Rei na barriga

José Horta Manzano

Você sabia?

Futebol ZlatanA imodéstia não é atributo privativo de figuras como nosso guia. Volta e meia, topa-se com um daqueles tipos que parecem ter o rei na barriga.

Contratado quatro anos atrás pelo Paris St-Germain, o futebolista sueco Zlatan Ibrahimovic (de origem bósnio-croata) teve boa atuação. Aos 35 anos de idade, conhecido por sua imodéstia, o atleta já anunciou sua saída do clube ao final da temporada.

O passar dos anos não acalmou a soberba do rapaz. Às vésperas de pendurar as chuteiras, declarou no twitter: «My last game tomorrow at Parc des Princes. I came like a king, left like a legend.» ‒ “Meu último dia amanhã no Parc des Princes. Cheguei como um rei, vou-me embora como um mito”.

Haja modéstia! Nunca antes nesta arena se tinha visto tamanha empáfia. Ou o distinto leitor que coisas assim só acontecessem pelas bandas do Planalto?

Où sont les femmes?

José Horta Manzano

Patrick Juvet, cantor e compositor suíço, fez discreto sucesso nos anos 1970/1980. No Brasil, pouquíssima gente deve ter ouvido falar do moço. Na onda da música tipo ‘discoteca’, à moda na época, seu maior sucesso foi «Où sont les femmes?»Onde estão as mulheres?

Primeiro ministério Temer, 12 maio 2016

Primeiro ministério Temer, 12 maio 2016

Esquecido, o artista vive hoje no ostracismo. A foto do primeiro ministério Temer me levou de volta a 1977. Aquele monte de senhores, de terno escuro e gravata idem, parece um grupo sério. Esperamos todos que a impressão corresponda à verdade. Mas… où sont les femmes?

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Entendo que as qualidades do bom ministro não guardam correlação automática com sexo, cor de pele, crença religiosa, orientação sexual. Assim mesmo, francamente, qualquer psicólogo de botequim recomendaria a inclusão de uma ou duas mulheres, nem que fosse pela simbologia. Afinal, estamos falando da metade da população do Brasil.

Enfim, se der certo e, principalmente, se nos livrar da bandidagem grossa que nos dominava, fecharemos o olho.

Extorsão

José Horta Manzano

O verbo latino torquere deixou descendência abundante. Está na raiz de torcer, distorcer, contorcer, retorquir, torto, torso, entortar, tocha. Aparece também em derivados como torção, distorção, tortuoso, retorção (retorsão), tortilha, contorção, torta. Torcedor, tortura, tortellini e até torcicolo estão na mesma árvore genealógica.

Deixei fora da lista um filhote importante: extorquir. Nestes tempos violentos em que bandidos fazem a lei, o verbo anda muito na moda. O assaltante que, num sequestro relâmpago, obriga o infeliz cidadão a retirar dinheiro do caixa eletrônico está cometendo extorsão. O criminoso que chantageia alguém está tentando extorquir algo da vítima, geralmente dinheiro.

Chamada do Estadão, 12 maio 2016 A moça não foi extorquida. Informações foram extorquidas (arrancadas por ardil ou violência)do telefone dela. Em seguida, o pirata tentou chantageá-la.

Chamada do Estadão, 12 maio 2016
A moça não foi extorquida. Informações é que foram extorquidas (arrancadas por ardil ou violência) do telefone dela. Na sequência, o pirata tentou chantageá-la. Ficou na tentativa.

O conceito envolve sempre a violência, explícita ou velada. Extorquir é obter alguma coisa de alguém por meio violento ou ameaçador. Portanto, não se extorque uma pessoa, extorque-se algo dessa pessoa.

Embora seja corriqueiro dizer que «fulano foi extorquido», a boa língua recusa essa formação. Correto será dizer que dinheiro foi extorquido do indivíduo assaltado ou que a confissão foi extorquida por meio de pressão psicológica.

Em resumo, a coisa é que é extorquida, não a pessoa. Extorquir equivale a arrancar com violência. Portanto, arrancar algo de alguém.

