Business as usual

José Horta Manzano

Interligne vertical 12«The disclosure that France is a target for US electronic espionage is about as much of a revelation as the news that restaurants in Paris are better than those in Washington.»

«A notícia que a França é alvo da espionagem eletrônica americana é tão surpreendente quanto o fato de haver melhores restaurantes em Paris do que em Washington.»

David Blair, antigo editor do caderno de Diplomacia do diário The Telegraph (Londres). Em 21 out° 2013.

Uma coisa ainda não está clara para mim. Por que será que as revelações do senhor Snowden, antigo empregado de uma empresa que presta serviços à agência americana de inteligência, vêm sendo liberadas em doses homeopáticas? Quem estará retendo o fluxo e liberando um bocadinho de cada vez?

Segredo

Segredo

Há uma razão para tudo. A nenhum governo interessa prolongar esse assunto, nem aos espiões, nem aos espionados. Nenhum grande empresário tampouco estará interessado em fazer suspense antes de deixar o mundo saber que seus negócios foram espionados. Pega mal pra todos. Então, quem será?

Não imagino que, em seu retiro russo, o funcionário indiscreto disponha de uma conexão de alta velocidade à internet que lhe permita continuar a destilar livremente seus guardados, sem supervisão da feroz censura local. Além do que, a condição que lhe foi imposta pelos russos para concessão de asilo temporário foi justamente a de não causar mais danos ao governo americano. Não interessa a Moscou acirrar tensões com Washington. Tirando espionandos e espionados, sobram os jornalistas. É uma boa pista.

Talvez algum leitor também se lembre do fenomenal atleta ucraniano Serguêi Bubka. Foi aquele que, entre 1983 e 1997, bateu 35 vezes o recorde mundial de salto com vara. A explicação veio mais tarde. Quando um atleta batia uma marca mundial, recebia um prêmio em dinheiro. Já desde o começo de carreira, Bubka sabia que podia superar os 6 metros de altura. No entanto, não o fez. Pelo menos, não logo de cara, de uma tacada só. Foi aos pouquinhos, centímetro por centímetro. Daí ter conseguido, a cada novo campeonato, bater o recorde que ele mesmo havia cravado meses antes. E a cada vez, naturalmente, embolsou o prêmio especial pela nova façanha.

Fico aqui a conjecturar se jornalistas não estariam agindo da mesma maneira. É possível que, em matéria de espionagem entre Estados, disponham de importante massa de informações e as estejam destilando gota a gota. Não é ilegal e, ainda por cima, faz vender jornal. Que queremos mais?

Segredo?

Segredo?

Mas há o reverso da medalha. Tudo o que é demais cansa, já diziam os antigos. Passado o primeiro momento de estupor ― sincero ou teatral, pouco importa ―, os ânimos vão-se acalmando. Da indignação, passa-se à derrisão. Alguns jornalistas já atingiram essa fase.

David Blair, jornalista do inglês The Telegraph, citado no cabeçalho deste artigo, é um deles. Seu texto apareceu no jornal londrino e foi reproduzido pelo francês Courrier International.

O caderno de Opinião do Los Angeles Times, por seu lado, publicou artigo de Paul Whitefield, que vai pelo mesmo caminho. O escrito foi retomado na França.

De irônico, o tom está-se tornando sarcástico. A polêmica vai logo se extinguir. Não interessa a muita gente espichá-la.

A cooperação bilateral e os sapos

José Horta Manzano

Francamente, a confrontação não é o traço de caráter mais marcante de Lula da Silva. O homem é mais propenso a arreglos, conversas de corredor, negociações, acertos. Dizem que o fruto nunca cai muito longe da árvore. Será?

Sapo

Sapo

Imaginava-se que dona Dilma, filha política do Lula ― e não muié do hômi, como pensam alguns ― seguisse o exemplo do pai e padrinho. Não é o que se tem visto. Toda família tem sua ovelha negra, é verdade, mas a atual chefe do Executivo exagerou no contraste com relação a seu criador. Mais que negra, a ovelha saiu retinta.

Onde o Lula ― às vezes com certa ingenuidade ― procurava apaziguar e pôr panos quentes, dona Dilma não só prefere o enfrentamento, como ainda pisa com força. Tomemos o recente e atualíssimo caso dos segredos da agência americana de inteligência, bradados aos quatro ventos pelo trânsfuga Snowden.

A propósito, diga-se que, passados os quinze minutos de glória a que aspirava, o indiscreto funcionário periga ser esquecido nas estepes russas. Ele já disse o que tinha que dizer. Continuar a bater na mesma tecla, no fundo, não interessa a nenhuma das partes envolvidas, nem a espiões, nem a espionados. Insistir no assunto só pode aumentar o constrangimento de todos. Quanto ao funcionário indiscreto, fica a impressão de que, se arrependimento matasse, ele já estaria sob sete palmos de terra.

Voltando a dona Dilma, o fato de saber-se espionada, intolerável para sua autoestima, despertou seu caráter belicoso. É sempre arriscado imaginar qual teria sido a reação do Planalto se o presidente fosse outro. Mas é permitido acreditar que, caso o escândalo tivesse estourado durante o governo do Lula, ele teria refreado todo ímpeto de revide e teria procurado tirar o melhor proveito da situação. É seu feitio.

Já dona Dilma optou por arremessar o brinquedo ao chão e pisoteá-lo. Arreganhou os dentes, mostrou as garras, foi manchete nos jornais brasileiros durante dias, virou nota de rodapé até na mídia estrangeira. Mas, no frigir dos ovos, terá ganhado alguma coisa, terá auferido alguma vantagem? A pergunta fica no ar, mas receio que o resultado da agitação tenha sido nulo. Tudo continua como antes.

Estes dias, o jornal francês Le Monde noticiou, numa série de reportagens baseadas nas revelações do senhor Snowden, que membros do governo francês também estavam sendo monitorados pela inteligência americana. Não só homens políticos, mas também indústrias estratégicas. Qual está sendo a reação de Paris?

Sapo

Sapo

Durante três dias, Monsieur Hollande mostrou indignação, como manda o protocolo. Passada a tempestade, o presidente francês lembrou-se do sábio adágio segundo o qual, quando não se tem força para combater o leão, o melhor é aliar-se a ele.

O próprio Le Monde nos dá a informação ― repercutida pelo correspondente do Estadão ― de que Paris propõe aos serviços secretos americanos colaborar com a inteligência francesa. Coopération bilatérale é o que sugere o presidente, expressão que dispensa tradução. Surpreendente? Nem tanto.

Por um lado, Hollande mostra ao mundo que seu país não se compraz no papel de ator secundário na cena universal. Tem serviços de espionagem e contraespionagem, como todo Estado zeloso de sua importância. Foi mais esperto que nosso Planalto que, com sua tragicômica e exagerada indignação, deixou patente que não dispunha de meios para se defender. Por outro lado, Paris entendeu que juntar suas forças às do adversário é uma boa maneira de enquadrá-lo e de se inteirar de seus métodos.

