O colete do capitão

O funk do capitão

José Horta Manzano

Em época de bonança e vacas gordas, já é raro ver foto de chefes de Estado em trajes de banho ou de praia. As imagens de Putin, Biden, Macron, Xi Jinping ou Boris Johnson usando roupa de beira-mar são extremamente raras, quase inexistentes.

Quando – pior ainda – o país atravessa uma crise com 620 mil mortos pela pandemia, inflação descontrolada, famílias emigrando às pressas e violência comendo solta, nenhum dirigente civilizado ousaria deixar-se fotografar com pose feliz e descontraída.

Nenhum dirigente? Há uma exceção à regra e, para azar nosso, ela nos diz respeito. Trata-se de nosso presidente, fotografado dois dias atrás dançando funk numa lancha no mar paulista. Proibido, não é: é indecente.

Repare bem na foto, distinto leitor. Verá o capitão valentão rodeado por umas 4 ou 5 pessoas. Diga-me agora qual é a diferença principal entre Bolsonaro e os que o rodeiam?

Exatamente: ele é o único a vestir um colete salva-vidas. O bicho é laranjão, bem visível, vestido displicentemente por cima da camisa, como se  ele estivesse se preparando pra sair à noite no sereno.

Neste ponto, é bom lembrar: o homem que, talvez por não saber nadar, se protege usando o apetrecho é exatamente o mesmo que tratou os brasileiros de ‘maricas’ porque estavam se vacinando pra se proteger contra a covid. Corajoso, eu?

Nota
A imagem não é nítida. Talvez o colete laranjão esconda um dispositivo à prova de balas. Se assim for, continua valendo o que acabo de dizer. Onde está a coragem do valentão que exortou seus conterrâneos a enfrentarem perigo de peito aberto? Era ‘cascata’?

A eficácia da vacina

José Horta Manzano


Nosso capitão era até capaz de ficar desagradado com este artigo. Mas, que fazer? É o que eu tenho a dizer.


Dependendo do efeito que se busca, cada acontecimento será relatado desta ou daquela maneira – é da vida. Nestes tempos de “narrativas” e de meias-verdades, essa versatilidade na apresentação dos fatos está na crista da onda.

Tive acesso a um levantamento estatístico sobre as hospitalizações na Suíça nesta fase da pandemia de covid. Foram levadas em conta todas as internações ocorridas entre 11 de outubro e 12 de dezembro deste ano. As tabelas cobrem o país inteiro.

No primeiro quadro, que aparece logo abaixo, foram utilizados números absolutos. Cada linha representa o total de pessoas hospitalizadas em cada faixa etária. Na primeira coluna, em vermelho vivo, estão os cidadãos que, ao serem internados, já haviam cumprido o ciclo integral de vacinação. Na segunda coluna, em salmão, estão os não-vacinados.

Quadro 1
Hospitalizações – números absolutos

Esta primeira tabela há de alegrar qualquer negacionista da vacina. Constata-se que, principalmente nas faixas de idosos (70-79 anos e mais de 80 anos), há mais cidadãos não-vacinados do que vacinados. Ao ver o quadro, devotos e terraplanistas hão de dar pulinhos.

“– Tá vendo? Eu sempre disse que essa porcaria de vacina não serve pra nada! Óiaí, no hospital tem mais gente vacinada do que não-vacinada. E olhe que é na Suíça, país sério, onde a gente pode acreditar nesse tipo de levantamento.”

Se o capitão recebesse uma informação dessas, faria um retuíte, mais um compartilhamento, mais uma declaração na laive da semana.

No fundo, a informação não deixa de ser verdadeira. Os números são reais. Só que… notícias têm de ser relativizadas. Vamos então relativizar esses números absolutos.

Os serviços informativos da Televisão Suíça, de onde tirei os dados, já fizeram isso. Tomaram os números absolutos de internações e compararam com o contingente de cidadãos já totalmente vacinados. Isso feito, chegaram a um segundo quadro. A tabela que está abaixo mostra as hospitalizações por 100 mil vacinados / não-vacinados.

Quadro 2
Hospitalizações por 100 mil vacinados / não-vacinados

A diferença entre as duas tabelas surpreende. Mas há explicação. Dado que a imensa maioria dos idosos estão vacinados, constata-se que, na faixa dos maiores de 80 anos, o número de hospitalizados não-vacinados (por 100 mil não-vacinados) é 10 vezes superior ao de vacinados (por 100 mil vacinados). Em outros termos, para cada velhinho vacinado, há 10 não-vacinados.

Entre os 60-69 anos hospitalizados, há 14 não-vacinados para cada cidadão vacinado. Mais dramático ainda é o que se vê na faixa dos 40 a 49 anos: para 1 vacinado hospitalizado, há 16 não-vacinados hospitalizados.

São provas capazes de silenciar o mais renitente dos antivax. A não ser que ele seja presidente do Brasil. Aí, já é perda de tempo.


You can lead a horse to water, but you can’t make it drink
Pode-se levar o cavalo até a água, mas não se pode forçá-lo a beber


Sinal dos tempos

Pescado no site da Prefeitura de S. Joaquim da Barra (SP)

José Horta Manzano

Imagino que muitos de nós – se não todos nós –, na infância, algum dia recitamos a parlenda que ia assim:

Um, dois,
Feijão com arroz;
Três, quatro,
Feijão no prato.

Quando chegava o “cinco, seis”, o coro emendava firme: “falar francês!”.

Por um daqueles acasos com que só a navegação na rede sabe nos brindar, caí hoje nesses versinhos. Surpreso, me dei conta de que sofreram leve alteração.

Francês? Nestes tempos de bilinguismo excludente que resulta num monolinguismo de facto, o francês escorreu pelo ralo. Numa gritante demonstração de que até versos infantis se adaptam ao tempo e ao vento, hoje não mais se fala francês, mas inglês.

Então, distinto leitor, ficamos combinados. Da próxima vez que chegar ao “cinco, seis”, não se esqueça: “falar inglês”.

Para a sequência da parlenda, pode continuar comendo biscoito no “sete, oito”, e pastéis no “nove, dez”. Mas isso pode mudar, que a inflação anda braba!

Se alguém souber

José Horta Manzano

Segundo o Houaiss, moralidade é conjunto dos princípios morais, individuais ou coletivos, como a virtude, o bem, a honestidade.

Por ocasião da seleção de novo ministro para o TCU, auditores da Fazenda Nacional pedem que o noviço tenha “moralidade administrativa”.

Ganha uma passagem de ida simples para Cabul quem for capaz de definir, com exatidão, “moralidade administrativa”. A expressão joga no time de outras tolices, tais como: “honestidade intelectual”, “pensamento militar” e “solidariedade bolsonarista”.

Por estas alturas, aliás, o novo ministro já foi escolhido. Espero que ele tenha boa dose de “honestidade administrativa”.

