Coisa esquisita

José Horta Manzano

Fiquei sabendo, agora há pouco, que Michel Platini abandona, pelo menos por enquanto, suas pretensões a capitanear a Fifa.

Penduradas as chuteiras, o antigo titular da seleção francesa de futebol tornou-se cartola. Primeiro, entrou para o comité executivo da Fifa em abril de 2002. De 2007 pra cá, dirige a Uefa ― a união europeia de futebol, equivalente à sul-americana Conmebol.

Platini & Blatter

Platini & Blatter

Por coincidência, passei hoje de manhã em frente à imponente sede da Uefa, em Nyon (Suíça). Em frente é modo de dizer. A frente do prédio se mira nas águas calmas do Lago Léman, que os ingleses chamam Lake of Geneva. A não ser que venha de barco, ninguém costuma chegar pela frente do edifício.

Digressão feita, volto a minhas cogitações. Ninguém imaginaria Michel Platini e Joseph Blatter passando férias juntos ― é voz corrente que os dois se detestam.

O antigo atacante francês de 59 anos não tem guardado segredo, estes últimos anos, sobre sua intenção de candidatar-se ao posto de dirigente máximo da Fifa. Já o suíço Blatter, apesar de seus 78 aninhos, continua firme, forte e mais que disposto a disputar seu quinto mandato seguido.

O planeta futebolístico já se preparava para um eletrizante jogo de interesses, com troca de favores, propinas sob a mesa, afagos e promessas eleitorais, golpes baixos, lances arriscados. Evaporou-se a tensão.

Sede da Uefa, Nyon, Suíça

Sede da Uefa, Nyon, Suíça

O comunicado de imprensa não deixou claro o imperioso motivo que fez que Platini tenha postergado o alcance de sua meta. Ele se declarou «ainda não preparado», explicação que, vinda de um cartola com 12 anos de experiência, é difícil de aceitar.

Sei não. Mentes malignas poderiam até imaginar que o atual presidente da Fifa tenha decidido sufocar o problema no nascedouro. Em vez de gastar tempo e esforço convencendo delegados de duzentos e tantos países, pode bem ter usado expediente mais direto: convencer o próprio adversário de que ainda não chegou o momento. Parece que que Herr Blatter tem argumentos pra lá de persuasivos.

A Fifa tem razões que a própria razão desconhece. Que me perdoe Pascal(*).

Interligne 18b(*) «Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point.»
«O coração tem razões que a própria razão desconhece.»
Blaise Pascal (1623-1662), sábio francês.

Arena matrimonial

José Horta Manzano

O portal de informação Focus, braço de um conglomerado alemão de mídia, publicou o resultado da conta de perdas e danos da Fifa, referente ao Campeonato do Mundo jogado no Brasil este ano.

O volume de negócios atingiu 3,3 bilhões de euros, superando em 10% o recorde anterior, da copa africana. O lucro foi de 1,6 bilhões de euros. Livres de imposto naturalmente.

Projeto Casa Futebol, Foto EFE

Projeto Casa Futebol, Foto EFE

A distribuição de prêmios aos diferentes beneficiários foi relativamente modesta: 425 milhões de euros, nada mais. A Confederação Alemã de Futebol, por ter terminado o campeonato em primeiro lugar, tirou a sorte grande ― vai levar 25,7 milhões.

Uma quantia de 125 milhões será paga, como compensação, aos clubes cujos jogadores tenham sido convocados para a Copa. Para finalizar, 148
milhões irão para os 209 países-membros. A cada um conforme sua classificação no torneio. O resto fica na conta de poupança da Fifa.

by Clayton Rabelo, desenhista paulista

by Clayton Rabelo, desenhista paulista

Quanto aos elefantes brancos plantados no Brasil ― falo dos estádios ― um escritório de arquitetura teve ideia bastante original: reaproveitá-los como moradia popular. Seria uma espécie de pombal. A imagem que reproduzi acima vale mais que mil palavras. Há outras aqui.

Foto Pedro Ladeira, Folhapress

Foto Pedro Ladeira, Folhapress

É pouco provável que nossos dirigentes aprovem a ideia do pombal. Parece que já encontraram uso bem mais relevante. Faz alguns dias, o estádio de Brasília já acolheu casamento coletivo, ideia importada diretamente da China. Coisa fina!

As aparências estão salvas. Como se vê, valeu a pena investir bilhões do dinheiro do povo. Ninguém mais tem desculpa pra ficar solteiro.

7 x 1

José Horta Manzano

O selecionado brasileiro de futebol foi derrotado pela equipe nacional alemã. O fato, em si, não tem nada de extraordinário. Espantosa é a amplidão do marcador. Que fazer? São coisas da vida.

Os fatos têm a importância que lhes atribuímos. Os atributos que tenho lido e ouvido ― ligados ao jogo deste 8 de julho ― são terríveis. Desonra, fracasso, desgraça, tragédia, debacle.

Não exageremos. Cabeça fria, minha gente. Daqui a alguns dias, acaba a «Copa das copas». Os jogadores voltarão para a Europa, autoabsolvidos, felizes com seus salários milionários. Para o povo brasileiro, ficarão os problemas e… as contas a pagar.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Aqui abaixo vai um elenco dos substantivos exacerbados com que o episódio foi descrito.

Interligne vertical 11cLástima? Lástima é conceder habeas corpus a cartola da Fifa, preso por ter-se locupletado. Lástima é não se dar conta de que, solto, o acusado pode destruir provas e forjar álibi.

Decadência? Decadência tem sofrido a indústria brasileira desde que nossos ingênuos dirigentes permitiram que a indústria chinesa estrangulasse, pouco a pouco, a nossa.

Desonra? Desonra é constatar que, em pleno século 21, nosso País ainda tem hordas de analfabetos.