Mostrar muque, afrontar, desafiar, fazer beicinho, comportar-se à moda do finado Chávez pode impressionar o distinto público interno, mas é sem efeito para resolver problemas externos. Talvez dona Dilma e seus ínclitos assessores consigam um dia entender esta verdade basilar: na política, às vezes, precisa engolir sapos sem fazer cara feia.

Não tenho muita fé, mas… a esperança é a última que morre.

O segredo é a alma do negócio

José Horta Manzano

Nosso governo insiste em provar seu amadorismo. Faz questão de que o mundo saiba que o Brasil ― o mesmo Brasil que pretende fazer parte do primeiro escalão das nações ― não dispõe de serviços de inteligência. O raciocínio dos que nos governam é simples, quase simplório: não temos inimigos, portanto, a quem interessaria espionar-nos?

Espionagem by Cam - Ottawa Citizen

Espionagem
by Cam – Ottawa Citizen

Segundo essa filosofia de boteco, ou «cês tá com nóis» ou «cês tá contra nóis». É certo que não estamos em guerra (militar) contra ninguém, daí a dedução lógica: «eles tá tudo com nóis». E pronto. Pra que gastar dinheiro com proteção de dados? Mais vale utilizar melhor as verbas que escaparem do roubo e da corrupção. Que sejam investidas para angariar votos e para garantir o pirão aos comensais de sempre.

Com o devido estardalhaço, dona Dilma anunciou neste domingo a implantação de um sistema nacional de email criptografado. Com isso ― acredita ela ― as autoridades estarão a salvo de toda espionagem. Duas perguntas ficam no ar.

A primeira: por que razão o governo esperou que a porta fosse arrombada para só então pensar em botar tranca? A segunda: que é que faz crer aos luminares do Planalto que os novos sistemas garantirão a inviolabilidade das mensagens?

Vasques 1

Espionagem
by Edgar Vasques, desenhista gaúcho

O fato de não se terem prevenido contra espionagem reafirma ― se necessário fosse ― o despreparo de um governo cujo objetivo único é a conservação do poder. Dado que o empenho em autofortalecer-se preenche todos os minutos dos dirigentes, é compreensível que não lhes sobre tempo para cuidar do funcionamento do País, ocupação para a qual foram escolhidos. O salário que lhes pagamos é justamente destinado a sustentar uma equipe que zele pelo País. Assim deveria ser, pelo menos.

Quanto à crença de que um sistema de criptografia seja suficiente para proteger segredos oficiais, devo concluir que bom-senso e um pouquinho de cultura histórica andam fazendo uma falta danada aos que ocupam os mais altos postos de nossa hierarquia política. Se dona Dilma se tivesse interessado em saber o que já foi tentado no campo da dissimulação de mensagens ― desde o tempo dos pombos-correio até hoje ― seus pronunciamentos seriam menos bombásticos e mais humildes. Melhor até que nem se pronunciasse.

Enigma ― máquina de criptografar

Enigma ― máquina de criptografar

No começo dos anos 20, matemáticos alemães desenvolveram uma máquina eletromecânica, a superfamosa Enigma, destinada a encriptar comunicações. Uma versão reforçada foi preparada, sob encomenda do governo nazista, especificamente para comunicações militares. A criptagem da Enigma era reputada inviolável.

Pois hoje sabemos que um trio de matemáticos poloneses conseguiu quebrar o código da máquina alemã. E fizeram isso já antes de a Segunda Guerra estourar! Assim, graças àqueles pré-históricos hackers, os britânicos já tinham sido informados com antecedência sobre o ataque «de surpresa» que a Alemanha desferiria à Polônia, dando início à guerra mundial. Naturalmente, todos aparentaram surpresa, de modo a deixar que os alemães acreditassem que suas mensagens continuavam indevassadas.

Códigos, cifragens, criptogramas são feitos para serem quebrados. Todo Estado dotado de serviços de inteligência sabe disso.

Desapaixonadamente

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 12 out° 2013

Nada é totalmente preto, nada é totalmente branco ― in medio stat virtus. A virtude está tão distante de um extremo quanto do outro.

De uns tempos para cá, nosso país tem vivido momentos excepcionais. Não dispomos ainda de recuo suficiente para analisar o impacto desse tropel. Nem bem deu tempo de curtir a ressaca de um episódio tenebroso, e já somos abalroados por nova batelada de assombros. Não passa um dia sem que as manchetes nos pasmem com uma saraivada de notícias inacreditáveis.

Tirando os beneficiários diretos de cada escândalo e aqueles que, por alienação ou ignorância, vão levando sua vidinha à margem da sociedade, pouca gente tem-se alegrado com os recentes sucedidos. Não há muito que festejar. A tentação é forte de achar que o período é de trevas e que o fim do mundo está ali na esquina.

Mas não é bom caminho. Pode dar desânimo ou até úlcera. Há que ter em mente que nada é inteiramente negativo nem totalmente positivo. Vamos dar uma espiadela nas comoções nacionais mais recentes e lançar sobre elas um olhar menos apaixonado.

Houve o caso do deputado que reside atualmente numa prisão. Pois é, aquele a cujos pares coube decidir, em voto secreto, se merecia conservar o mandato. Numa cena patética, o eleito da nação chegou algemado à Câmara. O país se decepcionou ― com razão ― com o resultado do voto. O mandato foi salvo, mas a grita popular abriu as portas para a abolição dessa estranha prática que oculta deputados atrás do anonimato. Foi o lado bom da história.

Houve o caso da prisão do diretor de um presídio baiano terceirizado. Segundo noticiou a imprensa, sua cadeia tinha-se tornado uma casa de mãe joana. Ali podiam entrar celulares e drogas, desde que a taxa cabida fosse paga à diretoria. Escândalo? Sem dúvida. Mas foi também um alerta. Mostrou que talvez não seja boa ideia confiar presídios à iniciativa privada. Foi o lado bom da história.

Houve casos de figurões de alto coturno ― deputado, senador, ministro ― flagrados em voos da alegria. Os pretextos eram pitorescos: um jogo de futebol, uma festa de casamento, um passeio familiar em Cuba. Desfaçatez? Sem dúvida. Mas é certeza que a divulgação vai refrear outras excelências que se sentissem tentadas a seguir o exemplo. Foi o lado bom da história.

Bandeira Brasil rasgada 2

Houve o caso da descoberta da espionagem americana. Todos sabem que, desde a esposa que remexe nos bolsos do marido até Estados e grandes empresas, todos espionam todos. Só não faz quem não tem como fazer. O escândalo foi apregoado a todos os ventos, mormente porque nossa voluntariosa presidente se sentiu pessoalmente visada. Rendeu até discurso na ONU, protocolarmente aplaudido pela plateia. Um horror? Uma traição? Sem dúvida. Mas o aviso terá servido para que nossos dirigentes ― que almejam elevar o País ao patamar dos primeiros da classe ― deixem de lado a ingenuidade e se apliquem em instaurar serviços eficientes de contraespionagem. Quem quer, faz. Quem não quer pede à ONU que controle a internet. Foi o lado bom da história.