Assessoria indigente

José Horta Manzano

 


Pra que vamos criar problema?


 

O assunto já está na praça há três dias. Tenho de correr pra escrever antes que ele saia da mira. Com o capitão, os escândalos se sucedem, vertiginosos, cada novo episódio condenando o anterior ao esquecimento. A gente tem a impressão de estar sempre correndo atrás pra não perder o bonde.

Sábado passado, o Instituto PoderData publicou o resultado de sua pesquisa sobre a aceitação da vacina por parte dos brasileiros. A pergunta era se o entrevistado já tomou ou pretende tomar vacina contra o coronavírus. Dentre as 3.000 pessoas questionadas – em 489 municípios das 27 unidades federadas ––, somente 2% não souberam ou não quiseram responder à pergunta. As demais responderam afirmativamente. Trocado em miúdos, isso significa que somente 1 em cada 50 habitantes, com 16 anos ou mais, é contrário à vacina. O que se ouviu foi um quase unânime “SIM” nacional.

O povo brasileiro é o mais entusiasta, na América Latina, e quiçá no mundo, com relação à vacina. Dois porcento de ‘vacino-hesitantes’ é praticamente nada. Pode-se concluir que o brasileiro amou a vacina, se jogou em cima dela, abraçou-a, beijou-a, espichou o braço, levou a picada e saiu feliz, pedindo mais.

Dito isso, fica cada dia mais difícil entender o posicionamento do capitão. Não é que, no mesmo sábado em que saiu a pesquisa, ele afirmou ser contrário ao passaporte vacinal exigido de viajantes que chegam do estrangeiro? Soltou frase reveladora: “Pra que vamos criar problema?”

É que, na visão doentia de Bolsonaro, correr o risco de deixar entrar a nova variante mal conhecida do vírus não é problema. Para ele, o verdadeiro problema está em se assegurar que o viajante não está infectado. Pode?

E pensar que, desde que o ser humano vive em comunidade, a função primeira do chefe é justamente a de proteger o grupo. Desde a pré-história, o líder tem sido escolhido por ser capaz de transmitir segurança a seu povo. Bolsonaro prefere importar doença a “criar problema” para viajantes potencialmente infectados.

O capitão não conhece a História da Humanidade. Na escola, pouco aprendeu; durante a vida, nada acrescentou a seu parco capital intelectual. Não consegue se dar conta de que os líderes – bons ou maus – que o povo carregou um dia nos braços foram os que mostraram estar em sintonia com a população. Churchill, Stalin, Hitler, De Gaulle, Mussolini entram nessa conta. Evidentemente, Bolsonaro jamais será membro do clube. Nem dos bons, nem dos maus.

O capitão não perde ocasião pra escancarar sua falta de inteligência. Só dois porcento dos brasileiros rejeitam a vacina. Isso quer dizer que os 10% ou 15% que (ainda) apoiam o presidente já se vacinaram ou pretendem fazê-lo, ou seja, fazem parte do contingente que abraçou a vacina. Ao insistir em se posicionar contra vacina, contra vacinados e contra passaporte vacinal, ele está pisando o calo dos próprios devotos.

Será que ele não tem nenhum assessor menos tapado, capaz de orientá-lo? Parece que não.

Dados pirateados

by Clive Collins, desenhista inglês

José Horta Manzano

Faz uns dois ou três dias, subiu um auê nacional: piratas informáticos (em português: hackers) tinham roubado o Ministério da Saúde. Numa noite de assombração, dados de milhões de cidadãos haviam sido furtados, e o sistema já não respondia.

Me lembrei que, nos anos 1980, eu trabalhava numa pequena firma que fazia certo tipo de levantamento de dados. Pra dar uma ideia do tamanho da empresa, não chegávamos a 10 funcionários, mas o banco de dados tinha muito número.

Computador pessoal, na época, estava engatinhando. Bill Gates e outros, que viriam a tornar-se bilionários, ainda estavam em começo de vida. Pois imagine que, naquela era do computador movido a lenha, nós já dispúnhamos de um sistema de salvaguarda de dados (em português: backup).

As máquinas de então processavam bem mais devagar que hoje. Além disso, enguiçavam com frequência, provocando às vezes a perda do trabalho de um dia inteiro. Para ter a garantia de dispor sempre de uma salvaguarda (backup), nós deixávamos o computador central passar a noite transferindo as modificações introduzidas durante o dia para um segundo aparelho.

O resultado saia em algum suporte arcaico, acho que era fita magnética, não me lembro bem. Como precaução suplementar, uma cópia desse suporte era sempre armazenada em outro imóvel (em português: off site). Era pra cobrir a eventualidade de um incêndio.

Hoje, quatro décadas depois daqueles tempos pioneiros, ninguém me fará acreditar que o Ministério da Saúde do Brasil, com sua gigantesca estrutura, não disponha de salvaguarda (=backup) diária. Talvez até faça isso em permanência, avanço técnico que imagino ser hoje possível. O resultado tanto pode estar sendo armazenado nalguma nuvem como pode se esconder dentro de um velho cofre, encafuado em algum subterrâneo do Planalto Central.

Isso dito, tenho dificuldade em entender exatamente o que aconteceu estes dias. Não sou adepto de teorias complotistas, mas essa história está me parecendo muito estranha. Primeiro, anunciam que foram assaltados, que ladrões raptaram os dados, que vão ter de pagar resgate, que o sistema (inteiro) está indisponível. Dois dias depois, revelam que “encontraram” os dados e que o sistema voltou a funcionar. E não se falou mais em resgate. É vida que segue, desculpem a nossa falha.

Mas, afinal, o que é que aconteceu? Será que ainda estamos pagando o preço da gestão Pesadello? Se algum leitor mais enfronhado puder esclarecer, que mande, por favor, uma cartinha para a Redação. Pode ser manuscrita. Agradeço desde já.

Deriva continental

Folha de São Paulo, 6 dez° 2021

José Horta Manzano

Numa aula sobre deriva continental, este blogueiro aprendeu que o subcontinente sul-americano se desprendeu de um supercontinente ao qual se costuma dar o nome de Pangeia.

Isso aconteceu por volta de 145 milhões de anos atrás, no Jurássico – período geológico de que todos já ouviram falar por causa do filme. A América do Sul se destacou inteira desde o que é hoje o Canal do Panamá até a Terra do Fogo, na ponta do Cone Sul. De lá pra cá, tirando alguma pequena distorção, conservou a silhueta original.

Bom, isso era o que se acreditava. No entanto, tem um estagiário na Folha de SP que, sempre trabalhando quietinho, na moita e noturnamente, surpreende, às vezes, seus leitores. Estes dias, comunicou uma descoberta extraordinária.

