Pensamentos soltos ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma senadora petista tem repetido compulsivamente uma analogia para convencer seus colegas e a população de que o impeachment é golpe: “É como condenar à morte uma pessoa por ela ter cometido uma infração de trânsito”.

Golpe 1Data venia, Excelência, o que está acontecendo na minha visão é que a tal pessoa foi pega dirigindo embriagada e se recusa a aceitar perder a carteira, como prevê a lei, argumentando que só tomou cerveja – e que cerveja é sabidamente uma bebida não alcoólica!

Dilma está repetindo, sem querer e sem ter consciência disso, uma frase do famoso escritor português Luís Vaz de Camões: “Amei tanto minha pátria que não me contentei em morrer nela, mas com ela”.

Bebida 4Só que com uma diferença importante: enquanto o lusitano se desesperava com os rumos que maus governos haviam dado à sua pátria, a brasileira vem contribuindo com extremo empenho e eficácia para promover o fim trágico da nossa.

Sei não. Para mim, José Eduardo Cardozo quase conseguiu provar que uma decisão monocrática do presidente da Câmara dos Deputados pode ser danosa para todo o país e que constitui, sem dúvida, um golpe contra o Estado democrático de Direito.

Golpe 2Falhou no seu intento por apenas 72% do total da meta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dias certos para sentir

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sei que vou chocar muita gente com o que tenho a dizer, mas vou dizê-lo mesmo assim. Não sei explicar esse meu gosto mórbido em ser do contra, procurar o avesso de toda intenção, manifestar desconformidade com o clima geral de celebração.

Tudo que sei é que não gosto de sentimentos impostos com data marcada. Acordar num dia que, só por estar marcado em vermelho na folhinha, exige de mim todo um preparo emocional para oferecer risos, abraços e gestos de ternura. Manifestar, mesmo sem sentir o impulso vindo de dentro, alegria ou gratidão ou solidariedade ou generosidade.

Dia das maes 3Se é Natal, é preciso entrar no clima de confraternização em família. Se é Páscoa, é necessário lembrar que todo ciclo chega ao fim e acreditar na eterna possibilidade de recomeçar. Se é o Yom Kipur, é imprescindível destravar o peito, reafirmar que somos todos falíveis e perdoar quem não correspondeu às expectativas. Se, ao contrário, o dia é de tristeza compulsória, como o Dia de Finados, é praticamente impossível resistir à obrigação de fazer cara séria, deixar que uma lágrima furtiva escape ou rememorar as qualidades e os momentos felizes vividos junto à pessoa que sentimos como ausente.

Ontem foi o Dia das Mães. As redes sociais lotaram de postagens festivas dos que ainda têm a mãe por perto para abraçar e de declarações chorosas de quem já não tem mais essa oportunidade. Qual o problema? Em princípio, nenhum. Cada um é livre para expressar seus sentimentos pelo ângulo e da forma que desejar. O que me incomoda não é o desejo de homenagear, mesmo que comercialmente, uma pessoa que, bem ou mal, representa a âncora mais firme de que dispomos para nos lançarmos nas águas revoltas da vida.

Dia das maes 2O que me perturba desde sempre nessas ocasiões é a sensação de estar sendo forçada a aderir a um movimento de massa, que nem sequer se dá ao trabalho de auscultar a própria verdade interior. Não poder dissentir, não poder moderar, não poder temperar o caldo afetivo com sabores exóticos, não poder pintar o cenário com outras cores mais pessoais.

Falar das experiências dissonantes vividas nas relações familiares, amorosas, religiosas ou políticas tem o peso de um dedo rigidamente apontado contra todas as pessoas que se renderam ao clima de festa. Não se integrar de corpo e alma à paisagem emocional à sua volta é aceitar o risco de transmitir uma mensagem ambígua ou oposta: não acredito no Deus redivivo, não compartilho da crença de que o recomeço é possível, não consigo sufocar minhas mágoas, não amo minha mãe, não valorizo a vida eterna.

Dia das maes 4Lembro que um dia, durante uma sessão de psicodrama, o terapeuta me chamou ao palco e pediu que eu representasse o papel de uma histérica para contracenar com um homem que enfrentava conflitos com a esposa. Estranhamente, senti de imediato que meu corpo todo havia se paralisado. Não podia gritar, não podia chorar, não podia gesticular, por mais que minha cabeça assim o ordenasse. O terapeuta, então, aproximou-se devagar pelas minhas costas e prendeu com força meus braços para trás. A reação veio com fúria e de chofre: passei a me debater descontroladamente, a me descabelar, chorar e gritar a plenos pulmões. Só um pensamento ocupava minha mente: libertar-me de qualquer maneira daquela contenção indesejada. A crise só terminou quando, vencida pelo cansaço, me deixei desabar no chão, escapando do confronto pelo meio das pernas do terapeuta.

Dia das maes 6Talvez seja isso, afinal, o que se esconde por trás de todos os meus descompassos emocionais. É o que eu sinto por dentro que me move, não o que se espera de mim por fora. Sinto como agressão o desrespeito à espontaneidade do meu estado de humor. Minha paralisia denuncia então, mesmo a contragosto, o meu não-pertencimento, a vontade que não sinto como minha.

Compreendo, é claro, que minha verdade psicológica não é necessariamente a mesma da de outras pessoas, nem acontece forçosamente em sincronia com qualquer outra. Sei que é possível experimentar conforto mesmo quando a gente se deixa levar por uma onda de afeto programado.

Dia das maes 1O que me constrange é não ser capaz de expressar sem agressividade meu apreço pela liberdade interior que todo ser vivente tem – ou deveria ter – de manifestar suas emoções quando, onde e do jeito que quiser. Pela licença autoconcedida de sentir-se triste quando todos estão felizes. De se perdoar por não ser capaz de se enternecer.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Teste primitivo

Elio Gáspari (*)

Bola cristal 1«Saber o que vai acontecer é coisa de cartomante. Apesar disso, sempre pode-se medir a capacidade de uma pessoa de pensar o impensável.

Aqui vai um teste primitivo. Tem cinco afirmações. Quem previu uma delas, é ousado. Quem previu duas é um temerário. Quem previu todas pode abrir uma tenda de cartomante:

   1- Dilma Rousseff não terminaria o mandato.

   2- Eduardo Cunha perderia a cadeira.

   3- Marcelo Odebrecht iria para a cadeia.

   4- Leo Pinheiro, da OAS, colaboraria com a Lava a Jato.

   5- Alemanha 7 x Brasil 1.

Quem foi surpreendido em todos os casos é apenas um brasileiro normal. Os tempos é que estão emocionantes.»

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

Pressão do grupo e adestramento de humanos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um dos experimentos mais interessantes, curiosos e instigantes de que tive notícia sobre a gênese de crenças irracionais foi feito com macacos.

Em linhas gerais, o estudo se propunha a identificar como nasce uma superstição. Para testar a hipótese de que o comportamento de um único indivíduo pode ser associado à ocorrência de um evento ameaçador para todo seu grupo de referência e, a partir daí, disseminar-se como crença, contaminando o comportamento dos demais, foram criadas as seguintes condições experimentais:

Macaco 2Um grupo de macacos era colocado dentro de uma jaula fechada por vidros, que possuía uma plataforma em seu centro. A plataforma era içada para o alto e, sobre ela, depositava-se um cacho de bananas. Todos os macacos eram ingênuos (isto é, nunca haviam estado dentro da jaula em questão) e estavam com fome. Naturalmente, um dos indivíduos, ao sentir o cheiro das bananas, tentava escalar a plataforma para ter acesso a elas. O que nenhum dos macacos sabia era que havia um sistema hidráulico embutido na plataforma que era acionado pelo peso. Tão logo o macaco pioneiro chegava ao topo e se sentava sobre a plataforma para comer as bananas, seu peso acionava uma bomba que inundava toda a gaiola, ameaçando a vida dos que estavam embaixo. Estes, desesperados com a possibilidade de afogamento, gritavam e se agitavam, na tentativa de escapar da jaula. Eventualmente, o macaco que estava em cima da plataforma deixava-se contaminar pelo clima de pânico geral e descia dela. A água parava então de jorrar e passava a ser drenada, pondo fim ao estresse do grupo.

