Um taxista que recebeu, de mão beijada, um patrimônio transmissível a seus herdeiros há de estar muito satisfeito com o inesperado presente. Não precisa nem doutriná-lo para elogiar o governo ― ele fará isso espontaneamente.

Grande jogada, não?

De que foi que morreu junho?

Fernão Lara Mesquita (*)

E segue a conversa: quem são os Black Blocs? É um movimento espontâneo? É orquestrado? Reminiscência daquela “estética da destruição dos símbolos capitalistas” da Europa dos anos 70, precursores do terrorismo à Baader Meinhof e Brigate Rosse? São só baderneiros? E o que é que isso tem a ver com as manifestações de junho?

Brigate Rosse Itália, anos 70

Brigate Rosse
Itália, anos 70

Que tem uma pitadinha de cada uma dessas coisas, é claro que tem (além dos ladrões). Tem até “filósofos” assassinos, como Achille Lollo (conheça o personagem aqui) importados diretamente dessa safra de europeus século 20 e postos, agora, de gurus do PSOL, aquele partido que quer porque quer jantar o Rio de Janeiro de entrada.

Mas, refinamentos retrô à parte, eu, na dúvida, faço sempre aquela pergunta que o Sherlock Holmes fazia: “A quem interessa o crime?”

Quando a resposta me parece duvidosa é a ele que eu recorro de novo: “Quando descartadas todas as outras respostas, por mais estranha que pareça a que restar, é ela a verdadeira”.

E a que restou é a seguinte: junho foi o resultado da soma do primeiro julgamento do STF com a televisão. Com gente daquele calibre condenada à cadeia, o “gigante” sonhou que tinha acordado de frente para o impossível. “― E não é que este país pode mudar!”

Cheios de esperança, os amadores foram pra rua, expulsaram os chapas-brancas e passaram a exigir que mudasse já, e muito…

Pânico no Planalto! Então, os profissionais ― impedidos de vestir vermelho ― retomaram as ruas mascarados, porretes nas mãos, pro povo aprender bem aprendido a quem é que as ruas pertencem. Aí veio o Celso de Merda, enterrou o sonho, e o país mergulhou de volta naquela de “nossos heróis morreram de overdose”…

Agora os Black Blocs, a esta altura já seguros o bastante para se abraçar aos profissionais, estão jogando a pá de cal.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do site www.vespeiro.com

O segredo é a alma do negócio

José Horta Manzano

Nosso governo insiste em provar seu amadorismo. Faz questão de que o mundo saiba que o Brasil ― o mesmo Brasil que pretende fazer parte do primeiro escalão das nações ― não dispõe de serviços de inteligência. O raciocínio dos que nos governam é simples, quase simplório: não temos inimigos, portanto, a quem interessaria espionar-nos?

Espionagem by Cam - Ottawa Citizen

Espionagem
by Cam – Ottawa Citizen

Segundo essa filosofia de boteco, ou «cês tá com nóis» ou «cês tá contra nóis». É certo que não estamos em guerra (militar) contra ninguém, daí a dedução lógica: «eles tá tudo com nóis». E pronto. Pra que gastar dinheiro com proteção de dados? Mais vale utilizar melhor as verbas que escaparem do roubo e da corrupção. Que sejam investidas para angariar votos e para garantir o pirão aos comensais de sempre.

Com o devido estardalhaço, dona Dilma anunciou neste domingo a implantação de um sistema nacional de email criptografado. Com isso ― acredita ela ― as autoridades estarão a salvo de toda espionagem. Duas perguntas ficam no ar.

A primeira: por que razão o governo esperou que a porta fosse arrombada para só então pensar em botar tranca? A segunda: que é que faz crer aos luminares do Planalto que os novos sistemas garantirão a inviolabilidade das mensagens?

Vasques 1

Espionagem
by Edgar Vasques, desenhista gaúcho

O fato de não se terem prevenido contra espionagem reafirma ― se necessário fosse ― o despreparo de um governo cujo objetivo único é a conservação do poder. Dado que o empenho em autofortalecer-se preenche todos os minutos dos dirigentes, é compreensível que não lhes sobre tempo para cuidar do funcionamento do País, ocupação para a qual foram escolhidos. O salário que lhes pagamos é justamente destinado a sustentar uma equipe que zele pelo País. Assim deveria ser, pelo menos.

Quanto à crença de que um sistema de criptografia seja suficiente para proteger segredos oficiais, devo concluir que bom-senso e um pouquinho de cultura histórica andam fazendo uma falta danada aos que ocupam os mais altos postos de nossa hierarquia política. Se dona Dilma se tivesse interessado em saber o que já foi tentado no campo da dissimulação de mensagens ― desde o tempo dos pombos-correio até hoje ― seus pronunciamentos seriam menos bombásticos e mais humildes. Melhor até que nem se pronunciasse.