Não se sabe se o rapaz foi picado por mosca varejeira ou por sapo jururu. O fato é que ele ficou sabendo que o Estreito de Magalhães, aquele que separa a Terra do Fogo do continente sul-americano, desrespeitou a cronologia da deriva dos continentes.

O braço de mar não tem os milhões de anos que se imaginava, mas sua abertura é bem mais recente. Está fazendo apenas 501 anos. Uma surpresa e tanto, não? Se existisse um Prêmio Nobel de Geografia, o estagiário estaria certamente entre os indicados.

Dedo de honra

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, para se apresentar, o cidadão estendia seu cartão de visita. Estava ali o básico: nome, sobrenome, profissão, endereço e telefone (se houvesse). Quem recebia o cartão tinha ainda a possibilidade de examinar as características: tamanho, espessura e qualidade do papel, cor da tinta, impressão em relevo ou não. De posse dessas informações, já era possível saber muita coisa sobre o titular.

Nestes tempos em que o “Oi!” substituiu o cartão, para saber a que veio cada um, é preciso observar seu tom de voz, seu sotaque, seu comportamento, seu gestual. Ah, o gestual! Esse é ponto importante. Dispensa palavras. É feito exatamente pra ser visto de longe.

Me impressionou muito aquele gesto elegante que nosso ministro da Saúde fez em Nova York, logo depois de comer pizza na calçada. O distinto leitor há de se lembrar que, apupado por manifestantes quando já se encontrava dentro do ônibus, o doutor espichou o braço e mostrou o dedo do meio à multidão.

No arsenal obsceno da minha juventude, não constava o gesto do ministro. Deve ter sido popularizado mais tarde. O gesto equivalente era “dar uma banana”, com os punhos cerrados e os braços cruzados, sendo um na vertical. O significado era o mesmo. Esse gesto de mostrar o dedo do meio, aliás, nem nome tinha. Se hoje tiver, desconheço. Agradeço a quem puder mandar uma cartinha para a Redação desvelando o mistério.

Só que tem uma coisa. O que pode ser tolerável num adolescente – irrequieto e ainda pouco familiarizado com os códigos de comportamento da sociedade – é absolutamente inaceitável de parte de um ministro da República. Um ministro? Impensável!

Outro dia já falei do candidato surpresa nas presidenciais francesas que terão lugar daqui a 4 meses. Trata-se de Monsieur Eric Zemmour, jornalista e escritor, que professa ideias da direita extrema, entre as quais um ódio feroz contra imigrantes em geral e árabes em particular.

O extremista ainda não oficializou sua candidatura. Por enquanto, percorre o país fazendo publicidade para seu novo livro e testando a receptividade da população a sua presença. Sábado esteve em Marselha. Como de costume, foi acolhido tanto por admiradores como por oponentes. A um dado momento, não se conteve e mostrou o dedo a uma mulher (veja a imagem).

Ficou-se sabendo que ele estava apenas reagindo. A distinta senhora também lhe havia feito o mesmo elegante gesto. Pouco importa. O candidato é ele, não ela. Assim como é inaceitável o que fez o ministro brasileiro, é intolerável ver o mesmo gesto vindo de um candidato à presidência da França. Um homem público não tem o direito de reagir como um homem comum em todas as ocasiões.

Dois casos isolados de figuras públicas que se permitem esse tipo de baixaria em público, como os que mencionei, são pouca coisa; não dão amostragem suficiente para um estudo científico. Mas o fato de os dois pertencerem à mesma família política (extrema direita) deixa no ar uma interrogação. Serão todos assim? O palavreado e o gestual rasteiro fazem parte da cartilha de todo aprendiz fascistoide?

Ao se dar conta da onda de indignação que rugiu nas redes por causa de seu gesto, Monsieur Zemmour tuitou uma pirueta: “Madame, naquele momento hão havia tempo para um debate como eu aprecio. É por isso que usei a única linguagem que a senhora e seus camaradas ‘antifascistas’ compreendem imediatamente: a de vocês!”.

A vulgaridade agressiva é a arma dos que não têm argumentos. Assim como Trump e Bolsonaro não tinham, tampouco esse candidato tem programa para seu país. Taí a origem do comportamento rasteiro de todos eles.

Título
Em francês, o gesto de mostrar o dedo do meio se diz “doigt d’honneur”, dedo de honra. A expressão é calcada sobre “bras d’honneur”, braço de honra, que é nossa “banana”.

Linguagem gestual

José Horta Manzano

Eu não conhecia a nobre deputada acriana retratada acima. Ao votar nas prévias do PSDB, a moça desentendeu-se com os colegas, fez denúncias de corrupção e armou um fuzuê. Para coroar, berrou: “Sou Bolsonaro!”.

Suponhamos agora que o distinto leitor nunca tenha visto foto da deputada e desconheça os fatos. Olhe bem a imagem. Francamente, o ar suave da moça já indica quais são suas simpatias. Ou alguém imaginava que ela fosse admiradora de Madre Teresa de Calcutá?

Narrativa

José Horta Manzano

No domingo 14 de nov°, a deputada Joice Hasselmann soltou um tuíte venenoso:


Nenhum deputado bolsonarista se inscreveu para inspecionar o código fonte das urnas eletrônicas. O TSE abriu as portas para vistoria em 4/10. Eles só se interessam pela narrativa.


Estricnina pura. Em menos de 30 palavras, a doutora deu seu diagnóstico sobre o estado de espírito dos espalhadores de notícias falsas (em português: fake news). Nessa gente, o que domina é a falsidade. O que dizem é só “da boca pra fora”, como se dizia antigamente.

Os que praticam esse perigoso esporte de desinformação não são apegados à verdade. Se a notícia espalhada não bate com a realidade, dane-se a realidade.

Afinal, toda seita que se preze exige que os fiéis bebam as palavras do chefe, como se bebessem da fonte de água pura. Na qualidade de arautos do “mito”, são pagos pra divulgar o que seu mestre mandar.

Se o chefe disse que as urnas eletrônicas são um lixo, ninguém tem o direito de contestar, muito menos o de verificar. E há bobões que acreditam e seguem o enterro. Nenhum deles tem sequer a curiosidade de levantar a tampa do caixão pra ver se defunto há.

Honraria envenenada

Repercussão mundial
No Brasil, 21 cientistas que discordam de Bolsonaro recusam uma medalha
Le Monde, Paris

José Horta Manzano

Tive um bisavô inglês. Chegou ao Brasil quando era um jovem adulto, no fim da década de 1850. Nunca mais voltou ao país natal. Cruzar o oceano, naquele tempo, não era coisa que se fizesse com frequência.

No Brasil, casou-se e teve uma renca de filhos, como era costume. Na juventude, trabalhou para os ingleses que exploravam minas de ouro na região. Na maturidade, fez coisas incomuns para um estrangeiro de sotaque. Chegou, por exemplo, ao cargo de prefeito de Ouro Preto, então capital da província de Minas Gerais.

