Do respeito devido a delatores

José Horta Manzano

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Viagem ao exterior costuma acalmar medalhões. A distância do Planalto, a rotina quebrada, o entorno diferente, os compromissos com gente desconhecida, tudo isso contribui para distender o espírito.

Uma das grandes pérolas do Lula, por exemplo, foi soltada durante viagem a Paris. Se um pequeno excesso de vinho de Bordeaux ajudou a relaxar o então presidente, não se sabe. Fato é que nosso guia fez aquela famigerada confissão sobre caixa dois. Alegou que seu partido fazia o que todos os outros sempre tinham feito. Algo do tipo: «Sou, mas quem não é?»

Dona Dilma – não é a primeira vez que o demonstra – parece fugir ao padrão. Passeia atualmente sua ranzinzice pelos EUA, de onde continua nos remetendo chispas mal-humoradas e arrevesadas.

Ainda ontem, acuada pelas acusações que se aproximam perigosamente de sua augusta pessoa, soltou nova pérola: «Eu não respeito delator». Desvairada, foi buscar no fundo do baú uma lição recebida de dona Mariquinhas, no grupo escolar, lá pelos anos 50. Lembrou-se de que os inconfidentes mineiros foram traídos por um delator. E deixou no ar a analogia pérfida: delação premiada equivale a traição.

Dilma ObamaNo fundo, dona Dilma tem razão. Hemos de convir que, pelas leis de toda organização criminosa, entregar comparsas é atitude imperdoável. No entanto, a coerência manda que a presidente rechace todas as delações que lhe disserem respeito, tanto as que a atormentam quanto as que a favorecem.

Aos olhos de dona Dilma, delatores da megarroubalheira da Petrobrás são infames, desprezíveis, levianos, e a eles não se deve dar crédito. Como justificar, então, a acolhida que a presidente reservou às revelações de um certo senhor Snowden, aquele jovem destrambelhado que delatou as práticas da agência nacional de segurança de seu país?

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Sem dúvida, meus distintos leitores se lembram que, quando a delação daquele funcionário «arrependido» foi espalhada aos quatro ventos, dona Dilma não se mostrou indignada nem disse que não respeitava delatores. Muito pelo contrário. Baseada unicamente na delação – que, por ironia, nem premiada era – cancelou visita de Estado programada para os EUA. E fez beicinho durante dois anos.

Tsk, tsk, francamente… A coerência não é a qualidade primeira de nossa presidente. Se eu fosse ela, reduziria a frequência de viagens ao estrangeiro. Não lhe fazem bem.

Desfiliação do clube

José Horta Manzano

Grecia 4A Grécia está numa sinuca de bico. Como costuma acontecer, o drama vem de longe, não começou semana passada. E os culpados são muitos.

Tradicionalmente, fugir de impostos, burlar leis e dar jeitinho têm constituído esporte nacional naquele país. O mal não se restringe aos do andar de cima, mas se espalha por todas as camadas sociais.

Na hora do vamos ver, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Quem tinha dinheiro já abrigou seus lingotes de ouro em lugar seguro. Vai caber aos despossuídos pagar o preço da incúria pela qual são apenas parcialmente responsáveis.

Semana passada, o governo mandou afixar em bares e restaurantes um cartaz informando que, caso não lhe seja fornecida nota fiscal, o cliente tem o direito de não pagar pelo que tiver comido ou bebido. É folclórico, engraçado, provavelmente eficaz, mas chega tarde demais. Tivessem tomado atitudes firmes como essa dez ou vinte anos atrás, não estariam hoje em situação tão precária.

Grecia 3A União Europeia pecou por ingenuidade e excesso de confiança ao aceitar a Grécia no clube do euro sem impor um controle fiscal permanente. Não digo que o mau comportamento de dez milhões de gregos comprometa o bom andamento de uma Europa de meio bilhão de habitantes. Mas funciona como calo no pé: é pequenino, mas dói e incomoda.