Extermínio? Extermínio é o que continua sendo praticado contra nossas florestas em plena era de monitoramento em tempo real por satélite. Habeas corpus não vale em caso de queimadas.

Vergonha? Vergonha é figurar na lista mundial dos paraísos da prostituição barata ― característica de um povo indigente.

Destruição? Destruição é o que a disseminação das drogas causa na população ― jovens e velhos ― nas barbas de autoridades coniventes.

Fracasso? Fracasso é o de uma política de assentamentos que, decorridas décadas, ainda não logrou satisfazer às necessidades dos sem-terra.

Fiasco? Fiasco é o resultado pífio da Instrução Pública.

Desgraça? Desgraça é constatar que, cinco séculos após o descobrimento, ainda perdura o sistema de capitanias hereditárias no jogo político do País.

Baque? Baque é ver jogadores brasileiros milionários, «ídolos» de um país sem heróis, chorando feito criança que perdeu o brinquedo. Alguém já imaginou jogador alemão chorar porque perdeu um jogo?

Calamidade? Calamidade é o crônico abandono reservado à Saúde Pública, da qual depende a esmagadora maioria de brasileiros.

Horror? Horror é o que sentimos quando a Fifa ― uma multinacional de características mafiosas ― consegue, sem esforço, impor sua vontade sobre nossos representantes e mudar nossas leis.

Derrota? Derrotas sucessivas são as que tem sofrido a diplomacia brasileira, outrora respeitada. As más companhias têm influenciado nossos inexperientes (e inescrupulosos) medalhões.

Vexame? Vexame é constatar, ano após ano, que a classificação do Brasil no índice Pisa não dá sinais de melhora.

Estrago? Estrago sentimos nós quando temos notícia de que nenhuma universidade brasileira se classifica entre as duzentas melhores do mundo. Até a USP perdeu sua posição.

Prostração? Prostração é o que sentem os cidadãos bem-intencionados quando se dão conta de que o País vem sendo governado por marqueteiros baseados em slogans.

Abatimento? Abatimento sentimos nós, cidadãos de bem, obrigados a viver enjaulados enquanto bandidos passeiam livres, leves e soltos.

Falência? Falência econômica é o fim garantido, a continuarmos seguindo o receituário da contabilidade dita “criativa”, feita para mascarar realidade vergonhosa.

Flagelo? Flagelo é o tratamento que nossas autoridades maiores vêm impingindo a nossos irmãos nordestinos, ludibriados com a quimera da bifurcação do Rio São Francisco.

Desintegração? Desintegração é o retrato do Brasil atual ― desintegração avançada do tecido social.

Drama? Drama é a ingenuidade do bom povo brasileiro. Apoiados nessa candura, os figurões atuais têm ampla chance de se reeleger. A má gestão do país periga, assim, se eternizar.

Declínio? Declínio é o que se constata ao ouvir um estádio inteiro proferindo insultos de baixo calão. É ver o povo substituindo o voto pelo berro, numa demonstração de declínio civilizatório.

Bancarrota? Bancarrota é o fim do caminho. Segundo abalizados especialistas, a continuar insistindo no paradigma econômico perigoso em que nos metemos, perigamos virar uma Argentina ou, pior, uma Venezuela.

Desastre? Desastre é amestrar um povo e incentivá-lo a enxergar o futebol como valor máximo, como glória maior da nação. Esse vezo pode até funcionar em tempos de bem-aventurança, mas o risco de colapso repentino e brutal é imenso. Foi o que aconteceu.

Catástrofe? Catástrofe é o fato de um povo cordial mas anestesiado ter aprovado ― e aplaudido até ― a dilapidação do erário para garantir o sucesso efêmero do futebol nacional. Desperdício cometido em detrimento de gritantes prioridades nacionais relegadas ao fim da fila.

Ruína? Ruína é a situação do transporte urbano num país como o nosso, onde a maior parte da população vive ou trabalha em grandes cidades.

Malogro? Malogro é o resultado de políticas assistencialistas que não diminuíram o fosso entre os que têm mais e os que têm menos. Malogrados nos sentimos em saber que o Brasil permanece entre os países mais desiguais.

Desgosto? Desgosto é o que se sente ao constatar que futebol, em nosso país, passa à frente do trabalho e das responsabilidades individuais. A prova? Os feriados decretados nos dias de jogo.

Interligne 18c

Tragédia? Tragédia é ter certeza de que, passadas as eleições de outubro, teremos mais do mesmo. O risco é grande de que os que lá estão sejam reeleitos e se sintam livres para continuar sua obra de desconstrução do Brasil.

#Tevecopa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jul° 2014

Teve Copa, sim, senhores. Contradizendo pessimistas, o megaevento fez sucesso estrondoso. Como escrevo antes das quartas de final, não sei se a Seleção terá avançado ou tropeçado. De todo modo, o que interessa mesmo são os efeitos colaterais e o legado. Nossas autoridades, quando aceitaram organizar o campeonato, tinham objetivo ambicioso e múltiplo.

No plano interno, o torneio congregaria duzentos milhões em ação num só brado: «pra frente, Brasil, salve a Seleção». Seria a prova maior da concórdia e do contentamento do povo brasileiro ― a consagração lógica e brilhante destes anos de obstinado marketing. A magnificência do espetáculo havia de satisfazer aos apetites mais exigentes. O crédito de simpatia do mandarinato só poderia crescer.

No plano externo, a fabulosa exposição midiática seria o vetor da afirmação do Brasil-potência. Alto e bom som, ecoaria no planeta a prova da inserção definitiva de nosso país no restrito clube do Primeiro Mundo. Membro de carimbo e carteirinha, faz favor!

