Ofensa pode custar caro

José Horta Manzano

Pelo tamanho do país, até que o Brasil não exporta tanta fruta assim. Aqui na Europa, alguns anos atrás, até que se via, aqui e ali, algum produto brasileiro. Hoje em dia, mais e mais se vê uva do Chile, goiaba da Tailândia, abacaxi da Costa do Marfim, banana-maçã das Ilhas Canárias, figo da Turquia, laranja da África do Sul.

Alguma importação do Brasil haverá, mas não sobressai. Não sou especialista na área, daí não saber explicar a razão da mudança que se opera estes últimos anos. Chutando, eu diria que o volume de certas exportações específicas (suco de laranja, por exemplo) aumentou muito e acabou por encobrir o encolhimento de outras vendas. Se alguém souber mais, todo esclarecimento é bem-vindo.

Acabo de ler um artigo no site da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Fala justamente da exportação de frutas brasileiras para o imenso mercado árabe. Comparado com o que se exporta para a Europa, EUA, Canadá e até para a China, o volume de vendas a países árabes é modesto. Mas o importante são as perspectivas de crescimento.

A Câmara de Comércio informa que, de 2018 para 2019, o aumento foi de 34%. É considerável para um ano só. A continuar assim, o mundo árabe vai logo se tornar importante cliente do Brasil nessa área também.

Alguém precisa avisar, sem demora, a doutor Bolsonaro. Embora esteja entre os grandes, o Brasil não é o único produtor de frutas. Muitas outras nações estão aí, grudadas, na fila, só esperando a ocasião pra abocanhar mercados. Se nosso admirável doutor – especialista em soltar ofensas gratuitas e gerar confusões evitáveis – continuar batendo na tecla da mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, afastará esse mercado florescente e será o único culpado de o Brasil perder mais essa.

Futuro mais escuro

José Horta Manzano

Bandeira Brasil ChinaA bolsa de valores é, por natureza, arisca e desconfiada. Um rumor, um boato, um soluço pode desestabilizar mercados. No entanto, embora seja imediata, o mais das vezes a reação não vai além da epiderme. Não desce ao osso.

Os mandachuvas de Pequim, por razões que lhes dizem respeito, desvalorizaram a moeda nacional três vezes semana passada. As bolsas chinesas sentiram o baque e desmoronaram carregando as do resto do mundo.

Pra lá do susto – que já está passando – fica a realidade que, para o Brasil, é pra lá de preocupante. Desde que nosso país passou a ser governado por incapazes, a porção de manufaturados em nossa pauta de exportação tem decrescido.

O empenho em fazer surgir – do nada – campeões em determinadas categorias (cf. Eike Batista, Odebrecht, Lulinha & cia) fez que o resto da indústria nacional, abandonada, fosse aos poucos perdendo terreno para produtos chineses. Em termos crus, o Brasil deu um salto pra trás e voltou a ser exportador de matéria-prima, como acontecia nos anos 50.

Chinês 2Nestas duas últimas décadas em que o crescimento da China deixou o mundo boquiaberto, o processo de sujeição do Brasil à potência extremo-oriental se acelerou. Acreditando que os ventos favoráveis soprariam até o fim dos tempos, nossos imprevidentes mandatários se jogaram de cabeça. Em matéria de comércio internacional, o Brasil avassalou-se e tornou-se mero satélite da China.

Brasil e ChinaAs consequências do enfraquecimento do crescimento chinês nos atingem de maneira direta e duradoura. A China, além de ser grande consumidora de petróleo, tem avidez por alimentos e outros insumos que o Brasil lhe fornece. Com a diminuição da demanda, é inevitável que os preços desabem. A partir do momento em que soja, ferro, carne, suco de laranja passam a ser menos procurados, sua cotação nos mercados internacionais tende a cair.

É péssima notícia para o Brasil atual. À crise generalizada que vivemos, vem-se acrescentar queda na receita das exportações. Não precisávamos de mais esse «efeito colateral» da miopia com que temos sido governados.