A situação grega guarda algumas semelhanças com o que acontece no Brasil. Sucessivos governos gregos maquiaram contas públicas. Contaram com a cumplicidade de firmas internacionais de auditoria. Abusaram do que conhecemos como pedaladas fiscais. Foi indo, foi indo, até que um dia a bolha estourou e não deu mais pra ocultar a malandragem. Isso lembra nossa penosa situação fiscal, né não?

Pra corrigir distorções e repor a Grécia nos eixos, os sócios europeus exigiram rigor fiscal e outras medidas de austeridade. Descontentes, os gregos entregaram as rédeas do governo a um político jovem, boa-pinta, que prometia solução mágica e indolor. Aperto fiscal? Restrições? Ajustes? «Jamais faremos isso!» – prometeu de pés juntos. Isso lembra a última campanha eleitoral de nossa presidente, né não?

Grecia 2Eleito, o salvador da pátria teve de aceitar a realidade. Fora da responsabilidade fiscal, não há salvação. Alemanha, França e os demais sócios não estão dispostos a manter a Grécia sob assistência respiratória. O povo helênico tem de fazer o esforço que não fez durante anos.

Como dona Dilma, o primeiro-ministro grego se viu em saia justa. Não ia poder cumprir o que havia prometido. Como fazer? Dona Dilma optou pela caradura – fez tudo o que tinha jurado não fazer. E dane-se quem não gostar.

Grecia 1Mais prudente, senhor Tsipras convocou o povo para um voto no fim desta semana. Pouco importa a pergunta que será feita, o que se quer saber é se os gregos desejam permanecer na zona do euro. Seja qual for o voto dos eleitores, senhor Tsipras sairá bem na foto: ele estará simplesmente cumprindo a decisão do povo.

Prevê-se um não maciço. Se se confirmar, a Grécia deverá abandonar o clube da moeda única. Do qual nunca devia ter feito parte.

Frase do dia — 250

«Dilma encerra a viagem pela bela Califórnia. Irá à Universidade Stanford, ao Centro de Pesquisas da Nasa e à sede do Google onde, se tiver sorte, dará um passeio e tirará boas fotos nos carros inteligentes. Um carro sem marchas, sem espelhos, sem volante – e sem motorista. Mais ou menos como o atual governo brasileiro, mas não aos trancos e barrancos.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 28 jun 2015.

Um século de pérolas presidenciais

“Hoje eu estou saudando a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil!”
Presidente Dilma Vana Rousseff

Presidente 2“É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Nem parece África!”
Presidente Luiz Inácio da Silva, sobre Windhoek, capital da Namíbia, África

Presidentes“Acho que nós, brasileiros, ainda não entendemos que a política externa é interna.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A caneta que nomeia é a mesma que demite”.
Presidente Fernando Henrique Cardoso

by Gerson Salvador, desenhista mineiro

by Gerson Salvador, desenhista mineiro

“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Neste presidente, ninguém coloca uma canga.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Eu tenho aquilo roxo!”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

Presidente 3“Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“No Maranhão, depois dos 50, não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“Esperteza, quando é muita, come o dono.”
Presidente Tancredo de Almeida Neves, quando governador de Minas

“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”
Presidente Ernesto Beckmann Geisel

“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal.”
Presidente Emílio Garrastazu Medici

“O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor.”
Presidente Arthur da Costa e Silva

“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”
Presidente Humberto de Alencar Castello Branco

“Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos.”
Presidente João Belchior Marques Goulart

“Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”
Presidente Jânio da Silva Quadros

Presidentes galeria“Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite”.
Presidente Jânio da Silva Quadros, quando prefeito de SP, dirigindo-se a uma jornalista que o havia tratado por você.