Houve o caso das vaias na abertura da copinha, que abriram a porteira para vigorosas manifestações de protesto. Colhidos de surpresa, dirigentes e eleitos de todos os quadrantes se sobressaltaram. Afinal, fazia tanto tempo que o povo, apático, dormitava! Foi uma bagunça? Foi. Deu medo? Ô, se deu! Mas foi sinal tangível de que o povo está despertando de sua letargia. A circulação instantânea da informação anda estreando um Brasil novo. Que será, esperamos todos, melhor do que o antigo. Foi o lado bom da história.

Finalmente, houve o caso do mensalão. Ah, esse mensalão! Em cartaz há 8 anos, tem dado pano pra mangas. E parece que ainda está longe de terminar. Um escândalo e tanto! No entanto, assim como toda moeda tem duas faces, esse sucedido também tem dois flancos ― um medonho e um consolador. O lado sombrio já foi repisado ad nauseam. Não vale a pena aplicar mais uma demão.

Mas que ninguém se apoquente. Se vem polarizando as atenções da nação há anos, esse escândalo não ultrapassou nossas fronteiras. Na Europa, não mereceu da mídia nem nota de rodapé. As aparências estão salvas. Alegremo-nos!

No plano interno, assim que a poeira baixar e as paixões se arrefecerem, havemos de nos dar conta de que, no fundo, muita coisa boa terá ficado. Pouco importa que este ou aquele condenado seja preso em regime fechado, aberto ou semicerrado. O que importa é que foi aberta uma brecha na impunidade tradicional. E isso vai coibir futuras veleidades de transgressão que pudessem germinar no andar de cima. Alvíssaras!

Frase do dia — 32

«O Corinthians e o governo brasileiro puderam, enfim, comemorar pelo menos uma vitória na primeira semana de outubro. O Itamaraty conseguiu a adesão da Chancelaria cazaque à campanha pela regulamentação da espionagem.»

Rolf Kuntz, jornalista, in Estadão de 5 out° 2013

O enxofre e as sapatadas

José Horta Manzano

Se pudesse falar, aquela parede revestida de granito verde que serve de pano de fundo para discursos na sede da ONU em Nova York teria muitas histórias para contar.

No dia 12 de outubro de 1960, um irritado Kruchev, primeiro-secretário do Partido Comunista da União Soviética, subiu àquela tribuna para exprimir sua indignação. E fez isso de forma pouco ortodoxa mas assaz eloquente. Aos berros, brandiu um de seus sapatos e desferiu com ele violentos golpes sobre o púlpito. Passados mais de 50 anos, a foto da cena, captada por um sortudo profissional, ainda percorre a internet.

Nikita Kruchev 12 out° 1960

Nikita Kruchev
12 out° 1960

Outro momento burlesco, que fugiu à sucessão habitual de modorrentos discursos, aconteceu poucos anos atrás, em 20 de setembro de 2006. Foi quando o imortal companheiro bolivariano Chávez, ao se exprimir logo após o presidente americano, soltou sua memorável tirada: «¡Huele a azufre!». Quis com isso dizer que, após a passagem do diabo ― o presidente Bush ―, ainda pairava no ar um cheiro de enxofre.

O discurso que dona Dilma pronunciou no mesmo lugar nesta terça-feira repercutiu nos jornais online. Recebeu qualificativos tais como contundente, duro, incisivo. Mas a ressonância não foi muito mais longe. Com a notável exceção do Diário de Notícias português desta quarta-feira, a edição impressa dos principais jornais europeus não dá à fala da presidente do Brasil a importância esperada pela equipe que alinhavou os argumentos. Estamos a anos-luz do cheiro de enxofre e das sapatadas.

Se o discurso chamou a atenção, foi porque foge aos cânones. Não é todos os dias que o dirigente maior de algum país sobe à tribuna da ONU para confessar ao mundo que não dispõe de meios para lutar contra a bisbilhotagem alheia. E que, assim sendo, exige que parem de xeretar. O primeiro reflexo dos ouvintes foi de perplexidade. Mas ninguém se preocupa com as pequenas mazelas alheias. O espanto logo passou.

Como eu dizia ontem, a página foi virada. Os EUA não desmontarão seu programa de espionagem planetária. Para suas comunicações, o Brasil vai continuar morando de aluguel em canais estrangeiros durante muitos e muitos anos. Como não me parece cabível que os assessores de nossa presidente não se deem conta dessa realidade, só me resta concluir que a fala de ontem foi mera mise-en-scène dirigida ao distinto público interno. Uma fúria midiática, marqueteira e… malandra.

Dilma & Obama ― 24 out° 2013 by Amarildo Lima

Dilma & Obama ― 24 set° 2013
by Amarildo Lima

Na Europa, ninguém deu maior importância ao que disse dona Dilma. O noticiário radiofônico e os jornais impressos destacam hoje os habituais problemas internos de cada país. No campo internacional, dois acontecimentos importantes fazem as manchetes: o atentado perpetrado por maometanos radicais num centro comercial queniano e as nuvens negras que dão sinais de querer dissipar-se sobre os céus de Teerã.

Esta última, sim, é novidade positiva, daquelas que trazem esperança e dão ânimo. Quem não gosta de notícia boa?

Frase do dia ― 30

«(…) o Brasil é a única nação de seu tamanho e status que não dispõe de um serviço sofisticado de contraespionagem ou de coleta e interpretação de informações sigilosas fora de suas fronteiras.

A atitude nacional no assunto é tão relaxada que, como admitiu o próprio ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, informações sigilosas são trocadas entre funcionários do governo não em redes intranet seguras, mas via Gmail e outros provedores de internet vulneráveis não só aos serviços de espionagem de países que levam o assunto a sério, mas a qualquer hacker de fundo de quintal.»

Paulo Sotero, jornalista, in Estadão de 18 set° 2013

O desaforo inútil

José Horta Manzano

A diversidade humana é fascinante. O que um tem sobrando pode faltar a um outro. Por sua vez, este outro pode esbanjar alguma característica que escasseia no primeiro. Assim caminha a humanidade, é salutar.

O que pode causar algum problema é o excesso. Nenhum descomedimento é bom. Pode provocar encontrões com a família, com os colegas, com os amigos. Quando o indivíduo excessivo exerce função de mando, os transtornos serão mais amplos. Quando o posto de mando é o mais importante do país, decisões impulsivas e exageradas podem acarretar resultados calamitosos para a nação inteira. Quem ocupa posição elevada deve pensar duas vezes antes de agir.

