Honraria envenenada

Repercussão mundial
No Brasil, 21 cientistas que discordam de Bolsonaro recusam uma medalha
Le Monde, Paris

José Horta Manzano

Tive um bisavô inglês. Chegou ao Brasil quando era um jovem adulto, no fim da década de 1850. Nunca mais voltou ao país natal. Cruzar o oceano, naquele tempo, não era coisa que se fizesse com frequência.

No Brasil, casou-se e teve uma renca de filhos, como era costume. Na juventude, trabalhou para os ingleses que exploravam minas de ouro na região. Na maturidade, fez coisas incomuns para um estrangeiro de sotaque. Chegou, por exemplo, ao cargo de prefeito de Ouro Preto, então capital da província de Minas Gerais.

Passados mais de cem anos de seu falecimento, as informações sobre a vida do antepassado vão se perdendo. Um detalhe, no entanto, ficou gravado na memória familiar. O inglês foi agraciado com a medalha da Ordem da Rosa, no grau de comendador. Foi o próprio imperador a entregar a honraria.

Até hoje, nas raras vezes em que algum descendente se refere ao antepassado, fala do “comendador”. É que, na família, nunca houve outro. Para receber tal homenagem, ele há de ter tido méritos, fato que ainda hoje desperta nos descendentes uma pontinha de orgulho.

“Indignação, protesto e repúdio” – são os termos fortes com que 21 cientistas, agraciados com a Ordem Nacional do Mérito Científico, recusaram a honraria.

É atribuição do presidente da República designar os que serão homenageados com medalhas e comendas. Normalmente, a escolha é feita por quem é do ramo e entende do assunto; o presidente só entra no final, com a caneta, pra assinar o decreto.

Mas Bolsonaro não é um presidente normal. Aconselhado sabe-se lá por quem, decidiu cortar dois nomes da lista já publicada no Diário Oficial. Pegou muito mal. O capitão fez isso porque, por alguma razão, encasquetou a ideia de que o pensamento dos dois divergia do seu.

Os demais nomeados ficaram numa situação complicada. Se aceitassem a condecoração sem piar, o silêncio poderia até ser interpretado como evidência de que se alinhavam com Bolsonaro. Que fazer? Não tenho detalhes do conciliábulo, mas o resultado foi espetacular (e inusitado no Brasil atual): os 21 recusaram, coletivamente, a homenagem.

Não utilizaram os termos rasteiros em voga no Planalto, do tipo “enfia tua medalha lá onde estou pensando”. A rejeição foi feita em linguagem erudita e polida, mas firme.

A notícia me deixou feliz. Não tanto por imaginar a cara de tacho do capitão, que, de toda maneira, não tem capacidade de entender o que está ocorrendo. Sutil demais para ele. O que me alegra é saber que, apesar do adesismo de tantos personagens que povoam nosso andar de cima, ainda se encontra gente íntegra. É um raio de esperança a indicar que nem tudo está perdido.

Com essa atitude, os cientistas que ousaram dar com a porta na cara do presidente ganharam mais do que se tivessem se curvado para receber o colar com a medalha. Uma coisa é certa: cem anos depois que tiverem falecido, os descendentes de cada um deles ainda se orgulharão do antepassado que manteve corpo ereto e cabeça erguida numa época em que todos se vergavam.

Tempus rationis dominus est.
O tempo é o senhor da razão.

4 pensamentos sobre “Honraria envenenada

  1. A história me faz lembrar de O Ensaio sobre o Dom, do sociólogo e filósofo Marcel Mauss. É um trabalho fantástico sobre relações sociais de troca, aqui, sobre a conexão efetivada na entrega de honrarias (títulos, medalhas, cargos, etc). Aquele que concede (a instituição de Estado representada pelo presidente) faz um pacto de sociabilidade e aliança com quem recebe (os cientistas). Neste caso específico, a honraria é o que Mauss chama de “presente envenenado”. A medalha é apenas a instância material de algo bem mais poderoso. Aquele que recebe torna-se parte do doador. A dádiva (a medalha) é a conexão. A medalha, para Mauss, carrega símbolos tanto invisíveis quanto visíveis. Aceitar é ter conexão com quem ofertou. Isso ocorria nos tempos do Império: quando os governantes entregavam títulos a algumas pessoas da elite burguesa, esperavam por essa aliança. Nada é dado por acaso. Os projetos governamentais, como as Bolsas e os Auxílios, são um tipo de dádiva, envolta por desejos de aliança (eu concedo isso a vocês e espero pela retribuição, o voto num futuro pleito).

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    • Toni, obrigado pelo comentário pertinente.

      Não conheci meu bisavô, que, quando nasci, já era falecido fazia mais de 30 anos. Mas quero crer que, tendo nascido em 1839 na Inglaterra vitoriana e tendo vivido toda a vida adulta no Brasil imperial, há de ter sido monárquico. Não conseguiria imaginá-lo republicano inflamado.

      Como bom monarquista, há de ter aprendido a ser reverente para com o monarca de turno. Na Inglaterra natal, a rainha Victoria; no Brasil, naturalmente, o imperador Pedro II.

      Portanto, para ele, aceitar uma honraria oferecida por Dom Pedro – e, ainda por cima, entregue quando de uma passagem do imperador por Ouro Preto – há de ter sido um momento de êxtase. Na hora de aceitar a comenda, meu bisavô não precisou apelar para a coragem. Não aceitá-la era simplesmente inconcebível. “Ça allait de soi”, como dizem os franceses, era uma evidência.

      No episódio dos 21 cientistas que acabam de rejeitar a armadilha montada por Bolsonaro, é diferente. Eles precisaram abjurar toda a subserviência a que estamos acostumados no Brasil deste século 21. São pouquíssimos os momentos em que se vê alguém colocando os próprios princípios acima de interesses materiais. Foi isso que me impressionou.

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  2. Exato, no caso de vosso bisavô, conectado com o regime monárquico, certamente foi uma honraria. Mas a conexão existe. Toda a troca de dádivas tem em si a instância de aliança. A concessão da honraria a vosso bisavô chancela ainda mais essa relação dele com o Império. No caso de outros personagens ( burgueses, pessoas de destaque, agentes públicos e políticos da época), o interesse em conceder títulos e honrarias visava um pacto social, uma ligação, uma pacificação. Não se deve combater aquele com quem se tem uma aliança. Durante um período houve um pacto entre o eleitor e o doador de uma dádiva (o Bolsa Família). O voto é a retribuição esperada. O atual governante segue essa mesma teoria mostrada pelo estudo de Mauss.

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