De vacinas

José Horta Manzano

Lê-se a todo momento que a vacina contra a covid está para sair. Russos, chineses, americanos, europeus e até indianos dedicam-se seriamente ao assunto. Cada semana, aparece notícia animadora sobre a vacina: a russa está no ponto; na China só falta o derradeiro teste; os americanos afirmam que a deles estará no mercado antes do Natal. E assim por diante. Tanto falam nisso, que a gente acredita que, sim, um dia virá a vacina.

Algo me escapa, porém. A covid é causada por vírus, um bichinho minúsculo que até sob as lentes potentes de um microscópio eletrônico aparece como uma mancha embaçada, não é? A aids também é dano causado pour outro terrível vírus, pois não? Ora, esta última enfermidade se espalhou pelo mundo inteiro a partir do fim dos anos 70, ou seja, 40 anos atrás. Desde então, muitos laboratórios de pesquisa vêm se dedicando a fabricar uma vacina. Passados 40 anos, não conseguiram.

Como é que é possível ter tanta certeza de que estará disponível, em um ano, vacina eficaz contra a covid, quando se sabe que, no caso da aids, não se conseguiu em quarenta anos?

Faço votos para que encontrem rapidamente (mesmo porque, pessoalmente, no teste de múltipla escolha dos grupos de risco, assinalo três ou quatro quadradinhos). Assim mesmo, sem querer ser profeta de desgraça, fico dubitativo. Vamos torcer.

O vírus vem do morcego?

José Horta Manzano

Você sabia?

O professor Luc Montagnier foi agraciado em 2008 com o Nobel de Medicina por seus trabalhos que, em 1983, tinham levado à descoberta do VIH, o vírus da aids.

Espírito turbulento, o professeur é chegado a uma polemicazinha. Volta e meia, apoia alguma tese ousada, daquelas que encontram resistência por parte da ciência oficial. No começo dos anos 2000, por exemplo, emprestou seu prestígio à defesa de um cientista francês que afirmava que a água tinha uma espécie de memória – realidade difícil de ser comprovada. Naturalmente, a tese foi rechaçada com vigor por uma indignada comunidade científica. É por isso que convém desconfiar quando o professeur vem com mais uma das suas.

Um site francês dedicado à medicina publicou em 16 de abril uma entrevista com Luc Montagnier, na qual ele dá opinião ousada sobre a origem do SARS-CoV-2, nome técnico do coronavírus que assola o planeta. Fala com a autoridade de quem já dirigiu um instituto de pesquisa em Xangai, na China.

Docteur Montagnier formula a hipótese de que a epidemia tenha tido início com o escape acidental de uma cepa de vírus que estava sendo manipulada num laboratório de Wuhan no âmbito de uma pesquisa de vacina contra aids.

Visto o histórico de tomadas de posição polêmicas do professeur, a mídia francesa não deu grande importância; e a internacional, menos ainda. Assim mesmo, a hipótese não deve ser descartada sem análise. Se bem que a missão é quase impossivel, dado que, ainda que a tese fosse verdadeira, Pequim dificilmente reconheceria o acidente. Transparência não é o forte de nenhum regime autoritário.

Quem havia de ficar feliz com a notícia são os bolsonarinhos e os associados do gabinete do ódio. A tese fortalece a narrativa de um “vírus chinês”, (que é como eles se referem ao coronavírus), criado e espalhado pra dar uma rasteira no mundo e impulsionar a dominação chinesa. Mas nenhum deles vai ler . Estão demais ocupados a arquitetar ruindades e tuitar boçalidades.