Enigma ― máquina de criptografar

Enigma ― máquina de criptografar

No começo dos anos 20, matemáticos alemães desenvolveram uma máquina eletromecânica, a superfamosa Enigma, destinada a encriptar comunicações. Uma versão reforçada foi preparada, sob encomenda do governo nazista, especificamente para comunicações militares. A criptagem da Enigma era reputada inviolável.

Pois hoje sabemos que um trio de matemáticos poloneses conseguiu quebrar o código da máquina alemã. E fizeram isso já antes de a Segunda Guerra estourar! Assim, graças àqueles pré-históricos hackers, os britânicos já tinham sido informados com antecedência sobre o ataque «de surpresa» que a Alemanha desferiria à Polônia, dando início à guerra mundial. Naturalmente, todos aparentaram surpresa, de modo a deixar que os alemães acreditassem que suas mensagens continuavam indevassadas.

Códigos, cifragens, criptogramas são feitos para serem quebrados. Todo Estado dotado de serviços de inteligência sabe disso.

Frase do dia — 33

«Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. (…) Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios ― o semelhante torna-se o inimigo.»

Trecho do discurso proferido pelo escritor Luiz Ruffato, na abertura da Feira do Livro de Frankfurt ― 2013, que teve o Brasil como convidado de honra.

Embora não esteja perfeitamente de acordo com a argumentação do discursante, acho que seu texto merece leitura. Os fatos históricos que ele menciona são reais e verdadeiros. As soluções que ele preconiza nem sempre empatam com as minhas. Mas cada um é livre de imaginar uma alavanca para tirar nosso país do buraco em que se encontra.

Quem tiver curiosidade de ler o texto integral pode clicar aqui.

 

Desapaixonadamente

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 12 out° 2013

Nada é totalmente preto, nada é totalmente branco ― in medio stat virtus. A virtude está tão distante de um extremo quanto do outro.

De uns tempos para cá, nosso país tem vivido momentos excepcionais. Não dispomos ainda de recuo suficiente para analisar o impacto desse tropel. Nem bem deu tempo de curtir a ressaca de um episódio tenebroso, e já somos abalroados por nova batelada de assombros. Não passa um dia sem que as manchetes nos pasmem com uma saraivada de notícias inacreditáveis.

Tirando os beneficiários diretos de cada escândalo e aqueles que, por alienação ou ignorância, vão levando sua vidinha à margem da sociedade, pouca gente tem-se alegrado com os recentes sucedidos. Não há muito que festejar. A tentação é forte de achar que o período é de trevas e que o fim do mundo está ali na esquina.

Mas não é bom caminho. Pode dar desânimo ou até úlcera. Há que ter em mente que nada é inteiramente negativo nem totalmente positivo. Vamos dar uma espiadela nas comoções nacionais mais recentes e lançar sobre elas um olhar menos apaixonado.

Houve o caso do deputado que reside atualmente numa prisão. Pois é, aquele a cujos pares coube decidir, em voto secreto, se merecia conservar o mandato. Numa cena patética, o eleito da nação chegou algemado à Câmara. O país se decepcionou ― com razão ― com o resultado do voto. O mandato foi salvo, mas a grita popular abriu as portas para a abolição dessa estranha prática que oculta deputados atrás do anonimato. Foi o lado bom da história.

Houve o caso da prisão do diretor de um presídio baiano terceirizado. Segundo noticiou a imprensa, sua cadeia tinha-se tornado uma casa de mãe joana. Ali podiam entrar celulares e drogas, desde que a taxa cabida fosse paga à diretoria. Escândalo? Sem dúvida. Mas foi também um alerta. Mostrou que talvez não seja boa ideia confiar presídios à iniciativa privada. Foi o lado bom da história.

Houve casos de figurões de alto coturno ― deputado, senador, ministro ― flagrados em voos da alegria. Os pretextos eram pitorescos: um jogo de futebol, uma festa de casamento, um passeio familiar em Cuba. Desfaçatez? Sem dúvida. Mas é certeza que a divulgação vai refrear outras excelências que se sentissem tentadas a seguir o exemplo. Foi o lado bom da história.

