Não tinha outro jeito

José Horta Manzano

James Bond

Custou, mas não tinha outro jeito. Sabe quando a gente faz alguma coisa, não por vontade, mas porque não há como escapar? Pois foi o que fez nosso requintado governo no caso de señor Roger Pinto Molina, aquele senador boliviano que, tempos atrás, se tinha refugiado na embaixada do Brasil em La Paz.

O caso, que se arrasta há mais de três anos, anda meio esquecido. Também, pudera: no lamaçal que escorre atualmente, assunto abaixo de um bilhão não interessa a ninguém.

Sentindo-se perseguido pelo governo de seu país, o senador boliviano pediu asilo em nossa embaixada em maio de 2012. Fortemente contrariado em sua tacanha ideologia, nosso governo resolveu passar por cima dos usos e costumes internacionais em matéria de asilo político.

Em vez de pressionar para que Evo Morales concedesse salvo-conduto permitindo ao refugiado viajar até o aeroporto e embarcar para o Brasil, o Planalto fez corpo mole. Para não ferir susceptibilidades bolivarianas em La Paz, engavetaram o assunto e esqueceram o perseguido.

Roger Pinto 2Meses mais tarde, um funcionário da embaixada, condoído da sorte do infeliz, lançou-se numa aventura rocambolesca, digna de filme de James Bond. Acabou trazendo o senador, por vales e montes, até território brasileiro. Foi aí que a coisa pegou feio. A atitude do funcionário indignou o Planalto que, enfurecido, espalhou censuras e punições. Cabeças rolaram. Até nosso ministro de Relações Exteriores foi defenestrado, tamanha era a ira de nossos estranhos governantes.

Uma vez no Brasil, o interessado continuou num limbo. Diferentemente de signor Battisti, aquele terrorista acolhido com tapete vermelho e banda de música, señor Pinto Molina continuou abandonado à própria sorte. Viveu ao deus-dará por anos, em Brasília, hospedado no quarto de empregada de um conhecido de bom coração.

Faz alguns dias, finalmente, o homem conseguiu o asilo político solicitado em 2012. Como eu disse mais acima, a concessão do asilo veio tardia, espremida, de nariz torcido, a contragosto.

Dilma e Evo

Tout ça pour ça? Tanta história pra tão pouco resultado?, perguntariam os franceses. Fizeram um auê danado – que pegou mal – e, no final, acabaram acolhendo o político. Pergunto: terá valido a pena demitir um ministro da República, como se criminoso fosse?

Francamente, nosso governo não deixa escapar nenhuma ocasião de reafirmar sua pequenez.

Cabo de guerra

José Horta Manzano

Michelle Bachelet presidente eleita do Chile

Michelle Bachelet
presidente eleita do Chile

Michelle Bachelet, presidente eleita do Chile, tomará posse de seu cargo na semana que entra. Aproveitando o embalo, os ministros de Relações Exteriores sul-americanos vão-se reunir para debater os atuais problemas venezuelanos.

Em passado longínquo, era imprescindível que figurões se reunissem para discutir. Na ausência de telefone e de internet, mensagens tinham de ser encaminhadas por escrito. Entre proposições e contraproposições, podiam passar-se meses, anos até.

Essas cúpulas de hoje em dia são encenadas mais pra inglês ver. Na era da videoconferência, decisões são tomadas nos bastidores e dispensam encontros físicos. O resultado mais notável dessas reuniões de medalhões são fotos de grupo que farão as manchetes de todos os jornais.

Grosso modo, o Brasil ocupa metade do território do subcontinente, reúne metade de sua população e responde por metade de seu PIB. Assim como a posição da Alemanha é predominante nas cúpulas europeias, é natural que o peso do Brasil oriente os debates e a conclusão final de todo concertamento regional.

Nada indica, infelizmente, que desse encontro chileno alguma novidade boa possa sair. Por quê? Simplesmente porque nossa alta cúpula se debate em lutas intestinas que a paralisam.

A máquina governamental brasileira aloja ideólogos que, por afinidade, preconizam o alinhamento automático com governos autoritários. Sejam eles de direita, de esquerda, de cima, de baixo, pouco importa. O atual regime venezuelano, autoritário e semidemocrático, encaixa-se perfeitamente no molde.

Por outro lado, nossa abundante equipe de governo abriga também gente menos ingênua, menos cabeça-dura, menos ressentida, mais realista. Há, certo, medalhões que já entenderam que a exacerbação do populismo e do autoritarismo, à moda bolivariana, é caminho certo para o desastre.

Na ausência de um presidente respeitado, daqueles cuja palavra não se discute, os habitués do Planalto travam uma interminável partida de cabo de guerra. Falo daquela brincadeira em que uma corda grossa é puxada por duas equipes, uma de cada lado. O mais das vezes, a corda fica imobilizada, sem se mover para lado nenhum.

Palácio do Itamaraty e seu espelho d'água

Palácio do Itamaraty e seu espelho d’água

A prova maior foi dada dias atrás por nosso chanceler, Luiz Alberto Figueiredo, em entrevista concedida a Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo. A jornalista, íntima da política brasileira, foi direto ao que interessava e pisou onde doía.

O resultado foi constrangedor. Descobrimos um ministro de Relações Exteriores ― diplomata de carreira! ― acabrunhado, envergonhado. Tentou escapulir aos questionamentos, fugir à realidade. Dourou pílulas, divagou, esquivou-se, esgueirou-se, resvalou. O homem é mais «escorregoso» que sabão de lavadeira. É daqueles que falam e falam para, no final, não dizer nada. Um horror.

Tudo isso faz sentido. O desmonte da imagem externa do Brasil caminha pari passu com o desmantelamento das instituições. Essa hesitação entre servir a Deus ou a Mamon deixa a impressão de um país em estado de liquefação.

Interligne 18c

A quem não leu, recomendo uma vista d’olhos à entrevista do chanceler. É edificante. Clique aqui.