O enxofre e as sapatadas

José Horta Manzano

Se pudesse falar, aquela parede revestida de granito verde que serve de pano de fundo para discursos na sede da ONU em Nova York teria muitas histórias para contar.

No dia 12 de outubro de 1960, um irritado Kruchev, primeiro-secretário do Partido Comunista da União Soviética, subiu àquela tribuna para exprimir sua indignação. E fez isso de forma pouco ortodoxa mas assaz eloquente. Aos berros, brandiu um de seus sapatos e desferiu com ele violentos golpes sobre o púlpito. Passados mais de 50 anos, a foto da cena, captada por um sortudo profissional, ainda percorre a internet.

Nikita Kruchev 12 out° 1960

Nikita Kruchev
12 out° 1960

Outro momento burlesco, que fugiu à sucessão habitual de modorrentos discursos, aconteceu poucos anos atrás, em 20 de setembro de 2006. Foi quando o imortal companheiro bolivariano Chávez, ao se exprimir logo após o presidente americano, soltou sua memorável tirada: «¡Huele a azufre!». Quis com isso dizer que, após a passagem do diabo ― o presidente Bush ―, ainda pairava no ar um cheiro de enxofre.

O discurso que dona Dilma pronunciou no mesmo lugar nesta terça-feira repercutiu nos jornais online. Recebeu qualificativos tais como contundente, duro, incisivo. Mas a ressonância não foi muito mais longe. Com a notável exceção do Diário de Notícias português desta quarta-feira, a edição impressa dos principais jornais europeus não dá à fala da presidente do Brasil a importância esperada pela equipe que alinhavou os argumentos. Estamos a anos-luz do cheiro de enxofre e das sapatadas.

Se o discurso chamou a atenção, foi porque foge aos cânones. Não é todos os dias que o dirigente maior de algum país sobe à tribuna da ONU para confessar ao mundo que não dispõe de meios para lutar contra a bisbilhotagem alheia. E que, assim sendo, exige que parem de xeretar. O primeiro reflexo dos ouvintes foi de perplexidade. Mas ninguém se preocupa com as pequenas mazelas alheias. O espanto logo passou.

Como eu dizia ontem, a página foi virada. Os EUA não desmontarão seu programa de espionagem planetária. Para suas comunicações, o Brasil vai continuar morando de aluguel em canais estrangeiros durante muitos e muitos anos. Como não me parece cabível que os assessores de nossa presidente não se deem conta dessa realidade, só me resta concluir que a fala de ontem foi mera mise-en-scène dirigida ao distinto público interno. Uma fúria midiática, marqueteira e… malandra.

Dilma & Obama ― 24 out° 2013 by Amarildo Lima

Dilma & Obama ― 24 set° 2013
by Amarildo Lima

Na Europa, ninguém deu maior importância ao que disse dona Dilma. O noticiário radiofônico e os jornais impressos destacam hoje os habituais problemas internos de cada país. No campo internacional, dois acontecimentos importantes fazem as manchetes: o atentado perpetrado por maometanos radicais num centro comercial queniano e as nuvens negras que dão sinais de querer dissipar-se sobre os céus de Teerã.

Esta última, sim, é novidade positiva, daquelas que trazem esperança e dão ânimo. Quem não gosta de notícia boa?