Passados mais de cem anos de seu falecimento, as informações sobre a vida do antepassado vão se perdendo. Um detalhe, no entanto, ficou gravado na memória familiar. O inglês foi agraciado com a medalha da Ordem da Rosa, no grau de comendador. Foi o próprio imperador a entregar a honraria.

Até hoje, nas raras vezes em que algum descendente se refere ao antepassado, fala do “comendador”. É que, na família, nunca houve outro. Para receber tal homenagem, ele há de ter tido méritos, fato que ainda hoje desperta nos descendentes uma pontinha de orgulho.

“Indignação, protesto e repúdio” – são os termos fortes com que 21 cientistas, agraciados com a Ordem Nacional do Mérito Científico, recusaram a honraria.

É atribuição do presidente da República designar os que serão homenageados com medalhas e comendas. Normalmente, a escolha é feita por quem é do ramo e entende do assunto; o presidente só entra no final, com a caneta, pra assinar o decreto.

Mas Bolsonaro não é um presidente normal. Aconselhado sabe-se lá por quem, decidiu cortar dois nomes da lista já publicada no Diário Oficial. Pegou muito mal. O capitão fez isso porque, por alguma razão, encasquetou a ideia de que o pensamento dos dois divergia do seu.

Os demais nomeados ficaram numa situação complicada. Se aceitassem a condecoração sem piar, o silêncio poderia até ser interpretado como evidência de que se alinhavam com Bolsonaro. Que fazer? Não tenho detalhes do conciliábulo, mas o resultado foi espetacular (e inusitado no Brasil atual): os 21 recusaram, coletivamente, a homenagem.

Não utilizaram os termos rasteiros em voga no Planalto, do tipo “enfia tua medalha lá onde estou pensando”. A rejeição foi feita em linguagem erudita e polida, mas firme.

A notícia me deixou feliz. Não tanto por imaginar a cara de tacho do capitão, que, de toda maneira, não tem capacidade de entender o que está ocorrendo. Sutil demais para ele. O que me alegra é saber que, apesar do adesismo de tantos personagens que povoam nosso andar de cima, ainda se encontra gente íntegra. É um raio de esperança a indicar que nem tudo está perdido.

Com essa atitude, os cientistas que ousaram dar com a porta na cara do presidente ganharam mais do que se tivessem se curvado para receber o colar com a medalha. Uma coisa é certa: cem anos depois que tiverem falecido, os descendentes de cada um deles ainda se orgulharão do antepassado que manteve corpo ereto e cabeça erguida numa época em que todos se vergavam.

Tempus rationis dominus est.
O tempo é o senhor da razão.

Baixo risco

Jornal O Globo, 2 nov° 2021

José Horta Manzano

Com certeza seguindo instruções do governo, a alentada delegação brasileira presente em Glasgow (mais de 100 pessoas, pelo que li!) “adere a acordo” e se compromete a cortar 30% das emissões de gás metano daqui a 2030.

Em 2030, se vivo ainda estiver, Bolsonaro terá 75 anos. Por mais que seus devotos desejem sua permanência eterna no trono, ele já estará gozando merecida aposentadoria nalguma ilha paradisíaca dos mares do Sul.

Portanto, será o sucessor de seu sucessor a responder pelo compromisso assumido agora. Prometer e deixar a conta para os que virão é moleza. Assim, até eu assino.

A verdade torturada

Salvini: “Agradeço a Bolsonaro pela extradição de Battisti”

José Horta Manzano

A distorção da verdade é matéria prima indispensável ao trabalho de populistas e extremistas. A mais recente pérola foi cometida neste 2 de novembro.

Nesta terça-feira, nosso capitão presidente esteve de visita ao cemitério militar brasileiro de Pistoia, erguido em memória dos pracinhas da FEB caídos nos campos de batalha italianos durante a Segunda Guerra.

Surgido não se sabe de onde, apareceu Matteo Salvini, líder da extrema-direita italiana, cujo percurso já o levou a ser vice-primeiro-ministro, cargo de que foi apeado dois anos atrás. Hoje, em Pistoia, alegou ter sido convidado “pela embaixada do Brasil”. Admitamos.

Em seu discurso, agradeceu a Bolsonaro “pela extradição de Cesare Battisti”. Para impressionar na retórica, espichou a mentira e acrescentou que, se dependesse “de presidentes de esquerda”, alguns terroristas estariam ainda livres no Brasil. Não se sabe bem a que “outros terroristas” ele se refere. O que se sabe é que um perigoso miliciano ocupa a Presidência de nosso país, mas essa já é uma outra história.

Salvini não é tão ignorante quanto Bolsonaro. Era ministro de Assuntos Internos da Itália em janeiro de 2019 e sabe perfeitamente como terminou a aventura de Battisti em terras sul-americanas. Mas está apostando na memória curta de seus compatriotas. Nós, que acompanhamos o caso passo a passo durante anos, sabemos bem como ocorreu.

Assim que Bolsonaro foi eleito e declarou que tinha intenção de extraditar o condenado Battisti, este escafedeu-se e refugiou-se clandestinamente na vizinha Bolívia. A polícia italiana, que acompanhava à distância, seguiu os passos do fugitivo.

Não se sabe que tipo de tratativas ocorreu entre Roma e La Paz. O fato é que, um belo dia, policiais bolivianos (acompanhados por policiais italianos) deram voz de prisão a Battisti. Em poucas horas, o homem foi oficialmente expulso do país e entregue aos policiais italianos. Que o conduziram diretamente a Roma. Nem fizeram escala em território brasileiro, que é pra não arriscar expedição de um habeas corpus – num país judiciarizado como o nosso, toda prudência é pouca.

Naquele momento, Bolsonaro ainda nem tinha vestido a faixa. Era presidente eleito, não empossado. Portanto, não tem nada a ver com o que aconteceu. Que Salvini lhe tenha agradecido “pela extradição de Cesare Battisti” é desonestidade pura.

A verdade torturada é sempre a melhor arma de quem não tem realizações a mostrar. Uma mentira bem apresentada é sempre melhor que nada.

Bolsonaro e Salvini
Pistoia, 2 nov° 2021

Ironia
Para o espírito dos pracinhas que tombaram na Itália para liberar o mundo de nazistas e fascistas, deve ter sido uma tortura ver dois aprendizes fascistoides rindo em cima das tumbas.

A palestra do ministro

Observador, Portugal

José Horta Manzano

Segunda-feira passada, doutor Queiroga, ministro da Saúde do triste governo Bolsonaro, deu um pulo a Lisboa para dar uma palestra. Discorreu sobre “As ações do Brasil no enfrentamento da covid-19” – tema escolhido por ele mesmo. Detalhe sintomático: ao final de 45 minutos de falatório, ninguém se animou a fazer perguntas. Fico deveras admirado com a cara de pau de Sua Excelência de se prestar a essa encenação oca.