Quando, mais tarde, um segundo macaco faminto escalava a plataforma, o mecanismo era novamente acionado e nova tensão recaía sobre o restante do grupo.  A situação se repetia até que os macacos passassem a associar a escalada com ameaça de morte para todos que não a fizessem. A partir desse momento, qualquer nova tentativa de subir na plataforma era impedida pelos demais, que agarravam o indivíduo afoito e o puxavam para baixo, antes que ele pudesse se sentar sobre ela.

Caixa vidroAssim que esse padrão de conduta tivesse se firmado, um dos macacos era retirado da gaiola e substituído por outro, ingênuo. Se este tentasse escalar a plataforma, era repelido pelos demais, sem que dispusesse de qualquer pista dos motivos que levavam o grupo a fazer isso. Os macacos eram então sucessivamente retirados um a um e trocados por novos indivíduos, até que todo o grupo fosse novamente constituído apenas por ingênuos. O que o experimento constatou foi que, independentemente do fato de desconhecerem os motivos da proibição da escalada e de estarem famintos, todos acabavam repetindo o comportamento “supersticioso”.

Não preciso nem dizer que, desde o dia em que soube desse estudo, fiquei imaginando como o fenômeno da superstição seria desencadeado na espécie humana. Sou filha de um homem extremamente supersticioso que, quando não sabia explicar o porquê de certas proibições, alegava brincando que “seu filho pode nascer sem dentes e sem cabelo”.

Há alguns dias, passeando por uma rede social, vi um vídeo que respondia em cheio às minhas indagações. Segundo as informações constantes da matéria, o estudo foi realizado por pesquisadores de uma universidade inglesa e consistia no seguinte: um grupo de pessoas aguardava sentado por uma consulta na antessala de uma clínica médica. Uma discreta campainha soava a intervalos regulares. Sem que nenhuma instrução fosse dada nesse sentido e sem qualquer comentário das pessoas presentes, a cada toque todos se levantavam por instantes e voltavam a se sentar. Uma jovem, ingênua, chega à clínica e estranha aquele comportamento. Sem saber como se comportar, ela permanece sentada por dois toques consecutivos, mas sucumbe à tentação de imitar o comportamento dos demais no terceiro. Os pacientes vão sendo chamados um a um e, em pouco tempo, só resta a jovem na sala de espera. Nesse momento, chega um rapaz ingênuo e senta-se ao lado da garota. Quando um novo toque de campainha soa, a jovem, mesmo sem a companhia dos que faziam isso anteriormente, levanta-se e volta a sentar-se. O rapaz interrompe a leitura de uma revista e questiona, perplexo, por que ela havia feito aquilo. A garota responde, sem graça, que não sabia exatamente, mas que, por outras pessoas terem agido daquela maneira quando ela chegara, “sentiu que deveria” agir da mesma forma. E acrescenta: “Quando passei a fazer isso, me senti muito melhor”.

Sala de espera 1O rapaz passa, então, a imitar o comportamento da jovem. Outros pacientes ingênuos chegam e, com maior ou menor grau de resistência, terminam todos por repetir o comportamento irracional. Segue-se uma rápida explicação dos pesquisadores a respeito de como nosso cérebro reage à pressão de grupo e como eventuais punições e recompensas vão, aos poucos, constituindo aquilo a que chamam de nossa “educação social”. Nada de muito novo nem espetacular, mas certamente uma descoberta que condensa de forma criativa e simples o desejo humano de inclusão no grupo – como já explicitava desde tempos imemoriais o ditado popular “Em Roma, age como os romanos”.

Não pude deixar de pensar na similitude entre esses dois experimentos e as demandas sociais a que estamos submetidos que corroboram minha tese de adestramento de humanos. Quem nunca hesitou antes de tomar um copo de leite com manga? Quem nunca acreditou que, para ser amado, é preciso ser belo? Quem nunca equiparou sucesso a dinheiro, casamento a felicidade ou solidão a morar só, admiração social a posse dos itens de moda? Quem nunca teve medo de que os céus se abrissem e um raio o fulminasse caso ousasse desrespeitar um credo religioso?

Galileu 1O preço a pagar pela decisão de seguir percurso próprio, mesmo que isso represente andar na contramão da história, pode ser tão alto quanto o de se deixar levar pela vontade de imitar a grande massa sem ouvir a voz do próprio coração. Duvida? Seria aconselhável, neste caso, estudar a biografia de Galileu Galilei, Albert Einstein ou Sigmund Freud. Depois, entrevistar profissionais que fizeram carreiras de sucesso meteórico até serem abatidos em pleno voo por um ataque cardíaco ou uma crise existencial. Ou conversar com uma diva do cinema ou televisão, eleita a mulher mais desejada do planeta, que se interna em uma clínica psiquiátrica na tentativa de aprender a lidar melhor com sua infelicidade no plano sexual e afetivo. Ou, ainda, mais contemporaneamente, aderir por puro cansaço à tese de que há base legal para o impeachment da presidente ou à de que tudo não passa de um “golpe”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A expulsão do argentino

Jorge Béja (*)

Não será pedida a expulsão do argentino Adolfo Pérez Esquivel?

O Ministério Público Federal não vai pedir a expulsão do Brasil do argentino Adolfo Pérez Esquivel? Mesmo com o honroso Nobel da Paz, ganho em 1980, Esquivel jamais poderia ter ido quinta-feira ao plenário do Senado para discursar em favor de Dilma e se mostrar preocupado com um “possível golpe de Estado no Brasil”.

Esquivel tem lá seus méritos e é para ser aplaudido por onde passa. Não é qualquer um que conquista tão honroso título, reverenciado pelo mundo. Mas no Brasil há lei. E a lei manda expulsar Esquivel em razão do pronunciamento que fez no Senado. Não poderia ter feito pronunciamento nenhum, no Senado nem no banheiro do hotel que o hospeda.

by Miguel Abreu Falcão (1963), desenhista pernambucano

by Miguel Abreu Falcão (1963), desenhista pernambucano

O que diz a lei
Vamos à legislação brasileira. É o Estatuto do Estrangeiro, Lei nº 6815, de 19.8.1980. Diz o artigo 65: “É passível de expulsão o estrangeiro que, de qualquer forma, desrespeitar proibição especialmente prevista em lei para estrangeiro”.

E qual é a proibição que a lei brasileira impõe a todo estrangeiro? O Artigo N° 107 do Estatuto é claro: “O estrangeiro admitido no território nacional não pode exercer atividade de natureza política, nem se imiscuir, direta ou indiretamente, nos negócios públicos do Brasil”.

Pronto. Aí está a lei que Esquivel infringiu ao se pronunciar dentro do parlamento brasileiro: fez discurso político em favor de Dilma e se imiscuiu, direta e frontalmente, no dramático momento político que nosso país atravessa.

Voz de prisão
Qualquer um poderia — e os parlamentares deveriam — ter dado voz de prisão a Esquivel, conduzindo-o preso à presença de um delegado da Polícia Federal ou mesmo diante de um juiz federal de Brasília. Se ele ainda estiver no território brasileiro, podem prendê-lo e levá-lo à presença da autoridade.

(*) O carioca Jorge Béja é advogado e articulista da Tribuna da Internet.

Comissão de Ética Pública

PraiaCláudio Humberto (*)

Plano secreto do Planalto, ao qual esta coluna teve acesso, prevê uma manobra que obrigaria os cofres públicos a bancar o “governo paralelo” anunciado por Dilma após seu afastamento.

A ideia é nomear ainda no governo atual, antes do dia 11 (data de votação do impeachment), os membros do futuro “governo paralelo”. Ao serem demitidos pelo novo governo, pedirão o “direito a quarentena remunerada” por 4 meses.

A Comissão de Ética Pública da Presidência da República tem papel essencial para fazer os cofres públicos bancarem o governo paralelo. O esquema prevê aprovação da quarentena pela Comissão, alegando inviabilidade de os demitidos obterem empregos. Quatro meses de “quarentena remunerada” serão suficientes para bancar o governo paralelo, avalia a cúpula do PT no Planalto.

Há antecedentes. Suspeito de corrupção no governo, ex-ministro Antonio Palocci obteve “quarentena remunerada” devidamente avalizada pela Comissão de Ética Pública.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

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Praia 2Nota deste blogueiro
É surpreendente que, em quase 14 anos de atividade, o governo popular não tenha estendido, a todos os que perdem o emprego, direito a uma quarentena remunerada. A lógica mais elementar ensina que o pequeno assalariado tem mais necessidade desse benefício do que membros do governo federal.