“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Deus poupou-me o sentimento do medo.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

Presidente 1“No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“A questão social é um caso de polícia.”
Presidente Washington Luís Pereira de Souza

“Durante a penúltima campanha presidencial, afirmava-se que o candidato não seria eleito; eleito, não seria reconhecido; reconhecido, não tomaria posse; empossado, não transporia os umbrais do Palácio do Catete.”
Presidente Arthur da Silva Bernardes

Inspirado em coletânea organizada por Pedro Luiz Rodrigues e publicada no Diário do Poder.

Lavagem de alma

José Horta Manzano

Vaia 1Nada como uma boa crise pra derrubar máscaras. Enquanto a maioria do povo brasileiro acreditava que o País estivesse sendo bem conduzido, os do andar de cima viviam tranquilos, satisfeitos, confiantes. Arrotavam importância.

No entanto, como não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, más notícias começaram a chegar. Primeiro veio o mensalão, levado na brincadeira no início, cozinhado em água fria em seguida, sempre negado pelo Lula apesar das suspeitas que ainda recaem sobre ele. O escândalo abalou a confiança que muitos tinham nos medalhões, mas não foi suficiente para apartá-los do poder.

Como num rodamoinho, em que o movimento descendente começa lento e vai-se acelerando mais e mais, as más notícias têm chegado. Más notícias para eles, bem entendido. Para nós outros, são boas-novas.

Lavanderia 1Essa Operação Lava a Jato está impressionante de ousadia. E de eficácia. Destemidos, os que a dirigem têm cercado gente graúda. Não só cercado, como acuado, acusado e despachado ao xilindró. Coisa nunca vista antes nessepaiz. O povo parece que acordou. A última pesquisa de opinião indica que nove em cada dez brasileiros reprovam o governo de dona Dilma.

O Lula anda deprimido. E não é pra menos: uma a uma, as cavilhas que o prendiam ao pedestal da glória vão sendo desparafusadas. Em excelente artigo, o jornal O Globo relata a fala patética que o taumaturgo, desnorteado, despejou num colóquio com religiosos, havido em seu comitê político, aquele que leva o pomposo qualificativo de instituto.

Nosso guia confirma o que já sabíamos: que tanto ele quanto dona Dilma e o partido estão todos no «volume morto». Na metáfora saborosa, o que chama mais a atenção não é o volume, é o morto.

Represa 5Sem que o orador se dê conta, suas palavras denotam que ele ainda se sente parte integrante do governo. Fala em «nossa» rejeição. Diz que «a gente» tem de mudar.

Mostra também que seus métodos de governar pararam no tempo. Acusa a sucessora de permanecer trancada em palácio e dá a receita para romper a clausura: sair por aí, passar a mão na cabeça, dar beijo. Ele continua achando que, para se aproximar do povo, basta subir num palanque. É tão simples, não é mesmo?

Diz que, há meses, ele e sua turma são incapazes de dar uma boa notícia aos brasileiros. O ex-presidente tem razão. As boas notícias não têm vindo do Planalto, mas do Poder Judiciário. Interpelações, perquisições, devassas e prisões podem aporrinhar a vida do Lula, mas têm lavado nossa alma.

Governo concordou

Cláudio Humberto (*)

O governo Dilma soube com antecedência dos planos do governo venezuelano de destacar um grupo de militares à paisana, passando por manifestantes, para hostilizar os senadores que foram a Caracas visitar presos políticos. Também a embaixada brasileira demonstrou saber da operação de intimidação: diplomatas tinham ordem para não acompanhar os senadores na van que seria alvo dos milicianos.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

O embaixador brasileiro Ruy Pereira entrou no avião dos senadores antes que desembarcassem, cumprimentou-os e “vazou”.

Os pilotos da FAB que conduziram os senadores foram avisados pelas autoridades venezuelanas para preparar o voo de volta imediatamente.

Após o desembarque dos senadores em Caracas, os pilotos da FAB foram de novo abordados e aconselhados a “nem almoçar” na cidade.