O Brasil começou o combate à epidemia de maneira desastrada, com atraso em relação a países comparáveis. Todos se lembram de quando o capitão, que tinha rejeitado insistentes propostas da Pfizer, implorou à Índia que lhe mandasse meia dúzia de vacinas, só pra aparecer no telejornal antes do arqui-inimigo Doria. Chegou a mandar um avião buscar as preciosas ampolas. Voltaram desenxabidos e sem vacina.

Desde que a pandemia pegou feio, a área crucial da Saúde foi confiada a nada menos que 4 (quatro) ministros: Mandetta, Teich, Pazuello (de triste memória) e Queiroga. Os dois últimos, que realmente pegaram o período mais crítico da covid, tiveram comportamento negacionista e trabalharam contra tudo o que a ciência determina. Pazuello foi o desastre que todos viram. Queiroga já afirmou, por exemplo, ser contrário à máscara de proteção e ao distanciamento social.

Expresso, Portugal

Portugal também foi mal no início. Logo no começo, ano e meio atrás, figurou entre os países que mais sofriam, com hospitais e cemitérios lotados. Só que os portugueses tiveram a sorte de contar com um governo que trabalhou contra a disseminação da doença e a favor da saúde da população. Foi bem diferente de nós, que tivemos a infelicidade de ter um governo trabalhando a favor do alastramento da epidemia e contra a saúde do povo.

As boas medidas tomadas pelo governo luso, acompanhadas do espírito cívico de um povo que confia em suas autoridades, fizeram a diferença. Portugal recuperou o terreno perdido e tornou-se campeão mundial de vacinação. Neste momento, quase 87% da população já cumpriu integralmente o esquema vacinal. As autoridades sanitárias já estão preparando a dose de reforço (3ª dose). Mortes em decorrência da covid tornaram-se raras. Para efeito de comparação: o Brasil já vacinou 51% de sua população.

Carregando nas costas um passivo que ultrapassa 600 mil mortos, faço de novo a pergunta: o que é que Sua Excelência foi dizer aos portugueses? Será que foi pedir desculpas? Ou, humilde, tentar aprender como é que se enfrenta uma pandemia?

Jornal de Notícias, Portugal

Fica a incômoda impressão de que a palestra era apenas o pretexto para uma agradável etapa lisboeta, com direito a uma visita ao Castelo de São Jorge, seguida por um Bacalhau à Brás regado a vinho do Dão. De arrebitar-se-lhe as orelhas, ó pá!

Doutora Dilma fez isso uma vez, lembram-se? Voltando não me lembro de onde, mandou o avião fazer uma parada clandestina em Lisboa, onde toda a comitiva apeou para devorar uma bacalhoada. Na saída do restaurante estrelado, todos tiveram direito a sair carregando uma ou duas garrafas de vinho “p’ra viagem”. Tudo no cartão corporativo.

Direita? Esquerda? Quá! Tudo igual. Na hora da malandragem, todos comem à mesma mesa. E quem paga a conta somos nós, evidentemente.

O Zé suave

José Horta Manzano

Às vezes aparecem na mídia notícias que não contam tudo, deixando em branco parte da história. Todos os jornais informaram que um cidadão conhecido pelo suave apelido de Zé Trovão “se entregou espontaneamente à PF de Joinville (SC)”.

Como o Brasil inteiro está sabendo, fazia semanas que o moço vivia sob ameaça de encarceramento, visto que pesava contra ele um mandado de prisão expedido diretamente pelo STF. Não é qualquer um que tem prisão decretada pela Corte Maior, deferência reservada para infratores da mais elevada categoria. Coisa fina!

Soube-se que o exaltado caminhoneiro, quando se viu acuado, não ousou enfrentar a Justiça para responder, peito aberto, de seus malfeitos. Decidiu dar um passeio no exterior. Chegou a pedir asilo político (sic!) no México. Não tendo sido atendido e não enxergando outra via de saída, achou melhor voltar pra casa.

É aqui que a história contada pela imprensa é vaga. Ninguém informa como é que o rapaz se virou pra voltar. Suponho que não tenha vindo do México a pé, nem de bicicleta através do que ainda resta de floresta amazônica. É quase certeza que veio de avião.

Esse avião terá pousado no Brasil, num aeroporto internacional, daqueles em que gente comum tem de fazer fila, passar pelo guichê e apresentar passaporte. Como é que ele fez? Como é possível que o suave Zé, procurado por todas as polícias do mundo e com o rosto estampado em toda a mídia do país, tenha passado em branco sem ser reconhecido por ninguém?

Tem mais. As notícias informam que ele se apresentou à PF de Joinville por ser morador daquela cidade catarinense. Sabe-se inclusive que deu as caras no posto de polícia às 14 horas. Aqui vai nova suposição minha: imagino que tenha passado a noite (ou pelo menos algumas horas) em casa.

Agora vem a pergunta: ninguém viu o homem chegar do exterior? Ninguém controlou nem verificou quando entrou em casa? De táxi, a pé, acompanhado de um cúmplice?

Como é possível que o domicílio de um afamado foragido da justiça não seja objeto de monitoramento 24h por dia? O domicílio é conhecido. O procurado é um indivíduo importante, visto ter prisão decretada pelo STF, o que não é pra qualquer capiau. E ninguém manda vigiar a casa do homem?

Se alguém tiver mais informações, peço encarecidamente que mande cartas para a Redação.

Telegrã

José Horta Manzano


Sinopse
Este artigo é um pouco mais longo que o habitual. Para o caso de o distinto leitor estar sem tempo, digo logo do que se trata. Falo da rede social Telegram e de sua (quase) ausência de controle. Contabilizo o potencial de delinquência contido em certos grupos que lá se aninham: nazistas, pedófilos, traficantes de droga & alia. Dou minha opinião sobre o perigo que isso representa – ou não.


Faz alguns dias, li n’O Globo um artigo inquietante, que ensinava como funciona a rede social Telegram. Ao ler aquilo, qualquer vivente dotado de bom senso fica de cabelo em pé. Quem, como este blogueiro, não tem nenhuma intimidade com as redes ditas “sociais” (que alguns consideram “associais”) se sente realmente desconcertado. Quem diria que eu ainda havia de viver pra ver isso.

O distinto leitor talvez ache estranho que eu não tenha disposição pra me inscrever num desses clubes. É que sempre fui avesso a tudo o que se assemelhasse a agrupamento, rede, associação, círculo, assembleia, sociedade, federação, partido, seita, corporação, religião – enfim a tudo o que juntasse gente compelida a pensar como os correligionários e a agir como eles. Prefiro continuar observando de longe.

Sociais ou não, essas redes ainda não conseguiram despertar meu interesse. Um dia, quem sabe. Por enquanto, o momento não chegou. Para mim, feicebúqui, instagrã, tique-toque ou telegrã são filhotes da mesma ninhada. E se parecem todos.