Fiz um gato

José Horta Manzano

Gato escondido 2As coisas, às vezes, acontecem na hora errada. Aliás, para coisas indesejadas, nenhum momento é propício. Pelas 11 da noite de ontem, quando costumo dar uma espiadinha na internet pra saber das novidades, não consegui entrar no primeiro site. Tentei um segundo, e nada. Depois do terceiro site fora do ar, tive de reconhecer que o sinal estava interrompido.

Aqui em casa ‒ como é comum por estas bandas ‒, eletricidade, televisão, telefone e internet são fornecidos pela mesma empresa. Como é a fiação? Não sei. Talvez venha tudo pelo mesmo buraco. Técnica, física, matemática e mecânica celeste nunca foram meu ponto forte. Fato é que ontem, de golpe, perdemos internet e telefone fixo. Por sorte, a eletricidade e a tevê continuaram firmes e fortes.

Na Suíça, depois do horário comercial, assistência técnica é tão difícil de achar como agulha em palheiro. A melhor notícia que o «serviço de emergência» da fornecedora conseguiu me dar é que um técnico entraria em contacto comigo na manhã seguinte. Tá.

Gato 1Que fazer? Nada. Panes aqui são muito raras, o que faz que a gente não esteja preparado para elas. Só pra dar uma pequena ideia, nenhuma casa tem caixa d’água. Nunca se ouviu falar nesse apetrecho. Armazenar água em casa, para um suíço, soa tão fora de esquadro como instalar sistema de calefação em Manaus.

Eis senão quando me vem à memória que, anos atrás, por razão que ora me escapa, chegamos a utilizar, por curto período, o sistema wi-fi do vizinho de parede. Com anuência dele, evidentemente. Na época, ele gentilmente nos forneceu a senha de acesso.

Gato escondido 16Aquela situação excepcional durou pouco porque logo tomamos assinatura internet e nunca mais utilizamos o sem-fio do vizinho. Só ontem, no momento da pane, a coisa me voltou à lembrança. O velho laptop que usávamos na época, embora já aposentado, não foi jogado fora. Aqui em casa, ninguém se lembrava mais da senha do vizinho mas… o velho computador de colo, que bobo não é, não se esqueceu. Como o vizinho é assinante de outra empresa, seu sinal estava perfeito.

Retirada temporariamente da aposentadoria que gozava no porão, a maquineta ressuscitou. Aparentemente orgulhosa de voltar à ativa, mostrou seriedade ao captar sem problema o sinal do vizinho, armazenado em sua inesgotável memória. É verdade que a velha maquininha é de uma lentidão à qual não estamos mais acostumados. Mas é sempre melhor que nada.

Graças a ela, pudemos assistir, ao vivo, à destituição do Lula. Não foi um lapso. Para mim, dona Dilma não passou de comparsa desastrada. Os escorraçados foram Lula & caterva.

Fiz um gato que valeu a pena.

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Observação
O vizinho de parede, a quem deixo aqui meu agradecimento, mantém o apartamento montado embora raramente esteja por aqui. Estes dias, por exemplo, está de viagem.

Só para terminar: depois de 12 horas, internet e telefone voltaram.

Pensamentos soltos ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma senadora petista tem repetido compulsivamente uma analogia para convencer seus colegas e a população de que o impeachment é golpe: “É como condenar à morte uma pessoa por ela ter cometido uma infração de trânsito”.

Golpe 1Data venia, Excelência, o que está acontecendo na minha visão é que a tal pessoa foi pega dirigindo embriagada e se recusa a aceitar perder a carteira, como prevê a lei, argumentando que só tomou cerveja – e que cerveja é sabidamente uma bebida não alcoólica!

Dilma está repetindo, sem querer e sem ter consciência disso, uma frase do famoso escritor português Luís Vaz de Camões: “Amei tanto minha pátria que não me contentei em morrer nela, mas com ela”.

Bebida 4Só que com uma diferença importante: enquanto o lusitano se desesperava com os rumos que maus governos haviam dado à sua pátria, a brasileira vem contribuindo com extremo empenho e eficácia para promover o fim trágico da nossa.

Sei não. Para mim, José Eduardo Cardozo quase conseguiu provar que uma decisão monocrática do presidente da Câmara dos Deputados pode ser danosa para todo o país e que constitui, sem dúvida, um golpe contra o Estado democrático de Direito.

