Narrativa

José Horta Manzano

No domingo 14 de nov°, a deputada Joice Hasselmann soltou um tuíte venenoso:


Nenhum deputado bolsonarista se inscreveu para inspecionar o código fonte das urnas eletrônicas. O TSE abriu as portas para vistoria em 4/10. Eles só se interessam pela narrativa.


Estricnina pura. Em menos de 30 palavras, a doutora deu seu diagnóstico sobre o estado de espírito dos espalhadores de notícias falsas (em português: fake news). Nessa gente, o que domina é a falsidade. O que dizem é só “da boca pra fora”, como se dizia antigamente.

Os que praticam esse perigoso esporte de desinformação não são apegados à verdade. Se a notícia espalhada não bate com a realidade, dane-se a realidade.

Afinal, toda seita que se preze exige que os fiéis bebam as palavras do chefe, como se bebessem da fonte de água pura. Na qualidade de arautos do “mito”, são pagos pra divulgar o que seu mestre mandar.

Se o chefe disse que as urnas eletrônicas são um lixo, ninguém tem o direito de contestar, muito menos o de verificar. E há bobões que acreditam e seguem o enterro. Nenhum deles tem sequer a curiosidade de levantar a tampa do caixão pra ver se defunto há.

Voto por internet

José Horta Manzano

Alguns meses atrás, eu lhes contava o progresso que o voto por internet havia feito na Suíça. De fato, a moderna parafernália informática abriu caminho pra grande avanço na área. Até outro dia, o eleitor helvético contava com apenas duas possibilidades de exercer seu direito: o comparecimento pessoal no domingo de votação ou o voto antecipado, por correspondência.

Entre os dois, o voto antecipado é bem mais prático. No canto da mesa da cozinha, bem à vontade, o eleitor rabisca seu desejo na cédula. Em seguida, enfia no envelope que já veio junto com o material eleitoral, despacha pelo correio e esquece. Mas há sempre quem prefira dar um passeio até o local de votação no domingo eleitoral. É sempre boa ocasião pra encontrar algum conhecido e bater papo em torno de um aperitivo antes do almoço. (O voto é encerrado ao meio-dia.)

Um tanto timidamente, menos de meia dúzia de cantões já haviam introduzido o voto por internet em fase experimental. Na teoria, é ultraprático. Vota-se do teclado do computador ou mesmo a partir do smartphone, companheiro de todas as horas e (quase) todos os bolsos. Mais simples, impossível. Só que essa modalidade de transmissão do voto acaba de sofrer uma senhora pancada.

A empresa nacional de correios, que é também importante operadora do ramo de transmissão eletrônica de dados, fez uma experiência. Organizou um concurso ‒ mais acertado será dizer um desafio. Conclamou piratas informáticos (em bom português: hackers) do mundo inteiro a tentar quebrar os códigos e protocolos de transmissão da empresa. Mais de três mil profissionais e amadores se apresentaram. Tiveram um mês de prazo pra tentar introduzir-se no sistema.

O resultado foi decepcionante ‒ para a empresa de correios, naturalmente. Os piratas detectaram numerosas falhas no código-fonte, problemas que tornam o voto inseguro. No frigir dos ovos, o eleitor exprime sua escolha mas não tem garantia de que o voto será computado corretamente. Deu pânico geral.

Para as votações programadas para o mês que vem, quatro cantões que se preparavam a adotar o voto por internet não tiveram remédio senão desistir. Ficou o dito pelo não dito. Vota-se de novo à antiga. O sistema, afinal de contas, não era tão ruim assim. Mais lento? Pode ser. Mas… bem mais seguro.

Fica a pergunta de sempre:
Será que o sistema brasileiro de voto eletrônico está blindado contra toda tentativa de pirataria?

Fica também a sugestão:
Que o Tribunal Superior Eleitoral institua um desafio, como foi feito na Suíça. Vamos ver se especialistas em espionagem eletrônica não encontram alguma falha no sistema. Estão com medo de quê?