Foi o que sempre achei. Só que não. A leitura do mencionado artigo me ensinou que o Telegram é um caso à parte, um estranho nessa ninhada de iguais, um clube destinado àqueles que estão mais pra bandido que pra gente fina. Que me perdoe o leitor que se inscreveu nesse clube! Não tenho intenção de ofender ninguém. Mas, salvo erro ou omissão, o tal de Telegram é orientado para um público marginal – não necessariamente no sentido de meliante, mas daqueles que vivem à margem da sociedade.

A rede Telegram foi fundada por dois dois irmãos russos em 2013, faz menos de 10 anos. Como as coisas evoluem rápido neste século! Não funciona em Moscou, em endereço com rua e número conhecidos. Atualmente está abrigada “na nuvem”. Nos últimos anos, mudou frequentemente de jurisdição, o que não costuma ser bom sinal. Neste momento, tem endereço físico em Dubai. Não posso garantir, mas acredito que, naquela cidade artificial do desértico Oriente Médio, o máximo que se vai encontrar é uma caixa de cartas.

A particularidade do Telegram é a (quase) total ausência de controle do que dizem ou escrevem os usuários. O espaço está aberto a todas as liberdades. Só que tem um problema: apesar da liberdade de postagem praticamente total, há linhas de conduta que o bom senso não admite que sejam transpostas. Cabe a cada usuário fixar os próprios limites. O resultado é que, na quase ausência de moderação, os maus modos de alguns podem causar dano à maioria.

Além de abrigar gente fina e bem-intencionada, Telegram acolhe também gente ligada a submundos que nossa civilização condena. Há grupos de pedofilia, de incesto, de venda de drogas online, de tráfico de receitas médicas para remédios tarja preta; há círculos de entusiastas do nazismo e do fascismo (será que sabem o que é isso?); há panelinhas que exigem armas para todos e que pregam resistência à vacina contra a covid. Nesses grupos, encontra-se tudo o que não for recomendável. Todos postam e propagandeiam abertamente, sem restrições.

Quando se vê todo esse submundo se agitando, com a porta aberta para quem quiser participar, corre um frio na espinha. Só que…

Só que, deixando o frio da espinha pra lá, resolvi analisar um pouco mais profundamente. Em fulgurante ascensão, o Telegram já está instalado em 53% dos smartphones do país. Não conheço o número exato de smartphones instalados no Brasil. Um artigo da revista Época garante que, em 2019, havia 230 milhões em uso. Em termos práticos, tirando um ou outro indivíduo fora dos padrões, pode-se considerar que toda a população carrega no bolso (ou na bolsa) um desses aparelhos inteligentes.

Agora vamos ver quantos são os participantes desse “deep web” fomentado pelo Telegram, essa rede semiclandestina, de odor desagradável.

No quesito de sexualidade esquisita, que incluiu estupro de adolescentes, incesto, pedopornografia e outras extravagâncias que nossa civilização condena, há um total de 38.000 inscritos.

No tópico doutrinas fora de esquadro, que inclui antissemitismo, supremacia espiritual, nazismo, fascismo, veneração a Adolf Hitler e outros discursos de ódio de mesmo jaez, há um total de 26.000 inscritos.

O capítulo do porte (e uso) de armas, que compreende imagens de tortura e execuções mas também grupos que se interessam pelo comércio de armas de todo tipo com as respectivas munições, há um total de 45.000 inscritos.

No grupo dos bobões antivacina há pouca gente. Digo bobões porque todos eles já foram vacinados zilhões de vezes contra doenças variadas: tuberculose, varíola, hepatite, doenças infantis & outros bichos. Se tivessem condições de dar um pulinho no Quênia, para um foto-safári, espichariam o braço sem hesitar pra receber a vacina contra a febre amarela. No entanto, talvez por inspiração de um certo capitão boçal, dizem não à vacina anticovid. São poucos, evidentemente. Só 38.000, que ninguém é besta.

O grupo mais numeroso – como seria de adivinhar – é o dos adeptos do comércio clandestino. A imensa maioria corre atrás de filmes ainda não disponíveis em canais oficiais; procuram fazer como esses que instalam um “gato” pra furtar imagens da residência vizinha. Nesse universo, ainda há os traficantes de entorpecentes (e seus compradores), os que tentam obter dados pessoais de outras pessoas, os que se interessam por remédios tarja preta e, pasme!, os que compram e vendem cédulas falsas. Para mim, este é o grupo dos picaretas. Numerosos, seus adeptos chegam a 150 mil indivíduos – um total equivalente ao de todos os outros grupos reunidos.

Bom, agora vamos aos finalmentes. Somando os inscritos nas categorias que o Telegram permite (e que outras redes dificilmente tolerariam), não chegamos a 300 mil pessoas. Atenção: dado que um mesmo assinante pode aparecer em mais de uma categoria, o total periga ser menor.

Vamos agora calcular quanto representam esses 300 mil aprendizes infratores no universo dos 230 milhões de smartphones. Representam por volta de 0,1% (zero vírgula um porcento) dos brasileiros.

Um infrator é sempre um infrator, assim como um bandido é um bandido e um assassino é um assassino. Mas vamos “botar a bola no chão”, como diz o outro. Esses 0,1% de conterrâneos não estavam à espera da chegada de Telegram para se tornarem, da noite para o dia, pedófilos, falsários, traficantes ou adoradores de Hitler. Como faziam antes? Não sei, mas deviam ter seus canais. Usavam códigos. Botavam anúncio cifrado nos Classificados do Estadão, como se fazia antigamente. Se viravam.

A conclusão à que quero chegar é que Telegram não inventou a delinquência, assim como as redes sociais não inventaram o ódio, nem Bolsonaro inventou a corrupção. Todas essas pragas pré-existiam. O que mudou foi só o canal de expressão. Se Telegram desaparecer amanhã, no dia seguinte nova rede vai substituir. E assim caminha a humanidade.

Observação
Até que não é má ideia deixar que esses indivíduos que atuam à margem da lei se exprimam com liberdade. As autoridades que cuidam de reprimir certos excessos poderão, na pior das hipóteses, saber quantos são. E, na melhor das hipóteses, colher os delinquentes com a boca na botija.

Fonte: Artigo d’O Globo.

Apostasia

José Horta Manzano

É de conhecimento público que o capitão que nos governa não costuma se comover com os sentimentos alheios. Dependesse dele, nunca se meteria num culto religioso, fosse de que natureza fosse. Nem igreja, nem templo, nem mesquita, nem sinagoga, nem terreiro. Seu modo de funcionar é conhecido: “Quem quiser, que vá. Eu já disse que não sou coveiro. Estou acima dessa ralé. Não vou me vacinar, e pronto!”.