Bandeira Brasil rasgada 2

Houve o caso da descoberta da espionagem americana. Todos sabem que, desde a esposa que remexe nos bolsos do marido até Estados e grandes empresas, todos espionam todos. Só não faz quem não tem como fazer. O escândalo foi apregoado a todos os ventos, mormente porque nossa voluntariosa presidente se sentiu pessoalmente visada. Rendeu até discurso na ONU, protocolarmente aplaudido pela plateia. Um horror? Uma traição? Sem dúvida. Mas o aviso terá servido para que nossos dirigentes ― que almejam elevar o País ao patamar dos primeiros da classe ― deixem de lado a ingenuidade e se apliquem em instaurar serviços eficientes de contraespionagem. Quem quer, faz. Quem não quer pede à ONU que controle a internet. Foi o lado bom da história.

Houve o caso das vaias na abertura da copinha, que abriram a porteira para vigorosas manifestações de protesto. Colhidos de surpresa, dirigentes e eleitos de todos os quadrantes se sobressaltaram. Afinal, fazia tanto tempo que o povo, apático, dormitava! Foi uma bagunça? Foi. Deu medo? Ô, se deu! Mas foi sinal tangível de que o povo está despertando de sua letargia. A circulação instantânea da informação anda estreando um Brasil novo. Que será, esperamos todos, melhor do que o antigo. Foi o lado bom da história.

Finalmente, houve o caso do mensalão. Ah, esse mensalão! Em cartaz há 8 anos, tem dado pano pra mangas. E parece que ainda está longe de terminar. Um escândalo e tanto! No entanto, assim como toda moeda tem duas faces, esse sucedido também tem dois flancos ― um medonho e um consolador. O lado sombrio já foi repisado ad nauseam. Não vale a pena aplicar mais uma demão.

Mas que ninguém se apoquente. Se vem polarizando as atenções da nação há anos, esse escândalo não ultrapassou nossas fronteiras. Na Europa, não mereceu da mídia nem nota de rodapé. As aparências estão salvas. Alegremo-nos!

No plano interno, assim que a poeira baixar e as paixões se arrefecerem, havemos de nos dar conta de que, no fundo, muita coisa boa terá ficado. Pouco importa que este ou aquele condenado seja preso em regime fechado, aberto ou semicerrado. O que importa é que foi aberta uma brecha na impunidade tradicional. E isso vai coibir futuras veleidades de transgressão que pudessem germinar no andar de cima. Alvíssaras!

Privilegiados da Justiça

José Horta Manzano

Justiça

Justiça

As últimas do STF nos chegam por via do Diário da Justiça. A mídia cuidou de fazer a devida tradução do juridiquês para o vernáculo. Ficamos oficialmente informados. Sabemos a quantas anda o julgamento do mensalão. Se entendi bem, excetuados os que foram condenados a penas mais severas, os acusados ainda podem apresentar novos embargos infringentes. Desconhecida do vulgo até algumas semanas atrás, essa locução entrou na linguagem do dia a dia. Trocada em miúdos, equivale à conhecida expressão entrar com recurso.

Sabemos todos que, em nosso país, figurões não são pessoas comuns. Aliás, um presidente da República um dia proferiu essa ousada afirmação ― e o fez com todas as letras. Portanto, entendemos todos que, caso deslizem, medalhões merecem tratamento especial. Não estão sujeitos a tribunais menores, de primeira ou segunda instância, que isso é para gente ordinária. Respondem diretamente ao tribunal maior. Questão de prestígio, ora vejam. Gente fina não se mistura com ralé.

Só que há um senão. Gente normal passa primeiro por um tribunal de primeira instância. Caso discorde do julgamento, tem a possibilidade de apelar para um tribunal superior, onde os juízes não são os mesmos. Caso ainda não esteja satisfeito, resta-lhe ainda uma derradeira possibilidade: o STF. É verdade que, para chegar lá, precisa ter fôlego, tempo e dinheiro. Mas a possibilidade existe.

Justiça

Justiça

No que concerne aos eleitos, o privilégio de passarem por cima dos tribunais menores e serem enviados diretamente diante dos ministros do supremo é faca de dois gumes. Entre julgamento inicial, recursos e embargos, terão direito, como qualquer mortal, a pelo menos três apreciações. Só que…

…só que essas avaliações serão feitas, em princípio, pelos mesmos juízes. O caso do mensalão é um pouco especial porque o fato de ele ter-se espichado anos e anos propiciou a saída de cena de ministros antigos e a chegada de novos juízes. Indo direto ao STF, os acusados têm várias chances de protestar sua inocência. Mas é grande o risco de serem rejulgados sempre pelos mesmos árbitros.

Ninguém gosta de se contradizer, é questão de imagem pública e de coerência. Acusados comuns têm três chances reais de ser julgados, dado que os julgadores serão a cada vez diferentes. Já os privilegiados perigam enfrentar todas as vezes a mesma comissão julgadora.