Teve Copa, sim, senhores. E foi um sucesso! Por irrisórios 25 bilhões, temos agora uma dúzia de soberbos estádios de futebol, dois deles estrategicamente plantados na Amazônia Legal. É inacreditável relembrar que o País tinha chegado ao século 21 sem essas imprescindíveis «arenas». O espírito visionário de nossos dirigentes preencheu a lacuna.

Bandeira Brasil 1É verdade que a Copa poderia ter servido de incentivo ao aprendizado de línguas. Afinal, centenas de milhares de turistas forasteiros foram recebidos por um povo monoglota. É pena ninguém ter pensado em planejar esse detalhe. Tem nada, não. Fica pra próxima. Não se pode cuidar de tudo ao mesmo tempo.

É verdade que nosso padrão de Instrução Pública continua baixo. Nos grotões, o ensino é ministrado em condições africanas. Mas isso é ninharia. Não se pode cuidar de tudo ao mesmo tempo. Dispositivo impressionante foi preparado para cuidar da saúde de atletas. Equipes médicas paramentadas, macas padrão Fifa, helicópteros para emergências. Os esportistas socorridos encontraram atendimento de primeira linha, rápido, eficaz.

É verdade que nossos hospitais públicos ainda não atingiram tal grau de excelência. Mas isso é mixaria, problema antigo que pode esperar. Não dá pra resolver tudo ao mesmo tempo.

Até linhas aéreas se esforçaram. Não houve greve. Atrasos estiveram abaixo do habitual. Atletas boquiabertos cruzaram os céus sem um pio de reclamação.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

É verdade que o transporte urbano dos brasileiros comuns continua caótico, caro, raro, desconfortável, lento, inseguro. Diante da grandiosidade da organização da Copa, porém, isso é bagatela. Metrô? Pura babaquice.

Last but not least, a projeção do País no exterior. Nas muitas décadas que tenho vivido expatriado, posso garantir que jamais o Brasil tinha sido alvo de exposição midiática de tal magnitude.

Até nos rincões da Mongólia e da Birmânia, sabe-se hoje que nosso país tem estádios magníficos. Sabe-se também que nossa terra tem sol e calor. Muitos se arrependem de não ter planejado uma viagem ao Brasil durante a Copa. Agora é tarde.

Visitar o País depois? Visitar o quê? A novidade mostrada foram só os estádios. Fora isso, a exposição midiática serviu para reforçar conhecidos clichês. Repórteres repisaram os horrores de sempre: prisões superlotadas, violência urbana, desigualdade social, gente hospitalizada em corredores, prostituição, carestia. Coisa de frear os ímpetos do turista ajuizado.

Uma detalhe pouco divulgado: teve Copa, sim, mas não para todos os brasileiros. Cerca de um milhão de conterrâneos ainda não dispõem de energia elétrica. Como no século 19, vivem nas trevas ― no próprio e no figurado.

No exterior, muitos me perguntam por que a presidente do Brasil não assiste aos jogos nem mesmo quando chefes de Estado estrangeiros estão presentes. Nessas horas, desconverso.

Copa 14 logo 2Na conta de perdas e danos, o resultado da «Copa das Copas» terá sido neutro. O brasileiro agora tem estádios esplêndidos, mas as mazelas do dia a dia continuam como dantes. O resto do mundo encharcou-se de ouvir e ler sobre o Brasil, mas nossa imagem não mudou: Carnaval, malemolência, criminalidade, anarquia perduram no imaginário forasteiro. Nossa ineficiência ficou patente.

Perdemos excepcional ocasião de melhorar a vida dos habitantes e de soerguer a imagem do Brasil. Fica para quando der. E vamos torcer para que, na próxima Copa, a Fifa nos conceda os segundos que faltam para a execução decente do Hino Nacional. O povo brasileiro, desde já, agradece.

Lista vermelha

José Horta Manzano

A Interpol é a maior organização policial do planeta. Conta com 190 países-membros. A rapidez com que as gentes se deslocam atualmente torna o papel da polícia internacional cada dia mais importante.

Mas para que um jogo seja bem jogado, é preciso que todos os participantes aceitem ― e cumpram ― as regras estabelecidas. Se ajoelhou, tem de rezar. Mas nem todos são devotos, como se verá a seguir.

O senhor Désiré Delano Bouterse, personagem de reputação sulfurosa mais conhecido como Desi Bouterse(*), é o atual mandachuva do Suriname (antiga Guiana Holandesa, país vizinho ao nosso). O mandarim aparece na lista vermelha de notificações da Interpol entre outros dez mil criminosos procurados.

Itaquera, 12 jun° 2014  -  Tribuna de honra Foto: Eduardo Knapp, FolhaPress

Itaquera, 12 jun° 2014 – Tribuna de honra
Foto: Eduardo Knapp, FolhaPress

Seu crime? Tráfico de droga. Coisa da pesada: uma tonelada e meia de cocaína despachadas para a Holanda e para a Bélgica. Foi condenado à revelia pela Justiça holandesa faz alguns anos.

O homem não é nenhum principiante em caminhos tortuosos. Controla seu país com pulso firme, braço forte, dinheiro a rodo e o indispensável apoio das forças armadas. Frequenta as manchetes desde os anos 80. Já esteve à frente de dois golpes de Estado para tomar as rédeas do país. Presume-se que seja também assassino, embora ainda não tenha sido julgado por esse tipo de crime.

Para esse senhor, o tráfico internacional de droga parece ser negócio de família. Pelo mesmo crime, seu filho foi preso no ano passado no Panamá e extraditado para os EUA. Resultado disso tudo: o senhor Bouterse está obrigado a viver enclausurado em seu pequeno e pobre país, certo?

Não, distinto leitor, não é bem assim. Pessoas influentes que apareçam na lista vermelha da Interpol podem até viajar ao exterior, desde que as autoridades do país de destino garantam que não vão prendê-lo.

