Vanzolini e a floresta

José Horta Manzano

Paulo Vanzolini (1924-2013) foi um zoólogo brasileiro que, secundariamente, fazia música. Nunca viveu de sua arte, mesmo porque não precisava. A atividade científica garantia ganho suficiente. Assim mesmo, emplacou sucessos como a música Ronda (vista por alguns como o hino de São Paulo), Volta por cima (aquela que dizia: ‘levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima), Praça Clóvis (que Chico Buarque gravou). Deixou centenas de composições, muitas inéditas.

Vanzo, apelido que lhe davam os mais íntimos, era genioso, como se dizia antigamente. Não era de trato fácil. Ranzinza, tinha a língua afiada e costumava dizer o que pensava, o que nem sempre agradava a todos.

Paulo Vanzolini, aos 88 anos, em 2012.

Sem formação musical, não conhecia solfejo, não tocava nenhum instrumento, não distinguia modo maior de modo menor. Já na ciência, eram outros quinhentos. Desde jovem, seu ofício o levou a ter contacto intenso com a mata virgem. Descobriu e descreveu dezenas de espécies desconhecidas. Como ninguém, conheceu a Amazônia, sua fauna e seus habitantes.

Já lá vão mais de dez anos, instado por um jornalista a dar sua opinião sobre a floresta brasileira, não guardou a língua no bolso. O homem, que não se ajoelhava diante do ‘politicamente correto’, disse o que pensava.

Desenvolvimento insustentável
«Vejo a situação da Amazônia com grande desgosto. (…) A Amazônia inteira quer derrubar a floresta. Principalmente o pessoal que vive lá mesmo. O único jeito seria diminuir a população. Não existe desenvolvimento sustentável. É uma besteira completa.

Enquanto a população crescer, você não vai negar comida. Enquanto tiver gente, e gente fazendo mais gente, como você vai comer sem plantar, sem matar os bichos que estão por lá? A única solução é: ‘Tranca a porta e perde a chave.’»

Sabe Deus qual seria a reação de Vanzo, se ainda estivesse entre nós, diante do festival de desmatamento incentivado pelo Planalto.

Baby governor

José Horta Manzano

Você sabia?

Em novembro deste ano, os americanos vão às urnas para o que chamam “midterm elections”, as eleições que ocorrem no meio do mandato presidencial. Como grande parte dos Estados americanos, Vermont escolherá novo governador. Com meia dúzia de postulantes já declarados, a campanha começa a ferver.

Entre os candidatos, está um sorridente cidadão chamado Ethan Sonneborn, que concorre pelo Partido Democrata. Demonstrando visão abrangente da sociedade, o moço tem mente aberta. Declara-se «forte aliado» da comunidade LGBT. Dá mostra de especial sensibilidade para tudo o que tange à ecologia e ao desenvolvimento sustentável. Aprova também a cobertura universal de saúde, questão crucial e ainda não resolvida naquele país.

Consultei o programa do candidato. Sem descer a minúcias, o documento fixa os pontos cardeais da linha de ação que pretende seguir. Se eleito, naturalmente. Sem ser especialista em previsão eleitoral, sinto que Mr. Sonneborn não tem grande chance de vencer a eleição. Não tanto pelo programa, que, embora bastante progressista para os padrões americanos, não chega a ser chocante. O buraco é mais embaixo.

De fato, Ethan tem apenas… 14 anos de idade. Por uma curiosa brecha na legislação, um cidadão de 14 anos ainda não pode votar em Vermont, mas pode ser eleito. O legislador se esqueceu de fixar idade mínima para candidatos. Não se tem notícia de caso anterior, mas era tempo de aparecer o primeiro.

Fosse no Brasil ‒ que já elegeu Tiririca, Enéas, Clodovil & companhia pitoresca ‒, o garoto teria boas chances de chegar lá. Tem gente que acha engraçado brincar com coisa séria. Felizmente, nossa legislação estabeleceu idade mínima. Dessa, escapamos. Já temos bizarria suficiente no panorama político nacional.