Golpe 2Falhou no seu intento por apenas 72% do total da meta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dilma e o nicho 38

José Horta Manzano

Hoje, amanhã ou daqui a um par de dias, dependendo das surpresas que nos reservem as mambembes sumidades que ainda servem o Planalto, dona Dilma vai-se embora pra casa. E já vai tarde.

Afabilidade nunca foi o ponto forte da «presidenta». Orgulhosa e arrogante, já mandou avisar que não desce a rampa de jeito nenhum. Só cumpre ritos que lhe sejam favoráveis. Esse, naturalmente, não é. Donde recusar-se a segui-lo.

Há antecedentes. Ao terminar o mandato, João Baptista de Oliveira Figueiredo, último presidente militar, recusou-se a passar a faixa a José Sarney, seu desafeto. Desatou o nó de maneira pouco cavalheiresca: escafedeu-se pela porta dos fundos.

Tivesse passado a faixa como manda o figurino, todos já se teriam esquecido. Como fez o que fez, deixou marca na história. Entre outros tropeços ‒ e foram muitos ‒, será lembrado por esse também. Para sempre.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Se dona Dilma já não é conhecida por qualidades de estadista, seus dons de visionária são ainda menos evidentes ‒ para não dizer nulos. O guru marqueteiro está fora do ar, atrás das grades. O padrinho, nosso guia, anda sumido, calado, apagado, torcendo pra passar despercebido.

Por tudo isso, é compreensível que dona Dilma tenha decidido sair pela porta dos fundos. Ela parece não ter consciência de estar acrescentando mais uma pincelada negativa ao próprio retrato. Como Figueiredo, será lembrada como «aquela que saiu pela porta da cozinha».

Temerário será acreditar que volte a subir a rampa um dia. Suas chances de voltar ao trono são quase iguais às de bolinha de roleta cair no nicho 38, aquele que não existe. No entanto ‒ nada é impossível ‒ a vida pode dar um boléu. A moça pode até estar de volta daqui a 6 meses.

Caso essa desgraça acontecesse, dá pra imaginar como seria o fim de mandato da petista? Dois anos de agonia interminável, discussões, discórdia, bate-boca, Parlamento paralisado, boicotes, bloqueios, enraizamento da cisão «nós x eles», greves, dólar nas alturas, capitais fugindo, nosso país rebaixado a nível bananeiro, descontentamento generalizado. Verdadeira guerra civil à brasileira.

Misericórdia, Senhor! Melhor nem imaginar. Não há de acontecer.

Visto de cá, visto de lá

José Horta Manzano

PoteauVisto de cá
Nossos conterrâneos roraimenses vivem no único Estado da Federação apartado da rede elétrica nacional. Por motivos que vêm de longe, um convênio entre Brasília e Caracas prevê que as necessidades elétricas de Roraima sejam supridas pela Venezuela.

O acerto funcionou enquanto certa normalidade reinava no país vizinho. As necessidades energéticas roraimenses não sendo enormes, o fornecimento não costumava gerar problema para os venezuelanos.

Desde que o viés populista ‒ dito «bolivarianismo» ‒ passou a dar as cartas no país caribenho, a situação começou a desandar. Desvios de recursos e sucateamento da infraestrutura provocaram desorganização geral. A energia elétrica destinada a Roraima não escapou dos efeitos do desmonte.

O portal Ecoamazônia nos informa sobre o aperto por que vem passando o meio milhão de habitantes do Estado do Norte brasileiro. Transformaram-se em reféns da crise venezuelana. Estão submetidos ao mesmo racionamento que castiga os hermanos.

Monte Roraima

Monte Roraima

Residências, escritórios, fábricas, cinemas, sorveterias, lavanderias e todos os que dependem da energia elétrica estão contabilizando dores de cabeça e perdas financeiras. Enquanto tudo funcionava, ninguém se preocupou. Agora que os apagões se multiplicam, fica evidente a falta de visão dos que tomaram a decisão de se submeter à dependência estrangeira.

Rede de distribuição não se constrói em 24 horas. Por um bom tempo, nossos conterrâneos ainda hão de sentir os efeitos daninhos de uma escolha pela qual não são responsáveis. Ainda que Roraima não seja um Estado de excepcional importância econômica na União, seus habitantes merecem, como todos os outros, ser bem tratados. Chegou a hora de investir na interligação com a rede nacional.