Quanto a outros países, não saberia dizer. Mas nosso Brasil, pisando as regras de convivência civilizada entre nações, passa por cima dessas ninharias e acolhe o medalhão procurado pela polícia. Não só acolhe, como lhe reserva um lugar na tribuna de honra ao lado da presidente da República.

Itaquerão, 12 jun° 2014  -  Tribuna de honra Desi Bouterse, mandarim do Suriname

Itaquerão, 12 jun° 2014
Na tribuna de honra, Desi Bouterse, mandarim do Suriname

Na foto acima, tirada quando do jogo de abertura da «Copa das copas», podem-se identificar personalidades cuja presença se justifica: a presidente e o vice-presidente do Brasil, o presidente do Equador, a presidente do Chile, o presidente do Senado Federal, o presidente da Fifa e o da União Europeia de Futebol, o Secretário-Geral da ONU. Gente graúda, de quem se pode gostar ou não, mas que, ao que se saiba, não aparece em lista oficial de bandidos procurados.

No meio de toda essa gente boa, está o senhor Desi Bouterse. Se veio, é porque lhe garantiram que não seria incomodado durante sua estada em terra tupiniquim.

Já se sabe que nosso governo costuma lançar olhar benévolo a criminosos. Arriscar-se, contudo, a permitir que um procurado pela Interpol frequente a tribuna VIP, tome assento a dois metros da presidente da República e seja visto por bilhões de espectadores é temeridade.

Se entendi bem, a «Copa das copas» tinha sido organizada para mostrar ao mundo as grandezas do Brasil, não suas baixezas.

Interligne 18b(*) Pronunciado à holandesa, o nome fica assim: Báuterse.

Escolha infeliz

José Horta Manzano

O escritor Ruy Castro, colunista da Folha de São Paulo, acertou no milhar com seu artigo Solene esnobada, publicado em 23 de junho. Irretocável.

Nestes tempos de “Copa das copas”, todos nós temos tido nossos ouvidos e olhos bombardeados com gritos de goool, patriotadas, análises, janelas embandeiradas, carreatas, trombetas, buzinaços. E continhas de chegar.

Nós outros, expatriados, vivemos imersos em ufanismos múltiplos. As carreatas e os buzinaços não correspondem necessariamente às conquistas daquela que antigamente chamávamos Seleção canarinho. Dependendo do país onde se esteja, as continhas de chegar podem até ir em sentido contrário ao que nos interessaria. É natural. Vivemos na casa dos outros.

Já se disse e redisse, já se pisou e repisou o assunto: a dinheirama que o povo brasileiro ― através de seus representantes, evidentemente ― despejou na organização da Copa e na construção de estádios ma-ra-vi-lho-sos teria sido mais bem utilizada em projetos de educação e saúde.

Assim não foi feito, que é que se há de fazer? O que está feito está feito. Resta fazer das tripas coração. Os bilhões de reais arrancados do povo brasileiro estão, pelo menos, servindo de maxipromoção do País em nível planetário. Será?

Fifa vinhetaComo salientou Ruy Castro, nenhuma das atrações do País tem sido mostrada à plateia brasileira. Querem saber mais? Tampouco os espectadores estrangeiros têm tido direito a conhecer, nem que fosse por alguns segundos, alguma coisa além das “arenas” de padrão Fifa.

A vinheta ― acho linda essa palavra(*) ― tem sua beleza plástica, não há que negar. Falo daquele desenhozinho animado de alguns segundos que nos repetem umas dez vezes por dia. Aquele que sobrevoa uma praia, atravessa uma floresta, mostra uma selva de prédios e termina com um menino com cara de pobrezinho, encarapitado em sua favela, com o olhar maravilhado ao vislumbrar ― bem longe ― um estádio iluminado. Estádio padrão Fifa que ele, pobrezinho, visivelmente não tem condições de frequentar.

Gastar tantos bilhões suados dos brasileiros para reiterar ao mundo a imagem de um país marcado pela desigualdade social? Que escolha infeliz.

Interligne 28a

(*) Vinheta, do francês vignette. No século XII, quando entrou na língua francesa, a palavra fazia alusão à decoração de folhas de vinha com que se ornava o bordo de utensílios de louça.

Culpa da Dilma

José Horta Manzano

A edição online da revista alemã Der Spiegel publicou estes dias um artigo que analisa causas e possíveis consequências da afronta que dona Dilma sofreu quando de sua aparição no Itaquerão, na abertura da “Copa das copas”.

A análise é complexa. Inclui o resultado das últimas sondagens eleitorais, menciona a visita do vice-presidente americano, fala do empate da Seleção com o México.

Extraí o parágrafo que transcrevo abaixo, um bom exemplo da percepção que estamos transmitindo à mídia estrangeira.

Assim que Dilma Rousseff apareceu no telão, um coro obsceno se levantou no estádio Foto DPA - Deutsche Presse-Agentur

Assim que Dilma Rousseff apareceu no telão, um coro obsceno se levantou no estádio
Fonte: Der Spiegel     –     Foto DPA – Deutsche Presse-Agentur

Interligne vertical 12«Rousseff steht seit Monaten in der Kritik. Ihr werden die immensen Kosten der WM angelastet, die nicht erfüllten Versprechen von mehr Sicherheit und besserer Infrastruktur, die lahmende Wirtschaft. Eigentlich alles, was in Brasilien schiefläuft. Es werden schon Witze darüber gemacht: Ein Eigentor? Dilma ist schuld. Reifen platt? Dilma ist schuld. Milch ist aus? Dilma… Wohl nur die Fifa hat derzeit ein schlechteres Image.»