Observe-se que a comissão a que se alude é a de Ética Pública(!). Sustentada com nosso dinheiro, distinto leitor.

Ode ao frio

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Frio 3Aleluia, você está de volta! Que bom recebê-lo de novo por estas paragens, frio. Você não faz a mínima ideia do quanto estávamos saudosos. Que bom também que seu retorno tenha se feito acompanhar por uma chuvinha benfazeja. Até os jovens que não o conheceram quando São Paulo ainda tinha um clima civilizadamente ameno e era chamado de terra da garoa hoje o saúdam.

Espero, frio, que você tenha vindo para ficar de vez por aqui. Que, pelo menos até o fim de maio, você resista bravamente às possíveis massas de ar quente vindas da Amazônia, aos eventuais bloqueios atmosféricos causados por zonas de baixa pressão. Como você se demorou pelo caminho, envolvido quiçá pela beleza das paisagens e pela alegria no rosto das pessoas, talvez não saiba o quanto nossa terra ultimamente está precisada de um pouco de refrigério.

Sabe, não eram apenas os dias que estavam quentes. Os espíritos também estavam inflamados, nossos miolos não encontravam refrigeração, pulando de uma notícia bombástica para outra, sem intervalo para recuperar o fôlego. As cores do cenário à nossa volta eram fortes demais, o contraste de tons se exacerbava a cada minuto. Estávamos precisando desesperadamente de um pouco de sombra, de silêncio, de contrição. Sentíamos a necessidade de que o que está fora se apaziguasse um pouco para que o que está dentro se reorganizasse em torno do caminho da serenidade.

Clima frioÉ engraçado constatar isso, mas só você, frio, consegue nos encaixar com precisão na moldura da condição humana. Você nos inspira ao aconchego, ao acolhimento, à aproximação fraterna. Quando está calor, somos animais selvagens que só conhecem e reagem às próprias sensações: ao suor escorrendo pelas têmporas, pelo pescoço e descendo num arrepio pelas costas nos alertando que a ação foi exagerada; ao coração batendo apressado ansiando por mais emoções fortes; à garganta seca implorando por alívio imediato; aos reclamos do estômago, fígado e intestinos sobrecarregados pelo esforço de dar vazão à adrenalina acumulada; aos rins se queixando da missão impossível de eliminar de uma só vez tantos desvarios.

Quando você chega, frio, nossos órgãos de sentido aliam-se a nossos sentimentos e passam a comandar o espetáculo: nossos olhos que se abrem mais para contemplar com ternura os contornos da realidade emocional de outras pessoas; nosso coração que se aquieta para ouvir melhor o pulsar do coração do outro; nossas mãos que se comprazem na tarefa de identificar as diferentes texturas que compõem o substrato psíquico de cada criatura.

Frio

Frio

Paradoxalmente, começamos a nos comportar quase como ninhada de animais que só sabem sobreviver empilhando-se e dormitando uns sobre os outros para desfrutar o calor do contato de corpos. Já não nos bastamos mais. Recuperamos a memória dos tempos ancestrais da nossa vida em cavernas e reavivamos o fogo da esperança de sobreviver à solidão de tudo o que é propriamente humano.

Calor 1Já disse alguém que romântico é aquele que projeta nas mudanças climáticas as próprias emoções. Se o dia está nublado, sua mente divaga em meio a sombras. Se chove, sente-se liquefazer por dentro. Se um raio de sol desponta, seu peito enche-se de esperança. Pode ser verdade, mas acho que o inverso também é verdadeiro. Nos dias quentes, muitas vezes me sinto como quem assiste da plateia a um desfile de carnaval: aquele rebuliço todo me parece exagerado; a alegria, falsa; a confraternização, forçada. O descompasso com o desejo de contenção que invade minha alma acaba por me cansar me deprime.

Tudo a seu tempo, é claro. Os gregos já diziam que só aprendemos com os opostos. O sentido de pertencimento, de encaixe, precisa vir aos poucos, transitar suavemente em sintonia com o findar de um ciclo e a abertura para um novo. Depois do verão, o outono. Depois do inverno, a primavera. Depois da exposição, recolhimento. Depois da hibernação, o despertar da fome de contato.

Por isso, frio, demore-se pelo tempo que for possível. Se seu ciclo também demorar a se fechar, o desgaste orgânico será novamente inevitável. E nós que pertencemos organicamente ao calor dos trópicos – para meu pesar pessoal, devo admitir – podemos oferecer mais uma vez resistência ao prolongamento de sua permanência.

Frio 4Enquanto esse dia não chega, meu querido friozinho outonal, quero uma vez mais lhe dizer que abençoo a sua chegada. Por seu lado, com o corpo e a mente ainda abrasados pela vontade de colher os frutos de nosso esforço para implementar dias melhores para todos, rezo para você não se levar muito a sério nem se transformar, sem querer, no inverno da nossa desesperança.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Carta à ONU e aos americanos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Senhoras e senhores,

Antes de voltarem suas atenções para as considerações que nossa atual presidente deseja lhes apresentar para reflexão no dia de hoje, parece-me fundamental introduzi-los um pouco mais em detalhe à realidade brasileira. Para que lhes seja possível contextualizar com facilidade os fatos preocupantes que nossa mandatária pretende divulgar aqui, permitam-me guiá-los numa viagem conceitual pelo nosso país.

O Brasil não é um país para amadores. Turistas ocasionais podem se entreter e se deliciar com nossas belas paisagens, nosso clima tropical, nossa gastronomia diversificada, nosso multifacetado folclore e, principalmente, com nossa cultura de inclusão, conciliação, alegria e crença no futuro. Quaisquer que sejam seus interesses pessoais e visões de mundo, temos sempre a lhes oferecer um cardápio prolífico, generoso mesmo, de opções.

Já entender como nosso povo lida historicamente com sua realidade mais imediata – isto é, com seus desafios econômicos, sociais e políticos cotidianos ‒ é algo que requer uma robusta capacidade profissional de análise, capaz de contemplar com serenidade seus múltiplos aspectos conflitantes.

Dilma ONUCulturalmente nossos concidadãos se especializaram em extrair comédia de toda forma de tragédia. Como o próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, já sugeria desde os primórdios do século 20, o senso de humor e os chistes podem ser considerados formas efetivas de se lidar com o mal-estar, já que “numa brincadeira, pode-se até dizer a verdade”.

Talvez o nonsense de nossa realidade não seja evidente de imediato para um estrangeiro que nos brinde com a honra de por aqui morar, mas certamente se revelará mais tarde diante dos contornos surrealistas de nossas leis “que pegam” ou não, de nossa forma de fazer justiça “pelo CPF e não pelo RG”, de nossos conceitos arraigados de que “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro” e que todo pai dos pobres acaba funcionando também como mãe dos ricos. Nossa tradição de fazer piada com tudo aquilo que, em tese, poderia deflagrar convulsão social em outros países é tão forte que já nos rendeu o epíteto de “país não sério”. Os acontecimentos políticos dos últimos meses ameaçam agora nos transformar no “país da piada pronta”.

Dilma Obama 2O traço mais marcante da cultura social brasileira é, sem dúvida, aquilo a que chamamos de “jeitinho”. Talvez em decorrência de nossa flexibilidade corporal, mental e psíquica, herança de nossos antepassados africanos, aprendemos a driblar toda e qualquer restrição legal, a contornar normas e jurisprudências, a acreditar que o atalho é a rota mais curta para chegar aonde queremos e livrar-nos de toda forma de punição. Ou, quem sabe, seja ele herdeiro direto da crença de que tudo em nosso país “acaba em pizza” – ou, melhor dizendo, da constatação de que, em última instância, a balança da justiça pende sempre para o lado mais empoderado da sociedade.

Por outro lado, nossa forma de lidar com a autoridade talvez seja a característica mais paradoxal de nossa cultura aos olhos de um estrangeiro. Podemos nos submeter a ela sem contestação e perdoar-lhe todos os desvios desde que ela seja hábil em nos fazer crer que tudo o que faz é para o nosso bem. Ao mesmo tempo, quanto mais irascível, arrogante e distanciada do nosso jeito simples de falar, mais ela será desqualificada através de nosso modo zombeteiro de enxergar as coisas sérias da vida. Expor o ridículo das pequenezas mentais de nossos governantes é nosso jeito peculiar de expô-los ao ridículo.