Justiça

Justiça

Até pouco tempo atrás, para que um político chegasse a ser julgado (e condenado) pelo STF, precisava no mínimo ter esquartejado alguém com motosserra. Os tempos estão mudando. Crimes de colarinho branco já não eludem tão facilmente a lei.

Quando de uma hipotética futura reforma do Poder Judiciário, esse duvidoso privilégio será certamente objeto de especial atenção. Não seria espantoso que fosse abolido e que medalhões decaídos passassem a iniciar sua peregrinação respondendo a um tribunal de primeira instância. Como qualquer outro cidadão.

Tribunais especiais aos quais somente uma casta de cidadãos têm direito destoam num país que se quer democrático. Na mesma linha, estão as condições carcerárias privilegiadas (prisão especial) ― concedidas com base num eventual diploma formal obtido outrora pelo condenado.

São resquícios de uma sociedade arcaica que a Constituição de 1988, por mais que seja dita cidadã, não conseguiu remover.

Dr. Jekyll & Mr. Hyde

José Horta Manzano

Biografia

A maioria de nós escolhe levar uma existência discreta, corriqueira, comum. Há os que ― por motivos profissionais ou não ― tornam-se conhecidos além do estreito círculo familiar e profissional. Tornam-se personagens públicos. Podem ser artistas, políticos, esportistas, milionários, grandes empresários. Bandidos de grande fama também entram nessa categoria. Quem puser um pé nessa seara fica marcado pelo resto da vida.

Greta Garbo (1905-1990), de origem sueca, era uma linda e famosa atriz de cinema nos anos 20 e 30. Deve ter partido muitos corações naquele tempos. No cinema, no entanto, teve carreira curta. Aos 36 anos, abandonou a vida artística, retirou-se e passou a viver reclusa. Não queria mais ser vista por ninguém. Mas não houve jeito: foi perseguida por fotógrafos e repórteres até seu último dia. Alguns anos após seu falecimento, no ano em que comemoraria 100 anos de nascimento, o governo sueco autorizou até que suas cartas pessoais fossem publicadas.

Tenho lido estes dias que alguns artistas brasileiros se opõem a que se publiquem suas biografias sem o consentimento expresso do biografrado. Parece-me incongruente. Acho que as coisas são ou não são. Todos temos um pouco de Dr. Jekyll e uma dose de Mr. Hyde. Nos mortais comuns ― a maioria da humanidade ― isso passa despercebido. Ninguém está realmente interessado em conhecer os desvãos da personalidade alheia.

Biografia

Já o mesmo não acontece com relação a figuras públicas. É natural que detalhes da história de um artista ou de um político de renome interessem mais do que as peripécias de um zé qualquer. Alguns dizem que esse é o preço da fama.

Por coerência, artistas não podem se opor a que se lhes investigue a vida. A remuneração deles vem de um público pagante e entusiasta que lhes cultua a personalidade. É normal que retribuam, que satisfaçam a curiosidade de seus fãs.

Ocupantes de cargos públicos têm (ou teriam) de declarar seu patrimônio ao chegar e ao sair. Isso me parece normal. Não é invasão de privacidade. Eles têm de declarar todo o patrimônio, não somente a parte que lhes interessa, escondendo o resto.

Por que seria diferente com os que atuam no mundo do espetáculo? Não me parece que possam selecionar as informações publicáveis, escondendo as outras.

Na vida, tem o toma lá. Mas tem também o dá cá. Nada sai de graça.

Bandidos da pesada

José Horta Manzano

Notícia de última hora vinda do Rio de Janeiro nos dá conta de que 6 vigas de aço, de 20 toneladas(!) cada, foram surrupiadas de um depósito na zona portuária. As peças provinham de um viaduto atualmente em demolição.

Fico aqui a imaginar um bando de meia dúzia de profissionais experimentados e bem treinados visitando noturnamente o depósito onde estavam as vigas. Posso vê-los chegando com um enorme caminhão, um guindaste, cabos de aço e todo o aparato necessário para a boa execução da encomenda. Dá pra supor que tenham feito o estardalhaço que se costuma ouvir nessas horas. E tem mais. Caminhões não costumam carregar mais do que 18 ou 20 toneladas. Portanto, das duas uma: ou trouxeram uma frota, ou fizeram várias viagens. No entanto, ninguém viu nem ouviu nada. É surpreendente, para dizer o mínimo.

Viga

Viga

Antigamente se costumava dizer que o cidadão honesto pegava no batente enquanto o bandido vivia vida folgada. Mas os tempos mudaram. A crise já está se alastrando para a ladroagem. São os amigos do alheio que agora têm de pegar no pesado.