Interligne vertical 12«Faz meses que Rousseff amarga críticas. Dela serão cobrados os imensos custos engendrados pela Copa, as promessas não cumpridas de maior segurança e melhora da infraestrutura, a economia em marcha lenta. Em resumo: tudo o que acontece de errado no Brasil. Estão na moda piadas do tipo: Gol contra? Culpa da Dilma. Pneu furado? Culpa da Dilma. Acabou o leite? Culpa da… Francamente, no momento, só a Fifa tem imagem pior.»

A Copa é uma beleza!

Percival Puggina (*)

MegafoneQuem xingou Dilma no Itaquerão? Fossem sonoros aplausos, a comunicação oficial não teria constrangimento em ressaltar a ruidosa e alegre saudação popular dedicada à presidente. Mas não foram aplausos. Impunha-se, portanto, circunscrever a ação a um pequeno e seleto grupo de privilegiados e encontrar responsáveis.

O ex-presidente Lula, que, prudentemente, não passa nem de avião por sobre os estádios com cuja construção se comprometeu, veio às falas. Ao se manifestar, no dia seguinte, durante um comício do PT em Pernambuco, apelou para o velho truque de emoldurar o fato num quadro simplista: o estádio teria sido capturado por não torcedores, gente cheia de ódio.

Quem estimulou esse ódio? Setores da imprensa. Quais as razões do ódio? Revolta dos ricos contra o crescente bem estar dos pobres. Mas, adiante, sublinhou não haver no estádio ninguém com cara de pobre. “A não ser você, Dilma”. Nenhum “moreninho”. E afirmou que o público era formado pela “parte bonita da sociedade, que comeu a vida inteira”.

by François Matton, desenhista francês

by François Matton, desenhista francês

Ao querer simplificar, Lula complicou e se complicou. É impossível não perceber os preconceitos desse discurso. Para que tal oratória fique de pé, o ex-presidente decide que branco é bonito e moreninho, feio. E que quem sempre comeu se revolta quando todos comem. Por quê?

Faltando os porquês, o discurso cai. Desaba como uma pedra sobre os sapatos Louboutin da presidente com cara de pobre. Lula sempre forçou antagonismos para se posicionar: pobres contra ricos, moreninhos contra branquinhos, olhos claros contra olhos escuros, empregados contra patrões, índios contra civilizados. Ou vice-versa, ao gosto do freguês. Agora, nos apresenta o Brasil dividido, também, entre o Brasil dos bonitos e o Brasil dos feios. Arre, Lula!

DiscursoMas não foi só aí que, por excesso de simplificação, a oratória ex-presidencial despencou a ponto de tornar a fala imprestável para qualquer par de neurônios que lhe desse atenção. Afinal, quem ― sem consultas, sem ouvir a opinião pública, na escuridão do próprio bestunto ― decidiu trazer a Copa de 2014 para o Brasil? Quem cedeu às exigências e padrões da Fifa? Quem multiplicou as sedes e construiu estádios onde sequer existem clubes de futebol? Quem, se não o próprio Lula, criou o cenário para a festa do dia 12, não no histórico Maracanã, não na Capital Federal, mas no estádio do seu Corinthians?

Agora, após o acontecido, ele imagina que o país também se divide entre uma multidão burra e uns poucos inteligentes, entre os quais ele próprio. E fala, novamente, como se nada tivesse a ver com o que acontece no País.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Furou

José Horta Manzano

Ninguém pode contestar: futebol é o esporte mais popular sobre a face da Terra. Compreensivelmente, o campeonato mundial é o evento mais midiatizado do planeta. O fato de ser quadrienal ajuda a botar pimenta: quanto mais raro for o artigo, mais valioso será.

Ser focalizado, nem que seja por um instante, pelas câmeras que transmitem jogos da Copa faz efeito fulminante. Para gente desconhecida, gera um causo pra ser contado pelo resto da vida. Para medalhões, é a confirmação do status, a glória planetária autenticada com carimbo e firma reconhecida.

Astros, dirigentes, esportistas, políticos disputam um lugar no camarote VIP ― ou perto dele ― para ter, quem sabe?, a sorte de ser focalizado. A exposição garante notoriedade instantânea.

É verdade que há pessoas que, por alguma particular razão, preferem não ser filmadas nessas ocasiões. Para evitar vaias, apupos ou xingamentos, por exemplo. Ou, mais prosaicamente, para não serem flagradas num lugar onde não deveriam estar naquele momento.

Interligne 18b

Certos figurões chegam a programar, com antecedência de meses ou até de anos, sua presença nessas vitrines. Foi o caso de nosso guia, que presidia o País quando teve lugar a Copa da África do Sul.

O homem chegou a deslocar-se até o continente africano. Seus servis assessores haviam programado um percurso que incluía ― ora vejam a coincidência ― uma passagem pela República Sul-Africana justamente por ocasião da final da Copa. Seria uma ocasião de ouro para aparecer na tribuna oficial, no jogo final do campeonato, como convidado de honra do chefe do Estado. Exposição mundial garantida.

Acontece que o trajeto do Brasil na competição não foi glorioso. A Seleção curvou-se antes do que se esperava. E nosso guia, que não se contenta com coisa pouca, renunciou à aparição pública. Ficou para a Copa seguinte.

Tribuna VIP

Tribuna VIP

Chegou 2014. Não adianta ficar repetindo aqui o que todos já sabem: nem a atual presidente, nem o anterior, nem ninguém que lembre a existência de um deles consegue passar ileso num estádio. São vaias e apupos garantidos.

Grande deve ser a frustração de nosso guia. Justamente ele, que antevia, na exposição midiática que esta Copa lhe garantiria, o reconhecimento universal, carimbado e autenticado, de sua glória pessoal. Deu no que deu.

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Mas nosso messias não está só: há um outro frustrado. Não sou depositário de segredos de cabeças coroadas, dessarte não posso dar garantia sobre o que vou dizer. Mas pode bem ter-se passado assim.