Assim sendo, senhoras e senhores, afianço-lhes que todos os aqui presentes disporão de farto material linguístico e comportamental ao longo do discurso de nossa mandatária-mor para aferir por conta própria e com total isenção de espírito a consistência racional de seus proclames. Devo alertá-los, no entanto, que é provável que a grandiloquência dos argumentos usados por assessores na composição da fala presidencial contraste e seja impactada negativamente pelos atropelos à lógica nas entrevistas que se seguirão ao pronunciamento oficial. Rogo-lhes que desconsiderem eventuais contradições em nome da manutenção dos laços de fraternidade que unem nossos povos.

¿ Por qué no te callas ?

Acredito sinceramente que sua experiência recente com as polêmicas geradas pelo candidato republicano às próximas eleições presidenciais americanas pode lhes servir de base segura para um julgamento sereno das implicações de aderir a este ou àquele lado de nossos atuais confrontos políticos. Se de todo lhes for humanamente impossível isentar-se da força do mantra “impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”, peço-lhes que experimentem se colocar emocionalmente na pele de comandados. Se e quando uma onda de indignação começar a se agitar em seus peitos, relembrem a reação do rei de Espanha às colocações agressivas do então líder máximo venezuelano e, em coro, refaçam sua indagação: “Por qué no te callas?”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Renascendo das cinzas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dor de dente 1Quando se espreme um abcesso, é inevitável que uma torrente de pus seja lançada para todos os lados. Por mais constrangedor e nauseante que possa parecer o processo, é a única medida recomendada pelos especialistas médicos para aliviar a dor, o inchaço e a inflamação. Uma vez eliminada toda a carga de pus – e um pouco de sangue, que costuma vir junto – basta fazer a assepsia do local para restaurar as condições ideais que deem início ao processo de cicatrização.

Assistimos domingo, estupefatos, ao estouro de mais um abcesso político que insistia em combalir e fazer padecer o organismo da sociedade civil. O volume de toxinas lançado foi tal e tamanho que muitos preferiram não ver o término do processo.

Hoje de manhã, um pouco mais aliviados com a descompressão experimentada, nos percebemos ávidos pela decretação urgente de assepsia profunda no corpo político brasileiro. Ainda enojada, a maioria da população se dá conta de que o tecido parlamentar abriga múltiplos outros abcessos. Mais grave, que as mãos dos próprios médicos responsáveis pela assepsia estão contaminadas. Agora, inquietas, as pessoas buscam-se umas às outras para debater como foi que nos permitimos chegar a esse grau de degradação.

Band-aid 1Um belo momento para reflexão e mea culpa coletivo. Fomos nós mesmos, não há como negar, os responsáveis pela entrada de tantas bactérias e germes em nossa circulação sanguínea. Não percebemos a tempo que nossa epiderme cidadã ainda estava em processo de regeneração das fissuras causadas por décadas de exceção. Sabíamos que havíamos queimado etapas, mas achávamos que era preciso esconjurar os tempos sombrios que passamos vivendo em meio ao lixo da história. Apostamos na esperança de adoção de hábitos políticos mais higiênicos e em nossa capacidade de construir uma sociedade mais afastada da promiscuidade ideológica. Quando os ventos dos tempos de bonança sopraram, soltamos um pouco mais o nó da gravata, nos acomodamos confortavelmente no sofá, abrimos uma cerveja e ligamos a televisão para afastar ao menos temporariamente a dura realidade.

O preço da liberdade é a eterna vigilância, já disse alguém. Embora soubéssemos disso, confiávamos que acordaríamos de nossa merecida soneca com mais garra para vigiar os passos de nossos novos conselheiros. A musculatura relaxada, todavia, não nos permitiu manter a vigília. Aos poucos, fomo-nos tornando mais complacentes com velhos hábitos insalubres e voltando a frequentar ambientes poluídos. Não instalamos os filtros recomendados para purificar o ar da alfabetização política. A reinfestação foi inevitável.

Sol 2Culpa de nossa ingenuidade, de nossa imprevisão? Talvez, mas ainda prefiro acreditar que tudo o que é humano é provisório, imperfeito, limitado. Já aconteceu antes e vai acontecer de novo, com certeza. Não temos a sabedoria dos deuses nem a paciência dos santos. Hora de lamber as feridas, lavá-las com água oxigenada, fortalecer nosso sistema imunológico com doses diárias de conversação e tolerância.

Aliás, o consenso que começa a nascer ‒ de que é imprescindível superar divisões, juntar razão e emoção para enfrentar o difícil trabalho de desintoxicação ‒ é a mais reconfortante e comovente notícia do dia.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Voltando ao assunto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Remedio 1Acabo de ler a notícia de que a presidente da República sancionou lei que libera a produção e a venda da fosfoetanolamina. Se estou feliz? Não, não estou. Ao contrário, estou assustada com as possíveis consequências do açodamento com que ela foi liberada e quero explicar meus motivos.

Outro dia, um jornalista escreveu artigo defendendo a ideia de que é possível estar certo pelas razões erradas. Ele se referia ao cenário político brasileiro e à incrível debandada de parlamentares que compunham a base de apoio da presidente. Ele estava certo, suponho, mas não é a isso que me refiro hoje.

Na reportagem que informava a liberação da chamada “pílula do câncer”, o autor afirma com todas as letras que, “apesar de estudos científicos não terem apontado nenhuma eficácia dessa substância”, a Casa Civil teria recomendado a liberação “para evitar qualquer ameaça de desgaste (e de perda de votos) às vésperas da votação do impeachment na Câmara”.

Farmacia 2Infelizmente, é assim que nosso país funciona. Tanto os congressistas, que aprovaram apressadamente a liberação da droga sem consulta aos órgãos médicos competentes, quanto o executivo federal operaram ‒ tudo leva a crer ‒ fazendo cortesia com chapéu alheio. Como afirma um oncologista do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer ouvido na reportagem, a pílula “não deve ser assunto político”. Assino embaixo. Os pacientes de câncer e seus familiares não merecem que se lide irrefletidamente com sua saúde e sua qualidade de vida.

Aonde quero chegar? Quero apenas refletir sobre os meandros burocráticos que cerceiam a pesquisa médica brasileira e, nesse contexto, analisar mais em profundidade o papel da Anvisa. Que não nos faltam cientistas de alto padrão é fato sabido por todos. Que instituições de ponta no ensino e na pesquisa médica como a USP e o Instituto Oswaldo Cruz alcançaram reconhecimento internacional por sua qualidade, também. Onde está então o problema?

Posso estar enganada, mas me parece que a Vigilância Sanitária brasileira entende como missão principal a de reinventar a roda todos os dias. Basta lançar um olhar desapaixonado para o que aconteceu há alguns meses com o canabidiol. Apesar de vários estudos científicos internacionais terem apontado a importância dessa droga no controle da epilepsia e outros transtornos neurológicos, a Anvisa não se deu por vencida por meses e anos a fio, permitindo que médicos que o receitassem e pacientes que o importassem continuassem sob ameaça de prisão por tráfico de drogas. Depois, acuada diante de tantas evidências de sua eficácia, foi liberando aos poucos a importação da droga, pretendendo fazer crer que pesquisas médicas nacionais em andamento estavam chegando aos mesmos resultados.

Injeção 1Há alguns anos, a Anvisa já havia se lançado impávida à tarefa de disciplinar a comercialização de medicamentos homeopáticos. Impôs aos laboratórios a anexação de bula com indicação de uso de cada substância, dosagem, efeitos colaterais, etc., fazendo de conta que desconhecia o fato de que um mesmo medicamento homeopático pode ser – e é – usado há séculos para diversas doenças, sem relação umas com as outras. A critério do médico, é claro.

Sou leiga no assunto e não posso me pretender imparcial diante dessa iniciativa, já que na época eu era paciente da medicina antroposófica e minha cachorra estava sendo tratada com sucesso com uma injeção contra o câncer desenvolvida por um laboratório suíço e comercializada havia mais de duas décadas no Brasil (eu mesma já a havia tomado, com igual sucesso). Em decorrência da postura irredutível da Anvisa, a tal injeção foi retirada de circulação e sua importação proibida, levando ao desespero e desamparo milhares de doentes de câncer da noite para o dia. Não sei o que aconteceu com os humanos. Minha cachorra morreu.