O homem dificilmente confessará, de viva voz, que não está nem aí para o sentimento dos outros. Mas os seus feitos e gestos são explícitos e o condenam.

Em 12 de outubro, dia da Padroeira do Brasil, ele esteve em Aparecida. Por vontade própria, certamente não teria ido – não comparece nem a enterro de amigo, imagine só. Há de ter sido aconselhado.

Quando se mete nesses lugares, no entanto, sua falta de naturalidade salta aos olhos. Vê-se que o presidente está ali forçado, de cara amarrada, com medo de vaia (que, aliás, recebeu), receoso das palavras que o bispo vai dirigir aos fiéis. É a figura do peixe fora d’água, a imagem de quem está ali apenas pra cumprir tabela.

Diferentemente do camaleônico Lula, Bolsonaro é péssimo ator. Seus passos forçados produzem o efeito contrário ao que ele desejaria. A falta de naturalidade de quem não está habituado a frequentar esses lugares depõe contra ele. A visita a Aparecida chocou os evangélicos, assim como o batismo no Jordão chocou os católicos. Afinal, que pito toca esse homem? A tartufice do personagem fica evidente.

Para espanto de muita gente, o capitão ousou comungar. Terá sido (mal) aconselhado. Abalou cristãos e ateus. Quem se lembra das aulas de catecismo sabe que era impossível ele estar em condições de comungar. Vamos ver por quê.

Pra começar, que é a comunhão? No catolicismo, é o sinal público dado pelos irmãos de fé, aqueles que aceitam as imposições da religião. Ovelha desgarrada não tem direito a receber a comunhão, a não ser que se arrependa do desgarramento, confesse o pecado, renegue o descaminho e volte ao rebanho com a firme intenção de não voltar a se perder.

Todos sabem que o capitão, anos atrás, se fez batizar no âmbito de outra fé, num rito neopentecostal, com direito a mergulho nas águas do Rio Jordão, tudo testemunhado por fotografia. Não foi desvario de uma noite de verão. Faz pouco tempo, ele reafirmou seu pertencimento ao neopentecostalismo ao fazer-se abençoar, contrito e de joelhos, diante de um autossagrado bispo, dono de poder e muito dinheiro.

Para voltar à comunidade católica, ele teria de repudiar o (re)batismo do Jordão e renegar a fé que ostenta publicamente. Não o tendo feito, católico já não é. Não sendo católico, não tem direito a receber os sacramentos – entre eles, a comunhão. A excomunhão é o castigo reservado às ovelhas que se desgarram por decisão própria. Bolsonaro está excomungado. O que se viu em Aparecida, portanto, não passa de impostura. Esse indivíduo não pertence ao rebanho. Nos tempos de antigamente, não teria direito nem a uma sepultura na ala principal do cemitério; seria enterrado num puxadinho reservado aos suicidados e aos incréus.

A hipótese de ter se reconvertido às escondidas também não se sustenta. Ainda que o tivesse feito, teria de passar pela casa confessionário, que não há como escapar. Se tivesse contado ao sacerdote os horrores que vem cometendo desde que assumiu a Presidência, só teria recebido a absolvição depois de pagar a tarifa imposta pelo prelado.

Para gente normal, dois pai-nossos e três ave-marias resolvem o problema e põem o fiel de novo em estado de graça. Já com Bolsonaro, o caso é mais sério. Se ele contasse tudo o que tem feito, a penitência seria longa, mais longa que um dia sem comida. O capitão estaria até hoje dando volta a pé em torno dos palácios em que mora, terço na mão, a contar os passos e a recitar os milhares de pai-nossos que lhe teriam sido impostos como pedágio.

Tirando o dia em que foi filmado correndo atrás de uma ema com uma caixa de cloroquina na mão, ninguém jamais o viu dar voltas em torno do palácio. Tampouco consta que tenha enrolado um terço na mão direita a fim de contabilizar os pai-nossos. Portanto, não se confessou. Se se confessou, não contou todos os pecados. Se contou todos os pecados, não cumpriu a penitência. Em qualquer hipótese, não tinha o direito de comungar.

É caso de apostasia. Na Idade Média, seria mandado para a fogueira. Neste século 21, mais maneiro, vai espernear até o fim do mandato. No exato momento em que passar a faixa, perderá a imunidade e descerá a rampa para entrar direto no camburão que estará esperando por ele. Com destino à Papuda e sem o perdão da Padroeira. A danação terrestre e a celeste chegarão juntas.

Observação
Algo me diz que a visita do presidente a Aparecida mais botou pra correr que arrebanhou fiéis. O capitão perdeu mais do que ganhou. Melhor seria que não tivesse comparecido. Uma visita de cortesia ainda vá; mas… comungar? Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo.

Apagando o passado

José Horta Manzano

Até 6 de outubro, havia na cidade de São Paulo uma avenida quilométrica, cujo nome era compartilhado por dois ilustres membros da família Andrade. O primeiro trecho da via homenageava o escritor Mário de Andrade, enquanto o segundo lembrava o homem político Auro S. de Moura Andrade.

Mário, o Andrade escritor, não teve vida longa: foram somente 51 anos, de 1893 a 1945. Já Auro, o Andrade político, ficou uns anos a mais neste vale de lágrimas: viveu 66 anos, de 1915 a 1982. Mário tinha idade pra ser pai de Auro, pois nasceu 22 anos antes, o que significa que não conheceram o mesmo Brasil. É complicado comparar a vivência de cada um deles.

A cidade de São Paulo conta com mais de 50 mil logradouros, contando ruas, praças, avenidas, becos, ruelas & assemelhados. Todos os meses, são feitos novos arruamentos, e novos nomes têm de ser encontrados. Cabe aos senhores vereadores essa árdua incumbência. Só que eles nem sempre se restringem a nomear as vias que acabam de ser abertas. Seguindo o Zeitgeist (=espírito do tempo), preocupam-se também em corrigir tudo o que lhes aparece como “injustiça” ou como “erro histórico”. Apagam, assim, trechos inteiros de um passado que a maioria deles, aliás só conhece de ouvir falar. Fico pensando se conhecem mesmo…

Dia 7 de outubro, entrou em vigor uma lei que corrige um desses “erros”. O trecho da rua comprida que levava o nome de Auro (o político) perde o direito à antiga denominação. Passa a levar o nome de Mário (o escritor). Como resultado, Auro some do mapa e Mário fica com todos os quilômetros para ele. Isso implicará em repensar a numeração de cada imóvel (há muitíssimos prédios altos), um problema que vai aporrinhar os moradores. Mas a vereança não se comove com essas minúcias – afinal, estão ali para dar nome às ruas, não para resolver problemas dos eleitores, que diabo! De todo modo, não são eles que vão sentir o drama.