Primeira consideração:
Entre Copa do Mundo e Eurocopa, a Espanha ganhou todas. Ia de vento em popa. Tudo indicava que chegaria, com facilidade, à final da «Copa das copas».

Felipe VI, da Espanha

Felipe VI, da Espanha

Segunda consideração:
A monarquia espanhola anda bambeando. Repetidos escândalos envolvendo membros da família real ― e o próprio rei ― achacaram os espanhóis. A abdicação do antigo e a assunção de novo rei poderia trazer aquela brisa que desanuvia a atmosfera.

Conclusão:
Por que não juntar o útil ao agradável? Por que não fazer coincidir a sagração do herdeiro com o triunfo da seleção espanhola na Copa? Imaginem que maravilhoso seria se o mundo inteiro visse a aparição do sorridente casal real na tribuna de honra do Maracanã a acenar para a plebe no momento da vitória esportiva de seu país?

Esse cenário não me parece fantasioso. Por mim, foi assim que aconteceu ― aposto minhas fichas. De toda maneira, não saberemos jamais. O que sabemos, isso sim, é que, asseguradamente, o casal real não estará presente à cerimônia de entrega da taça. Furou.

Falando em entrega de troféu, Vladimir Putin já anunciou que estará presente à final da Copa. Quem é que lhe vai fazer companhia? Algum mandarim da Fifa?

O raio vívido

José Horta Manzano

Quando escrevi ontem sobre o hino nacional truncado, já tinha o pressentimento de que nossos preclaros dirigentes não houvessem pensado em exigir da Fifa a execução integral da peça. Escrevi para esconjurar, mas era mais desabafo que esperança.

Optimista incorrigível, continuo achando que não precisa procurar muito para encontrar o lado bom de cada acontecimento. Estancado o hino na altura do salve, salve, o povo não se abalou: jogadores, pessoal técnico, cartolas e ― principalmente ― a multidão de espectadores continuou impávida a louvar o sonho intenso e o raio vívido.

Eu assistia à transmissão pela televisão francesa. O comentador, abismado com o estádio cantando a cappella, qualificou a cena de sublime. Deu pra lavar a alma dos ofendidos e pra despejar a água suja por cima dos arrogantes dirigentes da Fifa.

O jogo foi o que foi, assim-assim, meio chinfrim. Todas as resenhas esportivas que consultei foram unânimes em afirmar que o juiz errou feio quando decretou penalidade máxima indevidamente.

Bandeira sorrindoMas tem uma coisa de que os estrangeiros não se deram conta. Numa certa altura, lá pelo fim do jogo, um coro se alevantou do estádio e escandiu repetidamente uma frase de oito sílabas. A grita foi ganhando corpo, como um grito de guerra insistente. Prestei atenção. Não foi difícil me dar conta de que, se grito de guerra era, não se dirigia aos jogadores.

Como outros milhões de brasileiros, ouvi nitidamente uma frase pra lá de ofensiva visando dona Dilma, com aquelas palavras que a gente costuma evitar dirigir a senhoras de fino trato. Seu entourage havia imaginado que, abolindo o discurso, poria a dirigente a salvo de vaias. Conseguiu o intuito, que vaias não houve. Mas quem havia de prever um concerto coral de impropérios, concertado, ritmado e global?

Pobre presidente, que vexame! O padrinho dela, que é arroz de festa mas não é bobo, preferiu nem aparecer. Enfim, se o povo lançou aquele ultraje, por algo será, como dizem os espanhóis. Devem ter lá suas razões.

Para resumir: o espetáculo maior da partida não foi obra dos atores, mas da plateia. O sonho intenso pressentido no Hino Nacional parece cada dia mais perto de se realizar. Basta que um raio vívido ilumine os eleitores em outubro.

O melhor da Copa

José Horta Manzano

Cada um enxerga a Copa com seus próprios olhos. Para um jogador de futebol em começo de carreira, pode ser a vitrine que o vai propulsar ao estrelato mundial. Para um técnico profissional, pode significar a abertura de interessantes oportunidades. Para autoridades nacionais, pode servir de trampolim para angariar simpatia e votos. Para empresários corruptos, é o momento de contar e recontar a fortuna amealhada nas costas dos bobões habituais.

Para indiferentes ― que os há, acredite! ― é hora de tirar uns dias de férias e desaparecer do mundo dos mortais. Para torcedores, é um momento de emoção, de alegrias, de tristezas. E no final ― quem sabe? ― pode até chegar a hora de gozar a alegria suprema de ver a esquadra nacional subir ao degrau mais alto do pódio. A todos, é permitido sonhar.

Como não sou jogador, nem selecionador, nem autoridade, nem empresário corrupto, não lanço à Copa olhar profissional. Aprecio o esporte em si. Gosto muito daquele balé colorido e imprevisível em que a partitura é inventada e reinventada a cada instante.

Um dos atrativos maiores do futebol é justamente essa incerteza quanto ao resultado. Em outros esportes, o melhor costuma vencer. É raro que, em atletismo, o mais rápido ou o mais ágil deixe de levar a medalha. No futebol, não é assim. Já vi a Itália perder para a Coreia do Norte. Aconteceu na Copa de 1966. O resultado deixou trauma que, passado meio século, ainda não se dissipou.

Há momentos mágicos em que um jogador manda a bola por cima de meia dúzia de adversários para aterrissar aos pés de um companheiro que, por sua vez, dá sequência à coreografia. Sejam quais forem os times em campo, o espetáculo é sempre bonito. Se houver emoção, melhor ainda.