Voltando à fosfoetanolamina, suspeito que, se o químico que desenvolveu a pílula há mais de 20 anos fosse um pesquisador estrangeiro, a Anvisa já teria se interessado em promover por conta própria estudos mais aprofundados. Acredito também que a USP teria pensado duas vezes antes de tratar um profissional formado pela própria instituição de curandeiro e determinar a lacração do laboratório que produzia a droga.

Hospital 1Isso sem considerar que eventual comprovação da eficácia da pílula do câncer poderia colocar em polvorosa poderosas indústrias farmacêuticas multinacionais, ameaçadas de perder a hegemonia no combate ao câncer e seus fantásticos lucros. E pensar que o tal químico tupiniquim, além de ter feito uma descoberta de fundo de quintal, distribuía o medicamento gratuitamente, por acreditar cegamente no próprio trabalho.

Não pretendo insinuar que todos os cientistas, pesquisadores e médicos que se colocaram acidamente contra a fosfoetanolamina tenham se deixado abater pela pressão de grupos internacionais. Mas que, inadvertidamente, ajudaram a corroborar a tese de que sofremos da síndrome de vira-latas, lá isso está claro. A começar pela constatação de que havia menos fosfoetanolamina nas pílulas do que o alardeado e a presença de “resíduos” de outras substâncias. Ora, doutores, por que não investigar cientificamente a atuação da substância pura nas células malignas e determinar a dosagem ideal antes de afirmar que a droga não faz nenhum efeito ou tem menor eficácia que a de outras drogas já comercializadas?

Remedio 2Na sequência, me causou espécie saber que especialistas brasileiros tenham se deixado envolver em intensa polêmica a respeito da distribuição da droga como suplemento alimentar. Não ‒ diziam irados os opositores ‒ estaríamos tentando cobrir o sol com peneira, o produto continuaria a ser usado como medicamento. Afinal, doutores, desculpem a petulância de perguntar: que males (além da automedicação) poderiam advir se isso acontecesse? A fosfoetanolamina apresenta ou não efeitos colaterais indesejados? É tóxica para o organismo, interage e atrapalha a ação de outras substâncias anticancerígenas?

A resposta? Ninguém sabe, até mesmo porque a pesquisa da fosfoetanolamina ainda não avançou para a fase de testes clínicos em humanos…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sofismas e atos falhos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se vivo estivesse e se acionado fosse para nos ajudar a interpretar o cenário brasileiro atual, Sigmund Freud estaria intensamente atarefado por estes dias. Além dos múltiplos atendimentos no divã particular, provavelmente estaria às voltas com um sem número de convites para palestras e aulas magnas nas principais universidades do país.

Einstein e FreudSa correspondência com Albert Einstein estaria ainda roubando preciosos minutos de seu tempo, assim como consultas a livros de mitologia, sociologia, antropologia e religião para tentar responder às questões agudas propostas pelo pai da Relatividade, pertinentes à psicologia das massas e aos tempos de crise na civilização. Freud seria forçado a sair de sua área de especialidade para fazer eco ao alerta de Einstein de que “é reduzido o número daqueles que veem com os próprios olhos e sentem com o próprio coração, mas da sua força dependerá que os homens tendam ou não a cair no estado amorfo para onde parece caminhar hoje uma multidão cega”. Mesmo assim, o velho Freud talvez vibrasse com sua sábia conclusão de que “não podemos desesperar dos homens, pois nós próprios somos homens”.

Sartre 1Se aos dois se juntasse ainda Jean-Paul Sartre, é provável que as conversas sobre nossa inexorável condenação ao inferno da convivência humana e suas tentativas de explicação de nosso sem-destino existencial varassem as madrugadas e durassem semanas.

Uso abusivo de sofismas, atos falhos, lapsos de linguagem, crises de histeria individual e coletiva, mania de perseguição baseada em tramas rocambolescas que dariam inveja aos mais renomados novelistas de costumes, apego à vitimização, personagens megalômanos, psicopatas e sociopatas, compulsão no uso de palavras de ordem, obsessão por temas políticos e judiciais, voluntarismo no desejo de implementação de mudanças, manipulação afetiva e chantagem emocional para atrair aliados, comportamento de horda, etc. – experimentamos em nossa pele a cada novo dia todo um tratado de psiquiatria, psicanálise e psicologia. Tudo isso sem mencionar três síndromes preocupantes: a de Rei Sol ou síndrome Luís XIV (“L’État c’est moi”) e a síndrome de Luís XV, o Amado (“Aprés moi, le déluge”) que grassam entre os governantes, assim como a Síndrome de Estocolmo que se dissemina entre a parcela desassistida da população.

Luis XIVÉsquilo, dramaturgo da Grécia antiga, já havia nos advertido pioneiramente que, em tempos de guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. E foi além, penetrando um pouco mais nos meandros do conturbado psiquismo humano: “Falseando a verdade, a maioria dos homens prefere antes parecer a ser”.

Nietzsche certamente se apressaria em juntar forças com esses pensadores para agregar que “aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro… porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não consegue ver o fundo”. Sem dúvida, um poderoso consolo para todos nós que assistimos assoberbados ao presente festival de esgrima verbal, com proliferação de sofismas e atos falhos.

O dicionário pode nos socorrer para entendermos as motivações em curso:

Sofisma
Argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta na realidade uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa; argumentação capciosa, concebida com a intenção de induzir em erro, o que supõe má-fé por parte daquele que o apresenta.

Ato falho
Fenômeno descrito por Sigmund Freud, que se caracteriza por erro na fala, na escrita, na memória ou numa ação física, que permite inferir a existência de desejo reprimido, e a respeito do qual não se pode dizer, portanto, que tenha ocorrido acidentalmente por distração ou cansaço; formação de compromisso entre o inconsciente e o consciente.

Cabe a cada um dos que me leem elencar os casos mais emblemáticos e seus exemplos favoritos em cada uma dessas categorias. Mas, reflitamos um pouco, o que é preciso fazer para colocar um ponto final nessa fase de involução civilizatória e curar nossas doenças anímicas?

Brasil mapa 3Depois de muito pensar, tenho a propor uma solução salomônica: vamos dividir o Brasil ao meio e entregar cada parte a um dos lados da disputa. O objetivo desse novo Tratado de Tordesilhas será, é claro, identificar quem ama mais sua pátria e quem veste melhor o uniforme de estadista. A divisão poderá ser feita horizontalmente, fixando a linha de fronteira por exemplo na altura de Brasília, ou verticalmente, usando a mesma referência. Uma Assembleia Constituinte será naturalmente convocada fora do Congresso, contando com a ajuda especializada de intelectuais de todos os matizes ideológicos para a elaboração das novas cartas magnas. Através de plebiscito, a população escolherá as novas formas de governo e de representação política apresentadas pelos sábios da nação. Aos poucos, definiremos também as formas de convivência mais satisfatórias entre o Brasil do Norte e o Brasil do Sul (ou Brasil do Leste e Brasil do Oeste) e construiremos novos laços com outros países. A definição da moeda, da língua nacional e da preferência por um estado laico ou religioso em cada novo país serão outras preocupações na sequência.

Pensando bem, a principal desvantagem dessa linha de raciocínio é que, além de dar um trabalho danado para recomeçar do zero, continuaríamos divididos. A favor de minha proposta, só o alívio que sentiríamos todos com a reconceituação daquilo em que consiste nossa cidadania.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Cleptoestilo

Cláudio Humberto (*)

Tratando mal quem a cerca, Dilma firmou má reputação por casos como o da ajudante de ordens que abandonou o serviço no meio do dia, cansada de grosserias. E o do médico da Presidência, que virou paciente por estresse. Ou também daquele dia em que, brandindo um cabide, investiu contra uma pobre camareira, que deve estar correndo até hoje.

Fazem também a delícia do serpentário do Itamaraty histórias de sua curiosa mania de considerar que objetos de hotéis de luxo são seus.

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

by Miguel Abreu Falcão (1963-),
desenhista pernambucano

Diplomatas passaram vergonha, certa vez, em Buenos Aires, ao serem cobrados por algo que faltava após Dilma deixar o hotel Four Seasons. A mesa de jantar da suíte de Dilma tinha sido enfeitada com uma belíssima (e cara) toalha. Madame gostou tanto que a levou para casa.