O grupo de senadores de oposição foi a Caracas visitar presos políticos venezuelanos, mas mal conseguiu sair do aeroporto.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Ói ele aí de novo, gente!

«A mentira no debate político é recurso habitual dos líderes do Foro de São Paulo, clube bolivariano do qual o senhor Garcia é sócio-fundador. Ele tem o título de Assessor Internacional da Presidência. De fato, é ele, e não a presidente, quem conduz a diplomacia brasileira: daí a relevância do embuste.»

Aloysio Nunes Ferreira, presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado da República. A declaração, publicada pelo Estadão, foi dada na esteira da humilhação assestada aos parlamentares brasileiros que se deslocaram a Caracas dois dias atrás. O senador refere-se a Marco Aurélio «top-top» Garcia.

Diplomacia espezinhada

José Horta Manzano

Ignorantes e deslumbrados, os incapazes que assumiram o comando da nação há 12 anos precipitaram-se ao pote de mel, que era o que realmente lhes interessava. Ávidos mas ingênuos, não se deram conta de que o Brasil não é um planeta isolado. Sua visão estreita não lhes permitiu enxergar a importância da inserção de nosso País em circuitos adequados e proveitosos.

A prova desse desprezo pela diplomacia e pelas relações internacionais foi dada com a nomeação, para cargos de responsabilidade crucial, de gente que não é do ramo. No Ministério das Relações Exteriores, titulares entram e saem. Tão pouca importância é atribuída ao cargo, que pouca gente saberia dizer quem é o atual titular. Por detrás da figura do ministro oficial, porém, paira uma sombra sinistra.

Dilma e GarciaRefiro-me a um certo senhor Garcia, cujo nome ficará para sempre associado ao epíteto “top-top”, de triste memória. Sem formação diplomática, o homem é uma espécie de elétron livre no organograma do governo. Na teoria, não passa de assessor sem função definida – um «aspone», como qualificam línguas vulgares. Na prática, sua influência nefasta está entre as principais responsáveis pelo amadorismo e pela tacanhice de nossa política externa. O personagem está entre os fundadores do Foro de São Paulo – isto talvez explique aquilo.

Não bastassem os 12 anos de constrangimento que esse senhor já contribuiu para nos impingir, o vexame continua. Em entrevista concedida ao Estadão e publicada ontem, senhor Garcia se pronuncia como se ministro de Relações Exteriores fosse.

Foro Sao Paulo 1À pergunta sobre se nosso governo vai chamar o embaixador na Venezuela para consultas – código diplomático para exprimir forte desagrado –, o «assessor» é taxativo: «Isso não está em cogitação. O governo brasileiro já se manifestou contra atos extremados e não é o caso de dar mais extensão a esse episódio.»

Levando em conta que dona Dilma & companhia andam, neste momento, atazanados por problemas mais prementes, é de duvidar que se preocupem com assuntos menores, como política externa. Senhor Garcia periga continuar poluindo nossa imagem e emperrando nossas relações com o mundo civilizado.

Tempos difíceis

José Horta Manzano

Os tempos andam complicados para todos – mais para uns que para outros. Para o partido que dominava a cena política federal até poucos meses atrás, o momento é mais que espinhoso. Depois que perderam a hegemonia, seus afiliados estão tentando colar os cacos.

O instantâneo tomado ontem no Congresso Nacional do PT deixa perceber que, por detrás de sorrisos de triunfo, há muita preocupação. Vejamos dois detalhes:

Dilma 12Interligne vertical 14A bancada oficial é ornada pelas bandeiras do Brasil, da Bahia e do partido. Detalhe sintomático: a bandeira nacional ocupa a posição central, jogando a do partido pra escanteio.

Nos tempos áureos, teriam vindo todos de roupa vermelha. Hoje, dado que o partido está irremediavelmente associado à roubalheira e à bandidagem, o vibrante vermelho-revolução – marca registrada da agremiação – foi substituído pela sem-gracice do traje de todos os dias. Alguns até de camisa pra fora da calça, composição pra lá de chique.