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Roraima 2Visto de lá
Artigo deste 8 de maio do diário venezuelano El Impulso grita: «Venezuela regala a Brasil electricidad de venezolanos». Na visão de nossos vizinhos, a eletricidade que lhes falta está sendo «dada de presente» ao Brasil.

Reclamam que, enquanto vende energia ao Brasil por preço irrisório, a Venezuela compra eletricidade da Colômbia pelo dobro do valor. Não sou especialista no assunto. No entanto, entendo que trato é trato. Se o preço combinado foi esse, combinado está. Aliás, se alguém não está cumprindo a obrigação no presente caso é justamente a Venezuela.

Viva o bolivarianismo!

Frase do dia — 299

«Estamos em pleno séc. 21 sem sabermos o que é justiça verdadeira e o que significa a Constituição. Seguimos discutindo se bandido deve ser preso ou aposentado com os proventos integrais, pagos com nossos impostos, e se a divulgação de um homicídio é mais importante do que o próprio cadáver…»

Francisco Vieira, em artigo na Tribuna da Internet, 8 maio 2016.

Ai, que preguiça…

José Horta Manzano

Há de ser birra minha, porque errado não é. Assim mesmo, continuo pasmo com o fato de numerosos escrevinhadores ‒ falo de profissionais ‒ não se preocuparem em fugir da rotina e do ramerrão. Gente de jornal, cujo escrito atingirá milhares de leitores, parece não estar nem aí, como se usa dizer.

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Compreendo que dá menos trabalho copiar ‒ ou, digamos, reproduzir ‒ o que já vem pronto. Pra que fazer se é tão mais prático comprar feito, não é?

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

O Brasil viveu, neste 9 de maio, mais um dia de república bananeira. Confirmamos, a cada dia mais, a veracidade do conceito que imaginávamos definitivamente banido: «O Brasil não é um país sério». Não se sabe direito quem lançou essa desagradável expressão. Seja quem for, havemos de convir que não estava longe da verdade.

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Voltando à preguiça dos que escrevem, reparei na manchete principal da mídia na manhã desta terça-feira. Uma sensaboria. Quase tudo igual.

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

O Estadão (SP), a Folha (SP), O Tempo (BH) usaram os verbos recuar, revogar e anular. A Gazeta do Povo (PR) e Zero Hora (RS) contentaram-se com revogar e anular. Mais econômico, O Globo (RJ) limitou-se a anular.

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

O riquíssimo Dicionário Aulete online ‒ de acesso gratuito, aberto a todos ‒ propõe mais de 800 mil verbetes. A linguagem repetitiva não se deve, portanto, a eventual pobreza vocabular da língua. Continuo acreditando que o problema maior é a preguiça. De quem escreve e de quem supervisiona.

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Vários verbos podem substituir recuar(1): voltar atrás, retratar-se, reconsiderar, abandonar, retrogredir, retroceder, fugir, ceder, desistir, recolher-se, reverter, retroagir, retrogradar, rever, retrosseguir, retrair-se. Há outros, basta procurar.

O mesmo vale para revogar. Conforme o caso, pode ser substituído por: extinguir, cancelar, abolir, eliminar, anular, suprimir, afastar, proscrever, retirar, apagar, subtrair, remover, abandonar, abortar, revocar, cassar.

Interligne 18cCulotte 3Curiosidade etimológica
A gente nem sempre se dá conta, mas algumas palavras de uso corrente derivam de raiz tabuística, daquelas que a gente não pronuncia na frente de senhoras de fino trato.

Falo de recuar, acuar, cueca, cueiro, culatra, culote. São todas derivadas de cu. Surpreendente, não?

O verdadeiro golpe

José Horta Manzano

Em decisão monocrática, o deputado Maranhão, presidente interino da Câmara Federal, acaba de anular decisão tomada, semana passada, por seus pares. Foi aquela em que 367 dos 511 parlamentares presentes (72%) votaram pelo acolhimento do processo de destituição da presidente.