Característica marcante de nosso antigo presidente era seu espírito exageradamente maleável e conciliador. Para aumentar seu rebanho, por exemplo, não hesitava em lançar mão de expedientes, digamos assim, pouco convencionais. Manobras de bastidores, cooptação, distribuição de benesses, atribuição de sinecuras, criação de ministérios sob medida para acomodar mais ovelhas, afagos em adversários, todos os meios, fossem eles quais fossem, justificavam o almejado fim.

No afã de fazer-se bem querer por todos, nosso messias chegou a extremos e navegou por mares traiçoeiros, nunca dantes navegados nessepaís. Chamou para junto de si um acadêmico que vivia nos EUA ― justamente aquele que havia escrito que o governo do Lula era o mais corrupto que jamais houvera no Brasil. Fez as pazes com José Sarney, inimigo de 30 anos, e ainda ensinou a todos que o novo companheiro, por não ser pessoa comum, merecia tratamento especial. Curvou-se aos caprichos de Paulo Maluf e não se envergonhou de ir até a casa do tradicional adversário para suplicar apoio eleitoral. Mas esses eram assuntos internos, que não transpunham as fronteiras do País. Não fosse a orientação ideológica que arruinou sua diplomacia, poderia até ter legado ao mundo a imagem de um Brasil civilizado e confiável. Fica para uma próxima vez.

Já nossa atual presidente… ah, nossa atual presidente! São outros quinhentos. O que o Lula tinha de sobra, falta a dona Dilma. A diferença entre o criador e a criatura é tão gritante que a gente fica a cismar que bicho terá mordido nosso messias no dia em que resolveu, com um dedazo, designar sua sucessora. Dona Dilma está nos antípodas da maleabilidade e da conciliação.

Reunião ministerial

Reunião ministerial

É sabido que nossa presidente tem gênio forte, que é irascível, estabanada, agressiva. Dizem que, vendo-se contrariada, é sujeita a ataques de fúria. Ao contrário de seu predecessor, não procura convencer por meios suaves ― prefere impor sua vontade. Talvez esteja aí a explicação para o andamento errático de seu governo. Seus auxiliares, intimidados, encolhem-se e não ousam contradizer a chefe. Na ausência do contraditório, ela se convence de que está no caminho certo e acaba tomando decisões inapropriadas.

Esta terça-feira, dona Dilma anunciou o cancelamento de sua visita de Estado aos EUA. Nenhum de seus conselheiros diplomáticos terá conseguido explicar-lhe que essa decisão, conquanto satisfaça seu amor-próprio, pode não ser benéfica para nosso País. Na valsa aveludada da diplomacia mundial, anular uma visita de Estado é pior do que pisar o pé da dama no meio do baile.

Concordo que não é confortável saber-se espionado por quem quer que seja. Mas, que fazer? Ainda que dona Dilma se sinta incomodada, governos sempre se espionaram e vão continuar a fazê-lo. O Brasil não é o único país na mira de espiões internacionais. Todos dão uma xeretada nos que lhe interessam. Estes últimos meses, tornou-se pública a informação de que os EUA espionam praticamente todos os governos do planeta. Alguém viu alguma reação epidérmica? Não. Todos se limitaram a um protesto formal e tudo ficou por isso mesmo.

A reação violenta de nossa presidente só faz escancarar a realidade: os dirigentes brasileiros, desprovidos de proteção contra intrusões, se encontram em situação de total vulnerabilidade. A revelação dessa verdade soa como um estímulo a outras potências que estejam planejando matricular-se no clube dos que espionam o Planalto.

Aquilo roxo by Alpino

Aquilo roxo
by Alpino

Por que o governo de outros Estados reagiu de maneira tão suave? Porque são realistas. Entendem que o vigor e a intensidade do protesto não mudarão a situação. Todos continuarão a espionar todos, como sempre se fez.

Está faltando realismo ao Planalto. Conseguem-se melhores resultados com um sorriso do que com uma carranca. Nossa ultrassusceptível presidente não deve conhecer esse princípio basilar da boa convivência. Uma boa conversa reservada com o presidente Obama teria surtido melhor efeito. Sem causar escândalo. Derrubar pontes, barrar estradas e fazer beicinho não são a melhor solução. Nosso messias esqueceu-se de ensinar à pupila as artes da persuasão pelo diálogo.

Entre importação de cubanos, perdão a dívidas de países africanos ditatoriais e enfrentamento com o império, estamos cada dia mais parecidos com nossa república vizinha, a bolivariana.

Alô! Quem fala?

José Horta Manzano

Muito se tem falado em espionagem estes últimos tempos. Pouco, muito pouco sobre contraespionagem. Que bicho é esse? É uma atividade patrocinada por Estados para, entre outras funções, protegê-lo da bisbilhotagem alheia.

O escândalo que surgiu faz algumas semanas ― falo do anúncio de ações de espionagem monitoradas pelo governo dos EUA ― só espantou o distinto público. Governantes estão cansados de saber que espionagem entre Estados é prática mais antiga que o rascunho da Bíblia.

Governos de países mais desenvolvidos foram bem mais comedidos em sua reação. Mostraram um simulacro de indignação, mais para satisfazer a galeria. E ficou por isso mesmo. O mundo continuou a girar. Business as usual. Por que reagiram de maneira tão branda? Por dois motivos.

Telefone celular

Telefone celular

Primeiro, porque já faz tempo que se deram conta de que as maiores ameaças externas não provêm mais de armamento bélico. Foi-se o tempo em que possuir um grande número de tanques e de aviões era garantia de ganhar qualquer guerra. Os países mais bem orientados fazem a distinção entre objetivos do Estado (a longo prazo) e metas de governo (a curto prazo). Essas nações vêm-se dedicando, faz anos, a proteger-se desse tipo de ameaça cibernética. É atribuição de seus serviços de contraespionagem.

Em segundo lugar, a reação foi comedida justamente pelo fato de esses países mais desenvolvidos fazerem exatamente a mesma coisa que os EUA, cada um na medida de suas possibilidades. Quem tem telhado de vidro procura não atirar pedrinhas no telhado do vizinho. Ainda que o vizinho tenha sido flagrado roubando frutas do seu quintal, mais vale fazer de conta que não viu. Ou, melhor ainda, dizer: «Olhe aqui, que não se repita, hein!».

Muita informação não costuma ser divulgada. Não é preciso que todos saibam de tudo a todo momento. Seria malsão. Vazou hoje a informação de que o pessoal do andar de cima da França (ministros, secretários e figurões de alto escalão) estão proibidos de utilizar seus smartphones comuns para transmitir dados referentes a assuntos do governo. Já faz tempo que essa recomendação vigora. Os mandarins de Paris contam com cerca de 2300 telefones especialmente concebidos para esse fim. São smartphones só na aparência. Ultrasofisticados, enviam mensagem criptadas e passam por canais diferentes dos que nós, simples mortais, utilizamos. Em princípio, são ingrampeáveis.