O motivo dessa mudança? Os edis ouviram dizer que doutor Auro de Moura Andrade teria “apoiado” o regime militar, enquanto doutor Mário de Andrade, não. É claro que Mário de Andrade não podia ter apoiado o regime. Há um anacronismo: ele já tinha falecido 19 anos antes do chacoalhão de 1964. Ninguém tem o direito de afirmar se o escritor teria “apoiado” ou não o movimento. Os vereadores parecem tomar como favas contadas que ele o teria reprovado. Não tenho tanta certeza.

Para quem não viveu aqueles dias, é bom dizer: o golpe de 1964 derrubou o presidente, mas não instaurou ditadura. Muita gente fina ficou do lado dos insurgentes – inclusive jornais sérios, como o Estadão. A verdadeira ditadura foi-se instalando aos poucos, com a supressão de eleições já marcadas, até que o golpe de misericórdia foi desferido com o AI-5, ao final de 1968. Nessas alturas, muitos dos que haviam apoiado o movimento já se haviam dessolidarizado. De qualquer maneira, não havia nada a fazer.

O senador Andrade não foi mais apoiador do regime militar do que grande parte dos políticos de sua época. Gente bem mais entusiasta que ele ainda continua tendo seu nome estampado em placa de rua de São Paulo. O exemplo maior é Paulo Maluf, atualmente em prisão domiciliar por ter usado suas offshores para esconder as centenas de milhões de dólares dos contribuintes que ele havia roubado.

Maluf, que foi notório lambe-botas dos militares, ainda conta com homenagem familiar. Seu pai, Salim Farah Maluf, ainda dá nome a três logradouros: uma rua, uma praça e uma avenida. E tem mais. Um complexo viário leva o nome de Maria Maluf, mãe de Paulo Maluf. A denominação do complexo foi oficializada por decreto de 1995, emitido na época em que – veja a coincidência! – o filho era prefeito da cidade.

Uma curiosidade picante: o Complexo Viário Maria Maluf termina no Viaduto Aliomar Baleeiro, figurão que se beneficiou como poucos do regime ditatorial. De fato, o baiano Baleeiro foi nomeado para o STF pelo presidente Castello Branco. Entrou numa vaga aberta pelo AI-2, quando meia dúzia de ministros em exercício foram demitidos e tiveram de ceder o lugar para outros mais dóceis. Não há previsão de que o viaduto que homenageia Baleeiro vá mudar de nome.

It’s the economy, stupid!

José Horta Manzano

A frase foi pronunciada 30 anos atrás, por James Carville, então estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton. Que, por sinal, venceria o páreo.

No original, era The economy, stupid! – A economia, imbecil!”. Com o tempo, cristalizou-se como “It’s the economy, stupid!”. O sentido original ficou levemente alterado, mas a frase ganhou uma dobradiça que lhe permite grande flexibilidade de aplicação.

Foi uma ordem dada aos integrantes da equipe de campanha sobre um ponto que eles não podiam esquecer nunca. Tinham absolutamente de ter sempre em mente as possíveis implicações econômicas ao fazer sugestões ou escrever discursos para o candidato.

De lá pra cá, a expressão virou clichê. Volta e meia, ressurge, mesmo em assuntos que nada têm a ver com economia. É o que me ocorre hoje.

Ontem, um planeta aturdido pererecou pela falta de Facebook, Instagram, Whatsapp & companhia, todos fora do ar. Durante as horas que o apagão durou, usuários atônitos se perguntavam o que teria acontecido.

Acanhada e atrasada, chegou a explicação dos donos do negócio. Cito um trecho do comunicado oficial:

“The six-hour outage across our platforms including Instagram, Messenger, Whatsapp, and OculusVR were caused by configuration changes to the routers which coordinate network traffic between the company’s data centers.”

O blá-blá-blá, torcido feito alambique, explica que a causa da pane são “mudanças na configuração dos roteadores que coordenam o tráfego entre os centros de dados da companhia”.

O mundo todo aceitou a justificativa tal como veio. A culpa cabe, portanto, às mudanças de configuração. Encontrado o culpado, estamos entendidos e não se fala mais nisso.

Acontece que essas “mudanças” não caíram do céu, nem foram introduzidas por um anjo mau. Elas foram feitas por mãos humanas, que trabalharam coadjuvadas por cabeças humanas. Portanto, a origem da pane é nada mais, nada menos, que erro humano.

Como é difícil admitir um erro, não é verdade? Aqui vale utilizar o clichê da campanha de Clinton: It’s human failure, stupid! – É erro humano, imbecil!”.

Não sei quem é mais imbecil nessa história, quem pronunciou a meia verdade ou quem a engoliu sem mastigar.

Devo ter perdido um capítulo

José Horta Manzano

Faz tempo que cogito sobre as razões que levam nosso impagável capitão ao negacionismo. Louco, a gente sabe que ele é; mas ninguém ainda o viu babando. Portanto, uma réstia de razão deve ter sobrado naquela cachola.

Posso entender a atitude dos que o seguem – comportam-se tipicamente como maria vai com as outras; quem age assim, simplesmente executa o que seu mestre mandar e pronto. Mas tenho dificuldade em captar o real objetivo de Bolsonaro. Afinal, seu mestre é ele mesmo! Ou não seria?

No começo da pandemia, muita gente (que hoje faz de conta que estava cochilando) também imaginou que a covid ia desaparecer tão rápido como chegou. Alguns, famosos, chegaram a dar entrevista afirmando que o Brasil chegaria a 2 mil mortos, não mais. Até aí, dá pra entender.

Acontece que tempo passou, mais tempo passou, muito tempo passou. Chegamos a 600 mil mortos, que não tem como esconder. Milhares e milhares de empresas fecharam. Milhões perderam o emprego. E o capitão continua negando a realidade!

Ainda outro dia, em “discurso” pronunciado na ONU, voltou a bater o pé ao receitar remédios perigosos para a saúde de quem já estiver doente de covid. Como se não bastasse, proclamou aos quatro ventos que ele, pessoalmente, não estava vacinado e que não tinha intenção de espichar o braço.

Portanto, além do medo da agulha, alguma razão há de haver. Só que essa razão me escapa. Se alguém tiver alguma ideia, mande cartas para a redação. Agradeço desde já.

Observação
Na mesma cartinha, se puder, me dê sua versão das razões que levaram (ainda levam?) a empresa de “saúde” Prevent Senior a tomar pacientes de covid como cobaias sem consentimento (nem do doente, nem da família). Por que razão administraram (ainda administram?) medicamentos nocivos à saúde? A intenção era acelerar a agonia dos infelizes que já estavam dando mais despesa que lucro, liberando assim o leito para o próximo coitado? E por que razão omitiram (ainda omitem?) o nome da covid ao estabelecer atestado de óbito?

Não mandem cartas demais, porque, neste país, a jurisprudência ensina que réus podem até ser inocentados por excesso de provas. Já aconteceu.