Fico com pena do deputado Maranhão. Ofendeu 72% de seus colegas. Irritou 90% de seus compatriotas. Importunou os 11 ministros do STF. Pra coroar, estimulou a turma de magistrados de Curitiba.

Senhor Maranhão dá mostra de falta de discernimento. Fez o que não devia. Ofender uns, irritar outros, importunar terceiros é perigoso.

Concordo que a turma de Curitiba não tem poder sobre deputados, dada a imunidade parlamentar. Mas cuidado, Maranhão, que eles podem transmitir sua folha corrida para o STF. Aí, a coisa vai ficar preta!

Agora güenta, Maranhão!

Dias certos para sentir

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sei que vou chocar muita gente com o que tenho a dizer, mas vou dizê-lo mesmo assim. Não sei explicar esse meu gosto mórbido em ser do contra, procurar o avesso de toda intenção, manifestar desconformidade com o clima geral de celebração.

Tudo que sei é que não gosto de sentimentos impostos com data marcada. Acordar num dia que, só por estar marcado em vermelho na folhinha, exige de mim todo um preparo emocional para oferecer risos, abraços e gestos de ternura. Manifestar, mesmo sem sentir o impulso vindo de dentro, alegria ou gratidão ou solidariedade ou generosidade.

Dia das maes 3Se é Natal, é preciso entrar no clima de confraternização em família. Se é Páscoa, é necessário lembrar que todo ciclo chega ao fim e acreditar na eterna possibilidade de recomeçar. Se é o Yom Kipur, é imprescindível destravar o peito, reafirmar que somos todos falíveis e perdoar quem não correspondeu às expectativas. Se, ao contrário, o dia é de tristeza compulsória, como o Dia de Finados, é praticamente impossível resistir à obrigação de fazer cara séria, deixar que uma lágrima furtiva escape ou rememorar as qualidades e os momentos felizes vividos junto à pessoa que sentimos como ausente.

Ontem foi o Dia das Mães. As redes sociais lotaram de postagens festivas dos que ainda têm a mãe por perto para abraçar e de declarações chorosas de quem já não tem mais essa oportunidade. Qual o problema? Em princípio, nenhum. Cada um é livre para expressar seus sentimentos pelo ângulo e da forma que desejar. O que me incomoda não é o desejo de homenagear, mesmo que comercialmente, uma pessoa que, bem ou mal, representa a âncora mais firme de que dispomos para nos lançarmos nas águas revoltas da vida.

Dia das maes 2O que me perturba desde sempre nessas ocasiões é a sensação de estar sendo forçada a aderir a um movimento de massa, que nem sequer se dá ao trabalho de auscultar a própria verdade interior. Não poder dissentir, não poder moderar, não poder temperar o caldo afetivo com sabores exóticos, não poder pintar o cenário com outras cores mais pessoais.

Falar das experiências dissonantes vividas nas relações familiares, amorosas, religiosas ou políticas tem o peso de um dedo rigidamente apontado contra todas as pessoas que se renderam ao clima de festa. Não se integrar de corpo e alma à paisagem emocional à sua volta é aceitar o risco de transmitir uma mensagem ambígua ou oposta: não acredito no Deus redivivo, não compartilho da crença de que o recomeço é possível, não consigo sufocar minhas mágoas, não amo minha mãe, não valorizo a vida eterna.

Dia das maes 4Lembro que um dia, durante uma sessão de psicodrama, o terapeuta me chamou ao palco e pediu que eu representasse o papel de uma histérica para contracenar com um homem que enfrentava conflitos com a esposa. Estranhamente, senti de imediato que meu corpo todo havia se paralisado. Não podia gritar, não podia chorar, não podia gesticular, por mais que minha cabeça assim o ordenasse. O terapeuta, então, aproximou-se devagar pelas minhas costas e prendeu com força meus braços para trás. A reação veio com fúria e de chofre: passei a me debater descontroladamente, a me descabelar, chorar e gritar a plenos pulmões. Só um pensamento ocupava minha mente: libertar-me de qualquer maneira daquela contenção indesejada. A crise só terminou quando, vencida pelo cansaço, me deixei desabar no chão, escapando do confronto pelo meio das pernas do terapeuta.