Dez ou doze anos atrás, justamente quando as novas tecnologias começavam a dominar o planeta e a dar uma reviravolta nos antigos conceitos bélicos, o Brasil teve a má sorte de começar a ser governado por gente um pouco especial. Ingênuos, deslumbrados e despreparados, nossos mandachuvas não se deram conta de que as regras do jogo haviam mudado. Continuam temendo uma invasão da Amazônia. Por que não um desembarque de marcianos?

Telefone celular (não recomendado para ministros)

Telefone celular
(não recomendado para ministros)

O candor com que nosso ministro da Defesa declarou outro dia que «desconfia» que seu telefone tenha sido grampeado e o furor com que nossa presidente tem reagido à bisbilhotice americana atestam que nosso país não tem um serviço de contraespionagem. O estupor do ministro e a cólera da presidente são sinceros. Nossa defesa cibernética, se existe, não funciona.

Mas nunca é tarde para fazer benfeito. Chorar, espernear, bater o pé, fazer beicinho, ficar de mal, ameaçar, nada disso vai adiantar. Melhor farão se aprenderem com o erro. Se nossos governantes passarem a dedicar à função para a qual foram eleitos ou nomeados uma décima parte do tempo que gastam fazendo politicagem, já teremos dado um grande passo.

Os brios

José Horta Manzano

Faz sorrir o acesso de brios que acomete o Planalto nestes turbulentos dias em que dona Dilma e sua corte descobriram que espiões ainda existem e… espionam!

Como já escreveu alguém, a maior prova de confiança que um governo poderia dar a Snowden seria acolhê-lo e contratá-lo para trabalhar em seu próprio serviço secreto. Fica aqui, grátis, a sugestão para o governo brasileiro. Nunca se sabe, pode servir. Que tal nomer o gajo para um cargozinho qualquer de subchefia no setor de inteligência do Ministério da Defesa?

Espionagem Crédito: Amorim Cartoons

Espionagem
Crédito: Amorim Cartoons

Segundo artigo do Estadão, dona Dilma quer «incluir na legislação brasileira um dispositivo que permita suspender a operação de empresas que cooperarem com esquemas de espionagem internacionais». Há dois pontos surpreendentes nos anseios da atual presidente de nossa República.

O primeiro é que, por definição, espionagem é assunto que não se anuncia em praça pública. Portanto, para «suspender» ― seja lá o que isso queira dizer ― empresas envolvidas em espionagem, precisa antes saber quais são. Não vai ser fácil. Talvez o melhor seja assistir ao Fantástico todas as semanas. Eles parecem estar mais enfronhados no assunto do que o próprio serviço federal de contraespionagem.

Blá, blá, blá by Mix & Remix

Blá, blá, blá
by Mix & Remix

O segundo ponto bizarro é a diabolização seletiva. Ficam banidos os esquemas de espionagem internacionais, em contraposição ao silêncio em torno de eventuais esquemas de espionagem genuinamente nacionais. Se entendi bem, Procleitonildo da Silva, cidadão brasileiro e residente em território nacional poderá então dedicar-se a espionar fatos e gestos do Planalto sem ser incomodado? Poderá até, desde que não deixe o território nacional, revelar ao grande público eventuais segredos políticos ou militares de que venha a se inteirar?

Vamos, gente, reflexão e bom-senso são como caldo de galinha (sem antibióticos): não hão de fazer mal a ninguém. Como aconselham, com propriedade, os italianos, certe cose non si dicono, si fanno ― certas coisas não se dizem, se fazem.

Em nosso País, desgraçadamente, fala-se muito e faz-se pouco.

A retorção

José Horta Manzano

Pasma perante o óbvio, como de costume, dona Dilma descobriu uma verdade milenar: governos costumam espionar-se entre si. Mentes mais sutis pensariam em arquitetar um plano esperto, desses que se veem nos filmes de guerra, em que o espionado se finge de morto, faz que não sabe de nada, e aproveita o mesmo canal para fazer chegar ao espião falsas informações. (Foi assim que os aliados conseguiram desembarcar na Normandia em 6 de junho de 1944, praticamente sem encontrar resistência por parte dos ocupantes alemães.)

Fazer um casus belli da notícia dada com estardalhaço pela televisão não foi uma ideia genial. Astucioso teria sido minimizar ou mesmo ignorar a informação, justamente para tirar dela o melhor proveito.

Se o governo brasileiro não espiona as altas esferas americanas, é unicamente porque não dispõe dos meios necessários para isso. Mas que ninguém se engane. Sem manter uma rede complexa de informação mundial ― como fazem EUA, China, Rússia, França, Reino Unido ― o Brasil certamente utiliza os meios que pôde desenvolver para saber o que se trama nos gabinetes que lhe interessam.

Espião

Espião

Esse não é o tipo de notícia que costuma aparecer na imprensa nem nas redes sociais, o que não quer dizer que não exista. Portanto, não adianta representar o papel de moralista indignado. Pode impressionar a galeria, mas não fará cessar a espionagem. Pelo contrário, as técnicas futuras tendem a ser ainda mais sofisticadas.

A política é a arte de engolir sapos, como sabemos todos. O governo brasileiro tem engolido cobras e lagartos. Baixou a cabeça diante da invasão de uma refinaria da Petrobrás situada na Bolívia. Silenciou a propósito da inspeção de que foram vítima aviões da FAB naquele mesmo país. Enfiou o rabo no meio das pernas no dia em que palestinos e israelenses declararam alto e bom som que dispensavam nossa intromissão para resolver problemas deles.

Brasília até hoje não passou nem um pito nos venezuelanos por não terem cumprido a parte deles no financiamento da construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O Planalto não reagiu quando Evo negou salvo-conduto ao senador refugiado ― deixou que a coisa se envenenasse ao ponto de a vítima ter de se virar sozinha para escapar do cativeiro forçado. Brasília tampouco se indignou quando Zelaya, o presidente deposto de Honduras, se aboletou em nossa embaixada em Tegucigalpa e transformou o local em comitê político.

Depois de tantas cobras e tantos lagartos, um sapinho a mais ou a menos não há de causar indigestão. Além do mais, que o governo brasileiro esperneie ou não, vai continuar sendo espionado. E não só pelos EUA. É o tributo que devem pagar os países mais relevantes.

Alguém ― além dos vizinhos de parede ― gastaria dinheiro e esforço para espionar o Nepal ou a Mongólia?

Pra que lado eu corro?

José Horta Manzano

Salsicha

Fabricação de salsicha

«Gesetze sind wie Würste, man sollte besser nicht dabei sein, wenn sie gemacht werden»

Leis são como salsichas: é melhor não estar por perto quando são fabricadas.

Citação atribuída a Otto von Bismarck (1815-1898), homem político alemão.

