Presidente bossa-nova

José Horta Manzano

Na virada dos anos 50 para os 60, surgiu novo nome na paisagem musical brasileira. Era Juca Chaves, jovem cantor e compositor, dono de estilo diferente do que então se fazia. Sua música era intimista, ainda que não se enquadrasse nos cânones da nascente bossa nova. Tinha o som e a melodia de velhas modinhas – sem o vozeirão.

Para a época, as letras de Juca Chaves eram ousadas e irreverentes. Assim que foi lançado, o sambinha Presidente Bossa-Nova tropeçou na censura: sua execução foi simplesmente proibida. A letra, que hoje não choca ninguém, fazia troça com Juscelino Kubitschek, então presidente da República. Foi preciso que o próprio presidente, magnânimo, mandasse liberar – numa atitude cavalheiresca que hoje faz muita falta.

Os primeiros versos estão aqui:

Presidente bossa-nova

Bossa nova mesmo é ser presidente
Desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original.

Depois desfrutar da maravilha
De ser o presidente do Brasil,
Voar da Velhacap pra Brasília,
Ver a alvorada e voar de volta ao Rio.

Voar, voar, voar, voar,
Voar, voar pra bem distante, a
Té Versalhes onde duas mineirinhas valsinhas
Dançam como debutante, interessante!

Há ainda duas estrofes. Que clique aqui quem tiver curiosidade de conhecer (ou de recordar).

Juscelino Kubitschek
by Pedro Bottino, desenhista

Sessenta anos se passaram. Desapareceram gestos de magnanimidade e atitudes cavalheiras. Onde antes se batia com luva de pelica, hoje se dá com soco inglês. Neste ano e meio de governo Bolsonaro, o palavreado endureceu. Recolhi os adjetivos que já foram atribuídos ao atual presidente – estão todos na mídia impressa e na internet pra quem quiser conferir. Aqui estão:

estúpido,
mesquinho,
chefete,
cretino,
burro,
preguiçoso,
ignorante,
irresponsável,
perturbado,
incapaz,
indecoroso,
grosseiro,
primitivo,
reacionário,
desequilibrado.

A lista não é exaustiva. Mudou o Brasil ou mudei eu, como diria o outro.

Glossário
À atenção dos mais novos, vai aqui um pequeno glossário para compreender a letra da musiquinha.

Bossa nova
Era a nova maneira de tocar samba, novidade que acabava de aparecer naqueles anos. Repare que o nome do ritmo não leva hífen, enquanto o adjetivo (presidente bossa-nova) exige o tracinho. Cada uma, não?

Simpático e risonho
Juscelino era conhecido pela simpatia e pelo sorriso eternamente estampado no rosto.

Velhacap
Com a construção de Brasília, que se chamou Novacap (nova capital), foram encontrados dois prêmios de consolação. São Paulo passou a ser conhecida como Supercap; e o Rio de Janeiro tornou-se a Velhacap. Nenhum dos três apelidos resistiu à passagem dos anos.

Voar, voar
Diferentemente de seus predecessores, Kubitschek viajava frequentemente de avião. Dizia-se dele que era o presidente voador.

Versalhes
As duas mineirinhas, que o autor situa em Versalhes, eram Márcia e Maria Estela, as duas filhas do presidente.

Ignorantes e ignorantes

José Horta Manzano

A palavra ignorante pertence a família numerosa. Seus membros estão presentes não só entre nós, mas também em quase todas as línguas europeias. Mas esse é assunto que desenvolveremos numa outra oportunidade.

Hoje gostaria de lembrar ao distinto leitor que, na variante brasileira da língua portuguesa, o termo ignorante tem dois significados principais.

Ignorante 1
É aquele que ignora, que desconhece, que não sabe. Exemplos:

Joãozinho é realmente um ignorante; imagine que tirou zero em três provas!

Está escrito ali na parede! Não sabe ler, ignorante?

Ignorante 2
É o indivíduo abrutalhado, malcriado, tosco, pesado, grosseiro, não necessariamente ignaro. Exemplos:

Você viu? Uma velhinha de pé e aquele ignorante sentado!

Marido que maltrata a mulher é ignorante.

Tivemos, na época em que a patota lulopetista estava aboletada nas poltronas macias do andar de cima, bom exemplo de ignorantes no poder. Eram do tipo 1, aqueles que não sabem. A tônica era dada pelo próprio presidente, avesso a todo tipo de alimento que lhe pudesse enriquecer o intelecto. Obedientes, os demais acompanhavam o chefe. Com deleite.

Varridos os ignorantes do tipo 1, convivemos agora com um bando de ignorantes do tipo 2. Ai, Jesus! Em matéria de conhecimento, embora não sejam luminares, até que sabem o básico. Não se imagina, por exemplo, que acreditem na terra plana. Já no quesito civilidade, são todos espinhudos. De novo, quem dá o tom é o presidente, o mais ignorantão, aquele que carrega sempre um insulto no bolsinho, pronto a ser disparado. Obsequiosos, os demais seguem o chefe. Com facilidade, desdenham e ofendem. São pesadões, vulgares, rasteiros.

Este blogueiro, já entrado em anos, tem pouca esperança de vir a conhecer um governo cuja característica maior não seja a ignorância. Por enquanto, estamos condenados a assistir a um desfile de ignorantes, com direito a alternância entre ignorantes 1 e ignorantes 2. Até quando vai durar? Cabe à próxima geração decidir se rompe esse círculo vicioso ou se deixa tudo como está.