Dia das maes 6Talvez seja isso, afinal, o que se esconde por trás de todos os meus descompassos emocionais. É o que eu sinto por dentro que me move, não o que se espera de mim por fora. Sinto como agressão o desrespeito à espontaneidade do meu estado de humor. Minha paralisia denuncia então, mesmo a contragosto, o meu não-pertencimento, a vontade que não sinto como minha.

Compreendo, é claro, que minha verdade psicológica não é necessariamente a mesma da de outras pessoas, nem acontece forçosamente em sincronia com qualquer outra. Sei que é possível experimentar conforto mesmo quando a gente se deixa levar por uma onda de afeto programado.

Dia das maes 1O que me constrange é não ser capaz de expressar sem agressividade meu apreço pela liberdade interior que todo ser vivente tem – ou deveria ter – de manifestar suas emoções quando, onde e do jeito que quiser. Pela licença autoconcedida de sentir-se triste quando todos estão felizes. De se perdoar por não ser capaz de se enternecer.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Teste primitivo

Elio Gáspari (*)

Bola cristal 1«Saber o que vai acontecer é coisa de cartomante. Apesar disso, sempre pode-se medir a capacidade de uma pessoa de pensar o impensável.

Aqui vai um teste primitivo. Tem cinco afirmações. Quem previu uma delas, é ousado. Quem previu duas é um temerário. Quem previu todas pode abrir uma tenda de cartomante:

   1- Dilma Rousseff não terminaria o mandato.

   2- Eduardo Cunha perderia a cadeira.

   3- Marcelo Odebrecht iria para a cadeia.

   4- Leo Pinheiro, da OAS, colaboraria com a Lava a Jato.

   5- Alemanha 7 x Brasil 1.

Quem foi surpreendido em todos os casos é apenas um brasileiro normal. Os tempos é que estão emocionantes.»

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

O oxigêncio e o silêncio

José Horta Manzano

Jacques, distinto e atento leitor gaúcho, continua vigilante. Nenhum cochilo lhe escapa. Esta semana, encontrou um baita escorregão no G1 sulino.

Notícia do G1 gaúcho, 6 maio 2016 Clique para ampliar

Notícia do G1 gaúcho, 6 maio 2016
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É a história de um desastrado trio de assaltantes de caixa eletrônico. Estavam preocupados em não alertar a vizinhança. No nervosismo do momento, em vez de alimentar o maçarico com oxigênio, usaram… oxigêncio. Adeus, silêncio! Foi um buuum que acordou o bairro inteiro!

Não deu outra: um deles foi ver o sol nascer quadrado. A notícia não deixa claro se foi o maçariqueiro.

O feitiço e o feiticeiro

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 8 maio 2016

Chamada do Estadão, 8 maio 2016

Quem é mesmo que costumava dizer que «eles fica jogano praga ni nóis»?

Quem é mesmo que costumava dizer que «eles torce pro Brasil piorar»?

Quem é mesmo que costumava dizer que «eles não suporta que o Brasil melhora»?

Quem diria…

Dia das Mães

Mae 1José Horta Manzano

Você sabia?

Dias e festas especiais, como o Dia das Mães, têm origem mais antiga do que geralmente se imagina. Muitos acham que nada existia antes de comerciantes americanos começarem a incentivar cidadãos a comprar presente para a mãe. Não é bem assim.

Pouco mais de um século atrás, é verdade, o Dia das Mães se institucionalizou nos Estados Unidos. Diga-se de passagem que o nome oficial da festa é Mother’s Day. O «‘s» final indica que se festeja uma mãe só. A intenção é de que cada família festeje a sua. É o «Dia da Mãe», sutileza quase filosófica.

Na Grécia e na Roma de dois mil anos atrás, homenagens às mães coincidiam com a chegada da primavera. Louvava-se Cibeles, deusa da fertilidade, personagem associada à condição feminina e à perenidade da vida. Já durante a Idade Média, banido o panteísmo, a Virgem assumiu o lugar de antigas deusas. Uma ou outra relíquia desses usos subsistem. No Panamá, por exemplo, mães são festejadas em 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição. (Conceição = concepção = geração.)