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Decididamente, há um bocado de esquizofrenia na maneira como o governo brasileiro vem-se comportando com relação às revelações públicas de espionagem americana.

Lado A
Pela pluma de Denise C. Marin, o Estadão de 8 de agosto nos informa que o Planalto está disposto a dar «proteção» ― seja lá o que isso signifique ― a um jornalista americano. Note-se que o homem a quem se está propondo proteção não a solicitou. Oferecer blindagem a quem não pediu é prática utilizada sistematicamente por organizações mafiosas. Vindo de um governo, é menos usual.

Mas essa é uma outra história. Soaria artificial se eu comparasse a proteção garantida pelo Estado brasileiro a estrangeiros divulgadores de segredos de Estado com o pizzo extorquido por chefes de clã sicilianos em troca de defesa e segurança.

O jornalista é cidadão americano, vive no Brasil e oficia como correspondente do jornal londrino The Guardian. Andou escrevendo, no respeitável periódico para o qual trabalha, aquilo que todos já sabiam sem que estivesse escrito. Disse simplesmente que espiões espionam.

É uma das práticas mais antigas do planeta. Ela começa com vizinhos, que se espreitam através das frestas da veneziana. Passa por camelôs, firmas comerciais, indústrias, que se espiam como podem, com maior ou menor classe. E chega até países, que se espionam mutuamente com a sofisticação de que são capazes.

Todos fazem isso. Não é o fato de não se falar de um fato que faz que ele não exista. Não se costuma falar de espionagem, mas a realidade é que ela sempre existiu e sempre existirá. De certas coisas, não convém falar. Ponto e basta. É como a fabricação de salsichas: mais vale não conhecer detalhes.

Lado B
O mesmo artigo do Estadão nos dá conta de que o governo brasileiro anda preocupado com a visita aos EUA, que dona Dilma tem programada para o mês de outubro. Nestes tempos de popularidade escassa, na falta de uma recepção com chuva de papel picado na Quinta Avenida, umas fotos sorridentes ao lado de Obama fariam grande bem a nossa mandachuva.

Essa é sem dúvida uma das razões que explicam esse comportamento «morde e assopra» do governo brasileiro. Com a China desacelerando, é prudente não levantar muito a crista perante um de nossos maiores clientes.

Rica de informações, a matéria do jornal ainda informa que o Brasil está propenso a retomar com os EUA as negociações, emperradas faz quase 15 anos, sobre o compartilhamento da base de lançamento de Alcântara. Compartilhar com o inimigo que nos espiona! Quem diria…

Conclusão I
Que o país que nunca espionou nenhum outro atire a primeira pedra! Essa lapidação não periga acontecer.

Conclusão II
Essas «revelações» feitas por iluminados ou por surtados podem causar algum espalhafato mas não abalam a marcha do mundo. Se a História guardou o nome de alguns espiões famosos tais como Judas, Mata Hari, Joaquim Silvério dos Reis, Günter Guillaume, não há registro de denunciadores de espiões.

Com ou sem «proteção» do Estado brasileiro, a glória desse senhor será efêmera.

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Y ahora, ¿bailamos?

José Horta Manzano

Interligne vertical 4Em sua nota n° 241, o Itamaraty nos informa sobre a reunião de cúpula de chefes de Estado do Mercosul, que se realizou em Montevidéu, dias 11 e 12 de julho de 2013.

Algumas considerações me ocorrem.

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Objetivo
A visão dos que idealizaram e fundaram a união alfandegária certamente alcançava horizontes mais distantes do que os que conseguimos atingir. Desgraçadamente, a ideologia terceiro-mundista fora de moda que impregnou o governo do Brasil estes últimos dez anos gerou uma distorção. Emperrou o bloco.

Chega a ser grotesco o Brasil acusar a Argentina de atrapalhar o funcionamento da organização. Quando se detém 70% de participação numa associação qualquer, tem-se a faca e o queijo na mão. É o caso do Brasil no Mercosul. Se temos cedido aos caprichos de nossos hermanos, é porque assim foi decidido em nossas altas esferas.

Na ânsia de aparecer como «o bonzinho» e na impossibilidade de montar um verdadeiro império à soviética ou à americana, nosso País perde-se em suas ilusões e fica no meio do caminho ― sem condições de avançar, nem coragem de recuar.

Quem pretende liderar tem de saber meter medo nos liderados. Pouco deveria importar que nossos sócios «gostem» do Brasil ou não. O importante é que respeitem o sócio maior. Para aparecer como o «paladino dos pobres», papel sonhado por nossos dirigentes, um país tem de começar por fazer-se respeitar.

Não temos um exército ameaçador. Não dispomos de arsenal nuclear. Não temos sequer nosso próprio satélite de comunicações. Nosso ministro da Defesa(!) confessou outro dia, candidamente, que desconfiava que seu telefone estivesse sendo grampeado. Tudo isso deixa claro que o Brasil é um país fraco, que não amedronta ninguém. Se, além disso, cedermos a todos os caprichos de nossos hermanos, estaremos cada dia mais longe do objetivo.

Um gigante bobão não assusta.Interligne 07

Cúpula da União Europeia Junho 2012

Cúpula da União Europeia
Junho 2012

Números reveladores
Em sua nota oficial, o Itamaraty revela que, embora represente 80% do PIB da América do Sul, o Mercosul responde unicamente por 65% do comércio exterior do subcontinente. Trocando em miúdos, isso significa que os países sul-americanos não membros do Mercosul exportam, proporcionalmente, muito mais que nós. E tudo isso sem união aduaneira e sem reuniões de cúpula. Não é curioso? Pra que mesmo tem servido nossa associação?Interligne 07

Ambiente cordial
O jornal venezuelano El Mundo publica surpreendentes declarações do presidente Mujica, do Uruguai. O dirigente vizinho se lamenta do volume de burocracia e da quantidade de instituições inúteis que regem o Mercosul.

Mujica não tem papas na língua. Diz textualmente que «quando se tem de falar tanto em livre comércio é porque não há livre comércio». Acrescenta que, na atualidade, os dirigentes passam seu tempo «cada um desconfiando do outro e olhando de soslaio para ver se consegue enganar o colega».

O ambiente, como se vê, é de franca amistad y fraternidad.Interligne 07

Clube político
O próprio de uma associação comercial é fomentar o comércio, seja entre os sócios, seja com parceiros de fora. Quando se observa o Mercosul, constata-se que estamos muito longe do objetivo.

O tema dominante da última reunião de cúpula não tem que ver com o comércio, como seria de esperar. Discutiu-se espionagem, ameaça externa, asilo a Snowden ― o delator destrambelhado.

O jornal gaúcho Zero Hora nos informa que, em comunicado conjunto, os sócios «repudiam» a espionagem americana. Os dirigentes da agência americana de segurança nacional não devem ter dormido à noite de tanto medo.