Outro dia, ao deixar o hotel romano Westin Excelsior (diária de R$8 mil), Dilma não se fez de rogada: levou dois travesseiros que tinha adorado.

O apego de Dilma por pertences de hotéis só se compara à atração que Lula nutre por vinhos caros, com os quais ele se fazia presentear por embaixadores.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Carta para minha mãe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Criança 8Vem aqui, mãe, precisamos conversar, olhos nos olhos. Hoje eu preciso desabafar, abrir o peito e lhe dizer tudo que não ousei colocar em palavras enquanto você estava viva. Sabe, não foi nada fácil para mim viver ao seu lado, ser sua filha. Além de nossas diferenças irreconciliáveis de personalidade, pesou muito também o seu jeito duro de amar.

Lembro das muitas vezes em que lhe pedi colo, fragilizada, e você me rechaçou dizendo que eu já estava grandinha demais para ser carregada. Eu não entendia o porquê. Aos trancos e barrancos, cresci acreditando que só poderia contar comigo mesma caso me visse num beco sem saída. Pior ainda, sentindo que não podia confiar nem em minha própria capacidade de superação se não dispusesse de uma rede de proteção.

Criança 10A bem da verdade, confesso que até hoje só encontro coragem para entrar em ação diante do inevitável. Se der para ignorar a sensação de falta de chão, faço corpo mole, disfarço, finjo que não é comigo. Se não der, respiro fundo e vou em frente destemida. Por outro lado, até hoje não consigo evitar o choro quando vejo alguém vencer um desafio difícil se apoiando nos gritos de estímulo da torcida. E eu sempre quis, mãe, que você fosse a ‘cheerleader’ de minha torcida particular. Infelizmente, da pista onde estava em criança, eu não conseguia visualizar sua figura imperial, seu ar de esfinge pronta a me devorar se eu não decifrasse suas reais intenções.

Sofri muito também, admito, com a falta de beijos e de abraços. Buscava desesperadamente alguém que me suprisse com uma mínima quantidade de afeto para compensar a aridez emocional que sentia em você. Apesar disso, estranhamente nunca pude esconder meu menosprezo pelas pessoas melosas que se apresentavam como capacitadas a me servir de mãe substituta. O que eu queria mesmo, percebo agora, era merecer manifestações de afeto e torcida despudorada de gente desacostumada a arroubos passionais, como você.

Criança 7Houve momentos, é claro, em que eu senti que você se orgulhava de mim, seja por minha determinação em não desistir de nenhuma luta, seja por minha obstinação em reafirmar meus pontos de vista e sentimentos. Houve ainda, admito emocionada, outros momentos em que fui ao chão depois de ter apanhado muito da vida e você me estendeu a mão silenciosamente, me colocando de novo em pé sem cobrar nada em troca de seu gesto nobre.

Um dia, já adulta, me dei conta de que tinha criado uma armadura para me defender das emoções ternas. Passou a ser difícil para mim também abrir os braços e acolher carinhosamente quem me pedisse colo. O mais paradoxal, mãe, é que toda essa dureza interna acabou me servindo de base para a escolha de profissão. Ela não me impediu de me transformar em defensora dos fracos e oprimidos, ainda que eu jamais tenha sentido o impulso de passar a mão na cabeça dos muitos desvalidos da sorte que atravessaram o meu caminho, exatamente como você fazia comigo.

Acho que nunca lhe contei que, graças a você, aprendi a admirar as pessoas “difíceis”. Sabe aquele tipo de pessoa que não angaria simpatias por seu jeito rude, que lhe diz as verdades mais duras sem se preocupar em ferir sentimentos? Pois então, mãe, descobri que são exatamente essas pessoas que nos ajudam a estruturar nosso caráter, a entrar em contato com nossa força interna, a moldar nosso jeito de estar no mundo como cordeiros em pele de lobo.

Criança 9Você me chamava de onça, lembra? Hoje posso lhe confessar com orgulho que aprendi a lidar com minha natureza selvagem de felino. Posso assumir sem hipocrisia minha condição de gatinho assustado quando subo em árvores muito altas e, ao mesmo tempo, a de onça feroz quando minhas crias são ameaçadas.

Depois que você se foi, descobri maravilhada que eu sempre estive pronta para cavalgar o touro bravo da vida, segurando firme em seus cornos. Por mais esquisito que isso possa soar, percebi naquele 7 de abril ‒ há exatos 18 anos ‒ que é como se eu a tivesse engolido, absorvido sua força e desenvolvido autoconfiança, numa gestação às avessas.

O buraco causado por sua ausência foi parcialmente tapado não com gatos, mas com as lambidas e abraços das minhas cachorras. Com elas aprendi a me deixar extravasar amorosamente sem temer o ridículo. Redescobri a alegria e o prazer do contato de corpos. Mesmo não podendo mais tocar o seu, quero que você saiba que a lição mais poderosa que aprendi com seu jeito de ser foi a de que a verdadeira presença nunca é física, é espiritual. Hoje meu coração mole pulsa feliz dentro da carcaça de ferro que construí para mim. E me divirto desafiando outras pessoas a se valerem de um abridor de latas para tentar soltar o animal domesticado que vive dentro de mim.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pensamentos soltos

Cabeçalho 9Myrthes Suplicy Vieira (*)

A gente já teve um presidente que preferiu sair da vida para entrar na história. Agora estamos às voltas com uma que luta bravamente para sair da história e cair na vida.

Ué! Se os fins justificam os meios para os atuais ocupantes do poder central, por que agora eles se insurgem contra os meios utilizados por seus adversários para conseguir o fim tão desejado pela maior parte da população?

Historia 1Parece que os ameaçados de perder o título de poderosos de plantão aderiram com tudo à estratégia do “Vai que cola!”. Pode ser só uma impressão mas, sem dúvida, eles nos estão dando uma verdadeira aula de interpretação de textos escritos e falados. No quesito interpretação de intenções, então, só se pode aplaudir de pé. As aulas são definitivamente um comovente e mobilizador espetáculo.

Na novilíngua implantada com sucesso em nosso território, a expressão “Não vai ter golpe” tem sido, de longe, a mais inspiradora para demover críticos do governo dentro e fora de nossas fronteiras. Só perde para o mote “Em defesa da democracia”.

Embora este último esteja apenas dando seus primeiros passos, já mostra todo seu potencial para abalar as convicções daqueles que julgavam estar lutando pela mesma causa. A história estará a favor de qual dos lados?

Historia 2Defensores do fisiologismo, do clientelismo e do golpismo, tremei! É chegada a hora de colocar todas as cartas na mesa. Nossa corte suprema está a postos para banir da vida pública todos aqueles que tentam quebrar o pacto do Estado de Direito, da legalidade democrática e da probidade administrativa…

Ei, você aí, ouviu o que eu disse? Para de prestar atenção aos grampos que vazaram seletivamente. Não adianta pedir arrego nem se esconder na barra da toga daquele magistrado golpista. Nós é que vamos fazer justiça!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A médica que dispensou o filho da petista

David Coimbra (*)

Médico 3Quando li a notícia sobre a médica que se recusou a atender uma criança porque a mãe dela era do PT, fiquei revoltado. «E o Juramento de Hipócrates?» ‒ pensei, olhando para o Leste, na direção de onde suponho se esparramem as ilhas gregas. «O que Esculápio, Hígia e Panaceia pensarão disso?»

Pior: o presidente do Sindicato dos Médicos, Paulo de Argollo Mendes, disse que a médica estava certa em se negar a prestar atendimento. «Por favor » ‒ ralhei, ainda pensando na ética da velha e sábia avó Grécia. «Mesmo que o paciente fosse Hitler, o médico não poderia recusar!»

Médico 2Continuei com minhas exclamações, até que entrevistamos o presidente do Sindicato, ontem, no Timeline da Gaúcha. Paulo de Argollo explicou que a médica não se negou a dar atendimento a uma emergência, nem veta petistas em geral, mas aquela em particular. O que ela fez foi solicitar aos pais da criança que trocassem de pediatra porque não aguentava mais a conversa deles durante as consultas.