Mae 4A maioria dos países adota dia fixo para celebrar as mães, independentemente do dia da semana em que caia. É o caso do México, da Guatemala e de El Salvador (10 de maio). Já o Paraguai uniu o útil ao agradável: aproveitou o dia 15 de maio, dia em que tradicionalmente se comemora Juana de Lara, heroína nacional, para festejar as mães ‒ dois coelhos de uma cajadada só.

Mae 3Na pequena Eslovênia, o dia certo é 25 de março. Na Armênia, o 7 de abril. A Polônia prefere o 26 de maio. Mostrando espírito prático, os sul-coreanos fixaram o dia 8 de maio para a Festa dos Genitores ‒ com isso, comemoram pai e mãe ao mesmo tempo. E vira-se a página.

A França e meia dúzia de antigas colônias africanas determinaram que as mães sejam homenageadas no último domingo de maio. Só que tem um problema. Nos anos em que esse domingo coincide com Pentecostes, as mães têm de esperar uma semana: só serão celebradas no primeiro domingo de junho. E o que é que tem uma coisa a ver com a outra?

Explico. Em vários países europeus, França incluída, a segunda-feira que segue o domingo de Pentecostes é dia feriado. Portanto, o fim de semana prolongado incita muitos a viajar. Turistas nem sempre se lembram de comprar presente para a mãe. A saída encontrada pelos comerciantes foi adiar a «Fête des Mères».

Mae 2O Dia das Mães de nossos hermanos argentinos guarda lembrança de tradição religiosa. Até os anos 1960, o Dia da Maternidade da Virgem era comemorado em 11 de outubro. Por analogia, a homenagem foi-se estendendo a todas as mães. A força do comércio acabou por vencer a tradição. Hoje, a festa das mães está definitivamente fixada no terceiro domingo de outubro, embora a Maternidade da Virgem tenha sido transferida para 1° de janeiro.

Bom número de países dedica o segundo domingo de maio às mães. São mais de 60 a homenageá-las nesse dia. Além do Brasil, a Suíça, os EUA, o Uruguai, a Itália, a Alemanha, a Colômbia, a Dinamarca, o Japão, a Grécia, o Peru, a Austrália e até a China escolheram esse dia.

Um pensamento afetuoso a todas as mães. Às que aqui ainda estão e às que já se foram.

Sistema eleitoral (mal) copiado

Urna 5José Horta Manzano

Ricardo Noblat comentava ontem, no portal que mantém n’O Globo, o afastamento do deputado Cunha determinado pelo Supremo Tribunal Federal. Constatou que o STF fez «o que a Câmara, por fraqueza e corporativismo, se arrastava para fazer, e tudo indicava que nunca faria: extirpar um mal que envergonhava o país embora não envergonhasse a maioria dos deputados».

Está aí resumida a aberração da representatividade política à brasileira. Uma arquitetura eleitoral (mal) copiada de outras culturas e (mal) adaptada a nossa realidade gerou um fosso entre representantes e representados. Tem de ser relativizada a afirmação do populismo mercenário dos últimos anos segundo a qual o Brasil é uma grande democracia.

Eleições, por si só, não caracterizam uma democracia. Votava-se durante a mais recente ditadura militar brasileira assim como na extinta URSS. Sempre se votou em Cuba. Para que reine a vontade popular, a democracia exige outros fatores.

Na democracia representativa, como indica o nome, a população é representada por pequeno grupo de eleitos. O sistema em vigor no Brasil gira em falso. Perversão inerente ao voto proporcional faz que o cidadão vote num candidato e, sem se dar conta, acabe elegendo outro.

Urna 7Pergunte a qualquer de seus conhecidos: ‒ Qual é o SEU deputado federal? Na melhor das hipóteses, ele dirá em quem votou, se ainda se lembrar. E vai parar por aí. O sistema eleitoral brasileiro impede a formação de todo vínculo entre representante e representado. Deputados e vereadores, livres e descompromissados, não sentem dever contas a quem quer que seja.

O cidadão, privado de representante claro e definido, não tem a quem se dirigir nem de quem cobrar. Nem sonhe em interpelar seu deputado para reclamar cumprimento de alguma promessa de campanha. Você será ignorado como se recém-chegado de Marte fosse.