Homem com a mão no coração (detalhe) by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Homem com a mão no coração (detalhe)
by Frans Hals, pintor flamengo, séc. XVI

Mas há um momento, nesses jogos internacionais, que ― para mim ― paira acima de todos: é a hora do hino. O nosso é fabuloso. Se hino bonito ganhasse Copa, o nosso teria mais estrelas que a Marselhesa. O nosso é de escutar em pé, mão do coração, nó na garganta.

Recortei e guardo até hoje um artigo que o jornal londrino Guardian publicou doze anos atrás, por ocasião da Copa de 2002. O autor faz esfuziantes elogios ao hino brasileiro dizendo que é o mais gentil, o mais alegre, o mais melodioso, o mais envolvente. Parece escapado de uma ópera de Rossini. Chega a dizer que nosso hino é um dos grandes presentes que o Brasil deu à felicidade humana. É mole?

Parece que a Fifa impõe que a execução do hino de cada país não exceda um minuto e meio. Muitos cabem nessa exigência. O nosso, não. O resultado é que nosso cântico nacional costuma ser truncado, sustado na metade, deixando os jogadores com cara de bobos e o público com um gosto de quero mais.

Hino BrasilEntendo que regra é regra. Leis não são feitas para serem discutidas, mas para serem cumpridas. Mas, convenhamos, nossos (sempre) distraídos congressistas, aqueles que assinaram sem ler a Lei Geral da Copa, deviam ter pensado nesse detalhe.

Posso até entender que se desviem alguns bilhões do dinheiro brasileiro para construir estádios monumentais, mas tenho dificuldade em aceitar que um de nossos símbolos nacionais mais fortes seja desfigurado diante de bilhões de terráqueos.

Os bilhões de dólares, com «arenas» ou sem elas, com «Copa das copas» ou sem ela, seriam desviados de qualquer maneira. Mas truncar o hino, ah, está aí um crime facilmente evitável.

No momento em que escrevo, faltam ainda algumas horas para a abertura do campeonato. Quem sabe uma luz terá baixado nos organizadores? Quem sabe nos deliciaremos com a execução integral da primeira parte do hino?

O futebol é esporte que sempre reserva alguma surpresa. Vamos torcer. Esperemos que seja executado sete vezes. Por inteiro.

Vai ter copa

José Horta Manzano

Anda mal das pernas a imagem de seriedade das instâncias dirigentes do futebol mundial. João Havelange, que foi presidente da Fifa durante um quarto de século, foi discretamente despachado ao ostracismo já faz alguns anos. Um nome a esquecer.

Ricardo Teixeira, que dirigiu a Confederação Brasileira de Futebol durante 23 anos ― por sinal, aparentado com o figurão nomeado mais acima ― foi corrido de seu pedestal a toque de caixa sob acusação de roubo e corrupção da pesada.

2010: Blatter e um figurão catari

2010: Blatter e um figurão catari

Sepp Blatter, atual número um da Fifa, é olhado com desconfiança, embora nenhum caso escabroso tenha vindo a público. Por enquanto.

Talvez no intuito estratégico de adiantar-se às más línguas, Herr Blatter andou declarando, faz algumas semanas, que a designação do Emirado do Catar como sede do Campeonato Mundial de Futebol de 2022 foi um erro.

Erro? Em que sentido? Se a escolha daquela minúscula tripinha de areia desértica foi decidida pelo voto dos delegados de todos os países-membros, onde está o erro? Será que, como se costuma dizer dos eleitores brasileiros, os membros da Fifa também não sabem votar? Coisa mais esquisita.

Ao se dar conta de que seu pronunciamento havia caído mal, Herr Blatter foi mais além e desvelou o fundo de seu pensamento: o voto havia sido um jogo de cartas marcadas. Os donos do Catar ― sim, aqueles miniestados têm dono! ― haviam cooptado delegados mais dóceis e melado a decisão. Pegou mal pra burro.

A denúncia de malfeitos vários envolvendo nossa «Copa das copas» ― superfaturamento, desorganização, atraso, bagunça, descaso, roubo, desleixo, trapaça ― não podem ser atribuídos automaticamente à Fifa. No entanto, é inegável que a instância máxima do futebol mundial sai respingada. No mínimo, aparece na foto como conivente, se não como cúmplice.

A série de acusações continua. O episódio mais recente nos vem pela imprensa britânica deste domingo 1° de junho. Entre outros, o Sunday Times, o Guardian e o Independent trazem artigos acachapantes sobre denúncias de propinas pagas pelo Catar com o objetivo de vencer a disputa pela atribuição da Copa de 2022.

2010: Atribuição ao Catar do direito de sediar a Copa 2022

2010: Atribuição ao Catar do direito de sediar a Copa 2022

Havelange, Teixeira, Blatter e a «Copa das copas» já causaram estrago considerável à reputação da Fifa. A instituição não sobreviveria à avalanche de denúncias que se anuncia. Daqui até a Copa do Catar ainda faltam 8 anos! O mais provável ― e o mais acertado ― é que a escolha do emirado seja impugnada e que se vote de novo. Não vejo outra maneira de evitar o desaparecimento da Fifa. Se o presidente da entidade declarou que um erro foi cometido, a única saída é corrigi-lo enquanto é tempo.

Quanto à nossa «Copa das copas», infelizmente é tarde demais para enjeitá-la. Sinto muito pelos black blocs, mas… vai ter copa. Sim, senhor.

Quero meu país de volta!

José Horta Manzano

Lei da Copa 3Nossos ingênuos e distraídos dirigentes se deixaram ludibriar mais uma vez. As excelências de nosso parlamento, ao aprovar a Lei Geral da Copa, fizeram como costumam fazer os figurões deste país: assinaram sem ler.

Um alto dirigente partidário, hoje inquilino da Papuda, já tinha avalizado empréstimo sem ler o contrato. Uma antiga ministra de Minas e Energia, hoje inquilina do Planalto, já tinha assinado compra de refinaria sem ler o contrato.