Reunião de condomínio costuma ser mais produtiva.Interligne 07

Miopia brasileira
Das trevas nasce a luz. Pelo menos, deveria nascer. Mas quem tem cabeça dura não aprende. Incapacidade é defeito difícil de suplantar.

O Planalto tem esperneado desde que tomou conhecimento de que espiões espionam, e que o Brasil, tanto quanto todos os outros países, está na mira dos que têm capacidade de bisbilhotar casa alheia. Em vez de espernear, o governo faria melhor se usasse esse episódio como fonte de inspiração.

Nosso País não dispõe da mesma parafernália tecnológica de grandes potências como EUA, Rússia, China, Reino Unido, França, Alemanha, Japão. Esses, sim, têm os meios necessários e podem se permitir muito mais.

Mas nós temos gente. Temos diplomacia ― ainda que estranhamente direcionada nos últimos doze anos. Deveríamos utilizar nossos canais de informação diplomática, nem que fosse para não fazer papelão.

O Estadão nos informa que, num gesto magnânimo, os membros do Mercosul declararam que permitiriam a volta do Paraguai, suspenso há uma ano por decisão sumária. Só que nossa antigamente festejada diplomacia se esqueceu de combinar com o adversário. Não se preocuparam em perguntar ao sócio se ele queria voltar do castigo.

Pois o presidente eleito do Paraguai, numa resposta corajosa e sintomática, recusou-se a reintegrar o bloquinho. Pelo menos, enquanto a Venezuela estiver no exercício da presidência rotativa.

Nossa diplomacia podia ter ido dormir sem esse tapa na cara. Mais preocupados em costurar termos indignados para «repudiar» espionagens do «hermano del Norte», esqueceram-se de que é importante arrumar a casa e pôr-se de acordo primeiro. Que papelão!Interligne 07

Cúpula do Mercosul Junho 2013

Cúpula do Mercosul
Junho 2013

Conclusão
Como ilustração deste artigo, ponho a foto de uma cúpula europeia e um instantâneo da reunião do Mercosul. O contraste é patético. Quase uniformizados, os europeus transpiram seriedade. Até demais. Já nossos sócios mais parecem estar vestidos para um baile à fantasia. O Mercosul morre um pouco a cada dia.

Mas que os pessimistas não percam a esperança: está sendo preparada a adesão da Guiana, do Suriname e da Bolívia. Agora, vai!

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Patacoada

José Horta Manzano

O Correio Braziliense nos informa que Antonio Patriota, o ministro das Relações Exteriores, não exclui interrogar Edward Snowden fora do Brasil. É surpreendente que nosso chanceler, diplomata de carreira, demonstre ingenuidade tão grande.

Como não é imaginável que nosso ministro, na posição em que está, fale da boca pra fora, sem avaliar o peso de cada uma de suas palavras, algo tem de estar por trás dessa estranha intenção de «ouvir, fora do Brasil, o consultor Snowden».

Espionagem Crédito: Storms

Espionagem
Crédito: Storms

Imagino alguns cenários:

1) O ministro realmente acredita que o delator fugitivo detenha um caminhão de informações detalhadas sobre o grau de intercepção exercido pela espionagem americana sobre cada país em particular. Parece-me difícil que um tal volume de dados tenha sido deixado à disposição do jovem. Acho que o chanceler está dando demasiada importância a um pequeno ex-funcionário de uma firma terceirizada.

2) O ministro gostaria de mostrar ao «império» que nosso País tem, sim, condições de investigar em profundidade sobre a natureza de intromissões que possam ter sido perpetradas em nossos segredos de estado. Em suma: conosco, ninguém podosco. Se a «jus esperneandi» é direito que assiste a cada um de nós, porque negar ao ministro que recorra a ela?

3) O ministro está sendo teleguiado. É a hipótese mais inquietante e, infelizmente, a mais provável. Tudo não passa de jogada de marketing para demonstrar que o governo não se acovardou diante de um ataque a nossa soberania. Visa a acalmar bolsões ultranacionalistas que sempre resistem aqui ou ali. “Da ôtra veiz, cê vai vê aqui cum nóis!”

Continuo achando que essa história está recebendo mais atenção do que merece. Com ou sem Snowden, os serviços secretos de todos os países sempre espionaram e hão de continuar espionando. É exatamente para isso que existem.

My name is Bond, James Bond

José Horta Manzano

Em artigo de 2 de julho, comentei que o arrepio de estupefação que percorreu o governo de muitos países ao descobrirem que Tio Sam bisbilhotava as comunicações do mundo inteiro não passava de hipocrisia.

Desde a esposa que vasculha a carteira do marido até altas esferas governamentais, todos espionam o próximo ― dizia eu.

A edição de 4 de julho do très sérieux jornal Le Monde, de Paris, traz uma reportagem de título bastante sugestivo: «Révélations sur le Big Brother français», as revelações sobre o Big Brother francês. O texto investigativo confirma que também o governo gaulês opera um complexo sistema de coleta sistemática de sinais emitidos por computadores e por telefones. Captam todas as comunicações, sejam elas nacionais ou internacionais.

Espião

Espião

E tem mais: um complemento da mesma reportagem afirma que todos os serviços de informação ocidentais se espionam.

Ocidentais, dizem eles? A meu ver, é avaliação modesta. Todas as agências de inteligência se espionam, sejam elas de que país forem. É exatamente para isso que foram criadas.

Está aí a confirmação de que o adoidado e ingênuo Snowden não revelou nada que os governos do mundo inteiro já não soubessem. Daí o pouco empenho que têm todos mostrado em dar-lhe acolhida. Não interessa a ninguém bancar o bom samaritano hoje, para ser desmascarado amanhã. Periga cair mal.

Em matéria de espionagem, a regra de ouro é o silêncio. Ai daquele que botar a boca no trombone! Não comoverá ninguém. Em boca fechada, não entra mosca.

Nosso infeliz delator não deve ter lido o manual até o fim. Azar dele.

Latino-americanos

José Horta Manzano

Sou do tempo em que latino-americanos eram os outros. Nós, brasileiros, não tínhamos nada que ver com essa gente. Havia os americanos (que falavam inglês), os latino-americanos (que falavam espanhol) e nós. Música latina era bolero, rumba, chá-chá-chá, mambo. Nossa música não era latina, era brasileira. No nosso imaginário, Lima, Bogotá e La Paz estavam mais distantes que Londres ou Lisboa.

Petrobrás invadida Bolívia

Petrobrás invadida
Bolívia

De uns 10 ou 12 anos para cá, os brasileiros passaram por uma lavagem cerebral. Desde que estes novos tempos se instalaram e a orientação de nossa política externa deu uma guinada para um lado estranho, fomos instados a nos identificar, à força se necessário, com os antigos adversários castelhanos.

O fato de vários caudilhos latino-americanos terem tido a mesma ideia ao mesmo tempo só favoreceu a busca de uma hipotética «integração» ibero-americana. Como toda criação artificial, não deu e nunca dará certo.