Pra finalizar, fato singular, importante e inquietante: a presença da presidente da República. A pessoa que acumula as duas funções maiores – chefe do governo e chefe do Estado brasileiro – deve ter a sabedoria de pairar acima de partidos. No momento em que foi eleita, dona Dilma deveria ter passado a distanciar-se de comemorações e festejos partidários. Faz parte da liturgia da função.

Dilma e Lula 2A presidente não fez mera visita de cortesia. Foi parte integrante e figura capital do convescote. Dado que nunca foi vista em convenção de nenhum outro partido, fica a certeza de que não é a presidente de todos os brasileiros, mas somente do partido do «nós». O «eles» fica de fora.

No fundo, é melhor assim.

Frase do dia — 244

«Se a doutora Dilma for pedalar na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas com sua bicicleta importada, da grife Specialized (R$ 2.350), no mínimo ficará sem o brinquedo.

A doutora defende a proteção à indústria brasileira, mas pedala bicicleta americana e, durante a campanha eleitoral, foi fotografada calçando sapatos de Louis Vuitton.»

Elio Gaspari em sua coluna d’O Globo, 7 jun° 2015.

Pensando bem – 7

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Pra fazer uma sondagem
e encontrar opinião,
é preciso ter coragem,
escapar da malandragem,
caprichar na rechecagem
e contar tudo ao povão.

Um instituto conhecido
pela sua exatidão
anda quieto e encolhido
já não diz mais ter ouvido
a voz da população.

Pesquisou, já várias vezes,
o tal grau de aprovação
do governo do País.
Mas agora, já faz meses
que me deixam infeliz:
não há mais publicação!

O silêncio é contundente
e me deixa encafifado.
No fundo, quem me garante
que, neste Brasil amado,
inda temos presidente?

A presidente não mentiu

José Horta Manzano

Brasilia 3Grande injustiça vem sendo perpetrada contra nossa presidente. Ok, ok, a mandatária está longe de ser aquela que deixará as melhores lembranças nos futuros livros de história, mas, assim mesmo, nem tudo é tão ruim.

Todos a condenam por ter prometido e não ter cumprido. Pior: por ter jurado que seguiria um caminho e, na hora do vamos ver, ter caminhado na direção oposta. O presidente que mente ao povo se equipara àquele que bombardeia os súditos. Traidor.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

É verdade que, até a semana passada, vivíamos com a insuportável sensação de termos sido vítimas do conto do vigário. A candidata Dilma, que nos tinha prometido fontes de mel e fim do drama, nos despejava fontes de fel e mar de lama. Uma frustração.

Felizmente, um fato surpreendente ocorrido semana passada veio esclarecer tudo. Dona Dilma não havia mentido, não, senhor. Éramos nós que, ignorantes, não havíamos entendido. A mensagem era, no entanto, clara. Fomos nós que não tivemos lucidez suficiente pra captar-lhe o sentido profundo.

Vamos dar a César o que é de César. Bem antes que a campanha presidencial tivesse início, a candidata Dilma havia garantido que, reeleita, implantaria no Brasil o padrão Fifa. Ninguém acreditou. Ela repetiu. Continuamos não acreditando. Pois os acontecimentos de Zurique afastam toda dúvida: a presidente havia dito a verdade.

Dilma Blatter 2A realidade é que poucos sabiam o que vinha a ser o tal padrão Fifa. A crença generalizada era de que fosse sublime, limpo, reto, livre de impurezas, moderno – em uma palavra: civilizado. A candidata, enfronhada na política desde outros carnavais, certamente sabia. Se pecou, foi por omissão: absteve-se de explicar aos eleitores o que vinha a ser o novo padrão.