Bem… Nesse ponto, comecei a entender a médica. É que todo sectário é um porre, seja qual for o dogma. Eles estão sempre prontos para a briga, e gente sempre pronta para a briga é extremamente aborrecida.

Reparem no atual slogan dos petistas: «Não vai ter golpe, vai ter luta». Luta? Contra quem eles vão lutar? Será guerra civil, é isso? Vai haver distribuição de armas nos diretórios do PT? Ou será só o exército do Stedile que vai para a frente de batalha?

Luta, luta, eles estão sempre em luta. José Dirceu é o «guerreiro do povo brasileiro», André Vargas desafia o STF erguendo o punho fechado, eles se acham Espártaco enfrentando as legiões de Crasso em defesa da liberdade dos escravos, Zapata liderando os camponeses contra a tirania de Porfírio Diaz, Marx aconselhando os proletários do mundo a se unirem. O sonho deles é travar a luta de classes. Combater o bom combate, como disse Paulo de Argollo.

Neltair "Santiago" Rebés Abreu, desenhista gaúcho

Neltair “Santiago” Rebés Abreu, desenhista gaúcho

Que babaquice!

Sim, existem explorados e exploradores, negros e brancos, ricos e pobres, empresários e proletários, sim, mas o mundo não está dividido apenas entre explorados e exploradores, negros e brancos, ricos e pobres, empresários e proletários. O mundo é mais sofisticado, a sociedade é mais complexa e o Brasil, felizmente, é mais variado e complicado do que qualquer fórmula maniqueísta.

Médico 4Antes era mais fácil: você era contra a ditadura ou a favor dela. Ponto. Agora é preciso pensar um pouco. Quem é contra o governo do PT não é necessariamente tucano, nem simpático a Bolsonaro, nem entusiasta do futuro governo Temer. Quem considera a bolsa família um bom programa não é necessariamente petista. Quem é contra o aparelhamento do Estado pelo governo não é necessariamente a favor do Estado mínimo. E quem é petista não é necessariamente um chato. Mas, neste momento de ânimos espinhados, há que reconhecer que os petistas se transformaram em pessoas especialmente chatas.

Se você se afasta de uma pessoa de quem não gosta, você está sendo saudável; se você se aproxima, procurando o confronto, você está com problemas sérios.

Uma médica não querer atender um paciente por ele ser de determinado partido ou ter determinada opinião é totalmente reprovável. Uma médica não querer atender um paciente que a incomoda é totalmente compreensível. Importunos de todo o mundo: vade retro!

(*) David Coimbra é jornalista e colunista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

Mudando de assunto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dois artigos abordando direta ou indiretamente a relação entre câncer e psiquismo chamaram minha atenção nestes últimos dias.

O primeiro, um vídeo de Dráuzio Varella, no qual ele afirma enfático que “não há nenhuma possibilidade” de que distúrbios de caráter estritamente psicológico possam provocar “mutações genéticas”. En passant, ele ainda discorre sobre a falta de comprovação científica de que a religiosidade ou a espiritualidade possam interferir positivamente para a cura do câncer. Diz ainda, com ar paternalista de desaprovação, que as tentativas de associar o aparecimento de um tumor cancerígeno a aspectos psicológicos e a não resposta ao tratamento à “falta de vontade” do paciente são duplamente cruéis, já que instilam culpa em uma pessoa já combalida pela doença.

Doente 1O segundo, um artigo publicado na Folha de São Paulo por Marcelo Leite, no qual ele contesta asperamente a decisão de juízes do STF e de congressistas no sentido de liberar a produção e distribuição da fosfoetanolamina. Ao longo de seu arrazoado, ele equipara a assim chamada “pílula do câncer” a coisas como barbatana de tubarão, cogumelo do sol e maca peruana e conclui autocraticamente: “São pseudomedicamentos que se aproveitam da credulidade e do desespero dos enfermos e de seus parentes para vender uma esperança desumana”. Mais para a frente, ele argumenta ainda que as pessoas que aprovaram o uso dessa droga sem o aval da Vigilância Sanitária são “os mesmos que não pensam duas vezes antes de desperdiçar milhões do contribuinte quando forçam o SUS a pagar terapias duvidosas com células-tronco e que tais em países asiáticos”.

Um minuto de silêncio para absorver o impacto dessas informações e para lamentar a morte do verdadeiro espírito científico. Tudo isso em dois sentidos principais: o primeiro, aquele que considera que só se pode chamar de “ciência” as investigações quantitativas; o segundo, aquele que ignora que resultados obtidos em um estudo podem ser contestados por outros, dependendo da premissa de base, da acurácia dos instrumentos utilizados e dos conhecimentos vigentes à época de cada estudo. Ai, Santo Einstein, que seria de ti nas mãos desses iluminados?

Doente 3Respeito o desejo que esses doutores manifestam de proteger incautos de curandeiros e de falsas promessas. Não posso deixar, no entanto, que eminências pardas da medicina alopática mexam impunemente num vespeiro do qual faço parte. Reconheço a veracidade desta ou daquela afirmação isolada, admito que sua indignação pode ser legítima, mas pasmo com a ligeireza intelectual com que esses senhores estabelecem conexões entre fatores absolutamente díspares. Para mim, é como alardear que está provado cientificamente que baratas não ouvem pelas pernas, já que um estudo controlado mostrou que elas não saem do lugar quando expostas a ruídos altos, sem mencionar que suas pernas foram previamente arrancadas uma a uma.

Seres humanos não são máquinas de laboratório. Não possuem apenas corpos físicos que podem ser submetidos a estímulos físico-químicos para anotação de reações orgânicas. Gostemos ou não, humanos contam também com todo um aparato psíquico que interage e influencia decisivamente suas reações orgânicas a esses mesmos estímulos. E, pouca gente se dá conta disso, há uma proibição ética universal de testar reações psíquicas em laboratório.

Todo cientista que se orgulhe desse título conhece muito bem o assim chamado “efeito placebo”. Para quem nunca ouviu falar dele, eu explico: o simples fato de estar recebendo uma pílula (de açúcar ou substância inerte) – ou, de forma mais insidiosa, o simples fato de estar recebendo atenção de pesquisadores médicos ‒ pode fazer com que o paciente experimente “cura” de seus sintomas. Em outras palavras, a crença psicológica – ou ato de fé, para religiosos e espiritualistas ‒ de que se está recebendo a resposta desejada para dar fim ao sofrimento humano é tão forte que é capaz de promover alterações orgânicas importantes, na mesma direção da droga que está sendo pesquisada.

Se isso é verdade facilmente constatável no caso de tratamentos experimentais, por qual razão a interferência psíquica não seria verdadeira para determinar o aparecimento de doenças, inclusive as que implicam mutações genéticas, como o câncer? Wilhelm Reich, um médico, psicanalista e cientista natural, dissidente de Freud, dedicou boa parte de sua vida ao estudo da sexualidade humana e do câncer. Já na primeira metade do século 20, ele conceituou o câncer como uma espécie de “desistência” da pessoa frente aos desafios da realidade (os contornos psicanalíticos dessa tese podem ser conhecidos mais em detalhe em seus livros) e afirmou que o órgão afetado será sempre simbólico dessa desistência.

Doente 2Que as emoções humanas interferem no sistema imunológico é fato sabido há mais de meio século. Que depressão e culpa são fatores intervenientes e críticos para o rebaixamento das defesas orgânicas também. Que pacientes acometidos por câncer e outras doenças terminais podem ter expectativas de vida mais altas e maior probabilidade de remissão de seus quadros graças a suas atitudes, crenças, estilos de vida e perspectivas espirituais são outras descobertas científicas relevantes, como o demonstrou à exaustão o médico americano Carl Simonton. A esperança de um futuro melhor é parte constituinte e indissociável do psiquismo humano saudável.

Emprestar paternalisticamente à credulidade de leigos alguns resultados favoráveis obtidos no consumo de certas substâncias ou em tratamentos experimentais é uma atitude que, a meu ver, não ajuda a identificar as causas nem a aprender a lidar com o sofrimento físico, a dor psicológica e o desalento espiritual da humanidade. Um pouco de humildade para encarar a complexa estrutura multifatorial humana me parece fundamental para fazer avançar o conhecimento científico. Mal não faz. Como diz um ditado popular, arrogância e água benta cada um pega o quanto aguenta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Um elenco de golpistas

Ruy Castro (*)

Já vivi vários golpes de Estado e todos me pegaram de surpresa. Nada demais nisto, nunca participei de qualquer governo, nem podia saber que havia um golpe em curso. O incrível é que esses golpes pegaram de surpresa também os governos que derrubaram. Claro ‒ ou não seriam golpes.