Generoso, o brasileiro está pronto a ajudar os vizinhos necessitados, a dar-lhes uma mão, a prestar-lhes o devido auxílio. Contudo, «identificar-se» com eles já requer um salto que nem todos estão dispostos a dar.

O fracasso da economia venezuelana, o descalabro da governança argentina, a interminável agonia do regime cubano não nos encorajam a perseverar nessa linha. Já temos dificuldade para resolver nossos problemas internos, não nos fazem falta trapalhadas estrangeiras.

Lula recebe Evo Morales

Lula recebe Evo Morales

Como toda criação artificial, nosso «latino-americanismo» é bastardo e de ocasião. Não foi feito para durar. Com o ocaso dos regimes «progressistas» que se haviam instalado em algumas ex-colônias ibero-americanas, o Brasil há de abandonar logo essas aventuras inconsequentes e voltar aos trilhos de onde nunca deveria ter saído.

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Quando o ogro boliviano se apoderou de uma refinaria da Petrobrás implantada naquele país, o governo brasileiro entrou em pânico, mas não teve coragem suficiente para se defender. Note-se que a Petrobrás, além de ser a maior empresa nacional, tem como proprietário majoritário de seu capital votante o povo brasileiro, através de seu governo.

A vergonhosa pusilanimidade do governo brasileiro de então não foi nem está sendo imitada pelos governos europeus. Um episódio folclórico ocorrido na noite de ontem mostra que o ogro, por aqui, não assusta ninguém.

Evo Morales, presidente do Estado Plurinacional da Bolívia (é o nome oficial, sem brincadeira), sobrevoava a Europa em voo de Moscou a La Paz. Correu o boato de que o avião carregava Snowden, aquele que vazou segredos da espionagem americana.

Portugal, onde um pouso para reabastecimento do aparelho estava previsto, fechou imediatamente seu espaço aéreo. A França tomou idêntica decisão. A Itália, idem. O avião não teve outra opção senão pousar em Viena.

Petrobrás invadida Bolívia

Petrobrás invadida
Bolívia

Furibundos, os mandachuvas bolivianos fizeram as habituais declarações grandiloquentes do tipo «a América Latina está sendo pisoteada» e «Morales foi sequestrado pelo imperialismo».

Esqueceram-se ― ou talvez não saibam ― que estavam voltando de visita amiga a um dos últimos grandes impérios que sobraram. Moscou é a capital de um imenso complexo composto de 21 repúblicas, 46 regiões e 4 distritos autônomos. São 128 etnias que, embora muitas o façam a contragosto, vivem sob obrigatória autoridade russa. Se esse não é um império, o que será?

Para se fazer respeitar, há que começar respeitando os demais. No dia em que señor Morales e nossos outros hermanos entenderem isso, terão dado um grande passo à frente.

Hipocrisia

José Horta Manzano

Desde que o mundo é mundo, espia-se o próximo. Desde a esposa que remexe nos bolsos da calça do marido (e vice-versa) até altas esferas do governo do país A que bisbilhota os assuntos internos do país B. Desde o mordomo que escuta atrás da cortina, como nos filmes, até organizações oficiais ― complexas, estruturadas e gordamente financiadas ― especializadas no ramo.

Sempre foi assim e sempre será. No entanto, em nome da coabitação harmoniosa, convém tomar cuidado para manter a discrição. Seja debaixo do teto familiar, seja entre países. Assim como os mafiosos, os espiões também têm sua omertà, seu código de conduta.

Embora não se faça muito alarde sobre o assunto, a cada ano são organizadas em vários países (inclusive no Brasil) dezenas de feiras e exposições especializadas em armamentos. Expõem-se revólveres, carabinas, espingardas, bombas de fragmentação, minas antipessoais, até tanques de guerra. As balas são apresentadas em estojos almofadados. Coisa de louco.

Faz algum tempo, num salão desse tipo organizado em Paris, descobriu-se que os chineses haviam montado, no interior de seu estande, uma complexa central de escuta telefônica. Conseguiam captar todas as comunicações que circulassem via telefone celular no recinto da feira. Alguns poucos jornalistas ficaram sabendo. Para evitar um incidente diplomático, o Estado francês fez questão de abafar o acontecido. Ficou tudo por isso mesmo.

A História (não) registrou milhares de outros episódios de mesmo tipo. Dar publicidade a certos fatos pode ser mais danoso do que fazer de conta que não aconteceu.

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Estes dias, um jovem com vocação para salvador do mundo tomou a ousada decisão de subir ao telhado para anunciar que espiões espionam. Não contou nenhuma novidade, o infeliz. Nada disse que especialistas no assunto já não soubessem. Mas rompeu velho acordo tácito, atributo básico da velha profissão de espião: manter a discrição a todo custo.

Os países espionados ― os quais, sejamos claros, também se espionam entre si ― mostraram-se indignados. «Oh! Como é possível? Entre amigos?» Esqueceram-se todos de que até marido e mulher cometem a mesma incorreção. Mutuamente, às vezes.

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva Moscou, Rússia

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva
Moscou, Rússia

Enfim, cada um tem de representar seu papel nesta grande comédia planetária. Ao mesmo tempo que juram respeito e amizade eterna, todos os países transgridem como podem. Espionam-se uns aos outros na medida da tecnologia de que cada um dispõe. Quando um é apanhado com a boca na botija, vem a grita generalizada: «Céus! Nunca esperava isso de você!».

Quanta hipocrisia! No final, vai ficar tudo por isso mesmo. O mundo não vai acabar. O infeliz denunciante, que tenha feito isso por ingenuidade ou por estrelismo, será o único prejudicado.

Que seja acolhido no Equador, na Venezuela ou no Sultanato de Omã, está condenado a viver em aflição permanente até o fim de seus dias. Terá palpitações a cada vez que tocar o telefone ou a campainha de casa. Não se quebram as regras do métier impunemente.

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Preguiça mental
O site Wikileaks informa que o jovem imprudente enviou pedido de asilo a mais de 20 países. Não sei se por erro de digitação ou por ignorância, a nota informa que o Consulado Russo (sic) no Aeroporto de Шереметьево(*) está despachando os pedidos às embaixadas que os países solicitados mantêm em Moscou. Consulado russo em Moscou? É tão incongruente quanto falar de um consulado brasileiro em Brasília. Vivendo e aprendendo…

Mas não pára por aí. Os funcionários de plantão na Folha de São Paulo e no Estadão, meio sonolentos, repercutiram a informação tal qual a receberam. Engoliram sem mastigar. Confirmam todos a existência de um consulado da Rússia dentro da própria Rússia.

Mundo, mundo, vasto mundo…

 .

(*) Шереметьево = Na Rússia, a pronúncia “Cheremetiêvo” é considerada inculta. Faça como os moscovitas, diga Chirimiêtchiva, numa pronúncia proparoxítona.