Que não seja por isso: o destino se encarregou de esclarecer. O planeta inteiro agora sabe que o padrão Fifa é composto por roubalheiras, mentiras, traições, golpes de palácio, vinganças pessoais, vaidades exacerbadas, corrupção instituída em sistema, cooptação, compra de votos, inveterada cara de pau, ausência de escrúpulos, espírito corporativo, menosprezo pela inteligência alheia.

Fifa 1Não precisa argúcia especial pra identificar escandalosa semelhança entre o padrão Fifa e o padrão brasileiro. A candidata estava certa – errados estávamos nós. Faz quatro anos e meio que ela nos conduz pela senda encantada, tal como havia prometido.

Alegria, conterrâneos! Estamos quase lá!

Fim melancólico

José Horta Manzano

DécouragementNão precisa ter bola de cristal pra se dar conta de que o futuro do Lula não é radioso como todos imaginavam até seis meses atrás. O homem – que muitos consideram inteligente, mas que eu julgo apenas astucioso e oportunista – não consegue entender o que lhe está acontecendo.

Persistindo na crença de que foi o melhor presidente que essepaiz já conheceu, não atina com os motivos pelos quais ele e seus companheiros passaram a ser rejeitados. Dado que é virtualmente impossível adivinhar os pensamentos que circulam nos meandros do cérebro alheio, a gente pode, no máximo, conjecturar. No caso do Lula, tenho uma hipótese a propor.

Feuille morteDesde o tempo em que liderava metalúrgicos, ele entendeu que o mundo é um jogo de interesses. Toma lá, dá cá. Eu lhe dou isto, você me dá aquilo. A utilização intensiva da fórmula garantiu-lhe vasto círculo de ‘amigos’ e assegurou-lhe ascensão até o posto máximo da República.

Não há notícia de que o Lula jamais se tenha mostrado embaraçado com alguma falcatrua ocorrida à sua volta. Parece-lhe normal que dinheiro e favores circulem por debaixo do pano – faz parte do toma lá, dá cá. Daí ser-lhe impossível entender a razão da cólera popular, agora que escândalos estão sendo revelados. Nosso líder está sinceramente atônito, embasbacado, sem entender o porquê de reação tão negativa contra uma prática que lhe parece corriqueira e indispensável.

Arvore 1A Folha de São Paulo deste 18 maio traz artigo contando que nosso guia criou um ‘grupo para o futuro’, roda formada por alguns dos poucos amigos que lhe restam. Juntos, procuram solução pra vitaminar hipotética candidatura do líder a um terceiro mandato presidencial.

Os componentes do grupo fazem pensar num abraço de afogados. O taumaturgo não está só. A seu lado, estão outros personagens tão ou mais desprestigiados que ele: Antonio Palocci (ministro da Fazenda demitido), Alexandre Padilha (candidato malsucedido ao governo paulista), Fernando Haddad (prefeito paulistano mal-amado). São esses os mais conhecidos.

MorroO Lula devia ter pendurado as chuteiras no dia em que entregou a faixa presidencial à sucessora. Tivesse feito como grandes personagens do passado, que saíram de cena no auge da carreira, teria ficado na memória nacional como grande líder.

Não o fez porque queria mais. Preferiu continuar no palanque sem se dar conta de que, depois de ter chegado ao topo da montanha, só pode descer. Tem descido. É melancólico.

Jeitinho danoso

Tribunal 2José Horta Manzano

Escrevo antes do exame de admissão ao STF pelo qual deverá passar, logo mais, o candidato indicado por dona Dilma. Desconheço, portanto, o resultado. Mas tenho considerações a respeito.

O que se passa estes dias é o retrato do Brasil, um exemplo acabado do «jeitinho» brasileiro, prova maior da indisciplina, da desorganização, da leniência de nossa sociedade. Muitos se orgulham dessa faceta nacional – não é meu caso.