O golpe que vem sendo denunciado pelo governo Dilma é diferente. Dá-se à luz do dia, tramado por 73% da população, que desaprova o dito governo, sob as barbas do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, de membros do STF, da Procuradoria Geral, do Ministério Público, da Polícia Federal, da OAB e de outras instituições da República, que nada fazem para impedi-lo, e obedece a um complexo ritual de trâmites, todos com data marcada com meses de antecedência.

E, contrariando a natureza dos golpes, em que os golpistas atuam embuçados e na sombra, neste eles vêm à boca de cena e se identificam publicamente.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Na terça última (29), inúmeras categorias profissionais ocuparam as páginas dos jornais dizendo que gostariam de ver a presidente pelas costas. E se assinaram: fabricantes de sorvete, chocolate, biscoitos, balas, doces e derivados; plantadores de milho, cana e amendoim e produtores de óleos e azeites, leite, soja e macarrão.

Sindicatos das indústrias de tintas e vernizes, cerâmicas e olarias, parafusos, porcas, rebites e similares, de artefatos de metais ferrosos e não ferrosos, de curtimento de couros e peles e de extração de mármores, calcários e pedreiras.

Industriais da cerâmica de louça e porcelana, da recauchutagem de pneus e retífica de motores e do beneficiamento de fibras vegetais e descaroçamento de algodão. Alfaiates, gráficos, farmacêuticos, misturadores de adubos, criadores de suínos e controladores de pragas urbanas. Etc. etc. etc.

Nunca se viu um elenco tão variado de golpistas.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Revisitando conceitos de psicopatologia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cabeçalho 8

Transtorno de personalidade antissocial
Idiota 3São sociopatas, indivíduos egocêntricos desde a adolescência e que, mesmo na idade adulta, mantêm comportamentos persistentes de desrespeito às normas, regras e leis sociais. Causam prejuízos e transtornos significativos às pessoas próximas em seu círculo social. Frequentemente surgem ocorrências de transtorno de conduta e histórico de problemas em relação conjugal, devido à propensão para adultério e infidelidade. Não desenvolvem empatia e tendem a ser insensíveis, cínicos e a desprezar os sentimentos, direitos e sofrimentos alheios. Impera o egoísmo. Enganam, seduzem, manipulam as pessoas a fim de obter vantagens pessoais ou prazer. São capazes de fingir um comportamento exemplar e se fazer passar por vítima com maestria. Distorcem fatos e acontecimentos verídicos a fim de convencer quem lhes dá atenção.

Interligne 18h

Megalomania
Transtorno psicológico definido por delírios ou fantasias de poder, relevância e onipotência. É caracterizada por uma exagerada autoestima das pessoas nas suas crenças e/ou poderes.

Interligne 18h

Idiota 1Pararresposta
Uma das formas de negativismo verbal (que, por sua vez, consiste em oposição ativa ou passiva às solicitações externas). A pessoa entende a pergunta do entrevistador, porém não responde algo compatível com a pergunta; fenômeno em que a resposta dada a uma pergunta não guarda mínima relação com o que foi perguntado e sim com algo lateral ou próximo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ebó grampeado

Renato Castanhari Jr. (*)

Kaká de Xangô estava em casa quando o telefone tocou. Sem saber que o celular de quem ligava estava grampeado, atendeu prontamente e aquela voz rouca familiar foi logo se apresentando.

Crédito: Geraldo Profeta Lima

Crédito: Geraldo Profeta Lima

– Alo, Kaká?

– Ô, se não é o meu ilustre 51!

– Fala, meu querido Mogbá.

– Mogbá! Não esqueceu! Falamos de ministro para ministro?

– Que nada, só você é ministro aqui, de Xangô, aqueles p(*) não me deixaram assumir, mas eles não perdem por esperar, esses merdas…

– Calma, Excelência, confia na Providência divina.

– Kaká, a Providência divina funciona, mas se a gente não ajudar com uns por fora, a coisa empaca. E é por isso que estou te ligando.

– Fala, meu amigo, o que está pegando.

– O Moro tá pegando, meu querido, esse filho da (*), p(*) do ca(*)… Mas vamos lá. Estava precisando que você jogasse as conchinhas aí porque a coisa tá brava, os caras querem a minha cabeça.

– Me fala exatamente a sua pergunta para eu perguntar pros búzios.

– Ahhhh, tem várias… Deixa ver… A minha amiga, cai ou não?

(Pausa onde se ouve os búzios caírem na esteira)

Búzios 2– Meu amigo… olha… tá difícil. Aqui fala que… ihhh… tá danada. E olha… o vice também cai fora. Aliás, deixa ver… vixi!…

– Pu(*), filhos(*)… Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado…

– Excelência, Excelência, calma! Já falou isso em algum lugar. A sua amiga não tem jeito, é questão de semanas. Vamos ver o amigo. Qual a pergunta?

– Humm… companheiro… vê se não tem jeito, se um ebó resolve. Afinal, já dei muito pro santo, ca(*).

– Meu amigo, tem milagre que santo não faz. O Severino se deu mal, o Eduardo ganhou a eleição… quando dá, dá. Deixa eu consultar.

(Pausa e novamente apenas o som dos búzios pipocando na esteira)

Búzios 3– Excelência, não é por nada não, mas tá feia a coisa mesmo. E uma fugidinha pelo aeroporto? Pode ser uma saída.

– Esse é o plano C, meu querido, mas antes tenho que tentar tudo pra salvar este país!

– Que coração magnânimo! Vamos de ebó então. Vamos precisar de sangue de aridan, pó de pemba, mais dois cabritos, duas cabras, 16 frangos, duas galinhas da Guiné, um galo e um casal de pombos.

– Mas isso é um banquete pro santo, companheiro!

– Eles merecem, 51, eles merecem. Vou pedir para se ela e você forem inocentes, que continuem no comando do barco e que tudo fique bem.

– Caceta, ô Pai Kaká, você não entendeu nada? Se for inocente, o Supremo resolve, não precisa de ebó, ca(*)!

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(*) Renato Castanhari Jr é publicitário e escritor. Edita o blogue Ladeira da Memória.

O coronel Jararaca

Sebastião Nery (*)

Rebanho 1Chico Heráclio foi o mais famoso coronel do Nordeste. Em Limoeiro, Pernambuco, quem mandava era ele. Era o senhor da terra, do fogo e do ar. Ou obedecia ou morria.

Fazia eleição como um pastor. Punha o rebanho em frente à casa e ia tangendo, um a um, para o curral cívico. Na mão, o envelope cheiinho de chapas. Que ninguém via, ninguém abria, ninguém sabia. Intocado e sagrado como uma virgem medieval.

Depois, o rebanho voltava. Um a um. Para comer. Mesa grande e fartura fartíssima. Era o preço do voto. E a festa da vitória. Um dia, um eleitor foi mais afoito que os outros.

‒ Coronel, já cumpri meu dever, já fiz o que o senhor mandou. Levei as chapas, pus tudo lá dentro, direitinho. Só queria perguntar uma coisa ao senhor: em quem foi que eu votei?

‒ Você está louco, meu filho? Nunca mais me pergunte uma asneira dessa. O voto é secreto.

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Chico Heráclio jogou tudo na campanha de Agamenon Magalhães, do PSD, contra João Cleofas, da UDN, na disputa do governo do Estado em 1950. Deu mais de 70 por cento dos votos da região a Agamenon.

Agamenon tomou posse e foi lá. Estava eufórico.

– Chico, use e abuse do meu governo.

– Governador, muito obrigado. A Secretaria da Fazenda e a Secretaria de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada, não quero nada. A não ser pedir pelos meus amigos quando for preciso e para colocar água em Limoeiro.

Lula caricatura 2aPouco depois, voltou ao Palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função.

– Mas Chico, isso é muito difícil.

– Se fosse fácil eu não vinha lhe pedir. Governo existe é para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

Mas entre Heráclio e Lula há uma diferença. Heráclio não dizia palavrão. Lula é um boca-suja. Mulher e menino não podem chegar perto.

(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.