Agora nos damos conta de que nossos parlamentares também votaram uma lei de 114 artigos distribuídos por 152 páginas sem ao menos pedir um resumo, uma sinopse especial para quem tem preguiça de ler. Tivessem tido o cuidado de ler antes de assinar, muitas cláusulas teriam sido contestadas. Ou não.

A Secção I do Capítulo II (Da proteção e exploração de direitos comerciais) da Lei Geral da Copa configura um verdadeiro confisco do sistema de registro de patentes brasileiro. As cláusulas desses artigos botam o INPI para escanteio e instituem a Fifa em seu lugar. A metáfora futebolística cai bem aqui: é como se o jogador titular (o INPI) saísse de campo, e um reserva (a Fifa) tomasse seu lugar. É por tempo limitado, mas o substituto assume plenos poderes ― joga como quer.

A Lei Geral impôs ao INPI que desse tratamento especial às demandas da Fifa, que tratasse seus registros com maior celeridade que o habitual, que reconhecesse de antemão que certas marcas «de alto renome» pertencem à Fifa sem contestação possível.

Copa 14 logo 2Ficamos sabendo agora que, entre duas centenas de expressões de uso corriqueiro, as marcas Brasil 2014, Natal 2014 e Pagode tornaram-se propriedade da Fifa. Portanto, não podem mais ser utilizadas comercialmente por ninguém até o fim do ano 2014. Em países civilizados, nomes geográficos, por razões óbvias, não podem ser registrados. Nomes de festas religiosas ou pagãs, tampouco. É desvario total conceder o registro do nome de nosso país a uma entidade privada, por mais importante que ela seja. A expressão Brasil ― 1500, 1822, 2014 ou seja que ano for ― é propriedade do povo brasileiro. A impossibilidade de registro comercial deveria ser ponto pacífico.

Nossos dirigentes permitiram que vendêssemos nosso próprio nome! Parece pesadelo! Em matéria de privatização, se excederam e ousaram atacar o mais sagrado. Não está longe o dia em que teremos de pedir licença à Fifa para entrar em casa.

Interligne 18c

PS: Alguém consegue imaginar algum país civilizado cedendo os direitos sobre seu próprio nome à… Fifa? Pois é.

Frase do dia — 134

«Segundo o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, os torcedores ingleses podem vir tranquilos para a Copa da Fifa. Não haverá ― garantiu ― perigo maior que o enfrentado pelos soldados britânicos no Iraque. Faltou explicar se os torcedores deverão vir armados, como os militares enviados à guerra.»

Rolf Kuntz, jornalista, em sua coluna do Estadão, 10 maio 2014.

Palpite infeliz

José Horta Manzano

A coroa do rei não é de ouro nem de prata

A coroa do rei
não é de ouro nem de prata

Todo Noticias, site informativo do grupo argentino Clarín, classificou de «desafortunado» o comentário feito por Pelé sobre a morte acidental de um operário, dez dias atrás, nas obras do estádio Itaquerão.

O acidente foi gravíssimo e causou perda de uma vida. Apesar disso, Pelé minimizou o acontecido dizendo que «são coisas da vida, nada que assuste». E concluiu dizendo que importante mesmo é a infraestrutura e os aeroportos.

O site atribui o infeliz pronunciamento do «rei» à pressão que ele vem sofrendo por parte da Fifa e do governo do Brasil.

Como já dizia, anos atrás, conhecido futebolista carioca: «O Pelé, de boca fechada, é um poeta».

Pior do que se imaginava

José Horta Manzano

A aproximação da «Copa das copas» vai girando os holofotes em direção a nosso país. Artigos, comentários, reportagens, emissões de rádio e de tevê vão pipocando aqui e ali.

Diferentemente do que imaginavam nossos ingênuos e inexperientes figurões quando «conseguiram convencer» a Fifa a atribuir ao Brasil a realização da copa, o que menos chama a atenção dos estrangeiros são os estádios. De «arenas», o mundo está cheio. Disseminado desde o tempo dos romanos, esse tipo de construção já não deixa mais ninguém estupefacto.

Jornalistas, em princípio, são bisbilhoteiros. Fogem de lugares-comuns e partem à cata do que está por detrás do cenário. No Brasil, não precisa ir muito longe. A decepção mora ao lado.

Duas jornalistas belgas vieram ao «país do futebol» para fazer uma radiografia detalhada. Passaram 5 meses em solo tupiniquim. O resultado, que está começando a ser publicado agora, não traz a imagem cintilante com que nossos medalhões sonhavam.

A edição online do jornal L’Avenir (de Namur, Bélgica) mostra um esboço do que será o trabalho final. Cito, a seguir, alguns trechos do artigo.Copa 14 logo 2

Interligne vertical 11a«Naquele país paradoxal, em pleno crescimento econômico, mas que carrega o peso de grandes desigualdades sociais e de extrema pobreza, a grande festa está sendo preparada, mas a cólera cresce e ameaça.»

«Em junho passado, milhões de brasileiros berraram seu descontentamento nas ruas do país inteiro com o slogan “Copa para quem?”»

«Fortaleza se caracteriza pelo turismo sexual, por milhares de crianças de rua e pelas favelas. Uma realidade negra, que não corresponde à imagem que o Brasil quer vender à mídia internacional.»

«O Brasil aproveita a copa para limpar as cidades, mas sem dar solução aos problemas. A miséria é simplesmente afastada.»

«Vimos coisas que, aqui na Europa, ninguém pode imaginar. Uma das piores imagens foi a de uma menina de 10 anos, magrelinha e completamente drogada, que se prostituía.»

Prefiro parar por aqui. Se alguém quiser ler o original em francês, que clique aqui.

O respeito que um país inspira não provém da excelência de seus estádios, mas do grau de civilização de seu povo.