Tribunal 4Segundo a Constituição, os poderes da República são harmônicos e complementares. Nenhuma hierarquia há entre eles. Portanto, fazer parte do colegiado que encabeça o STF é estar no topo da hierarquia, tanto quanto o presidente da República.

Presidente, muda-se a cada quatro anos, quando nos é permitido despachar o antigo pra casa e eleger outro. Escolha de ministro de STF deve ser feita com cuidado redobrado, dado que o cargo é vitalício. Com a escolha de mau titular, quem se dana é o País. Ninguém poderá tirar o homem de lá.

Tribunal 5Pela natureza do cargo, é conveniente que juízes exibam perfil neutro. Essa recomendação de imparcialidade vale sobretudo para juízes-mores. Melhor será que não tenham (nem tenham tido) proximidade com movimentos radicais, com partidos políticos, nem com teorias extremistas, revolucionárias ou sectárias. Serem conhecidos por suas opiniões sensatas, é o mínimo que se pode exigir.

O atual candidato à vaga do Supremo não se encaixa nesse perfil. Pelo que o Brasil inteiro ficou sabendo estes dias, o postulante comunga com ideias próximas às de movimentos radicais. Pior que isso, está demonstrado que passou por cima da lei ao aceitar posto na Procuradoria Pública ao mesmo tempo que continuava exercendo como advogado privado.

Tribunal 3Dona Dilma, amparada por seus assessores, não pode alegar ignorância desses fatos. Não devia, portanto, ter nomeado esse indivíduo para posto tão importante. Ao indicá-lo, a presidente fez exatamente como ele: pisoteou a Constituição, o decoro e o bom senso. Tentou “dar um jeitinho”, contornar leis e regras. É revoltante assistir ao menosprezo do interesse da nação em prol das conveniênciais pessoais da presidente e da nomenklatura que lhe assiste.

Que o senhor Fachin seja ou não aprovado pelos parlamentares é de somenos. O pior passo já foi dado pela presidente ao indicá-lo para o topo do STF. Se não quiserem descer mais um degrau na pouca consideração que a nação ainda lhes devota, os congressistas têm de repudiar o postulante. É o mínimo que podem fazer para remendar o tremendo erro presidencial.

Interligne 18c

Facchino 3Curiosidade etimológica
Fachin (pronuncie Faquín) é forma dialetal vêneta do italiano facchino. Provém do árabe faqih, que designava, na origem, um doutor, um sacerdote, um teólogo ou um juiz – pessoa importante.

Facchino 2Ao entrar na língua italiana, o termo foi perdendo majestade. Com o decorrer do tempo, passou a significar superintendente, controlador de alfândega. Decaiu, em seguida, para designar um escrivão. Continuou perdendo importância. Alguns séculos atrás, adquiriu o sentido de vendedor ambulante, mascate.

Facchino 1Hoje chegou ao fundo do poço. Facchino é como são chamados os carregadores de malas, os descarregadores de caminhão, os que transportam objetos pesados. Aliás, a palavra faquino existe, com o mesmo sentido, em nossa língua. Mas seu uso é pra lá de bissexto.

Esperemos que a (provável) sagração de nosso Fachin nacional não signifique a decadência da função de ministro do STF.

Rapidinha 30

José Horta Manzano

«Para se preservar, Dilma celebrou o 70° aniverário do fim da Segunda Guerra em lugar fechado e protegido. Antes dela, o último chefe de Estado a ficar em lugar fechado e protegido em evento ligado à Segunda Guerra chamava-se Adolf Hitler.»

Historinha entreouvida por aí.

O maior erro

Cláudio Humberto (*)

Trombar com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha foi, para Lula, o maior erro político de Dilma, cometido por influência de Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Lula acha que Dilma errou ao hostilizar Barack Obama, no caso da espionagem, e a Indonésia, pela execução do traficante Marco Archer. Segundo Lula, Dilma deveria ter feito a visita de Estado a Washington, que ela cancelou, e respeitado as leis internas da Indonésia.