Eleição 1A solução é uma só: aposentar o sistema atual e instaurar o voto distrital puro, sem mistura. É simples. Divide-se o país em tantos distritos quantos forem os deputados federais ‒ atualmente 513. Cada distrito elegerá, em dois turnos, SEU próprio deputado. Só assim cada brasileiro terá seu representante e saberá quem ele é. Assim se estabelecerá o vínculo entre eleitos e eleitores, que tanta falta tem feito.

Esse é o único caminho para evitar que frases como a do primeiro parágrafo continuem assolando o país. É o único modo de fazer que o que envergonha o país envergonhe também os deputados.

Frase do dia — 298

«Coisas da política e do destino: tão diferentes, e por motivos distintos, os arqui-inimigos Eduardo Cunha e Dilma Rousseff chegaram ao mesmo fim, praticamente na mesma hora e negando com igual ênfase as próprias “pedaladas”.

Ele foi afastado ontem da presidência e do mandato e ela caminha para o mesmo fim na semana que vem, nos dois casos sem perspectiva de volta e sob aplausos da maioria da população brasileira. O próximo na linha de sucessão ‒ no bom e no mau sentido ‒ é o presidente do Senado, Renan Calheiros.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 6 maio 2016.

233 dias

José Horta Manzano

Você sabia?

Entre meus distintos leitores, numerosos são os que moram em região de clima tropical, onde dias de sol e calor são a regra. Nem todos os terráqueos vivem a mesma realidade. A maioria dos humanos conhece outra existência.

Aqui na região em que vivo, os ares não têm a tropicalidade brasileira. Invernos são longos e verões, naturalmente, curtos. Sabe quando foi a última vez que a temperatura ultrapassou 20°? Foi dia 16 de setembro do ano passado. Desde então, nunca mais. Faz 233 dias que não sabemos mais o que é um calorzinho. Praticamente oito meses!

Primavera 2Mas calma lá! Isso não significa que se tenha de usar meia de lã, capote e cachecol dentro de casa. Lareira, hoje em dia, tornou-se objeto decorativo. Na Europa ocidental, a maioria das casas conta com aquecimento. Os sistemas podem variar, mas todos garantem temperatura confortável em todos os cômodos.

Carros, lojas, trens, centros comerciais e outros locais públicos também são aquecidos. O resultado é que, em certos dias do ano, paulistas, paranaenses ou gaúchos podem passar frio dentro de casa, desconforto de que europeus já não se lembram mais.

PrimaveraPara hoje, depois de tantos meses, está previsto que a temperatura externa chegue aos simbólicos vinte graus. Não deve ir além, mas já é bom sinal de que a primavera chegou. Afinal, estamos em maio, mês das flores e das noivas.

Mas não pensem que, de agora até setembro, o termômetro vai subir acima dos vinte graus, regularmente, todos os dias. Em 2015, ano excepcionalmente quente, isso só aconteceu no mês de julho. Vamos ver como será este ano.

Propaganda enganosa

José Horta Manzano

Foi abrir o jornal e dar de cara com manchete surpreendente: «Supremo afasta Cunha da Câmara, que atribui decisão a ‘retaliação’».

Pensei com meus botões que a petulância da Câmara estava passando da conta. Atribuir o afastamento do deputado Cunha a algum tipo de ‘retaliação’? Francamente! É o estouro da boiada. Nada mais tem limites.

Chamada do Estadão, 6 maio 2016

Chamada do Estadão, 6 maio 2016

Fora 1Foi preciso ler a reportagem pra entender que o título não passava de «propaganda enganosa». O estagiário de plantão há de ter faltado a importantes aulas de virgulação e de uso do pronome relativo. Diferentemente do que indica a manchete, não é a Câmara que contesta a decisão, mas o próprio deputado afastado.

Os typographos de antigamente diziam que título bom é título que cabe. A afirmação é verdadeira, mas não pode ser levada a ferro e a fogo. Além de caber, título deve dar o recado certo. No presente caso, deu informação incorreta.

Uma manchete sem menção à Câmara teria dado o recado:
«Supremo afasta Cunha, que atribui decisão a ‘retaliação’».

Uma variante igualmente válida:
«Câmara: STF afasta Cunha, que se considera ‘retaliado’».

Mais claro, não?