Ao criticar Dilma, Lula esquece um detalhe: a culpa é dele, por dar cartaz ao aspone Marco Aurélio Top-Top, que define a política externa.

(*) Cláudio Humberto, jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Quem diria

José Horta Manzano

Panelaço 1O próprio de um partido que nasceu com vocação para defender os trabalhadores é exatamente advogar em favor de seus tutelados, os que trabalham. E qual é a data mais emblemática de exaltação da classe laboriosa? O primeiro de maio, cáspite! De Moscou a Pequim, de Paris a Buenos Aires, a Festa do Trabalho é dia dedicado a mostrar conquistas e a expor anseios.

Desde os tempos de Getúlio Vargas, dirigentes brasileiros valeram-se da data para marcar presença e para mostrar quão identificados estavam com a causa dos que vivem do trabalho – a maioria dos cidadãos em suma. Não é ocasião que se perca.

Vaia 1Pois este ano, nossa presidente não ousará se mostrar diante de microfones de rádio nem à frente de câmeras de tevê. Desprezada e desprestigiada, foge de vaias, apupos e panelaços. Manda dizer que não está.

C’est tout un symbole! – diriam os franceses. É sintomático. É sinal dos tempos. É a comprovação de quanto o Partido dos Trabalhadores se apartou daqueles que eram a razão de sua existência. Como é que pode?

Agrupamentos políticos, quando sentem risco de degeneração, tomam iniciativas para reerguer-se. Mudam de nome, mandam dirigentes para o ostracismo, reconhecem erros, prometem fazer melhor, alteram programas, exibem humildade, mostram que se estão transformando.

Panelaço 2O partido ao qual (ainda) é afiliada nossa presidente é altivo e arrogante demais. Obstina-se a negar a evidência. Garante que nunca se desviou do caminho virtuoso. Recusa-se a encarar a realidade. Saúda membros condenados à cadeia como se heróis fossem. Persiste nos erros que o levaram à perdição e que perigam levá-lo à extinção.

É difícil de entender. Pensando melhor… talvez não seja tão difícil assim. Falta-lhes discernimento. Naquele clube, a limitação da capacidade mental não é exceção: é regra. As poucas ideias «brilhantes» têm vindo de marqueteiros, aqueles mercenários apolíticos que apenas emprestam seu talento contra pagamento. Infelizmente, tais «sacadas geniais» não passam de slogans vazios, sem amanhã, com prazo de validade limitado.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

A cada dia que passa, fica mais claro que o partido, em sua forma atual, não é viável. Se, na primeira Festa do Trabalho deste novo mandato, nossa dirigente já se sente obrigada a esconder-se atrás de um biombo para não sofrer panelaço, como enfrentará a mesma data no ano que vem? E no seguinte? E no outro? Não será fácil para ninguém. Nem pra ela, nem pra nós.

Dilma e o contrato milionário

Cláudio Humberto (*)

A economia está em frangalhos, o governo aplica calote até em programas sociais, mas a presidente Dilma contratou por R$49 milhões a empresa “Shows Serviços de Festa”, com o objetivo de tornar mais festivos os seus eventos. O caso guarda certa semelhança com o Baile da Ilha Fiscal, em 1889, quando a realeza se divertia na mais luxuosa festa da história do Império às vésperas da Proclamação da República.

Ilha Fiscal 1Os R$ 49 milhões da empresa de festas contratadas por Dilma seriam suficientes para construir 530 casas populares ao custo de R$ 93 mil.

Pago com verba reservada ao socorro a flagelados da seca no Ceará, o Baile da Ilha Fiscal foi marcado pelo excesso e pela extravagância.

O Baile da Ilha Fiscal consumiu 10% do orçamento do Rio de Janeiro. A empresa de festas contratada por Dilma, o equivalente a 1,4 milhão de bolsas família.

(*) Cláudio Humberto, jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.